A Moreninha

Joaquim Manuel de Macedo · Capítulo 13 de 13 · parte 2/3

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A Moreninha

Capítulo XXI

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Depois de uma meia hora de hábil afetação, a menina travessa, com um rápido movimento, fez cair o leque de sua adversária; Leopoldo abaixou-se para levantá-lo e d. Quinquina, um instante despercebida, curvou-se também e soltou logo um grito, sentindo a mão da prima sobre a rosa: com a sua foi acudir a esta; houve um conflito entre duas finas mãozinhas, que mutuamente se beliscaram, e em resultado desfolhou-se completamente a rosa.

Morreu a bela cativa! … Morreu a pobre cativa! … gritaram as moças.

- D. Carolina está criminosa! disse d. Clementina.

- Vai ao júri, minha senhora!

É verdade, vamos levá-la ao júri.

A idéia foi recebida com aplauso geral: só Filipe se opôs.

Não, não, disse ele. Carolina é muito rebelde, se fosse condenada, não cumpriria a sentença.

- Oh! Maninho! Não diga isso. Você jura obedecer?…- Eu juro por você.

Tanto pior: era mais um motivo para se tornar perjura. Pois bem, dou a minha palavra, não é suficiente?

- Basta! Basta!

Organizou-se o júri; Fabrício foi encarregado da presidência, um outro moço serviu de escrivão, e cinco moças saíram por sorte para juradas; d. Clementina terá de ser a relatora da sentença. A Augusto declararam suspeito na causa. Filipe foi escolhido para advogado da ré e Leopoldo da autora.

A sessão começou.

Longo fora enumerar tudo o que se passou em duas horas muito agradáveis e por isso muito breves também. Toda a companhia veio tomar parte naquele divertimento improvisado e até, quem o diria?! os dois velhos deixaram o tabuleiro de gamão. Resuma-se alguma coisa.

As testemunhas foram d. Gabriela e uma outra, que deram provas de bastante espírito: o interrogatório de d. Carolina fez rir a quantos o ouviram. O debate dos advogados esteve curioso.

Leopoldo acusou a ré, demonstrando que tinha havido a circunstância agravante da premeditação e que o crime se tornava ainda mais feio, por ser causado pelo ciúme; procurou provar que d. Carolina, cônscia de seus encantos e beleza, queria ser senhora absoluta de todos os corações e até de todos os seres; que ela se enchera de zelos supondo, com razão, que Augusto desse subido valor à rosa, por lhe ser dada por uma moça bela como era a autora e, enfim, que o crime da ré era excessivo, que já na tarde antecedente jurara a perda daquela flor, por desconfiar que o zéfiro brincava mais com ela do que com seus olhos.

Filipe não se deixou ficar atrás. Argumentou dizendo que era impossível decidir que mão tinha dado a morte à bela cativa; que não houvera premeditação, porque a ré não quisera matar, mas sim Libertar; que, se havia crime, só o cometera a autora, por prender uma inocente flor; e que, por último, ainda quando fosse a ré que desfolhara a rosa e mesmo dando-se o propósito de o fazer, dever-se-ia atribuir tal ação à piedade, pois que d. Quinquina a estava matando pouco a pouco com o veneno da inveja, colocando-a tão perto de suas faces, que tanto a venciam em rubor e viço.

As juradas recolheram-se ao boilette e cinco minutos depois voltaram com a sentença, que foi lida por d. Clementina.

O júri declarou d. Carolina criminosa e a condenou a indenizar o dono da rosa com um beijo.

- Para fazer tal, disse a ré, não carecia eu da sentença do júri: tome um beijo, minha prima…

- Não é a mim que o deve dar, respondeu a autora; o dono da rosa é o sr. Augusto.

De rosa fez-se o rosto de d. Carolina.

- O beijo! O beijo! gritaram as juradas. Você deu sua palavra!

Ela hesitou alguns momentos… depois, aproximou-se de Augusto e, com seu sorriso feiticeiro e irresistível nos lábios, disse…

- O senhor me perdoa?…

- Não! Não! Não! clamaram de todos os lados.

Mas a menina parecia contar com o poder de seus lábios, porque, sorrindo-se ainda do mesmo modo, tornou a perguntar com meiguice e ternura:

- Me perdoa?…

- Não! Não!

- Porém, como resistir ao seu sorriso?… Como dizer que não a quem pede como ela?…exclamou Augusto, entusiasmado.

D. Carolina estava, pois, perdoada.

- Agradecida! disse ela com vivo acento de gratidão e estendeu sua destra para Augusto que, não podendo ceder tudo com tão criminoso desinteresse, tomou entre as suas aquela mãozinha de querubim e fez estalar sobre ela o beijo mais gostoso que tinham até então dado seus lábios.

A manhã deste dia foi assim passada e à tarde voltou-se aos preparativos do sarau.

Cap. XVI - O sarau

‘Um sarau é o bocado mais delicioso que temos, de telhado abaixo. Em um sarau todo o mundo tem que fazer. O diplomata ajusta, com um copo de champanha na mão, os mais intrincados negócios; todos murmuram e não há

quem deixe de ser murmurado. O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas do seu tempo, e o moço goza todos os regalos da sua época; as moças são no sarau como as estrelas no céu; estão no seu elemento; aqui uma, cantando suave cavatina, eleva-se vaidosa nas asas dos aplausos, por entre os quais surde, às vezes, um bravíssimo inopinado, que solta de lá da sala do jogo o parceiro que acaba de ganhar sua partida do écarté mesmo na ocasião em que a moça se espicha completamente, desafinando um sustenido; daí a pouco vão outras pelo braço de seus pares, se deslizando pela sala e marchando em seu passeio, mais a compasso que qualquer de nossos batalhões da Guarda Nacional, ao mesmo tempo que conversam sempre sobre objetos inocentes que movem olhaduras e

risadinhas apreciáveis. Outras criticam de uma gorducha vovó, que ensaca nos bolsos meia bandeja de doces que vieram para o chá, e que ela leva aos pequenos que, diz, lhe ficaram em casa. Ali vê-se um ataviado dândi que dirige mil finezas a uma senhora idosa, tendo os olhos pregados na sinhá, que senta-se ao lado. Finalmente, no sarau não é essencial ter cabeça nem boca, porque, para alguns e regra, durante ele, pensar pelos pés e falar pelos olhos.

E o mais é que nós estamos num sarau: inúmeros batéis conduziram da corte para a ilha de… senhoras e senhores, recomendáveis por caráter e qualidade: alegre, numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa, que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto.

Entre todas essas elegantes e agradáveis moças, que com aturado empenho se esforçam por ver qual delas vence em graças, encantos e donaires, certo que sobrepuja a travessa Moreninha, princesa daquela festa.

