A Moreninha
Capítulo XXI
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ingrato! Ingrato! foge…
E aqui não tornes mais,
Que, sempre que tornares,
‘Terás de ouvir meus ais:
E ouvir queixas de amor,
E ver pranto de dor. 1 …
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XXII
E, se amanhã vieres,
Em pé na rocha dura
‘Starei cantando aos ares
A mal paga ternura…
Cantando me ouviras,
Chorando me acharás!…
Cap. XI - Travessuras de d. Carolina
Mas ela não pára: o movimento é a sua vida; esteve no jardim e em toda a parte; cantou sobre o rochedo e ei-la outra vez no jardim!
Infatigável, apenas suas faces se coraram com o rubor da agitação. Travessa menina!… Porém ela tempera todas as travessuras com tanta viveza, graça e espírito, que menos valera se não fizera o que faz. Não há um só, entre todos, de cuja alma não se tenham esvaído as idéias desfavoráveis que à primeira vista produzira o gênio inquieto de d. Carolina. O mesmo Augusto não pôde resistir à vivacidade da menina. Encontrando Leopoldo, disseram duas palavras sobre ela.
- Então, como a achas agora?… disse Leopoldo, apontando para a irmã de Filipe.
- Interessante, espirituosa e capaz de levar a glória ao mais destro casuísta. Olha, Fabrício vê-se doido com ela.
- Só isto?…
- Acho-a bonita.
- Nada mais?…
- Tem voz muito agradável.
- É tudo o que pensas?…
- Tem a boca mais engraçada que se pode imaginar.
- Só?…
- Só?…
- Que mais?
- É tão ligeira como um juramento de mulher.
- Dize tudo de uma vez.
- Pois que queres mais que eu diga?
- Que a amas!… Que dás o cavaco por ela.
- Amá-la? Não faltava mais nada! Amo-a como amo as outras.., isto sim.
- Pois meu amigo, todos nós estamos derrotados: o diabinho da menina nos tem posto o coração em retalhos. Se, de novo, se fizer a saúde que hoje fizemos, todos, à exceção de Felipe, pronunciarão a letra C.
- Também Fabrício?
- Ora! Esse está doente… perdido… doido enfim! E ela?
- Zomba de todos nós; cada cumprimento que lhe endereçamos paga ela com
uma resposta que não tem troco e que nos racha de meio a meio. Tu ainda lhe não disseste nada?
- Coisas vãs… e palavras da tarifa.
- E ela?
- Palavras da tarifa… e coisas vãs.
- Tanto melhor para mim.
- Pois é opinião geral que ela te prefere a todos nós.
- E pior para ela, mas… adeus! O meu lindo par se levanta do banco de relva em que descansava, vou tomar-lhe o braço; tenho-me singularmente divertido: a bela senhora é filósofa! … Faze idéia! Já leu Mary de Wollstonecraft e, como esta defende o direito das mulheres, agastou-se comigo, porque lhe pedi uma comenda para quando fosse ministra de Estado, e a patente de cirurgião de exército, no caso de chegar a ser general; mas, enfim, fez as pazes, pois lhe prometi que, apenas me formasse, trabalharia para encartar-me na Assembléia Provincial e lá, em lugar das maçadas de pontes, estradas e canais, promoveria a discussão de uma mensagem ao Governo Geral, em prol dos tais direitos das mulheres; além de que… Mas… tu bem vês que ela me está chamando; adeus!…
No entanto d. Carolina continuava a cativar todos os olhares e atenções; tinham notado, é verdade, que ela estivera alguns momentos recostada à efígie da Esperança, triste e pensativa. Fabrício jurava mesmo que a vira enxugar uma lágrima, mas logo depois, lhe desaparecera completamente a menor aparência de tristeza, tornou a brilhar o prazer em ebulição.
Todos tinham tido seu quinhão, maior ou menor, segundo os merecimentos de cada um, nas graças maliciosas da menina. Ninguém havia escapado: Fabrício era a vítima predileta, porque também fora ele o único que se atreveu a travar luta com ela.
Finalmente d. Carolina acabava de entrar outra vez no jardim, depois de ter cantado sua balada. De todos os lados soavam-lhe os parabéns, mas ela escapou a eles, correndo para junto de uma roseira toda corada por suas belas e rubras flores.
Fabrício, que ainda não estava suficientemente castigado e que, além disso, começava a gostar seu tantum da Moreninha, dirigiu-se com d. Joaninha para o lado em que ela se achava.
- É decididamente o que eu pensava, disse Fabrício, quando se viu ao pé de d. Carolina; e dirigindose a d. Joaninha: sim… sua bela prima ama as rosas, exclusivamente.
- Conforme as ocasiões e circunstâncias, respondeu a menina.
- Poderia eu merecer a honra de uma explicação? perguntou Fabrício.
Com toda a justiça e, continuou d. Carolina rindo-se, tanto mais que foi a V.S. a que me dirigi. Eu queria dizer que entre um beijo de frade ou um cravo defunto e uma rosa, não hesito em preferir a última.
Fabrício fingiu não entender a alusão e continuou:
- Todavia não é sempre bem pensada semelhante preferência; a rosa é como a beleza: encanta, mas espinha! V.S.a o sabe, não é assim?
- Perfeitamente, mas também não ignoro que a rosa só espinha quando se defende de alguma mão impertinente que vem perturbar a paz de que goza; V. S. a o sabe, não é assim?
- Oh! Então a sra. d. Carolina foi bem imprudente em quebrar o pé dessa rosa com que brinca, expondo assim seus delicados dedos: e bem cruel também em fazê-la murchar de inveja, tendo-a defronte de seu formoso semblante.
- Pela minha vida, meu caro senhor! Nunca vi pedir uma rosa com tanta graça: quer servir-se dela?
- Seria a mais apetecível glória…
- Pois aqui a tem… Querido primo, nada de ciúmes.
E Fabrício, recebendo o belo presente, em vez de olhar para a mão que o dava, atentava em êxtase o rosto moreno e o sorrir malicioso de d. Carolina. Ao momento de se encontrar a mão que dava e a que recebia, Fabrício sentiu que lhe apertavam os dedos; seu primeiro pensamento foi acreditar que era amado, mas logo se lhe apagou esse raio de vaidade, pois que ele retirou vivamente a mão, exclamando involuntariamente:
- Ai! Feri-me!…
Era que a travessa lhe havia apertado os dedos contra os espinhos da rosa. Mas a flor tinha caído na relva: Fabrício,já menos desconcertado, a levantou com presteza; e encarando a irmã de Filipe, disselhe em tom meio vingativo:
- Foi um combate sanguinolento, mas ganhei o prêmio da vitória!
- Pois feriu-se?… perguntou d. Carolina, chegando-se com fingido cuidado para ele.
- Nada foi, minha senhora: comprei uma rosa por algumas gotas de sangue… Valeu a pena.
- Maldita rosa! exclamou a Moreninha, teatralmente… Maldita rosa! Eu te amaldiçôo!
