A Queda

Diogo Mainardi · Capítulo 1 de 3 · parte 3/3

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A Queda

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Nico foi o espelho de Tito. Tito foi o espelho de Nico. Nico via sua im agem invertida em Tito. Tito via sua im agem invertida em Nico.

 

270

O m undo da paralisia cerebral de Tito era com o o m undo através do espelho de Lewis Carroll: o tem po andava para trás, os seres inanim ados ganhavam vida, as leis da Natureza eram subvertidas.

No m undo da paralisia cerebral de Tito, Nico desem penhava o papel de Alice.

Ele era um m enino “sensato”. Ele era “exatam ente igual às outras pessoas — dois olhos, o nariz no m eio, a boca em baixo”.

Tito era exatam ente o inverso das outras pessoas.

Ele era o hom enzinho com cara de ovo do com unicador. Ele era Hum pty Dum pty sentado no m uro. Ele era Hum pty Dum pty desequilibrando-se e caindo do m uro.

 

271

Até o nascim ento de Nico, Tito era praticam ente m udo.

A dispraxia im pedia-o de coordenar os m ovim entos do aparelho vocal.

Depois do nascim ento de Nico, ele passou a falar sem parar.

 

272

As prim eiras palavras de Tito foram , com o as de Hum pty Dum pty, “tem peram entais, em particular os verbos”.

Se Hum pty Dum pty dom inava a linguagem de Jabberwocky, o poem a invertido que tinha de ser lido no espelho, a linguagem de Tito era o próprio Jabberwocky. Ele invertia a ordem das letras em um a palavra. Ele invertia a ordem das palavras em um a frase. Ele invertia a ordem das frases em um período.

 

273

Com o tem po, o Jabberwocky de Tito tornou-se m enos im penetrável.

Eu o com preendia. Minha m ulher o com preendia. Nico o com preendia.

 

274

Nos últim os m eses de 2005, Tito abandonou seu com unicador.

 

275

 

276

Na im agem anterior, Nico exam ina Lula.

277

No Natal de 2005, Veja pediu-m e um a retrospectiva do ano.

O retrato de Nico, aos seis m eses de idade, exam inando Lula, ilustrava a retrospectiva.

Legenda do retrato:

Em junho, nasceu meu filho mais novo.

 

278

Cito um a passagem da retrospectiva:

Passei o ano todo amolando Lula. Dediquei-lhe mais de trinta artigos. Prometi derrubá-lo em 2005. Fracassei. Agora prometo derrubá-lo em 2006. Chegaram a atribuir motivos ideológicos à minha campanha contra o presidente da República. Não é nada disso. Só tentei derrubá-lo por esporte. Há quem pesque. Há quem cace. Eu não. Eu tento derrubar Lula. Ele é minha paca. Ele é minha anta.

 

279

Giacom o Leopardi cham ou seu tem po de “tolo” e “estólido”.

Meu trabalho na im prensa consistia em repetir sem analm ente que m eu tem po era tolo e estólido.

Giacom o Leopardi cham ou os habitantes de sua terra natal de “asnos” e “tratantes”.

Meu trabalho na im prensa consistia em repetir sem analm ente que os habitantes de m inha terra natal eram asnos ou tratantes.

 

280

Nos prim eiros anos, eu soube conciliar m eu em penho com o j ornalista com m eu em penho com o pai.

Isso m udou a partir de 2005.

Fui perdendo gradualm ente o interesse pelos asnos e pelos tratantes de m inha terra natal. Só sobrou o interesse por m inha vida dom éstica.

O retrato de Nico, exam inando o presidente da República, era um a m aneira de reivindicar a suprem acia da vida privada sobre a vida pública.

A paternidade tornou-se m inha ideologia.

 

281

 

282

Na im agem anterior, Tito ergue Lula pelas orelhas.

 

283

Na m esm a retrospectiva em que publiquei o retrato de Nico exam inando Lula, publiquei tam bém o retrato de Tito erguendo Lula pelas orelhas.

Legenda do retrato:

Em setembro, meu filho mais velho conseguiu dar dezesseis passos.

Se o evento m ais m arcante de 2005 foi o nascim ento de Nico, os dezesseis passos de Tito foram o segundo evento m ais m arcante do ano.

 

284

Eu publiquei o retrato de Tito no Natal de 2005. David Cam eron publicou o retrato de Ivan no Natal de 2008.

Ivan era o filho m ais velho de David Cam eron. Assim com o Tito, ele tinha um a paralisia cerebral.

A escolha de publicar o retrato de Ivan tornou-se um dos tem as m ais m arcantes do debate eleitoral na Inglaterra. David Cam eron foi acusado de explorar politicam ente a paralisia cerebral do filho.

 

285

David Cam eron só deixou de ser acusado de explorar politicam ente a paralisia cerebral de Ivan quando ele, Ivan, m orreu.

 

286

Eu explorei a paralisia cerebral de Tito. Eu continuo a explorá-la.

 

287

O m otivo pelo qual passei a explorar a paralisia cerebral de Tito foi o assunto de um a de m inhas colunas:

Montaigne era um pai dedicado. Em um de seus mais célebres ensaios, ele discorreu sobre o afeto paterno, ostentando sua filha Léonor. Montaigne ostentou sua filha Léonor do mesmo jeito que eu ostentei meu filho Tito e Tom Cruise ostentou sua filha Suri. Léonor foi a Suri do Renascimento. Em outro de seus mais célebres ensaios, Montaigne argumentou que filosofar é aprender a morrer. Eu aprendi a morrer com a paternidade. Desde o dia em que Tito nasceu, fui totalmente anulado por ele. Perdi a vontade própria. Deixei de existir. Só um morto pode deixar de existir. Se filosofar é aprender a morrer, a paternidade é a filosofia do homem comum, a filosofia dos pobres de espírito, a filosofia das massas. É a única filosofia ao alcance de gente como Tom Cruise e eu.

 

288

Em 1635, nasceu Rum bertus, o prim eiro filho de Rem brandt van Rij n e sua m ulher, Saskia. Com m enos de dois m eses de idade, ele m orreu.

