A Humilhação

Philip Roth · Capítulo 2 de 3

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A Humilhação

2. A transformação

 

Ele fora am igo dos pais de Pegeen antes de ela nascer e a vira pela prim eira vez no hospital, um bebezinho sendo am am entado pela m ãe. Conheceram -se quando Axler e os recém -casados Stapleford — ele de Michigan e ela do Kansas — trabalharam j untos num a m ontagem de O prodígio do mundo ocidental, realizada no porão de um a igrej a em Greenwich Village. Axler se encarregara do m aravilhoso papel principal de Christy Mahon, o pretenso parricida, enquanto o personagem fem inino principal, Pegeen Mike Flaherty, a m oça decidida que trabalha no bar do pai na costa ocidental do condado de May o, ficara a cargo de Carol Stapleford, na época grávida havia dois m eses de sua prim eira filha; Asa Stapleford interpretou Shawn Keogh, o noivo de Pegeen. Quando a tem porada da peça term inou, Axler foi à festa de encerram ento, na qual votou em Christy para o nom e da criança, se fosse m enino, e Pegeen Mike, se fosse m enina.

Era bastante im provável — principalm ente porque Pegeen Mike Stapleford era lésbica desde os vinte e três anos — que quando ela com pletasse quarenta anos e Axler estivesse com sessenta e cinco eles viessem a se tornar am antes, que se falariam ao telefone todos os dias ao despertar e passariam todo o tem po livre j untos na casa de Axler, onde Pegeen, para a delícia dele, apropriou-se de dois côm odos, um dos três quartos do andar de cim a para suas coisas e o escritório ao lado da sala para seu laptop. Havia lareiras em todos os côm odos do andar de baixo, até m esm o na cozinha, e Pegeen, quando estava trabalhando no escritório, sem pre acendia o fogo. Ela m orava a pouco m ais de um a hora dali, passava por estradas de serra cheias de curvas, atravessava fazendas, até chegar à propriedade de Axler, vinte hectares de cam po aberto e um casarão branco com venezianas pretas, cercado por bordos velhos, freixos enorm es e m uros de pedra com pridos e irregulares. Não havia ninguém além dos dois nos arredores. Nos prim eiros m eses, eles raram ente saíam da cam a antes do m eio-dia. Não conseguiam ficar longe um do outro.

E no entanto, antes da chegada de Pegeen, Axler tinha certeza de que tudo estava acabado para ele: o trabalho, as m ulheres, as pessoas, a felicidade, para sem pre. Havia m ais de um ano estava sofrendo de um problem a físico grave, quase não conseguia andar nem ficar em pé ou sentado por m uito tem po por causa da dor na coluna que havia aturado ao longo de toda a sua vida adulta e que se agravara com a idade — assim , estava certo de que tudo estava acabado. Um a de suas pernas de vez em quando ficava inerte, de m odo que ele não podia levantá-la direito ao cam inhar; pisava em falso num degrau ou no m eio-fio e levava um tom bo, cortando as m ãos, e até m esm o caindo de cara, m achucando o lábio ou o nariz. Poucos m eses antes, seu m elhor am igo na região, aliás seu único am igo, um j uiz de oitenta anos aposentado havia alguns anos, m orrera de câncer; consequentem ente, em bora j á fizesse trinta anos que Axler vivia a duas horas da cidade, cercado por árvores e cam pos — m orando lá quando não estava em algum lugar no m undo a trabalho —, não tinha m ais com quem conversar ou com er, quanto m ais dorm ir. E havia voltado a pensar em suicídio com tanta frequência quanto às vésperas da internação, um ano antes. Todos os dias, quando acordava e se defrontava com o vazio, concluía que seria im possível aguentar m ais um dia destituído de seu talento, sozinho, desem pregado, sofrendo um a dor constante. Mais um a vez, concentrava-se na ideia do suicídio; no centro de suas privações, era tudo que lhe restava.

Num a m anhã cinzenta e fria, após um a sem ana de m uita neve, Axler saiu de casa em direção à garagem para ir fazer com pras na cidade, a seis quilôm etros dali. Todos os dias um fazendeiro retirava a neve dos cam inhos em torno de sua casa, porém m esm o assim ele cam inhava com cuidado, calçando botas de neve de solas grossas, apoiando-se num a bengala e dando passos pequenos para não escorregar e cair. Por baixo das cam adas de agasalho, com o m edida de segurança, protegia a coluna com um a cinta lom bar rígida. Assim que saiu de casa, viu um anim alzinho esbranquiçado, de cauda longa, parado na neve entre a garagem e o celeiro. De início, parecia um a ratazana, enorm e, m as depois se deu conta, com base na form a e na cor do corpo, na cauda sem pelos e no focinho, que era um gam bá de uns vinte e cinco centím etros. Os gam bás costum am ser criaturas noturnas, m as aquele, com pelos que pareciam descoloridos e ralos, cam inhava no chão coberto de neve em plena luz do dia. Quando Axler se aproxim ou, o gam bá foi se afastando com passo arrastado em direção ao celeiro e desapareceu no m onte de neve que havia j unto aos alicerces de pedra do celeiro. Axler seguiu o bicho — que provavelm ente estava doente e próxim o da m orte — e quando chegou ao m onte de neve viu que havia um a toca na frente dele. Apoiando-se com as duas m ãos na bengala, aj oelhou-se na neve e olhou lá dentro. O gam bá j á estava no fundo da toca e não era m ais possível vê-lo, m as à frente daquela pequena caverna havia um punhado de gravetos. Axler contou-os. Seis gravetos. Então é assim que se faz, pensou. Eu tenho dem ais. Bastam seis.

Na m anhã seguinte, enquanto preparava o café, viu o gam bá pela j anela da cozinha. O anim al estava em pé sobre as patas traseiras, j unto ao celeiro, com endo neve de um m ontinho, enfiando-a na boca com as patas dianteiras. Mais que depressa, Axler calçou as botas, vestiu o casaco, pegou a bengala, saiu pela porta da frente e contornou a casa pelo cam inho defronte ao celeiro. A uns cinco m etros de distância, dirigiu-se ao gam bá em voz alta: “Você não gostaria de interpretar o papel de Jam es Ty rone? Lá no Guthrie”. O gam bá continuava a com er neve. “Você daria um excelente Jam es Ty rone!”

A partir daquele dia, aquela pequena caricatura dele próprio, criada pela natureza, deixou de existir. Axler nunca m ais voltou a ver o gam bá — ele desapareceu ou então m orreu —, m as a caverna de neve, com os seis gravetos à sua frente, perm aneceu intacta até o degelo seguinte.

Então Pegeen surgiu. Ela telefonou da casinha que havia alugado a uns poucos quilôm etros de Prescott, um a pequena faculdade progressista só para m ulheres no oeste de Verm ont, onde ela recentem ente com eçara a lecionar. Axler m orava a um a hora a oeste dela, j á do outro lado da divisa, no trecho rural do estado de Nova York. Quando Axler a vira pela últim a vez, m ais de vinte anos antes, ela ainda cursava a faculdade e viaj ava nas férias com os pais, m uito anim ada. Quando passavam pela vizinhança, pararam para um a visita rápida, de um as duas horas, para dar um oi. Asa adm inistrava um teatro regional em Lansing, Michigan, a cidade onde ele nascera e fora criado, e lá Carol trabalhava com o atriz, além de dar aulas de interpretação teatral na universidade do estado. Ele vira Pegeen num a visita anterior, um a m enina de dez anos, sorridente, tím ida, com um rosto angelical, que subia nas árvores e nadava com braçadas rápidas na sua piscina, um a garota m agra e atlética, com j eito de m enino, que ria de todas as piadas do pai. Antes disso, ele só a tinha visto sendo am am entada na ala da m aternidade do St. Vincent’s Hospital, em Nova York.