Hábil menina é ela! Nunca seu amor-próprio produziu com tanto estudo seu toucador e, contudo, dir-se-ia que o gênio da simplicidade a penteara e vestira. Enquanto as outras moças haviam esgotado a paciência de seus cabeleireiros, posto em tributo toda a habilidade das modistas da rua do Ouvidor e coberto seus colos com as mais ricas e preciosas jóias, d. Carolina dividiu seus cabelos em duas tranças, que deixou cair pela costa; não quis adornar o pescoço com seu adereço de brilhantes nem com seu lindo colar de esmeraldas; vestiu um finíssimo, mas simples vestido de garça, que até pecava contra a moda reinante, por não ser sobejamente comprido. Vindo assim aparecer na sala, arrebatou todas as vistas e atenções.

Porém, se um atento observador a estudasse, descobriria que ela adrede se mostrava assim, para ostentar as longas e ondeadas madeixas negras, em belo contraste com a alvura de seu vestido branco, e para mostrar, todo nu, o elevado colo de alabastro, que tanto a aformoseava, e que seu pecado contra a moda reinante não era senão um meio sutil de que se aproveitara para deixar ver o pezinho mais bem feito e mais pequeno que se pode imaginar.

Sobre ela estão conversando agora mesmo Fabrício e Leopoldo; terminaram sem dúvida a sua prática; não importa. Vamos ouvi -los.

- Está na verdade encantadora!… repetiu pela quarta vez aquele.

- Danças com ela? perguntou Leopoldo.

- Não, já estava engajada para doze quadrilhas.

- Oh! Lá vai ter com ela o nosso Augusto. Vamos apreciá-lo.

Os dois estudantes aproximaram-se de Augusto, que acabava de rogar à linda Moreninha a mercê da terceira quadrilha.

- Leva de tábua, disse Fabrício ao ouvido de Leopoldo; é a mesma que eu lhe havia pedido.

Mas a jovenzinha pensou um momento antes de responder ao pretendente; olhou para Fabrício e com particular mover de lábios pareceu mostrar-se descontente; depois riu-se e respondeu a Augusto:

- Com muito prazer.

- Mas minha senhora, disse Fabrício, vermelho de despeito e aturdido com um beliscão que lhe dera Leopoldo; há cinco minutos que já estava engajada até á duodécima.

- E verdade, tornou d. Carolina; e agora só acabo de ratificar uma promessa; o sr. Augusto poderá dizer se ontem pediu-me ou não a terceira contradança.

- Juro… balbuciou Augusto.

- Basta! acudiu Fabrício interrompendo-o; é inútil qualquer juramento de homem, depois das palavras de uma senhora.

Fabrício e Leopoldo retiraram-se; d. Carolina, que tinha iludido o primeiro, vendo brilhar o prazer na face de Augusto, e temendo que daquela ocorrência tirasse este alguma explicação lisonjeira demais, quis aplicar um corretivo e, erguendo-se, tomou o braço de Augusto. Aproveitando o passeio, disse:

- Agradeço-lhe a condescendência com que ia tomar parte na minha mentira… foi necessário que eu praticasse assim; quero antes dançar com qualquer, do que com aquele seu amigo.

- Ofendeu-a, minha senhora?

- Certo que não, mas diz-me coisas que não quero saber.

- Meu Deus! É um crime que também eu tenho estado bem perto de cometer!

- Pois bem, foi esta a única razão.

- Mas eu temo perder a minha contradança… alguns momentos mais e serei réu como Fabrício.

- A culpa será de seus lábios.

- Antes dos seus olhos, minha senhora.

- Cuidado, sr. Augusto! Lembre-se da contradança!

- Pois será preciso dizer que a detesto?…

- Basta não dizer que me ama.

- Ó não dizer o que sinto; eu não sei mentir. Ainda há pouco ia jurar falso…

- Nas palavras de um anjo ou de uma…

- Acabe.

- Tentaçãozinha.

- Perdeu a terceira contradança.

- Misericórdia! Eu não falei em amor!…

Neste momento a orquestra assinalou o começo do sarau. E preciso antecipar que nos não vamos dar ao trabalho de descrever este; é um sarau como todos os outros, basta dizer o seguinte:

Os velhos lembraram-se do passado, os moços aproveitaram o presente, ninguém cuidou do futuro. Os solteiros fizeram por lembrar-se do casamento, os casados trabalharam por esquecer-se dele. Os homens jogaram, falaram em política e requestaram as moças; as senhoras ouviram finezas, trataram de modas e criticaram desapiedadamente umas às outras. As filhas deram carreirinhas ao som da música, as mães, já idosas, receberam cumprimentos por amor daquelas e as avós, por não terem que fazer nem que ouvir, levaram todo o tempo a endireitar as toucas e a comer doces. Tudo esteve debaixo destas regras gerais; só basta dar conta das seguintes particularidades:

D. Carolina sempre dançou a terceira contradança com Augusto, mas, para isso, foi preciso que a sra. d. Ana empenhasse todo o seu valimento; a tirana princesinha da festa esteve realmente desapiedada. e não quis passear com o estudante.

.A interessante d. Violante fez o diabo a quatro: tomou doze sorvetes, comeu pão-de-ló como nenhuma, tocou em todos os doces, obrigou alguns moços a tomá-la por par, e até dançou uma valsa corrupio.

Augusto apaixonou-se por seis senhoras com quem dançou; o rapaz é incorrigível. E assim tudo mais.

Agora são quatro horas da manhã; o sarau está terminado, os convidados vão retirando-se e nós, entrando no toilette, vamos ouvir quatro belas conhecidas

- É possível?!… exclamou d. Quinquina, dirigindose à sua mana; pois é verdade que esse sr. Augusto lhe fez uma declaração de amor?…

- Como quer que lhe diga, maninha!… Asseverou que meus olhos pretos davam à sua alma mais luz do que aos seus olhos todos os candelabros da sala nesta noite, e mesmo do que o sol nos dias mais brilhantes… palavras dele.

- Que insolente!… tornou d. Quinquina, ele mesmo, que me jurou ser a mais bela a seus olhos e a mais cara ao seu coração, porque meus cabelos eram fios de ouro e a cor das minhas faces o rubor de um belo amanhecer!… Palavras dele.

- Que atrevido!… bradou d. Clementina; o próprio que afirmou ser-lhe impossível viver sem alentar-se com a esperança de possuir-me, porque eu sabia ferir corações com minhas vistas e curar profundas mágoas com meus sorrisos!… Palavras dele.

- Oh! Que moço abominável, disse, por sua vez, d. Gabriela; e ousou dizer-me que me amava com tão subida paixão que, se fora por mim amado e

pudesse desejar e pedir algum extremo, não me pediria como a outras, para beijar-me a face, porque das virgens do céu somente se beijam os pés, e de joelho! Palavras dele.

