A Mão e a Luva

Machado de Assis · Capítulo 8 de 22

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A Mão e a Luva

VI O post-scriptum.

VI
O post-scriptum.

Aquelle conselho de Luiz Alves, na fatal noite de dous annos antes, não ha duvida que era judicioso e devera ter ficado no espirito de Estevão. Não convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um post-scriptum. Estevão era curioso de epistolas; não pode ter-se que não abrisse aquella. O post-scriptum lá estava no fim.

Vindo á linguagem natural, Estevão saiu do jardim de Luiz Alves com o coração meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera padecer um dia. Daqui concluirá alguem que elle verdadeiramente não deixára de a amar Póde ser; havia talvez debaixo da cinza uma faisca, uma só, e essa bastava a repetir o incendio. Mas fosse de um ou de outro modo, o certo é que Estevão saiu dalli com o príncipio do amor no coração.

Todo aquelle dia foi de alvoroço e agitação para elle, que não se resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paixão nova. A tentativa era sincera; as forças é que eram escassas. Elle desviava de si a imagem da moça; ella, porém perseguia-o, tenaz, como se fora um remorso, fatal como a voz de seu destino.

Estevão nada disse a Luiz Alves do encontro e da conversa qui tivera com a moça no jardim; e não lh'o escondeu por desconfiança, mas por vergonha. Que lhe diria porém elle que o não tivesse visto e percebido Luiz Alves? Da janella de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando os olhos pela fresta das cortinas pôde observa-los durantes aquelles tres quartos de hora de innocente palestra. O espectaculo não o divertiu muito; Luiz Alves achou um pouco atrevida a escolha do logar.

A circumstancia de os ver juntos chamou-lhe a attenção para a coincidencia do nome da visinha com o da antiga namorada do collega; era naturalmente a mesma pessoa.

—Vai contar-me tudo, pensou Luiz Alves quando viu o collega affastar-se da cerca e dirigir os passos para casa.

Estevão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que entrára na vespera, a ler-se-lhe no rosto alguma cousa mais séria do que elle proprio costumava ser.

Tinha Estevão contra si o passado e o futuro. O presente, sim, defendia-o; elle sentia que alguma cousa o distanciava de Guiomar. Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordações,—as menos amargas,—e a memoria quasi não sabe de outras quando relembra o que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças todas, e basta dizer que eram infinitas. Além disso, a Guiomar que elle via agora, surgia-lhe no meio de outra atmosphera,—a mesma que o seu espirito almejava respirar; e apparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto o obstaculo, aquella porta fechada, que bem podia ser a da cittá dolente, mas que em todo o caso elle quizera ver franqueada ás suas ambições.

Os dias correram alternados de confiança e desanimo, tecidos de ouro e fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e devia acabar. O coração levou Estevão atraz de si.

Nenhum meio, dos que tinha á mão, lhe esqueceu para ver Guiomar. As janellas da casa estavam quasi sempre desertas. Duas ou tres vezes aconteceu vel-a de longe; ao approximar-se-lhe, sumira-se o vulto na sombra do salão Não perdia theatro; mas só duas vezes teve o gosto de a ver: uma no Lyrico, onde se cantava Somnambula, outra no Gymnasio, onde se representavam os Parisienses, sem que elle ouvisse uma nota da opera, nem uma palavra da comedia. Todo elle, olhos e pensamento, estava no camarote de Guiomar. No Lyrico foi baldada essa comtemplação; a moça não deu por elle. No Gymnasio, sim; o theatro era pequeno; comtudo, antes não fôra visto, tão tenazmente deviou ella os olhos do logar em que elle ficára.

Nem por isso deixou Estavão de ir esperal-a á saida, collocar-se francamente no seu caminho, sollicitar-lhe audazmente os olhos e attenção. A familia desceu da 2a ordem pela escada do lado de S. Francisco; a estreiteza do logar era excellente. Dava o braço á baroneza um moço de vinte e cinco annos, figura elegante, ainda que um tanto affectada. Desceram todos tres e ficaram á espera do carro alguns minutos. Na meia sombra que alli havia destacava-se o rosto marmoreo de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela multidão, mas não fitavam ninguem. Ella possuia, como nenhuma outra, a arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admiração publica.