E dando um piparote na inocente flor, a desfolhou completamente: não ficou na mão de Fabrício mais que o verde cálice. D. Carolina correu para junto de sua digna avó, e o pobre estudante ficou desconcertado.
E esta! murmurou ele enfim.
- Foi muito bem-feito! disse d. Joaninha, cheia de zelos e dando-lhe um beliscão que o fez ir às nuvens.
- Perdão, minha senhora… seja pelo amor de Deus! exclamou Fabrício, que se via batido por todos os lados.
No entanto começava a declinar a tarde. Uma voz reuniu todas as senhoras e senhores em um só ponto; servia-se o café num belo caramanchão, mas como fosse ele pouco espaçoso para conter tão numerosa sociedade, aí só se abrigaram as senhoras, enquanto os homens se conservaram da parte de fora.
Escravas decentemente vestidas ofereciam chávenas de café fora do caramanchão e, apesar disso, d. Carolina se dirigiu com uma para Fabrício, que praticava com Augusto.
- Eu quero fazer as pazes, sr. Fabrício; vejo que deve estar muito agastado comigo e venho trazer-lhe uma chávena de café temperado pela minha mão.
Fabrício recuou um passo e colocou-se à ilharga de Augusto; ele desconfiava das tenções da menina, e sua primeira idéia foi esta: o café não tem açúcar.
Então começou entre os dois um duelo de cerimônias, que durou alguns instantes; finalmente, o homem teve de ceder à mulher, Fabrício ia receber a chávena, quando esta estremeceu no pires… D. Carolina, temendo que sobre ele se entornasse o café, recuou um pouco. Fabrício fez outro tanto, e a chávena, ainda mal tomada, tombou e o café derramou-se inopinadamente. Fabrício recuou ainda mais com vivacidade, mas encontrando a raiz de um chorão, que sombreava o caramanchão, perdeu
o equilíbrio e caiu redondamente na relva.
Uma gargalhada geral aplaudiu o sucesso.
- Fabrício espichou-se completamente! exclamou Filipe.
O pobre estudante ergueu-se com ligeireza, mas, na verdade, corrido do que acabava de sobrevir-lhe; as risadas continuavam, as terríveis consolações o atormentavam, todas as senhoras tinham saído do caramanchão e riam-se, por sua vez, desapiedadamente. Fabrício daria muito para livrar-se dos apuros em que se achava, quando de repente soltou também a sua risada e exclamou:
- Vivam as calças de Augusto!
Todos olharam. Com efeito, Fabrício tinha encontrado um companheiro na desgraça. Augusto estava de calças brancas, e a maior porção do café entornado havia caído nelas.
Cap. XII - Meia hora embaixo da cama
Não tardou que Filipe, como bom amigo e hóspede, viesse em auxílio de Augusto. Em verdade que era impossível passar o resto da tarde e a noite inteira com aquela calça, manchada pelo café; e, portanto, os dois estudantes voaram à casa. Augusto, entrando no gabinete destinado aos homens, ia tratar de despir-se, quando foi por Filipe interrompido.
- Augusto, uma idéia feliz! Vai vestir-te no gabinete das moças.
- Mas que espécie de felicidade achas tu nisso?
- Ora! Pois tu deixas passar uma tão bela ocasião de te mirares no mesmo espelho em que elas se miram?… De te aproveitares das mil comodidades e das mil superfluidades que formigam no toucador de uma moça?… Vai!… Sou eu que to digo; ali acharás banhas e pomadas naturais de todos os países; óleos aromáticos essências de formosura e de todas as qualidades; águas cheirosas, pós vermelhos para as faces e para os lábios, baeta fina para esfregar o rosto e enrubescer as pálidas; escovas e escovinhas, flores murchas e outras viçosas…
- Basta, basta; eu vou, mas lembra-te que és tu quem me fazes ir e que o meu coração adivinha…
- Anda, que o teu coração sempre foi um pedaço d’asno.
E isto dizendo, Filipe empurrou Augusto para o gabinete das moças e se foi reunir ao rancho delas.
Ai do pobre Augusto!… Mal tinha acabado de tirar as calças e a camisa, que também se achava manchada, sentiu o rumor que faziam algumas pessoas
que entravam na sala.
Augusto conheceu logo que eram moças, porque estes anjinhos, quando se ajuntam, fazem, conversando, matinada tal, que a um quarto de légua se deixam adivinhar; se é sediço e mesmo insólito compará-las a um bando de lindas maitacas, não há remédio senão dizer que muito se assemelham a uma orquestra de peritos instrumentistas, na hora da afinação.
Ora, o nosso estudante estava, por sua esdrúxula figura, incapaz de aparecer a pessoa alguma: em ceroulas e nu da cinta para cima, faria recuar de espanto, horror, vergonha e não sei que mais, ao belo povinho que acabava de entrar em casa e que, certamente, se assim o encontrasse, teria de cobrir o rosto com as mãos; e portanto, o pobre rapaz seguiu o primeiro pensamento que lhe veio à mente: ajuntou toda a roupa, enrolou-a, e com ela embaixo do braço escondeu-se atrás de uma linda cama que se achava no fundo do gabinete, cuidando que cedo se veria livre de tão intempestiva visita; mas, ainda outra vez, pobre estudante! Teve logo de agachar-se e espremer-se para baixo da cama, pois quatro moças entraram no quarto. E eram elas d. Joaninha, d. Quinquina, d. Clementina e uma outra por nome Gabriela, muito adocicada, muito espartilhada, muito estufada, e que seria tudo quanto tivesse vontade de ser, menos o que mais acreditava que era, isto é… bonita.
Depois que todas quatro se miraram, compuseram cabelos, enfeites e mil outras coisas que estavam muito em ordem, mas que as mãozinhas destas quatro demoiselles não puderam resistir ao prazer, muito habitual nas moças, de desarranjar para outra vez arranjar, foram, por mal dos pecados de Augusto, sentar-se da maneira seguinte: d. Clementina e d. Joaninha na cama, embaixo da qual estava ele; d. Quinquina de um lado, em uma cadeira; e d. Gabriela exatamente defronte do espelho, do qual não tirava os olhos, em outra cadeira que, apesar de ser de braços e larga, pequena era para lhe caber sem incômodo toda a coleção de saias, saiotes, vestidos de baixo e enorme variedade de enchimentos que lhe faziam de suplemento à natureza, que com d. Gabriela, segundo suas próprias camaradas, tinha sido um pouco mesquinha a certos respeitos.
Depois de respirarem um momento, as meninas, julgando-se sós, começaram
a conversar livremente, enquanto Augusto, com sua roupa embaixo do braço, coberto de teias de aranha e suores frios, comprimia a respiração e conservava-se mudo e quedo, medroso de que o mais pequeno ruído o pudesse descobrir: para seu maior infortúnio, a barra da cama era incompleta e havia seguramente dois palmos e meio de altura descobertos por onde, se alguma das moças olhasse, seria ele impreterivelmente visto. A posição do estudante era penosa, certamente; por último saltou-lhe uma pulga á ponta do nariz, e por mais que o infeliz a soprasse, a teimosa continuou a chuchá-lo com a mais descarada impunidade.
