A questão de Sócrates: uma introdução
Start
A questão
de Sócrates: uma introdução
ODYSSEUS
q u estã o de Só c r a t e s :
UMA INTRODUÇÃO
A questão de Sócrates:
um a introdução
E k k e h a r d M a r t e n s
Tradução:
Vicente Sampaio
2013
PRÓLOGO
Felizmente, permanece firme o interesse por uma apresen
tação introdutória da "questão de Sócrates”. Por isso, a editora
Reclam decidiu fazer, com base na segunda edição, uma nova
publicação do título Sócrates: uma introdução. O s capítulos 1 a 9
foram revistos e corrigidos no tocante a detalhes. Além disso,
está acrescentado o capítulo 10, “M étodos do filosofar soerá-
tico”. N ele é apresentado de maneira diagonal, distinguindo-se
os planos oral e escrito, o "diálogo socrático" em seu amplo pa
norama de pensamento fenomenicamente orientado, herme
nêutico, analítico, dialético e especulativo. Dados os conteúdos
característicos do bem-viver, do saber, do agir, do esperar e do
existir humano, somados à atitude de abertura, o desenho da
“questão de Sócrates" ganha seu contorno final.1
1 [N .T .] “A questáo de Sócrates” (die Sadie des Sokrates) é a expressão-chave de toda a interpretação de Sócrates elaborada nesta obra. C o m o se h á de ver logo ao início do capitulo 1, mas tam bém em vários outros m om entos ao longo do livro, a riqueza dessa expressão repousa na palavra Sache. E m seu uso mais frequente, ela significa (1) “coisa”, tan to em sentido mais vago e abstrato ("esse com portam ento é um a coisa feia") quanto em sentido concreto ("esse arm ário é um a coisa feia”). M as Sache tam bém pode significar (2 ) questão, assunto, tem a; (3) circunstância; situação, contexto; (4 ) causa judicial; (5 ) causa ideológica; objeto de interesse; (6 ) ocupação, atividade. O autor emprega Sache para tra duzir πράγμα. Trata-se de um a ótim a tradução, pois a palavra grega apresenta um a polissemia bastante semelhante. Infelizmente, não há no vernáculo um a palavra que recupere bem esta polissemia de πράγμα/όίπίκ. A fim de tentar reproduzir, ainda que de maneira insuficiente, os jogos polissêmicos visados pelo autor, optam os em português pelos termos "questão" ou “coisa em questão”, con forme o contexto. Sem pre que estes term os aparecerem, portanto, o leitor deve subentender ao mesmo tem po as noções de “atividade” e "causa pessoal, objeto de interesse”. Sem pre que pareceu necessário, as citações em alem ão dos tre chos em língua estrangeira (sobretudo o grego) foram cotejadas com o original para corrigir eventuais discrepâncias, às vezes inevitáveis na tradução indireta.
Prólogo I 7
CAPÍTULO I
S ó c r a t e s e o s o c r a t is m o
"Assim, talvez alguns de vós queiram agora objetar: 'M as,
Sócrates, qual é a tua questão? (τό σόν τί έστι πράγμα;) Donde
surgiram essas difamações contra ti? Pois, se tu não fizesses
nada que te dá destaque entre os outros, não teriam surgido
essa fama e esse falatório; deveras não o teriam, se não fizesses
nada mais que o resto das gentes. Diga-nos, pois, o que é isso,
para que não te julguem os a esmo’." (Platão, Apologia 20c)1
A questão de Sócrates, sua atividade ou seu "negócio”, tal
como o mais das vezes Schleierm acher traduz o polissêmico
πράγμα, é objeto de debate no tribunal ateniense. Sócrates
atraíra para si, por causa de sua mania de perguntar "o que é
isso?” tanto a fama de sofista de idéias modernas, que expu
nham a juventude a riscos, como a de sacrílego. Em contra
partida, ele mesmo entende sua atividade como exortação ao
autoconhecimento da própria ignorância e vê nisso a verdadeira
sabedoria humana. Mesmo após a condenação e a execução de
Sócrates, sua questão permaneceu controversa e enigmática;
ela o é até hoje. E , todavia, tem despertado sem cessar o in
teresse filosófico. É patente que Sócrates fascina todo aquele
que se ocupa de sua questão, sem que alguém, ao fazê-lo, possa
entrever de imediato ao que está se aventurando.
1 [N .T .] O sentido de “coisa” (sache/π ρά γμ α ) assem elha-se tan to ao de "ativi dade", "ocupação”, quanto ao de "objeto de interesse". P o r isso, a frase citada tam bém podería ser tradu zida assim : "M as, S ó crates, e a tu a atividade, qual é ela?" C f. n o ta d o tradu tor ao Prefacio.
Sócrates e o socratismo I Q
N a "Defesa" de Platão, Sócrates submete seu próprio agir
à sua célebre e controversa pergunta "o que é isso?” Ao fazê-lo,
ele constrange as pessoas presentes no tribunal a se ocuparem
com tal pergunta de uma maneira não meramente exterior.
Seu olhar se dirige para o que efetivamente sua atividade é e
não para o que ela apenas parece ser.
Tam bém em outras ocasiões, a atividade questionadora
de Sócrates visa inspecionar a coisa mesma que está em ques
tão, sem se dar por satisfeito com a mera aparência. Ele per
gunta pela essência de sua atividade, e sua atividade consiste
em perguntar pela essência. D ito com mais precisão, Sócrates
pergunta pela essência da "virtude” ou pelo que o "bem-viver"
efetivamente é. Ademais, não apenas pergunta por isso, mas
também vive de acordo com isso. Em Sócrates, a própria ques
tão e a sua realização formam uma unidade; da ambivalência
de πράγμα como “atividade" e “questão” - em alemão, Sache,
igualmente ambivalente - resulta um único e bom sentido.
Se, por fim, ele também exorta os demais a não se darem
por satisfeitos com o viver aparentemente bem e a transforma
rem não apenas suas opiniões, mas também suas vidas, a contí
nua provocação de Sócrates torna-se compreensível, bem como
o contínuo interesse filosófico por sua questão. O que, portanto,
Sócrates tem a nos dizer? O que ele tinha para dizer, confiou
apenas ao diálogo direto. Ele mesmo não escreveu nada. Soma-se
a isso o fato de que as diferentes descrições de Sócrates feitas por
seus contemporâneos oferecem visões muitíssimo diversas, que,
desde então, têm evocado sem cessar interpretações variadas.
Assim, como é possível conseguir acesso à sua questão?
D e imediato, sugere-se buscar uma descrição externa da
atividade de Sócrates, tal qual presumivelmente a presencia
ram, como testemunhas oculares, os próprios atenienses. En
10 I A questão de Sócrates
contramos um relato confiável de uma testemunha visual em
Xenofonte (Memoráveis I 1,10): “Sua vida transcorria diante
dos olhos de todos. De manhã, ele visitava os calçadões e as
praças. N as horas em que o mercado estava cheio de gente,
podia-se achá-lo lá. O restante do dia, ele sempre passava onde
esperava encontrar a maioria das pessoas". Sócrates levava uma
vida como a maioria dos cidadãos de sua época. Segundo H e
gel, em um quadro algo exagerado, os atenienses relegavam o
trabalho aos escravos, enquanto eles mesmos "tagarelavam uns
com os outros". E continua: “H oje em dia, um viver assim à
toa absolutamente não se adequaria aos nossos costumes. Ora,
Sócrates também ficava a flanar por aí e vivia conversando
sobre noções éticas"2.
Por causa de seu “viver à toa", Sócrates foi, ainda em vida,
protagonista de uma comédia. N as Nuvens de Aristófanes (423
A .E .C .), o então quarentão foi escarnecido como filósofo da
natureza e sofista, tipos em moda na época, como Anaxágo-
ras e Protágoras; mas também foi fortem ente atacado. N essa
peça, ao explicar os astros como simples maciços de rocha,
ele lhes nega a natureza divina. Além disso, inverte as pala
vras dos outros, transform a o que é ju sto em injusto e faz a
juventude sublevar-se contra os pais e os costumes tradicio
nais. M ais tarde, censuras semelhantes serão levantadas na
acusação judicial contra Sócrates. N o meio jovem de Atenas,
em contrapartida, ele era extremamente popular: “Quando os
jovens conversam entre si”, diz o Loques de Platão, “frequen
temente mencionam Sócrates e muito o enaltecem” (180e; cf.
2 H E G E L , G eo rg Friedrich W ilh elm : Vorlesungen über die Geschichte der Philo sophie [Preleções sobre a história da filosofia]; Werke in zwanzig Bänden, B d X V I I I , Fran k fu rt a. M . 1971, p. 4 5 5 . [N .T ] O p ta m o s p o r trad u zir apenas o titulo das obras de autores prim ários.
Sócrates e o socratismo I I I
Cármides 156a). N o entanto, entre eles, Sócrates era popular
menos por sua busca da verdade que por sua arte da refutação.
Sem o compreender de verdade, os jovens atenienses tentavam
imitá-lo e “tinham prazer em, como cãezinhos, puxar e arras
tar para si, por meio de discursos, todos aqueles que deles se
aproximavam” (Platão, República 539b).
Sócrates não era figura prestigiosa apenas entre os cida
dãos e a juventude de Atenas, mas tam bém fascinava famo
sos atenienses de sua época, pessoas muito diferentes, como
Alcibíades, que viria a ser posteriormente general (cf. Platão,
Alcibíades I), e Platão, que provinha da alta aristocracia. M as
enquanto o arrivista e ostentoso Alcibíades traiu Atenas na
G uerra do Peloponeso e passou para o lado de Esparta, Pla
tão, depois do encontro com Sócrates, "o mais ju sto dos ho
mens então vivos” (Carta V II 329e), voltou-se para a filosofia.
Repugnava-o a cruel política dos T rin ta Tiranos aliados a
Esparta, aos quais também pertenciam , em posição proemi
nente, parentes seus, outrora seguidores de Sócrates: C rítias e
Cármides. N o entanto, ele não quis participar da política do
Partido Dem ocrata, posteriormente vitorioso, uma vez que o
rechaçava, sobretudo, devido à execução de Sócrates. Por isso,
Platão se retirou totalm ente da prática política. Presumivel
mente influenciado por sua viagem de estudos para a Itália
M eridional junto aos pitagóricos, ele fundou, por volta de 385,
diante dos portões de Atenas, a Academia, uma comunidade
de convivência e aprendizado, e tentou, através de seus estu
dos filosóficos e de sua doutrina, renovar a vida política desde
seu fundamento. N isto, ele se considerava um herdeiro de seu
mestre Sócrates, para o qual ergueu um monumento em seus
diálogos das fases inicial e interm ediária, em que Sócrates
figura como principal interlocutor.
12 I A questão de Sócrates
À descrição externa da questão de Sócrates tam bém per
tencem os dados biográficos3. Seu tempo de vida (469-399
A .E.C .) recua até a época das Guerras Pérsicas (500-448), das
quais os gregos, na visão de Heródoto, saíram como célebres
vencedores da "liberdade” sobre a "servidão” (H eródoto V II
103 s.). Portanto, ainda moço, Sócrates vivenciou a florescência
de Atenas, que se tornava, de um lado, a força política líder da
liga marítima ático-délica fundada logo após a guerra (447) e,
de outro, o centro cultural de toda a Grécia. Sob o comando
de Péricles (444-429), firmava-se a democracia, surgiam os fa
mosos templos sobre a Acrópole, encenavam-se as tragédias de
Sófocles e Euripides, e famosos sofistas, filósofos da natureza
e médicos lecionavam em Atenas, como Protágoras, Anaxá-
goras e H ipocrates. É de se supor que o jovem Sócrates teve
participação ativa em suas aulas, como Platão o faz narrar em
uma retrospectiva autobiográfica (Fédon 96a ss.).
