A gravura em Portugal: breves apontamentos para a sua história

Francisco Marques de Sousa Viterbo · Capítulo 2 de 5

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A gravura em Portugal: breves apontamentos para a sua história

Capítulo I

 

Tanto em Portugal como em Hespanha, grande numero de livros do seculo XVI apparecem ornamentados de gravuras, que julgo na maioria dos casos, de procedencia estranha, tão estranha como a arte typographica. Os primeiros typographos que exerceram a arte em Portugal foram estrangeiros e entre elles torna-se notavel, pelo extenso periodo em que manifestou a sua actividade, e pelo grande numero de obras que imprimiu, Germão Galharde, francez. Muitos livros deste impressor são adornados de estampas e outros têem tarjas em que se lê o seu nome. Estou persuadido que quasi todas ellas vieram de fóra do reino, havendo todavia algumas que seriam gravadas em Portugal. Assim neste caso parece-me estar o frontespicio da Ley que dispõ quanto tēpo e onde hão de estudar os letrados, impressa a 18 de janeiro de 1539. Numa das pilastras do portico estão as iniciaes F. D. que indicam por certo o nome do gravador, e na outra a data 1534. Este frontispicio, porém, já fôra empregado anteriormente nas Constituições do bispado Devora, impressas em 1534, para as quaes, sem duvida, fôra originariamente destinado.

Existe outro livro, impresso por Germão Galharde, que deve merecer toda a attenção, não só pelo seu valor historico e linguistico, mas ainda pelo seu valor bibliographico e artistico: é a Coronica do Condestabre de Portugal, de que ha duas impressões do mesmo typographo, uma de 1526, outra de 1554. Tanto uma como outra tem no verso do frontispicio a figura, de corpo inteiro, dum cavalleiro, que, Innocencio, não sei com que fundamento, diz ser de Nuno Alvares Pereira. Parece-me comtudo de phantasia. A segunda impressão contém, além d'aquella, outra gravura, que se encontra no fim da obra, antes da Tauoada, que está nos quatro ultimos folios innumerados. Bella estampa, que merecia ser reproduzida integralmente, com todo o escrupulo e fidelidade, como um dos mais importantes documentos da iconographia portugueza. Esta é que é muito possivel que fôsse executada em Portugal. No alto lê-se o seguinte distico:

Esta he a figura do Conde estabre, ao natvral, qvando estava em religiam, no Carmo de Lisboa, onde jaz.

Pela parte inferior.

Epitaphius ad ipsius tvmvlum.

Galharde publicou tambem em 1530 um livro classificado entre os de cavallaria, e que foi traduzido do francez em hespanhol por um nosso compatriota, rei d'armas de D. João III, Antonio Rodrigues Portugal. Intitula-se Cronica llamada: el triumpho de los nueve preciados de la fama, etc., e é adornado de gravuras representando os heroes biographados no livro, entre os quaes Bertran du Guesclin, o celebre aventureiro frances, que tão notavel papel desempenhou em Hespanha nas guerras fratricidas de Pedro o Cruel e D. Henrique.

Um gravador de innegavel merecimento do seculo XVI é Jeronymo Luis, que abriu o elegante frontispicio do Sucesso do segundo cerco de Diu, poema de Jeronymo Côrte Real, e o da Historia da provincia de Sãcta Cruz, em que deixou apenas as suas iniciaes. Ambos os livros são impressos por Antonio Gonçalves, o typographo que teve a honra de primeiro estampar os Lusiadas. Noutra obra d'este imprimidor, o De Rebus Emanuelis, de Jeronymo Osorio, ha um escudo de armas, que tem d'um lado a letra A e do outro um G, iniciaes do typographo.

Citarei agora alguns livros, impressos em Portugal, de autores hespanhoes, os quaes todos se acham adornados com retratos. Um delles, o mais antigo, é a Chronographia o reportorio de los tiempos, de Jeronymo de Chaves, considerado infundadamente por alguns bibliographos como portugues. Imprimiu-a em 1576 Antonio Ribeiro, em Lisboa, e no frontispicio acha-se, numa gravura oval de madeira, o retrato do autor, similhante a outro que se encontra numa das edições hespanholas.

A volumosa obra poetica de Bartolomé Cayrasco de Figueroa, Templo militante Flos sanctorum...., foi elegantemente reimpressa em Lisboa, em folio, por Pedro Craesbeeck. A 1.ª e 2.ª partes comprehendendo 531 pag. tem o titulo enquadrado por 14 vinhetas representando scenas da vida de Christo e os quatro evangelistas. A data nelle exarada é de 1613, ao passo que no fim se lê 1612. No verso da parte inferior da ultima das 6 folhas preliminares innumeradas incluindo o frontispicio, ha o retrato de Cayrasco de Figueroa em moldura circular muito similhante ao da edição hespanhola, que Salvá reproduz. Tanto deste retrato como do antecedente, ter-se-iam aproveitado as chapas originaes, ou sómente os desenhos?

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa encontrei o exemplar de uma obra, que até hoje tem passado completamente desconhecida, intitulada: Tratado como se deven formar los quatro esquadrones, en que milita nuestra nacion Espanola. É seu autor o capitão de infantaria Juan de Carrion Pardo, que a dedicou a D. João da Silva, conde de Portalegre. Foi impressa em 1595, em Lisboa, por Antonio Alvares. Traz dois retratos em busto (repetidos ambos) de militares, um dos quaes, o mais apparatoso, talvez seja o do conde de Portalegre, e o outro do autor. Não trazem indicações de quem os desenhasse e esculpisse.

O outro livro, finalmente, é de Francisco de Arce, intitulado Fiestas reales de Lisboa, e foi impresso nesta cidade em 1619 por Jorge Rodrigues. É um folheto em 4.º de 26 paginas innumeradas, de que a Bibliotheca Nacional de Lisboa possue um exemplar incompleto. Acompanha-o um retrato em que se lê este distico: En los cuarenta anos de mi edad el famoso Enrique me fecit. Este retrato falta tambem no exemplar alludido e soube da sua existencia pela descripção que nos dá Gallardo no Ensayo de una biblioteca sob o n.º 233. O mesmo bibliographo nos descreve ainda outra obra de Francisco de Arce intitulada La perla en el nuevo mapa mundi hispanico, etc., impressa em Madrid por Juan Gonzalez em 1624, a qual traz igualmente o retrato do autor com esta legenda: Portugal me copió en bronce ano 1629 en los 40 de mi edad. Deve haver erro de data, sendo 1619 e não 1629.

Combinando as legendas dos dois retratos, sou levado a crer que o gravador pertenceria á nacionalidade portuguesa, ou era, pelo menos, artista que residia em Portugal. Quem seria, portanto, esse famoso Henrique, de cuja obra Francisco de Arce se mostrava orgulhoso? Eis ahi mais um artista desconhecido como tantos outros, de que não se encontra menção ou referencia nos tratadistas de arte portuguesa.

Não admira, porém, que assim aconteça, porque a mina apenas tem sido explorada á superficie. Aqui temos outro artista, incontestavelmente portugues, e que passou incognito aos seus compatriotas. É possivel que elle exercesse a maior parte da sua actividade no estrangeiro, mas isso não nos salva do labéo de ingratidão e esquecimento em que o temos deixado jazer. Chama-se elle Luiz Palma e apenas no Dictionary of Painters, de Michael Bryant, encontrei os seguintes traços, que bem pouco esclarecem a sua biographia:

— , a portrait painter and engraver, of

Volterra, noticed by Zany as living in 1650. There are eight

etchings and a frontispiece to a work, in quarto, printed at

Avignon in 1623, with the following title:

«La voye de Lait ou le chemin des Heros au palais de gloire à

l'entrée triomphante de Louis XIII en la cité d'Avignon, 1622.»

The prints are inscribed: .—

Esta inscripção parece que não deveria deixar a menor duvida a Bryant sobre a naturalidade do nosso artista, que elle identificou com outro, homonymo, de Volterra. Consultando Zani para poder resolver as duvidas que se me offereciam e para averiguar se o pintor e gravador de Volterra seria uma entidade absolutamente differente, vi que a indicação do escriptor italiano é o mais secca possivel e deixou-me no mesmo estado de incerteza. Trabalharia o nosso artista em Volterra, e seria por isso considerado italiano? É uma simples hypothese, que póde muito bem ser que venha a confirmar-se, e quando não se confirme, é curiosa a coexistencia ou quasi coexistencia de dois artistas do mesmo nome, pois não repugna que o gravador de 1622 vivesse ainda em 1650.

O meu amigo e distincto bibliographo sr. Annibal Fernandes Thomaz, possue um exemplar da Voye de Laict, e a este proposito escreveu-me ha tempos o seguinte:

 

«Tenho á vista La Voye de Laict, Avignon, 1623, 4.º, em que as estampas, incluindo um retrato de Luiz XIII, são assignadas:

Ludovicus Palma Lusitanus fecit.

