A Queda

Diogo Mainardi · Capítulo 1 de 3 · parte 1/3

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A Queda

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

DIOG O MAINARDI

 

A Q UEDA

As m em órias

de um pai

em 424 passos

1

Tito tem um a paralisia cerebral.

 

2

Eu im puto a paralisia cerebral de Tito a Pietro Lom bardo.

Em 1489, Pietro Lom bardo arquitetou a Scuola Grande di San Marco. E foi a Scuola Grande di San Marco, arquitetada por Pietro Lom bardo, que acarretou a paralisia cerebral de Tito.

 

3

Em 30 de setem bro de 2000, m inha m ulher e eu nos encam inham os ao hospital de Veneza, no Cam po Santi Giovanni e Paolo. O parto de nosso filho ocorreria naquele dia. Nom e de m inha m ulher: Anna. Nom e de nosso filho: sim , Tito.

Quando chegam os ao Cam po Santi Giovanni e Paolo, à altura da estátua de Bartolom eo Colleoni, Anna disse:

— Estou com m edo do parto.

Ela j á m anifestara o m esm o tem or nas sem anas anteriores, porque o hospital de Veneza, que agora se erguia à nossa frente, era conhecido por seus erros m édicos.

Contem plei sua fachada por um instante.

O hospital de Veneza instalara-se no prédio da Scuola Grande di San Marco em 1808. A fachada arquitetada por Pietro Lom bardo, em 1489, tornara-se sua porta de entrada.

Respondi:

— Com esta fachada, aceito até um filho deform e.

 

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O hospital de Veneza errou no parto de Tito. O erro no parto acarretou sua paralisia cerebral.

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Ezra Pound. ABC da Literatura:

Pietro Lombardo tem muito mais valor do que toda a escultura produzida na Itália entre 1600 e 1950.

Fui m ais longe do que Ezra Pound. O que respondi à m inha m ulher, contem plando a fachada da Scuola Grande di San Marco, só pode ser interpretado da seguinte m aneira:

— Pietro Lom bardo tem m uito m ais valor do que a paralisia cerebral de m eu filho.

 

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7

Na im agem anterior, Campo Santi Giovanni e Paolo.

O quadro é de Antonio Canal — ou Canaletto. É de 1725. Anna e eu, unidos um ao outro, com o dois siam eses, estam os à altura da estátua de Bartolom eo Colleoni, a cam inho da Scuola Grande di San Marco, porta de entrada do hospital de Veneza, onde se realizaria o parto de Tito.

 

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Com o fui parar em um quadro de Canaletto?

Eu sem pre estive ali. Eu sem pre estarei ali. O quadro de Canaletto é m inha natividade particular. Ele captura o m om ento em que m eu destino foi revelado. Desde o nascim ento de Tito, em 30 de setem bro de 2000, tornei-m e um hom em m iniaturizado, sem rosto e sem identidade, com o no quadro de Canaletto. O que m e caracteriza é a paternidade. Sou apenas um hom em que acom panha eternam ente a própria m ulher ao parto de seu filho.

Sou o pai de Tito. Só existo porque Tito existe.

 

9

Ezra Pound, além de louvar Pietro Lom bardo em ABC da Literatura, louvou-o tam bém em Os Cantos.

Em particular, no Canto XLV, intitulado Com a Usura.

Linhas 27 e 28:

Pietro Lombardo

não se fez com a usura

 

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A usura, segundo Ezra Pound, era um “pecado contra a natureza”. Ela tinha o poder de corrom per a hum anidade, im pedindo o florescim ento da arte.

No Canto XLV, Pietro Lom bardo encarna o ideal de beleza artística. O Mal, representado pela usura, é incapaz de gerar o Bem , representado pela arquitetura de Pietro Lom bardo.

Contem plando a Scuola Grande di San Marco, antes do nascim ento de Tito, fui tom ado pelo m esm o estetism o abestalhado de Ezra Pound.

O hospital de Veneza era conhecido por seus erros m édicos. Em vez de recorrer a um hospital m ais seguro, em Mestre ou em Pádua, lim itei-m e a achincalhar a possibilidade de ter um filho deform e.

Eu só conseguia associar a arte perfeita de Pietro Lom bardo a um parto igualm ente perfeito. Porque o Bem , representado pela arquitetura de Pietro Lom bardo, j am ais poderia gerar o Mal, representado por um erro de parto.

 

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Ezra Pound, Canto XLV, linha 42:

A usura mata a criança no ventre

Quem tentou m atar Tito no ventre, asfixiando-o, foi o herói dos versos de Ezra Pound, Pietro Lom bardo.

 

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De Ezra Pound ao Xbox.

O herói do j ogo Assassin’s Creed II, Desm ond Miles, volta no tem po e encarna a figura de um nobre italiano do final do século XV, Ezio Auditore da Firenze, que percorre Veneza elim inando os assassinos que asfixiaram seu pai. Um dos lugares pelos quais ele tem de passar é a Scuola Grande di San Marco.

Sou o Desm ond Miles da paralisia cerebral. Volto à Veneza do final do século XV e, com o Ezio Auditore da Firenze, reviro a Scuola Grande di San Marco em busca de pistas que m e conduzam aos assassinos que asfixiaram Tito.

 

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Na im agem anterior, Ezio Auditore da Firenze, postado diante da Scuola Grande di San Marco, pronto para exterm inar seus inim igos.

As pistas que perm item prosseguir o j ogo (pressione a tecla Y para obter a Eagle Vision) podem ser encontradas atrás do arco superior.

 

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John Ruskin. As Pedras de Veneza:

Os dois modelos mais refinados do Primeiro Renascimento veneziano foram a Igreja dei Miracoli e a Scuola G rande di San Marco.

A Scuola Grande di San Marco — eu j á disse — foi proj etada por Pietro Lom bardo. A Igrej a dei Miracoli — estou dizendo agora — tam bém foi proj etada por ele.

Se im puto a Pietro Lom bardo a paralisia cerebral de Tito, tenho de im putá-la em igual m edida a John Ruskin, que m e passou todas as pistas para interpretar a arquitetura de Pietro Lom bardo. Contem plando a Scuola Grande di San Marco, alguns m om entos antes de entrar no hospital de Veneza, eu só soube ver o que John Ruskin viu antes de m im .

 

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O que John Ruskin, com sua Eagle Vision, viu antes de m im :

O método de revestimento em mármore e as formas dos arcos e das colunas tinham como modelo os edifícios do século XII.

A Scuola Grande di San Marco, com seus elem entos que rem etiam nostalgicam ente à arquitetura do século XII, inseria-se naquilo que John Ruskin, em As Pedras de Veneza, cham ou de Renascim ento bizantino.

Para John Ruskin, assim com o para m im , o m elhor de Pietro Lom bardo era seu caráter regressista. Para John Ruskin, assim com o para m im , o m elhor de Pietro Lom bardo era seu reacionarism o inconform ista.

 

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Em 1853, John Ruskin publicou o terceiro e últim o volum e de As Pedras de Veneza, intitulado A Queda.

A arquitetura de um lugar, segundo ele, tinha o poder de m oldar o destino de seus habitantes. Dessa m aneira, a arquitetura bizantina do século XII e a arquitetura gótico-bizantina dos séculos XIII, XIV e XV haviam determ inado a superioridade intelectual e m oral dos venezianos, assegurando sua hegem onia com ercial e m ilitar. Por outro lado, a arquitetura renascentista, que exterm inara a arquitetura gótico-bizantina a partir do século XVI, representara um a época corrom pida pelo sentim ento de soberba. O m esm o sentim ento de soberba que, de acordo com John Ruskin, acabara por arruinar a cidade, destinando-a a um longo período de declínio.

Sim : A Queda.

John Ruskin indicou os elem entos m ais daninhos — ou os “elem entos im orais”, que contrariavam as “leis do Espírito” — m anifestados pela arquitetura do Renascim ento: o Orgulho da Ciência, o Orgulho do Estado, o Orgulho do Sistem a.

 

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Se a arquitetura de um lugar realm ente tem o poder de m oldar o destino de seus habitantes, com o argum entou John Ruskin, posso dizer que a fachada da Scuola Grande di San Marco m oldou o nascim ento de Tito.

Com suas colunas isoladas, com seus arcos assim étricos, com seus ornam entos grotescos, com seus m árm ores coloridos, a Scuola Grande di San Marco rem etia a um passado bizantino, incontam inado pelo sentim ento de soberba do Renascim ento.

Retornando a John Ruskin: a arquitetura de Pietro Lom bardo, na fachada da Scuola Grande di San Marco, exaltava as “leis do Espírito”, repudiando o Orgulho da Ciência, o Orgulho do Estado, o Orgulho do Sistem a.

O nascim ento de Tito tam bém foi assim .

Orgulho da Ciência? Um erro m édico causou sua paralisia cerebral. Orgulho do Estado? O hospital de Veneza é público. Orgulho do Sistem a? O sistem a, com suas regras, com suas norm as e com seus procedim entos, falhou — falhou repetidam ente — durante o nascim ento de Tito.

 

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Na im agem anterior, Le Corbusier, com o Ezio Auditore da Firenze, postado diante da Scuola Grande di San Marco, pronto para exterm inar a arquitetura de Pietro Lom bardo.

Sim : A Queda.

 

21

Nasci em 22 de setem bro de 1962.

No m esm o dia, Le Corbusier recebeu um convite para arquitetar o novo hospital de Veneza, que seria transferido da Scuola Grande di San Marco para a área do m atadouro de San Giobbe.

Um fato ocorrido no dia de m eu nascim ento, portanto, poderia ter alterado o nascim ento de Tito.

A história de Tito é assim : circular.

 

22

Segundo Le Corbusier, as ruas e os cam pos de Veneza reproduziam o funcionam ento do sistem a cardiovascular, com suas artérias e seus ventrículos.

O hospital proj etado por ele inspirava-se no m esm o m odelo: tratava-se de um grande sistem a cardiovascular, form ado por um a série de apavorantes blocos de cim ento arm ado, ligados por um a rede de ram pas e pontes.

Seis m eses depois de apresentar seu proj eto, Le Corbusier entrou no m ar e m orreu. As artérias e os ventrículos de cim ento arm ado de seu sistem a cardiovascular oportunam ente pararam de funcionar.

Seu proj eto para o hospital de Veneza foi sepultado.

 

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O Bem , representado pela arquitetura de Pietro Lom bardo, gerou o Mal, representado por um erro de parto. E o Mal, representado pela arquitetura de Le Corbusier, teria gerado o Bem , porque se seu proj eto para o hospital de Veneza houvesse sido executado, eu teria escolhido outro lugar para realizar o parto de Tito.

 

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Agora m oram os no Rio de Janeiro.

Tito cam inha todos os dias na praia de Ipanem a. Hoj e ele deu duzentos e dezoito passos sem cair. Depois caiu. Ele sem pre cai. A areia im pede que ele se arrebente. Ele pode cair sem esfolar os j oelhos e sem espatifar os dentes.

Assim com o a Scuola Grande di San Marco, a espasticidade de Tito rem ete-o ao passado, paralisando seu am adurecim ento m otor. Eu m e encanto com cada detalhe bizantino de sua m otricidade.

Assim com o a Scuola Grande di San Marco, Tito tenta resistir à queda. Ele sem pre cai. Ele sem pre cai gargalhando.

 

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Na im agem anterior, um dos duzentos e dezoito passos de Tito em Ipanem a.

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O que eu disse a Anna, contem plando a Scuola Grande di San Marco, alguns instantes antes de entrar no hospital de Veneza, realizou-se plenam ente:

— Com esta fachada, aceito até um filho deform e.

Eu aceitei a paralisia cerebral de Tito.

Aceitei-a com naturalidade. Aceitei-a com deslum bram ento. Aceitei-a com entusiasm o. Aceitei-a com am or.

 

28

No dia do nascim ento de Tito, Anna e eu passam os pelo portal da Scuola Grande di San Marco e atravessam os seu antigo átrio.

