A questão de Sócrates: uma introdução
Fig Ura I
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
ria mencionada por Diógenes (fig. I).4 A cópia da cabeça de
Sócrates, no entanto, não reproduz uma imagem completa
dele. Diferentemente dos bustos que nos foram conservados,
sobretudo dos romanos, as estátuas gregas sempre eram re
presentações de toda a figura, não apenas cabeças sem corpos.
4 Cf. os com entários de S C H E IB L E R & Z Ä N K E R 8í V IE R N E IS E L (1989) a respeito das ilustrações aqui apresentadas.
A imagem do sábio sileno I 33 E os bustos de Sócrates que estão conservados também eram,
originalmente, figuras inteiras. Obtem os uma certa impressão
delas, por exemplo, ao observar uma estátua em alabastro da
época imperial romana guardada no Museu Britânico (fig. 2).
Ela mostra Sócrates em um típico manto de cidadão da sua
época. Enquanto sua mão esquerda agarra um tufo do manto,
conforme o costume de então, os dedos da mão direita pinçam
mais abaixo a orla do manto, o que pode ser interpretado como
um típico gesto de Sócrates, que talvez expresse seu modo de
pensar hesitante, examinador.
Q ue este gesto pensativo deva caracterizar o Sócrates real,
isso se torna claro por meio da comparação com uma estátua
de Crisipo em posição sentada (cópia romana em mármore,
fig. 3). Trata-se aqui de uma reconstrução, composta de um
corpo que pode ser visto no Louvre de Paris e de uma ca
beça guardada no Museu Britânico em Londres. Crisipo, que,
após Zenão e Cleantes, foi o terceiro chefe da escola estoica
(c. 233-208), tendia, em oposição à atitude cética da escola
acadêmica, a uma maneira de pensar rigorosa e pontificante,
dogmática. Coerentemente, o retrato mostra como ele, com
uma face intensamente pensativa, fixa um problema diante de
si e enumera seus argumentos com os dedos. É verdade que
ambos, Sócrates e Crisipo, pensam com todo o corpo, mas de
maneiras diferentes. A face de Sócrates, com sua longa e cul
tivada barba, tem traços típicos de um sábio filósofo, mas no
geral é bonachona, quase debochada. A atitude de seu dedos
também é mais para reflexiva, e seu feitio algo deselegante e
barrigudo está em contraste com a figura ascética de Crisipo.
O gesto pensativo de Sócrates não é puramente argumentative
e analítico, mas contemplativo e concreto.
A ligação entre o pensamento e a vida de Sócrates ganha
3 4 I A questão de Sócrates
FIGURA 2
expressão ainda mais forte no seu mais antigo retrato que nos
foi transm itido, guardado no M useu N acional de Nápoles
(fig. 1). A representação, uma cópia romana em mármore con
forme ao original grego do período entre 380-370 A .E.C ., mos
tra um Sócrates com nariz adunco, maçãs do rosto acentuadas,
A imagem do sábio sileno I 3 5 lábios suaves, pescoço achatado, cabelo desgrenhado e uma
expressão facial vital, bonachona. A longa e densa barba ca
racteriza o filósofo cheio de dignidade, e a careca corresponde
ao beberrão ático. Ao lado desse tipo-Sócrates mais antigo, há
um outro dito “mais jovem”, do qual também estão conservadas
numerosas cópias (fig. 4 ). Ambos os tipos mostram Sócrates
com careca, nariz adunco e um rosto largo. O tipo mais jovem,
porém, tem um rosto menor, dando a impressão de maior se
veridade, e expressa uma face pensativa, transfigurada, mais
fortemente idealizada. Possivelmente, a estátua mais antiga foi
erguida por Platão em sua academia, como doação privada.
Presume-se que ela provenha do famoso escultor em bronze
Lísipo, cujas estátuas estavam espalhadas por toda a Grécia e
no paço de Alexandre, o Grande. Seguramente ela não pode
ter sido erguida tão cedo quanto a estátua expiatória relatada
por Diogenes Laércio, uma vez que o período de criação de
Lísipo começou somente em 370 A .E .C . D e qualquer modo,
estando próxima ao Pompeion, o edifício no perím etro de
Atenas onde se formava a procissão das Panateneias (a pompé),
ela ocupava um logradouro proeminente e impossível de não
ser visto na vida pública de Atenas.
Em seu conjunto, as representações tradicionais de Só
crates mostram que os atenienses viram nele uma figura se
melhante aos “sete sábios" (como Tales, Bias, Sólon ou Pítaco)
e com traços dos silenos da entourage do Deus do Vinho, Dio-
niso. Ambas as coisas coincidem na feição do “sábio sileno”.
Segundo o mito, de início os silenos eram numes naturais,
metade homem, metade cavalo, com uma grande cabeleira,
rabo de cavalo, expressão facial e orelhas de animal.5 Só com
5 C f. H A R T M A N N , A .: Silenos und Satyros, in: Pauly’s Realencyclopädie der
3 6 I A questão de Sócrates
FIG URA 3
o correr do tempo é que eles foram agregados, ju nto com as
mênades e os sátiros, ao séquito de Dioniso e, por fim, equi
parados aos sátiros. Em seu bando, logo se destacou a figura
singular do sábio sileno. Com o todos os silenos e sátiros do
círculo de Dioniso, ele amava a música, a dança e o vinho; além
disso, porém, era munido de grande sabedoria e experiência. O
sábio sileno fazia as vezes de padrinho e mentor de Dioniso,
dänischen Altertumswissenschaft ( R E ), R . 2, H b d . 5, Leipzig, 1927, Sp. 35-53.
A imagem do sábio sileno I 3 7 bem como de professor do legendário Olim po, músico que
levara a música da Ásia M enor para a Grécia.
Sua sabedoria é um elemento fixo do mito. Está múltipla-
mente testemunhada, por exemplo, a história segundo a qual o
rei frígio M idas embebedou e aprisionou um sileno para dele
arrancar sua sabedoria. Diante disso, o sileno predicou-lhe a
nulidade da existência humana, sendo posteriormente enviado
de volta a Dionísio. Este, para recompensar M idas, cumpriu
seu desejo de que tudo que tocasse se transformasse em ouro.