Ludovicus palma Lusitanus f.

O livro tem dois frontispicios, um gravado a agua forte, com o titulo impresso no centro e outro impresso. Nesse anno era Assessor em Avinhão mr. Pierre Joseph do Salvador, que indica origem portugueza ou hespanhola. É curioso debaixo do ponto de vista artistico, e bem merecia uma noticia.»

 

A Voie de Laict é bastante rara e não a vejo mencionada em Brunet. No emtanto tenho-a encontrado descripta em diversos catalogos de vendas de livrarias francesas e inglesas. A descripção em todos parece uniforme, e só no da livraria de M. Martial Millet, Paris, 1872, é que, por lapso de certo, se designa 1622 como o anno da impressão.

O sr. Damasceno Morgand, livreiro de Paris, no seu catalogo relativo a junho de 1889, punha á venda um exemplar por 200 francos, annotando-o d'este modo:

«Ce volume fort rare et orné d'un frontispice est de huit planches fort remarquables gravées à l'eau forte par Louis Palma, artiste portugais. Ces planches qui se déplient représentent les arcs de triomphe, fontaine, palais, etc., élevés pour la cérémonie dans la ville d'Avignon.

«Portraits de Louis XIII et de Ch. de l'Aubepine, par Moncornet.»

Num catalogo de livros de valor, propriedade d'um gentleman, postos á venda em Londres, em dezembro de 1890, por intermedio de Sotheby, Wilkinson & Hodge, vem descripto outro exemplar sob o n.º 116 do respectivo catalogo. A respeito das gravuras diz: Portrait and large plates etched by Louis Palma, an artist unknown to Nagleor. Acrescenta que a obra passou desconhecida a Brunet e Grasse, e que um exemplar da livraria Beckford fôra vendido por 53 libras e 10 shellings.

No n.º 237 do Catalogue de livres rares el précieux composant la Bibliothèque de M. Hippolyte Destailleur, architecte du gouvernement, Paris, Damasceno Morgand, 1891, vem descripto outro exemplar. Ahi se annota:

 

«Ce volume fort rare est orné d'un frontispice, d'un portrait, et de huit grandes planches fort remarquables gravées à l'eau forte par Louis Palma, artiste portugais.»

 

Por todas estas citações se vê que o trabalho do nosso artista é geral e altamente considerado, bem merecendo o seu autor que lhe ponham o nome em relevo e o tirem do esquecimento em que até agora tem vivido.

Outro artista desconhecido, e que se nos afigura de grande merecimento, é o autor de um bello retrato de Diogo do Couto, que ornamenta a edição em folio das suas Decadas, publicada em 1736. Parece uma photogravura.

O exemplar onde vem este retrato pertence á selecta livraria que é hoje dos filhos do venerando juiz do Supremo Tribunal, o dr. Aguilar, bibliophilo apaixonado, como o seu parente conde de Azevedo, ambos fallecidos. É em papel especial, e ainda não se me deparou outro que se lhe possa comparar. Não sei tambem de nenhum que tenha aquella gravura.

O retrato parece-me de phantasia, muito differente do que vem na primeira edição das Decadas, que foi reproduzido no Catalogo de Salvá e ultimamente, em estampa separada, no Circulo Camoneano. O historiador português é representado muito mais moço. O retrato não valerá, pela similhança, como documento historico; mas, pelo primor da execução, valerá como notavel documento artistico. Está assignado, numa letra miudinha, quasi microscopica, e, a legenda diz o seguinte: L. P. Massilli Vlyssip. Sculp. 1722.

Será este Massilli português ou estrangeiro? Que significará aquelle Vlyssip? Que elle era lisbonense ou que executára a sua obra em Lisboa? Eis uma serie de perguntas, que surgiram, como era natural, no meu espirito, e a que me não julgo por emquanto habilitado a responder satisfatoriamente.

A proposito do famoso Henrique que gravou o retrato de Francisco de Arce, citei o testemunho de Gallardo; chamarei outra vez a terreiro o autor do Ensayo de una biblioteca hespanhola de libros raros y curiosos. Sob o n.º 2881 descreve elle uma obra de fr. Pedro de Maldonado, Consuelo de justos, impresso em Lisboa por Pedro Craesbeek, em 1600.