Agora Axler estava diante de um a quarentona ágil, de busto generoso, m as com algo infantil ainda no sorriso — um sorriso em que ela autom aticam ente elevava o lábio superior, exibindo os incisivos grandes — e ainda com um a ginga de m enino no m odo de andar. Estava vestida para andar no cam po, com botas de trabalho bem gastas e um a j aqueta verm elha com zíper, e o cabelo, que na lem brança de Axler era louro, com o o de sua m ãe, na verdade era castanho-escuro, cortado bem rente, tão curto atrás que parecia ter sido aparado por um a m áquina de barbeiro. Tinha o ar invulnerável de um a pessoa feliz, e em bora seu protótipo fosse o de Pivete Durão, sua voz tinha um tom m odulado cativante, com o se im itasse a dicção de atriz da m ãe.

Com o Axler ficaria sabendo depois, j á havia algum tem po Pegeen não levava a vida que desej ava, e sim um a inversão grotesca dela. Tinha passado os dois últim os anos de um relacionam ento de seis anos sofrendo num a casa terrivelm ente isolada em Bozem an, Montana. “Nos prim eiros quatro anos”, ela lhe contou um a noite, depois que j á haviam se tornado am antes, “eu e a Priscilla tínham os um a relação m aravilhosa de com panheirism o. A gente vivia acam pando e fazendo cam inhadas, m esm o quando nevava. No verão íam os a lugares com o o Alasca pra fazer cam inhadas e acam par lá. Era m uito legal. Fom os à Nova Zelândia, fom os à Malásia. Havia um lado m eio infantil nessa nossa vida de aventuras, rodando o m undo j untas, que eu adorava. Éram os com o duas crianças fugindo de casa. Depois, m ais ou m enos no quinto ano, ela pouco a pouco foi sendo engolida pelo com putador, e eu não tinha m ais ninguém pra conversar, só os gatos. Antes fazíam os tudo j untas. Íam os para a cam a e ficávam os lendo — lendo cada um a seu livro, ou então um a lendo um trecho para a outra; durante m uito tem po houve um entrosam ento perfeito. A Priscilla nunca dizia a ninguém : ‘Gostei desse livro’, e sim ‘Nós gostam os desse livro’, ou então, quando falava sobre um lugar, era assim : ‘A gente gostou de lá’, ou então fazíam os planos: ‘É isso que nós vam os fazer no verão’. Nós. Nós. Nós. E aí ‘nós’ deixam os de ser nós — acabou-se. ‘Nós’ era ela e o Mac dela. Ela e o segredo dela, que com eçou a supurar até tom ar conta de tudo — o plano dela de m utilar o corpo que eu am ava.”

As duas m ulheres lecionavam na universidade em Bozem an, e durante os dois últim os anos que passaram j untas, toda vez que chegava do trabalho Priscilla ficava ao com putador até a hora de se deitar. Passava os fins de sem ana às voltas com o com putador. Com ia e bebia na frente do com putador. As duas não conversavam m ais, não transavam m ais; nas Pegeen agora ia sozinha às cam inhadas e aos acam pam entos nas m ontanhas, ou senão com outras pessoas que ela procurava. Então um dia, seis anos depois de terem se conhecido em Montana, j untarem suas coisas e passarem a viver com o um casal, Priscilla anunciou que havia com eçado a tom ar inj eções de horm ônio para desenvolver o crescim ento dos pelos faciais e engrossar a voz. Seu plano era fazer um a operação para rem over os seios e virar hom em . Sozinha, Priscilla adm itiu, vinha pensando nisso havia m uito tem po e recusava-se a voltar atrás por m ais que Pegeen im plorasse. Na m anhã seguinte, Pegeen foi em bora da casa que as duas haviam com prado, levando consigo um dos dois gatos — “Não foi nada legal pros gatos”, disse Pegeen, “m as isso foi o de m enos” —, e instalou-se num hotel ali perto. Mal conseguia ter forças para enfrentar os alunos. Por m ais solitária que a sua vida em com um com Priscilla tivesse ficado, a dor da traição, a natureza dessa traição, era algo m uito pior. Ela chorava o tem po todo e com eçou a escrever cartas para faculdades a centenas de quilôm etros de Montana, procurando um novo em prego. Foi a um a reunião em que as faculdades entrevistavam pessoas da área de m eio am biente e conseguiu um em prego no Leste depois de ir para a cam a com a decana, que havia se interessado por ela e resolveu contratá-la depois. A decana ainda era a nam orada e protetora dedicada de Pegeen quando ela foi visitar Axler e resolveu que, depois de viver dezessete anos com o lésbica, queria aquele hom em — aquele hom em , aquele ator vinte e cinco anos m ais velho que ela, am igo de sua fam ília havia décadas. Se Priscilla podia se transform ar num hom em heterossexual, então Pegeen podia se transform ar num a m ulher heterossexual.

Naquela prim eira tarde, Axler tropeçou e levou um tom bo sério no degrau de pedra quando entrava na casa com Pegeen, cortando fundo a m ão em que se apoiou ao cair. “Onde você guarda as coisas de prim eiros socorros?”, ela perguntou. Axler lhe explicou e ela entrou na casa para pegá-las, depois lim pou sua ferida com algodão e água oxigenada e cobriu-a com dois Band-Aids. Trouxe-lhe tam bém um copo d’água. Fazia m uito tem po que ninguém lhe trazia um copo d’água.

Ele convidou-a para ficar e j antar. Ela acabou preparando a com ida. Fazia m uito tem po tam bém que ninguém cozinhava para ele. Ela bebeu um a garrafa de cervej a enquanto Axler, sentado à m esa da cozinha, a via preparar a refeição. Havia um a fatia de queij o parm esão na geladeira, havia ovos, havia um pouco de bacon, havia m eio pote de crem e de leite, e com isso e m eio quilo de m assa ela preparou espaguete à carbonara. Axler lem brava-se dela recém -nascida, sendo am am entada pela m ãe, enquanto a via trabalhando em sua cozinha, agindo com o se a casa fosse dela. Era um a presença vibrante, sólida, saudável, cheia de energia, e em pouco tem po ele deixou de se sentir sozinho no m undo sem o seu talento. Sentia-se feliz — um sentim ento inesperado. Norm alm ente, era na hora do j antar que se sentia m ais deprim ido. Enquanto Pegeen cozinhava, ele foi até a sala e pôs para tocar um a gravação de Brendel interpretando Schubert. Não se lem brava da últim a vez em que se dera o trabalho de ouvir m úsica, e antigam ente, na m elhor fase de seu casam ento, havia m úsica tocando o tem po todo.

“O que aconteceu com a sua m ulher?”, ela perguntou, depois que com eram o espaguete e tom aram um a garrafa de vinho.

“Ah, não im porta. Muito chato falar disso.”

“Há quanto tem po você está vivendo aqui sozinho?”

“Tanto tem po que nunca im aginei que fosse possível m e sentir tão sozinho. Às vezes é surpreendente, os m eses passam , as estações passam , e eu aqui, e tudo acontecendo sem m im . Tal com o vai acontecer depois que a gente m orrer.”

“E o seu trabalho de ator?”

“Eu não atuo m ais.”

“Não pode ser”, ela disse. “O que aconteceu?”

“Outro assunto m uito chato.”

“Você se aposentou ou aconteceu algum a coisa?”

Ele se levantou, contornou a m esa, ela se levantou e ele a beij ou.

Ela sorriu, surpresa. Rindo, explicou: “Sou um a anom alia sexual. Transo com m ulheres”.

“Não foi difícil descobrir isso.”

E beij ou-a pela segunda vez.

“Então o que é que você está fazendo?”, ela perguntou.