Quando o rei, contudo, notou que também suas refeições e sua
bebida se transformavam em ouro, livrou-se de seu suspeito
dom através de um banho no rio Páctolo; por fim, aprendeu
a só m obilizar seus desejos com o auxílio de uma sensata me
ditação. N a figura m ítica do sábio sileno, o poder formador e
domesticador do aspecto apolíneo se desenvolveu a partir do
aspecto dionisíaco, sem se apartar dele totalm ente.
Nietzsche vê incorporada na figura mitológica do sábio si
leno a tentativa de assimilar a experiência da nulidade e do so
frim ento humanos por força da razão. “Agora se nos abre, por
assim dizer, a montanha encantada do Olimpo, mostrando-nos
suas raízes. O grego conhecia e sentia os horrores e assombros
da existência: para poder simplesmente viver, ele tinha de pôr à
frente deles o resplandecente nascimento onírico dos olímpicos.
Aquela desconfiança monstruosa perante os poderes titânicos
da natureza, aquela M oira impiedosamente entronada acima
de todos os conhecimentos, aquele abutre [algoz] de Prome
teu, o grande amigo dos homens, aquele destino horrendo do
sábio Edipo, aquela maldição sobre a estirpe dos atridas, que
forçou O restes ao m atricídio, em suma, toda aquela filosofia
do deus da selva, juntam ente com seus exemplos m íticos, à
qual sucumbiram os lúgubres etrúrios - [tudo] foi contínua e
38 I A questão de Sócrates
FIG URA 4
reiteradamente superado pelos gregos através daquele artístico
mundo-intermediário dos olímpicos, ou foi, ao menos, encoberto
e subtraído à visão. Para poder viver, coagidos pela mais pro
funda necessidade, os gregos tiveram de criar esses deuses,
processo que, por certo, temos de nos representar assim : a
partir da originária ordem do horror dos deuses titânicos,
através daquele impulso de beleza apolíneo, desenvolveu-se,
A imagem do sábio sileno I 3 9 em transições lentas, a ordem da alegria dos deuses olímpicos
- como rosas a brotar de um arbusto espinhoso.’16
N o drama satírico, que pertencia ao encerramento pre
determinado, relaxante, da trilogia dramática clássica, o sileno
aparecia como uma personagem independente ante o coro de
sátiros. Ele foi representado como um ser fantástico e, por
fim, como personagem farsista, por exemplo, nos Sabujos de
Sófodes (c. 468)7 N essa peça, o sileno tenta rastrear e encon
trar as vacas raptadas do deus Apoio, e, com isso, ganhar a
prometida recompensa: uma coroa dourada e a liberdade. Ao
invés de se engajar ele mesmo na arriscada busca, o velho sileno
ralha com seus filhos, a grei dos sátiros: "N a hora do vamos
ver, sois fervorosos com as palavras, mas as ações vós evitais:
como é possível serdes filhos de um semelhante pai, corja de
bestas covardes [·.♦] Eu estarei convosco, e vos conduzirei eu
mesmo com m inha palavra.” (v. 145 ss.) Tam bém não faltam
as características externas do sátiro ou do sileno, quando a
ninfa da montanha zomba: “Em bora já sejas há muito tempo
um homem, de sua barba amarela estais orgulhoso como um
bode. Para de fazer bazófia com sua careca lisa!” (v. 357 ss.).
Por fim, os sátiros descobrem ser H erm es o ladrão das vacas
e recebem de Apoio a prometida recompensa. Assim como o
escarnecido sileno na peça de Sófocles, na Apologia de Platão
Sócrates também está a serviço do deus Apoio e à procura de
sabedoria para conquistar uma vida boa, que vale a pena ser
vivida - uma alusão à peça de Sófocles que provavelmente era
bastante clara aos atenienses.
6 N I E T Z S C H E , F.: Die Geburt.. .; K S A 1, p. 35s. C f. tam bém N U S S B A U M , M a rth a C .: T he fragility o f Goodness. Luck and Ethics ingreek Tragedy and Philo sophy, Cam bridge, 19 8 6 . 7 [N .T .] O nom e original da peça é Ίχνευτα ί (Ikhneútaí).
4 0 I A questão de Sócrates
Tam bém em Euripides (c. 4 85-406), na peça satírica Ci
clope, difícil de datar com precisão mas certam ente tardia, as
alusões ao Sócrates sileno são inconfundíveis, bem como a
desconfiança de que a sofistica seja mera pretensão à sabedoria.
Enquanto Sófodes escarnece o sábio sileno como fanfarrão e
covarde, Euripides o leva ao palco como um camarada constan
temente bêbado e mentiroso, mas engraçado. A base da ação
é a aventura de Odisseu e de seus companheiros na gruta do
ciclope Polifemo, o filho de Posídon, aventura também narrada
no canto IX da Odisséia de Homero. Odisseu e o bando de
silenos estão presos na ilha dos ciclopes e tentam realizar uma
fuga em comum. Com isto, uns superam os outros em ardil,
mesmo os companheiros e aliados entre si. D e suas refinadas
disputas verbais pode-se ouvir claramente o eco da retórica
sofistica como instrumento de poder da astúcia calculista que
converte “o argumento mais fraco no mais forte”.
D e início, ao astucioso conselho do sileno, Polifemo ainda
tenta contrapor o poder da violência nua e crua:
Sileno: “E u gostaria de te dar um conselho: N ão deixes sobrar nada de seu churrasco [de Odisseu]! E caso masti gues sua língua, tu te tornarás espirituoso, Ciclope, além de um grande orador!"
C iclope: “Quem é astucioso, homúnculo, vê na riqueza o seu deus. O resto é só papo furado e doce ilusão. [...] O [gado] eu sacrifico só para mim - não para os deuses! - sacrifico para o maior dos numes, a minha barriga! Pois comer todo dia, beber todo dia, eis o que é Zeus para todos os homens que são razoáveis.” (Euripides, C iclope, v. 314 ss.).