As inimizades contra as novas doutrinas - estas, aliás,
incentivadas pelo não pouco controverso Péricles - nos são
conhecidas através das Nuvens, e Sócrates, com efeito, também
fez com que elas pesassem sobre si. Entretanto, os processos
de impiedade (άσέβεια) ou as acusações de "ateísmo” entre 437
e 431 ainda não estavam mirados diretamente contra ele, mas
sim, por exemplo, contra o filósofo Anaxágoras, o escultor
Fídias e a esposa de Péricles, antes hetaira, Aspásia. N ão foi
senão após a capitulação de Atenas na G uerra do Peloponeso
(431-404) que a atividade de Sócrates despertou a resistência
massiva dos atenienses. Ao que parece, o entrementes vitorioso
J Cf. M A R T IN , G ottfried: Sokrates, Reinbeck bei H am bu rg, 1967. V er tam bém (m as sem a inform ação das fontes). IR M S C H E R , Johan nes: Sokrates. Versuch einer Biographie, Leipzig, 1982.
Sócrates e o socratismo I 13
Partido D em ocrático reprovava-lhe, na condição de antigo
mestre, tanto as ações de Crítias, o líder dos T rin ta Tiranos,
quanto a traição de Alcibíades.
Q ue ele tivesse descuidado de suas obrigações como sol
dado e cidadão, isso ninguém lhe podia imputar. Com efeito,
como soldado de infantaria fortem ente armado, hoplita, ele
tomou parte na ocupação da Potideia (431-429), onde inclusive
teria salvado a vida de Alcibíades. D o mesmo modo, foi comba
tente em Délio (424) e em Anfípolis (422). Sócrates também
foi politicamente ativo, porém, com uma distância igualmente
crítica, tanto diante das oligarquias simpáticas à Esparta quanto
diante dos democratas. Como conselheiro, em 406, ele resistiu
em vão a uma deliberação popular ilegal no processo contra
os comandantes da Batalha de Arginusas. M as, em 404, tam
bém recusou obediência aos T rinta Tiranos e deles recebeu a
proibição da docência. Depois da vitória dos democratas so
bre a tirania dependente de Esparta (403), Sócrates foi então
considerado corresponsável pela decadência moral e espiritual.
Se nos pautarmos na historiografia antiga, a vida privada
de Sócrates é menos conhecida que sua vida na esfera pública
da pólis. Sua mãe era a parteira Fenarete; seu pai, Sofronisco,
trabalhava como canteiro e escultor. Presumivelmente, o pró
prio Sócrates tam bém exerceu essa profissão durante certo
tempo. N o entanto, de modo geral, é provável que tenha pago
seu sustento com os poucos bens herdados, talvez também
com o apoio de amigos ricos e, adicionalmente, com a ajuda
das rotineiras e pouco abonadas comissões públicas para ativi
dades políticas. Sócrates era casado com Xantipa, com a qual
teve três filhos, dois mais novos e um mais velho. Segundo a
descrição de Platão, todos eles e Xantipa estavam juntos de
Sócrates no dia de sua morte (Fédon 60a). Em bora ele insis-
I ã I A questão de Sócrates
tisse que a educação de seu filhos era voltada para a vida ju sta
e cumpridora (Apologia 41e, Críton 54a), não é difícil imaginar
como devia ser duro para Xantipa lidar cotidianamente com
esse homem, dados os seus parcos proventos e as constantes
conversas com amigos. Portanto, as próprias anedotas antigas
sobre a "rabugenta Xantipa” (cf. Xenofonte, Banquete II 10),
figura até hoje proverbial, são provavelmente injustas e cor
respondem a um clichê filosófico relativo à condução da vida
ascética e puramente orientada pela razão. C ontra tal clichê
voltou-se, por exemplo, Bertold Brecht:
“Xantipa a Sócrates disse:
'De novo de cara cheia!’
E ele: ‘Você está certa disso?'
Hoje ele é tido por filósofo
e ela por mulher que chateia’*1
Já na descrição externa da atividade ou da questão de
Sócrates insinuam-se diferentes valoraçóes. Porém, antes de
ponderá-las, confrontando-as, e de poder julgá-las de maneira
mais justa, de início é preciso obter clareza sobre os temas, o
método e a meta da atividade socrática. O s próprios atenienses
não estavam certos de seu ju ízo sobre Sócrates. N um primeiro
momento, eles o condenaram por uma pequena maioria de
votos; depois, de muito bom grado o teriam deixado fugir da
cadeia; por fim , arrependidos, pouco depois de sua m orte lhe
consagraram uma estátua para expiar a própria culpa. Isso,
ao menos, é o que relata Diogenes Laércio (II 43) no século 4
4 » Xanthippe sprach zu Sokrates: / >Du bist schon wieder blau!< / E r sprach: >Bist du auch sicher des!?< / E r gilt noch heute als Philosoph / Und sie als böse Frau.« ( B R E C H T , Bertold: Alfabet [Alfabeto]; Gesammelte Werke, Bd. 9 Frankfurt a. M ., 1967, p. 514; cf. tam bém a narrativa de Brecht, D er verwundete Sokrates [Sócrates ferido]).
Sócrates e o socratismo I 75
I ll E .C .: “Logo após a execução de Sócrates, os atenienses se
arrependeram de seu ato, de modo que mandaram fechar as
palestras e os ginásios. O s culpados fugiram, e M eleto [um
dos acusadores] foi condenado à m orte. M as a Sócrates os
atenienses honraram com uma estátua de bronze, que insta
laram no Pompeion e que foi feita por Lísipo.”
Ainda que a vida de Sócrates tenha transcorrido, segundo
Xenofonte, "diante dos olhos de todos”, é difícil descobrir mais
precisamente aquilo que ensinou, se é que ensinou alguma
coisa. Seja como for, ele mesmo não escreveu nada. Dele temos
alguma notícia, sobretudo, por meio da comédia de Aristó-
fanes e dos escritos de Platão e Xenofonte, bem como por
meio de textos produzidos posteriorm ente por Aristóteles.
