A Mão e a Luva

Machado de Assis · Capítulo 10 de 22

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A Mão e a Luva

VIII Golpe.

VIII
Golpe.

Um dia de manhã accordou Estevão com a resolução feita de dar o golpe decisivo. Os corações frouxos tem destas energias subitas, e é proprio da pusilanimidade illudir-se a si mesma. Elle confessava que nada havia feito, e que a situação exigia alguma cousa mais.

—Nunca as circumstancias foram mais propicias do que hoje, pensava o rapaz; Guiomar trata me com affabilidade de bom agouro. Demais, ha nella espirito elevado; ha de reconhecer que um sentimento discreto e respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de sala.

A resolução estava essentada; restava o meio de a tornar affectiva. Estevão hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou transmittil-o por via do papel. Qualquer dos modos tinha para elle mais perigos que vantagens. Elle receiava ser frio na declaração escripta ou incompleto na confissão oral. Irresoluto e vacillante, ambos os meios adoptou e repelliu, a curtos intervallos; emfim, deferiu a escolha para outra occasião.

O acaso suppriu a resolução, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.

Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baroneza, foram passear á chacara. Estevão que, como Luiz Alves, era dos convivas, affastou-se gradualmente dos outros grupos, e approximou-se daquella cerca historica onde, após dous annos de ausencia e esquecimento, vira, ja transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que elle punha os olhos nesse sitio, depois da conversa, que ahi tivera com ella. A commoção que sentiu foi naturalmente grande; resurgia-lhe o quadro ante os olhos, a hora, o ceu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim a figura da moça, que alli appareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe recordações, que elle julgava mortas, esperanças que suppunha impossiveis.

Estevão curvou a cabeça ao doce peso daquellas memorias, a alma bebeu, a largos haustos, a vida toda que a imaginação lhe creava e talvez a noite o tomasse na mesma attitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe não dissesse a poucos passos de distancia:

—Sr. doutor, perdeu alguma cousa?

O rapaz volveu rapidamente a cabeça, e viu a moça, que atravessava uma das calhes proximas, a olhar e a sorrir para elle. Estevão sorriu tambem, e com uma presença de espirito assaz rara em namorados, sobretudo em namorados como elle era, promptamente respondeu:

—Não perdi nada, mas achei uma cousa.

—Vejamos o que foi.

E Guiomar approximou-se, a passo firme e seguro, e Estevão, sem muito vacillar, alli mesmo forjou uma reflexão philosophica a respeito de um insecto que casualmente passava por cima de uma folha secca. A reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forçada e de acarreto; a moça sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho, quando elle, colhendo as forças todas, a fez deter com estas palavras:

—E se eu tivesse achado outra cousa?

—Ainda mais! exclamou ella voltando-se risonha.

Estevão deu dous passos para Guiomar, desta vez commovido e resoluto. A moça fez-se seria e dispoz-se a ouvil-o.

—Se eu tivesse achado neste logar, continuou elle, longos dias de esperança e de saudade, um passado que eu julgára não reviver mais, uma dor occulta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de minhas próprias lagrimas? Se eu tivesse achado aqui a pagina rota de uma historia começada e interrompida, não por culpa de ninguem na terra, mas da estrella sinistra da minha vida, que um anjo mau accendeu no ceu, e que, talvez, talvez ninguem nunca apagará?

Estevão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.

Aquella declaração repentina e rosto a rosto estava tão longe do temperamento do rapaz, que ella gastou alguns segundos longos primeiro que voltasse a si do assombro. Elle proprio admirava-se do atrevimento que tivera; e emquanto pendia dos labios da moca, repassava na memoria, aliás confusamente, o que tão a frouxo lhe saira do peito naquella hora de abençoada temeridade.

—Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, é natural que preferisse achar outra cousa menos melancolica. Entretanto, parece que nada mais achou do que esta occasião de falar, com a viva imaginação que Deus lhe deu; n'um ou n'outro caso, porém, posso de certo lastimal-o ou admiral-o, mas não me é dado ouvil-o.

E Guiomar ia de novo affastar-se, quando Estevão, receiando perder a occasião que a fortuna lhe offerecia, disse de longe com voz triste e supplice:

—Attenda-me um só munito!