- Antes mil vezes cinco sabatinas seguidas, em tempo de barracas no campo! … dizia ele consigo.
Mas as moças falavam já há cinco minutos; façamos por colher algumas belezas, o que é na verdade um pouco difícil, pois segundo o antigo costume, falam todas quatro ao mesmo tempo. Todavia, alguma coisa se aproveitará.
- Que calor!… exclamou d. Gabriela, afetando no abanar de seu leque todo o donaire de uma espanhola; oh! não parece que estamos no mês de julho; mas, por minha vida, vale bem o incômodo que sofremos o regalo que têm tido nossos olhos.
- Bravo, d. Gabriela!… Então seus olhos…
- Têm visto muita coisa boa. Olhe, não é por falar, mas, por exemplo, há objeto mais interessante do que d. Luisa mostrar-se gorda, esbelta, bem feita?
- É um saco!
- E como é feia!…
- E horrenda!
- É um bicho!
- E não vimos a filha do capitão com sua dentadura postiça?… Agora não faz senão rir!…
- Coitadinha! Aperta tanto os olhos!
- Se ela pudesse arranjar também um postiço para o queixo!
- Ora, d. Clementina, não me obrigue a rir!…
- D. Joaninha, você reparou no vestido de chalim de d. Carlota?… Quanto
- Ainda que estivesse na moda, não há nada que nela assente bem.
- Ora… é um pau vestido!… Tem urna testa maior que a rampa do largo do Paço!…
- Um nariz com tal cavalete, que parece o morro do Corcovado!
- E a boca?… Ah! Ah! Ah!
- Parece que anda sempre pedindo boquinhas…- E que língua ela tem!
- É uma víbora!
- Eu não sei por que as outras mulheres não hão de ser como nós, que não dizemos mal de nenhuma delas.
- E verdade, porque se eu quisesse falar…
- Diga sempre, d. Quinquina.
- Não… não quero. Mas, passando a outra coisa… D. Josefina aplaude com prazer a moda dos vestidos compridos!
- Ora… porque tem pernas de caniço de sacristão.
- Pernas finas também é moda, presentemente.
- Deus me livre!…acudiu d. Clementina; pelo menos para mim nunca deve ser, pois não posso emendar a natureza, que me deu pernas grossas.
- Não lhe fico atrás, juro-lhe eu! exclamou d. Quinquina. Nem eu! Nem eu! disseram as outras duas.
- Isso é bom de se dizer, tornou a primeira; mas, felizmente, podemos tirar as dúvidas.
- Como?
- Facilmente: vamos medir as nossas pernas.
Ouvindo tal proposição, o nosso estudante, apesar de se ver em apuros embaixo da cama, arregalou os olhos de maneira que lhe pareciam querer saltar das órbitas; porém, d. Gabriela, que não parecia estar consigo e que só por honra da firma dissera o seu ”nem eu”, veio deixá-lo com água na boca.
Havia de ser engraçado, disse ela, arregaçarmos agora os nossos vestidos!
- Que tinha isso?… acudiu d. Quinquina; não somos todas moças?… Dir-se-ia que não temos dormido juntas.
- E verdade, acrescentou d. Clementina e, além do que, não se veria demais senão quatro ou cinco saias por baixo do segundo vestido.
- E talvez algum saiote… vamos a isto!
- Não… não… disse, por sua vez, d. Joaninha.
- Pois por mim não era a dúvida, tornou d. Clementina, com ar de triunfo, recostando-se mole e voluptuosamente nas almofadas, e deixando escorregar de propósito uma das pernas para fora do leito, até tocar com o pé no chão, de modo que ficou à mostra até o joelho.
- Quem me dera já casar! … suspirou ela.
Pobre Augusto! … Não te chamarei eu feliz?… Ele vê a um palmo dos olhos a perna mais bem torneada que é possível imaginar!…Através da finíssima meia aparecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e, rematando este interessante painel róseo, um pezinho que só se poderia medir a polegadas, apertado em um sapatinho de cetim, e que estava mesmo pedindo um… dez… cem… mil beijos; mas quem o pensaria? Não foram beijos o que desejou o estudante outorgado àquele precioso objeto: veio-lhe ao pensamento o prazer que sentiria dando-lhe uma dentada… Quase que já não se podia suster… já estava de boca aberta e para saltar… Porém, lembrando-se da exótica figura em que se via, meteu a roupa que tinha enrolada entre os dentes e, apertando-os com força procurava iludir a sua imaginação.
- Quem me dera já casar!… repetiu d. Clementina.
- Isto é fácil, disse d. Gabriela; principalmente se devemos dar crédito aos que tanto nos perseguem com finezas. Olhem, eu vejo-me doida!… Mais de vinte me atormentam! Querem saber o que me sucedeu ultimamente?… Eu confesso que me correspondo com cinco… isto é só para
ver qual dos cinco quer casar primeiro; pois bem, ontem, uma preta que vende empadas e que se encarrega das minhas cartas recebeu das minhas mãos duas…
- Logo duas?…
- Ora, pois, apesar de todas as minhas explicações, a maldita estava de mona: mesmo dizendo-lhe eu dez vezes: a de lacre azul é a do sr. Joãozinho e a de verde é do sr. Juca, sabem o que fez?…trocou as cartas!
- E o resultado?…
- Ei-lo aqui, respondeu d. Gabriela, tirando um papel do seio; ao vir embarcar, e quando descia, a tal preta, com a destreza precisa, entregou-me este escrito do sr. Joãozinho: “Ingrata! ainda tremem minhas mãos, pegando no corpo de delito da tua perfídia! Escreves a outro!? Compareces por tão horrível crime perante o júri do meu coração; e, bem que tenhas nesse tribunal a tua beleza por advogado, o meu ciúme e justo ressentimento, que são os juízes, te condenam às perpétuas galés do desprezo; e só te poderás livrar se apelares dessa sentença para o poder moderador de minha cega paixão.”
- Bravo, d. Gabriela! O sr. Joãozinho é sem dúvida estudante de jurisprudência?
- Não, é doutor.
Bem mostra pelo bem que escreve.
- Mas eu sou bem tola! Conto tudo o que me sucede e ninguém me confia nada!
- Isso é razoável, disse d. Clementina; nós devemos pagar com gratidão a confiança de d. Gabriela. Eu começo declarando que estou comprometida com o sr. Filipe a deixar esta noite, embaixo da quarta roseira da rua do jardim, que vai direta ao caramanchão, um embrulhozinho com uma madeixa de meus cabelos.
Que asneira!… Por que lho não entrega ou não lho manda entregar?
- Ora… eu tenho muita vergonha…antes quero assim; até parece mais romântico.
