A Mão e a Luva
II Um roupão.
II
Um roupão.
Um mez depois de chegar Estevão a S. Paulo, achava-se a sua paixão definitivamente morta e enterrada, cantando elle mesmo um responso, a vozes alternadas, com duas ou tres moças da capital,—todas ellas, por passatempo. Claro é que dous annos depois, quando tomou o grão de bacharel, nenhuma ideia lhe restava do namoro da rua dos Invalidos. Demais, a bella Guiomar desde muito tempo deixara o collegio e fora morar com a madrinha. Já elle a não vira da primeira vez que veiu á corte. Agora voltava graduado em sciencias juridicas e sociaes, como fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.
A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que transpuzeram a linha dos Cincoenta divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que já não dão á vida toda a flor dos seus primeiros annos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como no tempo delles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as cousas com os olhos da sua edade. Os recreios da juventude não são de certo egualmenle nobres, nem egualmente frivolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o merecimento não é della,—a pobre juventude,—é sim do tempo que lhe cae em sorte.
A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cholera—; bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao theatro. O Cassino abria os seus salões, como os abria o Club, como os abria o Congresso, todos tres fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homericos do theatro lyrico, a quadra memoravel daquellas lutas e rivalidades renovadas em cada semestre, talvez por um excesso de ardor e enthusiasmo, que o tempo diminuiu, ou transferiu,—Deus lhe perdôe,—a cousas de menor tomo. Quem se não lembra,—ou quem não ouviu falar das batalhas feridas naquella classica plateia do Campo da Acclamação, entre a legião casalonica e a phalange chartonica, mas sobretudo entre esta e o regimento lagruista? Eram batalhas campaes, com tropas frescas,—e maduras tambem,—apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até de estalinhos. Uma noite a acção travou-se entre o campo lagruista e o campo chartonista, com tal violencia, que parecia uma pagina da Illiada. Desta vez, a Venus da situação saiu ferida do combate; um estalo rebentára no rosto da Charton. O furor, o delirio, a confusão foram indescriptiveis; o applauso e a pateada deram-se as mãos,—e os pés. A peleja passou aos jornaes. «Vergonha eterna (dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!»—«Si for mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarchos que no saguão do theatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.)»—«Patuleia desenfreada!»—«Fidalguice balofa!»
Os que escaparam daquellas guerras de alecrim e mangerona hão de sentir hoje, após dezoito annos, que despenderam excessivo enthusiasmo em cousas que pediam repouso de espirito e lição de gosto.
Estevão é uma das relíquias daquella Troya, e foi um dos mais fervorosos lagruistas, antes e depois do grão. A causa principal das suas preferencias, era de certo o talento da cantora; mas a que elle costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro do dia, tirantes as do somno, essa causa que mais que tudo o ligava aos «arraiaes do bom gosto» dizia elle, era,—imaginem lá,—era o buço de Mlle. Lagrua. Talvez não fosse elle o unico amador do buço; mas outro mais férvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista machiavelico, aliás escriptor elegante, elevava o tal buço á cathegoria de bigode, comprehendendo sagazmente que, se o buço era graça, o bigode era excrescencia; e elle nem ao labio da Lagrua queria perdoar.
—Oh! aquelle buço! exclamava Estevão nos intervallos de uma opera, aquelle delicioso buço hade ser a perdição da gente de bem! Quem me dera ir encaracolado por alli acima, até ficar mais proximo do ceu, quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ella, que me não descobre na turba innumeravel dos seus adoradores! Querem saber uma cousa? Alli é que ella hade ter a alma, e eu quizera entreter-me com a alma della, e dizer-lhe muita cousinha que tenho cá dentro á espera de um buço que as queira ouvir.
Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dous annos antes. Vinha cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor, alliando em si, como em edade de transição, o estouvamento de um com a dignidade do outro. As mesmas chimeras tinha, e a mesmas simplesa de coração; só não as mostrára nos versos que imprimiu em jornaes academicos, os quaes eram todos repassados do mais puro byronismo, moda muito do tempo. Nelles confessava o rapaz á cidade e ao mundo a profunda incredulidade do seu espirito, e o seu fastio puramente litterario. A collação de grão interrompeu, ou talvez acabou, aquella vocação poetica; o ultimo suspiro desse genero que lhe saiu do peito foram umas sextilhas á sua juventude perdida. Felizmente, que só a perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.