Irritado com a indifferença da moça, vagou Estevão toda aquella noite, a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos, todos mais absurdos uns que outros. A taça enchera de todo; era mister entornal-a no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas mãos o unico remedio que elle nessa occasião pedia;—a chave daquella porta. Luiz Alves era esse homem.

—Outra vez caido! exclamou elle rindo quando Estevão lhe contou tudo. Eu já o havia percebido. Isto de mulheres... Queres então que te leve lá?

—Quero.

Luiz Alves reflectiu alguns intantes.

—E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei o que me vás dizer; mas tambem não te proponho uma viagem de recreio, á Europa. Olha, arranjo-te, se queres, um logar de juiz municipal...

A proposta era sincera; Estevão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria e ergueu os hombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na vida politica, que esperava dahi a algumas semanas o resultado de uma eleição, com a certeza, ou quasi, de haver triumphado. Era influencia que nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estevão, naquella occasião, toda a carreira publica, influencia, futuro, leis, tudo estava nos olhos castanhos de Guiomar.

—Eu amo-a, disse elle emfim, isto para mim é tudo. Póde bem ser que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são reflexões, e eu não reflicto agora, eu sinto...

—Em todo o caso, acudiu Luiz Alves, desempenho o meu dever de amigo; digo-te que vocês não nasceram um para outro; que, se ella te não amou naquelle tempo, muito menos te amará hoje, e que emfim...

Luiz Alves estacou.

—Emfim? perguntou Estevão.

—Emfim pedes-me um sacrificio, concluiu rindo o advogado, por que também eu já a namorisquei... Não é preciso carregares o sobr'olho; foi namoro de visinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro horas. Com vergonha o digo, ella não me prestou uma migalha de attenção sequer, e eu voltei aos meus autos.

—Então... gostas della? perguntou Estevão.

—Acho-a bonita e nada mais. Aquillo foi um lançar barro á parede; se acceitasse, casava-me; não acceitou...

—Já vês que somos differentes.

—Queres, então?...

—Um serviço de amigo.

—Bem, disse por fim Luiz Alves, faça-se a tua vontade. A baroneza vai cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; entrarás alli, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso da consciência.

Estevão, que só pedia um pretexto, acceitou a offerta com ambas as mãos, e agradeceu-lh'a com tão expansiva ternura, que fez sorrir o outro.

A promessa cumpriu-se pontualmente. Luiz Alves apresentou Estevão á baroneza, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como advogado capaz de zelar os interesses da illustre cliente. A recepção, foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida de o ver naquella casa. Quando Estevão a saudou, como quem a conhecia de longo tempo, ella mal pode retribuir-lhe o cumprimento; em todo o resto da noite não lhe deu palavra. Daquella parte o acolhimento não podia ser peior; mas Estevão sentia-se feliz, desde que vel-a, respirar o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto á fortuna.

De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na indifferença com que Guiomar tratára Estevão, foi Mrs. Oswald. A sagaz ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas britannicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixão, solitaria e desattendida.

—Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois a Guiomar.

Guiomar fez um gesto de estranheza.

—Entendamo-nos, observou a ingleza; não digo que a senhora o namore também; digo que é elle quem anda apaixonado. Não adivinha?

—Talvez.

—O Dr. Estevão.

Guiomar fez um gesto de desdem.

—Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixão a cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos estranhos. Os namorados geralmente suppõem que ninguem os vê; é uma lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de pessoa nenhuma.

—Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.

Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho affagar-lhe o sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que não vem para aqui, e concluiu pondo-lhe as mãos nos hombros, encarando-a fito a fito, a emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:

—A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguem sei eu que a merece...

Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da ingleza, murmurando:

—Mrs. Oswald, falemos de outra cousa.