Ele deu de om bros. “Eu é que não sei. Você nunca transou com um hom em ?”, ele perguntou.

“No tem po da faculdade.”

“Você está com um a m ulher agora?”

“Mais ou m enos”, ela respondeu. “E você?”

“Não.”

Ele sentiu a força dos braços m usculosos da m ulher, apalpou-lhe os seios pesados, apertou-lhe as nádegas com força e puxou-a em sua direção, e beij aram -se outra vez. Então levou-a até o sofá da sala, onde, corando furiosam ente sob o olhar dele, ela tirou o jeans e fez sexo com um hom em pela prim eira vez desde os tem pos da faculdade. Ele fez sexo com um a lésbica pela prim eira vez na vida.

Meses depois, ele perguntou a ela: “Por que é que você veio m e visitar aquele dia?”. “Eu queria ver se tinha alguém com você.” “E quando você viu?”

“Pensei: por que não eu?” “Você é calculista assim o tem po todo?” “Não é cálculo, não. É ir atrás do que você quer. E tam bém ”, acrescentou, “não ir atrás do que você não quer m ais.”

A decana que a havia contratado e trazido para Prescott ficou furiosa quando Pegeen lhe disse que o caso com ela havia term inado. Era oito anos m ais velha do que Pegeen, ganhava quase o dobro do que ela, era um a decana im portante havia m ais de dez anos e, assim , recusou-se a acreditar no que ouvia, a perm itir tal coisa. Telefonava para Pegeen e brigava com ela todos os dias de m anhã, e ligava várias vezes à noite para gritar com ela, xingá-la, exigir um a explicação. Um a vez ligou de um cem itério próxim o, onde, afirm ou, estava “andando de um lado para o outro, furiosa” porque Pegeen a havia tratado daquela m aneira. Acusava-a de tê-la explorado para conseguir o em prego e em seguida, com o um a boa oportunista, de largá-la poucas sem anas depois. Quando Pegeen ia praticar natação na piscina duas vezes por sem ana, no final da tarde, a decana ia nadar lá na m esm a hora e dava um j eito de pegar o arm ário ao lado do de Pegeen. Vivia convidando-a para ir ao cinem a, a um a conferência, a um concerto, a um j antar. Ligava dia sim , dia não para dizer a Pegeen que queria vê-la no outro fim de sem ana. Pegeen j á havia deixado claro que estaria ocupada nos fins de sem ana e que não queria voltar a vê-la. A decana im plorava, gritava — às vezes chorava. Ela não podia viver sem Pegeen. Um a m ulher forte, com petente, bem -sucedida, de quarenta e oito anos, um a m ulher dinâm ica que, segundo se dizia, seria a próxim a reitora da faculdade, e com o era fácil desestruturá-la!

Num dom ingo à tarde, ela ligou para a casa de Axler e pediu para falar com Pegeen Stapleford. Ele largou o telefone e foi até a sala dizer a Pegeen que a ligação era para ela. “Quem é?”, ele perguntou. Sem hesitação, ela respondeu: “E quem m ais poderia ser? A Louise. Com o é que ela sabe que eu estou aqui? Com o foi que ela conseguiu o seu telefone?”. Axler voltou ao aparelho e disse: “Aqui não tem nenhum a Pegeen Stapleford”. “Obrigada”, disse a pessoa, e desligou. Na sem ana seguinte, Pegeen encontrou Louise no cam pus. Louise lhe disse que ia passar dez dias viaj ando e que, quando voltasse, era bom que Pegeen fizesse “algum a coisa pra ela”, com o por exem plo “preparar o j antar pra ela”. Depois disso, Pegeen ficou assustada, prim eiro porque Louise não a deixava em paz nem m esm o depois que ela explicou m ais um a vez que o caso havia term inado, e segundo porque a raiva de Louise im plicava um a am eaça. “Que am eaça?”, ele indagou. “Que am eaça? O m eu em prego. Ela pode m e prej udicar de m il m aneiras, se quiser.” “Ora, m as você tem a m im , não é?”, ele disse. “O que você quer dizer com isso?” “Você tem a m im se precisar de apoio. Eu estou aqui.”

Ele estava ali. Ela estava ali. As possibilidades de cada um haviam m udado radicalm ente.

*

A prim eira peça de roupa que Axler com prou para ela foi um a j aqueta de couro m arrom , j usta, até a cintura, com forro de lã, que ele viu na vitrine de um a loj a na cidadezinha de ricaços que ficava a quinze quilôm etros de sua casa, do outro lado do bosque. Axler entrou na loj a e com prou a j aqueta que lhe pareceu, acertadam ente, ser do tam anho adequado para ela. Custou m il dólares. Pegeen nunca possuíra um a roupa tão cara na vida, e nunca ficara tão bem com um a roupa. Ele disse que era presente de aniversário, fosse lá quando fosse seu aniversário. Nos dias que se seguiram , ela não tirava a j aqueta. Depois foram de carro a Nova York, em princípio para ir a uns restaurantes bons, assistir um ou dois film es e passar o fim de sem ana fora j untos, e Axler acabou com prando m ais roupas para ela — quando o fim de sem ana term inou, tinha gasto m ais de cinco m il dólares em saias, blusas, cintos, j aquetas, sapatos e suéteres, roupas que davam a Pegeen um a aparência m uito diferente da que ela tinha nos traj es que havia trazido de Montana. A prim eira vez que foi à casa de Axler, não possuía praticam ente nenhum a roupa que não pudesse ser usada por um garoto de dezesseis anos — só agora ela estava deixando de andar com o um garoto de dezesseis anos. Nas loj as de Nova York, após experim entar um a roupa num provador, Pegeen ia até onde ele a esperava para lhe m ostrar com o ficava com a roupa e perguntar o que ele achava. A tim idez só a paralisou nas prim eiras horas; depois deixou a coisa acontecer, e no final j á saía da cabine toda coquete, sorrindo de satisfação.

Axler com prava-lhe colares, pulseiras e brincos. Com prava-lhe lingerie fina para substituir os sutiãs esportivos e as calcinhas largas cinzentas. Com prava-lhe baby-dolls de cetim para substituir seus pij am as de flanela. Com prou dois pares de botas com pridas, um m arrom e o outro preto. O único casaco que Pegeen tinha, ela o herdara da falecida m ãe de Priscilla. Era grande dem ais para ela e quadrado com o um a caixa, e assim nos m eses que se seguiram Axler com prou casacos m ais elegantes — cinco ao todo. Poderia ter com prado cem . Não conseguia parar. Levando a vida que levava, quase nunca gastava dinheiro em coisas para si próprio, e nada lhe dava m ais felicidade do que vê-la com um a aparência que j am ais tivera. E, depois de algum tem po, tam bém a ela nada dava m ais felicidade que isso. Era um a verdadeira orgia de m im os e gastos que agradava a am bos.