- Mas isto é um insulto feito a todas nós!

- Como se estará ele rindo!

- Qual! Se ele está apaixonado… Apaixonado?… E por quem?…

- Por nós quatro… talvez por outras mais: ele pensa assim.

- Que maldito brasileiro com alma de mouro!…

- E havemos de ficar assim?…

- Não, acudiu d. Joaninha: vamos ter com ele, desmascaremo-lo.

- Isto é nada para quem não tem vergonha!…

- Pois troquemos os papéis: finjamos que estávamos tratadas para desafiar-lhe os requebros, e… ridicularizemo-lo como for possível.

- Sim… obriguemo-lo a dizer qual de nós é a mais bonita; cada uma lhe pedirá um anel de seus cabelos… uma prenda… uma lembrança… ponhamo-lo doido.

- Muito bem pensado! Vamos!

- Deus nos livre!… A vista de tanta gente!…

- Então, quando e aonde?

- Uma idéia… seja a zombaria completa: escreva-se uma carta anônima, convidando-o para estar ao romper do dia na gruta.

- Bravo! Então escreva…

- Eu, não, escreva você…

- Deus me defenda! … escreva d. Gabriela, que tem boa letra…

- Então, nenhuma escreve? Pois tiremos por sorte.

A idéia foi recebida com aprovação e a sorte destinou para secretária d. Clementina, que tirando de seu álbum um lápis uma tira de papel, escreveu sem hesitar:

“Senhor: - Uma jovem que vos ama e que de vós escutou palavras de ternura tem um segredo a confiar-vos: ao ralar da aurora a encontrareis no banco de relva da gruta; sede circunspecto e vereis a quem, por meia hora ainda, quer ser apenas - Uma incógnita”.

- Bem, disse d. Quinquina, eu me encarrego de fazer-lhe receber a carta. Saiamos.

As quatro moças iam sair, quando um suspiro as suspendeu; mais alguém estava no toilette. D. Joaninha, medrosa de que uma testemunha tivesse presenciado a cena que se acabava de passar, voltou-se para o fundo do gabinete e o susto logo se dissipou.

- Vejam como ela dorme! … disse.

Com efeito, recostada em uma cadeira de braços, d. Carolina estava profundamente adormecida.

A Moreninha se mostrava, na verdade, encantadora no mole descuido de seu dormir, e à mercê de um doce resfolegar, os desejos se agitavam entre seus seios; seu pezinho bem à mostra, suas tranças dobradas no colo, seus lábios entreabertos e como por costume amoldados àquele sorrir cheio de malícia e de encanto que já lhe conhecemos e, finalmente, suas pálpebras cerradas e coroadas por bastos e negros supercílios, a tornavam mais feiticeira que nunca.

D. Clementina não pôde resistir a tantas graças: correu para ela… dois rostos angélicos se aproximaram… quatro lábios cor-de-rosa se tocaram e este toque fez acordar d. Carolina.

Um beijo tinha despertado um anjo, se é que o anjo realmente dormia.

Cap. XVII - Foram buscar lã e saíram tosquiadas

Se houve alguém que quisesse servir a d. Quinquina, ou se foi ela mesma quem pôs a carta anônima no bolso da jaqueta de Augusto, é coisa que pouco interesse dá; o certo é que o estudante, indo tirar o lenço para assoar-se, achou o interessante escritinho; então correu logo para um lugar solitário, e só depois de devorar o convite sem assinatura, foi que lembrou-se que ainda não se havia assoado e que o pingo estava cai não cai na ponta do nariz; enfim, ainda com o lenço acudiu a tempo, e depois entendeu que, para melhor decidir o que lhe cumpria fazer naquela conjuntura, deveria avivar o cérebro, sorvendo uma boa pitada de rapé; portanto, lançou a mão ao segundo bolso de sua jaqueta, e eis que lhe sai com a caixa do bom Princesa um outro escritinho como o primeiro.

- Bravo! exclamou o nosso estudante; temíveis mãozinhas seriam estas, se se dessem ao exercício, não de encher, mas de vazar as algibeiras da gente.

E sem mais dizer, abriu e leu o escrito.

“Senhor: - Uma moça, que nem é bonita nem namorada, mas que quer interessar-se por vós, entende dever prevenir-vos que no banco de relva da gruta não achareis ao amanhecer uma incógnita, porém quatro conhecidas, que pretendem zombar de vós, porque esta mesma noite jurastes amar a cada uma delas cm particular. Não procureis adivinhar quem vos escreve, porque apesar de vossa amiga será por agora - Uma incógnita”.

- Muito bonito! Muito bonito!… disse Augusto, beijando o bilhete; estou exatamente representando um papel de romance! Mas quem sabe se ainda acharei mais cartas?…

E nisso pensando, foi correndo um por um todos os bolsos de seus vestidos, sem esquecer o do relógio; e até passou os dedos pela sua basta cabeleira, presumindo que talvez introduzissem algum no enorme canudo de cabelos que lhe escondia as orelhas.

Porém nada mais havia; também duas cartas tão curiosas já eram de sobra em uma só noite.

O estudante pensou no conteúdo de ambas, e ainda reflexionava se lhe cumpria fugir ou aceitar um certame com quatro moças, que ele adivinhava quais eram, quando a primeira rosa da aurora se desabriu no horizonte. Augusto correu para a gruta encantada.

Chegando ao pé, foi de mansinho se aproximando, sentiu rumor e ouviu que alguém dizia em tom baixo:

- Oh! Se ele vier!

- Ei-lo aqui, minhas belas senhoras, exclamou o estudante, que entendeu não lhes dever nunca dar tempo a tomarem a ofensiva; eis-me aqui!…

As moças, que estavam todas sentadinhas no banco de relva, como quatro pombas rolas enfileiradas no mesmo galho, ergueram-se sobressaltadas ao ver entrar inopinadamente o estudante; era isso mesmo o que ele queria, pois continuou:

- As senhoras vêem que acudi de pronto ao honroso convite e que me entusiasmo vendo quatro auroras em lugar de uma só. Belo amanhecer é este, sem dúvida… mas, exposto ao fogo abrasador de oito olhos brilhantes… eu me sinto arder… juro que tenho sede… Eis ali uma fonte… Mas, meu Deus, é a fonte encantada que descobre os segredos de quem está conosco!… Bem! Bem! Melhor… uma gota desta linfa de fadas!…

- O que é que ele está dizendo, mana? exclamou d. Quinquina, apontando para Augusto, que tinha entre os lábios o copo de prata.

- É preciso decidir-nos a começar, disse d. Gabriela.

- Principie você, disse d. Joaninha.

- Eu não! comece você.

- Eu não, que sou a mais moça.

Então o estudante, que tinha acabado de esgotar o seu copo d’água, voltou-se para elas, e dando a seu rosto uma expressão animada e às suas palavras estudado acento:

- Começo eu, minhas senhoras, disse, e começo por dizer-vos que aquela fonte é realmente encantada; sim, eu tenho, à mercê de sua água, adivinhado belos segredos: escutai vós Perdoai e consenti que vos trate assim, enquanto vos falar inspirado por um poder sobrenatural. Vós viestes aqui para maltratar-me e zombar de mim, por haver amado a todas vós numa só noite; que ingratidão!… Eu vos poderia perguntar como o poeta: Assim se paga a um coração amante?! Mas, desgraçadamente, a fada que preside àquela fonte, quer mais alguma coisa ainda, e me dá uma cruel missão! Ordena-me que eu diga a cada uma de vós, em particular, algum segredo do fundo de vossos corações, para melhor provar os seus encantamentos. Pois bem, é preciso obedecer; qual de vós quer ser a primeira?…

Eu não ouso falar alto, porque pelo jardim talvez estejam passeando alguns profanos. Qual de vós quer ser a primeira?…

Nenhuma se moveu.

- Será preciso que eu escolha? continuou o tagarela. Escolherei… lluminai-me, boa fada! Quem será?… Será… a sra. d. Gabriela?

- Eu?! respondeu a menina, recuando.

- A senhora mesma, disse Augusto, trazendo-a pela mão para junto da fonte; vinde, senhora, para bem perto do lugar encantado; agora silêncio… ouvi.

- Ele está mangando conosco, murmurou d. Clementina.

Augusto já estava falando em voz baixa a d. Gabriela.

- Vós, senhora, ainda não amastes a pessoa alguma; para vós amor não existe: é um sonho apenas, e só olhais como real a galanteria; vós queríeis zombar de mim, porque vos protestei os mesmos sentimentos que havia protestado a mais três companheiras vossas, e todavia, estais incursa em igual delito, pois só por cartas vos correspondeis com cinco mancebos.

- Senhor!…

- Oh! Não vos impacienteis; quereis provas?… Há quatro dias, uma vendedeira de empadas, que se encarrega de vossas cartas, enganou-se na entrega de duas; trocou-as e deu, se bem se lembra a fada, a de lacre azul ao sr. Juca e a de lacre verde ao sr. Joãozinho.

- Ora… ora, senhor! Quem lhe contou essas invenções?

- A fada! E fez mais ainda. Vós não achareis em vosso álbum o escrito desesperado do sr. Joãozinho, que vos foi entregue no momento de vossa partida para esta ilha; sou eu que o tenho, a fada mo deu há pouco com sua mão invisível.

 

- Impossível! balbuciou d. Gabriela, recorrendo ao seu álbum.

Ela não podia encontrar o escrito.

- Sr. Augusto, disse então, toda vergonha e acanhamento, eu lhe rogo que me dê esse papel.

- Pois não quereis ouvir mais nada!…

- Basta o que tenho ouvido e que não posso bem compreender; mas dê-me o que lhe pedi.

- Daqui a pouco, senhora, na hora de minha partida para a corte, porém com uma condição.

- Pode dizê-la.

- Sois sobremaneira delicada, senhora; este excesso vos deve ser nocivo; quereis fazer-me o obséquio de ir descansar e dar-me a honra de aceitar a minha mão até à porta da gruta?…

- Com muito prazer.

Então os dois se dirigiram para fora; passando junto das três companheiras, d. Gabriela pôde apenas dizer-lhes:

- Até logo.

Chegando à porta, Augusto falou já em outro tom:

- Minha senhora, espero que me faça a justiça de crer que fico extremamente penalizado por não poder dilatar por mais tempo a glória de acompanhá-la; mas sabe o que ainda tenho de fazer.- Obrigada, respondeu d. Gabriela, não poupe as outras.

Não é possível bem descrever a admiração das três.

Augusto chegou-se a d. Quinquina, e tomando-lhe a mão disse:

D. Quinquina deixou-se levar para junto da fonte; as moças tinham perdido toda a força; o que diante delas se passava pedia uma explicação que não estava ao seu alcance dar. Augusto começou:

- Senhora, eu poderia dizer-vos, pelo que me conta a boa fada, que vós sois como as outras de vossa idade, tão volúveis como eu; mas para tal saber não precisava eu beber da água encantada; podia também gastar meia hora em falar do vosso galanteio com um tenente da Guarda Nacional, por nome Gusmão…

- Senhor!…

- Por nome Gusmão, que leva o seu despotismo amoroso a ponto de exigir que não valseis, que não tomeis sorvetes, que não deis dominus tetum quando ao pé de vós espirrar algum moço e que não vos riais quando ele estiver sério,

- Quem lhe disse isto, senhor?…

- A fada, senhora; e ainda me disse mais: por exemplo, contou-me que no baile desta noite, passeando com um velho militar, vós recebestes da mão dele um lindo cravo e a seus olhos o escondestes, com gesto apaixonado, no palpitante seio; mas daí a um quarto de hora essa mesma flor, tão ternamente aceita, deveria ir parar ao bolso de um belo jovem, chamado Lúcio, se acaso não fosse roubada pela fada que preside esta fonte.

- Eu não entendo nada do que o senhor está dizendo… isso não é comigo.

- Eu me explico: o sr. Lúcio viu ser dado e recebido o presente, e fingindo-se zeloso, vos pediu esse cravo, muito notável porque, além da flor aberta, havia sete flores em botão. Ora, dizei, não é verdade? Pois o sr. Lúcio queria esse cravo, mas vós não lho podíeis dar, porque o velho militar não tirava os olhos de vós; ora, conversando com o sr. Lúcio, acordastes ambos que ele iria esperar um instante no jardim e que um pequeno escravo, por nome Tobias, lhe levaria a flor; e como o tal Tobias ainda não conhecia o sr. Lúcio, este lhe daria por senha as seguintes palavras - sete botões - não foi assim?

D. Quinquina guardou silêncio, porque tudo era verdade; ela estava cor de nácar. Augusto prosseguiu:

- Isto se passou estando vós na grande varanda, sentados em um banco e com as costas voltadas para uma janela da sala do jogo; ora, a fada esteve recostada a essa janela, ouviu quanto dissestes e como lhe é dado tomar todas as figuras, tomou a do moço, foi ao jardim, e quando viu o Tobias, disse - sete botões; e o cravo foi logo da fada e é agora meu; ei-lo aqui!…

- Isto é uma invenção; eu não conheço essa flor.

- Bem então consentireis que eu a traga esta manhã no meu peito?… Se não confessais, eu a mostrarei… O senhor coronel ainda se não retirou e…

- Perdoe-me, balbuciou, enfim, d. Quinquina, deixando cair uma lágrima na mão de Augusto. Dê-me esse maldito cravo.

