A gravura em Portugal: breves apontamentos para a sua história

Francisco Marques de Sousa Viterbo · Capítulo 3 de 5

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A gravura em Portugal: breves apontamentos para a sua história

Capítulo II

Esta obra, de que existe um exemplar na Real Bibliotheca da Ajuda, é muito interessante, ainda que não seja senão pela dedicatoria, em que se trata amplamente da vida e feitos de Mathias de Albuquerque.

O frontispicio d'este livro é lindamente gravado, segundo affirma o douto bibliographo hespanhol, que o descreve d'este modo:

«El frontis está letra y adornos dibujado y abierto com primor y delicadeza. El nombre del artista aparece al pie en letra gallarda, aunque casi microscopica: Antonius Pintor Lusitanus exculp.»

Aqui ha um ligeiro lapso. Em vez de Pintor deve lêr-se Pinto, e o artista é indubitavelmente o mesmo que gravou em cobre o frontispicio da Historia do insigne apparecimento de Nossa Senhora da Luz, de fr. Roque do Soveral, impresso em 1610, em Lisboa, pelo mesmo typographo que imprimiu o Consuelo de Justos. Esta estampa é assim rubricada: Antonio Pinto Lusitano exculp.

Fr. Pedro Maldonado, natural de Sevilha, era da ordem de Santo Agostinho, e residia no Convento da Graça em Lisboa. Nesta cidade publicou mais alguns livros, entre os quaes um, Traça e exercicios de um oratorio, impresso em 1609 por Jorge Rodrigues. O frontispicio todo gravado em chapa inteiriça de cobre a talho doce, foi feito expressamente para a obra, e traz ao centro um bonito medalhão com emblemas religiosos. Não apresenta o nome do artista ou artistas que o executaram.

 

II

 

A gravura é uma das artes em que mais abunda o elemento estranjeiro, como facilmente se póde verificar, percorrendo o Indice de gravadores do Catalogo dos retratos collegidos por Diogo Barbosa Machado, coordenado pelo sr. dr. José Zephyrino de Meneses Brum e publicado primitivamente nos Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, de que se fez uma tiragem em separado, em oito tomos ou fasciculos, o primeiro dos quaes impresso em 1893 e o ultimo em 1905.

No reinado de D. João V veiu para Portugal uma colonia de gravadores, quasi todos franceses, cujos trabalhos se observam em grande numero de obras publicadas naquella epoca, em que D. João V poz o sello da sua magnificencia.

No reinado de D. João VI foi attrahido de Londres a Lisboa, por convite do nosso governo, para dirigir a aula de gravura, annexa á Impressão Regia, o celebrado artista italiano Francisco Bartolozzi, de quem foram discipulos alguns gravadores de merecimento, como Gregorio Fernandes de Queiroz.

Antigamente eram muito vulgares os livros com frontispicios gravados, os quaes se pódem dividir em duas especies: uns formados por vinhetas soltas, que se podiam adaptar a diversas obras; outros feitos expressamente para uma só. A portada da primeira edição dos Lusiadas repete-se em outros livros. Estas vinhetas eram geralmente de procedencia italiana, como se deduz do confronto entre obras publicadas nos dois paizes.

No seculo XVII, sobre tudo no dominio filippino, alguns gravadores, que exerciam a sua actividade em Hespanha, apparecem a rubricar com seus nomes, obras impressas em Portugal ou relativas ao nosso paiz, e o mais curioso é que quasi todos são flamengos. É possivel que alguns delles estivessem aqui de passagem, e até chegassem a estabelecer residencia temporaria, mas o mais provavel é que elles executassem em Madrid as encommendas que de cá lhe faziam os livreiros e autores.

Mencionarei agora alguns desses artistas, apontando os seus traços biographicos, assim como os trabalhos por elles executados, de que até agora obtive noticia.

a) João Schorquens.

Natural de Flandres e um dos melhores gravadores do seu tempo. Residiu em Madrid, onde entre os annos de 1618 a 1630, executou diversos trabalhos, de que Cean Bermudes faz uma resenha no tomo 4.º do seu Diccionario historico de los mas ilustres professores de bellas artes en Espana, impresso em Madrid em seis volumes no anno de 1800.

Diz o autor hespanhol que onde o buril de Schorquens mais se esmerou, foi nas estampas da obra de João Baptista Lavanha, Viagem da Catholica Real Majestade d'el-rei D. Filippe II... ao reino de Portugal, impresso em Madrid em 1622, em duas edições, sendo uma em português e outra em hespanhol. Além das vistas dos arcos triumphaes, traz outra em maior formato, desenhada pelo nosso compatriota, o pintor Domingos Vieira Serrão, representando Lisboa e o Tejo.