- São caprichos de namorados! falou d. Quinquina; havia tempo para isso! Mas, enfim, de futilidades é que o amor se alimenta. Querem ver uma dessas? O meu predileto está de luto e por isso exige que eu vá á festa de… com uma fita preta no cabelo, em sinal de sentimento; exige ainda que eu não valse mais, que não tome sorvetes, para não constipar, que não dê dorninus tecum a moço nenhum que espirrar ao pé de mim, e que jamais me ria quando ele estiver sério; e a tudo isso julga ele ter direito, por ser tenente da Guarda Nacional! Pois, por isso mesmo, ando agora de fita branca no cabelo, valso todas as vezes que posso, tomo sorvetes até não poder mais, dou dominus tecum aos moços mesmo quando não espirram e na() posso ver o sr. tenente Gusmão sério sem soltar uma gargalhada.
- Olhem lá o diabinho da sonsa! murmurou consigo mesmo Augusto, embaixo
da cama.
- E você, mana, não diz nada?… perguntou ainda a d. Joaninha.
- Eu?… O que hei de dizer? respondeu esta; digo que ainda não amo.
- E a única que ama deveras! pensou o estudante, a quem já doíam as cadeiras de tanto agachar-se.
- E o sr. Fabrício?… E o sr. Fabrício?… exclamaram as três.
- Pois bem, tornou d. Joaninha, é o único de quem gosto.
- Mas que temos nós hoje feito nesta ilha?… Que triunfo havemos conseguido?… Vaidade para o lado: moças bonitas, como somos, devemos ter conquistado alguns corações!
- Juro que estou completamente aturdida com os protestos de eterna paixão do sr. Leopoldo, disse d. Quinquina; mas é uma verdadeira desgraça ser hoje moda ouvir com paciência quanta frivolidade vem, não direi à cabeça, porque parece que os tolos como que não a têm, porém aos lábios de um desenxabido namorado. O tal sr. Leopoldo… não é graça, eu ainda não vi estudante mais desestudável!…
- Você, d. Joaninha, acudiu d. Clementina, tem-se regalado hoje com o incomparável Fabrício. Não lhe gabo o gosto… só as perninhas que ele tem!…
- Ora, respondeu aquela; ainda não tive tempo de lhe olhar para as pernas… mas também você parece que não se arrepia muito com a corcova do
nariz de meu primo; confessemos, minha amiga, todas nós gostamos de ser conquistadoras.
- Pois confessamos… isso é verdade.
- Pela minha parte não diga nada, assobiou d. Gabriela mirando-se no espelho; mas enfim… eu não sei se sou bonita, mas, onde quer que eu esteja, vejo-me sempre cercada de adoradores: hoje, por exemplo, tenho-me visto doida… perseguiram-me constantemente seis… era impossível ter tempo de mangar com todos a preceito.
- Mas, d. Gabriela, onde está o seu talento?…
- Pois bem, que se ponha outra no meu lugar.
- Alguns homens zombariam de doze de nós outras a um tempo… Houve já um que não teve vergonha de escrever isto em um papel:
Num dia, numa hora,
No mesmo lugar
Eu gosto de amar
Quarenta,
Cinqüenta,
Sessenta:
Se mil forem belas, Amo a todas elas.
- Que pateta!
- Que tolo!…
- Que vaidoso!
- Essa opinião segue também o Augusto!
- Qh!… e esse paspalhão!…
Ei-las comigo… murmurou entre os dentes o nosso estudante, estendendo o pescoço a modo de cágado.
- Como lhe fica mal aquela cabeleira!… Assemelha-se muito a uma preguiça.
- Tem as pernas tortas.
- Eu creio que ele é corcunda.
- Não aquilo é magreza.
- Forte impertinente! Falando, é um Lucas…
- Há de ser interessante dançando!
- Vamos nós tomá-lo à nossa conta?
- Vamos; pensemos nos meios de zombar dele cruelmente… Pois pensemos…
Mas elas não tiveram tempo de pensar, porque, nesse momento, ouviu-se um
grito de dor, ao qual seguiu-se viva agitação no interior daquela casa, onde ainda há pouco só se respirava prazer e delícias. As quatro moças levantaram-se espantadas.
- Pareceu-me a voz de minha prima Carolina, exclamou d. Joaninha.
- Coitada! Que lhe sucederia?…
- Vamos ver.
As quatro moças correram precipitadamente para fora do quarto.
Augusto, que não estava menos assustado, saiu do seu esconderijo, vestiu-se apressadamente e ia, por sua vez, deixar aquele lugar, em que se vira em tantos apuros, quando deu com os olhos na carta do sr. Joãozinho, que, com a pressa e agitação, havia d. Gabriela deixado cair.
O estudante apanhou e guardou aquele interessante papel, e com prontidão e cuidado pôde, sem ser visto, escapar-se do gabinete.
Um instante depois foi cuidadoso procurar saber a causa do rumor que ouvira.
O grito de dor tinha sido, com efeito, soltado por d. Carolina.
Cap.XIII - Os quatro em conferência
Ninguém se arreceie pela nossa travessa, O grito de dor foi, na verdade, seu; mas, se alguém corre perigo, não é certamente ela. O caso é simples.
Morava com a sra. d. Ana uma pobre mulher, por nome Paula muito estimada
de todos, porque o era da despotazinha daquela ilha, de d. Carolina, a quem tinha servido de ama. Os desvelos e incômodos que tivera na criação da menina lhe eram sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moça.
Ora, todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar mas o nosso amigo Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honra à meia dúzia de lindas garrafas das quais se achava ternamente enamorado: contudo ele pensava que seria mais feliz se deparasse com um companheiro que o ajudasse a requestar aquelas belezas: era um amante sem zelos. Por infelicidade de Paula, o alemão a lobrigou a entrar num quarto. Chamou-a, obrigou-a a sentar-se junto de si, mostrou por ela o mais vivo interesse e depois convidou-a a beber à saúde de seu pai e sua mãe e sua família.
Não havia remédio senão corresponder a brindes tão obrigativos. Depois não houve ninguém no mundo a quem Keblerc não julgasse dever com a sua
meiga língua dirigir uma saúde, e, como já estivesse um pouco impertinente, forçava Paula a virar copos cheios. Passado algum tempo, e muito naturalmente, Paula se foi tornando alegrezinha e por sua vez desafiava Keblerc a fazer novos brindes: em resultado, as suas garrafas foram-se. Paula deixou-se ficar sentada risonha e imóvel, junto à mesa, enquanto o alemão, rubicundo e reluzente se dirigiu para a sala.
Quando daí a pouco a ama de d. Carolina quis levantar-se, pareceu-lhe que estava uma nuvem diante dos olhos, que os copos dançavam, que havia duas mesas, duas salas e tudo em dobro; ergueu-se e sentiu que as paredes andavam-lhe à roda, que o assoalho abaixava-se e levantava-se debaixo dos seus pés; depois… não pôde dar mais que dois passos, cambaleou e, acreditando sentar-se numa cadeira, caiu com estrondo contra uma porta. Logo confusão e movimento… Ninguém ousou pensar que
Paula, sempre sóbria e inimiga de espíritos, se tivesse deixado embriagar, e, por isso, correram alguns escravos para o jardim, gritando que Paula acabava de ter um ataque.