- Eu vo-lo darei na hora de minha partida, senhora; porém, ouvi mais.

- Basta.

- Pois bem, basta; mas eu vejo que vossa face está umedecida; seria uma lágrima se o relento da noite não molhasse também a rosa. Quereis descansar sem dúvida; poderei gozar o prazer de conduzir-vos até à porta da gruta?…

- Sim, senhor.

Duas guerreiras tinham sido batidas; só a curiosidade retinha as outras; Augusto se chegou para elas e falou a d. Clementina:

- Agora vós, senhora.

Ela deixou-se levar pela mão até junto da fonte, e o estudante começou:

- Quereis fatos de anteontem ou da noite passada, senhora?

 

Eu não entendo o que o senhor quer dizer.

- Pergunto, senhora, se vos dá gosto que eu vos repita o que convosco se passou, quando tomáveis um sorvete ao lado de um jovem de cabelos negros… o que convosco conversou o meu colega Filipe, quando tomáveis chá?

- Então dir-vos-ei o que mais vos interessa; sossegarei mesmo os vossos cuidados e os de sr. Filipe, a respeito da perda de certo objeto…

- Sr. Augusto!

- Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter

- Sr. Augusto!

- Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter ao caramanchão; e essa trança pára hoje em minhas mãos, ei-la aqui…

- Oh! Dê-ma.

- Não preferis antes que eu a entregue ao feliz para quem a destináveis?

- Não, eu lhe peço que ma dê.

- Eu estou pronto a obedecer-vos, senhora, mas só na hora de minha partida. Vós quatro queríeis zombar de mim, e não concebo até onde iria a vossa vingança; preciso de reféns que assegurem a paz entre nós, estes são os meus; quereis saber mais alguma coisa?

- Eu já sei que o senhor sabe demais!

- Então…

Quer, como às duas primeiras, oferecer-me a mão e obrigar-me a desamparar o campo? Venceu, senhor, e sou eu que lhe peço que me acompanheis até à porta da gruta.

- Eu estou pronto, senhora, para servir-vos em tudo.

- Eu vos deixei para o fim, disse Augusto, porque a vós é que eu mais admiro, porque vós sois exatamente a única dentre elas que tem amado melhor e que mais infeliz tem sido; eu vos explicarei isto. Sois, todavia, um pouco excessiva em exigências.

- Que quer dizer, sr. Augusto?

- Que quereis muito, quando ordenais a um estudante que vos escreva quatro vezes por semana, pelo menos; que passe defronte de vossa casa quatro vezes por dia; que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que freqüentais, e até que não fume charutos de Havana, nem de Manilha, por ser falta de patriotismo.

Quem lhe disse isso, senhor?

- A fada, senhora, que sabe que amais a um moço, a quem dais a honra de chamar querido primo.

- E uma vil traição!

- Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada, e ainda mais, senhora, quer que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel, que não sabe pagar o vosso amor: eu poderia dar-vos provas…

- Não as tenho eu bastantes, exclamou d. Joaninha com sentimento, quando lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim somente?

Augusto ia falar; ela o interrompeu.

- Senhor, eu agradeço o benefício que recebi; o senhor quis zombar de mim, como das outras, mas não o fez; ao contrário, atalhou em princípio uma grande enfermidade, que, talvez, fosse daqui a pouco tempo incurável! Eu galanteio também às vezes, porém sei amar ao extremo. Adeus, senhor! Eu posso apenas agradecer-Lhe, dizendo que tenho tanta confiança na sua discrição e no seu caráter, que nem mesmo lhe recomendo o cuidado do meu segredo.

D. Joaninha ia deixar a gruta, e Augusto lhe ofereceu o braço.

- Agradecida, disse ela; permita que eu entre sé em casa. Augusto ficou sé. Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que acabava de ter lugar; finalmente disse, soltando uma risada:

E já estava para pôr o pé fora da gruta, quando uma voz branda e sonora o suspendeu, dizendo:

- Agora, sr. Augusto, é chegada a sua vez…

Cap. XVIII - Achou quem o tosquiasse

Escutando aquelas inesperadas palavras que o chamavam para a mesma posição em que ele tinha colocado as quatro moças, Augusto voltou-se de repente e viu no fundo da gruta a interessante Moreninha, que enchia o copo de prata.

- Minha senhora!… balbuciou o estudante confuso.

D. Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado sorriso e depois assim:

- Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro senhoras; uma

outra toma o cuidado de vingá-las. Sr. estudante, eu também sou adepta ao culto desta fada e vou invocá-la em meu auxílio.

A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu copo d’água e depois, imitando o estilo de Augusto que se achava junto dela, disse:

- Quereis que vos fale do passado, do presente, ou do futuro?

- De todas essas épocas… ao menos para ouvir por mais tempo os vaticínios e palavras de tão amável Sibila.

- Pois então principiemos pelo passado. Oh! Que belas revelações me faz a fada! Sim, eu estou lendo no livro da vossa vida estou vendo tudo, estou dentro do vosso espírito e de vosso coração!

- Oh! Sim, eu juro que isso é verdade, atalhou o estudante. A menina fingiu não entender a alusão e continuou:

- Senhor, vós amastes muito cedo… creio… sim, foi na idade de treze anos.

Augusto recuou um passo; ela prosseguiu:

- Amastes, sim, a uma menina de sete anos, com quem brincastes à borda do mar.

- E quem era ela? Como se chamava? perguntou Augusto com fogo, talvez pensando que d. Carolina estava com efeito adivinhando e podia dizer-lhe o que ele mesmo ignorava.

Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha; a fada só me diz o que se passou em vosso coração, e vós, por certo, que também não sabeis quem era essa menina e só a conheceis pelo nome de - minha mulher.

- Prossiga, minha senhora!

Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo, esmeralda, camafeu, mas basta de vossa mulher; permiti que vos diga que mostrava ser uma criança doidinha, que cedo começava a fazer loucuras.

- Que cruel juízo!

- Oh! Não vos agasteis; eu a respeito também, em atenção a vós, porém vamos acabar com o vosso passado. Houve um tempo em que quisestes figurar entre os amigos como galanteador de damas, e por justo e bem merecido castigo fostes

E a menina interrompeu-se, para rir-se da cara que fazia Augusto.

- Ora, por esta não esperava eu, disse o estudante.

A primeira jovem que requestastes foi uma moreninha de dezesseis anos, que jurou-vos gratidão e ternura, e casou-se oito dias depois com um velho de sessenta anos! Não foi assim?

E a menina de novo desatou a rir.

- Minha senhora, de que se ri tanto?

Ora! E que a fada está me dizendo que ainda em cima os vossos amigos, quando souberam de tal, deram-vos uma roda de cacholetas!

