A Queda
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O quadro é de Claude Monet. É de 1908.
Estou na j anela, ninando Tito, olhando o Canal Grande.
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Claude Monet perm aneceu dois m eses e m eio em Veneza.
Quando ele pintou m inhas j anelas, sua m ulher, Alice, com entou em um a carta à filha, Germ aine:
Ele está fazendo trabalhos maravilhosos e, cá entre nós, diferentes daquelas mesmas e velhas vitórias-régias.
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Eu sou o Claude Monet da paralisia cerebral. Tito é m inha vitória-régia. Ele se tornou m eu único tem a. Só m e dedico a ele, só m e entusiasm o com ele. A m atéria nunca se esgota. Sem pre encontro nele um a cor inesperada, um a som bra inexplorada. Tito é o Absoluto. Tito é o Todo.
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Pietro Lom bardo arquitetou o Palazzo Dario em 1486.
No m esm o ano, nasceu Jacopo Sansovino.
Jacopo Sansovino, assim com o Pietro Lom bardo, está ligado circularm ente ao nascim ento de Tito. Prim eiro, ele arquitetou a parte lateral da Scuola Grande di San Marco, com pletando a obra de Pietro Lom bardo. Depois, ele arquitetou a Igrej a de San Giuliano, ornando seu portal com um a estátua de Tom m aso Rangone. Por fim , ele arquitetou o Palazzo Corner, na frente do Palazzo Dario e do Palazzo Barbaro Wolkoff, na m argem oposta do Canal Grande.
Eu via o Palazzo Dario e o Palazzo Corner de m inha j anela.
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Na im agem anterior, o Palazzo Dario, arquitetado por Pietro Lom bardo, à direita, e o Palazzo Corner, arquitetado por Jacopo Sansovino, à esquerda.
O quadro é de Canaletto. É de 1738.
Eu continuo na m esm a j anela, ninando Tito, olhando o Canal Grande.
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O Palazzo Dario, segundo John Ruskin, era “um dos m ais prim orosos exem plos” da arquitetura de seu tem po. O Palazzo Corner, por outro lado, erguido m eio século m ais tarde, em 1537, era “um a das piores e m ais frias” obras do Renascim ento.
O Palazzo Dario exprim ia a alm a de um verdadeiro artista com o Pietro Lom bardo, que podia até raciocinar, m as só “de vez em quando”, e que podia até ter conhecim entos, m as apenas os que era capaz de colher “sem se curvar e sem fazer grande em penho”. O Palazzo Corner, ao contrário, exprim ia a soberba academ icista de Jacopo Sansovino, com seu fanatism o geom étrico que podia “ser ensinado a qualquer escolar em m enos de um a sem ana”.
O Palazzo Dario era “bom para o culto de Deus”. O Palazzo Corner era “bom para o culto do Hom em ”.
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Eu nunca cultuei Deus. Eu nunca cultuei o Hom em . Passei a cultuar Tito. Passei a cultuar a vida dom éstica. Meu evangelho é um a conta de luz. Meu tem plo é um a quitanda.
Tito é o Todo. Um tom ate é o Todo.
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O Palazzo Dario e o Palazzo Corner há quinhentos anos debatiam os grandes tem as da hum anidade, gritando seus argum entos, um diante do outro, separados apenas pelo Canal Grande.
Se o Palazzo Dario era Sócrates, o Palazzo Corner era Meleto. Se o Palazzo Dario era Dante Alighieri, o Palazzo Corner era Farinata degli Uberti. Se o Palazzo Dario era Dom Quixote, o Palazzo Corner era Sancho. Se o Palazzo Dario era Naphta, o Palazzo Corner era Settem brini. Se o Palazzo Dario era Lou Costello, o Palazzo Corner era Bud Abbott.
Só Veneza podia m e dar isso.
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Jacopo Sansovino, depois de arquitetar o Palazzo Corner, foi contratado para arquitetar a sala de leitura da Biblioteca Marciana.
O Orgulho da Ciência e o Orgulho do Estado m anifestavam -se através de seu im ponente teto arqueado, em estilo rom ano.
Em 1545, o teto desabou.
Sim : A Queda.
Jacopo Sansovino foi preso e condenado a reerguer, às suas custas, a sala de leitura da Biblioteca Marciana. No lugar do im ponente teto arqueado, em estilo rom ano, Jacopo Sansovino teve de construir um teto plano.
Eu sou o teto plano da paralisia cerebral.
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Mudei-m e para Veneza em 1987. Eu tinha vinte e quatro anos.
O m elhor de Veneza, para m im , era seu caráter regressista. O m elhor de Veneza, para m im , era seu reacionarism o inconform ista.
Viver ali era com o viver em um a aldeia am ish. Eu via Veneza com o um a aldeia am ish para intelectuais. Ela tinha o poder de contrastar, com sua prepotente irracionalidade, o populism o ilum inista de m eu tem po. Ela tinha o poder de ridicularizar, com seu esplendoroso anacronism o, qualquer espécie de soberba progressista.
Em um a aldeia am ish, um m enino, im pedido de tom ar vacina, podia m orrer de saram po. Em Veneza, com o vim a descobrir alguns anos m ais tarde, ele podia m orrer no parto.
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Ao m e m udar para Veneza, eu estava escrevendo m eu prim eiro rom ance.
Depois de escrever m eu prim eiro rom ance, escrevi m eu segundo rom ance. Depois de escrever m eu segundo rom ance, escrevi m eu terceiro rom ance. Depois de escrever m eu terceiro rom ance, escrevi m eu quarto rom ance.
Quando Tito nasceu, eu estava escrevendo m eu quinto rom ance.
Era assim que eu vislum brava m eu futuro: sem pre em Veneza, pulando de rom ance em rom ance.
O nascim ento de Tito m udou tudo.
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Os prim eiros m eses de Tito foram iguais aos de qualquer m enino.