Porém, Polifemo não se m ostra à altura do ardil do sileno,
que sobrepuja até mesmo Odisseu. Primeiro, ele quer vender
A imagem do sábio sileno I 4 / a Odisseu as provisões do Ciclope, mas depois o delata a este
como suposto ladrão. O proverbial ardil de Odisseu também é o
tema do diálogo que Sócrates trava, no Hípias II de Platão, com
um rapsodo homérico de mesmo nome. Ao próprio Sócrates
também foi censurada sua “conhecida dissimulação" (ειρωνεία)
(República I, 337a ss.) Assim como Odisseu, Sócrates sabe que
e como ele pode levar seu interlocutor à confusão com truques
e dissimulações irônicas, e vê nesse saber uma vantagem diante
daqueles que não são capazes disso. M entir e cometer injustiça
com intenção ou “voluntariamente", ele afirm a de modo provo-
cador, é melhor do que fazê-lo sem intenção, pois no primeiro
caso é possível, ao menos, corrigir-se e fazer o que é direito.
N o Ciclope de Euripides, há alusões a mais características
do Sócrates sileno, à sua alegria em beber e ao seu prazer em
falar de bate-pronto, características transmitidas também por
outros testemunhos. Quando o Ciclope deve ser embebedado
para que se possa cravar em seu olho o tronco em brasa, o
sileno lhe furta às escondidas um cálice de vinho. Então o
ciclope se dirige a ele:
Ciclope: “Ei, tu aí, o que é que estás a fazer? Estás a beber na surdina o meu vinho?”
S ileno: “N ão! O vinho é que me beijou, porque minha aparência é assim tão graciosa!"
Ciclope: "Logo, logo irás ganir! Tu é que dás beijinhos no vinho e não ele em ti!”
Sileno: “Por Zeus! Ele me ama - disse ele - pois eu sou tão bonito!" (v. 552 ss.).
À alegria em beber soma-se o elogio feito por Platão à resis
tência etílica de Sócrates (Banquete 223c). N a manhã após
o banquete, "Agatão, A ristófanes e Sócrates, porém, ainda
4 2 I A questão de Sócrates estavam acordados e bebiam de uma grande taça, em roda,
da esquerda para a direita, e Sócrates travava conversas com
eles". Sócrates não oprime suas paixões, mas as conduz a uma
forma adequada.
Traços de sileno ou sátiro já haviam sido atribuídos a S ó
crates em meados de sua vida. Assim, na comédia As Nuvens,
de Aristófanes, o coro de nuvens se dirige a ele como um tipo
estapafúrdio, de aparência repulsiva, mas lhe garante ao mesmo
tempo que, a despeito disso, o estim a em particular, “porque
tu ficas a flanar orgulhoso pelas ruas e faz teus olhos vagarem
ao redor, sempre descalço e sem frescura, assoberbado pela fé
que tens em nós” (v. 363 ss.). Seu aluno Estrepsíades também
não faz chegar a Sócrates e à sua entourage nenhuma palavra de
desprezo: "por pura parcimônia, nenhum deles jam ais se pen
teou e cortou o cabelo, nem jam ais tomou um banho” (835 ss.).
Embora não sejam traçados quaisquer paralelos expressos, não
há como ignorar a semelhança de Sócrates com o feio nume, ou
venerado como sábio ou escarnecido como linguarudo e cheio
de truques, o qual decerto foi escolhido conscientemente por
Aristófanes como instrum ento de sua representação.
À diferença das Nuvens de Aristófanes, no Banquete de
Xenofonte Sócrates se compara expressamente aos silenos. O
escrito foi redigido bem mais tarde, presumivelmente ao redor
de 380, numa época, portanto, em que as primeiras estátuas de
Sócrates provavelmente já haviam sido erguidas e sua imagem
como sábio sileno já havia se firmado. Por conseguinte, à obra
de Xenofonte compete o valor de documento que oferece uma
nova ilustração de Sócrates. Nela, ele aparece em um concurso
de beleza ao lado do mancebo Critóbulo, conhecido por ser
particularm ente belo e desejável (Banquete V, cf. Memoráveis
I 3). S e a beleza deve ser equiparada à utilidade, argumenta
A imagem do sábio sileno I 43
Sócrates, é evidente que ele teria de ser o vencedor: seus olhos
vesgos podem ver de maneira tanto reta quanto enviesada; seu
nariz adunco pode cheirar melhor e não atrapalha seus olhos;
sua boca maior pode abocanhar m ais; enfim , seus lábios gros
sos podem beijar de maneira mais suave. Como maior prova
de sua beleza, porém, Sócrates apresenta justam ente sua seme
lhança com o sileno, particularmente conhecido por sua feiura,
pois tal semelhança proviría de deusas, as belas Náiades. M as,
como era de se esperar, Critóbulo recebe todos os votos: beleza
é propriamente uma questão de aparência e de afetos, não de
argumentação sagaz. Presumivelmente, Sócrates não esperava
algo diferente da animada contenda verbal do banquete. Além
disso, seria injusto com Xenofbnte imputar-lhe, nesse contexto,
um conceito de beleza trivial e utilitário. Tampouco se trata
aqui de uma prevalência da beleza interna de Sócrates sobre
sua feiura externa.
Contudo, a imagem fenomênica, exterior, de Sócrates
contradiz à primeira vista o ideal de beleza grego da kalokaga-
thía, do ser humano belo de corpo e alma, como o jovem Cár-
mides, por exemplo, segundo o elogio de Platão (Cármides 154d
ss.). M as se Sócrates, no Banquete de Xenofonte, reinterpreta
sua aparente feiura como beleza, segundo os critérios da uti
lidade funcional, repousa ao mesmo tempo nessa autoironia a
exortação, dirigida aos seus interlocutores, à verificação de suas
medidas de beleza. Algo exterior e num primeiro momento
repulsivo, como sua gorda barriga, podería ser belo na medida
em que, através de movimentos de dança, por exemplo, “tudo
é levado ao equilíbrio” (παν ίσόπορρον ποιεϊν) (Banquete I I 17).