- Então a sra. d. Ana lhe contou tudo isso?

- Juro-vos, senhor, que minha avó não me fala em semelhantes objetos. Consenti que eu continue. A segunda foi uma jovem coradinha, a quem em uma noite ouvistes dizer num baile que éreis um pobre menino com quem ela se divertia nas horas vagas, não foi assim?

- Prossiga, minha senhora.

- A terceira foi uma moça pálida, que zombou solenemente, tanto de um primo que tinha, como de vós. Eis alguns de vossos principais galanteios. Exasperado com o infeliz resultado deles e vivamente tocado das letras e da música de certo lundu que se vos cantou, tomastes outro partido e desde então vós pretendeis

- Borboleta?!… Sim… Sim… lembro-me agora que a senhora passeava pelo

jardim. Já sei de quem foram certas carreirinhas e portanto compreendo que sabeis de tudo à custa…

- A custa da fada, senhor, e escuso estender-me mais, porque vós estais bem

Sim, mas diga sempre.

- Não, antes quero falar-vos do vosso presente.

- Pelo amor de seus belos olhos, minha senhora, vamos antes ao que eu não sei, vamos ao meu futuro.

- Sois sobejamente sôfrego! Não vedes como isso vai contra a boa ordem da narração?

- Mas a desordem é hoje moda! O belo está no desconcerto; o sublime no que se não entende; o feio é só o que podemos compreender: isto é, romântico; queira ser romântica, vamos ao meu futuro.

- Pois bem, vamos ao vosso futuro. Principiarei, como pretendia fazer, se falasse do presente de vossa vida, dizendo-vos que vós não sois tão inconstante como afetais.

- Misericórdia!

- Mas que estais a ponto de o ser; digo-vos que perdereis uma certa aposta que fizestes com três estudantes.

- Como é isso? Então a senhora sabe…

- A fada que me revelou isso leu o termo na carteira de quem o guardou.

- A fada? Sim, a feiticeira o leu… Compreendo.

- Vós não sois inconstante, porque tendes até hoje cultivado com religioso empenho o amor de vossa mulher; mas vós o ides ser, porque não longe está o dia em que a esquecereis por outra.

 

- A culpa será dos olhos dessa outra; porém quem sabe?… Desejo que não; contudo, eu já vos vejo em princípio e temo que ides ao fim; sereis perjuro, tereis de escrever um romance e perdoai-me se vos desejo este mal: eu quisera que ao pé de meu irmão, que vos apresentará o termo da aposta, aparecesse a vossos olhos a mulher traída. Do vosso futuro eis quanto me disse a fada.

- E disse bastante para me confundir.

- Quereis que vos fale agora do vosso presente?

- Oh, se quero! No presente está a minha glória.

- Ontem, no baile, dissestes palavras de ternura pelo menos a seis senhoras.

- Esta agora é melhor! E quem o pôde notar?

- Provavelmente a fada vos observava.

- Então a fada, a feiticeira fazia isso?

- Depois do baile puseram-vos duas cartas no bolso.

- Que mãos delicadas?… Não mo sabe dizer a fada, porém vós viestes para esta gruta acudindo a um convite, e fingistes adivinhar segredos de corações.

- Não era verdade: a fada nada vos revelou, e o que dissestes que sabíeis antes e a fada me disse como.

- Explique-me, pois, minha senhora.

- Quando involuntariamente fui causa de vos entornarem café nas calças, vós fostes mudar de roupa e entrastes para o gabinete das senhoras; lá ouvistes tudo o que afetastes adivinhar há pouco.

- E quem me viu entrar?

- A fada sem dúvida. O cravo de d. Quinquina fostes vós que o recebestes no jardim; na noite dos jogos de prendas, fostes vós ainda quem, com uma luz na mão, procurou e achou a trança de cabelos de d. Clementina, embaixo da quarta roseira da rua que vai para o caramanchão.

- Mas quem observou o que eu fiz às escondidas e com tanto cuidado?

- A fada, que, segundo penso, vos tem sempre seguido com os olhos.

- A fada?!… A feiticeira me segue sempre com os olhos?!… Oh! Como sou feliz!… A feiticeira é a senhora!

- Senhor! Sois pouco modesto; que me importariam vossos passos e vossas ações?…

- Perdão! Perdão!… Eu sou um tresloucado… um incivil… um doido… não sei o que faço, nem o que digo, mas continue…

- Basta! Vós duvidastes da fada e por isso eu termino aqui. Não! Não minha senhora! E preciso dizer-me mais alguma coisa ainda!… Por força a fada lhe deveria ter revelado! Ela, que adivinha tudo o que está dentro do meu coração, diga o que ainda se passa nele.

Nada mais me disse.

- Beba outro copo d’água…

- Não julgo necessário. Pois então…

- Cumpre retirar-me.

- Não é por certo! Perdoe-me, minha senhora, mas eu devo descobrir todos os meus segredos a quem conhece tão boa parte deles.

- Eu me contento com o pouco que sei.

- Ouça uma só palavra…

- Não sou curiosa.

- Pois a senhora…

- Sei que sou senhora, mas sou exceção de regra; não quero saber.

- Embora, eu lhe direi ainda contra a vontade…

- E para isso toma-me a saída?…

- E só para lhe dizer que eu amo…

- Já sei, à sua mulher

- Não é isso: a uma bela moça…

- Ela o deve ser agora.

Muito espirituosa…

- Já ela o era em criança.

- E que se chama…

- Ah! espreitam-nos da entrada da gruta!

Augusto correu a examinar quem era a indiscreta testemunha; não aparecia pessoa alguma; compreendeu então que fora ainda um meio de que se lembrara d. Carolina para não deixá-lo concluir sua declaração e, disposto a lançar-se aos pés da menina, voltou-se já com o nome da bela nos lábios, e…

D. Carolina tinha desaparecido da gruta.

Cap. XIX - Entremos nos corações

O que é bom dura pouco. As festas estão acabadas, as nossas belas conhecidas bordam, os nossos alegres estudantes estão de livro na mão. Mas, pelo que toca a estes, qual é digam-me, qual o estudante que, depois de uma patuscada de tom, não fica por oito dias incapaz de compreender a mais insignificante lição? Isto sucede assim; essa pobre gente vê, por toda a parte e misturando-se com todos os pensamentos, no livro em que estuda, nas estampas que observa, na dissertação que escreve, o baile, as moças e os prazeres que apreciou.