 

29

A Scuola Grande di San Marco foi, por m ais de quinhentos anos, a m aior irm andade laica de Veneza.

Além de acolher seus m em bros quando eles adoeciam ou caíam na m iséria, ela acolhia tam bém , naquele seu átrio, os m oradores m ais pobres da cidade, garantindo-lhes um apoio vital em épocas de epidem ia, de carestia e de guerra.

 

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Napoleão Bonaparte ocupou Veneza em 1797. Algum tem po depois, coroou-se seu Im perador.

Um de seus prim eiros atos foi desm antelar a Scuola Grande di San Marco e transform á-la em hospital m ilitar.

O hospital m ilitar de Napoleão Bonaparte, inaugurado em 1808, foi o predecessor do hospital público em que ocorreria o parto de Tito.

 

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Im puto a Pietro Lom bardo e a John Ruskin a paralisia cerebral de Tito.

Im puto-a igualm ente a Napoleão Bonaparte, sem o qual a Scuola Grande di San Marco j am ais teria se transform ado no hospital de Veneza.

A Queda da Bastilha resultou na Queda da Sereníssim a República. A Queda da Sereníssim a República resultou nas quedas de Tito.

 

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Na im agem anterior, a Queda da Bastilha.

 

34

A Scuola Grande di San Marco tinha dois andares.

O átrio, no térreo, atualm ente está deserto. Só há, à direita de quem entra, a portaria do hospital.

Anna e eu passam os por ela rum o à m aternidade.

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A sala dell’Albergo, no prim eiro andar, tinha quadros de Giovanni Bellini, Paris Bordon e Jacopo Palm a, il Vecchio.

Eles foram saqueados por Napoleão Bonaparte.

A sala capitular, ao lado da sala dell’Albergo, era decorada com quatro quadros de Jacopo Tintoretto.

Eles tam bém foram saqueados por Napoleão Bonaparte.

 

36

Agora o prim eiro andar da Scuola Grande di San Marco é ocupado pela biblioteca do hospital de Veneza.

A biblioteca reúne inúm eras raridades da literatura m édica do século XVI.

De todas elas, a única que m e im porta é: Como o Homem Pode Viver Mais de 120 Anos, de Tom m aso Rangone.

 

37

Tom m aso Rangone foi a m aior autoridade da Scuola Grande di San Marco — seu guardian grande.

Em 1550, ele publicou o m anual m édico Como o Homem Pode Viver Mais de 120 Anos.

Para chegar a essa idade, segundo ele, era preciso renunciar a um a série de alim entos danosos à saúde: alface, escarola, repolho, rúcula, alcachofra, cenoura, uva, figo, m elancia, enguia, leite e queij o. O alho lesava rins e ouvidos. O m anj ericão nutria os piolhos. O esturj ão m atava as crianças no ventre.

O esturj ão de Tito foi a Scuola Grande di San Marco.

 

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Antes de ser nom eado guardian grande da Scuola Grande di San Marco, Tom m aso Rangone fora o astrólogo pessoal do com andante das tropas papais em Modena.

Em 1522, ele profetizou que dali a dois anos, em 1524, ocorreria um Dilúvio Universal, porque os planetas estariam alinhados sob o signo de Peixes, com o nos tem pos de Noé. A profecia falhou. Ele foi pichado nos m uros da cidade. Pietro Aretino cham ou-o de “abestalhado”.

Tom m aso Rangone trocou de identidade — seu nom e de batism o era Tom m aso Giannotti —, m udou-se para Veneza e, a partir daquele m om ento, passou a apresentar-se com o m édico, prom etendo prolongar a vida de seus pacientes até os cento e vinte anos.

 

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Quatro séculos e m eio antes dos erros com etidos no parto de Tito, portanto, Tom m aso Rangone j á associara a Scuola Grande di San Marco às piores im posturas m édicas.

 

40

Como o Homem Pode Viver Mais de 120 Anos foi dedicado ao papa Júlio III. Em sua dedicatória, Tom m aso Rangone profetizou-lhe um a longa vida. A profecia, com o notou ironicam ente Giacom o Leopardi, falhou. Júlio III m orreu cinco anos m ais tarde, aos sessenta e sete anos de idade.

 

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Giacom o Leopardi aludiu a Tom m aso Rangone em um de seus Opúsculos Morais, intitulado Diálogo de um Físico e de um Metafísico:

FÍSICO: Eureca! Eureca!

METAFÍSICO: O que foi? O que descobriu?

FÍSICO: A arte de viver longamente; viverei pela eternidade; conquistarei a glória imortal.

 

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Com a prom essa de prolongar a vida de seus pacientes até os cento e vinte anos, Tom m aso Rangone acum ulou um a grande fortuna. Ele se serviu dessa grande fortuna para tentar conquistar a vida eterna e a glória im ortal, com o o personagem de Giacom o Leopardi.

Tom m aso Rangone descobriu — Eureca! Eureca! — que a m elhor m aneira de se eternizar e de se im ortalizar era m andar reproduzir sua im agem em obras eternas e im ortais.

Ele pagou para que Jacopo Sansovino ornasse com sua estátua o portal da Igrej a de San Giuliano. Ele pagou para que Alessandro Vittoria esculpisse seu busto para a Igrej a de San Gem iniano. Ele pagou para que Jacopo Tintoretto o retratasse nos quatro quadros encom endados para decorar a sala capitular da Scuola Grande di San Marco.

 

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No prim eiro quadro, Miracolo di San Marco che Salva lo Schiavo, de 1548, Jacopo Tintoretto representou Tom m aso Rangone com o um a sim ples testem unha do evento m ilagroso, retratando-o recatadam ente na m argem esquerda da tela.

Nos quadros seguintes, porém , encom endados catorze anos depois, por oitenta ducados cada um , Jacopo Tintoretto rom peu todas as norm as da época e retratou Tom m aso Rangone com o o verdadeiro protagonista dos m ilagres do santo.

Em San Marco Salva un Saraceno, Tom m aso Rangone — com o um herói do Xbox — volta no tem po e, a bordo de um bote, rem ando vigorosam ente, aj uda o evangelista a resgatar um náufrago no m ar torm entoso.

Em Ritrovamento del Corpo di San Marco, Tom m aso Rangone volta no tem po e, rezando de j oelhos na catedral, é orientado diretam ente pela alm a do santo.

Em Trafugamento del Corpo di San Marco, Tom m aso Rangone, em Alexandria, volta no tem po e com anda o roubo do corpo do m ártir durante um a tem pestade celestial.

 

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Na im agem anterior, Trafugamento del Corpo di San Marco.

O quadro é de Jacopo Tintoretto. É de 1562.

Em destaque, o retrato de Tom m aso Rangone.

 

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Nos quadros realizados por Jacopo Tintoretto para a Scuola Grande di San Marco, Tom m aso Rangone foi representado com o um agente do santo m ilagroso. O fato de ser um agente do santo m ilagroso conferia-lhe um a aura de m édico igualm ente m ilagroso.

Com seu talento único — e a um custo de oitenta ducados para cada quadro —, Jacopo Tintoretto eternizou e im ortalizou a charlatanice m édica, personificada por Tom m aso Rangone e m aterializada no parto de Tito, ocorrido naquele m esm o local, quatrocentos e cinquenta anos depois.

Orgulho da arte?

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Em Trafugamento del Corpo di San Marco, um hom em de barba, em segundo plano, no lado direito da tela, à som bra, j unto do cam elo, acom panha atentam ente a cena.

Trata-se do próprio Jacopo Tintoretto.

Ele retratou-se com o um espectador do roubo do corpo do evangelista exatam ente da m esm a m aneira que Alfred Hitchcock se retratou com o o em pregado de um estaleiro em Vertigo.

 

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Vertigo.

Quando Tito cam inha, seus m úsculos se contraem . Quando seus m úsculos se contraem , ele se apavora. Quando ele se apavora, seus m úsculos se contraem ainda m ais.

Vertigo, no Brasil, foi traduzido com o Um Corpo que Cai. Tito é um corpo que cai.

Cada passo dado por Tito é igual a um degrau escalado por Jam es Stewart, no cam panário de San Juan Bautista. Sim : fal-ta Alfred Hitchcock. Sim : falta Kim Novak. Sim : falta a tri-lha sonora de Bernard Herrm ann. O resto — eu j á disse — é igual. Os olhos arregalados. A boca aberta. A língua seca. As pernas rígidas. O suor escorrendo pelas costeletas. O zoom in. O zoom out.

Nas últim as cenas de Vertigo, Jam es Stewart finalm ente supera o m edo de altura e sobe o cam panário de San Juan Bautista.

Ele diz:

— Consegui.

Tito, de degrau em degrau, tam bém está conseguindo.

 

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No fim de Vertigo, Kim Novak cai do cam panário de San Juan Bautista. Ela cai e m orre. Jam es Stewart sobrevive. Tito é Jam es Stewart. Ele cai e sobrevive.

Dane-se Kim Novak.

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Na im agem anterior, Tito com o Jam es Stewart, em Vertigo: cam baleante, delirante, em m eio a espirais caleidoscópicas, com o rosto verde.

 

52

Tito nasceu verde.

Vi-o pela prim eira vez em um dos claustros do hospital de Veneza. Eu acabara de conversar com o pediatra que acom panhara seu nascim ento. Ele dissera que Tito perm anecera sem ar por tem po dem ais. Ele dissera tam bém que Tito m orreria.

Voltando à m aternidade, depois de conversar com o pediatra, cruzei com um m enino recém -nascido em um a incubadora. O m enino recém -nascido na incubadora estava no corredor de um claustro, estacionado em um canto. Ninguém o atendia. Onde está o m édico? Onde está o enferm eiro? Onde está o pai?

Olhei-o de relance. Olhei-o novam ente. Ele estava im óvel, com o corpo m ole e um tubo no nariz. Seu rosto era verde. Li seu nom e escrito em um esparadrapo colado na tam pa da incubadora: “Mingardi”.

Mingardi era igual a m im . Eu era igual a Mingardi. O m enino recém -nascido na incubadora era m eu filho. Mingardi era Mainardi. Até nisso o hospital de Veneza errou: em seu nom e.

Olhei Tito pela últim a vez. Seu rosto era igual ao m eu — só que o dele era verde.

53

 

Até aquele m om ento, eu sem pre pensara que, se m eu filho perm anecesse em estado vegetativo, eu esperaria que ele m orresse.

Depois do prim eiro contato com Tito no corredor do claustro do hospital de Veneza, tudo se transform ou. Eu só queria que ele sobrevivesse, porque eu o am aria e o acudiria de qualquer m aneira.

Entre a vida e a m orte, aferrei-m e à vida.

 

54

Tito, com o rosto verde, dentro da incubadora, estacionado no corredor de um claustro do hospital de Veneza, estava à espera de um a lancha que o transferisse à UTI neonatal m ais próxim a dali, no hospital de Pádua.

 

55

No hospital de Pádua, em 1739, George Macaulay form ou-se com o m édico obstetra. Algum tem po depois, estabeleceu-se em Londres e, em 1756, no hospital de Brownlow Street, foi o pioneiro de um procedim ento cirúrgico conhecido com o am niotom ia.

Um a am niotom ia ruinosa, dois séculos e m eio m ais tarde, m andou Tito diretam ente para a UTI do hospital de Pádua.

O que saiu do hospital de Pádua retornou ao hospital de Pádua.

A história de Tito é assim : circular.

 

56

O procedim ento obstétrico introduzido por George Macaulay consistia em rom per artificialm ente o saco am niótico, no útero das gestantes, para tentar acelerar o trabalho de parto.

Depois de debater com seus colegas os aspectos éticos do procedim ento, George Macaulay fez sua prim eira am niotom ia — na m ulher do dono de um arm arinho — em pregando um aram e de prata.

57

Em 30 de setem bro de 2000, Anna e eu atravessam os o átrio da Scuola Grande di San Marco, viram os à direita, passam os por um claustro, subim os um a ram pa de escadas e chegam os à m aternidade do hospital de Veneza.

