A Humilhação

Philip Roth · Capítulo 3 de 3

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A Humilhação

3. O último ato

 

Por causa da dor na coluna, na hora de trepar Axler não podia se deitar em cim a de Pegeen, e nem m esm o ficar de lado; assim , ele se punha em decúbito dorsal enquanto ela m ontava nele, apoiando-se com os j oelhos e as m ãos para não j ogar seu peso sobre a pélvis dele. De início, Pegeen ficava totalm ente sem know-how nessa posição, e Axler era obrigado a guiá-la com as duas m ãos, indicando-lhe o cam inho. “Eu não sei o que fazer”, disse ela, tím ida. “Você está m ontada num cavalo”, ele respondeu. “Vá em frente.” Quando Axler enfiou o polegar no cu de Pegeen, ela suspirou de prazer e cochichou: “Ninguém nunca enfiou nada aí dentro” — “Im provável”, ele cochichou em resposta — e quando m ais tarde enfiou o pau lá, Pegeen deixou que ele introduzisse o m áxim o possível, até não aguentar m ais. “Doeu?” “Doeu, m as é você.” Muitas vezes depois ela segurava o pau dele na m ão espalm ada e ficava olhando, vendo a ereção refluir. “O que você está olhando?”, ele perguntou. “Isso enche a gente”, ela respondeu, “de um j eito que um consolo ou um dedo não consegue. Está vivo. É um a coisa viva.” Em pouco tem po Pegeen aprendeu a cavalgar, e não dem orou para que com eçasse a lhe pedir, enquanto subia e descia devagar: “Me bate”. E quando ele batia, ela debochava: “Isso é toda a sua força?”. “O seu rosto j á está verm elho.” “Mais forte”, ela pedia. “Está bem , m as por quê?” “Porque eu deixo você fazer isso. Porque dói. Porque assim eu m e sinto um a m enininha, e m e sinto um a puta. Bate. Mais forte.”

Num fim de sem ana, Pegeen trouxe um pequeno saco plástico cheio de brinquedos sexuais e despej ou seu conteúdo sobre a cam a quando estavam se preparando para deitar-se. Axler j á tinha visto consolos antes, porém só em fotografias vira as cintas de couro que m antinham o consolo no lugar e perm itiam que um a m ulher m ontasse na outra e a penetrasse. Ele pedira a Pegeen que trouxesse os brinquedos, e agora ficou vendo-a prender os arreios na cintura e apertá-los com o um cinto. Parecia um pistoleiro se vestindo, o m esm o porte arrogante. Depois inseriu um pênis de borracha verde no local apropriado dos arreios, exatam ente na altura de seu clitóris. Ficou em pé, ao lado da cam a, nua, com o consolo em riste. “Deixa eu ver o seu”, disse ela. Axler tirou as calças e j ogou-as na cam a enquanto ela segurava o pênis verde e, tendo-o lubrificado com vaselina, fingiu m asturbar-se com o um hom em . Adm irado, Axler com entou: “Parece de verdade”. “Você quer que eu com a você.” “Não, obrigado”, ele respondeu. “Não vou te m achucar”, disse ela, sedutora, baixando o tom de voz. “Prom eto que vou ser m uito delicada”, insistiu. “Engraçado, m as você não parece que vai ser m uito delicada.” “As aparências enganam . Ah, deixa”, pediu, rindo, “você vai gostar. É um a nova fronteira.” “Quem vai gostar é você. Não, prefiro que você m e chupe”, ele retrucou. “Mas eu fico com a m inha piroca”, ela disse. “Isso m esm o.” “Eu fico com o m eu pirocão verde.” “É o que eu quero.” “Eu fico com o m eu pirocão verde e você brinca com os m eus peitinhos.” “Acho que assim está bom .” “E depois que eu chupar você”, ela disse, “você m e chupa. Você chupa o m eu pirocão verde.” “Isso eu faço”, ele respondeu. “Quer dizer que isso você faz. Você traça um as fronteiras estranhas. Sej a com o for, fique sabendo que você é um trem endo tarado, pra curtir um a garota com o eu.” “Posso até ser um tarado, m as eu acho que você não é m ais um a garota com o você.” “Ah, não acha, não?” “Não com esse corte de cabelo de duzentos dólares. E com essa roupa. E com um sapato que a sua m ãe resolveu com prar igual.” A m ão dela continuava a m asturbar lentam ente o consolo. “Você realm ente acha que conseguiu m e tirar do lesbianism o com dez m eses de trepação?” “Você está m e dizendo que continua transando com m ulheres?”, ele perguntou. Ela continuou a m asturbar o consolo. “É isso, Pegeen?” Com a m ão livre ela levantou dois dedos. “O que é que isso quer dizer?”, ele perguntou. “Duas vezes.” “Com a Louise?” “Você está m aluco.” “Então com quem ?” Ela ficou verm elha. “Tinha dois tim es de garotas j ogando softbol no cam po que eu passo todo dia quando vou pra faculdade. Estacionei, saltei e fiquei lá assistindo a partida.” Após um a pausa, ela confessou: “Quando term inou o j ogo, a arrem essadora, um a lourinha de rabo de cavalo, foi pra casa com igo”. “E a segunda vez?” “A outra arrem essadora, loura com rabo de cavalo.” “E pra com pletar o tim e, ainda tem várias j ogadoras esperando a vez”, ele com entou. “Não foi um a coisa planej ada”, ela argum entou, ainda acariciando o pau verde. “Talvez, Pegeen Mike”, disse ele, com o sotaque irlandês que não usava desde os tem pos que atuou em O prodígio do mundo ocidental, “fosse bom você m e dizer se está pretendendo fazer isso de novo. Eu preferia que isso não acontecesse”, acrescentou, sabendo que não tinha o poder de segurá-la só para si, sabendo que seu ardor era algo risível — e tentando ocultar seus sentim entos por trás do sotaque. “Eu j á disse, não foi um a coisa planej ada, de j eito nenhum ”, e então, ou porque o desej o a dom inou ou porque queria obrigá-lo a se calar, percorreu com os lábios a extensão do pau de Axler enquanto o olhar dele perm anecia hipnoticam ente fixado no dela, e sua sensação de im potência, e a consciência de que aquele caso era um a loucura sem sentido e de que o histórico de vida de Pegeen era inflexível e Pegeen era inatingível, e de que ele estava provocando um a nova catástrofe que desabaria sobre sua cabeça, tudo isso com eçou a se esvair. A estranheza daquela com binação teria repelido m uitos hom ens. Só que a estranheza era j ustam ente o que o excitava tanto. Porém o terror tam bém perm anecia, o terror de voltar a ficar com pletam ente arrasado. O terror de se tornar a próxim a Louise, a ex-am ante ressentida, enlouquecida, vingativa.

O pai de Pegeen não m elhorou nem um pouco a situação quando foi visitá-la em Nova York um sábado depois da visita de sua m ãe. Asa retom ou a discussão no ponto em que Carol a havia interrom pido, m encionando os perigos daquela ligação, enfatizando m enos a idade avançada de seu am ante do que o estado psiquiátrico periclitante dele. A estratégia de Axler, porém , perm aneceu a m esm a: tolerar tudo o que ouvia; não se apressar em contestar os pais de Pegeen enquanto ela não cedesse aos argum entos deles.

“Sua m ãe tem razão — o cabelo ficou ótim o”, o pai de Pegeen lhe disse, segundo ela relatou depois. “E ela tam bém tem razão quanto às suas roupas”, ele prosseguiu. “É m esm o? Você acha que eu fiquei bem ?” “Você está m aravilhosa”, ele respondeu. “Melhor do que antes?” “Diferente. Muito diferente.” “Eu agora pareço m ais o tipo de filha que você gostaria de ter tido?”

“Você está m esm o com um a aparência que nunca teve. Agora, m e fale sobre o Sim on.” “Depois da barra-pesada que ele passou lá no Kennedy Center”, ela com eçou, “ele foi parar num a clínica psiquiátrica. É sobre isso que você quer conversar?”, ela indagou. “É, isso m esm o”, ele respondeu. “Todo m undo tem problem as sérios, papai.” “Todo m undo tem problem as sérios, m as nem todo m undo acaba internado num a clínica psiquiátrica.” “E por falar nisso”, ela acrescentou, “e a diferença de idade? Você não vai perguntar isso tam bém ?”

“Deixe eu perguntar um a outra coisa: você está deslum brada com a fam a dele, Pegeen? Você sabe que tem certas pessoas que trazem em volta delas um a espécie de cam po de força, um cam po elétrico? No caso dele, tem a ver com o fato dele ser um a estrela. Você está deslum brada com isso?” Ela riu. “No início, provavelm ente estava. A essa altura, posso lhe garantir, ele é só ele m esm o.”

“Posso lhe perguntar até que ponto vocês estão com prom etidos um com o outro?”, ele indagou. “Nós não falam os m uito nisso.” “Então você podia falar sobre isso com igo. Você pretende se casar com ele, Pegeen?” “Acho que ele não está interessado em se casar com ninguém .” “E você?” “Por que é que você está m e tratando com o se eu tivesse doze anos?”, ela retrucou. “Porque em m atéria de hom em talvez você realm ente estej a m ais pros doze do que pros quarenta. Olha aqui, o Sim on Axler é um ator fascinante, e deve ser um hom em fascinante pras m ulheres. Mas ele tem a idade que tem , e você tem a idade que tem . Ele teve a vida que teve, com suas realizações triunfais e suas crises catastróficas, e você teve a vida que teve. E porque essas crises dele m e preocupam m uitíssim o, eu não posso fazer pouco delas com o você faz. Não vou fazer de conta que não vou tentar pressionar você. É j ustam ente isso que eu vou fazer.”

E foi o que seu pai fez — ao contrário da m ãe, não term inou o dia fazendo com pras com a filha, porém passou a telefonar para a casa dela todas as noites, por volta da hora do j antar, para continuar, com a m esm a ênfase, a conversação iniciada naquele alm oço em Nova York. Era raro pai e filha conversarem por m enos de um a hora.

Na cam a, na noite depois do encontro com o pai em Nova York, Axler disse a Pegeen: “Quero que você saiba, Pegeen, que estou estarrecido com toda essa história dos seus pais. Não estou entendendo o lugar que eles estão ocupando na nossa vida. Me parece um a coisa excessiva e, pensando bem , um pouco absurda. Por outro lado, sei que em qualquer etapa da vida as pessoas têm , nas relações com os pais, uns m istérios que às vezes são surpreendentes. Já que é assim , quero lhe fazer um a proposta: se você quiser que eu vá até Michigan pra conversar com seu pai, eu pego o avião e vou, ouço tudo o que ele tem a dizer, e quando ele m e disser por que é contra a nossa relação, eu não vou nem discutir — vou concordar com ele. Vou dizer que todas as preocupações dele fazem sentido e que eu concordo — que aparentem ente a nossa relação é m esm o um a coisa im provável, que sem dúvida envolve riscos. Mas o fato é que eu e a filha dele tem os os sentim entos que tem os um pelo outro. E o fato de ele e a Carol terem sido m eus am igos quando éram os j ovens em Nova York não tem absolutam ente nenhum a relevância. Essa é a única defesa que eu pretendo fazer, Pegeen, se você quiser que eu vá lá falar com ele. Você decide. Eu vou esta sem ana m esm o, se você quiser. Vou am anhã m esm o, se é isso que você quer”.

“Esse encontro com igo j á foi m ais do que suficiente”, ela respondeu. “Não tem por que levar essa história adiante. Principalm ente depois que você deixou claro que acha que a coisa foi longe dem ais.”

“Não sei se isso é um a boa ideia”, ele disse. “É m elhor enfrentar o pai furioso...”

“Mas m eu pai não está furioso, isso não é da natureza dele, e acho sem sentido provocar um a cena, se não tem nenhum a cena prestes a acontecer.”

Ele pensou: ah, m as tem , sim — esses seus pais responsáveis e caretas ainda não se deram por satisfeitos. Porém lim itou-se a dizer: “Está bem . Eu só queria fazer a m inha proposta. Quem decide é você”.

Mas seria essa atitude a correta? Não seria Axler a pessoa que devia neutralizar os pais, enfrentando-os e não sim plesm ente deixando que as coisas fossem se resolvendo por si? Na verdade, ele devia ter ido com Pegeen a Nova York — devia ter insistido em estar presente e enfrentar Asa. Apesar do que ela lhe dissera para tranquilizá-lo, ele não queria abrir m ão da ideia de que Asa era um pai furioso e que seria m elhor enfrentá-lo do que fugir dele. Você está deslumbrada? É claro que a leitura de Asa não podia ser outra, ele que nunca conseguiu um papel im portante no teatro. Isso m esm o, pensou Axler, para Asa foi a m inha fam a que roubou sua única filha, a fam a que ele próprio j am ais conseguiu ter.

Foi no m eio da sem ana seguinte que Axler finalm ente leu o j ornal local da sexta-feira anterior, que trazia na prim eira página um a m atéria sobre um assassinato ocorrido num subúrbio de classe m édia alta a cerca de quarenta quilôm etros dali. Um hom em de quarenta e tantos anos, cirurgião plástico de sucesso, fora assassinado a tiros pela esposa. A esposa se cham ava Sy bil Van Buren.

Ao que parecia, os dois j á estavam m orando em casas separadas. A m ulher foi de carro até a casa dele, que ficava do outro lado da cidade, e assim que ele abriu a porta ela lhe deu dois tiros no peito, m atando-o na hora. Em seguida, largou a arm a do crim e no degrau em frente à porta, voltou para o carro estacionado e ficou sentada lá dentro até que a polícia chegou e a levou à delegacia para autuá-la. Quando saiu de casa naquela m anhã, Sy bil j á havia com binado com a baby-sitter para passar o dia inteiro com seus dois filhos.

Axler telefonou para Pegeen e lhe relatou o que havia acontecido.

“Você im aginava que ela fosse capaz de fazer isso?”, perguntou Pegeen.

“Um a pessoa tão im potente? Não. Nunca. Motivação pra isso não faltava — o abuso sexual da filha —, m as hom icídio? Ela m e perguntou se eu m ataria o m arido por ela. ‘Eu preciso de alguém pra m atar esse hom em perverso’, foi o que ela m e disse.”

“Que história chocante”, disse Pegeen.

“Um a m ulher de aparência frágil, com um físico de criança. A pessoa m enos am eaçadora que se pode im aginar.”

“Ela nunca vai ser condenada”, opinou Pegeen.

“Talvez sim , talvez não. Talvez ela alegue loucura tem porária e consiga escapar. Mas e depois, o que vai ser dela? O que vai ser da criança? Se a m enininha j á não está m arcada pelo que o padrasto fez com ela, agora está pelo que a m ãe fez. Pra não falar no garotinho.”

“Quer que eu vá aí hoj e? Sua voz está trêm ula.”

“Não, não”, ele insistiu. “Estou bem . É que eu nunca conheci alguém que m atou um a pessoa fora do palco.”

“Eu vou pra aí m ais tarde”, disse Pegeen.

E quando Pegeen chegou, depois do j antar ficaram sentados na sala de visita e Axler repetiu para ela detalhadam ente tudo que se lem brava do que Sy bil Van Buren lhe dissera na clínica. Encontrou a carta dela — a carta que ela enviara aos cuidados do escritório de Jerry — e entregou-a a Pegeen para que a lesse.

“O m arido alegava inocência”, explicou Axler. “Dizia que a m ulher estava vendo coisas.”

“Será que estava?”

“Não foi essa a m inha im pressão. Eu vi o sofrim ento dela. Acreditei na história que ela contou.”

Durante o dia, ele lera e relera a m atéria várias vezes, olhando com insistência a foto de Sy bil que saíra no j ornal, um retrato de estúdio em que ela parecia m uito m ais um a chefe de torcida do colegial, um a pessoa que até aquele m om ento não havia passado por nada na vida, do que um a m ulher casada na faixa dos trinta anos ou um a Clitem nestra.

No dia seguinte, Axler recorreu à com panhia telefônica e, com a m aior facilidade, obteve o núm ero dos Van Buren. Quando ligou para lá, atendeu um a m ulher que se identificou com o irm ã de Sy bil. Axler disse quem era e lhe falou sobre a carta de Sy bil. Leu a carta pelo telefone. Os dois com binaram que ela entregaria a carta ao advogado de Sy bil.

“Você pode falar com ela?”, Axler perguntou.

“Só na presença do advogado. Ela com eça a chorar de saudade dos filhos. Fora isso, a tranquilidade dela é assustadora.”