A primeira pessoa que entrou em casa foi d. Carolina que, vendo a infeliz mulher estirada no assoalho, caiu sobre ela, exclamando com força:
- Oh, minha mãe!… Foi este o seu grito de dor.
Momentos depois, Paula se achava deitada numa boa cama e rodeada por toda a família; porém havia algazarra tal, que mal se entendia uma palavra.
- Isto foi o jantar que lhe deu na fraqueza, gritou uma avelhantada matrona, que se supunha com muito jeito para medicina; é fraqueza complicada com o tempo frio… não vale nada… venha um copo de vinho!
E dizendo isto, foi despejando meia garrafa de vinho na boca da pobre Paula que, por mais lépida e risonha que fosse engolindo a largos tragos, não pôde livrar-se de que a interessante Esculápia lhe entornasse boa porção pelos vestidos.
- São maleitas! exclamava d. Violante, com toda a força de seus pulmões… São maleitas! … Quem lhe olha para o nariz diz logo que são maleitas! Eu já vi curar-se uma mulher, que teve o mesmo mal, com cauda de cobra moída, torrada e depois desfeita num copo d’água tirada do pote velho com um coco novo e com a mão esquerda, pelo lado da parede. E fazer isto já.
- São lombrigas! gritava uma terceira.
- É ataque de estupor! bradava a quarta senhora.
- É espírito maligno! acudiu outra, que foi mais ouvida que as primeiras… E espírito maligno que lhe entrou no corpo… Venha quanto antes um padre com água benta e seu breviário.
- Ora, para que estão com tal azáfama?… disse uma senhora que acabava de entrar no quarto; não se vê logo que isto não passa de uma mona, que a boa da Paula tomou? Olhem; até tem o vestido cheio de vinho.
- Mona, não senhora! acudiu d. Carolina; a minha Paula nunca teve tão feio costume, e, se está molhada com vinho, a culpa é desta senhora, que há pouco lhe despejou meia garrafa por cima. Oh! é bem cruel que, mesmo vendo-se a minha dor, digam semelhantes coisas!
No meio de toda esta balbúrdia era de ver-se o zelo e a solicitude da menina travessa! … Observava-se aquela Moreninha de quinze anos, que parecera somente capaz de brincar e ser estouvada, correndo de uma para outra parte, prevenindo tudo e aparecendo sempre onde se precisava apressar um serviço ou acudir a um reclamo. Só cuidava de si quando devia enxugar as lágrimas.
Junto do leito apareceram os quatro estudantes.
Curto foi o exame. O rosto e o bafo da doente bastaram para denunciar-lhes com evidência a natureza da moléstia.
- Isto não vale a pena, disse Filipe em tom baixo a seus colegas; é uma mona de primeira ordem.
- Está claro, vamos sossegar estas senhoras.
- Não, tornou Filipe, sempre em voz baixa; aturdidas pelo caso repentino e preocupadas pela sobriedade desta mulher, nenhuma delas quer ver o que está diante de seus olhos, nem sentir o cheiro que lhes está entrando pelo nariz; minha irmã ficaria inconsolável, brigaria conosco e não nos acreditaria, se lhe disséssemos que sua ama se embebedou; e portanto, podemos aproveitar as circunstâncias para zombar de todas elas e divertir-nos fazendo uma conferência.
- Oh, diabo! … isso é catecismo dos charlatões!
- Ora, não sejas tolo… não pareces estudante; devemos lançar mão de tudo o que nos possa dar prazer e não ofenda os outros.
- Mas que iremos dizer nesta conferência, senão que ela está espirituosa demais? perguntou Augusto.
- Diremos tudo o que nos vier à cabeça, ficando entendido que as honras pertencerão ao que maior número de asneiras produzir; o caso é que nos não entendam, ainda que também nos não entendamos.
- Há de ser bonito, tornou Augusto, à vista de tanta gente, que por força conhecerá esta patacoada.
- Qual conhecer?… Aqui ninguém nos entende, tornou Filipe, que, voltando-se para os circunstantes, disse com voz teatralmente solene:
- Meus senhores, rogamos breves momentos de atenção; queremos conferenciar.
Movimento de curiosidade.
Seguiu-se novo exame da enferma, no qual os quatro estudantes fingiram observar o pulso, a língua e os olhos da doente; auscultaram e percutiram-lhe o peito e fizeram todas as outras pesquisas do costume.
Depois eles se colocaram em um dos ângulos do quarto; Filipe teve a palavra. Profundo silêncio.
- Acabastes, senhores, de fazer-me observar uma enfermidade que não nos deixa de pedir sérias atenções e sobre a qual eu vou respeitosamente submeter o meu juízo. Poucas palavras bastam. A moléstia de que nos vamos ocupar não é nova para nós; creio mesmo, senhores, que qualquer de vós já a tem padecido muitas vezes…
- Está enganado.
- Não respondo aos apartes. Eu diagnostico uma baquites. Concebe-se perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos éteres espasmódicos e engendrados no alambique intestinal, uma vez que a compressão do diafragma lhes causa vibrações simpáticas que os façam caminhar pelo canal colédoco até o periostio dos pulmões…
- C’est trop fort !…
- Daí, passando à garganta, perturbam a quimificação da hematose, que por isso se tornando em linfa hemostática, vá de um jato causar um tricocéfalo no esfenóide, podendo mesmo produzir uma proctorragia nas glândulas de Meyer, até que, penetrando pelas câmaras ópticas, no esfíncter do cerebelo, causa um retrocesso prostático, como pensam os modernos autores, e promovem uma rebelião entre os indivíduos cerebrais: por conseqüência isto é nervoso.
- Muito bem concluído.
- O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de éter sulfúrico numa taça do líquido fontâneo açucarado; o cozimento dos frutos do coffea arabica torrados, ou mesmo o thea sinensis; e quando isto não baste, o que julgo impossível, as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de sangue de menos não farão falta à doente: disse.
- Como ele fala bem, murmurou uma das moças.
Fabrício tomou a palavra.
- Sangue! Sempre sangue! Eis a medicina romântica do insignificante Broussais! Mas eu detesto tanto a medicina sanguinária, como a estercorária, herbária, sudorária e todas as que acabam em ária. Desde Hipócrates, que foi o maior charlatão do seu tempo, até os nossos dias, tem triunfado a ignorância, mas já, enfim, brilhou o sol da sabedoria… Hahnemann… Ah! Quebrai vossas lancetas, senhores; para curar o mundo inteiro basta-vos uma botica homeopática com o Amazonas ao pé!… Queimai todos os vossos livros, porque a verdade está só, exclusivamente, no alcorão de nosso Mafoma, no Organon do grande homem!