Sócrates, portanto, não cinde seu exterior dionisíaco de algo
como uma interioridade apolínea. Ainda que a beleza não seja
nenhuma harmonia pré-estabelecida entre interior e exterior,
4 4 I A questão de Sócrates
FIG U RA 5
tampouco d a é simplesmente deslocada para o interior. M uito
antes, ela precisa ser extraída à força de movimentos e linhas
desordenados e inarmônicos. O "impulso de beleza apolíneo"
descrito por N ietzsche permanece inseparavelmente ligado à
sua contraparte dionisíaca.
A imagem do sábio sileno I 4 5
Assim, Sócrates se resguarda também da falsa alegação
de que ele defendería uma beleza livre de afetos e conflitos,
como contraste ou compensação entre interior e exterior. Se
gundo uma história transm itida por Cícero (O destino V 10),
certa vez os amigos Sócrates levaram até ele um fisionomista
profissional para pôr à prova sua técnica: o estrangeiro Zópiro,
que estava de passagem por Atenas. Este logo foi objeto de
gargalhada dos presentes, ao diagnosticar que Sócrates era par
ticularm ente estúpido e inclinado a excessos. Evidentemente,
Zópiro seguia a tese da kalokagathía, enquanto os amigos de
Sócrates pareciam defender a antítese da oposição entre in
terior e exterior. Sócrates, por sua vez, corrigiu ambos, como
se lê em um fragmento do diálogo Zópiro, atribuído a Fédon:
"Quando em seguida seus alunos ameaçaram o homem para
vingar-se da ofensa ao mestre, Sócrates disse: Acalmai-vos,
meus amigos; eu de fato sou assim, mas me mantenho sob
controle.’”8 Sócrates, portanto, confirm a expressamente sua
disposição natural dionisíaca, a qual ele todavia domina por
força de sua razão apolínea.9
Esses dois polos de tensão de Sócrates também são acen
tuados no Banqutíe de Platão (215a-c). Ali, Alcibíades compara
Sócrates ao sileno ou sátiro M ársias, uma figura semelhante ao
sábio sileno: "Pois eu afirm o que ele é muitíssimo semelhante
àqueles silenos que ficam nas oficinas dos estatuários e os ar
tistas representam com pífanos ou flautas, nos quais, porém,
caso se os parta pela metade, vê-se estatuetas de deuses. E as-
8 NESTLE, W. (1922), p. 178.
9 C f. F O E S T E R , tam bém R ichard: Die Physiognomik der Griechen, Kiel, 1884, p. 1 2 : "M as S ó crates deu razão ao hom em , com a observação de que aqueles defeitos de fato estavam nele presentes com o disposição natural, m as haviam sido bravam ente dom inados.”
4 6 I A questão de Sócrates
FIG URA 6
sim afirmo que ele se assemelha sobretudo ao sátiro M ársias.
Portanto, que tu és semelhante a eles quanto ao aspecto, ó
Sócrates, isso por certo não irás contestar; mas como tu te asse
melhas a eles também quanto ao resto, escuta agora o seguinte.
[...] Aquele [M ársias], com efeito, encanta os homens com o
instrumento, através do poder de sua boca, [...] tu, porém,
te distingues tanto mais diante dele, na medida em que, sem
instrumento, através das meras palavras, realizas o mesmo.”
Em bora Alcibíades, ao comparar Sócrates com M ársias,
também parta de uma oposição entre "exterior” e "interior”
(216a), pode-se dizer, com base no diálogo Zópiro, que essa é
justam ente a concepção que Sócrates não tem . Uma equipara
ção entre as opiniões de Alcibíades e Sócrates seria vedada já
por causa da forma diálogo, na qual todo interlocutor intervém
em favor de suas próprias afirmações; mesmo que Sócrates faça
uma afirmação, não se pode equiparar de antemão o Sócrates
A imagem do sábio sileno I 4 7
platônico ao histórico. Todavia, o próprio Platão parece não ter
defendido nenhuma oposição estrita entre exterior e interior,
ou entre razão e afetos, caso se considere de mais perto, ao
menos, a figura de M ársias.
Assim como na peça satírica de Sófocles, Sabujos, a compa
ração feita por Alcibíades ou Platão entre Sócrates e Mársias
tam bém conduz aos rastros do deus Apoio, que não é em
absoluto um deus apenas radiante e harmônico, mas sim, ao
mesmo tempo, invejoso, irascível e, com efeito, extremamente
cruel.10 Segundo o mito, M ársias pegou do chão uma flauta
que Atena jogara fora, porque havia visto no espelho d’água
quão ridícula ela parecia ao tocá-la, com suas faces se inflando
e seu rosto se corando de azul. M ársias se tornou a vítima
inocente de sua maldição, que deveria sobrevir a quem ousasse
apanhar a flauta. Quando as pessoas passaram a elogiá-lo,
dizendo que nem mesmo Apoio com sua lira podia tocar com
tanta beleza, este desafiou M ársias a uma competição. M as as
musas, na condição de árbitras, estavam igualmente extasiadas
por ambos os instrum entos. Para que se chegasse a uma deci
são, Apoio exigiu que os dois tocassem seus instrumentos em
posição invertida. Para M ársias, com sua flauta, isso era na
turalm ente impossível, mas para Apoio, com sua lira, decerto
não o era. Como vencedor, Apoio teve o direito de excogitar a
pena a ser imposta ao perdedor, e assim esfolou M ársias vivo.
Quem se mete em uma competição com Apoio tem de
tem er a vingança e a crueldade do Deus. A luz da razão tam
bém lança, ao mesmo tempo, suas sombras; ela cega os olhos
10 A cerca de M ársias, ver V on R A N K E -G R A V E S , R ob ert: Griechiche Mytho logie. Quellen und Deutung, R einbeck bei H am b u rg , 19 8 4 , p. 6 5 (21e). A cerca da figura cheia de tensões do D eus Apoio, ver C O L L I, G ioigio: Die Geburt der Philo sophie, M eisenheim a m G lan, 1 9 9 0 [orig. L a N ascita della Flosoßa [idem], 1975)].