Um a obstetra — dottoressa F — resolveu acelerar o nascim ento de Tito por m eio de um a am niotom ia.

Sem se preocupar m inim am ente com os aspectos éticos do procedim ento, ela foi logo rom pendo o saco am niótico no útero de Anna com um instrum ento conhecido com o am niotom o.

 

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59

Na im agem anterior, um am niotom o.

Eu im puto a paralisia cerebral de Tito a Pietro Lom bardo, a John Ruskin, a Napoleão Bonaparte e a um am niotom o.

 

60

Por que a dottoressa F tentou acelerar o nascim ento de Tito?

Era sábado. Ela queria encerrar o quanto antes seu turno de trabalho.

 

61

Os erros com etidos pela dottoressa F no nascim ento de Tito foram abundantem ente docum entados em nosso processo contra o hospital de Veneza.

A am niotom ia só é recom endada quando a gestante j á iniciou o trabalho de parto e está com o colo do útero dilatado pelo m enos quatro centím etros. O colo do útero de m inha m ulher, no m om ento em que a dottoressa F realizou sua am niotom ia, ainda estava — foi o term o em pregado no prontuário m édico — “im pérvio”.

A am niotom ia só é recom endada tam bém quando o cocuruto do nascituro j á está devidam ente posicionado no canal do parto. O cocuruto de Tito, no m om ento em que a dottoressa F realizou sua am niotom ia, estava longe dali, “m uito alto (–3 cm ) e m óvel”.

 

62

A am niotom ia realizada pela dottoressa F foi descrita pelos peritos com o “totalm ente im própria, inoportuna e perigosa”.

O m aior perigo associado a um a am niotom ia im própria e inoportuna é o cham ado prolapso do cordão um bilical. Foi o que ocorreu com Tito. Quando a dottoressa F rom peu o saco am niótico no útero de Anna, o cordão um bilical de Tito foi esm agado e ele sofreu um a asfixia.

A asfixia causou um dano cerebral. O dano cerebral atingiu seu aparelho m otor, gerando a espasticidade.

 

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Na im agem anterior, a linha do aparelho de m onitoram ento indica o m om ento exato em que a asfixia provocou a queda dos batim entos cardíacos de Tito.

Foi a prim eira de suas quedas. A queda original.

 

65

William John Little foi o precursor do estudo da paralisia cerebral.

Em 1844, depois de analisar vinte e quatro m eninos espásticos, ele publicou um texto intitulado Deformidades do Corpo Humano, argum entando pela prim eira vez que “a rigidez espasm ódica dos nascituros, com contraturas m usculares e deform idades nos m em bros, decorria de um dano cerebral causado pela asfixia do feto im ediatam ente antes ou durante o trabalho de parto”.

 

66

Alguns anos m ais tarde, em 1861, na Obstetrical Society, em Londres, William John Little, baseado na análise de m ais sessenta m eninos espásticos, repetiu que a paralisia cerebral era o resultado de um a asfixia durante o parto.

Para ilustrar a tese, ele citou o protagonista de Ricardo III, de William Shakespeare.

Ricardo III, segundo William John Little, tinha um a paralisia cerebral.

 

67

William Shakespeare cham ou Ricardo III de “deform e”. Ele o cham ou tam bém de “inacabado”, “incom pleto”, “im perfeito”, “torto”, “anorm al”, “m assa inform e”, “sapo venenoso” e “cachorro sangrento”.

Ricardo III tinha “um a perna m enor do que a outra”. Ele tinha os m em bros “m irrados com o ram os secos”. Ele tinha um a corcunda “igual a um a m ontanha”. Ele era “desproporcional em todas as partes do corpo”.

William Shakespeare im putou essas deform idades a um parto prem aturo.

Ele narrou que Ricardo III fora “m andado antes do tem po para o m undo dos vivos”. Ele narrou igualm ente que Ricardo III fora “rej eitado pelo ventre m aterno”.

Na Obstetrical Society, William John Little, citando a obra de William Shakespeare, diagnosticou que o parto prem aturo de Ricardo III acarretara um a asfixia. E que a asfixia causara um a paralisia cerebral.

 

68

William John Little, assim com o Ricardo III e Tito, era deform e.

Ele tinha o pé equino, em virtude de um a poliom ielite. Um hom em com pé equino foi o prim eiro grande estudioso dos m eninos com pés equinos.

 

69

Para William Shakespeare, o corpo deform ado de Ricardo III espelhava seu caráter deform ado. Sua paralisia cerebral espelhava sua m aldade.

Nos prim eiros atos de Ricardo III, ele assassina nove personagens, incluindo alguns de seus parentes m ais próxim os e sua m ulher.

No últim o ato, os fantasm as dos nove personagens assassinados surgem durante um sonho para assom brá-lo.

70

Tito foi m eu Ricardo III. Tito foi m eu sapo venenoso.

Ele tom ou m eu trono. Ele dom inou m eu reino. Depois de seu nascim ento, tornei-m e um fantasm a que gira em torno dele.

 

71

 

72

Na im agem anterior, Vincent Price em Tower of London.

O film e é de Roger Corm an. É de 1962.

Vincent Price é Ricardo III: deform e, cam baleante, espástico, com o rosto verde.

 

73

No processo contra o hospital de Veneza, detalham os o nascim ento de Tito de m inuto a m inuto, a partir dos dados do aparelho de m onitoram ento:

12h35

Norm al.

12h40

A agulha do aparelho de m onitoram ento oscilou bruscam ente. Cham ei a enferm eira, im aginando tratar-se do prim eiro sinal do trabalho de parto. Na verdade — com o eu j á disse —, foi o prim eiro sinal da asfixia que causou a paralisia cerebral de Tito.

A enferm eira tentou encontrar a dottoressa F por telefone, m as foi incapaz de localizá-la. Resolveu ir buscá-la pessoalm ente. Alguns m inutos m ais tarde, as duas retornaram j untas.

12h46

A dottoressa F desligou o aparelho de m onitoram ento.

12h55

A dottoressa F ligou outro aparelho de m onitoram ento.

A enferm eira explicou-m e que um a daquelas m áquinas falhara na sem ana anterior. No nascim ento de Tito, a única a falhar foi a dottoressa F. Com o indicara corretam ente o aparelho de m onitoram ento, Tito estava m orrendo.

13h05

Anna finalm ente foi conduzida à sala de parto.

 

74

Tito nasceu quarenta e cinco m inutos depois da prim eira queda de seus batim entos cardíacos. Segundo os peritos m édico-legais, um parto cesáreo em ergencial, com o o dele, teria de ocorrer em m enos de vinte m inutos.

Foi m ais um erro com etido pela dottoressa F.

 

75

Em 1486, na Alem anha, o inquisidor Heinrich Kram er, da ordem dos Dom inicanos, publicou seu Malleus Maleficarum.

O capítulo XIII tratava especificam ente das “parteiras-feiticeiras que com etiam o m ais m edonho de todos os crim es quando assassinavam recém -nascidos”. Heinrich Kram er, no Malleus Maleficarum, recom endou que as parteiras-feiticeiras fossem presas e torturadas pela autoridade religiosa.

Nos últim os quinhentos anos, a prática da tortura caiu em desuso. Apesar de todos os erros com etidos durante o nascim ento de Tito, quando um a parteira-feiticeira tentou assassiná-lo, só tive o direito de pedir ao hospital de Veneza um ressarcim ento em dinheiro.

76

Em 1495, nove anos depois de publicar o Malleus Maleficarum, Heinrich Kram er transferiu-se para Veneza, onde foi recom endar a prática de tortura contra as parteiras-feiticeiras que assassinavam recém -nascidos.

Ele se hospedou no antigo convento dos Dom inicanos, localizado no Cam po Santi Giovanni e Paolo, atrás da Scuola Grande di San Marco, que acabara de ser arquitetada por Pietro Lom bardo.

Em 1808, Napoleão Bonaparte expulsou todos os frades dali. O antigo convento dos Dom inicanos foi anexado à Scuola Grande di San Marco e convertido em hospital m ilitar, antes de ser transform ado em hospital público.

O m esm o local que abrigou Heinrich Kram er em 1495, portanto, passou a abrigar, cinco séculos m ais tarde, parteiras-feiticeiras com o a dottoressa F.

A história de Tito é assim : circular.

 

77

O claustro em que vi Tito pela prim eira vez, dentro da incubadora, com o rosto verde, pertencia ao antigo convento dos Dom inicanos.

Naquela noite, Anna e eu dorm im os em um de seus quartos.

Tito perm aneceu sozinho, convulsionando na UTI neonatal do hospital de Pádua.

 

78

No dia seguinte, antes de seguir para o hospital de Pádua, passei rapidam ente pela confeitaria Rosa Salva, localizada no Cam po Santi Giovanni e Paolo, no lado oposto à Scuola Grande di San Marco.

Um dos fatores pelos quais eu insistira em que o parto de Tito ocorresse no hospital de Veneza, além da arquitetura de Pietro Lom bardo, fora a proxim idade com a confeitaria Rosa Salva.

Retornando a Tom m aso Rangone: o alim ento m ais danoso à saúde de Tito — o alim ento que quase o m atou no ventre — foi o bignè allo spumone di zabaione.

 

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80

Na im agem anterior, um bignè allo spumone di zabaione.

Eu im puto a paralisia cerebral de Tito a Pietro Lom bardo, a John Ruskin, a Napoleão Bonaparte, a um am niotom o e, por últim o, ao bignè allo spumone di zabaione da confeitaria Rosa Salva.

 

81

Cheguei cedo à UTI do hospital de Pádua.

Tito estava em um a incubadora. Nada nele se m ovia. Um tubo pendia de um a artéria em seu pé. Outro tubo, ligado a um respirador, alargava-lhe grotescam ente um a narina. Ele tinha eletrodos espalhados por todo o corpo, conectados a um a série de aparelhos. Ocasionalm ente, um desses aparelhos em itia um alarm e e os m édicos da UTI corriam para controlá-lo. Sem pre que isso ocorria, eu era tom ado pelo tem or de que Tito estivesse m orrendo. O tem or era desesperador. Era tam bém um alento. Eu só conseguia ter certeza de que Tito ainda estava vivo quando tem ia que ele estivesse m orrendo.

Para poder m orrer, Tito tinha de estar vivo.

 

82

Passei o dia na UTI.

Acariciei o rosto de Tito. Ele perm aneceu m orto. Acariciei o peito de Tito. Ele perm aneceu m orto. Acariciei a perna de Tito. Ele perm aneceu m orto. Acariciei as costas de Tito. No m om ento em que acariciei suas costas, deu-se o inesperado. Subitam ente, ele contorceu o corpo e arqueou a coluna.

Tito ressuscitou.

Chorei por m eia hora. Depois de ter chorado por m eia hora, chorei por um a hora. Depois de ter chorado por um a hora, chorei por duas horas.

 

83

No dia seguinte, retornei à UTI do hospital de Pádua.

Im ediatam ente, acariciei as costas de Tito. Ele arqueou-se com um a intensidade ainda m aior do que no dia anterior.

Chorei por duas horas.

Ao parar de chorar, lem brei-m e de Abbott and Costello Meet Frankenstein, quando o m onstro, estendido em sua tum ba, recebe um a descarga elétrica, arqueia violentam ente o corpo e ressuscita.

Tito ressuscitou com o o m onstro de Frankenstein.

Chorei por m ais duas horas.

 

84

Naquela noite, voltando de trem para Veneza, sozinho, observei que cada episódio de m inha vida correspondia a um esquete de Abbott e Costello.

 

85

Gianni e Pinotto.

É assim que os italianos cham am Abbott e Costello.

Eles traduziram Abbott and Costello Meet Frankenstein com o Gianni e Pinotto e il Cervello di Frankenstein.

Na sem ana que passei na UTI neonatal do hospital de Pádua, m eu único assunto foi esse: il cervello di Tito.

Ou: o cérebro de Tito.

 

86

Em Abbott and Costello Meet Frankenstein, o conde Drácula, interpretado por Bela Lugosi, quer transplantar o cérebro de Lou Costello para o m onstro de Frankenstein, interpretado por Glenn Strange.