Mesm o assim , Pegeen não queria que seus pais soubessem daquele caso. Seria doloroso dem ais para eles. Axler perguntou: m ais doloroso do que quando você lhes contou que era lésbica? Ela explicou o que acontecera naquele dia, quando tinha vinte e três anos. Sua m ãe chorou e disse: “Não consigo im aginar nada pior”, e seu pai fingiu que aceitava, m as passou m eses sem sorrir. Houve m uito sofrim ento naquela casa durante um bom tem po depois que Pegeen revelou aos pais o que ela era. “Então por que seria tão doloroso para eles saber que você está com igo?”, Axler perguntou. “Porque eles conhecem você há m uito tem po. Porque vocês têm a m esm a idade.” “Com o você quiser”, ele disse. Mas não conseguia parar de pensar no que a levava a agir assim . Talvez Pegeen estivesse apenas m antendo o hábito de separar sua vida em com partim entos estanques, a vida sexual totalm ente separada da sua vida de filha; talvez não quisesse que sua vida sexual fosse contam inada ou dom esticada por preocupações filiais. Talvez se sentisse constrangida ao trocar as m ulheres por um hom em , e insegura quanto à possibilidade de que aquela m udança fosse perm anente. Mas qualquer que fosse o m otivo, Axler sentia que havia com etido um erro ao perm itir que ela não contasse nada aos pais. Com a idade que tinha, saber que estava sendo m antido em segredo o com prom etia. Tam bém não entendia por que um a m ulher de quarenta anos se preocupava tanto com o que os pais pensavam , especialm ente um a m ulher que j á havia feito toda espécie de coisas que os pais não aprovavam e que j á estava acostum ada com a oposição deles. Não gostava de ver que Pegeen agia com o um a pessoa m ais j ovem , porém não insistiu, pelo m enos não por ora, e assim a fam ília de Pegeen continuava a achar que ela levava sua vida de sem pre, ao m esm o tem po que, com o passar dos m eses, ela lhe parecia, pouco a pouco, porém de m odo natural, abrir m ão dos últim os sinais visíveis daquilo que ela agora denom inava “m eu equívoco de dezessete anos”.

Não obstante, um dia, depois do café da m anhã, surpreendendo a si próprio tanto quanto a ela, Axler perguntou: “Isso é o que você quer m esm o, Pegeen? Até agora nós estam os nos curtindo m uito, e o efeito novidade é forte, o sentim ento é forte e o prazer é forte, m as eu m e pergunto se você sabe m esm o o que está fazendo”.

“Sei, sim . Estou adorando”, ela respondeu, “e não quero que isso acabe.”

“Mas você sabe a que eu estou m e referindo?”

“Sei. Questões de idade. Questões de opção sexual. A sua ligação com os m eus pais. E provavelm ente m ais um as vinte coisas. E nenhum a delas m e incom oda. Algum a delas incom oda você?”

“Será que não seria um a boa ideia”, ele replicou, “antes que um de nós se m achuque m uito, a gente voltar atrás?”

“Você não está feliz?”, ela perguntou.

“Minha vida nos últim os anos tem sido m uito precária. Acho que não tenho m ais forças para aguentar a destruição das m inhas esperanças. Já tive m uito desgosto m atrim onial, e antes disso j á sofri m uito ao term inar com m ulheres. É sem pre doloroso, é sem pre duro, e não quero m e expor a isso a esta altura da m inha vida.”

“Sim on, nós dois fom os abandonados”, disse Pegeen. “Você estava no auge da crise e a sua m ulher pegou as coisas dela e deixou você pra se virar sozinho. Eu fui traída pela Priscilla. Ela não apenas m e abandonou com o tam bém abandonou o corpo que eu am ava pra se tornar um hom em bigodudo cham ado Jack. Se nós fracassarm os, que sej a por nossa causa, não por causa delas, não por causa do seu passado ou do m eu. Não quero expor você a um risco, e sei que é um risco. Aliás, pra nós dois. Eu tam bém estou correndo risco. É diferente do seu, claro. Mas a pior coisa que pode acontecer é você se afastar de m im . Eu não suportaria perder você agora. Se isso acontecer, vou ter que aguentar, m as quanto ao risco — nós j á assum im os esse risco. Já fizem os isso. É tarde dem ais pra querer se proteger pulando fora.”

“Você está dizendo que não quer sair disso enquanto está indo bem ?”

“Exatam ente. Eu quero você, entendeu? Saber que você está com igo m e dá confiança. Não m e deixe. Eu estou adorando, não quero que isso term ine. Não tenho m ais nada a dizer. Só posso dizer que vou tentar, se você tam bém tentar. Isso não é m ais só um caso passageiro.”

“Nós assum im os o risco”, ele disse, repetindo as palavras dela.

“Nós assum im os o risco”, ela replicou.

Quatro palavras cuj o significado era que não havia pior hora para ela ser abandonada por ele. Ela diz o que tiver que dizer, pensou Axler, m esm o que pareça um diálogo de novela de televisão, para que a coisa não term ine, porque ela continua sofrendo, tantos m eses depois, por conta da traição de Priscilla e dos ultim atos de Louise. Ela não faz isso para m e enganar — é um a estratégia instintiva. Mas um dia há de chegar, pensou Axler, em que as circunstâncias vão deixá-la m uito m ais forte para term inar o relacionam ento, enquanto eu vou estar num a posição m ais fraca apenas por ter sido indeciso dem ais para term inar agora. E quando ela estiver forte e eu estiver fraco, o golpe será insuportável.

Ele achava que estava prevendo o futuro com clareza, e no entanto não conseguia fazer nada para m udar a situação. Estava feliz dem ais para m udar.

Com o passar dos m eses, Pegeen deixara o cabelo crescer até quase os om bros, um cabelo castanho abundante com um brilho natural que ela com eçou a achar que devia cortar de m odo diferente do estilo m asculino que havia adotado desde que se tornara adulta. No fim de sem ana, chegou em casa com duas revistas cheias de fotos de cortes de cabelo diferentes, revistas de um tipo que Axler nunca vira antes. “Onde você arrum ou essas revistas?”, ele perguntou. “Um a das m inhas alunas”, ela respondeu. Sentaram -se lado a lado no sofá da sala, e ela ficou a folhear as revistas, dobrando os cantos das páginas em que havia um estilo que lhe parecia apropriado. Por fim , depois que reduziram as possibilidades a duas, ela arrancou as páginas e ele telefonou para um a am iga, um a atriz em Manhattan, e perguntou-lhe em que salão Pegeen devia cortar o cabelo, a m esm a am iga que dissera a Axler onde deveria levar Pegeen para com prar roupas e j oias. “Eu bem que queria ser sustentada assim ”, com entou a am iga. Mas Axler não entendia a coisa dessa m aneira. Tudo o que estava fazendo era aj udar Pegeen a ser um a m ulher que ele gostaria de ter, e não um a m ulher que outra m ulher gostaria de ter. Juntos, em penharam -se nessa causa.

Axler foi com ela a um salão caro no Upper East Side. Um a m oça j aponesa cortou o cabelo de Pegeen depois de ver as duas fotos que eles haviam levado. Axler j am ais vira Pegeen parecer tão indefesa quanto ali, sentada na cadeira do cabeleireiro diante do espelho depois que seu cabelo foi lavado. Nunca a vira tão fraca, tão sem saber com o agir. Vê-la assim , silenciosa, tím ida, às raias da hum ilhação, sem conseguir sequer olhar para sua im agem no espelho, em prestava àquela ida ao cabeleireiro um significado totalm ente diferente, m inando a autoconfiança de Axler e levando-o a perguntar a si próprio, com o j á havia feito m ais de um a vez, se não estaria se deixando cegar por um a ilusão estupenda e desesperada. Com o um a m ulher assim poderia se sentir atraída por um hom em que está perdendo tanto? Ele não estaria levando-a a fingir ser um a pessoa que na realidade não era? Não a estaria fantasiando, com o se um a saia cara pudesse livrá-la de quase vinte anos de experiência vivida? Não estaria distorcendo-a e ao m esm o tem po enganando a si próprio — vivendo um a m entira que term inaria não sendo de m odo algum inofensiva? E se ele acabasse sendo apenas um rápido parêntese de intrusão m asculina num a vida lésbica?