“Ela fala sobre o assassinato?”

“Ela diz: ‘A coisa precisava ser feita’. Parece até que j á m atou um as cinquenta pessoas. Ela está num estado m uito estranho. Dá a im pressão de não perceber a gravidade da situação. É com o se tivesse deixado pra trás a gravidade da coisa.”

“Por ora”, ele com entou.

“É o que eu estou pensando. O m undo dela vai desabar m ais dia, m enos dia. Ela não vai ficar com essa m áscara de tranquilidade por m uito tem po. É bom que lá na cadeia fiquem atentos pra ela não se m atar. Tenho m edo do que vai acontecer agora.”

“Você tem razão. O que ela fez não bate nem um pouco com a m ulher que eu conheci. Por que ela fez isso tanto tem po depois?”

“Porque m esm o depois que o John saiu de casa ele continuou negando tudo e dizendo a ela que aquilo era um delírio, e quando ela ouvia isso ficava um a fera. Na m anhã em que resolveu m atá-lo, a Sy bil m e disse que ia de algum a m aneira arrancar um a confissão dele. Eu disse: ‘Não vá vê-lo. Você vai acabar fazendo um a loucura’. E eu tinha razão. Eu é que queria que ela fosse denunciá-lo à polícia. Eu é que disse que ela precisava m andar prender o m arido. Mas a Sy bil não quis: ele era um a pessoa im portante, a coisa ia acabar nos j ornais e na televisão e a Alison ia ser envolvida num pesadelo j udicial e seria exposta a coisas ainda m ais horríveis. Foi por ela ter dito isso que eu j am ais im aginei que, quando falou em arrancar um a confissão dele ‘de algum a m aneira’, ela estivesse pensando em usar a espingarda de caça dele — porque essa história de espingarda tam bém ia acabar nos j ornais. Mas quando a Sy bil foi à casa do John naquele sábado de m anhã, ela nem esperou ele abrir a porta pra ela entrar. Não deixou que ele dissesse um a única palavra. Eles não tiveram um a discussão que foi degringolando até que ela acabou dando um tiro. Bastou olhar para a cara dele — ali m esm o, na porta da casa, ela deu dois tiros e m atou o John. A Sy bil m e disse: ‘Ele queria sangue, e foi o que eu fiz’.”

“A m enina j á está sabendo de algum a coisa?”

“Ainda não contaram nada a ela. Não vai ser fácil. Nada dessa história vai ser fácil. Por culpa do falecido doutor Van Buren. O sofrim ento que a Alison vai enfrentar é um a coisa que eu nem consigo im aginar.”

Axler passou dias repetindo a si próprio: o sofrimento que a Alison vai enfrentar. Provavelm ente, fora esse m esm o pensam ento que levara Sy bil a assassinar o m arido — e desse m odo a aum entar o sofrim ento de Alison para o resto da vida.

Um a noite, na cam a, Pegeen disse a ele: “Achei um a garota pra você. Ela é da equipe de natação da Prescott. Eu nado com ela às tardes. A Lara. Você gostaria que eu trouxesse a Lara pra você?”.

Pegeen estava subindo e descendo sobre ele lentam ente, e todas as luzes estavam apagadas, em bora o quarto estivesse suavem ente ilum inado pela lua cheia que atravessava os galhos das árvores altas nos fundos da casa.

“Me fale sobre a Lara”, ele pediu.

“Ah, você vai gostar dela.”

“Pelo visto, você j á gostou.”

“Eu fico assistindo quando ela nada. E tam bém no vestiário. Um a garota rica. Privilegiada. Nunca passou necessidade. É perfeita. Loura. Olhos azuis cristalinos. Pernas com pridas. Pernas fortes. Peitos perfeitos.”

“Perfeitos com o?”

“Você fica durão quando eu falo sobre a Lara”, ela disse.

“Os peitos”, ele insistiu.

“Ela tem dezenove anos. São duros, eretos. Ela raspa a boceta, tem só um pouquinho de pelos louros de cada lado.”

“Quem é que anda trepando com ela? Garotos ou garotas?”

“Ainda não sei. Mas alguém anda se divertindo lá em baixo.”

Daí em diante, Lara estava sem pre com eles quando eles a queriam .

“Você está com endo a Lara”, dizia Pegeen. “Isso aqui é a bocetinha perfeita dela.”

“Você tam bém está com endo a Lara?”

“Não. Só você. Feche os olhos. Quer que ela faça você gozar? Quer que a Lara faça você gozar? Então está bem , sua putinha loura — faz o Sim on gozar!”, Pegeen exclam ou, e ele não precisava m ais ensiná-la a m ontar no cavalo. “Esporra em cim a dela. Agora! Agora! Isso m esm o — esporra na cara dela!”

Um a noite foram j antar num a pousada ali perto. Do salão rústico dava para ver, do outro lado da estrada, um lago grande dourado pelo pôr do sol. Pegeen estava usando suas roupas m ais novas; eles haviam feito com pras num a ida a Nova York decidida em cim a da hora, um a sem ana antes: um a sainha curta de j érsei preto, bem j usta, um a blusa de cashmere sem m angas e um cardigã do m esm o m aterial am arrado sobre os om bros, m eias de seda preta, um a bolsa de couro m acio enfeitada com pequenas tiras de couro, e nos pés sapatos Chanel pretos, de bico fino, expondo o peito do pé. Pegeen parecia m acia, curvilínea, sedutora, toda em verm elho acim a da cintura e em negro da cintura para baixo, e exibia-se com um a naturalidade tranquila que dava a im pressão de que ela se vestira assim a vida toda. Levava a bolsa, seguindo a sugestão da vendedora, com a alça atravessada no peito, com o um a bandoleira, e a bolsa sobre o quadril.

Para que sua coluna não travasse e suas pernas não ficassem dorm entes, Axler tinha o hábito de levantar-se e cam inhar um pouco duas ou três vezes durante as refeições, e assim , depois do prato principal e antes da sobrem esa, pôs-se de pé e pela segunda vez deu um a volta no restaurante e entrou no bar. Lá viu um a j ovem atraente bebendo sozinha no balcão. Teria vinte e tantos anos, e do j eito com o ela falava com o barman dava para perceber que estava um pouco alta. Axler sorriu quando ela olhou em sua direção, e para dem orar m ais tem po ali ele perguntou ao barman com o estava a partida de beisebol. Em seguida, perguntou à j ovem se ela era da região ou se estava hospedada na pousada. Ela explicou que estava com eçando a trabalhar num a loj a de antiguidades ali perto e que havia parado para tom ar um drinque depois do expediente. Axler perguntou-lhe se ela entendia de antiguidades, e a m oça respondeu que seus pais eram donos de um a loj a do m esm o ram o m ais ao norte. Disse que havia passado três anos trabalhando num a loj a em Greenwich Village e que havia resolvido sair da cidade e tentar a sorte ali no condado de Washington. Ele lhe perguntou quanto tem po fazia que ela estava ali, e ela respondeu que havia chegado apenas no m ês anterior. Axler lhe perguntou o que ela estava bebendo, e quando a m oça respondeu ele disse: “A próxim a eu ofereço”, fazendo sinal ao barman de que era para colocar a bebida na sua conta.

Quando chegou a sobrem esa, ele disse a Pegeen: “Tem um a m oça tom ando um porre no bar”.

“Com o é que ela é?”

“Tem cara de quem sabe se cuidar.”

“Você topa?”

“Se você topar”, ele respondeu.

“Quantos anos?”, ela perguntou.

“Eu diria uns vinte e oito. Você assum e o com ando. Você e o pirocão verde.”

“Quem assum e é você”, ela retrucou. “Você e o pirocão de verdade.”

“Então nós dois assum im os j untos”, ele decidiu.

“Quero ver a garota”, Pegeen pediu.

Axler pagou a conta, os dois saíram do restaurante e ficaram parados à porta do bar. Ele colocou-se atrás de Pegeen e abraçou-a. Sentia que ela trem ia de excitação ao ver a garota bebendo no bar. Aquele trem or o em polgava. Era com o se os dois houvessem se fundido num único ser atiçado por um a tentação enlouquecedora.

“Gostou?”, ele cochichou.

“Tem cara de ser bem depravada, se tiver a m enor oportunidade. Tem cara de estar pronta pra um a vida de crim e.”

“Você quer levar essa m oça pra casa.”

“Não é a Lara, m as quebra o galho.”

