A Guerra: Depoimentos de Herejes
O Cavador e o Profeta
Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura; mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu contentamento e felicidade.
O Cavador e o Profeta
Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada, porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.
Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores, e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo vago será talvez um dos bordões da humildade.
E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras, e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da pobreza.
Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses malfadados passos.
Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a sua conseqùência.
Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência, dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão. Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez, serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor. Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus criados e servidores.
Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por elas não se afreimava.
Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a mais penetrante arte de persuadir.
Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia.
Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia, consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo.
—«Porque?»
—«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de o ganhar, precisa de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».
E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe outra cousa.
Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros na pastagem.
Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias.
Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade, uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma independência de todos os instinctos na suma vibração das suas energias—uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito misterioso.
Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que eu não sou capaz de saber.
Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre de sangue o mundo?
—«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de costa direita, quer comer sem trabalhar».
Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores, caveant consules! tomem nota os generais e os seus imperadores, andam-lhes inimigos na fortaleza.
Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes pedir impostos e os filhos para a guerra».
Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e consubstanciação em uma única visão?!...