A Morte de D. Ignez de Castro

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Capítulo 2 de 22

Páginas do PDF

A Morte de D. Ignez de Castro

+Cantata.+

 

Longe do caro Esposo Ignez formosa

Na margem do Mondego,

As amorosas faces aljofrava

De mavioso pranto.

Os melindrosos, candidos Penhores

Do Thálamo furtivo,

Os Filhinhos gentís, imagem della,

No regaço da Mãi serenos gozaõ

O somno da Innocencia.

Côro subtil de alígeros Favónios,

Que os ares embrandece,

Ora enlevado afaga

Com as plumas azues o Par mimoso,

Ora, sôlto, inquieto

Em léda travessurá, em doce brinco,

Pela Amante saudosa,

Pelos tenros Meninos se reparte,

E com ténue murmúrio vai prender-se

Das aureas tranças nos anneis brilhantes.

Primavera louçãa, Quadra macia

Da ternuia, e das flores, Que á bella Natureza o seio esmaltas,

Que no prazer de Amor ao Mundo apuras

O prazer da existencia,

Tu de Ignez lacrimosa

As mágoas naõ distrahes com teus encantos.

Debalde o Rouxinol, cantor de amores,

Nos versos naturaes os sons varía,

O límpido Mondego em vaõ serpêa

C'um benigno susurro, entre boninas

De lustroso matiz, almo perfume;

Em vaõ se doira o Sol de luz mais viva,

Os Ceos de mais pureza em vaõ se adornaõ

Por divertir-te, ó Castro:

Objectos de alegria Amor enjoaõ

Se Amor he desgraçado.

A meiga voz dos zephyros, do rio

Naõ te convida o somno:

Só de já fatigada

Na luta de amargosos pensamentos,

Cerras, misera, os olhos;

Maõ naõ ha para ti, para os Amantes

Somno plácido, e mudo;

Naõ dorme a fantasia, Amor naõ dorme:

Ou gratas illusões, ou negros sonhos

Assomando na idéa, espertaõ, rompem

O silencio da Morte.

Ah! Que fausta Visaõ de Ignez se apossa!

Que scena, que espectaculo assombroso A paixaõ lhe afigura aos olhos d'alma!

Em marmóreo salaõ de altas columnas A Sólio magestoso, e rutilante

Junto ao regio Amador se crê subida;

Graças de neve a púrpura lhe envolve,

Pende augusto Docel do tecto de oiro;

Rico Diadema de radioso esmalte

Lhe cobre as tranças, mais formosas que elle; Nos luzentes degráos do Throno excelso

Pompósos Cortezãos o orgulho acurvaõ; A Lisonja sagaz lhe adoça os lábios,

O Monstro da Politica se aterra,

E se Ignez perseguia, Ignez adora.

Ella escuta os extremos,

Os vivas populares, vê o Amante

Nos olhos estudar-lhe as leis que dicta;

O prazer a transporta, Amor a encanta;

Premios, dádivas mil ao Justo, ao Sábio

Magnanima confere,

Rainha esquece o que soffreo Vassalla:

De sublimes acções orna a Grandeza,

Felicita os Mortaes, do Sceptro he digna, Impera em corações… mas Ceos! Qu'estrondo

O sonho encantador lhe desvanece!

Ignez sobresaltada

Desperta, e de repente aos olhos turvos

Da vistosa illusaõ lhe foge o quadro.

Ministros do Furor, tres vís Algozes,

De buidos punhaes a dextra armada,

Contra a bella Infeliz bramindo avançaõ.

Ella grita, ella treme, ella descóra,

Os Fructos da ternura ao seio aperta, Invocando a piedade, os Ceos, o Amante;

Mas de marmore aos ais, de bronze ao pranto, Á suave attracçaõ da formosura,

Vós, bruto Assassinos,

No peito lhe enterrais os ímpios ferros.

Cahe nas sombras da Morte

A Victima de Amor, lavada em sangue,

As rosas, os jasmins da face amena

Para sempre desbotaõ.

Dos olhos se lhe sóme o doce lume,

E no fatal momento

Balbucia, arquejando: "Esposo, Esposo."

Os tristes Innocentes

Á triste Mãi se abraçaõ,

E soltaõ de agonia inutil chôro.

Ao suspiro exhalado,

Final suspiro da formosa Extincta,

Os Amores acodem.

Mostra a Próle de Ignez, e a tua, ó Venus,

Igual consternaçaõ, e igual belleza:

Huns dos outros os candidos Meninos

Só nas azas differem,

(Que jazem pelo campo em mil pedaços

Carcazes de marfim, virotes de oiro)

Súbito voaõ dois do Côro alado:

Este, raivoso, a demandar vingança

No Tribunal de Jóve,

Aquelle a conduzir o infausto annuncio

Ao descuidado Amante.

Nas cem tubas da Fama o graõ desastre

Irá pelo Universo:

Haõ de chorar-te, Ignez, na Hircania os Tigres, No torrado Certaõ da Libya féra

As Sérpes, os Leões haõ de chorar-te.

Do Mondego, que attonito recua,

Do sentido Mondego as alvas Filhas

Em tropel doloroso

Das urnas de crystal eis vem surgindo,

Eis, attentas no horror do caso infando,

Terriveis maldições dos lábios vibraõ

Aos Monstros infernaes, que vaõ fugindo.

Já crôaõ de cipreste a Malfadada,

E, arrepejando as nítidas madeixas,

Lhe urdem saudosas, lúgubres endeixas.

Tu, Eco, as decoraste,

E, cortadas dos ais, assim resoaõ

Nos côncavos penedos, que magoaõ:

 

Toldaõ-se os ares,

Murchaõ-se as flores:

Morrei, Amores,

Que Ignez morreo.

 

Misero Esposo,

Desata o pranto,

Que o teu encanto

Já naõ he teu.

 

Sua alma pura

Nos Ceos se encerra: