A Primavera

António Feliciano de Castilho · Capítulo 19 de 37

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A Primavera

Os Cantos de Abril Idillio.

OS

CANTOS DE ABRIL

IDILLIO.

 

Por um serão de Abril suave e ameno,

Menalca, a bella Dafne, e seus trez filhos,

Estavão-se a folgar ante a cabana.

Por entre as parras do sonoro alpendre

A mansa lua chêa se enlevava,

Espreitando esta rústica familia.

Menalca erà ja velho: os justos Deozes,

Querendo premiar lhe a larga vida

Passada em os amar e amar aos homens,

De Citheréa ao Filho havião dito:

“Filho de Citheréa, entrega Dafne

Por esposa na Menalca, a fim que o velho

Remoce, vendo ao lar a mocidade,

E a virtude que tem o alegre em outrem.”

Amor nem sempre aos Deozes obedece,

Porem amava a Dafne; entrançou logo

A florente cadêa, e vendo-os prezos,

Tanto a si mesmo do que fez se aprouve,

Que ficou sempre entre elles na cabana.

“Filho de Citheréa, accrescentárão

Depois os Deozes, da-lhe o teu retrato

Em filhos, e uma filha irmã das Graças,

A fim que em seu crepúsculo da tarde.

O velho inda se alegre, e abrace esp’ranças:

Da-lhe prole, o fada-la a nós pertence.”

E Amor lhe déra prole, dois meninos

Seu retrato, e uma filha irmã das Graças.

Ja rosas de abril decimo florecem

No semblante de Silvia; um anno a vence

Titiro; e vence a este um anno Alexis.

Menalca, em juncos molles estendido,

Tem da esposa no candido regaço

Como em ninho amoroso a branca fronte:

Pelas feições transpira-lhe bondade;

O mistico luar o diviniza.

Dafne o contempla muda, e niveos dedos

De afagar umas cãs sentem vaidade.

Elle a querida mão colhe entre as suas,

Beijada a achêga ao rosto, os fracos olhos

Derrama pelos céos alumiados,

E fitando-os na lua “Olhai, meus filhos,

Olhai, disse elle, como brilha a lua!

Que suavidade e paz não côa ao largo

O astro das noites! como attráe da terra

Nosso espirito humilde a pensamentos

De outro mundo melhor, mansão de Deozes!

Que esp’ranças, de saudades misturadas,

Não traz a pura noite ás almas puras!

Dias que em vão suspiro, amenos dias

Da minha mocidade...! agora jazo

Como arvore das folhas despedida,

Que mais não florirá, porque o machado

Ja lhe abrio marca para se ir ao fogo.

Então era eu cantor chamado ás festas,

E afamado por longe entre os cantores

Na frauta e no rabil, porque os meus cantos

Erão sempre á Virtude e á Natureza.

Por uns serões assim, como acodião

Todos a ouvir-me! As Ninfas era fama

Que descião do bosque, e pelas sarças

Vinhão pôr mais de perto o ouvido á escuta:

E os ventos se detinhão, recostados

Aos duros troncos, sem bolir co’os ramos.

Té dizião que a frauta, em que eu tangia,

O benevolo Pan ma déra em sonhos.

E ora jaz, annos ha, de pó coberta!

Em tôrno ao meu fogão ja não se apinhão

Os pegureiros a aprender-me os cantos,

Meu cabello nevou, nevou minha alma.

Ah! se não fosseis vós, Dafne, meus filhos,

Vivido tenho assaz, pedíra aos Numes

Tornar a ver meus pais n’outras cabanas,

Onde he perpetua a luz, e a eternidade

Uma estação de musicas e flores.

Quando eu la renascer á vossa espera,

Á tua espera ó Dafne, á vossa ó filhos,

Resurgirá comigo a minha frauta;

E com ella enganando aquella ausencia,

Penosa até no Elisio, em versos novos

Louvando os Immortaes, e eterno eu mesmo,

Pedir-lhes-hei comtudo que só tarde

Vos levem para mim; que vos derramem

De virtudes e bens copiosas bençãos

Sempre n’esta cabana, onde hei nascido;

E que no meu sepulchro o passageiro

Diga parando—Ó bom pastor Menales,

Leve te seja a terra, e tu contente

Porque os teus filhos te excedêrão todos.”

 

Aqui sentio caír na fronte calva

Uma calada lagrima, e doeo-lhe

Ter nublado o prazer de seus Penates.

Senta-se, alegra o rosto, enchuga os olhos;

E unindo ao seio a esposa “Ouvi meus filhos:”

O cantar diz co’a noite, agrada á lua,

Contenta á vossa mãi. Cantai louvores

D’este suave Abril; nunca em meus versos

Deixei de o celebrar, quando era moço.

Os pastores de outr’ora Abril sagrarão

A Venus, graciosa Mãi de tudo.

Vede-a n’aquella estrella estar sorrindo;

As glorias do seu mez são glorias d’ella.

Alexis, principia, eu te acompanho

Co’a tua mesma frauta; os sons da frauta

Dão como vida ás solidões da noite.

Seja a toada a que inventei (quão lédo!)

No dia que nasceste, e a nossos olhos

Se doirou de alegria esta cabana:

Bem a sabes, começa, e Pan te ajude.

 

ALEXIS.

Eu amo o verde Abril, porque he formoso,

Todo está chêo de arvores vestidas.

TITIRO.

 

Eu amo o alegre Abril, porque he sonoro;

Vem cantado por bandos de avesinhas.

SILVIA.

Eu amo o rico Abril porque he cheiroso,

Espalha em cada prado um mar de flores.

 

ALEXIS.

A folhagem traz sombra, as sombras trazem:

Seus folgares da sésta á gente grande,

E a nós para brincar franca licença.

TITIRO.

 

As aves são dos ares alegria;

Chamão na madrugada os preguiçosos,

E divertem na lida aos lavradores.

 

SILVIA.

Flores dão côr á terra, e cheiro ás auras;

Flores são mãis da fruta; os Deozes rindo

As crearão, e rindo acceitão flores.

ALEXIS.

O Pan que está na gruta do arvoredo

Não pára senão lá, por mais que o mudem;

Sinal que um bosque e a sombra apraz aos Deozes.

Tudo ali he formoso á maravilha!

Por baixo a fresquidão, por cima o verde;

A terra de reflexos variada;

O této sonoroso e movediço;

Mais alto, o ceo azul, dado ás amostras.

E que direis do rio entre arvoredos?

¿Como se pintão na agua aquellas folhas,

E o vento que as revolve, e as pombas alvas

Pelos ramos, e um sol desfeito em muitos?

Parece que no fundo do remanso

Tem Pan outro arvoredo, igual em tudo.

Quando hoje eu lá passava, a Pan dei graças,

Porque achei que um tal sítio encantaria

Ó meu Pai, teus passeios solitarios.

 

TITIRO.

Fonte como a das Náiades nenhuma:

Cantão-lhe em volta passaros sem conto;

Sinal que o bando alado apraz ás Ninfas.

Por ali me regala ir espreitando

Tantos ninhos por entre tantas folhas.

Admiro a perfeição d’aquelles berços,

E o tino com que os pobres de uns brutinhos

Os souberão livrar a soes e a chuvas:

Aqui uma avezinha inda sem pennas,

Outra a romper da casca; alem uns ovos

Branquejão d’entre o musgo, e ja palpitão;

Se os tóco, sinto dentro o passarinho,

E fujo com temor que a mãi o engeite.

¡Ver as mãis vir do pasto alvoraçadas,

Darem o almoço aos filhos que pipilão,

E co’as azas e peito agazalha-los!

E ver logo os maridos tão contentes

A gorgear-lhe á roda! o porque o fazem

Mal sabeis vós; cuidais que he diverti-las!

Oh que não: he ja dar lições e exemplos

De canto aos filhos seus: não de outra sorte

O nosso pai nos ensinou seus versos.

 

SILVIA.

C’roas frescas de rosas cada dia

De Citheréa ás portas amanhecem;

Sinal que a Citheréa aprazem flores.

Todo o anno era Abril se eu fôra a Deoza!

Nunca no meu altar e ás minhas portas

Faltarião montões de flores frescas.

Todas só para ti as cobiçava,

Ó minha mãi: com ellas te enfeitára

Cada hora do dia; cada noite

As renovára ao leito onde tu dormes;

Não porias teus pés senão em flores.

Se o passageiro ás vezes me pergunta,

Quando me encontra á borda do caminho,

“Quem he a tua mãi?” eu lhe respondo

Chêa de gloria “A minha mãi he Dafne!”

Hontem de tarde o graciosa Amintas,

O pobre guardador das duas cabras,

Quando o meu pão lhe dei pedio-me um beijo,

Chamou-me bella, e disse que o meu rosto

Era como o de Dafne, ou como as rosas.

Sendo assim, bella sou, que outra pastora

Igual a minha mãi não ha na aldea,

Nem flor em todo o mundo irmã da rosa.

 

ALEXIS.

O vizinho Milão, que hoje he tão rico,

Não tinha mais que uma arvore, e de terra

Só quanto aquella sombra lhe cobria.

“Corta-a Milão, dizião-lhe os pastores,

Alegras teu campinho, e terás lenha

Para aquecer a choça um meio inverno”—

—“Eu? respondia o triste, eu pôr machado

Na boa da minha arvore? primeiro

Me falte lume alheio o inverno todo,

Que eu mate a que a meu pai ja dava séstas;

A que de meu avô me foi mandada,

Que a não poz para si; e a que nos braços

Me embalou tanta vez sendo menino.

Os Deozes a existencia lhe dilatem,

Que assim lhe quero eu muito, e o meu campinho

Produza o que podér, que eu sou contente.”—

Sorrião-se os pastores; o carvalho

Cada vez mais as sombras estendia,

E Milão de anno em anno hia a mais pobre.

Lembrou-lhe um dia, em bem, que uma videira

Plantada a par com o tronco, o enfeitaria,

E os cachos pendurados pela cópa

Lhe darião tambem sua vindima:

E eis que ao abrir a cova, acha um thesouro!

Desde então ficou rico, e diz-me sempre,

Que os Deozes immortaes lhe hão dado em prémio

Por amar suas arvores. He elle

Quem mas ensina a amar, são d’elle os versos,

Com que ao bosque de Pan cantei louvores.

TITIRO

Deozes, tocai o peito de Mirtilo

Porque não sáia máu quando fôr grande.

Hoje, entrando na mata, o vi la dentro

Andar armando aos passaros. Que pena,

Disse em mim; não ser passaro um momento;

Não poder ir correndo o bosque aos pios,

E dizendo em cada arvore “Cautella

Meus irmãozinhos do ar; vejo inimigo;

Não saiaes; o inimigo anda no bosque...!”

Paciencia, assim mesmo hei de acudir-lhes.

Vou-me por entre as moutas rastejando

Até ao ouco e immenso castanheiro,

Que abre em seu tronco uma portada de heras,

E se nomêa a casa de Silvano.

Trepo, e dentro me escondo: os meus vizinhos

Lá por cima na cópa papeavão,

Cuido que adivinhando o que eu faria.

Encósto a boca á fresta carcomida,

Que está fronteira ao portico da entrada,

E clamo em rouca voz “Pára Mirtilo.”

Parou, ergueo-se, e poz-se a olhar em roda;

Vendo tudo em socego ás redes torna.

Com voz mais estrondosa e mais horrenda,

Torno-lhe eu a bradar “Mirtilo pára.”

Não esperou terceira: arroja tudo,

Salta, vôa; oh que riso! uns echos fêos

Lhe hião gritando apoz “Mirtilo pára.”

Somio-se; á terra pulo, espreito o mato,

Acho as redes, os presos sólto, os mortos

Levo-os onde ôlho de ave os não descubra:

Encho-as de pedras, na torrente as lanço,

E corro a procura-lo—“Oh tu não sabes,

Lhe digo, de que morte escapo agora!

Não te engano, era um Deos, vi-o eu, rangia

Os dentes, bracejava uma alta fouce,

Vinha a saír das sombras do arvoredo;

Vio-me e gritou me “Pára” eu páro e chóro.

—“Es tu que andas armando ás minhas aves?

Pois eu vou dar-te o ensino; as tuas redes

Ja te lá vão por esse rio abaixo,

E agora has de ir tu morto á caça d’ellas.”—

E então vem para mim, co’a fouce aos lanços

Cortando pelo ar—“Bom Deos, perdoa,

Lhe grito a soluçar co’as mãos erguidas,

Eu sou Titiro, o filho de Menalca,

As tuas aves amo, e temo os Deozes:

Eu redes, eu caçar!”—“Estou perdido!

Disseste que eu ... Mirtilo me interrompe.”

—“Não, Mirtilo, socega, eu não lho disse,

Nem sabia que tu ... fallemos baixo

Que nos não ouça o Deos. Olha, este p’rigo

Passou, mas outra vez não te aventures,

Que eu bem sei como o vi, não te perdoa.

Deixa ás pobres das aves innocentes

Divertir-te e cantar; nada mais querem;

Não tens razão, não teus de as perseguires.

Quanto ás redes, eu quero consolar-te:

Ouve Mirtilo, acceita este cestinho

De cana entretecida em juncos verdes,

E este meu cajadinho em boa altura

Liso, airoso, e sem nós.”—Assim dizendo,

Enfiei-lhe no braço o meu cestinho

De cana entretecida em verdes juncos,

E entreguei-lhe o cajado. Então Mirtilo

Me abraçou, e saltando de contente,

Jurou-me nunca mais armar ás aves.

 

SILVIA.

Glicera por vaidosa he que ama as flôres:

Apanha-as para si não para os Deozes,

Não lhas merece a Mãi e alcança-as Mopso.

Quando em nosso jardim vejo Glicera,

Ja me eu ponho a tremer: corta as melhores,

He seu costume; enfado-me, sorri-se;

Chóro, ri-se; e enfeixando-as, me repete:

“Que te servem por ora estas floritas?

Deixa passar mais cinco primaveras,

E então sim, nem mais uma hei de furtar-te;

Pois sei te hão de servir quaes me hoje servem.”

Coitado de quem he como eu menina,

Que se manda esperar por primaveras!

Que podia eu fazer? queixei-me ás Ninfas.

Hontem, ja pôsto o sol, quando erão horas

De logo vir Glicera, a presumida,

Que furta e vai cantando; ajoelhei-me

Co’as mãos póstas por entre as minhas flôres.

E disse: “Como as arvores tem ninfas,

Que lhes morão la dentro e as aviventão,

Ha ninfazinhas a velar nas flores.

Ninfazinhas das flores, escutai-me:

Se a rega, com que as folhas aquecidas

Vos refresquei ha pouco, vos foi grata,

Olhai por vós, fazei com que Glicera,

Como eu vos vi e ouvi, vos veja e ouça;

Apparecei-lhe como a mim, por sonhos,

Vestidas de mil côres, perfumadas,

Pequenas, mui mimosas, e só outras

Em não mostrar-lhe a ella um ar festivo.

Dizei-lhe como os Deozes vos crearão

Para amores de zefiros, recreio

De borboletas e olhos, e formosas

Copeiras do formoso mel doirado:

Dizei-lhe que tão bella e curta vida

Não se deve encurtar, que as deshumanas

Tem máo fim, que apezar de passageiras,

Ninfas sois, e o Destino ha de vingar-vos:

Que se tornar sacrílega a colher-vos,

Vossos fragrantes ultimos suspiros

Seráõ de queixa aos ceos, e antes de tempo

As rosas no seu rôsto hão de murchar-se.”

Como eu isto dizia, entrou Glicera:

Murchas trazia as rosas de seu rôsto,

Não rio, nem colheo nada, e suspiráva.

Penada de a assim ver, beijei-a, e disse:

“Se alguma d’estas flores te contenta,

Eu mesma a vou cortar.”—“Não (me responde)

Ja não quero mais flores, Mopso ingrato

As que ultimas lhe dei deo-as a outrem:

Como as flores me engeita hei de engeita-lo.”

Ao que eu logo acudi—“Vês tu, Glicera,

Fallei verdade ou não? nascem as flores

Só para as nossas mãis, e para os Deozes,

Da-lhas tu, e verás se hão de engeitar-tas.”

 

MENALCA.

Basta meus filhos, basta; não ha sombras

Tão gratas no verão, cheiro de flores

Tão suave, ou tão ledo canto de aves,

Que me recrêem como os vossos versos.

Vinde, vinde, abracemo-nos, ó filhos:

Dei-vos eu a doutrina; engenho os Fados;

Mas os Deozes virtude: alcatifais-me

De bem viçosa esp’rança o meu declivio:

Dais-me o que nem pedir ouzava aos Deozes.

Antevejo a florir-me a sepultura ...

DAFNE.

 

Entremos na cabana: aquella nuvem

Quer encobrir a lua; ergueo-se o vento,

Não tarda muito algum ligeiro orvalho.