Cean Bermudes não teve noticia do retrato de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, arcebispo de Braga, que vem na sua Vida, escripta por frei Luis de Sousa e impressa em Vianna em 1619.

No catalogo descriptivo da collecção de retratos de Barbosa Machado, existente na Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, ha tres numeros referentes a Schorquens.

O n.º 4 é uma arvore genealogica dos reis de Portugal, que se encontra na obra de Lavanha.

O n.º 621 é o frontispicio da primeira e terceira parte da Historia da Ordem de S. Domingos de Frei Luis de Sousa, o qual foi aproveitado por Barbosa, por ter cinco figuras de santos da Ordem.

O n.º 1609 é o retrato de Diogo Garcia de Paredes, extrahido da obra de Thomaz Tamaio de Vargas, Diogo Garcia de Paredes, y su tiempo.

b) João de Courbes.

 

Francês e residente em Madrid, onde executou numerosos trabalhos, de parte dos quaes Cean Bermudes faz menção no seu Diccionario. Além das obras apontadas, pelo academico hespanhol possuo a seguinte:

Vida de la bienaventurada Ritta de Casia religiosa del Ordem de S. t Aug. n ta en el monasterio de S. Magdalena de la Ciudad de Casia en la Vmbria. A la Ex.ma S. D. Ana Maria de Portugal y Borja Princesa de Melito e Duquesa de Pastrana. Por Frey Alonso de Aragon y Borja su sobrino Predicador y Colegial del Orden de S.t Augustin en el que fundo la Ill. ma Senora D. Maria de Cordoua y Aragon. En Madrid. Por la viuda de Luis Sanches Impressora del Reyno. Año. 1628.

Este titulo acha-se num frontispicio gravado, o qual representa um portico, ricamente ornamentado, tendo em cada uma das columnas uma figura de mulher, de corpo inteiro. A da direita representa D. Maria de la Cerda hija de la Cassa de Medina Celi etc., a da esquerda D. Maria de Aragon hija del Rey catolico Fernando, etc. Depois das licenças e censuras vem o retrato, em pagina inteira, da B. Ritta de Casia, etc.

No Catalogo descriptivo da collecção Barbosa Machado ha tres numeros referentes a Courbes.

O n.º 880 é o retrato de D. Sebastião de Matos e Noronha, bispo de Elvas, e de mais quatro seus antecessores no frontispicio das Constituições ordenadas por aquelle prelado, e impressas em Lisboa em 1635.

Os n. os 1857 e 1862, são os retratos de Filipe Sidney e de sua mulher.

A actividade de Courbes exerceu-se, pelas notas que tenho, entre 1621 e 1635.

 

c) Pedro Perret.

Cean Bermudes diz que elle era natural dos Paizes Baixos, onde nascera depois do meiado do seculo XVI; que estudára em Roma com Cornelio Córt e que, restituindo-se á pátria em annos adeantados, fôra gravador do duque de Baviera e do eleitor de Colonia, fixando a sua residencia em Anvers. Nesta cidade gravou para Filippe II dez grandes laminas, representando o Escurial e suas diversas partes. Agradaram tanto a el-rei que mandou vir o artista a Madrid, nomeando-o, a 22 de dezembro de 1595, seu gravador com o ordenado de cem ducados por anno, pagando-se-lhe á parte as obras que fizesse em seu serviço. Falleceu em Madrid pouco depois do anno de 1637.

Bermudes cita muitas das obras, que elle executou em Hespanha, sendo a primeira o retrato de Santo Ignacio de Loyola. Acrescenta que são muito estimadas as estampas que fizera antes de vir para Madrid e de que cita algumas. Não se refere, porém, a nenhuma de assumpto português. Destas passarei a dar conta:

Por encommenda de Manuel de Sousa Coutinho, que, professando na religião de S. Domingos, tomou o nome de Fr. Luis de Sousa, fez o retrato de Fr. Luis de Sotto-Mayor, celebrado professor de theologia e commentador da Biblia. A este facto se refere o proprio Fr. Luis de Sousa no capitulo XVII, do livro 2.º da Vida de D. Fr. Bartholomeu dos Martyres. No retrato exarou-se um elogio latino, certamente composto pelo chronista dominicano e que este transcreve na obra citada com a traducção portuguesa, que é do theor seguinte:

«Este retrato em lugar de estatua fez esculpir em bronze Manuel de Sousa Coutinho, em honra e memoria de Fr. Luis de Sotto-Mayor, da Ordem dos Pregadores, lente jubilado das sagradas escripturas na Universidade de Coimbra em idade de 76 anno e o mais celebre Doutor n'ellas de todos os do seu tempo, que juntando com a nobresa do sangue, doutrina, piedade religião e todos os mais arreyos de virtudes, faz duvidar em qual seja mais insigne; e foy o fim assi pera que o amigo, a quem se acha obrigado e que por meio dos seus divinos escriptos, como com asas vôa por todas as terras da Europa e Asia, chegue por conhecimento do rosto aonde por fama teem chegado; como tambem para alegrar a vista com o mesmo objecto que traz dentro n'alma e desejoso de o faser competir com a eternidade. Fez a obra Pedro Pereto, esculptor de El-rei no anno de 1602».

Este retrato acha-se descripto sob o numero 922, no Catalogo da collecção Barbosa Machado. Ha de Perret mais os seguintes retratos:

«Diogo de Paiva d'Andrade.—É subscripto simplesmente com as iniciaes do gravador, P. P., e vem no tomo 1.º dos seus Sermões, impressos porthumos em Lisboa por Pedro Craesbeack em 1603.»

«Dr. Ambrosio Nunes.—Tem a seguinte subscripção: Petrus Perret. fc. Encontra-se na obra impressa em Coimbra em 1603, sob o titulo de: Ennarrationes in priores tres libros Aphorismarum Hypocratis». O retrato foi feito em 1602, quando o retratado contava 73 annos de idade.

«Diogo do Couto—Tem a seguinte subscripção: P. Perret fecit. 1602. Conjectura o auctor do Catalogo da Collecção Barbosa Machado que talvez seja extrahido da Decada quarta, impressa em Lisboa em 1602.»

«Fr. Bernardo de Brito—Tem a seguinte inscripção: Effigies ad vivum Fr. Bernardi de Brito, aetatis suae anno 33 P. Perret scalptor (sic) Regis fe:»

Fr. Bernardo de Brito fez mais de uma viagem a Madrid e n'uma d'essas occasiões se deixava retratar ao vivo por Perret, e a sua efigie encontra-se na Primeira Parte da Chronica de Cister, impressas em Lisboa por Pedro Craesbeack em 1602.

«D. Nuno Alvares Pereira—É rubricado simplesmente com estas iniciaes P. P. f.»

Na livraria da Torre do Tombo existe uma obra de Antonio Suarez de Alarcon, intitulada: Comentarios de los hechos del señor Alarcon, marqves de la Valle Siciliana y de Renda—por D. A. S. de A. hijo del Marques de Torcifal. Madrid Diego Dias de la Carrera 1665. E nella vem um excellente retrato de D. Hernando de Alarcon, assim subscripto: Ex Titiani Archetypo—Peret esculpsit.

 

d) João Noort ou Van Noort.

Era natural de Flandres, e veiu para Madrid, onde gravou, com mais delicadeza de buril que boas fórmas de desenho, varias portadas de livros, retratos e santos. Estas são as palavras com que Cean Bermudes inicia o artigo que lhe diz respeito, passando depois a enumerar algumas obras executadas entre 1628 e 1652.

Não menciona, porém, as seguintes:

Dois retratos de D. Filippe III de Portugal, descriptos no Catalogo da collecção Barbosa Machado sob os n. os 425 e 426.

Retrato de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, o qual tem na margem inferior: 1.º D F B M de la Orden de S. Domingos Arçobispo y Señor de Braga insigne en dotrina y Santidad. Murio a 16 de Julio de 1590 a los 76 años de su edad. 2.º J N .

Este retrato acompanha uma biographia em hespanhol do eminente prelado bracarense, sacada de diversos autores por Luis Muños, e publicada em Madrid em 1646. O que vem na sua Vida, escripta por Fr. Luis de Sousa, foi gravado por Schorquens, como já fica dito.

Retrato de Manuel de Faria e Sousa, tendo na margem inferior os seguintes dizeres: D. F . R S . I. N .

Este retrato acha-se descripto sob o numero 948 do Catalogo da collecção Barbosa Machado, onde se diz que é copia de outro descripto sob o numero 952, o que é completo equivoco, pois o inverso é que é verdade. O primeiro adorna a obra de D. Francisco Moreno Porcel, intitulada Retrato de Manuel de Faria y Sousa, relacion de su vida y catalogo de sus escriptos, impressa em Madrid em 1650. O descripto sob o numero 952 acha-se na segunda edição desta mesma obra e é gravado por Bernardo Fernandes Gayo, que floresceu um seculo depois de Noort.

Numa obra de Faria e Sousa, impressa em Madrid em 1650, sob o titulo de El gran justicia de Aragõ Don Martin Batista de Lanuza, vem o retrato deste, rubricado com o monogramma de Noort. Descripto sob o numero 1646 no Catalogo da collecção Barbosa Machado.

 

e) Pedro de Villa Franca de Malagon.

Reproduso do Diccionario de Cean Bermudes os seguintes traços biographicos que lhe consagra:

«Gravadôr de laminas e pintor. Nasceu na villa de Alcolêa, na Mancha, perto de Calatrava e aprendeu a arte da pintura em Madrid com Vicencio Carducho. Adeantado no desenho, dedicou-se a gravar a buril com grandes progressos naquella epoca, em que esta arte não estava muito adeantada em Hespanha. Tornou-se notavel a sua habilidade no anno de 1640 com a portada do livro Vida y hechos del gran condestable de Portugal D. Nuno Alvares Pereyra, de Rodrigo Mendes de Silva, que representa um frontispicio com o escudo d'armas de Mendez de Haro: em 49, com o retrato de José Casanova, mestre de primeiras letras, acompanhado de creanças escrevendo, de anjos com escudos e de outras figuras; e em fim com outras obras que o acreditaram a tal ponto, que Filippe IV o nomeou seu gravador de camara por cedula de 8 de dezembro de 1654 com o mesmo ordenado de cem ducados que tinha tido Pedro Perret».

Continua citando outras obras, deixando de referir mais por que, diz elle, seria prolixo enumeral-as.

A Vida y hechos del gran condestable, além da portada, tem tambem dois retratos, sendo um do condestavel e outro do autor da obra gravados pelo mesmo Villa Franca, o qual se acha descripto sob o numero 955 do Catalogo da colecção Barbosa Machado, e ali se faz referencia a outro estado da mesma estampa. Salvá ao descrever esta obra sob o n.º 3475 do seu catalogo, indica apenas o primeiro retrato.

Ha mais os seguintes gravados por Villa Franca, relativos a individualidades portuguesas:

Retrato de S. João de Deus, tendo a seguinte subscripção: Petrus de Villafranca sculptor Regius sculp. Matriti 1658.

Retrato de Luis de Camões gravado em 1639 e que se encontra na obra de Faria e Sousa, Lusiadas de Luis de Camoens... Commentados... impressos em Madrid no mesmo anno.

Retrato de Faria e Sousa na mesma obra.

Retrato de Fr. Feliciano de Sousa Diniz, gravado em 1642. O retratado, religioso de Santo Agostinho no real convento de S. Filippe de Madrid, era sem duvida português, como o indica o nome, e por se achar na collecção Barbosa Machado, em cujo Catalogo vem descripto sob o numero 942.

D. Martim Soares de Alarcon, extrahido da Corona sepvlcral, Elogios en la muerte de D. M. S. de A.... escritos por diferentes plumas. Sacados a luz por Don Alonso de Alarcon... Madrid 1652.

O frontispicio desta obra é tambem gravado pelo mesmo artista que subscreve da seguinte maneira:—Petrus de Villa Franca inuent et sculp, Matriti 1652.

 

f) Vorstermans (Lucas).

Fr. Francisco de S. Luis incluiu na sua lista, dando d'elle uns breves apontamentos biographicos extrahidos do Dictionnaire d'Architecture etc. de C. F. Roland de Virloys, Paris 1770.

Parece não ter conhecido senão um artista deste nome, quando houve pae e filho. Do Biographical and critical dictionary of painters and engravers, de Michael Bryant publicado em 1858, extrairei os seguintes apontamentos biographicos relativos a um e outro:

Lucas Vorstermans, senior.—Este eminente gravador nasceu em Autuerpia cerca de 1580 e estudou primeiro pintura na grande escola de Rubens; mas depois, aconselhado pelo seu illustre preceptor, consagrou-se inteiramente á gravura. Nenhum pintor teve a satisfação de ver tão grande numero das suas melhores obras, tão perfeitamente gravadas como Rubens. Rodeado de artistas de superior habilidade, que trabalharam immediatamente sob as suas vistas e que tiveram a vantagem da sua assistencia e dos seus conselhos, foi por este modo, que conseguiu imprimir a belleza e excellencia nas suas gravuras. D'elles nenhum gravou successivamente mais obras de Rubens do que Lucas Vorstermans. A sua maneira de gravar é correcta, e as suas cabeças são dotadas de muita expressão. As suas laminas são executadas inteiramente com o buril, que manejava com grande facilidade, comquanto fosse muitas vezes mais attento ao effeito geral do que á nitidez e regularidade da execução; e nas suas melhores estampas transcreveu com uma fidelidade surprehendente a vida e o espirito das pinturas originaes. A sua estampa da Adoração dos Magos, de Rubens, é considerada uma das mais bellas producções da arte. Visitou a Inglaterra no reinado de Carlos I, residindo alli «8 annos, de 1623 a 1631», tendo trabalhado para o monarcha e para o Conde de Arundel. Vosterman assignava usualmente com o seu nome, e algumas vezes usou a cifra seguinte [VL].

 

Lucas Vorstermans, junior—Foi filho do anterior e nasceu em Antuerpia pelos annos de 1605. Comquanto tivesse a fortuna de ter tido as lições de seu pae, as suas gravuras são realmente inferiores, a todos os respeitos, ás do velho Vorstermans, e nunca passou da mediocridade.

 

S. Luis cita duas obras impressas em Lisboa, cujos assumptos foram executados pelo buril de Vorstermans. Uma dellas é a Harmonia scripturae Divinae, emodulans actiones laudabiles, vel vituperabiles virorum, ac faeminarum, Antiquo, aut Novo relatos Testamento..., do jesuita Diogo Lopes, natural de Beringel, doutor em theologia e professor na Universidade de Evora.

O livro saiu dos prelos de Lourenço de Anvers, em Lisboa, no anno de 1646. O anterosto tem nos angulos inferior, á direita: Lucas Vorstermans inventor et sculpt.; e á esquerda: Anno MDCXXXXVI.

Diogo Lopes vem incluido no Diccionario Bibliographico, de Innocencio, que todavia só cita delle um Sermão em português, deixando de enumerar, segundo o plano adoptado, as obras em latim.

A outra obra é a Chronica da Companhia de Jesus, de Balthasar Telles impressa em Lisboa, por Paulo Craesbeeck em 1645-47. O anterosto do 1.º volume tem esta subscripção: Lucas Vorstermans, inventou, et sculpio. Ulyssipone, ex typograph. Pauli Craesbeeck, an. 1645. O do 2.º é de buril differente e muito superior ao primeiro, tendo a seguinte subscripção: Gr. Huret f.

Daquella subscripção não se deve deduzir necessariamente que Vorstermans trabalhasse em Lisboa. A sua collaboração nas obras impressas por Paulo Craesbeeck e Lourenço de Anvers explica-se naturalmente por serem patricios, os typographos e o artista.

As estampas de Lucas Vorstermans ora são assignadas com este nome unicamente, ora com mais o appellido senior, o que serve para o distinguir do filho. No Catalogo da collecção dos retratos de Barbosa Machado, vem attribuido um de André dos Santos a Lucas Vorstermans Junior. Esta asserção não é todavia fundada em bases solidas, porquanto a gravura tem as margens aparadas e apenas se lê por letra manuscripta esta indicação: Luc. Wostermas. f. de. L. Wort. o abrio em Lix.a

Eis um ponto, que julgo problematico e digno de ser esclarecido. Consulte-se o n.º 1980 do referido Catalogo.

Na supracitada collecção ha muitas gravuras de Vorstermans: o retrato de D. Duarte (n.º 479) e o do P. e Antonio da Conceição, proveniente da obra: Extracto dos processos... sobre a vida e morte do veneravel P.e e Antonio da Conceição... ordenado pelo P. Fr. Luis de Mertola. Lisboa. 1647. (n.º 797).

Retrato de D. João de Castro, o qual ornamenta a vida deste heroe por Jacintho Freire de Andrade, impressa em Lisboa em 1651. (n.º 1222).

Os demais retratos são de estrangeiros: João Van Mildert (n.º 1506); Justo Lipsio (n.º 1628); Thomaz Morus (n.º 1825); Octavio Piccolomimi, conde de Amalfi (n.º 1826); conde de Fontaine (n.º 1828); Claudio Mangis (n.º 1835); Carlos, duque de Bourbon (n.º 1847); anonimo (n.º 1858); Erasmo (n.º 1921); Gerardo Leghen (n.º 1962).

O Sr. Annibal Fernandes Thomaz communica-me ter conhecimento de mais obras de Vorstermans, a saber: Ante-rosto de Exhortação militar ou lança de Achilles, do Padre Timoteo de Ceabra Pimentel. Lisboa 1650.