Ah! Se depois do divino sistema morre por acaso alguém, é por não se ter ainda descoberto o meio de dividir cm um milhão de partes cada simples átomo da matéria! Senhores, eu concordo com o diagnóstico de meu colega, mas devo combater o tratamento por ele oferecido. Uma taça de líquido fontâneo açucarado, e acidulado com algumas gotas de éter sulfúrico, é, em minha opinião, capaz de envenenar a todos os habitantes da China! O mesmo direi do cozimento do coffea arabica…
- Mas por que não têm morrido envenenados os que por vezes os têm tomado?…
- Eis aí a consideração que os leva ao erro! … Senhor meu colega, é porque a ação maléfica desses medicamentos não se faz sentir logo… às vezes só aparece depois de cem, duzentos e mais anos: eis a grande verdade! … Mas eu tenho observações de moléstias de natureza da que nos ocupamos e que vão mostrar a superioridade do meu sistema. Ouçam-me.
Uma mulher padecia este mesmo mal, já tinha sofrido trinta sangrias; haviam-lhe mandado aplicar mais de trezentas bichas, purgantes sem conta, vomitórios às dúzias e tisanas aos milheiros; quis o seu bom gênio que ela recorresse a um homeopata, que, com três doses, das quais cada uma continha apenas a trimilionésima parte de um quarto de grão de nihilitas nihilitatis, a pôs completamente restabelecida; e quem quiser pode ir vê-ia na rua… E certo que não me lembro agora onde, mas posso afirmar que ela mora em uma casa e que hoje está nédia, gorda, com cores e até remoçou e ficou mais bonita… Outro fato.
- Basta! Basta!
- Pois bem, basta; e propondo a aplicação das nihilitas nihilitatis na dose da trimilionésima parte de um grão, dou por terminado o meu discurso.
- O sr. Leopoldo tem a palavra.
- Senhores, eu devo confessar que restam-me muitas dúvidas a respeito do diagnóstico e, portanto, julgo útil recorrermos ao magnetismo animal, para vermos se a enferma, levada ao sonambulismo, nos aclara sua enfermidade. Além disto, eu tenho fé de que não há moléstia alguma que possa resistir à maravilhosa aplicação dos passes, que tanto abismaram Paracelso e Kisker. Ainda mais: se o diagnóstico do colega que falou em primeiro lugar é exato, dobrada razão acho para sustentar o meu parecer; porque, enfim, se simula similibus curantur, necessariamente o magnetismo tem de curar a baquites. Voto, pois, para que comecemos já a aplicar-lhe os passes.
Seguiu-se o discurso de Augusto que, por longo demais, parece prudente omitir. Em resumo basta dizer que ele combateu as raras teorias de Filipe, mas concordou com o tratamento por ele proposto e falou com arte tal, que d. Carolina o escolheu para assistência de sua ama.
Augusto determinou as aplicações equivalentes ao caso, mas, não tendo entrado no número delas a essencial lembrança de um escalda-pés, caiu a tropa das mezinheiras sobre o desgraçado estudante, que se viu quase doido com a balbúrdia de novo levantada no quarto.
- Menos ruído, minhas senhoras, dizia o rapaz; isto pode ser fatal à doente!
- Ora… eu nunca vi negar-se um escalda-pés!
- Ainda em cima de não lhe mandar aplicar uma ajuda, esquece-se também de escalda-pés!
- Se não lhe derem um escalda-pés, eu não respondo pelo resultado!
- Olhem como a doente está risonha, só por ouvir falar em escalda-pés!
- Aquilo é pressentimento!
- Sr. doutor, um escalda-pés! .
- Pois bem, minha senhoras, disse Augusto para se ver livre delas, dêem-lhe o preconizado escalda-pés!
E fugindo logo do quarto, foi pensando consigo mesmo que as coisas que mais contrariam o médico são: primeiro, a saúde alheia, segundo, um mau enfermeiro
Cap. XIV - Pedilúvio sentimental
Ria-se, jogava-se, brincava-se: todos se haviam já esquecido da pobre Paula. Na verdade também que, por ter a ama de d. Carolina tomado seu copo de vinho a mais, não era justo que tantas moças e moços, em boa disposição de brincar, e umas poucas velhas determinadas a maçar meio mundo, ficassem a noite inteira pensando na carraspana da rapariga. E, além disso, quatro semidoutores já haviam pronunciado favorável prognóstico; como, pois, se arrojaria Paula a morrer contra a ordem expressa dos quatro hipocratíssimos senhores?…
Era por isso que todos brincavam alegremente, menos o sr. Keblerc que, diante de meia dúzia de garrafas vazias, roncava prodigiosamente: grande alemão para roncar!… Era uma escala inteira que ele solfejava com bemóis, bequadros e sustenidos!
Dir-se-ia que entoava um hino… a Baco.
Os rapazes estavam nos seus gerais; a princípio, como era seu velho costume haviam festejado, cumprimentado e aplaudido as senhoras idosas que se achavam na sala, principalmente aquelas que tinham trazido consigo moças; mas, passada meia hora, adeus etiquetas e cerimônias!… Estabeleceu-se um cordão sanitário entre a velhice e a mocidade; a sra. d. Ana achou a ocasião oportuna para ir dar ordens para o chá; d. Violante ocupou-se em desenvolver a um velho roceiro os meios mais adequados para se preencher o deficit provável do Brasil para o ano financeiro de 44 a 45, sem aumentar os direitos de importação, nem criar impostos, abolindo-se, pelo contrário, a décima urbana. Já se vê que d. Violante tinha casas na cidade. Restavam quatro senhoras, que julgaram a propósito jogar o embarque, que na verdade as divertia muito, com o episódio do ás galar o sete; havia, enfim, outra mesa em que alguns senhores, viúvos, casados e velhos pais perdiam ou ganhavam dinheiro no écarté, jogo muito bonito e muito variado, que nos vieram ensinar os senhores franceses, grandes inventores, sem dúvida!…
A rapaziada empregava melhor o seu tempo: também jogava, mas na sua roda
não havia nem mesa, nem cartas, nem dados. O seu jogo tinha um diretor que, exceção de regra entre os mais, não podia ter menos de cinqüenta anos: era um homem de estatura muito menos que a ordinária, tinha o rosto muito vermelho, cabelos e barbas ruivos, gordo, de pernas arqueadas, ajuntando ao ridículo de sua figura muito espírito; não estava bem senão entre rapazes. por felicidade deles sempre se encontra desses. Tal o diretor da roda dos moços. O sr. Batista (este o seu nome) era fértil em jogos; quando um aborrecia, vinha logo outro melhor. Já se havia jogado o do toucador e o do enfermo. O terceiro agradou tanto, que se repetia pela duodécima vez, com aplauso geral, principalmente das moças: era, sem mais nem menos, o jogo da palhinha.