Nesse m om ento, porém , o cabelo castanho, lustroso, abundante de Pegeen foi cortado — abaixo da base do pescoço, em cam adas bem desiguais, o que lhe dava a aparência apropriada de um descabelam ento descuidado — e ela parecia tão transform ada que todas essas perguntas sem resposta deixaram de incom odá-lo; não valia a pena nem m esm o levá-las a sério. Pegeen precisou de um pouco m ais de tem po do que ele para se convencer de que haviam feito a opção correta, m as poucos dias depois o corte de cabelo e tudo que ele representava no sentido de perm itir que Axler m oldasse Pegeen, determ inasse com o deveria ser sua aparência e propusesse qual era a vida verdadeira dela, tudo isso parecia ser m ais do que sim plesm ente aceitável. Talvez porque ela parecia tão bela aos olhos de Axler, Pegeen não reagiu e continuou se subm etendo aos cuidados dele, por m ais que isso destoasse da im agem que havia construído para si própria durante toda sua vida. Se é que de fato a vontade dela é que estava se subm etendo a Axler — se é que não era ela que havia assum ido o controle dele por com pleto.

No final de um a tarde de sexta-feira, Pegeen chegou à casa de Axler perturbada — em Lansing, seus pais haviam recebido um telefonem a noturno de Louise, que lhes dissera que a filha deles a havia enganado e explorado de m odo oportunista.

“O que m ais?”, ele perguntou.

A pergunta quase levou Pegeen às lágrim as. “Ela falou sobre você. Disse que eu estava vivendo com você.”

“E com o foi que eles reagiram ?”

“Foi m inha m ãe que atendeu. Ele estava dorm indo.”

“E qual foi a reação dela?”

“Ela m e perguntou se era verdade. Eu disse a ela que não estava vivendo com você. Que nós agora estávam os m uito am igos.”

“E o seu pai disse o quê?”

“Ele nem pegou o telefone.”

“Por quê?”

“Não sei. Aquela filha da puta! Por que é que ela não para com isso?!”, ela exclam ou. “Essa vaca obsessiva, possessiva, cium enta, rancorosa!”

“Isso dela contar tudo pros seus pais é tão sério pra você?”

“E não é pra você?”, Pegeen perguntou.

“Só porque faz você sofrer. Fora isso, nem um pouco. Eu acho até bom .”

“O que é que eu digo ao m eu pai quando falar com ele?”, ela indagou.

“Pegeen Mike — diga o que você quiser.”

“E se ele não quiser falar com igo?”

“Acho difícil isso acontecer.”

“E se ele quiser falar com você?”

“Aí nós vam os conversar”, respondeu Axler.

“Será que ele está m uito zangado?”

“O seu pai é um a pessoa razoável e sensata. Por que é que ele ia ficar zangado?”

“Ah, aquela filha da puta — ela está com pletam ente enlouquecida. Está descontrolada.”

“É verdade”, ele concordou, “quando ela pensa em você ela sofre. Mas você não está descontrolada, eu não estou e os seus pais tam bém não estão.”

“Então por que foi que m eu pai não falou com igo?”

“Se você está tão preocupada, ligue pra ele e pergunte. Se você preferir, eu falo com ele.”

“Não, pode deixar — eu m esm a falo.”

Pegeen esperou até que term inassem de j antar e ligou para Lansing, do escritório dela, com a porta fechada. Depois de quinze m inutos de conversa, saiu do escritório com o telefone e fez sinal com o aparelho para Axler.

Ele atendeu. “Asa? Alô.”

“Alô. Soube que você seduziu a m inha filha.”

“Estou tendo um caso com ela, sim .”

“Pois eu não posso esconder que estou um pouco espantado.”

“Bom ”, replicou Axler, rindo, “não posso esconder que eu tam bém estou.”

“Quando ela m e disse que ia visitar você, nunca im aginei que isso fosse acontecer”, disse Asa.

“Que bom que você não se incom oda”, Axler respondeu.

Asa fez um a pausa antes de dizer: “A Pegeen é m aior e vacinada. Ela j á deixou de ser criança há m uito tem po. Olha, a Carol quer falar tam bém ”, e passou o telefone para a m ulher.

“Ora, ora”, disse Carol, “quem ia im aginar um a coisa dessas quando nós todos éram os garotos em Nova York?”

“Ninguém ”, respondeu Axler. “Eu não podia im aginar isso no dia que ela chegou aqui.”

“Será que a m inha filha está fazendo a coisa certa?”, perguntou Carol.

“Acho que está.”

“Qual é o seu plano?”, perguntou Carol.

“Não tenho plano nenhum .”

“A Pegeen sem pre nos surpreende.”

“A m im tam bém ”, disse Axler. “E acho que surpreendeu a si própria.”

“Sem dúvida ela surpreendeu a am iga dela, a Louise.”

Ele não quis com entar que a própria Louise era um a surpresa. A intenção de Carol, claram ente, era ser sim pática e cautelosa, m as seu tom seco indicava que aquele telefonem a estava sendo um suplício e que ela e Asa estavam apenas fazendo a coisa certa, com o sem pre, fazendo a coisa sensata que seria a m elhor para a felicidade de Pegeen. Não queriam que ela se afastasse deles aos quarenta anos de idade, tal com o havia se afastado aos vinte e três, quando lhes contou que era lésbica.

No sábado seguinte, Carol veio de avião de Michigan para alm oçar com Pegeen em Nova York. Pegeen pegou o carro e foi à cidade de m anhã e retornou por volta de oito da noite. Axler havia preparado o j antar, e foi só quando term inaram de com er que perguntou a ela com o tinha sido.

“Bem , o que foi que ela disse?”, perguntou Axler.

“Você quer que eu conte toda a verdade?”, retrucou Pegeen.

“Por favor”, ele insistiu.

“Está bem ”, ela disse, “vou tentar lem brar exatam ente o que nós dissem os. Foi um a espécie de interrogatório benigno. Nada de vulgar nem de interesseiro da parte dela. Só aquela franqueza de Kansas típica da m inha m ãe.”

“Diga logo.”

“Você quer ficar sabendo de tudo”, disse Pegeen.

“Quero”, ele respondeu.