4 8 I A questão de Sócrates
FIGURA 7
e resseca a terra. T al como M ársias, Sócrates também corre
grande perigo com sua atividade. O "encanto” que provém de
Sócrates é descrito por Alcibíades, por experiência própria, no
Banquete de Platão (cf. 215e s.; cf. Platão, Alcibíades I): "Por esse
M ársias já fui muitas vezes comovido a tal ponto que acreditei
que não valería a pena viver se permanecesse naquele estado".
Em bora Alcibíades não mencione a crueldade infligida por
Apoio a M ársias por causa de sua atividade, não é difícil fazer
uma associação entre ela e a inspeção crítica a que Sócrates
submete os modos de vida. N essa associação, deve-se pensar
menos no destino exterior de Sócrates, na sua execução, e mais
no fato de que o autoconhecimento confronta o homem com
A imagem do sábio sileno I 4 9
os lados sombrios de seu próprio ser. Assim também Édipo,
no drama de mesmo nome de Sófocles, à procura do assassino
de seu pai, teve de reconhecer que ele mesmo havia matado o
próprio pai e, além disso, se casado com a própria mãe. Como
expiação, Édipo cegou a si mesmo. Já na tragédia de Sófocles,
torna-se visível que "prestar contas a si mesmo” (v. 583) é uma
experiência perigosa e dificilm ente suportável ao homem.
A imagem de Sócrates como sábio sileno permite reco
nhecer o contorno da questão que importa a Sócrates segundo
a impressão de seus concidadãos. Sócrates nos vem ao encontro
como uma figura inteiriça, na qual se unem traços dionisíacos
e apolíneos. É evidente que ele não vivia uma vida puramente
orientada nem para o prazer nem para a razão. Em bora de
signe a si mesmo como um servidor do deus Apoio, ele não
oprime sua disposição natural dionisíaca, a qual, ao mesmo
tem po, tam bém caracteriza o deus Apoio. O s "rastros das
ações de outrora" (Lichtenberg) remontam a uma prática dia-
lógica e a um modo de vida pelos quais Sócrates confia à razão
o poder de, a cada vez, inspecionar novamente nossas repre
sentações da realidade efetiva do bem-viver e de configurar a
vida segundo os insights assim conquistados.
N o Críton de Platão (46b), Sócrates resume a máxima
fundamental de seu modo de vida: “N ão só agora, mas desde
sempre sou de tal modo que não sigo nenhum outro senti
mento senão a convicção (λόγψ) que através da meditação se
revele a mim como a melhor". A máxima de Sócrates oriunda
do Críton está acinzelada como epígrafe em uma herma de
mármore romana do início do século III E .C ., que pode ser
vista no Museu N acional de Nápoles e mostra Sócrates como
um sábio digno, superior (fig. 5), reproduzindo a concepção de
filósofo como sábio estoico, predominante em Rom a à época
5 0 I A questão de Sócrates
FIGURA 8
de sua produção. Em contrapartida, uma chapa de bronze
napolitana com "Sócrates e Diotim a” (100 E .C .), bem como
um afresco de uma residência privada em Éfeso, no primeiro
século da era cristã, destacam de modo particularmente nítido
os traços silenos de Sócrates (figs. 6 e 7). O sábio sileno não
é nenhum puro homem de razão, mas uma figura viva, em si
mesma contraditória e sempre investigativa. A oposição entre
A imagem do sábio sileno I S1
Sócrates e Platão não podería ganhar expressão mais enfática
que através da comparação com o busto de Platão que está na
Gliptoteca de M unique e que provém aproximadamente do
ano 350 E .C . (fig. 8).
52 I A questão de Sócrates
C a p í t u l o 3
O r a lid a d e e e s c r ita
O desenho a pena em que Platáo dita e Sócrates escreve
(fig. 9) provém de um manuscrito dos Prenostica Socratis bastlet
(Presságios do rei Sócrates) surgido no círculo de M atthew Pa
ris e conservado na célebre biblioteca Oxford Bodleian Library.1
Presume-se que o desenhista confundiu os nomes "Plato" e
“Socrates" ao alto do quadro por engano ou por despreparo
no assunto. Com efeito, dados os poucos conhecimentos da
época acerca dos escritos de Platão, é improvável que se tenham
trocado os nomes intencionalmente, como que para ilustrar
a conhecida passagem de Platão na Carta II (314c): “N ão há
nenhum escrito de Platão, nem haverá; e aquilo que agora vale
como tal, provém antes de um Sócrates que foi belo e jovem”.
Com o se sabe, Sócrates mesmo não escreveu nada, mas
buscou no diálogo oral, juntam ente com seus interlocutores,
conquistar insights e, em conformidade com eles, orientar sua
vida. Em contrapartida, é evidente que Platão considerava seus
escritos aptos a estim ular o leitor a atingir tais insights por si
mesmo. T al como está representado no desenho, Platão, en
quanto autor dos diálogos escritos, realmente dita seus pen-
1 E ste desenho é o Leitmotiv de D E R R ID A , Jacques: Die Postkarte von Sokrates bis an Freud und jenseits [orig. L a carte postale: de Socrate à Freud et au-delà (A carta postal: de Sócrates a Freud e mais além)], 2 vols., Berlin, 1 9 8 2 /8 7 . C f. tam bém R O R T Y , R ich ard : Kontingenz, Ironie und Solidarität [Contingency, Irony, and Solidarity (Contingência, ironia e solidariedade)], Fran k fu rt a. M ain, 1989, que tem um capítulo à p arte (cap. 6 ) dedicado ao livro de D errida.