Em 1638, dois anos e m eio depois da m orte de Rum bertus, Rem brandt e Saskia tiveram um a filha. Seu nom e era Cornelia. Ela m orreu antes de com pletar duas sem anas.

Em 1640, depois das m ortes de Rum bertus e de Cornelia, Rem brandt e Saskia tiveram m ais um a filha. Assim com o a ante-rior, seu nom e era Cornelia. Assim com o a anterior, ela m orreu prem aturam ente, aos dois m eses.

Em 1641, depois das m ortes de Rum bertus, da prim eira Cornelia e da segunda Cornelia, Rem brandt e Saskia tiveram ou-tro filho. Na quarta e últim a tentativa, finalm ente deu certo. O m enino sobreviveu.

Nom e do sobrevivente: sim , Tito.

 

289

Rem brandt explorou seu filho Tito da m esm a m aneira que eu explorei m eu filho Tito.

Ele o retratou lendo. Ele o retratou escrevendo. Ele o retratou com um a lente de aum ento. Ele o retratou com um a espada e um a arm adura.

Quando Tito tinha catorze anos, Rem brandt pintou-o fantasiado com um a boina preta e um brinco de pérola. Quando Tito tinha dezessete anos, Rem brandt pintou-o fantasiado com um a boina verm elha e um a corrente de ouro. Quando Tito tinha dezenove anos, Rem brandt pintou-o com um a boina preta e um bigode. Quando Tito tinha vinte e dois anos, Rem brandt pintou-o com um a boina preta e um casaco de pele.

 

290

291

Na im agem anterior, Retrato de Tito Vestido de Monge.

O quadro é de Rem brandt van Rij n. É de 1660.

 

292

Tito foi o principal m odelo de Rem brandt.

Só o próprio Rem brandt, com seus setenta autorretratos — sem pre se olhando através do espelho, com sua im agem invertida —, posou para m ais obras do que ele.

Além de posar para retratos, Tito posou tam bém , desde o seu nascim ento, para outros quadros de seu pai, sobretudo aqueles inspirados em passagens bíblicas. Rem brandt representou-o com o José, com o Daniel, com o o j ovem Tobias.

Em O Evangelista Mateus e o Anjo, Tito é o anj o que sussurra na orelha do santo. Em Cristo Sentado Disputando com os Doutores, Tito é Jesus Cristo. Em Cristo Retornando do Templo com Seus Pais, Tito é Jesus Cristo. Em Jesus aos Doze Anos Diante dos Escribas, Tito é, novam ente, Jesus Cristo.

 

293

Para Rem brandt, Tito era o Todo.

 

294

Se a história da arte pode ser dividida entre aqueles que cultuam Deus e aqueles que cultuam o Hom em , com o argum entou John Ruskin, Rem brandt é o herói de quem , a exem plo de m im , só cultua Tito.

 

295

John Ruskin:

A meta dos maiores pintores é pintar as coisas mais nobres que eles veem — à luz do sol. A meta de Rembrandt era pintar as coisas mais ordinárias que ele via — à luz de vela.

Segundo John Ruskin, Rem brandt se distinguia pela vividez de seus escuros e pela inexpressividade de sua luz. A cor de seus quadros era a cor do esgoto, a cor da suj eira. Em vez de ilum inar a beleza, ele som breava a feiura.

Quando pintou a Virgem Maria indo para o céu, Rem brandt preocupou-se apenas em ressaltar “o pelo de um asno de um vendedor am bulante”. Quando pintou um am ontoado deform e de anj os deform es, ele m ostrou “pés, em vez de rostos, e vergonha, em vez de honra”. Quando pintou o Bom Sam aritano, ele posicionou “o Bom Sam aritano de costas, distante, e em prim eiro plano o cachorro do Bom Sam aritano”, igualm ente de costas, defecando.

 

296

Tito foi m eu Rem brandt.

Sua paralisia cerebral obscureceu tudo o que eu sem pre cultuara. Em particular, a literatura. O que se ilum inou — o que se tornou o único foco de m inha vida — foi o que ela tinha de m ais ordinário, de m ais dom éstico, de m ais fam iliar.

Naquele m om ento, eu via apenas os pés deform es de Tito dando seus dezesseis passos. E, em prim eiro plano, eu via Nico defecando.

 

297

A m elhor obra de Rem brandt, segundo John Ruskin, era seu autorretrato com o o Filho Pródigo na taverna, em que ele está vestido de cavaleiro, com sua m ulher, Saskia, sentada em seu j oelho.

Rem brandt olha para nós através do espelho, ostentando irreverentem ente sua intim idade, e ergue um copo de vinho, brindando à felicidade dom éstica.

 

298

299

Na im agem anterior, O Filho Pródigo na Taverna, tam bém conhecido com o Retrato do Artista com Sua Mulher Saskia, de Rem brandt van Rij n.

O quadro é de 1635.

Rem brandt é o Filho Pródigo. Saskia é a prostituta.

 

300

John Ruskin notou que Rem brandt, em O Filho Pródigo na Taverna, poderia ter representado a nobreza do am or e da vida conj ugal, porque era um dos m aiores pintores de todos os tem pos.

E o que ele fez?

Só ilum inou o que era m ais feio, evidenciando “os cantos e as pontas das coisas, e m esm o esses cantos e pontas, de m aneira im perfeita e deform e”.

 

301

O Hom em , para Rem brandt, é sem pre im perfeito e deform e. É um corpo que cai.

 

302

Assim com o Rem brandt, eu tam bém ostentava m inha intim idade e brindava à felicidade dom éstica.

Minha felicidade dom éstica era representada por um m enino im perfeito e deform e, capaz de dar, naquele m om ento, dezesseis passos sem cair.

 

303

Marcel Proust. Jean Santeuil:

Tínhamos um desejo tão grande de compreender as opiniões de John Ruskin sobre Rembrandt que, somente por este motivo, fomos estudar inglês.

O que m e fez com preender as opiniões de John Ruskin sobre Rem brandt foi a paralisia cerebral de Tito.

A paralisia cerebral de Tito tornou-se m inha segunda língua.

 

304

305

Na im agem anterior, Marcel Proust em Veneza, no Canal Grande, olhando para m inha j anela.

 

306

Marcel Proust viaj ou a Veneza em 1900, usando com o guia os livros de John Ruskin.

As cam inhadas por Veneza e os livros de John Ruskin tornaram -se os tem as centrais de seus próprios livros.

 

307

Nós viaj ávam os a Veneza todos os anos.

Se, no Rio de Janeiro, Tito cam inhava com sua terapeuta, em Veneza, durante as férias, ele só cam inhava com igo.

Ele ia à m inha frente, com seus passos cam baleantes. Eu ia colado às suas costas, pronto para segurá-lo em caso de queda.

 

308

Marcel Proust com entou que um a cam inhada por Veneza tinha o poder de “educar o espírito”, separando a “aristocracia intelectual” do “proletariado intelectual”.

Ao longo de Em Busca do Tempo Perdido, ele recorre constantem ente a analogias entre as m em órias “aristocráticas” de Veneza e as m em órias “proletárias” de seus personagens.

Nas ruas de Veneza, espelham -se as ruas de Com bray. Em um retrato de Gentile Bellini, espelha-se o rosto de Albert Bloch. Em um a pintura de Vittore Carpaccio, espelha-se o vestido de Albertine. Em um canal perdido, espelha-se a vida dom éstica de Aubervilliers.

 

309

No últim o volum e de Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust pisa em falso e quase cai no pátio do castelo de Guerm antes.

O incidente recorda-lhe suas cam inhadas pelas laj otas desiguais de Veneza.

Subitam ente, os eventos de seu passado encaixam -se com o um m osaico, e ele é tom ado por um sentim ento de felicidade.

Ele com preende que as m em órias de suas cam inhadas por Veneza — com as im agens e as analogias que elas evocavam — podiam dar um sentido à sua vida.

 

310

Naquele instante, Marcel Proust pensa em escrever um livro sobre seu passado, porque para interpretar os sentim entos era necessário, antes de tudo, transform á-los em ideias, “convertendo-os em seu equivalente intelectual”.

O livro que ele pensa em escrever é o próprio Em Busca do Tempo Perdido.

 

311

Em nossas cam inhadas por Veneza, Tito sem pre pisava em falso.

Quando isso ocorria, eu era tom ado por um sentim ento de felicidade. Im pedir um a queda de Tito em Veneza dava um sentido à m inha vida.

 

312

O livro que converte m eus sentim entos em seu equivalente intelectual é este aqui.

 

313

314

Na im agem anterior, Marcel Proust m orto.

O retrato é de Man Ray. É de 1922.

 

315

Nas sem anas anteriores à sua m orte, Marcel Proust lim itou-se a com er um croissant por dia.

Retornando a Tom m aso Rangone: o alim ento m ais danoso à saúde de Marcel Proust foi o croissant.

 

316

Para Marcel Proust, um a cam inhada por Veneza equivalia à leitura da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

 

317

Na Divina Comédia, Dante Alighieri está sem pre contando o núm ero de passos de um lugar até o outro:

Havia menos de cem passos entre nós.

Ou:

Demos dez passos para evitar a areia e as chamas.

Ou:

Caminhamos mil passos pela estrada solitária.

Ou:

Eles estavam a dez passos de distância.

Ou:

Três passos nos separavam.

Ou:

Depois de caminharmos mil passos, eles ainda estavam ao alcance de uma pedra atirada por um bom arremessador.

 

318

Cam inhando com Tito em Veneza, colado às suas costas, pronto para segurá-lo em caso de queda, eu contava cada um de seus passos com o se recitasse Dante Alighieri:

— Uno… Due… Tre… Quattro… Cinque… Sei… Sette… Otto… Nove… Dieci… Undici… Dodici… Tredici… Quatordici… Quindici… Sedici…

 

319

Quando Tito pisava em falso — e ele sem pre pisava em falso —, eu o im pedia de cair e voltava a contar do zero:

— Uno… Due… Tre… Quattro… Cinque… Sei… Sette… Otto… Nove… Dieci… Undici… Dodici… Tredici… Quatordici… Quindici… Sedici…

 

320

321

Na im agem anterior, Tito e eu nos preparam os para escalar — circularm ente — o m onte Purgatório, de Dante Alighieri.

O desenho é de Sandro Botticelli. É de 1480.

 

322

Os dezesseis passos que Tito deu em 28 de setem bro de 2005 transform aram -se, alguns m eses depois, em vinte e sete passos. Os vinte e sete passos transform aram -se, alguns m eses depois, em quarenta e quatro passos. Os quarenta e quatro passos transform aram -se, alguns m eses depois, em setenta e um passos. Os setenta e um passos transform aram -se, alguns m eses depois, em cento e dezoito passos.

Cada passo de Tito encerrava-se em si m esm o. Cada passo de Tito era um breve capítulo de sua história.

 

323

Em 11 de j aneiro de 2008, Tito deu trezentos e cinquenta e nove passos.

 

324

Com em orei o fato em um a coluna:

Edmund Hillary morreu em 11 de janeiro. No mesmo dia, meu filho deu trezentos e cinquenta e nove passos. Escalar o monte Everest, como fez Edmund Hillary, pode parecer um feito um tantinho mais notável do que dar trezentos e cinquenta e nove passos, como fez meu filho. Para quem tem uma paralisia cerebral como a dele, porém, dar trezentos e cinquenta e nove passos seguidos, sem ajuda, sem cair, sem espatifar os dentes, é um evento épico, pelo menos em nossa mitografia familiar. Se meu filho é Edmund Hillary, eu só posso ser seu sherpa, Tenzing Norgay. Ele cambaleia de um lado para o outro, com sua marcha incerta, progredindo lentamente de metro em metro, eu me mantenho na retaguarda, indicando-lhe o caminho menos acidentado e salvando-o das quedas. Os trezentos e cinquenta e nove passos de meu filho foram dados durante as férias, em Veneza. Já estamos planejando nossos próximos desafios. Em primeiro lugar, daremos trezentos e cinquenta e nove passos no Corcovado. Depois, trezentos e cinquenta e nove passos na Acrópole. Depois, trezentos e cinquenta e nove passos na Muralha da China. Depois, trezentos e cinquenta e nove passos no Deserto do Saara. Depois, trezentos e cinquenta e nove passos no monte Everest. Meu filho e eu daremos a volta ao mundo a pé, de trezentos e cinquenta e nove passos em trezentos e cinquenta e nove passos.

 

325

Os passos de Tito tornaram -se m inha unidade de m edida. Com ecei a calcular todos os nossos deslocam entos a partir deles.

Em Veneza, durante as férias, o cam inho de ida e volta até o Bar da Gino era percorrido em m il cento e noventa e quatro passos. O cam inho de nossa casa até a Fondam enta delle Zattere, passando pela Calle Querini, onde m orou Ezra Pound, era bem m ais curto: quinhentos e vinte e sete passos.

No Rio de Janeiro, o cam inho de nosso apartam ento até o Posto 9 tinha quatrocentos e oitenta passos. O cam inho de nosso apartam ento até a piscina do Hotel Fasano tinha quinhentos e setenta e um passos.

 

326

327

Na im agem anterior, Tito e eu cam inham os em Veneza. Eu conto seus passos, um por um .

 

328

Cito um a passagem de m eu quarto e últim o rom ance.

O protagonista, Pim enta Bueno, com o pé estropiado e incapaz de cam inhar, é carregado nas costas por seu servo, Azor:

PIMENTA BUENO: Conte o número de passos até Utiariti. AZOR: Um… Dois… Três…

PIMENTA BUENO: Q uero calcular a distância que nos separa de nossa meta. AZOR: … Seis… Sete… Oito…

PIMENTA BUENO: Devem faltar poucos quilômetros até lá. AZOR: … Dez… Onze… Doze…

PIMENTA BUENO: Estamos caminhando há mais de seis horas. AZOR: … Q uinze… Dezesseis… Dezessete…

PIMENTA BUENO: De acordo com meu mapa rodoviário, a esta altura já deveríamos ter chegado.

AZOR: … Vinte… Vinte e um… Vinte e dois… PIMENTA BUENO: Desconfie sempre dos mapas brasileiros. AZOR: … Vinte e quatro… Vinte e cinco… Vinte e seis… PIMENTA BUENO: Erramos invariavelmente todas as medidas. AZOR: … Vinte e oito… Vinte e nove… Trinta… PIMENTA BUENO: Falta-nos raciocínio matemático. AZOR: … Trinta e dois… Trinta e três… Trinta e quatro… PIMENTA BUENO: Denotamos total falta de familiaridade com os números. AZOR: Trinta e seis ou trinta e sete?

PIMENTA BUENO: Como assim?

AZOR: Perdi a conta.

PIMENTA BUENO: Perdeu a conta?

AZOR: Esqueci se dei trinta e seis ou trinta e sete passos. PIMENTA BUENO: Comece novamente.

AZOR: Do zero?

PIMENTA BUENO: Do zero.

AZOR: Um… Dois… Três…

 

329

O rom ance era intitulado Contra o Brasil.

Foi publicado em 1998, dois anos antes do nascim ento de Tito e dez anos antes que ele desse seus trezentos e cinquenta e nove passos.

 

330

Contando os passos de Tito em Veneza, eu podia até raciocinar, m as só “de vez em quando”, e podia até ter conhecim entos, m as apenas os que era capaz de colher “sem m e curvar e sem fazer grande em penho”.

Contando os passos de Pim enta Bueno em Mato Grosso, por outro lado, eu só era capaz de exibir um a soberba academ icista que podia “ser ensinada a qualquer escolar em m enos de um a sem ana”.

 

331

Para Marcel Proust, a “vida verdadeira, a única vida plenam ente vivida, era a literatura”. Para m im , a vida verdadeira, plenam ente vivida, passou a ser Tito.

Depois de seu nascim ento, repudiei m inha literatura e fui ganhar dinheiro.

 

332

Cito-m e:

Rimbaud espancava Verlaine. Eu invejo Rimbaud. Eu gostaria de ter espancado Verlaine. Eu gostaria de ter espancado qualquer poeta simbolista. Verlaine vingou-se de Rimbaud alguns anos mais tarde, em um quarto de hotel, dando-lhe dois tiros. Eu também invejo Verlaine. Faltava-lhe apenas um bocadinho de pontaria. Em 1875, Rimbaud repudiou a literatura e foi ganhar dinheiro. Em apenas dezesseis anos, ele fez tudo o que uma pessoa dotada de um pingo de honradez poderia querer fazer: entranhou-se no deserto etíope; comprou e vendeu escravos; negociou armas dos mais variados calibres, proporcionando o massacre de um monte de inocentes; pegou um tumor no joelho e teve a perna amputada; morreu sozinho em Marselha, com muitas dores e implorando ajuda a Deus, que caprichosamente se recusou a ajudá-lo.

 

333

Quando Tito deu trezentos e cinquenta e nove passos, em 11 de j aneiro de 2008, eu ganhava dinheiro na Veja, escrevendo um a coluna por sem ana. Eu ganhava dinheiro tam bém na Veja Online, fazendo um com entário por sem ana, e no Manhattan Connection, participando de um program a de TV por sem ana.

Eu m e tornei o Rim baud da paralisia cerebral. O j ornalism o foi m inha Etiópia.

 

334

335

Na im agem anterior, o m aterial de propaganda do program a T4 com parando o gasto diário do Estado com um inválido — 5,50 reichsmarks — ao gasto diário de um a fam ília com cinco m em bros — os m esm os 5,50 reichsmarks.

 

336

Alfred Hoche foi um dos inspiradores do program a T4.

Em 1920, em um opúsculo intitulado O Aniquilamento da Vida Inútil de Ser Vivida, ele calculou o peso financeiro da invalidez:

Estimei que o gasto médio anual para se manter um idiota tem sido de mil e trezentos marcos. Q ualquer um pode avaliar a grande quantidade de recursos subtraídos da riqueza nacional para este fim improdutivo.

 

337

Vinte anos depois, os núm eros do program a T4 foram detalhadam ente analisados pelos econom istas do Terceiro Reich.