Posto fizesse boa figura na academia, mais presava do que amava a sciencia do direito. Suas preferencias intellectuaes dividiam-se, ou antes abrangiam a polilica e a litteratura, e ainda assim, a politica só lhe acenava com o que podia haver litterario nella. Tinha leitura de uma e outra cousa, mas leitura veloz e á flor das paginas. Estevão não comprehendería nunca este axioma de lord Macaulay—que mais aproveita digerir uma lauda que devorar um volume. Não digeria nada; e dahi vinha o seu nenhum apego ás sciencias que estudara. Venceu a repugnancia por amor proprio; mas, uma, vez dobrado o cabo das Tormentas disciplinares, deixou a outros o cuidado de aproar á India.
Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em germen, não só porque lhe minguava o apoio necessario para as arvorecer e fructificar, mas ainda por que elle não tinha em si a força indispensavel a todo o homem que põe a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspirações vagas, intermittentes, vaporosas, umas visões legislativas e ministeriaes, que tão depressa lhe namoravam a imaginação, como logo se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim, amava-os elle deveras. Opiniões não as tinha; alguns escriptos que publicara durante a quadra academica eram um complexo de doutrinas de toda a casta, que lhe fluctuavam no espirito, sem se fixarem nunca, indo e vindo, alçando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a actual disposição de espirito.
Por agora militava nas fileiras do lagruismo, com ardor, dedicação e fidelidade de bom apostolo. Não era abastado para pagar o luxo de uma opinião lyrica; nascera pobre e não tinha parente em boa posição. Alguns poucos recursos possuia, provenientes do seu officio de advogado, que exercia com o amigo Luiz Alves.
Uma noite assistira á representação de Othello, palmeando até romper as luvas, acclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite satisfeito dos seus e de si. Terminado o expectaculo, foi elle, segundo costumava, assistir á saida das senhoras, uma procissão de rendas, e sedas, e leques, e veus, e diamantes, e olhos de todas as cores e linguagens. Estevão era pontual nessas occasiões de espera, e raro deixava de ser o ultimo que saía. Tinha agora os olhos pregados em outros olhos, não pardos como os delle, mas azues, de um azul-ferrete, infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguem bater-lhe no hombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras:
—Larga o pinto, que é das almas.
Estevão voltou-se.
—Ah! és tu! disse elle vendo Luiz Alves. Quando chegaste?
—Hoje mesmo, respondeu o collega; venho sequioso de musica. Vassouras não tem Lagrua nem Othello...
—Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevão, que, ainda falando em prosa, cultivava as suas metaphoras poeticas. Fizeste bem; não te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgoia, que aqui nos querem impingir por grande cousa, e que não chega aos calcanhares do buço...
Interrompeu-se. Luiz Alves acabava de comprimentar ceremoniosamente alguem que passava; Estevão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma moça, que elle não chegou a ver, porque já descia as escadas; mas tão elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admiração.
—Algum namoro? perguntou ao amigo.
—Não; uma visinha.
A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel, seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que perdera a mãe, alguns mezes antes.
A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente na praia, todo o material, em summa, de uma boa composição poetica, em vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos rebuscados nos diccionarios. Estevão poetou, mas poetou em prosa, com um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso ás cousas bellas, preferia a mais util de todas naquella occasião, que era ir dormir. Não o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava ácerca daquelle «pinto, que era das almas,» aquelles olhos azues, « profundos como o ceu,» exclamava Estevão.
Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que o destino assim o resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e, cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada.
A manhã estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras da visinhança. Estevão, amuado por não poder conciliar o somno, resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso, lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama.
O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevão que era plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas começava das escadas de pedra da casa e ia até o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz Alves até á extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do lugar em que ficava Estevão só a segunda rua podia ser vista de ponta a ponta.
Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de café, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e abriu o livro. O livro era uma Pratica Forense. Demos-lhe razão ao despeito com que o fechou e atirou ao chão, contentando-se com o canto dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação tambem, que valia as flores e os passaros.
Deus sabe até onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um incidente lh'as não colhera e fizera descer á terra. Da casa visinha saíra um roupão,—elle não viu mais que um roupão,—e seguira pela rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevão, que adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças á Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle não sabia se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que o fosse.
A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha coroar a natureza.
Ergueu-se Estevão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver melhor,—e ser visto, digamos a verdade toda,—aquella desconhecida visinha, que devia ser por força a que Luiz Alves comprimentara no theatro. Acteon christão e modesto, não sorprehendia Diana no banho, mas ao sair delle; todavia, não palpitava menos de commoção e curiosidade.
O roupão ia andando.