Ele m am ava. Ele passeava. Ele dorm ia.
De seis em seis sem anas, nós o levávam os ao departam ento de neurologia do hospital de Pádua.
Os m édicos testavam seus reflexos e m ediam o tam anho de seu cérebro.
O resultado era sem pre perfeitam ente norm al. Os m édicos supunham que Tito houvesse escapado ileso de seu parto ruinoso.
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Na im agem anterior, Tito perfeitam ente norm al.
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Antes de com pletar seis m eses de idade, Tito passou por m ais um exam e no hospital de Pádua.
Sua neurologista deitou-o na m aca. Naquele m om ento, ele deveria virar-se de barriga para cim a. O que ocorreu foi o contrário: ele agitou os bracinhos, m as — com o um a tartaruga — foi incapaz de revirar o corpo.
Era o prim eiro sinal de sua paralisia cerebral.
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Eu soubera que m inha m ulher estava grávida exatam ente um ano antes.
Tratei do assunto em 23 de fevereiro de 2000, em m inha coluna na revista Veja.
Com ecei dizendo que, até aquele m om ento, a recusa da paternidade fora um a das raras certezas que eu j am ais questionara em m inha vida. Em seguida, com entei que m eu desej o — reproduzo palavra por palavra — era ter um “filho tartaruga: toda vez que ele se agitasse dem ais, bastaria revirá-lo de barriga para cim a, e ele perm aneceria parado, silencioso, sacudindo os bracinhos”.
Eu tive m eu filho tartaruga.
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Alguns dias depois do exam e no hospital de Pádua, recebem os seu resultado pelo correio. Segundo a neurologista, Tito tinha um “dano no sistem a extrapiram idal”.
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Eu sei ler.
Ler é m eu trabalho. Eu penso lendo. Eu sinto lendo. Quando recebem os o resultado do exam e no hospital de Pádua, li sobre o sistem a extrapiram idal. Nada do que li m e preparou para o que estávam os prestes a descobrir.
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Agora eu sei o que Tito tem .
O parto ruinoso, segundo os neurologistas que o exam inaram nos últim os anos, avariou seu tálam o. O tálam o faz parte do sistem a extrapiram idal. A avaria é infinitesim al, tanto que nenhum a m áquina até hoj e foi capaz de detectá-la. Mas é grave o bastante para prej udicar todos os seus m ovim entos.
Tito anda errado, pega errado, fala errado.
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A neurologista do hospital de Pádua, depois de exam inar Tito, encam inhou-o a um a neurofisiatra do hospital de Veneza.
Nas sem anas seguintes, a neurofisiatra subm eteu-o a um a série de testes.
Quando os testes term inaram , ouvi pela prim eira vez — com m edo e terror — o term o que, daquele instante em diante, passaria a dom inar m inha vida.
Tito tinha um a paralisia cerebral.
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O m edo durou um a sem ana.
Depois passou.
O m otivo pelo qual o m edo passou em apenas um a sem ana foi um a queda.
Tito estava em m eu colo. Eu lia o j ornal no sofá da sala. Minha m ulher, andando apressadam ente de um lado para o outro, prendeu o pé na ponta do tapete e levou um tom bo, na nossa frente. Vendo o tom bo, Tito gargalhou. Sim ulam os outros tom bos. Ele gargalhou, gargalhou e gargalhou. Nós gargalham os com ele.
A paralisia cerebral de Tito tornou-se im ediatam ente m ais fam iliar. O slapstick era um a linguagem que todos com preendíam os.
Tito cai. Minha m ulher cai. Eu caio.
O que nos une — o que sem pre nos unirá — é a queda.
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Na im agem anterior, Abbott and Costello Go to Mars.
Lou Costello, em um a viagem espacial, cai ao resgatar sua bota de astronauta, que está presa em um bueiro.
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Francesca Martinez é um a com ediante.
Ela tem um a paralisia cerebral. Seus espetáculos giram em torno do tem a.
O term o paralisia cerebral, segundo ela, só pode ter sido inventado para provocar “m edo e terror”. Por isso, ela gosta de ser cham ada de “cam baleante”. Ela está sem pre cam baleando, prestes a cair.
O hum or de Francesca Martinez — da m esm a m aneira que o de Lou Costello — inspira-se em suas quedas.
A paralisia cerebral é sua bota de astronauta presa em um bueiro.
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Francesca Martinez relatou ao Daily Mail o que lhe aconteceu.
Sua paralisia cerebral, assim com o a de Tito, foi provocada por um erro m édico. Seu parto atrasou algum as horas, porque “era um dom ingo e os funcionários do hospital estavam de folga”. Ela perm aneceu no útero, sem ar, por sete m inutos.
A paralisia cerebral, ela explicou, “ocorre quando um a parte do cérebro deixa de funcionar. Atinge um recém -nascido a cada quinhentos. Cada caso é particular, m as geralm ente afeta o controle m uscular e a m obilidade das pessoas”.
A m elhor m aneira de descrever com o a paralisia cerebral a afetou é que ela parece “estar sem pre em briagada”. Sua fala é “arrastada”, seu equilíbrio é “cam baleante”.
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Duas sem anas depois de saber que Tito tinha um a paralisia cerebral, relatei o que lhe ocorreu em m inha coluna na Veja:
Diagnosticaram uma paralisia cerebral em meu filho de sete meses. Vista de fora, uma notícia assim pode parecer desesperadora. De dentro, é diferente. Foi como se me tivessem dito que meu filho era búlgaro. Se eu descobrisse que meu filho era búlgaro, minha primeira atitude seria consultar um almanaque em busca de dados sobre a Bulgária: produto interno bruto, principais rios, riquezas minerais. Foi o que fiz com a paralisia cerebral.