“Bom , pra com eçar, no restaurante, ela passou direto pela m inha m esa — não m e reconheceu. Eu disse: ‘Mam ãe’, aí ela virou pra trás e disse: ‘Ah, m eu Deus, é a m inha filha. Mas com o você está bonita’. E eu disse: ‘Bonita? Você não m e achava bonita antes?’. E ela disse: ‘Corte de cabelo novo, roupas de um tipo que eu nunca vi você usar’. E eu disse: ‘Mais fem inina, é o que você quer dizer’. ‘Com certeza’, ela concordou, ‘sim . Você ficou m uito bem , m inha querida. Quando foi que isso com eçou?’ Eu respondi, e ela disse: ‘O corte está m uito bonito. Barato é que não foi’. E eu disse a ela: ‘Estou só tentando um a coisa nova’. E ela: ‘É, você está tentando um a coisa nova, sim , de várias m aneiras. Eu vim até aqui porque queria ter certeza que você pesou bem as im plicações desse seu caso’. Eu respondi que achava que ninguém ficava pesando nada quando se trata de um envolvim ento am oroso. Disse que eu estava m uito feliz no m om ento. E ela: ‘Ficam os sabendo que ele esteve internado num a clínica psiquiátrica. Uns dizem que ele ficou lá seis m eses, outros que foi um ano — eu realm ente não tenho certeza’. Expliquei a ela que você ficou internado vinte e seis dias e que isso j á faz um ano, e que tinha a ver com os seus problem as com o trabalho de ator. Eu disse que você perdeu a capacidade de atuar tem porariam ente, e sem poder trabalhar você entrou em crise. Que todos os problem as em ocionais ou m entais que você teve antes não estavam se m anifestando na nossa vida em com um . Que você era um a das pessoas m ais equilibradas que eu j á tinha conhecido e que quando estam os j untos você parece estável e feliz. E ela perguntou: ‘Ele ainda não está conseguindo trabalhar?’. E eu respondi que sim e não — estava, sim , m as que eu achava que por ter m e conhecido e estar com igo a coisa não era m ais aquela tragédia de antes. Agora era m ais com o um atleta que se m achucou, não está podendo j ogar e está esperando ficar bom . E ela disse: ‘Você não está achando que tem que salvá-lo, não, não é?’. Garanti que não e ela m e perguntou o que é que você fazia pra passar o tem po, e eu respondi: ‘Ele fica com igo. Acho que está planej ando ficar com igo. Ele lê. Ele com pra roupas pra m im ’. Bom , ela aproveitou a deixa: ‘Quer dizer que essas roupas foi ele que com prou pra você. Ora, eu diria que talvez exista um a fantasia de salvação nessa história’. Respondi que ela estava exagerando, que era só um a coisa que nós dois gostávam os de fazer, por que não deixarm os as coisas assim ? Eu disse: ‘Ele não está m e levando a fazer nada que eu não queira fazer’. Ela perguntou: ‘Você vai com ele quando ele com pra roupa pra você?’. Eu respondi: ‘Norm alm ente vou. Mas insisto que é um a coisa que faz ele ficar feliz. E eu percebo isso nele. Com o, por acaso, é um a experiência que eu tam bém estou com vontade de ter’, continuei, ‘não vej o m otivo pra ninguém se preocupar’. E foi então que a conversa m udou de direção. Ela disse: ‘Pois preciso dizer que estou preocupada, sim . Você não está acostum ada a lidar com hom ens, e eu acho estranho — se bem que talvez não sej a tão estranho assim — que o hom em que você escolheu pra dar início a essa nova vida é um hom em vinte e cinco anos m ais velho que você, que entrou em crise e teve que se internar. E que agora, na verdade, está desem pregado. Todas essas coisas não m e cheiram bem ’. Respondi que não m e parecia nada pior do que a situação em que eu estava antes, com um a pessoa que m e am ava m uito e que um belo dia m e disse: ‘Não posso continuar com esse corpo’, e resolveu que queria ser hom em . E então fiz o m eu discurso, o discurso que eu havia preparado e ensaiado em voz alta no carro, indo pra Nova York. Eu disse: ‘E quanto à idade dele, m am ãe, não acho que isso sej a um problem a. Se eu vou tentar m e tornar atraente para os hom ens e tam bém ver se sou m esm o atraída por eles, isso m e parece um excelente teste. Essa pessoa é o teste. Os vinte e cinco anos pra m im representam vinte e cinco anos de m ais experiência do que um a pessoa que fosse da m inha idade. Não estam os falando em nos casar. Eu j á lhe disse — estam os só nos curtindo. E em parte eu o estou curtindo por ele ser vinte e cinco anos m ais velho do que eu’. E ela disse: ‘E ele está curtindo você porque você é vinte e cinco anos m ais m oça que ele’. Eu disse: ‘Não vá se ofender, não, m am ãe, m as será que você está com ciúm e?’. E ela riu, dizendo: ‘Minha querida, tenho sessenta e três anos e estou m uito bem casada com seu pai há m ais de quarenta anos. É verdade’, disse ela, ‘e talvez você vá gostar de saber disto, que quando fiz o papel de Pegeen Mike e o Sim on interpretou o Christy na peça de Sy nge, eu fiquei m eio caída por ele. E quem não ficava? Ele era m uito atraente, cheio de energia, exuberante, brincalhão, era um hom em grande, um ator m aravilhoso, j á naquela época dava pra ver que o talento dele era m uito m aior que o de todo m undo. É, fiquei caída por ele, sim , m as eu j á estava casada e grávida de você. Foi um a paixonite que passou. De lá pra cá, acho que estive com ele no m áxim o um as dez vezes. Tenho o m aior respeito por ele com o ator. Mas continuo a m e preocupar com essa história de internação. Não é pouca coisa, um a pessoa se internar num a clínica psiquiátrica e passar um tem po lá, sej a pouco ou m uito. Olhe’, ela disse, ‘pra m im o im portante é que você não está entrando nessa história às cegas. Não vale a pena você fazer um a coisa que, por falta de experiência, um a garota de vinte anos poderia fazer. Eu não quero que você entre nessa de inocente’. E eu disse: ‘Eu de inocente não tenho nada, m am ãe’. Perguntei o que ela tinha m edo que acontecesse com igo que não poderia acontecer com qualquer um a. E ela disse: ‘Do que é que eu tenho m edo? Eu tenho m edo de pensar que ele está envelhecendo a cada dia. É assim que a coisa é. Um dia você tem sessenta e cinco anos, depois você tem sessenta e seis, depois sessenta e sete, e por aí vai. Daqui a uns poucos anos ele vai estar com setenta. Você vai estar com um hom em de setenta anos. E a coisa não para aí’, ela prosseguiu. ‘Depois ele vai estar com setenta e cinco anos. Não para. Continua. Ele vai com eçar a ter os problem as de saúde típicos dos velhos, e talvez até coisas piores, e você vai ter que tom ar conta dele. Você está apaixonada por ele?’, ela perguntou. Eu disse que achava que estava. E ela perguntou: ‘E ele está apaixonado por você?’. E eu respondi que achava que sim . Eu disse: ‘Acho que a coisa vai dar certo, m am ãe. Fico até pensando que ele tem m ais m otivos pra se preocupar que eu. Que essa situação é m ais precária pra ele do que pra m im ’. Ela perguntou: ‘Com o assim ?’. Eu respondi: ‘Bom , com o você m esm a diz, eu estou experim entando isso pela prim eira vez. Em bora pra ele sej a novidade tam bém , pra m im é um a novidade m uito m aior. Estou m uito surpresa de constatar que estou adorando. Mas ainda não posso afirm ar que essa m udança é um a coisa que eu vou querer em caráter definitivo’. E ela disse: ‘Está bem , não quero ficar insistindo e dar a im pressão de que a coisa é m ais urgente do que é, do que vai vir a ser. Eu só achei que era im portante falar com você, e faço questão de dizer, m ais um a vez, que fiquei m uito bem im pressionada com a sua aparência’. E aí eu perguntei a ela: ‘Isso faz você achar que você continua preferindo que sua filha não fosse lésbica?’. Ela respondeu: ‘Me faz pensar que talvez você tenha preferido não continuar sendo lésbica. É claro que você pode fazer o que bem entender. Quando você era j ovem e m uito independente, você nos ensinou isso. Mas não tenho com o não perceber a m udança física. Você está fazendo tudo pra que todo m undo perceba isso. Até os olhos você está pintando. É um a transform ação im pressionante’. Foi então que eu perguntei: ‘O que você acha que o papai diria?’. E ela respondeu: ‘Ele não pôde vir porque um a nova peça vai estrear daqui a uns dias e não dá pra ele se afastar. Mas ele queria vir tam bém , e assim que a peça entrar em cartaz ele vem , se você não se incom odar. E aí você pergunta diretam ente a ele. Mas é isso. Vam os fazer um as com pras?’, ela m e convidou. ‘Adorei o seu sapato. Onde foi que você com prou?’ Eu disse a ela, e ela: ‘Você se incom oda se eu com prar um igualzinho? Quer ir com igo lá?’. E assim fom os de táxi à Madison Avenue e ela com prou um par de escarpins de verniz rosa e bege, de bico fino e saltinho. Agora ela está lá em Michigan usando o m eu sapato Prada. Ela tam bém gostou da m inha saia, e aí fom os com prar um a saia pra ela parecida com a m inha, lá no SoHo. Um final feliz, não é? Mas no fim da tarde, sabe o que ela disse antes de ir pro aeroporto com suas sacolas de com pras? É isto, e não a história dos sapatos, que é o verdadeiro fim . Ela disse: ‘O que você tentou fazer com igo no alm oço, Pegeen, foi m e convencer de que isso que você está fazendo é a coisa m ais sensata e razoável no m undo, o que não é verdade, claro. Mas é perda de tem po um a pessoa de fora tentar convencer você que você não devia gostar da coisa que você acorda todos os dias querendo, a coisa que está tirando você de um cotidiano m açante. Eu preciso lhe dizer que logo que fiquei sabendo dessa história, achei que era um a m aluquice e um a im prudência. E agora que conversei com você e passei o dia com você, que saí pra fazer com pras com você pela prim eira vez desde que você entrou na faculdade, agora que eu vi que você está com pletam ente tranquila, racional e decidida a respeito da situação, eu continuo achando um a m aluquice e um a im prudência’.”