Essas quatro fontes sobre Sócrates, as mais importantes para
nós, foram escritas por quem o conheceu sob circunstâncias
bastante diversas. Aristóteles (384-322), por exemplo, não o
conheceu pessoalmente, mas só teve notícia a seu respeito a
partir de relatos, durante os anos de estudo na Academia de
seu mestre Platão. Aristófanes, ao contrário (445-386), pa
rece ter deparado com Sócrates como interlocutor incidental
(Platão, Banquete 189a ss.) e, como poeta crítico da própria
época, decerto observava atentamente as ações dele. Q uanto
a Xenofonte (430/425-355), presume-se que ele, ainda jovem,
conviveu mais frequentemente com Sócrates. M as, por causa
de suas expedições militares com Ciro, o Jovem, não presenciou
pessoalmente os últimos anos de vida de Sócrates e, quanto a
isso, dependia de relatos alheios.
Por fim, foi Platão (427-347) quem melhor conheceu Só
crates. Quando este foi executado, Platão estava ao redor de
seus 28 anos. Presume-se que ele já o encontrara quando tinha
12 ou 14 anos. É isso que se infere de um relato de Diógenes
i 6 I A questão de Sócrates
Laércio (III 5): ‘‘Conta-se que Sócrates sonhou ter em seu
colo um filhote de cisne, que logo ganhou asas e subiu aos
ares com sonoros brados de júbilo. Dias depois, Platão foi-lhe
apresentado". Ao lados das alusões mitológicas aos cisnes do
deus Apoio, de quem Sócrates se considerava servidor e cuja
missão Platão, como aluno de Sócrates, assumiu "com sonoros
brados de júbilo", o relato de Diógenes Laércio descerra como
Platão teria encontrado seu mestre pela primeira vez. Aparen
temente, a Sócrates eram apresentados sobretudo meninos de
famílias atenienses nobres, meninos que tinham entre 12 e 14
anos e ainda estavam sob a tutela de pedagogos (“orientadores
de meninos") (cf. Platão, Listas 208c, 223c).5 É plausível que
também tenha sido assim com o jovem Platão, que descendia
de uma das mais nobres fam ílias atenienses. O s diálogos es
critos por Platão nos quais Sócrates conversa com os jovens
Lísias e Cármides certam ente tam bém possuem traços auto
biográficos. M as uma firm e relação mestre-aluno, com efeito,
desenvolveu-se apenas por volta dos 20 anos de Platão, como
narra Diógenes Laércio ( I I I 6): “desde então - com 20 anos de
idade - , ele não deixou mais de ser um ouvinte de Sócrates".
Assim, ainda que Platão tenha sido, como se supõe, o
mais íntimo aluno de Sócrates, isso não nos dá garantia ne
nhuma de que ele tenha transm itido sua doutrina da maneira
mais fidedigna. Para tanto, ele era um pensador demasiado
independente.
Ademais, sua apresentação tem graves inconvenientes, os
quais, porém, todas as outras fontes principais também pos
suem. Primeiro, todas oferecem, não uma autoapresentação,
mas somente uma interpretação da doutrina de Sócrates: seja a
5 Cf. M A R T IN , G o ttfried : Platon, R einbeck bei H am b u rg 1969, p. 16 ss.
Sócrates e o socratismo I 17
visão do comediógrafo crítico e cidadão ateniense conservador,
sejam as visões de dois filósofos bastante diferentes entre si.
Consoante com isso, tais fontes oferecem uma imagem com
um baixíssimo grau de unidade. Para Aristófanes, nas Nuvens,
Sócrates é um desses tipos modernos, considerados uma ame
aça à cidade, como os filósofos da natureza e os sofistas arte
sãos de conceitos. N os Memoráveis de Xenofonte, ao contrário,
bem como no Banquete e na Apologia, Sócrates surge como um
conselheiro utilíssim o para as questões da vida prática; em
Platão, ele tanto é o descobridor da pergunta “o que é isso?”,
que visa a conceitos éticos, como também é o preparador de
sua própria doutrina m etafísica das idéias. Para Aristóteles,
por fim, ainda que Sócrates tenha buscado conceitos universais
para as virtudes éticas, ele não soube transformá-los em idéias
com uma existência própria, independente das coisas sensíveis
(Metafísica X III 4 e 9 ).
Além disso, as fontes escritas desenham a imagem de
Sócrates a partir de perspectivas cronológicas bastante varia
das; Aristófanes descreve Sócrates como um homem na faixa
dos quarenta; Platão conviveu apenas com o velho Sócrates;
Xenofonte, no tocante aos últimos anos de vida e ao processo
de Sócrates, teve de confiar sobretudo nas descrições de ou
tros. Já Aristóteles dependia totalm ente de relatos alheios. De
resto, principalmente as apresentações de Platão e Xenofonte
têm um tom apolégetico e não estão compostas como relatos
históricos. Portanto, ao que parece, todas as quatro fontes não
transm item uma imagem confiável da questão de Sócrates.
Assim como se faz a distinção, no caso de Platão, entre
a filosofia do próprio Platão e o platonismo como história de
sua muito influente recepção, também é preciso fazer a dis
tinção entre a filosofia do próprio Sócrates e o socratismo de
l 8 I A questão de Sócrates
seus discípulos e seguidores.6 M as se, por um lado, no caso de
Platão, sempre é possível corrigir as vertentes unilaterais ou
falsas da recepção através de uma interpretação acurada de
seus escritos, por outro, no caso de Sócrates, há que se lidar
com duas dificuldades: Sócrates não deixou nenhum escrito
e o socratismo não é tão coeso quanto o platonismo. Se, por
um lado, associa-se ao platonismo, desde Aristóteles e tanto
mais depois de Plotino, a representação de um "céu de idéias”
que é separado do plano terreno e dotado de qualidade divinas,
por outro, bem cedo várias escolas se remetem a Sócrates ou
serão posteriormente remontadas a ele.7
Entre as escolas socráticas, o arco se estende desde as
filosofias de A ntístenes e A ristipo, m ais orientadas para a
vida prática, até as de Euclides e Platão, de linha mais teórica
e sistemática. A primeira escola ou vertente radicalmente vol
tada para a vida prática, a escola cínica, pode ser remontada a
Antístenes (c. 444-366). H á duas explicações para o seu nome:
ou se trata de um toponímico do ginásio de Cinosargo, onde
Antístenes ensinava, ou se trata de uma designação objetiva,
que se baseia no modo de vida "cínico”, “canino” (κύων = cão),
de extremo desprendimento, que é conhecido através da pro
verbial história de Diogenes no Barril e, em parte, ainda é
6 N ietzsch e tam b ém utiliza am iúde o conceito de "socratism o”, a fim de com ele c a ra cte riz a r a verdadeira filosofia de S ó cra te s co m o “socratism o lógico", m as não no sentido aqui prop osto, e m que se distingue S ó crates do socratism o. N I E T Z S C H E , Fried rich : D ie Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik [O nascimento da tragédia a partir do espírito da música]·, Werke. Kritische Gesamtausgabe, G . C olli & M . M on tin ari [doravante citad o com o K S A , seguido de volume e p ágina(s)], B e rlim / N ew York, 1 9 8 0 , Vol. I, p. 9 8 .
7 C f. N E S T L E , W ilh e lm (org.): D ie Sokratiker, Jen a, 19 2 2 , reimpr. A alen 19 6 8 . V er tam bém G IA N N A N T O N O , G abriele (org.): Socratis et socraticorum reliquiae, 4 V ols., N apoli, 19 9 0 .
Sócrates e o socratismo 19
influente entre os estoicos. Antístenes, filho de uma serviçal
trácia, foi primeiramente aluno do sofista Górgias, antes de
se tornar um decidido discípulo de Sócrates. Q uer por causa
de sua ascendência, quer por causa de sua doutrina, ele estava
em aguda oposição a Platão, o que se expressa, por exemplo,
em sua polêmica contra a doutrina das idéias: "Decerto eu vejo
homens, mas não vejo nenhuma humanidade, decerto vejo ca
valos, mas nenhuma cavalidade”. É à polêmica entre esses dois
im portantíssim os discípulos de Sócrates que possivelmente
remonta o episódio do Teeteto de Platão (174a ss.) em que a
“serviçal trácia” escarnece o filósofo por ele viver longe da vida,
e o filósofo, em resposta, escarnece a serviçal trácia por ela ser
afilosófica. Tam bém Aristóteles se imiscuiu nesta polêmica.
Todavia, ele não criticava Antístenes por causa de sua recusa
das "idéias” platônicas, mas sim por causa de sua rejeição dos
conceitos universais. Segundo o estagirita, com tal rejeição,
apenas seriam possíveis as denominações arbitrárias de coisas
individuais, bem como estaria negada a distinção entre enun
ciados verdadeiros e falsos (Metafísica V 29).
A segunda filosofia socrática, tam bém m ais orientada
para a vida prática, é a de A ristipo (435-355). Conta-se que
ele, após uma longa vida de errância, que o fez passar por Ate
nas e fixar-se por um tempo em Siracusa, fundou em Cirene,
sua cidade natal no norte da Á frica, a Escola Cirenaica. Sua
doutrina hedonista-eudemonística, segundo a qual o prazer
(ηδονή) é o bem supremo, certam ente também influenciou
Epicuro. Em seu Filebo, Platão a submete a uma crítica aguda,
embora ele mesmo defenda que uma forma de vida composta
de prazer e conhecimento é o supremo bem para o homem.
Já a terceira escola socrática, a dos megáricos, é de linha
mais teórica. Ela foi fundada por Euclides de Megara (450-380)
2 0 I A questão de Sócrates
e ligava as doutrinas de Parmênides às de Sócrates, na medida
em que equiparava o "Um" ao "Bem " e dava continuidade ao
desenvolvimento da técnica crítico-dialógica de Sócrates. Dessa
tradição descendem também os célebres raciocínios capciosos
do mentiroso e do monte de grãos (σωρίτης). Além disso, os
megáricos influenciaram a vertente de pensamento cético, que
se desenvolveu em uma das três mais proeminentes escolas
filosóficas da Antiguidade, ao lado dos estoicos e dos cínicos.
Por fim, a quarta escola filosófica que pode ser remontada
a Sócrates foi a Academia de Platão, designação que provém
do monte que leva o nome do herói Acádemo, situado diante
dos portões de Atenas. Ela manteve sua atividade docente por
cerca de m il anos, até ser fechada por Justiniano em 529 E.C .
Q uase mil anos depois, em 1459, ela foi novamente aberta
em Florença e influenciou de maneira decisiva a filosofia re
nascentista, através das traduções e com entários de Ficino,
sobretudo seus comentários ao Banquete de Platão (1469). Essa
nova Academia contribuiu para que o impacto do platonismo
avançasse até os dias de hoje. Entretanto, é questionável e não
há como justificar com boas razões que, somente por causa da
força incontestável de seu impacto, Platão ou a Escola Acadê
mica sejam considerados um ou até mesmo o único herdeiro
legítimo de Sócrates. Com efeito, não apenas as outras três
"escolas socráticas” se arrogam essa herança, mas tam bém e
sobretudo Aristóteles reivindicou ter entendido Sócrates me
lhor que seu mestre Platão.
Além disso, outros “socráticos”, cujos escritos são numero
sos mas em larga medida perdidos, também devem ser obser
vados como fonte do Sócrates histórico e como seus possíveis
herdeiros. Dentre esses "socráticos”, Fédon de Élis, fundador
da menos conhecida Escola Élica, era um aluno dileto de Só -
Sócrates e o socratismo I 21
crates (cf. Platão, Fédon 89). Por sua vez, um outro aluno de
Platão, Esquines de Êsfeto, embora não tenha fundado sua
própria escola, escreveu diálogos nos quais, ao menos até onde
os fragmentos transmitidos permitem reconhecer, Sócrates é
apresentado como um educador que ensina a prudência e o
autoconhecimento. Segundo a avaliação de W ilhelm N estle,
infelizmente pouco fundamentada, os diálogos de Esquines
são até mesmo o "desenho mais fiel que possuímos do Só
crates histórico".8
Dado o predomínio das escolas filosóficas que remon
tam a Sócrates, mas, sobretudo, dada a influência dos escritos
de Platão e do platonismo, a figura de Sócrates como filó
sofo independente passa aos poucos para um segundo plano.
Mesmo que seja tido até hoje como ícone do filósofo sábio e
voltado para a vida prática, aos olhos da maioria dos filósofos
ou historiadores da filosofia ele não é um pensador que esteja
à altura das exigências da filosofia como doutrina sistemática.
Em contraste, para Cícero, Sócrates ainda era o “pai da filo
sofia” (Do sumo bem e do sumo mal II, 1,1). Teria sido ele quem,
sucedendo aos filósofos da natureza jônicos, "pela primeira
vez fez a filosofia baixar do céu, deu-lhe morada nas cidades,
introduziu-a nas casas privadas e cultivou-a como reflexão
sobre a vida e os costumes, assim como sobre o bem e o mal”
(Diálogos em Tusculum, V 4 ,1 0 ). Contra Cícero e seu discípulos,
entretanto, H egel vem em defesa de Sócrates e critica a visão
de que “a verdadeira e a melhor filosofia seria uma filosofia de
casa e cozinha (filosofia como remédio caseiro, que se acomoda
a todas as perspectivas, a todas as representações costumeiras
dos hom ens), na qual vemos amigos e companheiros palestra-
8 NESTLE, W. (1922), p. 48.
22 A questão de Sócrates
rem sobre a retidão, etc., e sobre aquilo que tem sua verdade na
própria vida cotidiana, sem ter outrora estado presente na pro
fundeza do céu - ou melhor, na profundeza da consciência".9
Claramente, a desconfiança de Hegel se dirige contra o
Iluminismo do século X V III, que havia posto em marcha um
renascimento socrático de tendência dupla. D e um lado, sob
a invocação dos Memoráveis de Xenofonte, Sócrates era visto
como um iluminista e conselheiro prático, como um sábio que
conhece a vida. D e outro, por causa do discurso acerca da voz
interna de seu "demônio” e de suas exposições sobre os deuses,
tal como transmitidos por Xenofonte e Platão, ele era tido por
homem religioso e de conselhos pios.10 Com o os iluministas,
K ant também voltou a considerar Sócrates de maneira séria,
como um filósofo independente, mas criticou o conceito central
da visão iluminista, segundo o qual Sócrates tinha um pensa
mento ingênuo e superficial. Segundo K ant, com seu “modo de
ensinar dialógico” e como filósofo metódico, Sócrates é antes
um modelo para uma “didática ética" (Metafísica dos Costumes,
A 166). Para ele, além disso, o Sócrates ético é modelo para
o imperativo categórico, esse imperativo que a razão humana
comum poderia usar como um compasso para julgar casos
individuais controversos, "basta que, sem ensinar-lhe [à razão
humana comum] nada de novo, apenas chamemos sua atenção
ao seu próprio princípio, tal como fazia Sócrates" (Fundamen
tação da metafísica dos costumes, BA 22). Por fim, o "modo socrá
tico" de refutar, a saber, "através da mais clara demonstração da
ignorância de seu adversário", serve de modelo para a própria
filosofia crítica de Kant, em sua refutação da exigência metafí
9 H E G E L , G . F. W .: Werke, vol. X V I I I , p. 4 4 6 .
10 C f. B Ö H M , B enno: Sokrates im achzenten Jahrhundert, N eu m ü nster, 19 9 6 .
Sócrates e o socratismo I 23
sico-racionalista da demonstrabilidade de Deus, da liberdade e
da imortalidade (Crítica da Razão Pura, B X X X I).
D e maneira ainda mais resoluta que K ant, porém, Sch-
leiermacher entende Sócrates como um pensador metódico e
identifica a "questão de Sócrates”11 no “socratizar” como busca
da verdade de caráter científico, que argumenta com razões e
esclarece conceitos. Já nas Preleções sobre a história da filosofia de
Hegel, Sócrates é uma figura muitíssimo ambivalente. Embora
nele o "princípio do espírito” tenha ganho validade perante a
eticidade existente e “o espírito do mundo tenha se elevado
para uma consciência mais alta”, ao mesmo tempo, e por causa
disso, a base ética até então vigente na pólis foi destruída. Nesse
sentido, levando-se em conta a perspectiva dos atenienses, es
tes teriam tido razão em condená-lo: "Assim, o destino de
Sócrates é genuinamente trágico”.1 1 12 Por sua vez, para Kierk-
gaard, em sua crítica a Hegel, Sócrates é o exemplo de um
ironista. Ele não seria um pensador científico ou metafísico,
mas sim um ironista que depende apenas de si mesmo como
indivíduo. Portanto, nas Nuvens, Aristófanes estaria correto ao
apresentar Sócrates dentro de um cesto para pensador: "Com
efeito, o ironista é mais leve que o mundo; em contrapartida,
ele ainda pertence ao mundo (...) o cesto é, por assim dizer,
aquele chão da realidade empírica de que o ironista carece"13.
11 S C H L E I E R M A C H E R , Friedrich E rn s t D aniel: Sokrates' Werth als Philo soph [ 0 valor de Sócrates como filósofo] (1 8 1 8 ); in P A T Z E R , A ndreas (org.), D er historische Sokrates, D arm stad t, 1987, p. 5 8 e p. 4 6 . S em expressá-lo, Leonard N elso n tam bém se alinha à tradição interpretativa de S ó crates oriunda de Schleierm acher, C f. N E L S O N , L e o n ard : “D ie sokratische Methode”, in : L . N ., Gesammelte Schriften, vol. I, H am b u rg , 1970, pp. 271-316. 12 H E G E L , G . F. W .: Werke, vol. X V I I I , p. 514. 13 K IE R K G A A R D , Sö ren : Uber den Begriff der Ironie [Sobre o conceito de ironia] (1 8 4 1 ); D ü sseld orf/K öln , 1961, p. 157.
2 4 I A questão de Sócrates
Para Nietzsche, ao contrário, Sócrates é um pensador ambi
valente, um destruidor da vida instintiva e dionisíaca através
do intelecto "apolíneo”. Com Sócrates, o “tipo de uma forma
de existir antes dele inaudita”, o “tipo do homem teórico”, teria
se tornado determinante para a história da Europa.14
Também nas interpretações mais recentes de Sócrates,
a polêmica em torno da questão de Sócrates não chega a um
fim. Por exemplo, em contraposição a Nietzsche, Karl Jaspers
enumera a pessoa de Sócrates entre os "homens de suma im
portância", não sob o aspecto intelectual, mas sim existencial,
por causa de sua atitude insubmissa, advinda da confiança em
algo “de grande abrangência”. Desse modo, no início de sua
obra Os grandes filósofos (1957), ele o coloca ao lado de Buda,
Confiício e Jesus. Em extrema oposição a essa interpretação
existencialista, que define um certo gênero de homens, S ó
crates, com seu método cético e coletivo de busca da verdade,
é para Popper o modelo do pensar e do falar claro e crítico.
É por isso que Sócrates teria se colocado decididamente do
lado da democracia, enquanto Platão teria traído seu mestre
ao apostar, através de um modo de pensar intuitivo, incontro-
lável, num regime dominado por filósofos.15
N a interpretação de G enot Böhme, por fim, Sócrates
novamente desaparece como filósofo autônomo e é somente
o produto literário de seu aluno Platão. Para Böhme, o "tipo
Sócrates” - ambivalente, como em Nietzsche - incorpora,
14 N I E T Z S C H E , E : Die G eburt...; K S A 1, p. 9 8 . 15 P O P P E R , K a rl R aim u n d : D ie offene Gesellschft und ihre Feinde [A Socie dade aberta e seus inimigos], vol. 1, D er Zauber Platons [O feitiço de Platão], B ern, 1957. N o entanto, segundo o popular livro de Isodor E Stone, S ó crates é um adversário da dem ocracia, condenado com ju stiça pelos atenienses. Cf. S T O N E , Isodor E : The trial o f Socrates, London, 1 9 8 8 (ed. alem á: D er Prozess gegen Sokrates, W ie n /D a rm sta d t, 1 9 9 0 ).
Sócrates e o socratism o I 2 5 sobretudo diante do pano de fundo de H om ero, uma revira
volta antropológica na autointerpretação do self humano. Ins
pirado por Foucault, Böhm e analisa as práticas do "cuidado
de si” com a ajuda das quais Sócrates assum iría uma relação
consigo mesmo refletida, distanciada e de autocontrole, rela
ção que, com isso, passaria a depender do dualismo platônico
como cisão de corpo e espírito, sentim entos e razão, ou den
tro e fora.16 Diferentem ente de Böhm e, Gregory V lastos, em
um livro marcado pela análise linguística e pela extrema acri-
bia filológica - Socrates. Ironist and moral philosopher [Sócrates.
Ironista e filósofo moral] (Cam bridge, 1991) - , busca enaltecer
Sócrates como um filósofo autônomo. Ele lê os escritos de
Platão a partir da visão crítica de A ristóteles, o qual confere
a Sócrates uma posição toda própria. Segundo V lastos, o
Sócrates ironista e m oralista dos diálogos platônicos da fase
inicial é o histórico, ao passo que, nos diálogos das fases in
term ediária e tardia, Sócrates seria apenas o porta-voz do
m etafísico Platão.
A série de diferentes concepções sobre Sócrates, desde
a Antiguidade até o presente, podería ser levada adiante sem
esforço. Aparentemente, todas as variantes já estão plenamente
elucubradas e não há mais nada de novo a se dizer. Ademais,
cada intérprete parece construir para si a sua própria imagem
de Sócrates. Será que, dadas as imagens de Sócrates, desde seu
princípio tão diversas e até mesmo contraditórias, nada mais
resta que simplesmente escolher para si a mais adequada dentre
elas ou compor a sua própria a partir de fragmentos distintos?
Será que a particular fascinação provocada por Sócrates não
repousava e não repousa no fato de que ele pode estimular a
16 B Ö H M E , G ern o t: D er Typ Sokrates, Fran k fu rt a. M ., 1988.
26 I A questão de Sócrates
fantasia de cada um quase sem lim ites, precisamente por ser
um fenômeno de difícil apreensão e possuir traços contradi
tórios? Caso ocupar-se com Sócrates consistisse apenas em
ocupar-se com fantasias projetadas sobre Sócrates, como se ele
fosse uma página em branco, isso ao menos teria a vantagem de
ser uma atividade imbuída de fantasia e pensamento. Alguém
também podería esconder seus próprios pensamentos sob a
máscara de Sócrates, dizendo "Sócrates” quando, tomado de
receio, não se sentisse confiante para dizer "eu” - tal como
possivelmente fez Platão em seus diálogos "socráticos” Porém,
se alguém não quiser fazer uso de Sócrates só para estimular,
confirm ar ou mascarar os próprios pensamentos e representa
ções, e se quiser experimentar, na discussão com ele, também
um enriquecimento do próprio pensamento, é necessário que
essa pessoa se esforce pela questão de Sócrates ela mesma.