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Depois de dizer que paralisia cerebral era “um term o que dava m edo” e que, pela prim eira vez na vida, eu passara a “pertencer a um a m inoria”, term inei o texto de um a m aneira vergonhosam ente sentim ental:
Considero-me um escritor cômico. Nada mais cômico, para mim, do que uma expectativa frustrada. Expectativa frustrada no progresso social. Expectativa frustrada nas descobertas da ciência. Expectativa frustrada na força do amor. Eu sempre trabalhei com essa ótica anti-iluminista. Agora mudei. Passei a acreditar na força do amor. Amor por um pequeno búlgaro.
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A partir daquele m om ento, a paralisia cerebral de Tito virou um tem a recorrente em m inhas colunas.
Em um período de dez anos, dediquei-lhe oito artigos.
Se a paralisia cerebral atinge, em m édia, um recém -nascido a cada quinhentos, com o estim ou Francesca Martinez, eu publiquei um artigo sobre o assunto, em m édia, a cada quinhentos dias.
A paralisia cerebral incidiu na vida de m eus leitores tanto quanto ela incide na vida em geral.
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Francesca Martinez, em um depoim ento ao Daily Telegraph, declarou que “o grande segredo da invalidez é que todos aqueles que convivem com ela sabem que um a pessoa inválida é apenas um a pessoa que am am ”.
Em m eu prim eiro depoim ento sobre Tito, esse era o único “grande segredo” que eu tinha a revelar.
Espantosam ente, a paralisia cerebral de Tito, para m im e para Anna, em m om ento algum representara um m otivo de dor. Espantosam ente, a paralisia cerebral de Tito, para m im e para Anna, em m om ento algum representara um peso.
Aos sete m eses, Tito era apenas um a pessoa que am ávam os.
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Em m eados de 2001, levam os Tito a um neurologista em Nova York.
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Na im agem anterior, Tito e eu em Nova York.
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Em Nova York, tornei-m e o prim eiro m eio de transporte de Tito.
Ele apontava o dedo para a esquerda, eu ia para a esquerda. Ele apontava o dedo para a direita, eu ia para a direita. Ele apontava o dedo para a avó, eu o entregava à avó.
Assim com o Josef Mengele, Tito escolhia m eu destino encam inhando-m e para um lado ou para o outro.
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O neurologista de Nova York foi m uito anim ador.
Depois de realizar alguns exam es, ele prognosticou que, dali a dois anos, Tito falaria norm alm ente. Ele prognosticou tam bém que, dali a quatro anos, Tito cam inharia autonom am ente.
Am bos os prognósticos estavam errados.
Tito nunca falou norm alm ente. Ele nunca cam inhou autonom am ente.
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Christy Brown tinha um a paralisia cerebral.
Em seus prim eiros m eses de vida, seus pais o levaram a diversos neurologistas em Dublin.
Todos prognosticaram que Christy Brown perm aneceria para sem pre em um estado de “torpor”, porque ele era um “idiota”, um “im becil”, um “caso desesperado” e um “caso perdido”.
Em Meu pé esquerdo, sua autobiografia, Christy Brown narrou com o foi capaz de superar os piores prognósticos a seu respeito, encontrando um m eio para datilografar e pintar com os dedos do pé.
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Assim com o os pais de Christy Brown, Anna e eu aprende-m os a ignorar todos os prognósticos abestalhados dos m édicos, para o bem ou para o m al. Assim com o os pais de Christy Brown, Anna e eu aprendem os a com em orar cada passo adiante de Tito, por m ais cam baleante que fosse.
A partir de um determ inado m om ento, aprendem os a com em orar até m esm o seus tom bos. Nos prim eiros anos, Tito sem pre se arrebentava ao cair. Com o tem po, ele foi desenvolvendo novas técnicas para am ortecer as quedas.
Saber cair tem m uito m ais valor do que saber cam inhar.
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A banda irlandesa The Pogues gravou um a m úsica sobre Christy Brown.
Nos prim eiros acordes, a guitarra elétrica é acom panhada pelo som de um a m áquina de escrever, que faz tap-tap-tap:
Christy Brown
a clown around town
Now he’s a man of renown
from Dingle to Down
I type with me toes
Suck stout through me nose
And where it’s gonna end
G od only knows
Down all the days
The tap-tap-tapping
Of the typewriter pays
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Na im agem anterior, Christy Brown em seu quarto, fazendo tap-tap-tap na m áquina de escrever.
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Agora Tito está em seu quarto. Eu estou na biblioteca.
Ele faz tap-tap-tap no teclado de seu com putador. Eu respondo fazendo tap-tap-tap no teclado de m eu com putador.
Envio-lhe um PDF com a im agem de Christy Brown. Em seguida, explico-lhe pelo VoIP que Christy Brown tinha um a paralisia cerebral m uito m ais debilitante do que a sua, e que m esm o assim foi capaz de se transform ar em um im portante escritor.
Envio-lhe tam bém um arquivo com a m úsica de The Pogues e traduzo sua letra, que conta com o Christy Brown, o bobo da aldeia, conseguiu tornar-se um escritor respeitado de norte a sul, datilografando — tap-tap-tapping — com os dedos do pé.
Tito perde rapidam ente o interesse por m im e desliga o VoIP.
Christy Brown tinha a necessidade de superar a paralisia cerebral. Tito está perfeitam ente feliz do j eito que é. Ele dispensa os bons exem plos.
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Christy Brown pegou um giz com os dedos do pé esquerdo e desenhou a letra A. Ele tinha cinco anos de idade. Seus pais perceberam que havia, dentro de seu “corpo paralisado, um a m ente norm al”, e passaram a estim ulá-lo falando com ele o tem po todo.
O neurologista de Nova York recom endou que em pregásse-m os o m esm o m étodo que os pais de Christy Brown haviam em pregado, porque as habilidades intelectuais de Tito eram o m aior recurso de que ele poderia dispor.