Nesse ponto, Pegeen calou-se. Ela levara quase m eia hora para relatar aquela conversa, e durante todo o tem po Axler perm anecera calado, sem se levantar da cadeira, e não pedira que ela parasse em nenhum a das várias ocasiões em que teve a im pressão de que j á ouvira o suficiente. Mas não era do seu interesse pedir-lhe que parasse — era do seu interesse saber tudo, ouvir tudo, até m esm o, se necessário fosse, ouvi-la dizer: “Ainda não posso afirm ar que essa m udança é um a coisa que eu vou querer em caráter definitivo”.

“Foi isso. Só isso”, disse Pegeen. “Foi basicam ente isso o que a gente disse.”

“Foi m elhor ou pior do que você esperava?”, ele perguntou.

“Muito m elhor. No carro, indo pra lá, eu estava m uito nervosa.”

“Bem , pelo visto você não tinha m otivo pra ficar nervosa. Você se saiu m uito bem .”

“Depois fiquei m uito nervosa na volta, pensando em contar tudo isso a você, sabendo que, se eu dissesse a verdade, você não ia gostar de tudo que eu ia dizer.”

“Você tam bém não tinha m otivo pra isso.”

“É m esm o? Espero que por eu ter contado tudo você não fique contra a m inha m ãe.”

“A sua m ãe disse o que toda m ãe diria. Eu com preendo.” Ele riu e acrescentou: “Na verdade, confesso que até concordo com ela”.

Em voz baixa, corando enquanto falava, Pegeen acrescentou: “Espero que o que eu contei não faça você ficar contra m im ”.

“Pelo contrário, isso m e fez adm irar você”, disse ele. “Você não se esquivou de nada, nem quando falou com ela nem quando falou com igo agora.”

“Sério? Você não está m agoado?”

“Não.” Mas é claro que estava — m agoado e irritado. Havia escutado tudo em silêncio — escutado com atenção, tal com o havia escutado em toda sua vida, no palco e fora do palco —, m as o que m ais lhe doera fora a explanação feita por Carol do processo de envelhecim ento e o im pacto que isso teria sobre sua filha. Além disso, por m ais que ele negasse agora, tam bém o perturbara aquela expressão “um a m aluquice e um a im prudência”. Toda aquela história o enoj ava. Talvez não se incom odasse se Pegeen tivesse vinte e dois anos e houvesse um a diferença de quarenta anos entre eles, m as por que essa estranha relação possessiva com um a quarentona despachada? E por que cargas-d’água um a quarentona haveria de se im portar com o que os pais dela queriam ? Em parte, Axler pensava, eles deviam até gostar de ela estar com ele, pelo m enos do ponto de vista estritam ente financeiro. Afinal, um hom em fam oso e cheio de dinheiro estava tom ando conta dela. E ela, tam bém , j á está deixando para trás a j uventude. Ela resolve viver com um hom em que realizou algum a coisa na vida — qual é o problem a? E no entanto, a m ensagem é: você não devia se tornar responsável por um velho m aluco.

Porém , com o Pegeen havia aparentem ente rej eitado a visão que Carol tinha dele, Axler achou m elhor não m encionar todas as outras coisas que não o haviam agradado. O que adiantaria atacar a m ãe de Pegeen por se introm eter? Melhor dar a im pressão de que levava aquilo na brincadeira. Se ela viesse a enxergá-lo pelos olhos da m ãe, ele não poderia fazer nada m esm o.

“Você é m aravilhoso pra m im ”, disse Pegeen. “Você é tudo que eu precisava.”

“Com o você é pra m im ”, ele retrucou, e deixou a coisa por isso m esm o. Não acrescentou: “E quanto aos seus pais, se pudesse eu os pouparia, m as não posso pautar m inha vida pelos sentim entos deles. Os sentim entos deles não são m uito im portantes pra m im , pra ser sincero, e a essa altura dos acontecim entos tam bém não deviam ser pra você”. Não, ele não diria nada disso. Era m elhor calar a boca, ter paciência e torcer para que a fam ília de Pegeen pouco a pouco saísse de cena.

No dia seguinte, Pegeen se dedicou à tarefa de retirar o papel de parede de seu escritório. Aquele papel tinha sido escolhido por Victoria m uitos anos antes, e em bora Axler fosse de todo indiferente a esse tipo de coisa, Pegeen não o suportava e perguntou-lhe se podia arrancá-lo. Axler respondeu que aquele quarto era dela, que ela podia fazer com ele o que quisesse, tal com o o quarto dos fundos do segundo andar e o banheiro ao lado dele, e aliás com todos os outros côm odos da casa. Ele lhe disse que podia cham ar um pintor para fazer aquilo, m as Pegeen insistiu que ela própria se encarregaria de arrancar o papel e pintar as paredes, desse m odo apossando-se oficialm ente do escritório. Tinha em sua casa todas as ferram entas necessárias para arrancar papel de parede, e ela as havia trazido consigo para com eçar o serviço naquele dom ingo, exatam ente um dia depois de sua m ãe, em Nova York, ter lhe dito que não via com bons olhos sua presença naquela casa. Naquele dia, ele foi vê-la retirando o papel de parede um as dez vezes, e a cada vez saía do escritório repetindo interiorm ente o m esm o pensam ento tranquilizador: ela não estaria trabalhando daquele j eito se Carol a tivesse convencido a deixá-lo. Ela não estaria fazendo aquilo se não estivesse planej ando ficar.

Naquela tarde, Pegeen voltou à faculdade, pois teria de dar aula na m anhã seguinte bem cedo. Quando o telefone tocou por volta das dez da noite de dom ingo, ele achou que seria Pegeen dizendo que havia chegado bem . Não era. Era a decana rej eitada. “Estej a avisado, vossa celebridade: ela é desej ável, audaciosa, totalm ente sem escrúpulos, totalm ente fria, incrivelm ente egoísta e com pletam ente am oral.” Em seguida, desligou.

Na m anhã seguinte, Axler deixou o carro na oficina para fazer um conserto, e o m ecânico foi levá-lo em casa no reboque. Ficou de devolver o carro a Axler no final da tarde. Por volta do m eio-dia, quando Axler foi à cozinha preparar um sanduíche, por acaso estava olhando pela j anela quando viu algum a coisa passar correndo pelo cam po ao lado do celeiro e desaparecer atrás dele. Dessa vez era um a pessoa, não um gam bá. Axler recuou da j anela da cozinha e ficou aguardando para ver se havia um a segunda, terceira ou quarta pessoa escondidas em algum lugar. Nos últim os m eses, havia ocorrido um a série preocupante de arrom bam entos de casas no condado, quase sem pre casas fechadas, frequentadas apenas nos finais de sem ana, e Axler im aginou que talvez, por seu carro não estar na garagem , os ladrões tivessem escolhido sua casa para roubá-la em plena luz do dia. Rapidam ente, subiu até o sótão para pegar sua arm a e carregá-la. Em seguida, voltou à cozinha e ficou vigiando o terreno pela j anela. Cem m etros ao norte, na estrada que corria perpendicular à sua rua, viu um carro estacionado, m as estava tão longe que não era possível ver se havia alguém dentro dele. Não era com um ver um carro estacionado ali a qualquer hora do dia ou da noite — havia um m orro coberto de floresta do outro lado da estrada, e do lado de sua casa havia cam po aberto entre a estrada e o celeiro, a garagem e a casa. De repente a pessoa escondida atrás do celeiro foi saindo sorrateiram ente do esconderij o e correu para a frente da casa. Da cozinha, ele viu que era um a m ulher alta, m agra, ruiva, que traj ava jeans e um a j aqueta de náilon azul-m arinho. Estava olhando para dentro da sala de visita pela j anela. Com o ele ainda não sabia se ela estava sozinha ou não, por um m om ento Axler ficou im óvel, com a arm a nas m ãos. A m ulher então passou a andar de um a j anela a outra, parando diante de cada um a e olhando bem para o interior da casa. Axler saiu pela porta dos fundos e, sem que a m ulher o visse, chegou a cerca de três m etros dela, quando ela estava olhando para dentro da sala de visitas por um a das j anelas no lado sul da casa.