“E se ela vom itar no carro?”

“Você acha que ela está quase?”

“Já está bebendo há um bom tem po. Quando ela apagar lá em casa, com o é que a gente se livra dela?”

“A gente m ata”, respondeu Pegeen.

Ainda abraçado a Pegeen à sua frente, Axler dirigiu-se à j ovem no balcão: “Quer um a carona, j ovem ?”.

“Tracy.”

“Quer um a carona, Tracy ?”

“Eu estou de carro”, Tracy respondeu.

“Você está em condições de dirigir? Eu posso deixar você em casa.” Pegeen continuava trem endo em seus braços. Ela é um a gata, pensou ele, a gata antes de saltar sobre a presa, o falcão antes de ser solto pelo falcoeiro. O anim al que você pode controlar — até o m om ento em que você o solta. Ele pensou: estou dando Tracy a ela tal com o lhe dou roupas. Com Lara, eles se sentiam à vontade porque Lara não estava presente, e assim não havia consequências. Agora, ele sabia, seria diferente. Deu-se conta de que estava entregando todo o poder a Pegeen.

“Posso pedir ao m eu m arido pra vir m e pegar”, disse Tracy.

Axler havia reparado que ela não usava aliança. “Não, a gente leva você. Aonde você quer ir?”

Tracy deu o nom e de um a cidadezinha a uns trinta quilôm etros a leste dali.

O barman, que sabia que a casa de Axler ficava na direção oposta, continuou a fazer o que estava fazendo, com o se fosse surdo-m udo. Graças aos film es em que ele trabalhara, praticam ente todo m undo naquela cidadezinha rural de novecentos habitantes sabia quem Axler era, ainda que poucos fizessem ideia de que sua reputação se baseava no que ele havia realizado no teatro. A m oça bêbada pagou sua conta, desceu do banco e pegou a j aqueta para sair. Era m ais alta do que Axler havia im aginado, e grande tam bém — não era nenhum a m enininha desam parada —, um a louraça de carnes opulentas, com um a espécie de beleza nórdica dessas que j á vêm prontas. Sob todos os aspectos, um a versão m ais grosseira, m ais vulgar da im ponente Louise.

Axler colocou Tracy no banco de trás j unto com Pegeen e foi seguindo pelas estradas rurais escuras, totalm ente vazias, até chegar em casa. Era com o se eles a estivessem raptando. A rapidez com que Pegeen entrou em ação não o surpreendeu. Ela não estava paralisada pela inibição ou pelo m edo, com o no dia do cabeleireiro, e Axler ficou excitado só de ouvir os sons que vinham do banco de trás. Chegando em casa, no quarto, Pegeen derram ou sobre a cam a seu saco plástico de im plem entos, entre eles o açoite de brinquedo, com várias correias finas, m uito m acias, de couro preto liso.

Axler perguntava a si próprio o que estaria passando pela cabeça de Tracy. Ela entra num carro com duas pessoas que nunca viu na vida, que a levam para um a casa num a estrada de terra longe de tudo, e então salta do carro e se vê no m eio de um verdadeiro circo. Está bêbada, sim , e além disso é j ovem . Até que ponto ela pode ser indiferente ao perigo? Ou será que eu e Pegeen inspiram os confiança? Ou será que ela está m esm o procurando perigo? Ou está tão bêbada que nem pensa nisso? Axler se perguntava se algum a vez na vida Tracy j á fizera algo sem elhante. E continuava não entendendo por que ela estava fazendo aquilo naquele m om ento. Não tinha sentido a tal Tracy cair daquele j eito no colo deles para realizar todas as fantasias que eles haviam im aginado com Lara. Mas, afinal, o que fazia sentido? Ele não conseguir m ais subir num palco e representar? Ter se internado num a clínica psiquiátrica? Estar tendo um caso com um a lésbica que ele vira pela prim eira vez sendo am am entada pela m ãe?

Quando um hom em se vê com duas m ulheres ao m esm o tem po, não é raro que um a delas, sentindo-se desprezada com ou sem razão, term ine chorando num canto do quarto. Do j eito que a coisa estava indo, ao que parecia quem term inaria chorando no canto era ele. No entanto, ao contem plar as duas do outro lado da cam a, não se sentia desprezado. Havia perm itido que Pegeen assum isse o com ando e só participaria quando fosse cham ado. Ficaria assistindo sem interferir. Prim eiro, Pegeen colocou seus arreios, aj ustou e fixou as correias de couro e instalou o consolo em riste. Em seguida, curvou-se sobre Tracy, roçando a boca nos lábios e m am ilos de Tracy e acariciando-lhe os seios, e depois escorregou um pouco para baixo e delicadam ente penetrou-a com o consolo. Pegeen não precisou forçar. Não precisou dizer um a só palavra — Axler tinha a im pressão de que se um a delas com eçasse a falar, seria num idiom a que ele não reconheceria. O pênis verde entrava e saía do corpo nu que se refestelava na cam a, abundante, prim eiro devagar, depois m ais depressa e com m ais força, depois com m ais força ainda, e todas as curvas e reentrâncias do corpo de Tracy se m oviam no m esm o ritm o que ele. Aquilo não era erotism o suave. Não eram m ais duas m ulheres nuas se acariciando e se beij ando num a cam a. Agora havia naquilo algo de prim itivo, a violência de um a m ulher sobre a outra, com o se, no quarto cheio de som bras, Pegeen fosse um a com binação m ágica de xam ã, acrobata e anim al. Era com o se ela usasse um a m áscara sobre a genitália, um a estranha m áscara totêm ica, que a transform ava no que ela não era e não devia ser. Ela podia perfeitam ente ser um corvo e um coiote, e ao m esm o tem po ser Pegeen Mike. Havia algo de perigoso naquilo. O coração de Axler pulava de excitação — o deus Pã contem plando a cena ao longe, com um olhar lascivo de voyeur.

Foi em inglês que Pegeen falou quando olhou para ele do outro lado da cam a, agora deitada ao lado de Tracy, passando as tiras do açoite por entre os longos cabelos de Tracy, e, com aquele sorriso m aroto que exibia os incisivos, sussurrou: “Sua vez. Pode violar a garota”. Segurou Tracy pelo om bro, sussurrou: “Hora de m udar de senhor” e delicadam ente em purrou o corpo generoso da desconhecida em direção a ele. “Três crianças se j untaram ”, ele disse, “e resolveram fazer um a peça”, e entrou em ação.

*

Por volta de m eia-noite, levaram Tracy para o estacionam ento ao lado da pousada onde ela havia deixado seu carro.

“Vocês sem pre fazem isso?”, Tracy perguntou do banco de trás, onde estava reclinada nos braços de Pegeen.

“Não”, disse Pegeen. “E você?”

“Prim eira vez na m inha vida.”

“E aí, o que foi que você achou?”, quis saber Pegeen.

“Não consigo pensar. Minha cabeça está cheia dem ais. Parece que eu viaj ei. Com o se tivesse tom ado um a droga.”

“Com o é que você criou coragem ?”, perguntou Pegeen. “Foi a bebida?”

“As suas roupas. A aparência de vocês. Eu pensei: não tenho nenhum m otivo para ter m edo. Me diga um a coisa, ele é aquele ator?”, Tracy perguntou a Pegeen, com o se Axler não estivesse no carro.

“Ele m esm o”, respondeu Pegeen.

“Foi o que o barman falou. Você é atriz?”, Tracy perguntou.

“De vez em quando”, a outra respondeu.

“Foi um a loucura”, disse Tracy.

“Foi”, respondeu Pegeen, a m anipuladora do açoite e do consolo, que não era nenhum a am adora e que de fato havia levado a coisa às últim as consequências.

Tracy beij ou Pegeen apaixonadam ente quando se despediram . Pegeen retribuiu o beij o do m esm o m odo passional, acariciando-lhe o cabelo e apertando-lhe os seios, e no estacionam ento ao lado da pousada onde haviam se conhecido, as duas por um m om ento ficaram agarradas. Então Tracy entrou em seu carro e, antes de ir em bora, Axler ouviu Pegeen dizer a ela: “Até breve”.

Enquanto voltavam para casa, Pegeen ficou com a m ão enfiada dentro da calça dele. “O cheiro”, disse ela, “ficou em nós”, enquanto Axler pensava: calculei m al — não pensei direito. Ele não era m ais o deus Pã. De j eito nenhum .