Daquele dia em diante, Anna e eu passam os a atazanar Tito com palavras e m ais palavras. Quando ele enj oa, desliga o VoIP.
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Christy Brown m orreu aos quarenta e nove anos, ao engasgar com um a costeleta de porco.
Retornando a Tom m aso Rangone: costeleta de porco foi o alim ento m ais danoso à saúde de Christy Brown.
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Apesar de errar todos os seus prognósticos — assim com o o “abestalhado” Tom m aso Rangone errou com Júlio III —, o neurologista de Nova York transform ou com pletam ente nossas vidas.
Além de recom endar que estim ulássem os Tito o tem po inteiro, ele recom endou tam bém que, durante o inverno veneziano, viaj ássem os para um lugar quente.
Um m enino com paralisia cerebral, segundo ele, tinha de perm anecer sem pre solto, desim pedido, despido. Um m enino com paralisia cerebral, segundo ele, tinha de poder m anipular a areia, a terra, a água.
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Na im agem anterior, Tito e Anna assistem à chegada do inverno veneziano.
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Cito-m e:
Cada um tem seu talento. O meu é ir embora do Brasil. Ninguém sabe ir embora do Brasil melhor do que eu. Se ir embora do Brasil fosse pintura, eu seria Rembrandt. Se ir embora do Brasil fosse literatura, eu seria Shakespeare. De uma hora para a outra, posso largar tudo e partir. De maneira calma e ordenada. Minha turma é a dos retirantes. Daqueles que matam cadelas a pauladas. Tenho mais de trinta anos de prática acumulada. Fui embora do Brasil em um monte de oportunidades, por longos períodos. E sempre me dei bem. Porque eu sei exatamente o que esperar dos outros lugares. Q uem vai embora pensando em encontrar lá fora algo melhor do que o Brasil só se estrepa. Eu nunca cometi esse erro. Fui embora do Brasil com o único propósito de ficar longe do Brasil.
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Quando o neurologista de Nova York recom endou que evitássem os perm anecer em Veneza durante os m eses de inverno, pensei im ediatam ente em com prar passagens aéreas para o Rio de Janeiro.
Por m ais que eu repudiasse o Brasil, e eu repudiava o Brasil, j am ais neguei que fosse um lugar quente.
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No Natal de 2001, desem barcam os no Rio de Janeiro.
Estava quente.
O plano era perm anecer dois m eses. Acabam os perm anecendo nove anos.
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Na im agem anterior, Tito na praia de Ipanem a.
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Agora revej o os retratos daquele tem po.
Tito está solto. Tito está desim pedido. Tito está despido. Tito está m anipulando a areia. Tito está m anipulando a terra. Tito está m anipulando a água.
No Rio de Janeiro, encontram os tudo o que foi recom endado pelo neurologista de Nova York.
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Perm anecem os no Rio de Janeiro por nove anos — em vez de apenas dois m eses — em virtude da praia de Ipanem a.
Houve tam bém outro m otivo: um a terapeuta Bobath.
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Karel Bobath era ortopedista.
Berta Busse era professora de ginástica.
Nascidos em Berlim , eles tiveram de escapar da Alem anha de Adolf Hitler porque eram j udeus.
Berta Busse chegou a Londres em 1938. Karel Bobath, em 1939.
Ali eles se casaram e desenvolveram j untos um program a fisioterápico para o tratam ento da paralisia cerebral, conhecido com o Conceito Bobath.
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Enquanto Adolf Hitler, na Alem anha, exterm inava j udeus e m eninos com paralisia cerebral, um casal de j udeus escapava da Alem anha de Adolf Hitler e desenvolvia um m étodo para o tratam ento de m eninos com paralisia cerebral.
A história de Tito é assim : circular.
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Karel Bobath e Berta Busse m ataram -se em 19 de j aneiro de 1991.
Ele tinha 85 anos. Ela tinha 83.
Karel Bobath e Berta Busse desenvolveram j untos um m étodo para o tratam ento da paralisia cerebral, e continuaram j untos até a hora da m orte.
A paralisia cerebral une.
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Nós levávam os Tito à sua terapeuta Bobath quatro dias por sem ana, por um a ou duas horas.
Ele tinha seus m úsculos alongados. Ele era chacoalhado em um a rede. Ele era posto dentro de um cilindro e rolado pela sala. Ele tinha o quadril atado com faixas elásticas. Ele era levado a torcer o tronco com as pernas im obilizadas. Ele tinha os lábios contornados por um adesivo, para parar de babar. Ele era m antido em postura ereta diante de um espelho. Ele tinha de sentar-se com os j oelhos esticados. Ele era estendido em um a grande bola verm elha e rolado para a frente e para trás. Ele era arrem essado em um colchonete de espum a. Ele era estim ulado a reproduzir o m ovim ento de engatinhar.
Minha m ulher e eu acom panhávam os entusiasm adam ente a ginástica de Tito.
Éram os felizes naquele lugar. Estávam os unidos com o velhos j udeus suicidas.
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Na im agem anterior, Tito e sua terapeuta Bobath.
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Neil Young tem dois filhos com paralisia cerebral.
Sim : dois.
Ele é m eu guru.
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O prim eiro filho de Neil Young, do prim eiro casam ento, cham a-se Zeke. O segundo filho de Neil Young, do segundo casam ento, cham a-se Ben.
Zeke nasceu em 1972. Sua paralisia cerebral é leve.
Ben nasceu em 1978. Sua paralisia cerebral é severa.
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Quando Ben tinha dois anos de idade, Neil Young e sua m ulher levaram -no ao Instituto para o Desenvolvim ento do Potencial Hum ano.
O Instituto para o Desenvolvim ento do Potencial Hum ano persuadiu-os a dedicar todo o seu tem po ao tratam ento de Ben, m inistrando-lhe doze horas de fisioterapia por dia, sete dias por sem ana.