Apontando a arm a para ela, Axler perguntou: “A senhora está precisando de algum a coisa?”.

“Ah!”, a m ulher exclam ou, virando-se e vendo-o. “Ah, desculpe.”

“A senhora está sozinha?”

“Estou sozinha, sim . Meu nom e é Louise Renner.”

“A senhora é a decana.”

“Isso m esm o.”

Ela não parecia ser m uito m ais velha do que Pegeen, m as era bem m ais alta, apenas um pouco m ais baixa do que Axler, e com seu porte m uito ereto, o cabelo ruivo penteado para trás, expondo a testa alta, e preso na nuca num coque severo, tinha um a certa aura heroica de estátua. “O que é que a senhora está querendo?”, ele indagou.

“Estou invadindo a sua propriedade, eu sei. Eu não ia fazer nada de m au. Pensei que não havia ninguém em casa.”

“A senhora j á esteve aqui antes?”

“Só passei por aqui de carro.”

“Por quê?”

“O senhor podia baixar essa arm a? Ela está m e deixando m uito nervosa.”

“Bem , e a senhora m e deixou nervoso espiando pelas j anelas.”

“Desculpe. Peço desculpas. Foi um a estupidez. Um a coisa vergonhosa. Eu vou em bora.”

“O que a senhora estava fazendo?”

“O senhor sabe”, ela respondeu.

“Me diga.”

“Eu só queria saber onde ela passa os fins de sem ana.”

“A senhora não está nada bem . Veio lá de Verm ont pra descobrir isso.”

“Ela prom eteu que nós ficaríam os j untas pra sem pre, e três sem anas depois foi em bora. Peço desculpas m ais um a vez. Isso nunca aconteceu com igo. Eu não tinha nada que vir aqui.”

“E im agino que não tenha sido nada bom m e encontrar em casa.”

“Não, não foi.”

“Isso deixou a senhora fervendo de ciúm e”, ele retrucou.

“De ódio, se o senhor quer saber a verdade.”

“Foi a senhora que telefonou ontem à noite.”

“Eu não estou conseguindo m e controlar”, ela respondeu.

“A senhora está obcecada, por isso m e telefona, está obcecada, e por isso invade a m inha propriedade. E no entanto é um a m ulher m uito atraente.”

“É a prim eira vez que um hom em arm ado m e diz isso.”

“Não sei por que ela a trocou por m im .”

“Não sabe, não?”

“A senhora é um a valquíria ruiva e eu sou um velho.”

“Um velho que é um a estrela, senhor Axler. Não faça de conta que o senhor não é ninguém .”

“A senhora não quer entrar?”, ele convidou.

“Por quê? Quer m e seduzir tam bém ? É a sua especialidade, converter lésbicas?”

“Minha senhora, não fui eu que banquei o espião. Não fui eu que liguei pros pais dela lá em Michigan à m eia-noite. Não fui eu que dei um telefonem a anônim o pra ‘vossa celebridade’ ontem à noite. Não dá pra senhora assum ir esse tom de acusação.”

“Eu estou fora de m im .”

“A senhora acha que ela vale tanto assim ?”

“Não. Claro que não”, a m ulher respondeu. “Ela não é nada bonita. Não é tão inteligente assim . E não é adulta. É um a pessoa anorm alm ente infantil pra idade dela. No fundo, não passa de um a criança. Ela transform ou a nam orada dela lá de Montana num hom em . Me transform ou num a pedinte. Sabe-se lá em que ela vai transform ar o senhor. Por onde passa, ela deixa um a trilha de desgraça. De onde ela tira tanto poder?”

“Tente adivinhar”, ele retrucou.

“É isso que é a causa do desastre?”, a decana perguntou.

“Ela tem algum a coisa sexualm ente m uito poderosa”, ele respondeu, e observou que a m ulher recuou diante daquelas palavras. Mas não devia m esm o ser fácil para a perdedora se ver diante do vencedor.

“Ela tem m uita coisa de poderoso”, disse a decana. “Ela é m ulher e hom em . É criança e adulta. Tem um a adolescente dentro dela que nunca cresceu. Ela é ingênua e esperta. Mas não é a sexualidade dela por si só que lhe dá poder — som os nós. Som os nós que conferim os a ela o poder de destruir. A Pegeen não é ninguém , o senhor sabe.”

“A senhora não estaria sofrendo tanto se ela não fosse ninguém . Ela não estaria aqui se não fosse ninguém . Olha, m elhor a senhora entrar. Pra ver tudo bem de perto.” E para que ele ouvisse m ais a respeito de Pegeen, por m ais que as observações daquela m ulher fossem distorcidas pelo fato de ela ter sido “explorada” por Pegeen. Sim , ele queria ouvi-la falar, das profundezas de sua m ágoa, da pessoa no m undo que estava m ais próxim a a ele.

“Acho que j á m e dou por satisfeita”, disse a decana.

“Entre”, ele insistiu.

“Não.”

“Está com m edo de m im ?”, ele perguntou.

“Eu fiz um a bobagem e peço desculpas. Invadi sua propriedade e lam ento o que fiz. E agora eu queria que o senhor m e deixasse ir em bora.”

“Eu não estou prendendo a senhora. A senhora sem pre dá um j eito de se colocar num a posição m oralm ente superior. Mas não fui eu que a convidei pra vir aqui.”

“Então por que é que o senhor quer que eu entre? Porque seria um a vitória transar com a m ulher com quem a Pegeen transava?”

“Não tenho essa am bição. Estou satisfeito com as coisas tal com o elas estão. Eu estava só sendo educado. Eu podia lhe oferecer um café.”

“Não”, disse a decana, fria. “Não, você quer é m e com er.”

“Isso é o que você quer que eu queira?”

“Isso é o que você quer.”

“Foi pra tentar conseguir isso que você veio até aqui? Pra se vingar da Pegeen na m esm a m oeda?”

De repente ela não conseguiu m ais ocultar seu sofrim ento e com eçou a chorar. “Tarde dem ais, tarde dem ais”, soluçava.

Axler não entendeu a que ela se referia, m as não quis perguntar. Enquanto Louise chorava cobrindo o rosto com as m ãos, ele lhe deu as costas e, com a arm a a seu lado, voltou para dentro de casa pela porta dos fundos, tentando acreditar que nada do que ela dissera sobre Pegeen, nem ainda havia pouco, ali fora, nem na noite anterior, pelo telefone, podia ser levado a sério.

Quando telefonou a Pegeen naquela noite, não m encionou o que ocorrera à tarde, e tam bém não lhe falou sobre a visita de Louise quando Pegeen veio para sua casa no fim de sem ana, e, enquanto faziam am or, não conseguiu deixar de pensar na valquíria ruiva e na fantasia do que não tinha acontecido.