Deu certo com Tito.

Depois de ser subm etido ao laboratório da dottoressa F, no hospital de Veneza, ele passou a unir o descontrole m otor do m onstro de Frankenstein ao tem peram ento galhofeiro de Lou Costello.

 

87

No hospital de Pádua, il cervello di Tito foi analisado por m eio de ultrassons, de eletroencefalogram as, de ressonâncias m agnéticas.

Nada de anorm al foi detectado.

Nenhum a m áquina, até hoj e, revelou a origem de sua paralisia cerebral.

 

88

Lou Costello. Abbott and Costello Meet Frankenstein:

— Tenho este cérebro há trinta anos e, sinceram ente, ele nunca m e serviu para nada.

 

89

 

90

Na im agem anterior, Abbott and Costello Meet Frankenstein.

Glenn Strange é o m onstro: deform e, cam baleante, espástico, verde.

 

91

Adolf Hitler, em 1939, recebeu um a carta de Richard Kretschm ar, um lavrador de Leipzig.

Richard Kretschm ar im plorava a Adolf Hitler que o aj udasse a m atar aquele que — na carta — ele cham ava de “m onstro”.

O “m onstro” de Richard Kretschm ar era seu filho Gerhard Kretschm ar.

Gerhard Kretschm ar nascera cego, m aneta e perneta. Ele nascera tam bém , segundo seu pai, “idiota”.

 

92

Adolf Hitler ordenou que seu m édico particular, Karl Brandt, fosse à Universidade de Leipzig e exam inasse pessoalm ente Gerhard Kretschm ar.

No processo de Nurem berg, o próprio Karl Brandt relatou os eventos:

— Se os fatos referidos pelo pai fossem verdadeiros, eu deveria inform ar aos m édicos que, em nom e de Hitler, eles poderiam praticar um a eutanásia.

 

93

Karl Brandt, depois de exam inar Gerhard Kretschm ar, autorizou sua m orte.

Em 25 de j ulho de 1939, aos cinco m eses de idade, Gerhard Kretschm ar — cego, m aneta, perneta e idiota — foi executado com um a alta dose de Lum inal.

 

94

Em depoim ento colhido trinta anos m ais tarde, o pai de Gerhard Kretschm ar, Richard Kretschm ar, lem brou a “eutanásia” de seu “m onstro” nos seguintes term os:

— Karl Brandt m e explicou que o Führer estava m uito, m uito interessado no caso de m eu filho. O Führer queria resolver o problem a das pessoas desprovidas de um futuro, que tinham um a vida sem valor. Por isso, ele havia concedido a m orte piedosa para nosso filho. Sucessivam ente, poderíam os ter outros filhos, perfeitos e saudáveis, de que o Reich se orgulharia.

Orgulho do Estado?

 

95

O Ministério do Interior de Adolf Hitler, quatro sem anas depois do assassinato de Gerhard Kretschm ar, determ inou que todos os recém -nascidos inválidos fossem denunciados às autoridades do regim e.

O regulam ento do Ministério do Interior m encionava, em particular, os portadores de “m ongolism o, de m icrocefalia, de hidrocefalia, de deform idades nos m em bros ou na coluna, e de paralisia, incluindo espasticidade”.

Sim : Tito.

 

96

Em 1º de setem bro de 1939, com eçou a II Guerra Mundial.

No m esm o dia, Adolf Hitler assinou um m em orando secreto regulam entando seu program a de eutanásia.

O m em orando outorgava aos m édicos a faculdade de “decidir se aqueles que tinham , segundo o m elhor j uízo hum ano, m oléstias incuráveis poderiam beneficiar-se, depois de atentos exam es diagnósticos, de um a m orte piedosa”.

 

97

Morte piedosa. Gnadentod.

Eutanásia. Euthanasie.

Foram alguns dos term os usados pelo nazism o para legitim ar o exterm ínio em m assa dos recém -nascidos inválidos.

Vida sem valor. Unwertes Leben.

Vida inútil de ser vivida. Lebensunwerten Leben.

O program a de “eutanásia” de Adolf Hitler assegurava um a “m orte piedosa” àqueles que tinham um a “vida sem valor” e um a “vida inútil de ser vivida”.

 

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99

Na im agem anterior, o m em orando assinado por Adolf Hitler decretando a m orte piedosa de Tito.

 

100

Na prim eira fase do program a de eutanásia de Adolf Hitler, foram m ortos cinco m il recém -nascidos inválidos.

O historiador Robert Jay Lifton publicou o testem unho de um dos m édicos responsáveis pelas m ortes, identificado sim plesm ente com o doktor F:

— Aqueles que eram selecionados para m orrer recebiam altas doses de Lum inal. Eram m eninos espásticos, incapazes de falar ou de cam inhar. Quem os via de fora, im aginava que eles estavam dorm indo. Na verdade, eles estavam m orrendo.

 

101

Depois de ser selecionado para m orrer pela dottoressa F, Tito foi internado na UTI do hospital de Pádua e recebeu altas doses de Lum inal. Quem o via de fora, im aginava que ele estava m orrendo. Na verdade, ele estava ressuscitando.

 

102

O program a de eutanásia involuntária de Adolf Hitler, denom inado T4, am pliou-se rapidam ente. Além de exterm inar os recém -nascidos inválidos, passou a exterm inar tam bém , em sua segunda fase, os adultos inválidos, os doentes m entais, os epiléticos, os alcoólatras.

Seis hospitais foram convertidos em centros de exterm ínio, onde os m édicos eram encarregados de elim inar os pacientes inj etando-lhes um a m istura de m orfina, de escopolam ina, de curare e de cianureto.

 

103

104

Na im agem anterior, um dos paralisados cerebrais selecionados para m orrer pelo program a T4.

 

105

Nos prim eiros m eses de 1940, no hospital de Brandem burgo, Karl Brandt assistiu a um experim ento que m udaria o rum o do program a T4.

Vinte pacientes, presos em um local sem elhante a um chuveiro público, foram expostos a um a carga de m onóxido de carbono e m orreram asfixiados.