Oralidade e escrita I 5 3
samentos a Sócrates, seu personagem principal. Por outro
lado, a convicção de que a filosofia não se deixa comunicar em
proposições vincula Platão a Sócrates. Portanto, a observação
da Carta I I talvez possa ser entendida de modo a expressar
a distância de Platão em relação ao jovem Sócrates, que na
primeira parte do diálogo Parmêrtides defende uma doutrina
das idéias ingênua e comunicável em poucas proposições, agu
damente criticada pelo velho Parmenides na segunda parte
do mesmo diálogo. N esta, executa-se um "exercício” prático
muito fatigante sobre a relação entre "o um e o múltiplo”, que
é o tem a fundamental da doutrina das idéias em sua versão
ingênua. Embora nossa “possibilidade de diálogo” (διαλέγεσθαι)
dependa de "idéias” ou conceitos universais, estes devem ser
postos à prova no uso prático.2
A "possibilidade de diálogo” tornou-se um problema em
uma situação de ruptura cultural quando, através do descobri
mento e da propagação da escrita, a unidade na fala oral entre
palavra, significado e ato não estava mais garantida por si só.
Enquanto na imediata consecução da ação a palavra significa
quase magicamente a coisa ela mesma e desencadeia deter
minadas consequências práticas, a forma escrita possibilita
um visível distanciamento entre o objeto visado e as possíveis
consequências práticas. Palavras e frases ganham vida própria
quando separadas da situação de uso concreta e dos objetos e
ações intencionados. Certam ente, já antes disso a palavra oral
podia conter um peso próprio, quer como mera disputa verbal
do “ardiloso" Odisseu, quer como bela fala do poeta. M as é
2 C f. M A R T E N S , E k k eh ard (o rg .): Platon: Parmenides, g r./a l. S tu ttg art, 1987, posfácio; c f ainda W I E L A N D , W olfgang, Platon und die Formen des Wissens, G öttingen, 1982.
5 4 I A questão de Sócrates
FIG URA 9
somente com a escrita que passam apartar-se na linguagem,
cada vez mais, a forma exterior, o objeto, e os efeitos práticos.
O fato é que a ocupação dos sofistas e de Platão com a lingua
gem como um domínio fenomênico próprio coincide com a
época em que a cultura escrita se espalha. O alfabeto fenício,
uma escrita consonantal com 22 caracteres, tornou-se conhe
cido aos gregos por meio de seu comércio com os fenícios no
século IX A .E.C . O s gregos o desenvolveram e transformaram
Oralidade e escrita I 55
no chamado alfabeto jônico, ao trocarem o valor de alguns ca
racteres e introduzirem novos para as vogais. Com isso, foram
capazes de captar de maneira mais diferenciada os fonemas e
os sons isolados da língua. N o ano 403, o alfabeto jônico foi
introduzido oficialmente também em Atenas.
Porém, já antes disso, desde a época das Guerras Pérsicas,
o aprendizado da leitura e da escrita pertencia ao programa de
estudos do ensino elementar.3 Sócrates não tinha em princípio
uma orientação contrária à escrita e ao aprendizado vindo dos
livros. Tanto que, no Fédon de Platão, ele relata seus extensos
estudos dos escritos sobre filosofia da natureza de Anaxágoras
(97b), os quais, segundo ele, podiam ser comprados por toda
parte em Atenas (Apologia 26d s.). D e acordo com Xenofonte,
Sócrates era até mesmo um amigo da leitura: “E os tesouros
dos sábios de outrora, que estes nos legaram em seus escritos,
eu abro e percorro juntam ente com meus amigos; sempre que
encontram os algo de bom, nós o colhemos (έκλεγόμεθα), e
consideramos ser de grande valia que nos tornemos úteis uns
aos outros" (Memoráveis 1 6,14).
Sócrates não recusava a escrita em geral, mas tão só seu
uso inadequado, que a trata como um sistema fixo de letras,
palavras e proposições, e a transm ite como um saber fixo com
uma finalidade qualquer, qual uma mercadoria ou um instru
mento. O saber fixado em escrita desperta a ilusão de que se
possa "colher”, sem uma reflexão própria e esforços práticos,
aquilo que é, por exemplo, ju sto ou bom. A objeção a um saber
aprendido de maneira meramente exterior e esquematicamente
aplicável é levantada por Sócrates contra as doutrinas sofisticas,
3 C f. M A R R O U , H e n ri I .: Geschichte der Erziehung im klassichen Altertum, M u nique, 1977, p. 9 5 -1 0 0 [orig. Histoire de Véducation dans lAntiquité, Paris, 1 9 4 8 ].
56 I A questão de Sócrates
tanto nas obras de Platão quanto nas de Xenofonte. Contudo,
apenas em Xenofonte se encontra um exemplo m arcante de
como se dá, na visão Sócrates, a conexão entre a forma escrita
e o saber do que é ju sto e bom, que os sofistas alegam poder
ensinar. Sócrates ouvira falar que Eutidemo havia colecionado
muitos escritos dos mais célebres poetas e sofistas e que, por
isso, com base em seu conhecimento literário, “acreditava já
ser superior aos companheiros de mesma geração” (Memorá
veis IV 2 ). Como narra Xenofonte, Sócrates então lhe per
guntou: "D iz lá, Eutidemo, é verdade o que eu escuto, que
tu reuniste muitos escritos dos homens que se contam entre
os especialistas (σοφοί)? " - “ Sim , Sócrates, e os continuarei
colecionando até que, na medida do possível, eu possua todos
eles". N o entanto, como admite sob indagação de Sócrates, Eu
tidemo não se interessa por todos os livros, por exemplo, pelos
livros de médicos, mestres de obras, agrimensores, astrônomos
ou rapsodos homéricos. M uito antes, ele quer se tom ar político
e afirm a não só já possuir a perícia necessária mas também
"não ficar atrás de ninguém quanto à justiça". M ais adiante,
quando se gaba de poder "enumerar as obras sobre a ju stiça e
a injustiça”, ele claramente visualiza diante de si sinopses em
forma de tabela, anteriormente vistas quer em livros quer em
quadros esquemáticos. Assim, ele de pronto aceita a proposta
de Sócrates de fazer duas listas, uma para o que deve estar sob
a letra "J" de justiça, outra para o que deve estar sob a letra "1"
de injustiça (em grego, "6" de δίκη e “a ” de άδικία).
Com o injustiça, Eutidem o logo enumera: mentir, enga
nar, impingir danos recíprocos, vender alguém como escravo.