A figura de Sócrates não apenas estimula a autoconversa-
ção, mas também desafia a uma discussão objetiva. A despeito
de toda interpretação controversa, torna-se claro que Sócrates
provocava os atenienses a contradizer os interlocutores e a dar
continuidade ao pensamento. Um tal efeito sobre outros ho
mens mal pode ser imaginado sem que o Sócrates histórico
realmente tivesse algo de importante a dizer em sua atividade
pedagógica ou dialógica. Portanto, a partir de seu efeito, é pos
sível inferir seu pensamento como causa, e refutar a solução
extrema do “problema socrático” que, por exemplo, O laf Gigon
defende. Segundo ele, o Sócrates histórico, aliás insignificante,
não seria mais que o produto do genial poeta Platão; em um
caso semelhante, o sapateiro Sim on, um contemporâneo de
Sócrates, personagem dos "diálogos de sapateiro”, igualmente
numerosos mas transmitidos apenas em fragmentos, simples
mente não teria tido com seu desconhecido autor a mesma
Sócrates e o socratismo I 2 7
sorte que Sócrates teve com Platão.17 Segundo as pesquisas
de V lastos, é igualmente insustentável a posição radical no
sentido contrário, sustentada por dois pesquisadores escoceses
de Platão, Taylor e Burnet: o Sócrates de Platão seria, sem
qualquer restrição, o Sócrates histórico.18
D istinguir Sócrates do socratismo e de nossas próprias
visões, no entanto, não significa apenas reconstruir filologica-
mente, com a maior precisão possível, a doutrina e as opiniões
do polêmico Sócrates "histórico". Pois, mesmo se as opiniões
doutrinárias do Sócrates “histórico” nos estivessem transmi
tidas de modo completo e fidedigno, ainda assim não saberi
amos ou entenderiamos o que é a questão de Sócrates. M uito
antes, tal como com qualquer texto filosófico, suas proposições
ou opiniões doutrinárias devem ser inspecionadas com rela
ção à sua própria reivindicação de validade. Porém, uma vez
que Sócrates apenas promoveu diálogos orais e não escreveu
nada, no exame crítico dos relatos a seu respeito, ainda mais
fortem ente que na interpretação de um texto, qualquer um
está constrangido a considerar pessoalmente a questão defen
dida por ele e a inspecionar as próprias representações, quer
dizer, a si mesmo.
É precisamente a isso que Sócrates também constran
geu seus interlocutores nos diálogos, através de um questio
namento consequente. Assim, no diálogo socrático sobre a
bravura, o Laques de Platão (187e s.), N ícias admoesta seu
interlocutor Lisím aco: “Tu pareces não saber absolutamente
do seguinte: quem se achega bem perto do discurso de Só-
17 GIGON, Olaf: Die Gestalt des Sokrates als Problem, in PATZER (1987), p. 319 s.
18 PATZER, A. (1987), p. 24 s.
2 8 I A questão de Sócrates
crates e passa a dialogar com ele, mesmo que antes ele tenha
começado a falar de algo totalm ente diferente, é por ele ine
vitavelmente guiado no discurso, sem descanso, até chegar ao
ponto em que tem de prestar contas de si mesmo, da maneira
como agora vive e da maneira como viveu sua vida passada”.
Sócrates e o socratismo I 2Q
C a p í t u l o 2
A im a g e m d o sá b io sile n o
Apenas com base nos enunciados contraditórios das fon
tes, a questão de Sócrates dificilm ente se deixa compreender;
como realidade efetiva do "bem-viver”, ela não pode ser ade
quadamente concebida tão só no plano da linguagem. Em con
trapartida, as imagens e os retratos de Sócrates possibilitam,
na medida em que expressam a forma de vida socrática, um
primeiro acesso à sua questão e à representação dessa questão
nas fontes escritas. Entretanto, quanto à fisiognom ia, deve
ser bem assimilada a advertência de Lichtenberg: “Julgamos
a toda hora segundo o rosto, e a toda hora erramos’’1. Aliás,
o rosto e a feição de Sócrates não falam por si só; deles não
é possível depreender imediatamente como ele viveu e o que
ele pensou. Além disso, nós não conhecemos o aspecto de
Sócrates ele mesmo, mas somente suas representações na arte
figurativa e nos testemunhos literários. Com base nelas, con
tudo, podem ser obtidos aclaramentos confiáveis sobre como
ele deve ter impressionado os atenienses com seu modo de agir
e falar tão conhecido na cidade. Tais representações não são
somente o produto de estilizações artísticas arbitrárias. Por
sua vez, o aclaramento delas não se apresenta imediatamente,
mas apenas diante do pano de fundo interpretativo com o qual
os atenienses viram Sócrates como uma determinada figura.
1 L IC H T E N B E R G , G erog C hristoph: D er Fortgang der Tugend und des Lasters (1 7 7 8 ), F ran k fu rt a. Μ ., 1 9 8 6 , p. 9 2 .
A imagem do sábio sileno I 31
Portanto, é apenas ao modo de uma refração multifacetada que
as imagens de Sócrates nos possibilitam um primeiro insight em
sua questão. O compreender da imagem de Sócrates também
se move, não diferentemente do compreender de enunciados
textuais, num círculo hermenêutico de compreensão e pré-
compreensão.2
Q uanto aos retratos de Sócrates, não se trata nem do
desenho de um caráter individual nem de uma tipificação ge
ral atribuída exteriormente a ele, mas de um modo de ver as
características essenciais do Sócrates real. Até meados do sé
culo V, a retratística das estátuas ou dos vasos cerâmicos re
presentavam figuras universais, sobre-humanas, de deuses
e heróis - por exemplo, os conhecidos adornos do templo
Pártenon sobre a Acrópole. Quando, após as Guerras Pérsicas
e a Guerra do Peloponeso, não apenas a poesia e a filosofia, mas
também a retratística foram atingidas pela situação geral de crise
e ruptura na autocompreensão humana, os escultores tentaram
representar os homens não mais segundo padrões universais,
mas sim com suas características essenciais próprias.3
A s características essenciais do Sócrates real decerto
também são previamente marcadas por um padrão de inter
pretação geral. É m anifesto que os atenienses reconheceram
em Sócrates o velho sileno do m ito tradicional. Isso nos é
mostrado, por exemplo, por uma estátua que deve ter surgido
logo após sua m orte, Ela bem podería ser a estátua expiató-
2 [N .T .] T erm os típicos da fenomenologia herm enêutica de Heidegger em Ser e tempo: hermeneutischer Zirkel = círculo herm enêutico; Verständnis = com preensão; Vorverständnis = pré-com preensáo. ’ Cf. S C H E IB L E R , Ingeborg & Z Ä N K E R , Paul Z än k er & V IE R N E IS E L , K lau s: Sokrates in der griechischen Bildniskunst, M ünchen, 1989, pp. 8 ss. (C a tá logo de exposições especiais d a G liptoteca e do m useu de cópias em fundição de obras figurativas clássicas).
32 I A questão de Sócrates