O nosso Augusto, por exemplo, está agora bronco para as lições e impertinente com tudo. Rafael é quem paga o pato: se o inocente moleque lhe apronta o chá muito cedo, apanha meia dúzia de bolos, porque quer ir vadiar pelas ruas; se no dia seguinte se demora só dez minutos, leva dois pescoções, para andar mais ligeiro. Não há, enfim, coisa alguma que possa contentar o sr. Augusto; está aborrecido da medicina, tem feito duas gazetas na aula; de ministerial, que era, passou-se para a oposição; não quer mais ser assinante de periódicos, não há para seus olhos lugar nenhum bonito no mundo; aborrece a corte, detesta a roça e só gosta das ilhas.

Deveremos fazer-lhe uma visita; ele está em seu gabinete e um pouco menos carrancudo, porque Leopoldo, o seu amigo do coração, o acompanha e tem a paciência de estar ouvindo pela duodécima vez a narração do que com ele se passou na ilha de…

Segundo parece, Augusto acaba de relatar o que ocorreu na gruta, entre ele e a bela Moreninha, porque Leopoldo lhe perguntou:

- E por onde fugiria ela?…

- Por uma difícil saída que eu não tinha observado, respondeu Augusto, e que exatamente se praticava no fundo da gruta.

- Que diabinho de menina!

- Quanto mais se tu notasses a graça e malícia com que ela, quando entrei na sala, me perguntou sossegadamente: “Esteve dormindo na gruta, sr. Augusto?…”

- Então ela gostou da tua semideclaração?!

- Não… não… se ela tivesse gostado, não me fugiria.

- Ora, é boa! Não devia fazer outra coisa.

 

Se ela gostasse de mim!… Mas, por que não me deu um só sinal de ternura?… Também eu, às vezes tão adiantado, fui desta um tolo, um basbaque! Tremi diante de uma criança que não tem quinze anos e não soube dizer duas palavras.

- Estás doido, Augusto, e doido varrido; acredita que d. Carolina foi mais sensível aos teus cumprimentos que aos de nenhum outro; e se não, dize por que se não deixou ela dormir, como as outras senhoras, e foi à hora de tua partida passear pela praia e ver-te embarcar?… Por que ficou ali passeando até desaparecer o teu batelão?

- Isto não significa nada.

- Ora, ature-se um namorado!… Mas venha cá sr. Augusto, então como é isto?… Estás realmente apaixonado?!

- Quem te disse semelhante asneira?…

- Há três dias que não falas senão na irmã de Filipe e…

- Ora viva! Quero divertir-me… digo-te que a acho feia; não é lá essas coisas; parece ter mau gênio. Realmente notei-lhe muitos defeitos… sim… mas, às vezes… Olha, Leopoldo, quando ela fala ou mesmo quando está calada, ainda melhor; quando ela dança, ou mesmo quando está sentada… ah! ela, rindo-se… e até mesmo séria… quando ela canta ou toca ou brinca ou corre, com os cabelos à negligé, ou divididos em belas tranças; quando… Para que dizer mais? Sempre, Leopoldo, sempre ela é bela, formosa, encantadora, angélica!

Então, que história é essa? Acabas divinizando a mesma pessoa que, principiando, chamaste feia?…

- Pois eu disse que ela era feia? É verdade que eu… no princípio… Mas depois… Ora, estou com dores de cabeça; este maldito Velpeau!… Que lição temos amanhã?

- Tratar-se-á das representações de…

- Temos maçada! Quem te perguntou por isso agora? Falemos de d. Carolina, do baile, do…

- Eis aí outra! Não acabaste de perguntar-me qual era a lição de amanhã?

- Não é a tua cabeça, Augusto, é o teu coração.

Houve então um momento de silêncio. Augusto abriu um livro e fechou-o logo; depois tomou rapé, passeou pelo quarto duas ou três vezes e, finalmente, veio de novo sentar junto de Leopoldo.

- É verdade, disse; não é a minha cabeça: a causa está no coração. Leopoldo, tenho tido pejo de te confessar, porém luto posso mais esconder estes sentimentos que eu penso que são segredos e que todo o mundo mos lê nos olhos! Leopoldo, aquela menina que aborreci no primeiro

instante, que julguei insuportável e logo depois espirituosa, que daí a algumas horas comecei a achar bonita, no curto trato de um dia, ou melhor ainda, em alguns minutos de unia cena de amor e piedade, em que a vi de joelhos banhando os pés de sua ama, plantou no meu coração um domínio forte, um sentimento filho da admiração, talvez, mas, sentimento que é novo para mim, que não sei como o chame, porque o amor é um nome

muito frio para que o pudesse exprimir!… Eu já não me conheço… não sei onde irá isto parar… Eu amo! Ardo! Morro!

- Modera-te, Augusto; acalma-te; não é graça; olha que estás vermelho como um pimentão.

- Oh! Tudo naquela ilha fatal se assanhou para enfeitiçar-me, tudo, até a própria mentira.

- E tu acreditaste muito nessa senhora!…

- Escuta, Leopoldo: uma vez que com a avó de Filipe conversava na gruta, eu, fatigado e sequioso, bebi um copo d’água da fonte do rochedo; então, a nossa boa hóspeda contou-me uma fabulosa e singular tradição daquela fonte. A água dizia-se milagrosa e quem a bebesse não sairia da ilha sem atuar algum de seus habitantes. Eis aqui, pois, uma mentira, mais uma mentira que excitou a minha imaginação; uma mentira que me perseguiu lá dois dias e que me persegue ainda hoje; uma mentira, enfim, que se transformou em verdade, porque eu bebi daquela água e não pude deixar a ilha sem amar, e muito, um de seus habitantes…

- Deveras que isso não deixa de ser interessante. Mas que efeito esperas tu que provenha de toda essa moxinifada?

- Que efeito?… O… amor…

- Amor?… Amor não é efeito, nem causa, nem princípio. nem fim, e é tudo isso ao mesmo tempo; e uma coisa que… sim… finalmente, para encurtar razões, amor é o diabo… Dize-me, pois, sinceramente falando, qual o resultado que pensas tirar de tudo isso que me contaste.

- Que resultado?… O… amor…

- E ele a dar-me com o maldito amor! Augusto, falemos sério, essa tua exaltação estava muito em ordem num moço que quisesse desposar d. Carolina; porém tu nem cuidas em casamento nem, se em tal pensasses, te lembrarias, roceiro como és, de escolher para mulher uma menina que foi criada, educada e pode-se dizer que mora na corte.

- Esta agora não é má!… Deveras que ainda me não passou pela mente a idéia do casamento, nem chegará a tal ponto minha loucura; mas suponhamos o contrário disto; que mal tu achas em que um roceiro se case com uma moça da cidade?

 

- Que mal?… Ora, escuta: devendo ir morar na roça, a moça tem, necessariamente, de mudar de costumes e de vida; compreende, pois, quanto atormentará o coração do pobre marido a vista dos dissabores e contrariedades que sofrerá na solidão e monotonia campestre urna senhora amamentada no seio dos prazeres e.festins da corte! … Quanto devem entristecer os suspiros e saudades de que será testemunha, quando a amada companheira recordar-se de sua família, de suas amigas, do teatro, do passeio, dessa cadeia de delícias, enfim, que, apesar dela, a ligará ainda a seu passado.