N o entanto, ele tem de adm itir que os mesmos exemplos,
caso não se refiram a amigos, podem ser inscritos tanto na
lista do T quanto na do "J”. Pois, com relação aos inimigos, é
Oralidade e escrita I 5 7 lícito iludir, enganar e vender como escravo - o que Eutidemo
aceita como se não fosse problem ático. M as essa nova lista
gem de “J ” e T entre amigos e inim igos, tão fácil de anotar
e guardar, tam bém não se sustenta, como m ostra o fato de
Eutidem o, diante da indagação de Sócrates, posteriorm ente
ter de corrigir-se. Por exemplo, enganar um amigo quando
isso acontece em seu proveito não é um caso de “injustiça”,
mas sim de “ju stiça”; desse modo, seria lícito subtrair, atra
vés de um ardil, a espada de um amigo que ameça tom ar a
própria vida por m elancolia.
Um saber esquemático de palavras e definições, como o
que se veicula nos livros, sugerindo a partir de sua forma externa
um saber claramente circunscrito e fixo, é justam ente o que não
proporciona a conquista de um saber efetivo da justiça, mas
seduz a um saber aparente, sem aplicação à situação concreta.
Por isso, a invenção da escrita, como alerta Sócrates no Fedro
de Platão (275a), é um obstáculo que se antepõe aos homens
em seu próprio refletir, "pois eles, confiando na escrita, irão se
recordar apenas exteriormente, por meio de sinais estranhos,
mas não interna e imediatamente por si próprios". M uito antes,
a escrita podería apenas servir de recordação àquele “que já tem
o saber do que está escrito” (275). Além disso, sem "ajuda" ou
interpretação, a escrita facilmente podería cair em mãos erradas.
À diferença do diálogo oral, com efeito, o discurso composto
através da escrita “circula igualmente entre aqueles que o com
preendem e aqueles aos quais ele não é pertinente; ele não é
capaz de saber a quem deve falar e a quem não” (275e).
A escrita corre o risco de desatrelar o saber e os insights de
seu concreto círculo de destinatários e de seu contexto de ação
e de uso, tornando-os independentes em proposições fixas e
disponíveis a qualquer um. N o entanto, o fato de que é possível
58 I A questão de Sócrates
polemizar livremente sobre uma dada questão também no dis
curso oral dá ensejo a que Sócrates censure frequentemente as
disputas verbais e as conferências sofisticas (Eutidemo, Protagoras
334c ss., Górgias 449c ss.). O ponto decisivo no discurso escrito
ou oral é, em igual medida, sua referência objetiva; a forma
da oralidade e da escrita é secundária, embora a escrita esteja
mais exposta à crítica que o discurso oral. N isto, é bastante
claro que Sócrates e Platão concordariam, como testemunha
a passagem de Xenofonte. Portanto, para compreender a con
cepção de Sócrates, as meditações de Platão sobre oralidade e
escrita na Carta V II também podem ser invocadas.
Por volta dos setenta anos - com a mesma idade de S ó
crates ao fim de sua vida - , Platão faz uma retrospectiva de
sua longa experiência filosófica com a filosofia e explana como
se pode conhecer algo em geral, mas sobretudo a coisa da fi
losofia. O motivo concreto de suas meditações são suas expe
riências negativas com o tirano Dionísio II, cuja crueldade e
falha orientação filosófica ele criticara em sua terceira viagem
a Siracusa (361-360). D e acordo com a convicção de Platão,
Dionísio II se demonstrou totalm ente incapacitado à filosofia.
Por isso, com base em sua experiência, ele recomenda que os
aspirantes à filosofia sejam postos à prova (340b-d ): "a tais
homens é preciso m ostrar o que e como é toda a questão da
filosofia (παν τό πράγμα), toda a atitude que ela exige (&’ όσων
πραγμάτων)”, a saber, “um modo de vida cotidiano que fomenta
o mais das vezes sua habilidade em ensinar, sua memória e sua
capacidade de pensar com clareza (λογίζεσθαι)”. A “questão”
da filosofia, portanto, tal como ο πράγμα grego, é ao mesmo
tempo uma “atividade”. Ela não é nenhum saber manualesco,
veiculável em proposições, mas uma atitude de conhecimento,
a qual comporta esforços ascéticos e intelectuais.
Oralidade e escrita I 5 9
Quem de antemão recua assustado diante desses esforços,
segundo Platão, já não passou na "prova”, mas está "apenas tin
gido com um saber aparente, como os corpos queimados pelo
sol". Desenvolvendo a breve observação de Platão, é como se tal
pessoa fosse incapaz de lidar com os raios do sol de maneira
que eles, ao invés de prejudicá-lo ou aquecê-lo apenas por fora,
lhe fossem realmente úteis. M as mesmo quem não recua de
imediato diante dos esforços não pode estar seguro de não
cessar com eles cedo demais. "Alguns deles inclusive persuadem
a si mesmos de que já teriam escutado o bastante sobre tudo
e de que agora não precisariam mais fazer nenhum esforço
(πραγμάτων) adicional”. Entre estes, Platão conta também Dio-
nísio II. Sem ter conhecido o mais importante (τά μέγιστα), ele
teria somente captado a esmo "narrativas passageiras de outros"
e, além disso, as escrito como sua própria doutrina. Ao lado do
plágio e da falta de pensamento autônomo, Platão vê aqui um
mau uso da escrita, o qual permite inferir que essa gente “não
entende nada da coisa em questão (του πράγματος)".
O uso adequado da escrita, bem como do discurso oral,
determ ina sua própria medida, como Platão escreve mais à
frente, segundo o critério da “própria coisa em questão”1 que
deve ser conhecida e comunicada. A diferença de todos os
outros conhecim entos, o filosófico só pode surgir na alma
“do frequente esforço em comum pela própria coisa em ques
tão (τό πράγμα αύτό) e do viver em comum, repentinamente
(έξαίφνης), como um fogo acendido por uma faísca que sal- 4
4 [N .T .] E m to d a esta passagem , o au tor explora am plam ente o jo go de palavras entre Sache e pragma. N o te-se que a expressão "die Sache selbst”, em pregada para tradu zir o grego “τ ό πράγμα αύτό”, está consagrada n a m áxim a da tradição fenom enológica de H u sserl e H eidegger: “Z u den Sachen selbst” = "As coisas elas m esm as”. C f. nota ao prefacio.