Enquanto Pegeen tom ava um banho, Axler ficou sentado na cozinha bebendo um a xícara de chá, com o se nada houvesse acontecido, com o se tivessem passado m ais um a noite norm al em casa. O chá, a xícara, o pires, o açúcar, o crem e de leite — tudo atendia a um a necessidade de norm alidade.

“Quero ter um filho.” Im aginava Pegeen pronunciando essas palavras. Im aginava-a dizendo isso a ele quando entrasse na cozinha depois do banho: “Quero ter um filho”. Estava im aginando a coisa m ais im provável de acontecer, e era j ustam ente por isso que a im aginava; estava decidido a fazer com que sua im prudência voltasse a se enquadrar no cotidiano dom éstico.

“Com quem ?”, im aginou-se perguntando a ela.

“Com você. Você é a m inha escolha pro resto da vida.”

“Com o a sua fam ília j á alertou você, estou chegando aos setenta. Quando a criança estiver com dez anos, vou estar com setenta e cinco, setenta e seis. Até lá, posso não ser m ais a sua escolha. Com esse problem a de coluna, j á vou estar num a cadeira de rodas, se ainda não tiver m orrido.”

“Esqueça a m inha fam ília”, im aginou-a dizendo. “Quero que você sej a o pai do m eu filho.”

“Você vai esconder isso do Asa e da Carol?”

“Não. Essa história vai acabar. Você tinha razão. A Louise m e fez um favor com aquele telefonem a dela. Chega de segredos. Eles vão ter que aceitar as coisas com o elas são.”

“E de onde veio esse desej o de ter um filho?”

“Veio do que eu m e transform ei pra você.”

Im aginou-se dizendo: “Quem podia im aginar que esta noite ia acabar assim ?”.

“Pelo contrário”, im aginou Pegeen respondendo. “É um a consequência natural. Se nós vam os continuar j untos, eu quero três coisas. Quero que você opere a coluna. Quero que você retom e a sua carreira. Quero que você m e engravide.”

“Você quer m uita coisa.”

“Quem foi que m e ensinou a querer m uita coisa?”, ele a im aginou dizendo. “Essa é a m inha proposta pra um a vida de verdade. O que m ais eu posso oferecer?”

“Operação de coluna é um a coisa com plicada. Os m édicos que eu consultei acham que no m eu caso não vai adiantar.”

“Você não pode continuar travado com essa dor. Não pode continuar m ancando desse j eito o resto da vida.”

“E a m inha carreira é um a coisa m ais com plicada ainda.”

“Não”, ele a im aginou dizendo, “é só um a questão de seguir um plano pra dar fim à incerteza. Um plano ousado, a longo prazo.”

“Só isso”, im aginou-se respondendo.

“É. Chegou a hora de você ser ousado.”

“Pois eu acho que é hora de ser cuidadoso.”

Mas porque na com panhia de Pegeen ele havia com eçado a rej uvenescer, porque tinha feito tudo o que era possível para se convencer de que ela, que com eçara lhe oferecendo um copo d’água — para a partir daí realizar o feito m áxim o, a m udança de opção sexual —, era realm ente capaz de contentar-se com ele, Axler nutria os pensam entos m ais esperançosos possíveis. Naquele devaneio de um a vida redim ida, ali na cozinha, im aginou-se consultando um ortopedista que lhe pedia um a ressonância m agnética, depois um m ielogram a e por fim encam inhava-o a um cirurgião. Nesse ínterim , entraria em contato com Jerry Oppenheim para lhe dizer que se alguém lhe oferecesse um papel, ele estava interessado em voltar a trabalhar. Então, ainda à m esa da cozinha e excitando-se com a elaboração desses pensam entos enquanto Pegeen term inava seu banho no andar de cim a, im aginou Pegeen dando à luz um a criança saudável no m esm o m ês em que ele estreava, no Guthrie Theater, no papel de Jam es Ty rone. Pegaria o cartão de visitas de Vincent Daniels lá onde ele o havia largado, com o m arcador em seu exem plar de Longa viagem noite adentro. Consultaria Vincent Daniels, levando o roteiro da peça, eles trabalhariam j untos diariam ente até encontrarem um a m aneira de fazer com que ele recuperasse a autoconfiança, e assim , quando Axler subisse ao palco no Guthrie na noite de estreia, a m agia perdida retornaria, e enquanto as palavras saíssem de sua boca com naturalidade, sem o m enor esforço, ele teria consciência de que estava tendo um de seus m elhores desem penhos e que talvez aquele longo período de bloqueio, por m ais doloroso que tivesse sido, não fora a pior coisa que lhe poderia ter acontecido. Agora a plateia voltara a acreditar nele a cada m om ento. Onde antes, diante do que havia de m ais assustador na arte do ator — a fala, dizer algo, dizer algo espontaneam ente, com liberdade e facilidade — ele se sentia nu, sem a proteção de qualquer abordagem , agora tudo m ais um a vez brotava de seu instinto, e não era necessária nenhum a outra abordagem diferente. O período de azar havia passado. Aquele torm ento autoim posto term inara. Ele havia recuperado a confiança, o sofrim ento fora extinto, o pavor abom inável se dissipara, e tudo que ele havia perdido fora agora devidam ente recuperado. A reconstrução de um a vida tinha de com eçar em algum lugar, e em seu caso com eçara quando ele se apaixonou por Pegeen Stapleford, que, por incrível que parecesse, era a m ulher exata para realizar tal feito.

Parecia-lhe agora que aquele roteiro elaborado na cozinha não era m ais apenas a frágil fantasia que fora no início, que agora ele im aginava um a nova possibilidade, recuperando um a exuberância pela qual estava decidido a lutar, para im plem entá-la e desfrutá-la. Axler sentia a determ inação que havia sentido quando veio fazer seu teste em Nova York com vinte e dois anos de idade.

Na m anhã seguinte, assim que Pegeen voltou de carro a Verm ont, Axler telefonou a um hospital de Nova York e pediu para consultar um m édico a respeito do risco genético de ter um filho aos sessenta e cinco anos. Indicaram -lhe um a especialista e m arcaram um a hora para ele na sem ana seguinte. Axler não falou sobre nada disso com Pegeen.

O hospital ficava bem ao norte de Manhattan, e depois de estacionar o carro num a garagem , ele dirigiu-se ao consultório da m édica com um a em polgação cada vez m aior. Entregaram -lhe os form ulários de praxe para preencher, e em seguida ele foi recebido por um filipino de cerca de trinta e cinco anos que se apresentou com o assistente da dra. Wan. Havia um a sala com j anela que dava para a área de espera, e o assistente levou-o até lá para que pudessem ficar a sós. Parecia um a sala feita para ser utilizada por crianças, com m esas baixas e cadeirinhas espalhadas, e desenhos feitos por crianças pregados num a parede. Os dois sentaram -se em torno de um a das m esas e o assistente com eçou a fazer perguntas a respeito de Axler, de sua fam ília, das doenças sofridas por seus fam iliares, das doenças que os haviam levado à m orte. O assistente anotou as respostas num a folha im pressa que continha o esqueleto de um a árvore genealógica. Axler lhe contou tudo o que sabia sobre sua fam ília e seus antepassados. Em seguida, o assistente pegou um a segunda folha e fez perguntas a respeito da fam ília da m ulher que pretendia ter um filho. Axler só pôde lhe dizer que os pais de Pegeen estavam am bos vivos; não sabia nada sobre o histórico clínico deles nem sobre os tios, avós e bisavós dela. O assistente perguntou qual era o país de origem da fam ília dela, tal com o havia perguntado a respeito da fam ília dele, e, tendo anotado as inform ações, disse a Axler que passaria todos aqueles dados para a dra. Wan e que, depois que ele se reunisse com a m édica, ela viria conversar com Axler.

Sozinho na sala, Axler entrou num a espécie de êxtase ao sentir que retornavam sua força e sua naturalidade, e que tinham fim sua hum ilhação e seu desaparecim ento do m undo. Aquilo não era m ais um devaneio; o renascim ento de Sim on Axler estava m esm o acontecendo. E estava acontecendo naquela sala cheia de m óveis para crianças, por incrível que fosse. A escala daqueles m óveis o fez pensar nas sessões de arteterapia em Ham m erton, onde ele e Sy bil Van Buren haviam recebido creions e papel para fazer desenhos que seriam m ostrados à terapeuta. Lem brou-se de que havia obedecido, colorindo seu desenho tal com o fazia no tem po do j ardim de infância. Lem brou-se das consequências constrangedoras daquela internação em Ham m erton; todos os vestígios de sua autoconfiança haviam desaparecido; a única coisa a que podia recorrer para se esquivar da sensação generalizada de derrota e terror era escutar as conversas entre os pacientes na sala de recreação após o j antar, as histórias dos pacientes que ainda se orgulhavam de suas tentativas de suicídio. Agora, porém , Axler, um hom enzarrão m al acom odado em m eio àquelas m esinhas e cadeirinhas, voltara a ser o ator, cônscio de suas realizações passadas e certo de que a vida poderia recom eçar.

A dra. Wan era um a m ulher j ovem , pequena e esguia, que lhe disse que certam ente precisaria dos dados referentes a Pegeen, m as que poderia pelo m enos com eçar a conversar sobre os tem ores de Axler quanto aos defeitos de nascença em filhos de pais idosos. Ela explicou-lhe que, em bora a idade ideal para os hom ens ter filhos fosse a faixa dos vinte, que em bora o risco de transm itir aos filhos vulnerabilidades genéticas ou problem as de desenvolvim ento, com o o autism o, aum entasse m uito após os quarenta anos, e que em bora os hom ens m ais velhos produzissem m ais esperm atozoides com dna danificado do que os hom ens m ais j ovens, a possibilidade de ter um filho norm al sem defeitos de nascença não era necessariam ente tão pequena para um hom em da idade dele e em suas condições de saúde, principalm ente porque alguns defeitos, ainda que não todos, podiam ser detectados durante a gravidez. “As células que produzem os esperm atozoides nos testículos se dividem a cada dezesseis dias”, explicou a dra. Wen, sentada à sua frente num a das m esinhas. “Isso quer dizer que as células de um a pessoa de cinquenta anos j á se dividiram cerca de oitocentas vezes. E com cada divisão celular aum enta a possibilidade de surgirem erros no dna dos esperm atozoides.” Depois que Pegeen lhe fornecesse seus dados, ela poderia avaliar de m odo m ais com pleto a situação do casal e continuaria a trabalhar com eles se os dois resolvessem ir em frente. A doutora entregou-lhe seu cartão j untam ente com um folheto que detalhava a natureza e o risco dos defeitos de nascim ento. Ela explicou tam bém que sua fertilidade talvez tivesse dim inuído com a idade, e assim , atendendo a um pedido dele, deu-lhe o nom e de um laboratório onde Axler poderia fazer um esperm ogram a. Desse m odo, seria possível determ inar se era provável que houvesse dificuldade de engravidar. A m édica explicou: “Pode haver problem as com relação à contagem , m otilidade ou m orfologia dos esperm atozoides”. “Entendo”, ele respondeu, e para m anifestar um a gratidão incontrolável, estendeu o braço para apertar-lhe a m ão. A m édica sorriu com o se ela fosse a m ais velha dos dois, e disse: “Se tiver algum a dúvida, pode m e telefonar”.

Ao chegar em casa, sentiu um im pulso fortíssim o de telefonar para Pegeen e lhe falar sobre a grande ideia que se apossara dele e o que ele fizera a respeito. Mas seria obrigado a esperar até eles voltarem a se encontrar no fim de sem ana, quando teriam horas e horas para conversar. Naquela noite, sozinho na cam a, leu o folheto que a dra. Wan lhe dera. “Para um bebê sadio, é necessário que haj a esperm atozoides sadios. [...] Cerca de dois a três por cento dos bebês nascem com um sério defeito de nascença. [...] Mais de vinte defeitos genéticos raros, porém devastadores, estão associados à idade avançada do pai. [...] Quanto m ais velho o hom em a conceber um filho, m ais provável é a ocorrência de um aborto espontâneo. [...] Os pais de idade avançada têm m ais tendência a gerar filhos com autism o, esquizofrenia e síndrom e de Down.” Axler leu e releu todo o folheto e, em bora aquelas inform ações fossem preocupantes, por m ais que ele tivesse consciência dos riscos, nem por isso m udou de planos. Pelo contrário, excitado dem ais para dorm ir, sentindo que algo m aravilhoso estava acontecendo, quando deu por si havia descido até a sala, onde ficou ainda m ais entusiasm ado a ouvir m úsica, e j untam ente com um a sensação de destem or que havia anos não sentia experim entou aquele profundo anseio biológico por um filho que é m ais com um associar às m ulheres do que aos hom ens. Agora m ais nada a respeito de sua união com Pegeen lhe parecia im provável. Ela precisava ir com ele consultar a dra. Wan. Quando todos os dados estivessem com putados, os dois decidiriam , depois de pensar bem , qual o próxim o passo.

Ele havia planej ado dar início àquela conversa após o j antar de sexta-feira. Mas quando Pegeen chegou no final da tarde de sexta, foi direto para o seu escritório com um a pilha de provas para corrigir, encarregando-o de preparar o j antar. E depois do j antar ela m ais um a vez fechou-se no escritório para corrigir provas. Ele pensou: m elhor deixar que ela faça tudo logo de um a vez. Depois terem os todo o fim de sem ana para conversar.

Na cam a, no escuro — exatam ente duas sem anas após o dia do encontro com Tracy —, quando ele com eçou a beij ar e a acariciar Pegeen, ela se afastou e disse: “Hoj e não estou inspirada”. “Está bem ”, ele respondeu, e sem conseguir excitá-la virou-se para o outro lado, m as sem largar a m ão dela, que continuou a segurar — aquela m ão que ainda queria tocar em tudo — até ela adorm ecer. Quando acordou no m eio da noite, Axler pensou: o que queria dizer isso de ela não estar inspirada? Por que ela se esquivava tanto dele desde o m om ento em que chegara?

A resposta veio assim que ele acordou na m anhã seguinte, antes m esm o que tivesse oportunidade de falar com Pegeen sobre sua consulta com a dra. Wan e tudo que estava por trás dela, e tudo que potencialm ente estava por vir para eles; Axler constatou que ao buscar inform ações com a m édica seu intuito tinha sido m ergulhar ainda m ais num m undo de irrealidade do que evitar um passo im prudente.

“Term inou”, ela disse a Axler durante o café da m anhã. Estavam sentados nas m esm as cadeiras em que haviam se instalado quando ela lhe disse, m eses antes, que eles j á haviam assum ido o risco.

“Term inou o quê?”, ele perguntou.

“Nós dois.”

“Mas por quê?”

“Não é o que eu quero. Eu com eti um erro.”

Assim teve início o fim , de m odo totalm ente abrupto, e acabou cerca de trinta m inutos depois, com Pegeen parada à porta da casa segurando sua m ochila e Axler chorando. Era exatam ente a antítese de suas expectativas naquela noite na cozinha, duas sem anas antes. A exata antítese de suas expectativas quando ele foi consultar a dra. Wan. Tudo o que ele queria, ela agora o im pedia de ter!

E agora Pegeen tam bém estava chorando; a coisa não era tão fácil quanto lhe parecera naquele prim eiro m om ento, durante o café da m anhã. Mesm o assim , estava inflexível, e por m ais que Axler chorasse ela continuava m uda. A im agem que Pegeen com punha parada à porta, m ais um a vez usando sua j aqueta verm elha m asculina, segurando a m ochila, exprim ia tudo: essa form a de sofrim ento ela era capaz de suportar. Não ia sentar-se com ele e, tom ando café, ter um a conversa sincera que a levaria a voltar atrás. Ela só queria se livrar dele para satisfazer o desej o hum ano, tão com um , de tocar para a frente e tentar um a coisa nova.

“Você não pode anular tudo!”, ele gritou, irritado, e ao ouvir essas palavras Pegeen, a m ais forte dos dois, abriu a porta.

Por fim ela falou, soluçando: “Eu tentei ser perfeita pra você”.

“Que diabo isso quer dizer? E quem foi que falou em perfeição? ‘Não se afaste de m im . Eu estou adorando isso e não quero que acabe.’ Eu fui um idiota de acreditar no que você disse. Fui um idiota de achar que você estava fazendo o que queria fazer.”

“Era m esm o o que eu queria fazer. Eu queria m uito ver se conseguia.”

“Quer dizer que foi um experim ento, até o final. Mais um a aventura para Pegeen Mike — que nem levar pra cam a a arrem essadora de um tim e de softbol.”