Em seguida, seus corpos foram crem ados pela SS.

 

106

Quando Karl Brandt o inform ou sobre o resultado do experim ento de Brandem burgo, Adolf Hitler determ inou que todos os “inim igos biológicos” do Terceiro Reich passassem a ser elim inados daquela m esm a m aneira: asfixiados e crem ados.

 

107

Inim igos biológicos. Biologische Feinde.

Só um a “higiene racial” poderia elim inar os “inim igos biológicos” que contam inavam o Terceiro Reich.

Higiene racial. Rassenhygiene.

 

108

No segundo trim estre de 1940, em nom e da higiene racial, o Ministério do Interior de Adolf Hitler m andou que se inventariassem todos os j udeus do program a T4.

Em j unho daquele ano, o prim eiro grupo de duzentos j udeus, proveniente de um instituto psiquiátrico de Berlim , foi asfixiado e crem ado no hospital de Brandem burgo.

 

109

O exterm ínio de Gerhard Kretschm ar — um recém -nascido inválido repudiado pelo pai — assum ira o caráter de exterm ínio de um povo: o Holocausto.

 

110

Em m enos de dois anos, o program a T4 m atou m ais de cem m il pessoas.

Adolf Hitler encerrou-o em 24 de agosto de 1941.

Dois m eses m ais tarde, perto de Chelm no, foi inaugurado o prim eiro grande cam po de exterm ínio com andado pela SS, que passou a gasear e crem ar industrialm ente todos os inim igos biológicos e ideológicos da Alem anha, inválidos ou j udeus.

Nos m eses seguintes, foram inaugurados os cam pos de exterm ínio de Belzec, Sobibór, Maj danek, Treblinka e Auschwitz.

 

111

O superintendente do program a T4, Franz Stangl, responsável pela m orte de trinta m il inválidos no centro de eutanásia de Schloss Hartheim , tornou-se o prim eiro com andante do cam po de exterm ínio de Sobibór.

De m aio a agosto de 1942, ele m atou cem m il j udeus.

Franz Stangl foi prom ovido a com andante do cam po de exterm ínio de Treblinka II.

De agosto de 1942 a agosto de 1943, ele m atou outros oitocentos m il j udeus.

 

112

Depois da queda do Terceiro Reich, Franz Stangl se refugiou no Brasil.

Perseguido por Sim on Wiesenthal, ele foi preso em 28 de fevereiro de 1967 e extraditado para a Alem anha.

Condenado pela m orte de m ais de novecentas m il pessoas — entre os paralisados cerebrais da Aktion T4 e os j udeus da Aktion Reinhard —, ele m orreu em um a cela, em Düsseldorf.

 

113

Assim com o Franz Stangl, Josef Mengele tam bém se refugiou no Brasil.

Médico da SS, ele era encarregado de exam inar e selecionar os prisioneiros do cam po de exterm ínio de Auschwitz.

Os m ais válidos — que podiam ser em pregados no trabalho escravo — eram encam inhados para a sua direita. Os m enos válidos — que podiam ser im ediatam ente gaseados e crem ados — eram encam inhados para a sua esquerda.

 

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115

Na im agem anterior, Josef Mengele, em Auschwitz, seleciona aqueles que devem viver e aqueles que devem m orrer.

O retrato é de 1944.

 

116

Josef Mengele, em Auschwitz, conduziu experim entos m édicos que resultaram na invalidez e na m orte de m ilhares de prisioneiros.

Form ado no Instituto de Higiene Racial de Frankfurt, ele tinha um interesse particular pelos portadores de anom alias hereditárias, com o o nanism o, o herm afroditism o e a síndrom e de Down. O próprio j udaísm o, segundo ele, era um a anom alia hereditária. Em seu estado natural, todos os j udeus eram “m onstros”. E todos os “m onstros” eram j udeus.

 

117

Em um de seus experim entos, Josef Mengele selecionou dois m eninos — um dos quais inválido — e cortou-os longitudinalm ente com um bisturi.

Depois costurou um m enino no outro: costas com costas, om bros com om bros e pulsos com pulsos — com o se eles fossem siam eses.

Um dos m eninos se cham ava Nino. O outro m enino se cham ava Tito.

Sim : Tito.

 

118

Tito e Nino.

Meus filhos cham am -se Tito e Nico.

 

119

Agora estam os na praia da Enseada, em Bertioga.

Em 7 de fevereiro de 1972, entrando no m ar, na praia da Enseada, Josef Mengele teve um derram e cerebral e m orreu.

Vim até aqui, com m eus filhos Tito e Nico, seguindo o rastro de Josef Mengele. Quero entrar no m ar em que ele m orreu. Quero tripudiar sobre seu cadáver. Quero com em orar o valor da vida de um filho inválido.

Sou o Sim on Wiesenthal da paralisia cerebral.

Josef Mengele está m orto. Tito está vivo.

 

120

Na praia da Enseada, encho um a boia de plástico.

Tito — o m onstro — entra no m ar. Nico entra com ele.

Tito e Nico: um é costurado no outro.

 

121

122

Na im agem anterior, os m eus siam eses.

 

123

Tito m elhorou rapidam ente no hospital de Pádua.

No segundo dia de vida, ele parou de ter ataques convulsivos. No terceiro dia de vida, ele respirou sem a aj uda de aparelhos. No quarto dia de vida, ele em itiu um lam ento que os m édicos interpretaram com o um choro. No quinto dia de vida, ele arregalou os olhos. No sexto dia de vida, ele m am ou. No sétim o dia de vida, ele foi dispensado da UTI neonatal e internado em um quarto com m inha m ulher.

 

124

Um a sem ana m ais tarde, Tito chegou em casa.

 

125

Nós m orávam os no Palazzo Barbaro Wolkoff, no Canal Grande, ao lado do Palazzo Dario.

Quem arquitetou o Palazzo Dario?

Sim : Pietro Lom bardo.

 

126

 

127

Na im agem anterior, o Palazzo Barbaro Wolkoff, onde m orávam os, e o Palazzo Dario, à sua direita.

Continuar: parte 2 de 3