A Guerra: Depoimentos de Herejes
Da arte de gastar e suas responsabilidades
Da arte de gastar e suas
responsabilidades
«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam; hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos. Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que, começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o caminho de melhores hábitos.
«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte, quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por que hão-de usar êsse poder.»
A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o titulo de Spending in War Time, o professor E. J. Urwick publicou, em Oxford, na colecção de Papers for War Time, dirigida por W. Temple.
Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação dos princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se arrepender», essa colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas angustias em que a indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é simultâneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a ansiedade de melhores dias definiu e pôz, não sem esperança de soluções por igual próprias a satisfazer as investigações da consciência moral e as necessidades da vida prática. Os que seguem a Cristo, estão unidos entre si em uma comunhão superior a todas as divisões de nacionalidade e de raça; «os deveres cristãos e de amor e de perdão prendem-nos tanto em tempo de guerra como em tempo de paz». E os cristãos teem de reconhecer «a insuficiência da mera compulsão para vencer o mal, e de guardar a confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente no poder e no método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se associaram à missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente testemunho e instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.
Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos, virá a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que o destino lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraça a solução dos conflitos económicos que a guerra exacerbou e revelou com uma dolorosissima evidência.
O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e extensão das despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar para se sustentarem, quando freqùêntemente, e por desgraça, não são reduzidos ao extremo de não gastarem sequer aquilo de que careciam para o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, ainda numerosos, de facto representando uma fôrça poderosa na actividade das sociedades; e êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam por isso com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos seus haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.
E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente? Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipações habituais as somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legiões de indigentes, condenando à miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que lhes serviam as dissipações, provendo-lhes o luxo e as futilidades, disso auferindo o pão de cada dia e para isso tendo sido educados por longos anos de prática e especialisação, que não raro os tornaram inaptos para outras profissões?
A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos ou tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações, alongando-as a uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos ultimos, negando-lhes o que até aí lhes davam e em certo modo prometiam dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam.
A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a toda a casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas sem cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam, constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú pela perturbação em que a guerra desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam as nossas despesas como essas doenças latentes, graves, fatais, que se escondem em aparências de saúde e artes de bem trajar, e que uma febre acidental revela aos que em sua negligência não as tinham previsto nem sentido, aterrando-os então pela iminência de perigos mortais e pela presença de própria miséria. Por uma incúria que é o indício da lastimosa leveza de consciência moral e religiosa de que nos deixamos possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e toda a distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como obrigação e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos trabalhadores alimentavam e em que condição os mantinham, que influência social exerciamos por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia de nós, que instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros obrigados das nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e traiçoeira certeza de que gastando, seja como fôr, beneficiamos o comércio e acrescentamos a riqueza e o tráfego, unicamente porque demos emprego a muitos braços.
Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam o sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes ignoramos inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso escapa à nossa atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a consciência, sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de capital os nossos hábitos determinam, que espécie de constituição económica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz padecer os homens que lhe estão sujeitos. Pois é evidente que será, por exemplo, muito diversa em seus riscos a situação de costureiras empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse trabalho amestradas, e a situação dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou qualquer outro, cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima miséria e na maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigências de retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda a distancia que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos casos a impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados, porque o desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades, compreender-se-á quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o género de trabalho que lhes reclamamos e o género de mercadoria que lhes pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a produzir.
Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick, «crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um assinalado serviço à indústria, beneficiando o comércio e dando emprego. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas é o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade reside no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que agora temos a considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a inclinação da indústria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos, estimula por isso os patrões e os operários a fazerem sapatos e a proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos sapatos no sentido rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem sacos. No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme de dinheiro se está gastando em panos de khaki, resultando daí que correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital (incluindo a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a produção dos uniformes de khaki. Ora esta direcção do trabalho e do capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que dá causa a que os trabalhadores e o capital dos patrões se tornem altamente especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda é mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às despezas da gente rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização da parte dos fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com todos os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles operam) é que não podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro trabalho. O costureiro hábil não pode mudar e coser khaki; o ourives hábil não servirá de muito para fabricante de espingardas ou para construtor de cabanas. É por isso que hoje os grupos de pacientes mais dignos de dó são justamente aqueles trabalhadores que durante anos dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e dependem literalmente de nós, neste sentido—fômos nós que os convidamos a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para satisfazer as nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só por este modo. São, por conseguinte, os nossos trabalhadores, os nossos dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; e no momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão arruinados».
De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom dizer:—«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as despezas supérfluas». Mas logo surgem duvidas e perguntam:—«E os trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas supérfluas de que hão-de viver?...»
«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem, a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e indústria são em geral sustentados só por um modo—pela criação actual de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar, a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha. Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada; mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o quer que seja a êsse bom resultado.
«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e, com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada, mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo. E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco shillings. Ora nos tempos bons, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros, suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como antigamente».
Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido habitos maus, está provado pelo facto—e êsse é o sinal de todo o habito máu—de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais».
Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal. Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar, a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade. Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.