“Não posso continuar a substituir o seu trabalho de ator.”

“Ah, não m e venha com essa! Isso é revoltante!”

“Mas é verdade! Eu sou o que você tem no lugar do seu trabalho! Estou aqui pra com pensar isso!”

“Isso é a m aior idiotice que eu j á ouvi. E você sabe que é. Vá em bora, Pegeen! Se é isso que você quer, vá em bora! ‘Nós assum im os o risco.’ Eu é que assum i o risco! Você só fez dizer o que você achava que eu queria ouvir, pra você ter o que você queria durante o tem po que você quisesse.”

“Não foi nada disso!”, ela exclam ou.

“É a Tracy, não é?”

“O quê?”

“Você está m e largando por causa da Tracy !”

“Não estou não, Sim on! Não!”

“Você não está m e largando porque eu estou desem pregado! Você está m e largando por causa daquela garota! Você vai procurar aquela garota!”

“Aonde eu vou é problem a m eu. Ah, m e deixa ir em bora!”

“E quem é que está te segurando? Eu é que não estou! Nunca!” Ele apontou para a m ochila em que ela enfiara todas as roupas novas que antes estavam penduradas nos arm ários de Axler e dobradas nas gavetas de sua côm oda. “Está levando seus brinquedinhos sexuais?”, ele perguntou. “Não esqueceu os arreios?”

Ela não respondeu, m as a em oção que se estam pava nela era ódio, ou pelo m enos foi assim que ele interpretou a expressão de seu olhar.

“Isso m esm o”, ele insistiu, “pegue as ferram entas do seu ofício e vá em bora. Agora os seus pais vão poder dorm ir tranquilos à noite — você não está m ais vivendo com um velho. Agora não existe m ais ninguém entre você e seu pai. Você se livrou do seu obstáculo. Sua fam ília não vai m ais repreender você. Agora você voltou à sua condição original e está tudo bem . Ótim o. Pode partir pra próxim a. Eu nunca tive forças para segurar você, m esm o.”

O cam inho de um hom em é cheio de arm adilhas, e Pegeen fora a últim a. Ele pisara naquela arm adilha com avidez e m ordera a isca, com o o m ais vil dos cativos deste m undo. Não havia outra m aneira com o aquilo poderia term inar, e no entanto ele fora o últim o a saber. Im provável? Não, previsível. Abandonado depois de tanto tem po? Claram ente, para ela não fora tanto tem po quanto para ele. Tudo que havia de encantador nela desaparecera, e no tem po que ela levou para dizer “Term inou” ele foi condenado a perm anecer em sua toca com os seis gravetos, sozinho, sem m ais vontade de viver.

Pegeen foi em bora no carro dela, e o processo de desabam ento durou m enos de cinco m inutos, um desabam ento que ele m esm o havia provocado, e do qual agora era im possível recuperar-se.

*

Axler subiu até o sótão e ficou sentado lá o resto do dia, e noite adentro, preparando-se para puxar o gatilho da espingarda e, de quando em quando, pronto a descer a escada correndo e ligar para Jerry Oppenheim e acordá-lo em casa, ou a telefonar para Ham m erton e falar com seu m édico, ou a discar o núm ero de em ergência.

E, em m ais de dez m om entos diferentes durante o dia, pronto a ligar para Lansing e dizer a Asa que ele era um filho da puta traiçoeiro por ter feito Pegeen se voltar contra ele. Fora isso que acontecera, ele não tinha dúvida. Pegeen tinha razão quando quis ocultar aquele relacionam ento dos pais. “Porque eles conhecem você há m uito tem po”, ela lhe explicou quando Axler lhe perguntou por que ela preferia m anter segredo. “Porque vocês têm a m esm a idade.” Se ele tivesse ido a Michigan logo na prim eira vez em que propôs a Pegeen ir lá para conversar com Asa, talvez tivesse um a chance de vencer a parada. Mas telefonar para Asa agora não adiantaria nada. Pegeen j á havia ido em bora. Para ficar com Tracy. Para ficar com Lara. Para ficar com a arrem essadora de rabo de cavalo. Onde quer que ela estivesse, Axler não precisava m ais se preocupar com o risco genético de ter um filho naquela idade, quando suas células produtoras de esperm atozoides j á haviam se dividido bem m ais do que oitocentas vezes.

Na hora do j antar, não conseguiu se conter e, levando a arm a consigo, desceu do sótão e pegou o telefone.

Carol atendeu.

“É o Sim on Axler.”

“Ah, sim . Alô, Sim on.”

“Quero falar com o Asa.” Sua voz trem ia, seu coração batia m ais depressa. Foi obrigado a sentar-se num a cadeira na cozinha para continuar. Era m uito parecido com a sensação que tivera em Washington, na últim a vez que subiu ao palco. E no entanto nada daquilo talvez estivesse acontecendo se Louise Renner não tivesse ligado naquela noite, por vingança, para dizer ao casal que Pegeen vivia com ele.

“Você está bem ?”, Carol perguntou.

“Não m uito. A Pegeen m e abandonou. Me deixe falar com o Asa.”

“O Asa ainda não voltou do teatro. Você pode telefonar pra sala dele lá.”

“Cham e o Asa, Carol!”

“Eu j á disse, ele ainda não chegou em casa.”

“Um a notícia m aravilhosa, não é? Um grande alívio, não é? Vocês não precisam m ais ficar preocupados porque a filha de vocês vai ter que cuidar de um velho doente. Não precisam m ais se preocupar com a possibilidade dela ter que cuidar de um louco e ser enferm eira de um doente. Mas eu não estou dizendo nenhum a novidade — não estou dizendo a vocês nada que não tenha sido o resultado do que vocês m esm os fizeram .”

“Você está m e dizendo que a Pegeen abandonou você?”

“Me deixe falar com o Asa.”

Houve um a pausa e então, ao contrário de Axler, falando com toda a serenidade, ela disse: “Tente ligar pra ele lá no teatro. Eu lhe dou o núm ero e você liga pra lá”.

Axler não sabia agora, tal com o não sabia quando resolveu dar o telefonem a, se estava fazendo a coisa certa, a coisa errada, a coisa fraca ou a coisa forte. Largou a arm a na m esa da cozinha e anotou o núm ero que Carol lhe passou, desligando o telefone sem dizer m ais nada. Se lhe dessem esse papel num a peça, de que m odo o faria? Com o daria aquele telefonem a? Com voz trêm ula ou voz firm e? Com hum or ou com ódio, resignação ou raiva? Não sabia com o representar o papel do velho abandonado pela am ante vinte e cinco anos m ais j ovem que ele, tal com o não havia conseguido descobrir um a m aneira de representar o papel de Macbeth. Não deveria sim plesm ente ter dado um tiro na cabeça enquanto Carol estava do outro lado da linha? Não teria sido essa a m elhor m aneira de representar o papel?

Ele podia parar, é claro. Podia parar com aquela loucura naquele ponto. Não ia conseguir recuperar Pegeen ligando para o núm ero de Asa, e no entanto foi isso que ele fez. Não estava tentando recuperar Pegeen. Não havia com o conseguir tal coisa. Não, sim plesm ente se recusava a ser passado para trás por um ator de segunda que, ao lado da atriz de segunda com quem estava casado, com andava um teatro regional num fim de m undo. Os Stapleford não conseguiram fazer carreira no teatro em Nova York, não conseguiram fazer carreira no cinem a na Califórnia, e por isso estão fazendo arte de verdade, ele pensou, longe da corrupção do m undo com ercial. Não, ele se recusava a ser derrotado por aquelas duas m ediocridades. Recusava-se a ser um garoto dom inado pelos pais de Pegeen!

O telefone tocou apenas um a vez e Asa atendeu.

“O que você ganhou exatam ente”, com eçou Axler, explodindo, gritando, cheio de ressentim ento, “fazendo ela se voltar contra m im ? Você não suportava a ideia dela ser lésbica. Foi isso que ela m e disse — que nem você nem a Carol suportavam . Ficaram horrorizados quando ela contou pra vocês. Pois bem , com igo ela se abriu pra um a nova form a de vida — e era feliz! Vocês nunca nos viram j untos, eu e ela. Eu e Pegeen éram os felizes! Mas em vez de sentir gratidão pelo que eu fiz, vocês convenceram a filha de vocês a pegar as coisas dela e ir em bora! Vocês achavam m elhor até ela voltar a ser lésbica do que ficar com igo! Por quê? Por quê? Explique isso pra m im , por favor.”