Caso célebre!… Já se viu que coincidência!… Ora expliquem. se são capazes… Tem-se jogado a palhinha doze vezes e em todas elas tem a sorte feito com que Filipe abrace d. Clementina e Fabrício d. Joaninha! E sempre, no fim de cada jogo, qualquer das duas recua um passo, como se pouca vontade houvesse nelas de dar o abraço, e fazendo-se coradinha, exclama:
- Quantos abraços!… Pois outra vez?…
- Eu já não dei ainda agora?… Ora isto!…
Entre os rapazes, porém, há um que não está absolutamente satisfeito: é Augusto. Será porque no tal jogo da palhinha tem por vezes ficado viúvo?… Não! Ele esperava isso como castigo da sua inconstância. A causa é outra: a alma da ilha de… não está na sala! Augusto vê o jogo ir indo o seu caminho muito sem ordem; não se rasgou ainda nenhum lenço, Filipe ainda não gritou com a dor de nenhum beliscão, tudo se faz em regra e muito direito; a travessa, a inquieta, a buliçosa, a tentaçãozinha não está aí: d. Carolina está ausente!…
Com efeito, Augusto, sem amar d. Carolina (ele assim o pensa) já faz dela idéia absolutamente diversa da que fazia ainda há poucas horas: agora, segundo ele, a interessante Moreninha é, na verdade, travessa, mas a cada travessura ajunta tanta graça, que tudo se lhe perdoa. D. Carolina é o prazer em ebulição; se é inquieta e buliçosa, está em sê-lo a sua maior graça: aquele rosto moreno, vivo e delicado, aquele corpinho, ligeiro como a abelha, perderia metade do que vale se não estivesse em contínua agitação. O beija-flor nunca se mostra tão belo como quando se pendura na mais tênue flor e voeja nos ares; d. Carolina é como um beija-flor completo.
Neste momento a sra. d. Ana entrou na sala, e depois dirigindose à grande varanda da frente, sentou-se defronte do jardim. Batista acabava de dar fim ao jogo da palhinha e começava novo: Augusto pediu que o dispensassem e foi ter com a dona da casa.
- Não joga mais, sr. Augusto? disse ela.
- Por ora não, minha senhora.
- Parece-me pouco alegre.
- Ao contrário… estou satisfeitíssimo.
- Oh! O seu rosto mostra não sentir o que dizem seus lábios; se aqui lhe falta alguma coisa…
- Na verdade que aqui não está tudo, minha senhora.
- Então que falta?
- A sra. d. Carolina!
A boa senhora riu-se com satisfação. Seu orgulho de avó acabava de ser incensado: era tocar-lhe no fraco.
- Gosta de minha neta, sr. Augusto?
- É a delicada borboleta deste jardim, respondeu ele, mostrando as flores.
- Vá buscá-la, disse a sra. d. Ana, apontando para dentro.
- Minha senhora, tanta honra!
- O amigo de meu neto deve merecer minha confiança: esta casa é dos meus amigos e também dos dele. Carolina está, sem dúvida, no quarto de Paula; vá vê-la e consiga arrancá-la de junto da sua ama.
A sra. d. Ana levou Augusto pela mão até o corredor e depois o empurrou brandamente.
- Vá, disse ela, e receba isso como a mais franca prova de minha estima para com o amigo de meu neto.
Augusto não esperou ouvir nova ordem: endireitou para o quarto de Paula, com presteza e alegria. A porta estava cerrada; abriu sem ruído e parou no limiar.
Três pessoas havia nesse quarto: Paula, deitada e abatida sob o peso de sua sofrível mona, era um objeto triste e talvez ridículo, se não padecesse; a segunda era uma escrava que acabava de depor junto do leito a bacia em que Paula deveria tomar o pedilúvio recomendado, objeto indiferente; a terceira era uma menina de quinze anos, que desprezava a sala, em que borbulhava o prazer, pelo quarto em que padecia uma pobre mulher; este objetivo era nobre…
D. Carolina e a escrava tinham as costas voltadas para a porta e por isso não viam Augusto: Paula olhava, mas não via, ou antes não sabia o que via.
- Anda, Tomásia, dá-lhe o escalda-pés! disse d. Carolina.
Pela sua voz conhecia-se que tinha chorado.
A escrava abaixou-se e puxou os pés da pobre Paula; depois, pondo a mão n’água, tirou~a de repente, e sacudindo-a:
- Está fervendo!… disse.
- Não está fervendo, respondeu a menina; deve ser bem quente, assim disseram os moços.
A escrava tornou a pôr a mão e de novo retirou-a com presteza tal, que bateu com os pés de Paula contra a bacia.
- Estonteada!… Sai… Afasta-te, exclamou d. Carolina, arregaçando as mangas de seu lindo vestido.
A escrava não obedeceu.
- Afasta-te daí, disse a menina em tom imperioso; e depois abaixou-se no lugar da escrava, tomou os pés de sua ama, apertou-os contra o peito, chorando, e começou a banhá-los.
Belo espetáculo era o ver essa menina delicada, curvada aos pés de uma rude mulher, banhando-os com sossego, mergulhando suas mãos tão finas, tão lindas, nessa mesma água que fizera lançar um grito de dor à escrava, quando aí tocara de leve com as suas, tão grosseiras e calejadas!… Os últimos vislumbres das impressões desagradáveis que ela causara a Augusto, de todo se esvaíram. Acabou-se a criança estouvada… ficou em seu lugar o anjo de candura.
O sensível estudante viu as mãozinhas tão delicadas da piedosa menina já roxas, e adivinhou que ela estava engolindo suas dores para não gemer; por isso não pôde suster-se e, adiantando-se, disse:
- Perdoe, minha senhora.
- Oh!… O senhor estava aí?
E tenho testemunhado tudo!
A menina abaixou os olhos, confusa, e apontando para a doente, disse:
- Ela me deu de mamar.
- Mas nem por isso deve a senhora condenar suas lindas mãos a serem queimadas, quando algum dos muitos escravos que a cercam poderia encarregar-se do trabalho em que a vi tão piedosamente ocupada.
- Nenhum o fará com jeito.
- Experimente.
- Mas a quem encarregarei?
- A mim, minha senhora.
- O senhor falava de meus escravos…
- Pois nem para escravo eu presto?
- Senhor!
E nisto o estudante abaixou-se e tomou os pés de Paula, enquanto d. Carolina, junto dele, o olhava com ternura.
Quando Augusto julgou que era tempo de terminar, a jovenzinha recebeu os pés de sua ama e os envolveu na toalha que tinha nos braços.
- Agora deixemo-la descansar, disse o moço.
- Ela corre algum risco?…perguntou a menina.
- Afirmo que acordará amanhã perfeitamente boa.
- Obrigada!
- Quer dar-me a honra de acompanhá-la até à sala? disse Augusto, oferecendo a sua mão direita à bela Moreninha.
Ela não respondeu, mas olhou. com gratidão, aceitando o braço do mancebo, deixou o quarto de Paula.
Cap. XV - Um dia em quatro palavras Ao romper do dia de Sant’Ana estavam todos na ilha de… descansando nos braços do sono: era isso muito natural,depois de uma noite como a da véspera, em que tanto se havia brincado.