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O Instituto para o Desenvolvim ento do Potencial Hum ano é um a seita.
Se Neil Young é m eu guru, o guru do Instituto para o Desenvolvim ento do Potencial Hum ano é Glenn Dom an.
Um m enino com paralisia cerebral, segundo Glenn Dom an, tem de ser continuam ente m anipulado por seus pais, porque quando ele repete sem parar um a série de m ovim entos padronizados, de form a passiva e por um longo período, seu cérebro se m odifica e substitui as partes lesionadas.
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Em 1981, Neil Young gravou um a m úsica sobre o tratam ento de Ben com o m étodo de Glenn Dom an.
Trata-se de T-Bone, do disco Re-ac-tor.
É o hino da paralisia cerebral.
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Em T-Bone, Neil Young repete fanaticam ente, por nove m inutos e dez segundos, os m esm os dois versos, assim com o os fisioterapeutas do Instituto para o Desenvolvim ento do Potencial Hum ano m andavam -no repetir fanaticam ente os m ovim entos de Ben, doze horas por dia, sete dias por sem ana.
No prim eiro verso, repetido vinte e cinco vezes, Neil Young diz que tem “um purê de batatas”. No segundo verso, repetido m ais vinte e cinco vezes, ele diz que o que lhe falta é “o T-Bone”.
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Em 1989, alguns anos depois de desistir do Instituto para o Desenvolvim ento do Potencial Hum ano, Neil Young, entrevistado pelo Village Voice Rock and Roll Quarterly, falou sobre o tratam ento de Ben com o m étodo de Glenn Dom an:
— Eu tinha de m anipular o m enino sim ulando o m ovim ento de engatinhar. Ele ia engatinhando pelo corredor, batendo a cabeça enquanto tentava engatinhar. Mas ele era incapaz de engatinhar, e aquela gente dizia que, se ele fosse incapaz de engatinhar, a culpa seria nossa. Resistim os por dezoito m eses. Foram dezoito m eses sem sair de casa. Foram dezoito m eses sem fazer nada.
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Nos últim os trinta anos, o Instituto para o Desenvolvim ento do Potencial Hum ano, com seu abestalhado credo lam arckiano de que o m ovim ento repetitivo e passivo podia m oldar as características dos portadores de paralisia cerebral, m udando seus cérebros, perdeu praticam ente todos os adeptos.
Era purê de batatas dem ais e bisteca de m enos.
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Na im agem anterior, um ovo.
Ben Young atualm ente é um produtor de ovos. Em vez de ter T-bones, ele tem um a granj a em La Honda, com duzentas e cinquenta galinhas.
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Durante o tratam ento com o m étodo de Glenn Dom an, Neil Young e sua m ulher m oviam Ben doze horas por dia, sete dias por sem ana. Enquanto isso, Ben perm anecia passivo.
Conosco ocorreu o oposto.
Tito m ovia-se livrem ente pelo grande apartam ento em que estávam os hospedados, no Rio de Janeiro, indo de quarto em quarto, doze horas por dia, sete dias por sem ana. Enquanto isso, m inha m ulher e eu o adm irávam os passivam ente.
Tito foi nosso Glenn Dom an. Ele m udou nossos cérebros.
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Com o Tito se m ovia?
Ele tinha um carrinho de brinquedo da Chicco.
Inicialm ente, ele só era capaz de m over o carrinho em m archa a ré. Com o tem po, aprendeu a m over o carrinho para a frente e para os lados, im pulsionando-o sim ultaneam ente com os dois pés.
Quando Tito ganhou velocidade e passou a capotar de lado, dotam os o carrinho de duas barras perpendiculares, para aum entar sua estabilidade. Quando ele ganhou ainda m ais velocidade e passou a capotar para a frente, dando um a pirueta, pensam os em aparafusar um a roda na ponta do carrinho.
As quedas de Tito tornaram -se espetaculares, com o as de Lou Costello.
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O m aior im pedim ento para um m enino com paralisia cerebral é a im possibilidade de investigar o m undo ao seu redor.
Com o carrinho da Chicco, Tito superou parcialm ente esse im pedim ento.
Ele entrava nos arm ários e tirava as m eias das gavetas. Ele ia à cozinha e puxava o avental da cozinheira. Ele passava sob a m esa de pingue-pongue durante as nossas partidas. Ele ia ao banheiro e espalhava todo o rolo de papel higiênico pelo apartam ento.
Tito investigava o m undo. Nós investigávam os Tito investigando o m undo.
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Na im agem anterior, Tito em seu carrinho.
O carrinho de brinquedo da Chicco foi o segundo m eio de transporte de Tito.
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À m edida que o tem po passava, a paralisia cerebral de Tito tornava-se m ais e m ais evidente.
Os m eninos de sua idade corriam e falavam . Ele continuava atrelado ao passado, tentando engatinhar. Havia um m otim de seu corpo contra seu cérebro. Seu cérebro dava um a ordem , seu corpo desobedecia.
Tito era o doutor Strangelove, estrangulando-se continuam ente.
202
Com sete m eses, Tito era “apenas um a pessoa que am ávam os”. Com um ano e m eio, ele j á se transform ara em “um a pessoa com paralisia cerebral que am ávam os”.
Nós am ávam os tanto Tito que passam os a am ar a própria paralisia cerebral.
203
Cito a coluna que publiquei em 24 de j unho de 2002:
Ter um filho com paralisia cerebral é a aventura mais empolgante que existe. O maior inimigo de um menino com paralisia cerebral é a força de gravidade. É como se ele fosse permanentemente perseguido por um judoca alucinado, que se diverte em passar-lhe rasteiras. O que ele precisa fazer, antes de mais nada, é aprender a cair. Depois vai pulando da faixa branca para a faixa amarela, da faixa amarela para a faixa verde, até atingir seu limite máximo. Todas as habilidades motoras que adquirimos de modo automático, através do instinto, ele tenta adquirir com a disciplina, com o método, com o pensamento. É a luta do intelecto contra a natureza selvagem. A metáfora perfeita da história da humanidade. Davi e G olias. Teseu e o Minotauro. Dr. Jekyll e Mr. Hyde.
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205
Na im agem anterior, um a das dezesseis quedas de Lou Costello em Abbott and Costello Meet Dr. Jekyll and Mr. Hyde.
Ninguém sabe cair m elhor do que Lou Costello.
206
Encerrei a coluna de 24 de j unho de 2002 de um a m aneira vergonhosam ente sentim ental. Eu am ava Tito. Eu am ava a paralisia cerebral.
Q uando as pessoas descobrem que meu filho tem paralisia cerebral, olham para ele com uma mistura de simpatia e piedade. Eu olho para ele como se olhasse para um totem: com devoção, reverência e sentimento de inferioridade. Dizem que, por causa da ausência de gravidade, um menino com paralisia cerebral está mais bem preparado para viver na Lua. Meu filho, portanto, é um homem do futuro, pronto para as viagens interplanetárias. Sabe aquele episódio de Jornada nas Estrelasem que os alienígenas de uma galáxia distante cismam que o capitão Kirk é Deus? Pois eu sou igual aos alienígenas, e meu filho é o capitão Kirk.
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Além de dizer que Tito era Deus, eu dizia tam bém , naquela coluna, que “um m enino com paralisia cerebral era com o a m açã de Newton: caindo, ele revelava os m ecanism os secretos de funcionam ento do m undo”.
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Tito era m inha Lei da Gravidade. Ele era o princípio com o qual eu passara a m edir a realidade.
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Sigm und Freud, nos prim eiros anos de sua carreira com o neurologista, dedicou-se ao estudo da paralisia cerebral.
Em 1897, ele publicou seu principal tratado sobre o assunto, intitulado Paralisia Cerebral Infantil.
Naquele tem po, Sigm und Freud j á estava inteiram ente envolvido em suas pesquisas sobre neuroses. Em um a de suas cartas, ele com entou:
Estou ocupado com as paralisias infantis, pelas quais não tenho o menor interesse.
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Contrariam ente a Sigm und Freud, eu só m e ocupava de paralisia cerebral. E não tinha o m enor interesse por neuroses.
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Na segunda m etade de 2003, levam os Tito a um neurologista de Boston.
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Na im agem anterior, Tito em Boston.
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Passam os seis sem anas em Boston, em um apartam ento em Back Bay.
Depois de exam inar Tito, o neurologista encam inhou-o à sua equipe de m édicos.
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Os m édicos de Boston deram um a anestesia geral em Tito para aplicar-lhe botox nas pernas. O resultado do botox foi nulo. Os m édicos de Boston deram outra anestesia geral em Tito para fazer-lhe um a ressonância m agnética. O resultado da ressonância m agnética foi nulo. Os m édicos de Boston m andaram tirar um m olde das pernas de Tito para confeccionar-lhe um par de calhas ortopédicas. As calhas ortopédicas quebraram assim que retornam os ao Rio de Janeiro e foram j ogadas fora. Os m édicos de Boston fizeram -nos encom endar um andador. O andador era o m enos adequado para Tito.
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Em Boston, gastei trinta m il dólares.
A paralisia cerebral de Tito custou-m e um m onte de dinheiro.
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Apesar de tudo, lem bro-m e daquelas seis sem anas no apartam ento em Back Bay com o um a fase de intensa — quase desarrazoada — alegria.
Porque estávam os j untos. Porque estávam os unidos. Eu tinha, naquele m om ento, a certeza m oral de um fanático. Eu renunciara às m inhas veleidades pessoais por algo m uito m aior do que eu. Eu cultuava Tito. A paralisia cerebral era m inha seita.
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O neurologista de Boston teve um a utilidade.
Ele explicou por que Tito, em seu terceiro aniversário, ainda era incapaz de pronunciar um a única palavra.
Ele tinha um a dispraxia.
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O neurologista de Boston teve outra utilidade.
Ele recom endou que, para se exprim ir, Tito passasse a usar um com unicador digital.
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Na im agem anterior, Tito com seu com unicador Tech/Speak.
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O tem a de T-Bone é o em penho obsessivo de Neil Young para dar algum tipo de m obilidade a Ben.
O tem a de Transformer Man, que faz parte de seu disco seguinte, Trans, de 1982, é o em penho obsessivo de Neil Young para se com unicar com Ben.
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Neil Young usou um vocoder para distorcer sua voz em Transformer Man.
Ele explicou:
— Transformer Man é um a m úsica para m eu garoto. Trans é m inha busca por um a form a de m e com unicar com um a pessoa incapaz de falar. Ninguém entendeu Trans. Quero que as pessoas se fodam . Ninguém entende as letras em Trans porque eu m esm o era incapaz de entender o que m eu filho dizia.
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Transformer Man é a pior m úsica de Neil Young.
É deform e, inacabada, im perfeita. É desproporcional em todas as suas partes. É um sapo venenoso. É um cachorro sangrento.
A ruindade de Transformer Man m e com ove.
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Os discos de Neil Young sobre a paralisia cerebral de Ben foram os m aiores insucessos com erciais de sua carreira.
A paralisia cerebral custou-lhe um m onte de dinheiro.
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Em Transformer Man, Neil Young vislum brava um m undo robotizado em que um m enino espástico, incapaz de falar, poderia interagir usando a tecnologia.
O que sua espasticidade o im pedia de fazer sozinho, ele passaria a fazer, no futuro, por m eio de m áquinas, apertando botões:
Transformer Man
Direct the action
with the push of a button
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Na im agem anterior, o Transformer Man da Hasbro, fabricado vinte e nove anos depois do Transformer Man de Neil Young e com ercializado com o nom e de Spastic – ou Espástico.
O futuro vislum brado por Neil Young m aterializou-se no m undo robotizado dos Power Core Combiners.
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Fiz um a coluna sobre o Transformer Man de Neil Young:
Neil Young tinha uma coleção de trens elétricos. Como seu filho, Ben, era incapaz de acionar os trens, Neil Young inventou um dispositivo para facilitar a operação. O dispositivo foi patenteado como o G rande Botão Vermelho. Com o G rande Botão Vermelho, Ben finalmente podia abrir porteiras, engatar locomotivas, fazer o trem mudar de trilho, soltar fumaça, apitar.
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Encerrei a coluna falando novam ente sobre Tito:
Meu filho nunca se interessou por trens elétricos. Mas ele tem um G rande Botão Vermelho conectado a mim. Ele me liga e desliga quando quer. E me faz mudar de trilho, soltar fumaça, apitar.
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Neil Young sentia-se eletrizado por Ben:
I feel electrified by you. Oh eyes.
Eu m e sentia eletrizado por Tito. Ele era m eu Transformer Man. Apertando os botões de seu com unicador, ele finalm ente podia falar com igo.
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Na im agem anterior, o botão que Tito tinha de apertar em seu com unicador para sinalizar um a queda.
Sim : A Queda.
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O com unicador de Tito era com posto por trinta e duas j anelas. Cada um a delas era ocupada por um sím bolo que correspondia a um a palavra ou a um a frase. Quando Tito apertava o sím bolo, o com unicador em itia um a m ensagem gravada com aquela palavra ou frase. Com o o com unicador era dotado de seis canais, Tito podia dispor perm anentem ente de cento e noventa e duas m ensagens gravadas.
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As m ensagens do com unicador de Tito eram gravadas com m inha voz. Ele passou a falar por m im , distorcendo m inhas palavras. O com unicador de Tito foi m eu vocoder.
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As terapeutas de Tito sem pre inseriam novos sím bolos em seu com unicador. Ele acum ulou um vocabulário de m ais de m il palavras, que o acom panhavam em cada m om ento de sua vida.
Quando Tito estava com pressa, apertava o desenho de um coelho. Quando ele estava com diarreia, apertava o desenho de um a pessoa evacuando em um vaso sanitário. Quando ele queria repetir algo, apertava o desenho de duas setas paralelas. Quando ele se assustava, apertava o desenho de um fantasm a verde. Quando ele queria fazer um a pergunta, apertava o desenho de um hom enzinho com cara de ovo erguendo o dedo. Quando ele se irritava, apertava o desenho do hom enzinho com cara de ovo soltando vapor pelas orelhas. Quando ele se entediava, apertava o desenho do hom enzinho com cara de ovo apoiado no cotovelo.
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Tito só se com unicava através de im agens, de gestos, de sím bolos, de m etáforas, de analogias.
Eu tinha de interpretá-lo. Eu tinha de m e adaptar à sua linguagem . Se ele usava im agens, eu tam bém usava im agens. Se ele usava analogias, eu tam bém usava analogias.
Foi assim que Tito se tornou m eu Deus, m inha Lei da Gravidade, m eu sobrevivente de Auschwitz, m inha tartaruga, m inha vitória-régia, m eu Lou Costello, m eu Ricardo III, m eu Jam es Stewart, m inha Queda da Bastilha, m eu Jacopo Tintoretto, m inha Scuola Grande di San Marco.
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Tito era o resultado de tudo o que eu havia visto e lido. Em particular, ele era o resultado de tudo o que eu am ava.
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No Natal de 2003, Tito ganhou um andador Kay e.
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Na im agem anterior, o desenho que Tito tinha de apertar em seu com unicador para pedir o andador.
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Agora Tito está usando seu quarto andador Kay e.
O m odelo é igual ao prim eiro. Só m udou o tam anho.
De todos os m eios de transporte que Tito j á teve, o andador é o m ais valioso. Ele o usa até hoj e para cam inhar na rua. Ele provavelm ente terá de usá-lo para sem pre.
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Nos prim eiros tem pos, Tito era capaz de dar som ente um ou dois passos com o andador. Ele tinha de m over-se em linha reta, porque as rodas eram travadas.
Em m eados de 2004, quando Tito m elhorou o com ando sobre o andador, sua terapeuta soltou as rodas dianteiras e passei a cam inhar com ele na garagem do prédio em que m orávam os, na avenida Vieira Souto, em Ipanem a.
A garagem era am pla e deserta. Seu piso era plano e liso.
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Depois de explorar a garagem de nosso prédio, Tito ganhou m ais autonom ia e fom os explorar a garagem do prédio à direita do nosso. Depois de explorar a garagem do prédio à direita do nosso, fom os explorar a garagem do prédio à esquerda do nosso. Depois de explorar a garagem do prédio à esquerda do nosso, fom os explorar a garagem de dezenas de outros prédios da avenida Vieira Souto.
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Se até aquele m om ento m eu único talento era ir em bora do Brasil, pela prim eira vez em m inha vida eu estava feliz por ter voltado à m inha terra natal.
As garagens da avenida Vieira Souto m e reconciliaram com o Brasil.
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Na im agem anterior, Tito cam inha com seu andador em um a garagem .
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Giacom o Leopardi era deform e.
Ele tinha um m etro e quarenta e um de altura. Duas grandes corcundas — causadas por um a tuberculose óssea — vergavam suas costas.
Ele era asm ático. E praticam ente cego.
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Em um a de suas cartas, Giacom o Leopardi disse que seu aspecto era “m iserável” e “absolutam ente desprezível”. Ele disse tam bém que só contava com “a m etade do que contavam os outros hom ens”. Ele se considerava um “sepulcro am bulante”, constantem ente à espera da m orte.
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Se eu sem pre quis ir em bora do Brasil, Giacom o Leopardi sem pre quis ir em bora de Recanati, sua terra natal.
Recanati, segundo ele, era um a “aldeia selvagem ”, habitada por “um a gente grosseira, vil”. A todo instante, ele sonhava em “abandonar aquela porca cidade em que os hom ens eram asnos ou tratantes — ou tanto um quanto o outro”.
Giacom o Leopardi sonhava em ir em bora de Recanati e “nunca m ais voltar”.
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Em 1822, Giacom o Leopardi finalm ente encontrou um a m aneira para ir em bora de Recanati. Ele passou um a tem porada em Rom a, hospedado na casa de um tio. Contrariam ente ao que ele idealizara lendo os poetas latinos, Rom a pareceu-lhe esquálida e provinciana, corrupta e cheia de prostitutas.
Giacom o Leopardi voltou a Recanati seis m eses depois.
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Ao voltar a Recanati, Giacom o Leopardi dedicou-se a um a “vida inteiram ente e unicam ente interior”. O resultado dessa “vida inteiram ente e unicam ente interior” foram os seus Opúsculos Morais.
Ao voltar ao Brasil, eu tam bém m e dediquei a um a vida inteiram ente e unicam ente interior. Meus Opúsculos Morais foram as garagens da avenida Vieira Souto. Tito e eu passávam os o dia ali, explorando seu interior.
Em sua garagem especulativa, Giacom o Leopardi dialogava com Torquato Tasso e com a Lua. Tito e eu dialogávam os com os porteiros dos prédios de Ipanem a e com os utilitários da Toy ota.
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Em Recanati, entre 14 e 19 de m aio de 1824, Giacom o Leopardi escreveu o Diálogo de um Físico e de um Metafísico, o décim o ensaio de seus Opúsculos Morais.
O Físico, inspirado na charlatanice m édica de Tom m aso Rangone, autor de Como o Homem Pode Viver Mais de 120 Anos, revela que descobriu o m odo — Eureca! Eureca! — para se tornar im ortal.
O Metafísico responde que só lhe interessa “a arte de viver pouco, porque se a vida é infeliz — e ela sem pre foi assim — quanto m ais breve ela se torna, m elhor”.
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A vida de Giacom o Leopardi foi breve.
Ele m orreu aos trinta e oito anos, depois de com er, em um a única noite, um quilo e m eio de balas de canela de Sulm ona.
Retornando a Tom m aso Rangone: o cannellino di Sulmona foi o alim ento m ais danoso à saúde de Giacom o Leopardi.
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Na im agem anterior, Giacom o Leopardi m orto.
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Para Giacom o Leopardi, a infelicidade era o estado natural do hom em .
Em Diálogo de um Físico e de um Metafísico, ele argum enta que “vida e infelicidade nunca se separam ”.
Em Diálogo de Torquato Tasso e de seu Espírito, o Espírito resum e a Teoria do Prazer de Giacom o Leopardi, explicando a Torquato Tasso que, com o o “desej o do prazer é infinito, nenhum prazer real — por ser inevitavelm ente finito — pode saciar o desej o”.
Em Diálogo de Malambruno e de Farfarello, Malam bruno exprim e o desej o de “ser feliz ao m enos por um m om ento”. Quando o diabólico Farfarello responde que isso é im possível, Malam bruno conclui que a única form a de felicidade ao alcance do hom em é a m orte, porque só deixa de ser infeliz quem deixa de existir.
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Giacom o Leopardi, que em Recanati era cham ado de “corcunda de Montem orello”, usou a invalidez e a deform idade com o m etáfora de seu “pessim ism o cósm ico”.
Ele disse:
O que é a vida? A viagem de um manco e enfermo que, com um pesadíssimo fardo, caminha dia e noite, sem jamais repousar, pelas encostas de montanhas íngremes, na neve, no gelo, na chuva, no vento e no ardor do sol, até chegar à beira de um precipício ou de um fosso, e inevitavelmente cair.
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O que era m inha vida no Rio de Janeiro?
Era a viagem de um paralisado cerebral que, com seu andador, subia as ram pas das garagens da avenida Vieira Souto, com cheiro de gasolina e de escapam ento, até chegar à beira de um degrau e conseguir parar, antes de cair.
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A felicidade era o estado natural de Tito.
Seu otim ism o cósm ico m e contam inava. Dedicando-m e “inteiram ente e unicam ente” a ele, eu tam bém era feliz.
Eu deixara de existir.
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Na im agem anterior, o hom enzinho com cara de ovo está feliz — cosm icam ente feliz.
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Segundo Giacom o Leopardi, a felicidade sem pre se encontra no passado ou no futuro — j am ais no presente.
Fui cosm icam ente feliz em 2004.
Se tivesse de indicar o m om ento de m eu passado em que fui m ais feliz, porém , escolheria o ano seguinte — 2005.
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Nico nasceu em 16 de j unho de 2005.
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O nascim ento de Nico, no Rio de Janeiro, foi o oposto do nascim ento de Tito.
Ele foi poupado da dottoressa F. Ele foi poupado da am niotom ia. Ele foi poupado da paralisia cerebral.
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Depois de ter um nascim ento que foi o oposto do nascim ento de Tito, Nico se tornou o oposto de Tito.
Se um é atrasado, o outro é adiantado. Se um é torto, o outro é reto. Se um cai, o outro está sem pre de pé. Se um é o com ediante, o outro é o escada. Se um é Lou Costello, o outro é Bud Abbott.
Assim com o Lou Costello, Tito é um baaaaad boy.
Nico é o oposto.
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Na im agem anterior, Tito encontra Nico na m aternidade.
Foi o m elhor ato de nosso vaudeville dom éstico.
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Karel Bobath e Berta Busse recom endavam que, durante a terapia, o paralisado cerebral se observasse em um espelho.