A Guerra: Depoimentos de Herejes

Jaime de Magalhães Lima · Capítulo 2 de 7

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A Guerra: Depoimentos de Herejes

Convulsões dum enfêrmo

Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado por longos anos de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignação que um pensamento monstruosamente scelerado meditára e consumava um «crime contra a civilização», o maior e o mais odioso que jámais se sonhára e praticára na história da humanidade. Declaradamente se armavam, havia quási meio século, os grandes poderes militares da Europa; engrandeciam os exércitos, acrescentavam as armadas, acumulavam os canhões, amontoavam munições e edificavam fortalezas por modo nunca visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do velho preceito que nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores à glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia pela sua fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma inviolabilidade formidável a quem os soubesse fabricar e usar.

Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com enorme esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os economistas e os homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que só por demência, e jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse ela qual fôsse, se poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos negócios, emquanto as armas significavam a mais sólida das garantias da amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos impenitentes, que tambêm os havia e não cessavam de agourar desgraças, tendo por fatal a hora terrível de uma guerra europeia, o mundo ia remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas devassidões, convencido de que a bonança, uma perene bonança orgiaca, era de ora em diante a lei da vida.

De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes, surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia crê-la.

Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...

A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações, alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e empedernidas e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes fazia ignorar; e a traição aos arrebatamentos da ventura em que viviamos era executada e proclamada pelo braço e pela bôca de três imperadores, um caduco na senilidade própria dos seus anos, o outro demente de raça e de vaidade, e o terceiro não muito são, sujeito a acessos de melancolia. Eram êles que na mais atroz loucura gerada de imaginárias ambições lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e unirem. Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de desolação e de cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para criar e cultivar o pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a fortuna, toda a dignidade e toda a glória da nossa espécie.

Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e comando dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão legitimando-as, entre o estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o conflito das raças, uma diversidade e uma incompatibilidade de aspirações que se excluiam e por condição estavam sem remissão destinadas a chegarem à agudeza dos combates em que se encontravam. Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias dos alemães na Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As primeiras atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante o desrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia cínica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade traída, construíndo fortalezas ocultas e pondo espiões onde com amizade eram acolhidos, perante o morticínio de velhos e crianças, o insulto e injúria das mulheres e a destruìção e saque dos mais preciosos tesouros do espírito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados. E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que ha longos séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e amaldiçoada fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o slavo, com o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo britânico, e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza o espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês de hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã Bretanha e de todo o mundo culto:—«Não é um conflito meramente material, é tambêm um conflito espiritual. Das suas últimas conseqùências se verá que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que contêm promessa e esperança, que conduz à emancipação e mais completa liberdade de milhões que constituem a massa do género humano».

Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que, envolvido no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares, o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a incompatibilidade, irreconciliável e ardente, entre a fôrça e o direito, entre a brutalidade e o respeito, moderação e tolerância, entre as cobiças da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a crença, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa fé e a deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus das batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de doutrinas e de sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos, uma divergência de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si antipáticos até à exclusão mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin contra Bismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a fé, a graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de previsão e astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo metodo e por subtil engenho.

Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias, agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se, com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuição penetrante do génio muito cedo apontou a distância que havia entre o carácter germânico e as tendências britânicas. Já em 1859 Ruskin falava, em carta a um amigo, do «intenso egoismo e ignorância do pintor alemão moderno (na sua obra)» que «era indizível no que tinha de ofensivo. A eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez profunda a toda a beleza rial, inchada em abomináveis caricaturas daquilo que êles imaginam ser o carácter germânico, a absorpção de todo o amor de Deus ou do homem na impaciência de aplauso» feriam-no e repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão de beleza, embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na concupiscência; «mas o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que fôsse».

Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:—«As bençãos são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras signifiquem». «Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade», «não ha sôma de saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo que, quando os alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza, roubam-lhe os quadros (de que não podem compreender nem um traço), e inteiramente arruinam o país moral e físicamente, deixando atraz de si miséria, vicio e ódio profundo, onde quer que os seus malditos pés hajam pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em França—esmagaram-na, roubaram-na, deixaram-na na miséria do desespero e da vergonha, e fôram para casa a lamber os beiços e a cantar «Te-Deus».

O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem público muito popular nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o povo alemão se tornára feliz e prospero pelos velhos métodos de duro trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomára os mercados da Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas férias, nos seus dias livres em cada semana e nos sports». Querendo glorificar o temperamento alemão e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer; nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações apolineas; e disto fez uma religião.

Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes compreendem-se hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais ficará de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento fundamental é de uma simplicidade incomparável:—«A Alemanha tem nos destinos do mundo uma alta e divina missão, espalhar a sua cultura, levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura germânica e pela cultura germânica, e o processo único de cumprir êsse destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilação radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A cultura, no seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu espírito, é a primeira que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente desimpedir o caminho.

Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora dos seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha, afagada, soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por nascimento ou inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo, por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos com matrícula em Hamburgo.

Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso foi necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aos alicerces, aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte, ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos sciência de laboratório e mais sciência do coração, e não sabia mentir, intrigar, corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. Não falta entre os seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixão a situação, termine por confessar que os alemães «deixaram de ser uma nação de pensadores, poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e exploração da natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral».

Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura alemã o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade» e «nausea», que «todos os deuses aprenderam a temer. Se alguem quizesse vêr a alma germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto germânico, as artes e os modos germânicos. Que grosseira indiferença pelo gosto!» Para «todo o leitor que tivesse um «terceiro» ouvido», dizia, eram «uma tortura» os livros escritos em alemão, «sem tom, sem ritmo nem cadência». O próprio alemão lia «mal», negligentemente arrastado.

Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de subjugar físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos encantos das academias, embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer, que só em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, mercê da sua natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha à arte da brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e condecoradas. E esta Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos ossos, materialisada em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências idealistas, fazendo da disciplina, obediência, ordem e comodidades a razão última da nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a de novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura.

Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela unidas com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como sujeitam a Europa ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e admitindo-os, em pé de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos palacios?!... Pasma desta infidelidade à sua cultura e outra cousa não compreenderá, pois, destituída de todo o sentimento verdadeiramente cristão, não percebe os laços que juntam os povos educados no Evangelho, fazendo do Evangelho a razão suprema da existência; e outros não há que mais profundamente o sigam e nêle creiam do que a Grã-Bretanha e a Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas opostas em larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos do amor, trocados pelos regalos do estomago, não atinge que aquilo que os povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é exactamente a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e contentamento da humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, médicos e bons hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, electricidade, caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones e gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados e se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e por uma mecanica administrativa que na precisão matemática em nada difere das máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o homem à mísera condição de matéria prima, questão de número, volume e qualidades físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das profundezas da terra. Não concebe que foi o extremo fastio dessa cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os homens, êsse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as raças que o adoram, outro não suportam e o vêem ameaçado: não concebe que entre exércitos que, como o alemão, deixam, por onde passam, uma esteira infinita de garrafas vasias, e os que, como o da Russia, proìbem o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente os incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das castas políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas de vida ou de morte são as convulsões de uma civilização enferma de inanidade religiosa e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das materialidades, caída em um desespero febril de libertação dos germens mórbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em tormento.

Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais profundos e os estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo.

O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma cousa, e a «emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra cousa; e o que nas margens do Reno é um valor intelectual, conclusão de silogismos, demonstração de textos e arquivos, elemento de compreensão do mundo e dos homens, é fora dali, em terras suas inimigas, um valor moral, fundamento e motivo de proceder nas relações individuais e sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem duvida salutar e benéfica, que se cultiva de mistura com todas as outras culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão misteriosa como soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fôrças a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a Alemanha, sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente pouca religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança a que a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra assassinado.

Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o negro prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido instinto que o não engana, considera que, quando o preto tem culpa, ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é alemão, castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse implorado.

Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar; e por isso é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não alcança, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o inunda de sangue e de dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os delinqùentes ajoelham, e os que não sabem perdoar, nem mesmo em face da mais submissa humildade e contrição.

Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como fruto desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser social. Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da guerra, mais do que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em pontos essênciais, são certas e inevitáveis, independentemente da vitória das armas. Desde a lição formidável da queda do império romano, abdicando das suas velhas fôrças morais, das que considerava fundamentos da sua austéra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder mais alto, à inspiração cristã, desde então nunca mais o materialismo, culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, se encontraram em conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à alegria e à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando essa sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa servidão terrena que lhe repugna.

Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais do que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência dos povos, recordando a dissolução do império romano, seguida da fragmentação medieval, e aproximando-a da revolução iminente dos impérios modernos nas suas tendências descentralisadoras, já amplamente e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, não estará muito afastado da realidade quem supozer a política levada neste pendor pelo surdo impulso de fôrças morais e religiosas, pela pressão das exigências da mentalidade característica da nossa era. Á liberdade do pensamento, emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser intelectual, moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com a legitimidade da revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e direitos de tolerância de todo o espírito nas suas manifestações especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicológicas fundamentais, a diversidade é extrema e reclama liberdades correlativas, a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, Igualdade e Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se apuram algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e sintam pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes políticos que não podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a unidade de tendências mentais, constantemente contrariados, minados e traídos por obscuras mas indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira, irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas aspirações, é porque para êsse milagre político, sem precedente na história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.

Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo evidente que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente no continente da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de todo carecido de unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de todo avessos a suportarem independências, o conflito tem de seguir seus trâmites para abolir uma unidade forçada que a unidade psicológica não autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade há de encontrar as soluções convenientes. Os ingleses não exageram, quando dizem que combatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a vitória de princípios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados à idade da razão.

O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que a querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai construir, não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as estações reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se verga e esmorece açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto que estamos em vésperas de uma profunda reacção, pois que por efeitos de reacção chegámos à convulsão presente. Desde já se adivinha que a negação da cultura alemã, e negada está seja qual fôr a sorte das armas, sendo ela a cultura e a ambição meditada e tenaz de toda a especie de materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr. Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto pensar. Se assim fôr, veremos a verdade daquêle velho e belo proverbio espanhol, de que «Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas seriam ganhos.»

Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa a que nos sujeitam.

É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em proporções assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que sempre nos será indispensável e que por qualquer modo teremos de criar ou substituir, e significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que sempre nos foi supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir. Se esta situação persistir, a que modificações obrigará a economia do pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecerá que por urgência das pressões económicas cheguemos a um nacionalismo e a uma simplicidade aos quais nenhum incentivo moral póde levar-nos, e em favor dos quais se esfalfaram em vão a arte mais sã, o mais bem inspirado patriotismo e mais modesto bom senso?

Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e arrazando as cidades. Não consente mutações instantâneas.

Ámanhã, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no seu trabalho, nas suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes, como se lhes permanecesse intacto e sem alteração o carácter. Mas novos ástros se ergueram, brilham e lentamente iluminarão e penetrarão o mundo com a sua luz, e nele criarão inumeráveis vidas novas. O materialismo com todas as suas edificações e fortalezas afunda-se no occaso, e o idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas não morto, surge glorioso a revestir a terra desolada.