“Antes de m ais nada, Sim on, você precisa se acalm ar. Não vou ficar ouvindo essa gritaria.”

“Você tem algum a antipatia antiga por m im , um a coisa que vem lá de trás? Será invej a, Asa, ou vingança talvez, ou ciúm e? Que m al eu fiz a ela? Estou com sessenta e seis anos, estou sem trabalhar, estou com um problem a na coluna — o que há de tão horrível nisso? Que am eaça isso representa pra sua filha? Isso m e im pediu de dar a ela tudo que ela queria? Eu dei a Pegeen tudo que eu podia dar! Eu tentei satisfazê-la de todas as m aneiras im agináveis!”

“Não tenho a m enor dúvida. Ela m esm a disse isso a m im e à Carol. Ninguém pode acusar você de não ter sido generoso, e ninguém fez isso.”

“Você sabe que ela m e abandonou.”

“Estou sabendo agora.”

“Não sabia antes?”

“Não.”

“Não acredito em você, Asa.”

“A Pegeen só faz o que ela quer. Ela foi assim a vida toda.”

“A Pegeen fez o que você queria que ela fizesse!”

“Com o pai tenho todo o direito de m e preocupar com a m inha filha e de dar conselhos a ela. Eu seria um relapso se não fizesse isso.”

“Mas com o é que você podia ‘dar conselhos’ a ela se você não sabia nada do que se passava entre nós dois? Tudo que você tinha na cabeça era um a im agem de m im , com toda a m inha fam a, todo o m eu sucesso, roubando um a coisa que pertencia a você! Era um a inj ustiça, não era, Asa, eu ficar com a Pegeen tam bém !”

Não teria sido m elhor dizer aquela fala com hum or em vez de em tom de raiva? Não deveria ter sido discretam ente sarcástico, com o se aquilo fosse apenas um exagero deliberado, para espicaçar seu ouvinte, e não a explosão de um hom em descontrolado? Ah, tanto faz com o tanto fez, Axler disse a si próprio. Provavelm ente isto está virando um a cena de hum or, m esm o sem você saber.

Ele odiava suas lágrim as, m as im ediatam ente com eçou a chorar outra vez, chorar de vergonha, o sentim ento de perda e de raiva, tudo m isturado, e assim deu fim àquela ligação telefônica que não devia ter feito. Porque era ele, em últim a análise, o responsável pelo que havia acontecido. Sim , ele tentara satisfazê-la de todas as m aneiras im agináveis, e assim , idiota que era, havia introduzido Tracy na vida deles e destruído tudo. Mas com o poderia ter previsto isso? Tracy fazia parte de um j ogo, um j ogo sexual fascinante do tipo que m uitos casais realizam para se divertir, para anim ar suas vidas. Com o ele poderia prever que levar para casa a m oça do bar term inaria fazendo com que ele perdesse Pegeen em caráter definitivo? Alguém m ais inteligente teria pensado duas vezes? Ou seria a continuação da onda de azar que com eçara quando ele tentou interpretar Próspero e Macbeth? Seria tudo resultado de sua burrice, ou ele estaria apenas se enfiando cada vez m ais no buraco da derrocada final?

E quem era a tal da Tracy ? A nova vendedora de um a loj a de antiguidades num a cidadezinha rural. Um a bêbada solitária num bar de interior. Quem era ela com parada com ele? Isso era im possível! Com o ele podia ser trocado por Tracy ? Com o podia ser derrotado por Asa? Teria Pegeen se livrado dele para ficar com Tracy porque isso era um m odo furtivo de a filhinha voltar para os braços do papai? Mas e se ela não o tivesse deixado por causa de Tracy ? Nem por causa das obj eções de seus pais? Nesse caso, o que o havia tornado repugnante para ela? Por que de repente ele se tornara tabu?

Com a arm a na m ão, entrou no escritório de Pegeen e ficou olhando para aquele côm odo, onde o papel de parede escolhido por Victoria fora retirado por Pegeen, que em seguida pintara as paredes de um tom de pêssego, aquele côm odo de que ela havia se apossado assim que ele, sem nenhum a reserva, convidou-a a se apossar dele. Conteve o im pulso de dar um tiro no encosto da cadeira que ela usava e, em vez disso, sentou-se nela. Viu pela prim eira vez que todos os livros que Pegeen havia trazido de sua casa tinham sido retirados da estante ao lado da m esa. Quando ela esvaziara aquelas prateleiras? Há quanto tem po havia tom ado a decisão de abandoná-lo? Teria a intenção existido desde o início, m esm o no m om ento em que ela arrancava o papel de parede?

Em seguida, conteve o im pulso de dar um tiro na estante. Em vez disso, correu a m ão pelas prateleiras vazias onde ela guardava seus livros, e tentou em vão pensar no que poderia ter feito de diferente no decorrer daqueles m eses que a teria levado a querer ficar.

Depois de decorrida pelo m enos um a hora, decidiu que não queria ser encontrado m orto no escritório de Pegeen, na cadeira de Pegeen. Pegeen não era a culpada. Os fracassos eram dele, com o tam bém era sua a biografia extraordinária em que ele estava em palado.

Quando m uito tem po depois de telefonar para Asa, em torno de m eia-noite — tendo voltado ao sótão algum as horas antes —, ele não conseguiu puxar o gatilho m esm o depois de colocar o cano da arm a dentro da boca, Axler desafiou a si próprio a pensar na pequenina Sy bil Van Buren, aquela dona de casa suburbana convencional que pesava m enos de cinquenta quilos e que havia levado a cabo o que decidira fazer, que assum ira o papel sinistro de assassina e conseguira realizar seu propósito. Sim , ele pensou, se ela foi capaz de ter forças para fazer um a coisa tão terrível com o m arido que se transform ara num dem ônio para ela, então eu posso pelo m enos fazer isso com igo m esm o. Im aginou a determ inação férrea que fora necessária para que Sy bil realizasse seu plano até o fim brutal: a loucura im placável que se m obilizou nela quando deixou os dois filhos pequenos em casa, a firm eza com que pegou o carro e foi até a casa do ex-m arido, depois subiu a escada, tocou a cam painha, levantou a arm a e, quando ele abriu a porta, sem hesitar o acertou com dois tiros à queim a-roupa — se ela foi capaz de fazer aquilo, eu posso fazer isto!

Sy bil Van Buren se transform ou num a referência de coragem . Ele repetia a si próprio a fórm ula que o inspirava a agir, com o se apenas um a ou duas palavras pudessem fazê-lo realizar o m ais irreal dos atos: se ela foi capaz de fazer aquilo, eu posso fazer isto, se ela foi capaz de fazer aquilo... até que por fim lhe ocorreu a ideia de fingir que estava se suicidando num a peça de Tchécov. Nada poderia ser m ais apropriado. Seria um a volta ao trabalho de ator, e, em bora ele fosse um ser ridículo, desonrado, fraco, apenas um equívoco de treze m eses na vida de um a lésbica, precisaria de todos os seus recursos para realizar o ato. Para conseguir pela últim a vez transform ar o im aginário em realidade, teria de fazer de conta que o sótão era um teatro e que ele era Konstantin Gavrílovitch Tréplev na cena final de A gaivota. Aos vinte e poucos anos, quando ele, um garoto-prodígio, realizava tudo o que tentava e obtinha tudo o que queria, Axler havia representado o papel criado por Tchécov, do j ovem aspirante a escritor que se sente um fracassado em tudo, desesperado com as derrotas no trabalho e no am or. Foi num a m ontagem do Actors Studio, na Broadway, de A gaivota, e foi seu prim eiro grande sucesso em Nova York, o que o tornou o j ovem ator m ais prom issor da tem porada, cheio de autoconfiança e consciente de sua singularidade, o que levaria a todas as contingências im previsíveis.

Se ela foi capaz de fazer aquilo, eu posso fazer isto.

Um bilhete com oito palavras foi encontrado ao lado dele quando seu corpo foi descoberto no chão do sótão pela faxineira dias depois. “O fato é que Konstantin Gavrílovitch se m atou.” Era a fala final de A gaivota. Ele havia conseguido, o renom ado ator teatral, outrora tão elogiado por sua força dram ática, ele que, no auge da carreira, atraía m ultidões ao teatro.

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Philip Roth

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