—Não um, mas dez—respondeu a moça estacando o passo e voltando o rosto para elle—e serão provavelmente os ultimos em que falaremos a sós. Cedo á commiseração que me inspira o seu estado; e pois que rompeu o longo e expressivo silencio em que se tem conservado até hoje, concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma só palavra.

A moça falára n'um tom secco e imperioso, em que mais dominava a impaciencia do que a commiseração a que vinha de alludir. O coração de Estevão batia-lhe como nunca,—como o coração costuma bater nas crises de uma angustia suprema. Todo aquelle castello de vento, laboriosamente construido nos seus dias de illusão, todo elle se esboroava e desfazia, como vento que era. Estevão arrependera-se do impulso que o levára a violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos intimos, a abrir mão de tantas esperanças, alimentadas com o melhor do seu sangue juvenil.

Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos pareciam medir-se, ella serena e quieta, elle tremulo e gelado.

—Uma só palavra, repetiu Estevão, e essa adivinho que será de desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma cousa, força é que lhe diga tudo,—feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a que já agora posso aspirar,—o seu remorso.

Guiomar ouvira-o tranquillamente; a ultima palavra fel-a estremecer. Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntario e esperou.

A narração foi longa, tanto quanto o permittiam a occasião, o logar e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estevão nada lhe escondeu, nem o amor que lhe tivera out'rora, nem o que agora lhe renascia, mais violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanças que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto emprehendêra para ler a ventura de a contemplar de perto, de gozar naquelle escasso ponto da terra a maior de todas as bem aventuranças.

Tal é a transcripção, não litteral, mas fiel, do que disse Estevão durante esse dez minutos. As palavras caíam-lhe tremulas e a voz saía-lhe sumida, em parte por que elle forcejava em a abafar, afim de que o não ouvissem, em parte porque a commoção lhe comprimia a garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloquência vinha do coração.

Guiomar não ouvira tudo com a mesma expressão; a principio um meio riso parecia desabrochar-lhe os labios, mas não tardou que pelo rosto abaixo lhe caísse um veu mais compassivo e humano. Havia nella impaciencia e anciedade de acabar, de sair dalli; era, sem duvida, o receio de que a ausência se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia também commiseração e piedade.

—Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevão concluindo; sobretudo agora, só eu, só a minha cabeça é a causa unica de tudo. Parecia-me ver o contrario do que existia; cheguei a suppor que havia em seu coração alguma cousa que não era a total indifferença; vejo que foi tudo illusão.

O tom em que elle falára era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma submissão assim devia por força commover a uma mulher amada. Guiomar falou-lhe sem azedume:

—Era illusão, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou nega. Posso eu ter culpa disso?

—Nenhuma.

—Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justiça avigore o sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima apenas, não póde haver outra cousa,—da minha parte ao menos. É pouco, de certo...

—Não é pouco, é cousa differente, interrompeu Estevão.

—Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção.

Estevão abriu a bocca para falar, mas não achou palavra que lhe dissesse o que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente, e ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta, como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano, que lhe cumpria não voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da esperança; e assim era que a unica e amarga satisfação de a ver, nem essa já agora se lhe consentia.

—Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de pausa, seja homem, vença-se a si proprio; seu grande defeito é ter ficado com a alma creança.

—Talvez, respondeu o moço suspirando.

—E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei se outra consentiria nisto. Mas eu não só reconheço os seus sentimentos de respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham termo a aspirações impossiveis.

Guiomar estendeu-lhe a mão, em que elle tocou levemente.

A baroneza appareceu, entretanto, a algumas braças de distancia; vinha encostada ao braço do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ella já não ouvia. Tinha os olhos cravados nos dous interlocutores de ha pouco. A moça apenas vira de longe a madrinha, deu affoutamente o braço a Estevão, e seguiram ambos a encontrar-se com ella; o rosto de Guiomar não revelava nada; o de Estevão vinha perturbado e abatido. A baroneza franziu a testa:

—Jorge, disse ella em voz baixa, precisamos conversar.