- Oh! não, não, Leopoldo, se o marido for amado. Quando se ama deveras e se está com o objeto do amor, não se recorda, não se deseja, não se quer mais nada!…

- Tu falas em amor, Augusto?… Ainda bem que somos ambos estudantes da roça e posso dizer-te agora o que entendo, sem medo de ofender suscetibilidade de cortesão algum. Pois ainda não observaste que o verdadeiro amor não se dá muito com os ares da cidade?… Que por natureza e hábito, as nossas roceiras são mais constantes que as cidadoas?… Olha, aqui encontramos nas moças mais espírito, mais jovialidade, graça e prendas, porém, nelas não acharemos nem mais beleza, nem tanta constância. Estudemos as duas vidas. A moça da corte escreve e vive comovida sempre por sensações novas e brilhantes por objetos que se multiplicam e se renovam a todo momento, por prazeres e distrações que se precipitam; ainda contra a vontade, tudo a obriga a ser volúvel: se chega à janela um instante só, que variedade de sensações! Seus olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro, da senhora que passa para o menino que brinca, do séqüito do casamento para o acompanhamento de enterro! Sua alma tem que sentir ao mesmo tempo o grito de dor e a risada de prazer, os lamentos, os brados de alegria e o ruído do povo; depois, tem o baile com sua atmosfera de lisonjas e mentiras, onde ela se acostuma a fingir o que não sente, a ouvir frases de amor a todas as horas, a mudar de galanteador em cada contradança; depois, tem o teatro, onde cem ócuLos fitos em seu rosto parecem estar dizendo - és bela! - E assim enchendo-a de orgulho e muitas vezes de vaidade; finalmente, ela se faz por força e por costume tão inconstante como a sociedade em que vive, tão mudável como a moda dos vestidos. Quereis agora ver o que se passa com uma moça da roça?…

Ali está ela na solidão de seus campos, talvez menos alegre, porém, certamente, mais livre; sua alma é todos os dias tocada dos mesmos objetos: ao romper d’alva, é sempre e só a aurora que bruxoleia no horizonte; durante o dia, são sempre os mesmos prados, os mesmos bosques e árvores; de tarde, sempre o mesmo gado que se vem recolhendo ao curral; à noite, sempre a mesma lua que prateia seus raios à Lisa superfície do lago! Assim, ela se acostuma a ver e amar um único objeto; seu espírito, quando concebe uma idéia, não a deixa mais, abraça-a, anima-a, vive eterno com ela; sua alma quando chega a amar, é para nunca mais esquecer, é para viver e morrer por aquele que ama. Isto é sim, Augusto; considera que é lá em nossos campos que mais brilham esses sentimentos, que são a mesma vida e que não podem acabar senão com ela!…

- Como estás exagerado, Leopoldo! Juraria que desejas casar com alguma moça da roça!

- Oh!… Se esse desejo me dominar, certamente que o satisfarei com uma das muitas cachopinhas da minha terra.

Eu logo vi que em teus raciocínios e observações andava o gênio da prevenção; escuso-me, porém, de responder-te, pois que falaste em geral e desse modo concedes…

- Que há muitas exceções, sem dúvida.

Bom! Quando não, tu me forçarias a tomar a palavra para defender a linda Moreninha, que tanto cativa.

Então, Augusto, teremos porventura um romance? Que romance?

- Perderás a aposta e ao completar-se o mês…

- Daqui até lá… se eu pudesse esquecê-la! … Mas aquela menina não é como as outras; é uma tentação… um diabinho…

- Quando, pois, começas a escrever?

 

- Estás tolo… respondeu Augusto, tomando por um momento seu antigo bom

humor; eu ainda pretendo nestes quinze dias mudar de amor três vezes.

Basta porém de estudantes. Já temos ouvido bastante o nosso Augusto e demorar-se mais tempo em seu gabinete fora querer escutar ainda as mesmas coisas; porque o tal mocinho, que quer campar de beija-flor, parece que caiu no visco dos olhos e graças da jovem beleza da ilha de… e está sinceramente enamorado dela. Ora, todos sabem que os amantes têm um prazer indizível em matraquear os ouvidos dos que os atendem com uma história muito comprida e mil vezes repetida que, reduzindo-se à expressão mais simples, ficaria em zero ou, quando muito, nos seguintes termos: “eu olhei e ela olhou”; eu lhe disse “pode ser, não pode ser”. Deixemos, portanto, o senhor Augusto entregue a seus cuidados de moço, e tanto mais que já conhecemos o estado em que se acha. Vamos agora entrar no coraçãozinho de um ente bem amável, que não tem, como aquele, uma pessoa a quem confie suas penas, e por isso sofre talvez mais. Faremos urna visita à nossa linda Moreninha.

Também suas modificações têm aparecido no caráter de d. Carolina, depois dos festejos de Sant’Ana. Antes deles, era essa interessante jovenzinha o prazer da ilha de… irreconciliável inimiga da tristeza, ela ignorava o que era estar melancólica dez minutos e praticava o despotismo de não consentir que alguém o estivesse; junto dela, por força ou por vontade, tudo tinha de respirar alegria; sabia tirar partido de todas as circunstâncias para fazer rir, e, boa, afável e carinhosa para com todos, amoldava os corações à sua vontade; o ídolo, o delírio de quantos a praticavam, era ela a vida daquele lugar e empunhava com suas graças o cetro do prazer. Hoje suas maneiras são outras e, enquanto suas músicas se empoeiram, seu piano passa dias inteiros fechado, suas bonecas não mudam de vestido, ela vagueia solitária pela praia, perdendo seus belos olhares na vastidão do mar, ou, sentada no banco de relva da gruta, descansa a cabeça em sua mão e pensa… Em quê?… Quais serão os solitários pensamentos de uma menina de menos de quinze anos?… E às vezes suspira… um suspiro?… Eis o que já é um pouco explicativo.

 

Assim como o grito tem o eco, a flor o aroma e a dor o gemido, tem o amor o suspiro; ah! o amor é um demonínho que não pede para entrar no coração da gente e, hóspede quase sempre importuno, por pior trato que se lhe dê, não desconfia, não se despede, vai-se colocando e deixando ficar, sem vergonha nenhuma, faz-se dono da casa alheia, toma conta de todas as ações, leva o seu domínio muito cedo aos olhos, e às vezes dá tais saltos no coração, que chega a ir encarapitar-se no juízo; então, adeus minhas encomendas!…

Continuar: parte 3 de 3