Um a tabela conservada no centro de eutanásia de Schloss Hartheim — sim : com andado por Franz Stangl — calculava que o aniquilam ento de 70.273 inválidos até 1º de setem bro de 1941 produzira um a econom ia diária de 245.955,50 reichsmarks.

Isso equivalia, em um período de dez anos, a 400.244.520 quilos de alim entos, entre os quais: 189.737.160 quilos de batatas, 13.492.440 quilos de carnes e salsichas, 3.794.760 quilos de m argarina, 531.240 quilos de bacon, 12.649.200 quilos de farinha, 5.902.920 quilos de geleia e, por últim o, 33.731.040 ovos.

 

338

Retornando a Tom m aso Rangone: os alim entos m ais danosos à saúde dos paralisados cerebrais aniquilados pelo program a T4 foram aqueles que eles deixaram de com er.

 

339

No processo que m ovem os contra o hospital de Veneza, tivem os de contabilizar — com o os econom istas do Terceiro Reich — todo o dinheiro gasto com a paralisia cerebral de Tito.

Entre fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, equoterapia, assistente de classe, ortopedista, neurologista, anestesista, exam es m édicos, botox, com unicador, andador, calhas ortopédicas, hospital de Nova York, hospital de Boston e despesas legais, Tito custava, em m édia, 230 reais por dia.

Isso equivalia, em dez anos, a 3.497.916 ovos.

 

340

Os paralisados cerebrais aniquilados pelo program a T4, em virtude do dinheiro que eles tom avam da sociedade, eram cham ados de “sanguessugas” ou de “parasitas”.

O m eu parasita foi Tito.

 

341

Segundo Ezra Pound, os verdadeiros parasitas que tom avam dinheiro da sociedade eram os j udeus.

Quando lhe encam inharam um a carta pedindo seu apoio para proteger um pianista j udeu, perseguido pelo nazism o, ele respondeu:

Indo direto ao ponto / USURA é o motivo pelo qual o homem ocidental periodicamente vomita os judeus / o JUDEU é um parasita por princípio / É necessário defender-se contra os parasitas / HÁ quem se contente em ser um cordeiro / mas o HOMEM que rejeita ser um G OY do tosquiador judeu tem de se defender.

 

342

Eu m e contentava em ser o cordeiro de Tito. Eu m e contentava em ser tosquiado por m eu usurário j udeu.

 

343

Além de cham ar os j udeus de “parasitas”, Ezra Pound cham ou-os tam bém de “oleosos”, “selvagens”, “indolentes”, “im undos”, “verm es”, “piolhos”, “tum ores”, “pestes”, “pragas”, “serpentes”, “verrugas” e “sífilis”.

 

344

No Canto XLV, publicado em 1936, Ezra Pound representou a arquitetura de Pietro Lom bardo com o o Bem e a usura com o o Mal:

Pietro Lombardo não se fez com a usura

Nas m ensagens que gravou de 1941 a 1943 para a rádio Rom a, ele passou a representar Benito Mussolini com o o Bem e os j udeus com o o Mal.

Para Ezra Pound, a usura era um a tram a j udaica para escravizar o m undo — a “j udeusura”. O “sistem a m onetário hebraico”, segundo ele, “era o m ais m edonho instrum ento de usura que existia”, e a “guerra dos j udeus contra a Europa” era, na realidade, um a “guerra da usura contra a hum anidade”. Quando um país m orria, argum entou Ezra Pound, os “j udeus m ultiplicavam -se com o bactérias em um cadáver”. Por isso, ele recom endava um a “purga” contra os j udeus, ou um “pogrom lá no alto”.

 

345

346

Na im agem anterior, Ezra Pound cam inha na Fondam enta delle Zattere, em Veneza.

 

347

Em 6 de agosto de 2009, fui cam inhar com Tito na Fondam enta delle Zattere.

Naquela viagem , eu decidira renunciar ao nosso velho apartam ento no Palazzo Barbaro Wolkoff.

A fim de acum ular dinheiro para Tito — m eu usurário j udeu —, eu teria de perm anecer para sem pre no Rio de Janeiro, trabalhando em j ornalism o, e nunca m ais poderia voltar a m orar em Veneza.

 

348

Quando chegam os à Fondam enta delle Zattere, recebi um telefonem a de m eu advogado, Rom olo Bugaro.

Ele disse:

— 3.012.761 euros!

 

349

Rom olo Bugaro telefonou-m e novam ente um m inuto m ais tarde, corrigindo a conta:

— 3.162.761 euros!

 

350

Depois de sete anos, o processo contra a dottoressa F e o hospital de Veneza finalm ente chegara ao fim .

Tito ganhara 3.162.761 euros.

No cam inho de volta da Fondam enta delle Zattere, Tito e eu passam os pela Calle Querini, onde m orou Ezra Pound.

O m eu parasita deixara de ser um parasita.

 

351

352

Na im agem anterior, a reportagem de Il Gazzetino sobre o processo de Tito contra a dottoressa F e o hospital de Veneza.

Manchete:

“Menino ficou tetraplégico, ressarcim ento m ilionário”.

 

353

A reportagem de Il Gazzetino inform ava que o tribunal civil de Veneza condenara o hospital de Santi Giovanni e Paolo ao pagam ento de m ais de 3.000.000 de euros de ressarcim ento a um m enino nascido em setem bro de 2000.

A reportagem inform ava tam bém que o tribunal acolhera integralm ente os argum entos apresentados pelo advogado Rom olo Bugaro, apontando a “im propriedade da conduta do pessoal m édico” e responsabilizando a dottoressa F pela “am niotom ia absolutam ente contraindicada” e pelo “atraso na retirada do feto”.

 

354

Antonio, o m ercador de William Shakespeare, livra-se de seu débito com Shy lock, o usurário j udeu, porque é representado no tribunal de Veneza por Portia, um a herdeira travestida de advogado de Pádua.

Eu m e livrei de m eu débito com Tito porque no tribunal de Veneza fui representado por Rom olo Bugaro, um rom ancista travestido de advogado de Pádua.

 

355

Em seus prim eiros dez anos, Tito custou-m e 3.497.916 ovos.

Daquele dia em diante, ele passou a produzir seus próprios ovos, com o o filho de Neil Young em sua granj a.

 

356

Marcel Proust, no últim o volum e de Em Busca do Tempo Perdido, é tom ado por um sentim ento de felicidade porque a m em ória de suas cam inhadas pelas laj otas desiguais de Veneza perm ite-lhe “ignorar as vicissitudes do futuro” e “tornar-se indiferente à m orte”.

No cam inho de volta da Fondam enta delle Zattere, depois de receber o telefonem a de Rom olo Bugaro, eu tam bém fui tom ado por um sentim ento de felicidade. De um m om ento para o outro, o futuro de Tito passou a prescindir de m im . Eu j á podia m orrer.

 

357

 

358

Na im agem anterior, o funeral de Ezra Pound, em Veneza.

 

359

Em 1945, Ezra Pound foi preso e condenado por seus program as de rádio contra os parasitas j udeus.

Depois de doze anos detido no hospital penitenciário de Saint Elizabeth, em Washington, ele foi solto e transferiu-se para Veneza, onde perm aneceu até a m orte.

Eu passei m enos tem po no Rio de Janeiro do que Ezra Pound passou em Saint Elizabeth.

Depois de apenas oito anos, com ecei a pensar em retornar a Veneza e perm anecer ali até a m orte.

 

360

Tito estava bem no Rio de Janeiro. Nico estava bem no Rio de Janeiro. Anna estava bem no Rio de Janeiro. Eu estava bem no Rio de Janeiro.

Assim com o voltávam os a contar do zero sem pre que Tito pisava em falso e interrom pia sua m archa, porém , Anna e eu precisávam os voltar a Veneza e, circularm ente, retom ar nossa vida de seu ponto de partida.

 

361

Agora revej o os retratos de nossos últim os m eses no Rio de Janeiro.

Tito com em ora seu aniversário em um a churrascaria. Nico j oga futebol na escolinha do Flam engo. Tito segue um bloco de carnaval com seu andador. Nico avista um a baleia da j anela de nosso apartam ento. Tito está a cam inho da escola em seu triciclo. Nico acom panha a retirada de um cadáver do porta-m alas de um autom óvel.

Nós estávam os bem no Rio de Janeiro. Nós estávam os prontos para ir em bora.

 

362

363

Na im agem anterior, Tito em seu triciclo.

O triciclo foi o quarto m eio de transporte de Tito.

 

364

Desem barcam os em Veneza em 4 de agosto de 2010.

 

365

Mark Twain desem barcou em Veneza em 20 de j ulho de 1867.

Ele com entou:

Esta velha cidade, a Rainha do Adriático, é realmente pitoresca. Se uma pessoa quer ir a uma igreja, a um teatro ou a um restaurante tem de tomar uma gôndola. Deve ser o paraíso dos aleijados, pois ninguém aqui precisa usar as pernas.

 

366

Veneza era um paraíso para o m eu aleij ado.

Pela prim eira vez, Tito podia transitar livrem ente de um lado para o outro, m ovendo-se de vaporetto.

Contrariam ente a Mark Twain, ele usava tam bém as pernas.

Acom panhado apenas por um a pessoa contratada para aj udá-lo a subir e descer as pontes, Tito cam inhava diariam ente com seu andador, por m ais de quatro horas, passando por igrej as, teatros e restaurantes.

 

367

Durante a noite, segundo Mark Twain, Veneza conservava aquele ar de “grandeza de quinhentos anos atrás”. Na penum bra, ele ainda podia im aginá-la com suas “Desdêm onas e seus Shy locks”, com “seus valentes em plum ados e suas belas senhoras”, com “suas nobres frotas e seus guerreiros retornando vitoriosam ente das batalhas”.

Durante o dia, porém , Veneza só revelava os sinais de sua queda. Mark Twain cham ou-a de “decadente”, “abandonada”, “esfarrapada”, “em pobrecida”, “hum ilhada”, “esquecida” e “com pletam ente desim portante”. A Rainha do Adriático, à luz do sol, recordava-lhe “um vilarej o alagado do Arkansas”.

 

368

Tito cam inhava por Veneza exatam ente com o se cam inhasse em um vilarej o alagado do Arkansas, alheio à sua glória e alheio à sua queda. O que lhe interessava era passear sozinho. O paraíso era um lugar em que Tito podia cam inhar sem m im .

 

369

370

Na im agem anterior, Tito e Nico durante um alagam ento em Veneza.

 

371

Christopher Nolan tinha um a paralisia cerebral.

Ele publicou seu livro de m em órias, Under the Eye of the Clock, com m enos de vinte e dois anos de idade.

Ao ser prem iado pelo livro, ele anotou:

“Este é um evento histórico. Um aleij ado está conquistando seu lugar na cena literária m undial.”

 

372

Eu tam bém trabalhava em um livro de m em órias sobre Tito.

O plano era term iná-lo com o relato de um a escalada do m onte Everest, onde Tito daria trezentos e cinquenta e nove passos.

O m eu aleij ado conquistaria o m undo. Um evento histórico.

373

 

Christopher Nolan era m udo.

Em seus prim eiros anos, ele só se com unicava m ovendo os olhos para cim a. Quando ele m ovia os olhos para cim a, seus pais sabiam que ele estava dizendo “sim ”.

Sim : ele era capaz de dizer apenas “sim ”.

 

374

Aos onze anos, o pai de Christopher Nolan prendeu-lhe um a haste na testa.

A partir daquele instante, ele passou a se com unicar por escrito, baquetando com a ponta da haste o teclado de um a m áquina de escrever.

 

375

 

376

Na im agem anterior, Christopher Nolan e seu pai Joseph Nolan.

377

 

Em seu livro de m em órias, Christopher Nolan narrou com o os outros m eninos da Mount Tem ple School, em Dublin, o viam .

Eles o cham avam de “esquisito”, de “idiota”, de “retardado”. Eles se perguntavam “se o aleij ado usava fralda”. Eles faziam com entários sobre sua “debilidade m ental”. Eles se negavam a adm itir que alguém com o ele estudasse em um a escola para m eninos norm ais.

 

378

O isolam ento de Chistopher Nolan na Mount Tem ple School inspirou o R.E.M. a com por um a m úsica vergonhosam ente sentim ental:

Those kids are looking at me

They’re laughing

What do I do?

What can I say?

I’m not supposed to be like this

But it’s okay

 

379

Com o tem po, vendo-o todos os dias, os m eninos da Mount Tem ple School habituaram -se a Christopher Nolan.

Com Tito tam bém foi assim .

O j ornaleiro do Cam po San Vio via-o todos os dias. O velho quitandeiro via-o todos os dias. O barbeiro via-o todos os dias. O am igo de m inha m ulher via-o todos os dias. O hom em com os dois cachorros via-o todos os dias.

Os m oradores de nosso vilarej o alagado do Arkansas habituaram -se a Tito.

 

380

O plano de conquistar o m undo com Tito, de trezentos e cinquenta e nove passos em trezentos e cinquenta e nove passos, ruiu rapidam ente.

Agora m eu único propósito era ilhar-m e em um a pequena área que se estendia da ponte da Accadem ia ao Cam po della Salute, delim itada pelo Canal Grande e pela Fondam enta delle Zattere.

Tito m em orizara todas as laj otas desiguais de nosso vilarej o. A m em ória dessas laj otas desiguais im pedia suas quedas. Em vez de trilhar novos cam inhos, eu am bicionava apenas que ele trilhasse velhos cam inhos. Em vez de pisar em terreno desconhecido, eu am bicionava apenas que ele pisasse em terreno conhecido.

O m eu m undo passara a term inar no ponto em que term inavam os passos de Tito.

 

381

Com o disse Gertrude Stein sobre Ezra Pound: “eu vivia em um vilarej o, e o m eu m undo se tornara um a espécie de vilarej o”.

 

382

383

Na im agem anterior, Tito na Fondam enta delle Zattere.

Durante o outono e o inverno, ele pode ir desacom panhado à escola, porque há ram pas nas pontes.

 

384

Na Mount Tem ple School, Christopher Nolan estudou com os m em bros do U2.

Eles lhe dedicaram um a m úsica, intitulada Miracle Drug:

I’ve had enough of romantic love

I’d give it up, yeah, I’d give it up

For a miracle drug

 

385

A m úsica é um a hom enagem ao rem édio que atenuou a espasticidade de Christopher Nolan, aj udando-o a datilografar com a testa.

Nom e do rem édio: Lioresal.

 

386

O U2 cita o Evangelho de Mateus em Miracle Drug:

In science and in medicine

“I was a stranger, you took me in”.

A m úsica reproduz a passagem do Juízo Final em que Jesus Cristo, assim com o Josef Mengele, encam inha à direita aqueles que m erecem ser salvos e à esquerda aqueles que m erecem arder no fogo eterno.

Os cientistas e os m édicos que desenvolveram o Lioresal, segundo o U2, m ereciam ser encam inhados ao Reino dos Céus.

 

387

Tito nunca tom ou Lioresal. Ele nunca tom ou rem édio algum . Ninguém foi capaz de desenvolver um rem édio que pudesse ser-lhe útil. O rem édio m ilagroso de Christopher Nolan foi desenvolvido noventa anos atrás. Os portadores de paralisia cerebral continuam a ser tratados com rem édios de noventa anos atrás.

 

388

 

389

Na im agem anterior, Abbott and Costello Meet Dr. Jekyll and Mr. Hyde.

Lou Costello é transform ado em um rato de laboratório.

 

390

Dois anos depois do nascim ento de Tito, os cientistas do Medical College of Georgia aplicaram células-tronco em ratos de laboratório com paralisia cerebral e conseguiram recuperar um a parte de seus m ovim entos.

 

391

Os resultados dos prim eiros experim entos com ratos de laboratório fizeram com que as células-tronco passassem a ser vistas com o um rem édio m ilagroso.

Na China, na Rússia, na Costa Rica, na República Dom inicana, na Turquia e em Chipre surgiram consultórios m édicos anunciando a cura da paralisia cerebral com células-tronco provenientes da pele, da m edula espinhal, do sangue, da gordura, do tecido anim al, da placenta e de fetos abortados.

O custo m édio do tratam ento nesses consultórios m édicos, segundo um estudo realizado em 2008, era de 21.500 dólares.

 

392

Dez anos depois do nascim ento de Tito, um docum ento publicado em The Scientist alertou contra os riscos do “turism o das células-tronco”. De acordo com os autores do docum ento, os portadores de paralisia cerebral que peregrinavam a esses consultórios m édicos em busca de um rem édio m ilagroso expunham -se a tratam entos “desprovidos de provas científicas, de regras e potencialm ente perigosos”.

O docum ento de The Scientist cham ou as curas com células-tronco de “charlatanism o m édico”. O rem édio m ilagroso era um a “fraude”.

 

393

O rem édio m ilagroso de Christopher Nolan tam bém foi um a fraude.

Ele m orreu antes de com pletar quarenta e quatro anos, com um naco de salm ão entalado na garganta.

Retornando a Tom m aso Rangone: o alim ento m ais danoso à saúde de Christopher Nolan foi o salm ão.

 

394

395

Na im agem anterior, Tom m aso Rangone no portal da Igrej a de San Giuliano.

A escultura é de Jacopo Sansovino. É de 1554.

Tom m aso Rangone está segurando um ram o de guaiacum , o principal ingrediente de seu rem édio m ilagroso contra a sífilis.

 

396

Christopher Nolan, em suas m em órias, sem pre se com para a Jam es Joy ce.

Se um trata da paralisia cerebral, o outro trata da paralisia geral, provocada pelo bacilo da sífilis.

 

397

A Dublin de Jam es Joy ce, a exem plo da Veneza de Tom m aso Rangone, era povoada por m arinheiros sifilíticos, soldados sifilíticos, prostitutas sifilíticas.

Em Ulisses, Jam es Joy ce usou a paralisia m orbosa provocada pelo bacilo da sífilis com o um sím bolo da paralisia intelectual e m oral de seu tem po. O episódio do bordel de Bella Cohen, narrado, segundo ele m esm o, “em um ritm o que é o ritm o da ataxia locom otora”, é o que m elhor representa esse m undo im obilizado.

Tito foi o m eu bordel de Bella Cohen.

 

398

O tem a de Ulisses é a paralisia. O tem a de Finnegans Wake é a queda.

Há a queda de Hum phrey Chim pden Earwicker — no Phoenix Park. Há a queda de Hum pty Dum pty — o ovo. Há a queda de Shaun — no rio. Há a outra queda de Shaun — igualm ente rio. Há a queda de Finn MacCool — de patins. Há a queda de Eva — no Jardim do Éden. Há a queda de Issy e a queda de Troia.

Ninguém sabe cair m elhor do que Jam es Joy ce. Só Lou Costello.

 

399

Há m ais um a queda em Finnegans Wake: Tim Finnegan, em briagado, cai da escada e m orre.

Depois ressuscita, com o Tito.

 

400

Em Finnegans Wake, Jam es Joy ce baseou-se na teoria de Giam battista Vico, segundo o qual “a História segue determ inadas fases, e a lei que a governa repete-se eternam ente”. A hum anidade, para Giam battista Vico, passa da Idade dos Deuses à Idade dos Heróis, da Idade dos Heróis à Idade dos Hom ens, da Idade dos Hom ens à Idade dos Deuses, e assim por diante, repetindo invariavelm ente, com seus cursos e recursos, o m esm o ciclo de nascim ento, progresso, queda e ressurreição.

A Storia Ideal Eterna de Giam battista Vico é assim : circular.

 

401

Agora Tito e eu estam os no Cam po Santi Giovanni e Paolo.

Eu quero m ostrar-lhe o hospital de Veneza. Eu quero voltar — circularm ente — ao local de seu nascim ento. Eu quero reviver sua prim eira queda.

 

402

Tito cam inha sozinho rum o ao hospital de Veneza. Eu cam inho ao lado dele, pronto para segurá-lo em caso de queda.

 

403

Conto os passos de Tito com o se recitasse Dante Alighieri:

— Uno… Due… Tre… Quattro… Cinque… Sei… Sette… Otto… Nove… Dieci… Undici… Dodici… Tredici… Quattordici… Quindici… Sedici…

 

404

Tito e eu passam os pela estátua de Bartolom eo Colleoni.

John Ruskin. As Pedras de Veneza:

Não creio que exista no mundo uma escultura mais gloriosa do que a estátua equestre de Bartolomeo Colleoni.

 

405

406

Na im agem anterior, a estátua equestre de Bartolom eo Colleoni, de Andrea Verrocchio.

A fotografia é de John Ruskin. É de 1871.

 

407

Se Andrea Verrocchio fez a estátua equestre m ais gloriosa do m undo, posso dizer que eu fiz o m enino com o pé equino m ais glorioso do m undo.

 

408

Tito continua a cavalgar rum o ao hospital de Veneza:

— … Duecentododici… Duecentotredici… Duecentoquatordici… Duecentoquindici… Duecentosedici… Duecentodiciasette…

 

409

Depois de duzentos e dezoito passos, Tito pisa em falso e quase cai nas laj otas desiguais do Cam po Santi Giovanni e Paolo.

Eu evito sua queda e volto a contar do zero.

 

410

Giacom o Leopardi, em seu últim o poem a, intitulado A Giesta, narra a queda de um a m açã sobre um form igueiro, que destrói em um instante o resultado de todo o engenho e de toda a fadiga das form igas.

Eu sou a form iga de Tito. Suas quedas recordam -m e perm anentem ente da precariedade e da transitoriedade de tudo o que eu tentei construir.

 

411

Agora Tito e eu estam os diante da Scuola Grande di San Marco, porta de entrada do hospital de Veneza.

Mostro-lhe a m elhor escultura de sua fachada, Guarigione di Aniano, em que Marcos, o Evangelista, está aplicando seu rem édio m ilagroso em um sapateiro m utilado.

 

412

413

Na im agem anterior, Guarigione di Aniano.

A escultura é de 1488. É de Tullio Lom bardo.

Tullio Lom bardo era filho de Pietro Lom bardo.

 

414

Assim com o Pietro Lom bardo realizou a Scuola Grande di San Marco com seu filho Tullio, eu estou realizando este livro com m eu filho Tito.

É só o que eu posso realizar.

 

415

Tito e eu subim os a ram pa para inválidos e entram os na Scuola Grande di San Marco.

416

Passam os pela portaria do hospital de Veneza e atravessam os o antigo átrio da Scuola Grande di San Marco, que está deserto.

 

417

— … Trecentocinquantaquattro… Trecentocinquantacinque… Trecentocinquantasei… Trecentocinquantasette… Trecentocinquantotto… Trecentocinquantanove…

 

418

Chegam os ao claustro em que vi Tito pela prim eira vez, dentro da incubadora, com um tubo no nariz e o rosto verde.

 

419

420

Na im agem anterior, Tito no claustro do convento dos Dom inicanos.

 

421

Quando vi Tito na incubadora, no dia de seu nascim ento, com preendi que o am aria e o acudiria para sem pre.

De lá para cá, nada m udou.

Eu o am arei para sem pre. Eu o acudirei para sem pre.

 

422

Pietro Lom bardo e seu filho Tullio Lom bardo foram contratados, em 1483, para esculpir a tam pa do sarcófago de Dante Alighieri.

Eles retrataram Dante Alighieri com aspecto m editativo, com o dedo m indinho no canto da boca, com pondo os versos da Divina Comédia.

 

423

Eu continuo a contar os passos de Tito com o se recitasse Dante Alighieri:

— … Quattrocentodiciotto… Quattrocentodicianove… Quattrocentoventi… Quattrocentoventuno… Quattrocentoventidue… Quattrocentoventitre…

 

424

Quatrocentos e vinte e quatro passos.

Tito nunca cam inhou tanto assim . Um bom arrem essador ainda podia atingi-lo com um a pedra, com o disse Dante Alighieri no Canto III de seu Purgatório. Mas eu, com o dedo m indinho no canto da boca, m edito que um bom arrem essador pode atingir qualquer pessoa com um a pedra, por m ais que ela cam inhe.

Tito retom a sua cam inhada. Eu paro de contar seus passos.