Com efeito, os jogos de prendas tinham-se prolongado excessivamente. A chegada de d. Carolina e Augusto lhes deu ainda dobrada viveza e fogo. A bonita Moreninha tornou-se mais travessa do que nunca; mil vezes barulhenta, perturbava a ordem dos jogos de modo que era preciso começar de novo o que já estava no fim; outras tantas rebelde, não cumpria certos castigos que lhe impunham, não deu um só beijo e aquele que atreveu-se a abraçá-la, teve em recompensa um beliscão.
Finalmente, ouviu-se a voz de vamos dormir, e cada qual tratou de fazer por consegui-lo.
O último que se deitou foi Augusto e ignora-se por que saiu de luz na mão, a passear pelo jardim, quando todos se achavam acomodados; de volta do seu passeio noturno, atirou-se entre Fabrício e Leopoldo e imediatamente adormeceu. Os estudantes dormiram juntos.
São seis horas da manhã e todos dormem ainda a sono solto. Um autor pode entrar em toda a parte e, pois… não, não, alto lá! No gabinete das moças… Não senhor; no dos rapazes, ainda bem. A porta está aberta. Eis os quatro estudantes estirados numa larga esteira; e como roncam!… Mas que faz o nosso Augusto? Ri-se, murmura frases imperceptíveis, suspira… Então que é isso?… Dá um beijo em Fabrício; acorda espantado e ainda por cima empurra cruelmente o mesmo a quem acaba de beijar…
Oh, beleza! Oh, inexplicável poder de um rosto bonito que, não contente com as zombarias que faz ao homem que vela, o ilude e ainda zomba dele dormindo!
Estava o nosso estudante sonhando que certa pessoa, de quem ele tivera até aborrecimento e que agora começava com olhos travessos a fazer-lhe cócegas no coração, vinha terna e amorosamente despertá-lo; que ele fingira continuar a dormir e ela se sentara à sua cabeceira~ que, traquinas como sempre, em vez de chamá-lo queria rir-se acordando-o pouco a pouco; que para isso aproximava seu rosto do dele, e, assoprando-lhe os lábios, ria-se ao ver as contrações que produzia a titilação causada pelo sopro; que ele, ao sentir tão perto dos seus os lindos lábios dela, estava ardentemente desejoso de furtar-lhe um beijo, mas que temia vê-la fugir ao menor movimento; que finalmente, não podendo mais resistir aos seus férvidos beijos, assentara de, quando se aproximasse o belo rosto, ir de um salto colher o voluptuoso beijo naquela boquinha de botão de rosa; que o rosto chegou à distância de meio palmo e… (aqui parou o sonho e principiou a realidade) e ele deu um salto mas, em lugar de pregar um beijo nos lábios de d. Carolina, foi com toda a força e estouvamento bater com os beiços e nariz contra a testa de Fabrício; depois, como se o colega tivesse culpa de tal infelicidade, deu-lhe dois empurrões dizendo:
- Sai-te daí, peste! … Ora, quando eu sonhava com um anjo, acordo-me nos braços de Satanás!…
Corra-se, porém, um véu sobre quanto se passou até que se levantaram do almoço. A sociedade se dividiu logo depois em grupos. Uns conversavam, outros jogavam, dois velhos ferraram-se no gamão, as moças espalharam-se pelo jardim e os quatros estudantes tiveram a péssima lembrança de formar uma mesa de voltarete.
E apesar do poder da cachaça do jogo, de cada vez que qualquer deles dava cartas, ficava na mesa um lugar vazio, e junto do arco da varanda, que olhava para o jardim, colocava-se uma sentinela. Já se vê que o voltarete não podia seguir marcha muito regular. Augusto, por exemplo, distraía-se com freqüência tal, que às vezes passava com basto e espadilha, e era codilhado todas as mãos que jogava de feito. A Moreninha já fazia travessuras muito especiais no coração do estudante; e ele, que se acusava de haver sido injusto para com ela, agora a observava com cuidado e prazer, para em compensação render-lhe toda justiça. D. Carolina brilhava jardim e, mais que as outras, por graças e encantos que todos sentiam e que ninguém poderia bem descrever; confessava-se que não era bela, mas jurava-se que era encantadora; alguém queria que ela tivesse maiores olhos, porém não havia quem resistisse à viveza de seus olhares; os que mais apaixonados fossem da doce melancolia de certos semblantes em que a languidez dos olhos e a brandura de custosos risos estão exprimindo amor ardente e sentimentalismo, concordariam por força que no lindo rosto moreno de d. Carolina nada iria melhor do que o prazer que nele transluz e o sorriso engraçado e picante que de ordinário enfeita seus lábios; além disto, sempre em brincadeira, guerreia com todos e em interessante contradição consigo mesma, ela a um tempo solta um ai e uma risada, graceja, fazendo-se de grave, fala, jurando não dizer palavra, apresenta-se escondendo-se, sempre quer jamais querendo.
Nunca também se havia mostrado a Moreninha tão jovial e feiticeira, mas para isso boas razões havia: esse era o dia dos anos da sua boa avó e a pobre Paula, sua estimada amada ama, estava completamente restabelecida.
Eis uma deliciosa invasão!… Dez moças entram de repente na varanda e num momento dado tudo se confunde e amotina; d. Carolina atira no meio da mesa do voltarete uma mão cheia de flores, e enquanto Filipe faz tenção de dirigir-lhe um discurso admoestador, ela furta-lhe a espadilha e voa para tornar a aparecer logo depois. E impossível continuar assim: dá-se por acabado o jogo e a Moreninha, à custa de um único sorriso, faz as pazes com o irmão.
- Parabéns, sra. d. Joaquina, disse Augusto; já triunfou de uma de suas rivais!
- Como?… perguntou ela.
- Ora, que esta minha prima nunca entende as figuras do sr. Augusto, acudiu d. Carolina; explique-se, sr. doutor.
Sua prima, minha senhora, a aurora e a rosa disputam sobre qual primará na viveza da cor, e eu vejo que ela tem presa no cabelo uma das duas rivais.
Eu o encarrego com prazer da guarda fiel desta minha competidora… seja o seu carcereiro! disse d. Quinquina, querendo tirar uma linda rosa do cabelo, para oferecê-la a Augusto.
- Oh! Minha senhora! Seria um cruel castigo para ela, que se mostra tão vaidosa.
- Pois rejeita?…
- Certo que não; aceito, mas rogo um outro obséquio.
- Qual?
- Que por ora lhe conceda seus cabelos por homenagem. Pois bem, será satisfeito; eu guardarei a sua rosa.
- Mas cuidado, não haja quem liberte a bela cativa! disse Leopoldo.
- Protesto que a hei de furtar, acrescentou d. Carolina.
- Desafio-lhe a isso! respondeu a prima.
Então começou uma luta de ardis e cuidados entre a Moreninha e d. Quinquina. Aquela já tinha debalde esgotado quantos estratagemas lhe pôde sugerir seu fértil espírito, e enfim, fingindo-se fatigada, veio sossegadamente conversar junto de d. Quinquina, que, não menos viva, conservava-se na defensiva.