6o I A questão de Sócrates to u . Por isso, sem longos esforços e experiências em comum,
não é possível haver uma comunicação escrita ou oral desse
conhecimento para círculos mais amplos. Entretanto, segundo
Platão, isso não significa de modo algum uma renúncia abso
luta à comunicabilidade escrita ou oral, mas tão só uma dupla
exigência dirigida à doutrina filosófica. Por um lado, ela precisa
reportar-se a um círculo que tenha se comprovado capacitado,
isto é, a “alguns poucos"; por outro, ela precisa escolher como
forma de comunicação apropriada, no lugar de demonstrações
externas, as “indicações" com a ajuda das quais "os poucos des
cobrem" o conhecimento filosófico "por si mesmos" (άνευρείν
αύτοι διά σμικράς ένδείξεως). Se Sócrates claramente também
diferenciou seus diálogos filosóficos conforme se reunia com
seu círculo de amigos ou tinha de discutir as teses reivindicadas
pelos sofistas (cf. em particular o cap. 4 ), em Platão não há
como desconhecer a tendência à defesa de uma filosofia eli
tista e de uma supremacia dos filósofos (República, Livro V II).
Que, em sua prática dialógica oral, Sócrates quisesse ape
nas prestar ajuda à autoajuda, mas não apresentar-se como
professor de um saber comunicável, isso é reiteradamente en
fatizado por Platão. Segundo suas observações na Carta V II,
porém, não está de modo algum excluída a possibilidade de
que também a forma diálogo e mesmo a forma escrita do ma
nual, com a devida distância perante um saber ensinável de
maneira direta, auxiliem na busca do conhecimento filosófico.
Em nenhuma dessas duas formas diferentes de "indicações”,
entretanto, é possível uma comunicação da “própria coisa em
questão”. A mera comunicação de proposições filosóficas, seja
em forma oral ou escrita, não é nenhum insight real, se não for
levada a term o e vivida por si mesma. Para tanto, Platão con
sidera, decerto em concordância com Sócrates, que o veículo
Oralidade e escrita I 6l mais apropriado é o diálogo em comum e a experiência em
comum de um bem-viver. A segunda melhor forma de insight
filosófico é, para Platão, o diálogo escrito como imitação do
oral. M as, para ele, como mostram sobretudo suas obras tar
dias, mesmo a forma de manual é ainda aceitável como terceiro
melhor método, caso ela estimule o pensamento autônomo.
Com o método inapropriado, em contraste, tanto Sócrates
como Platão recusam a direta comunicação de proposições
filosóficas doutrinárias, seja ela escrita ou oral.
Para fundamentar essa gradação dos métodos e dos meios
de insight filosófico, Platão afirm a na Carta II (324a-344d) o
primado, no processo de conhecimento, da própria coisa em
questão como objeto de conhecimento. N ão apenas quanto ao
filosófico, mas a todo e qualquer conhecer, é preciso distin
guir cinco graus, como elucida Platão através do exemplo do
círculo: primeiro, o nome ou a designação (όνομα: “círculo”);
segundo, a explicação ou definição (λόγος: “aquilo cujos pon
tos extremos são por toda parte equidistantes em relação ao
centro”); terceiro, a imagem (είδωλοv: o círculo desenhado ou
traçado com compasso); quarto, o conhecimento (“na alma”);
quinto, o que é conhecido ou a própria coisa em questão (“o
círculo ele mesmo”). À diferença desta coisa perfeita e inalterá
vel, os primeiros quatro graus de conhecimento são imperfeitos
e alteráveis. Por isso, no melhor dos casos, eles valem como
aproximações - mas, na menor medida, vale "aquilo que está
escrito com letras” (τα γεγραμμένα τύποις).
A particular imperfeição da escrita, segundo Platão, con
siste em que ela é "inalterável” em sua imagem escrita fixa e, por
isso, pode ocultar, com mais facilidade que os outros graus de
conhecimento, o fato de que ela não é a própria coisa "inalterá
vel”. Pois, enquanto o “círculo” mesmo, como norma para todos
62 I A questão de Sócrates os círculos empíricos, é sempre “círculo" e de modo algum um
“náo-círculo”, o círculo desenhado incide na “tangente por toda
parte”, quer dizer, é todo composto de tangentes mínimas e, por
isso, jam ais tem a exigida equidistância de seus pontos extremos
em relação ao centro: ele é, ao mesmo tempo, "círculo” e "não-
círculo”. Ainda mais clara é a inversão de uma denominação em
seu contrário. A não ser pela convenção linguística, nada obsta
que “o que agora é denominado curvo seja denominado reto; e
o que é reto, curvo”. O próprio Platão também evita em seus
escritos fixar-se em uma terminologia, a fim de prevenir-se do
perigo de confundir a compreensão de uma definição com o
insight da coisa. Além disso, por causa da intercambialidade das
denominações, as definições também são intercambiáveis, uma
vez que estas são formadas daquelas. O quarto grau de conhe
cimento, o conhecer “na alma", mesmo com os conhecimentos
e convicções aparentemente mais seguros, também não pode
jam ais valer como absolutamente inalterável (cf. Banquete 207e-
f). Porém, antes de tudo, é o diálogo oral que oferece a chance
de abrir à força os conhecimentos aparentemente inalteráveis
e novamente dirigir o olhar para a própria coisa em questão,
na medida em que “as denominações, explicações, visões e per
cepções” nas quais o pretenso conhecimento se expressa “são
friccionadas umas contra as outras” (344b).
Oralidade e escrita são julgadas por Sócrates e Platão, por
conseguinte, tão só do ponto de vista de seu uso adequado (cf.
também Fedro 274b-278b). Ambos os meios são ambivalentes.
O meio do discurso oral também pode, na forma do "discurso
longo” dos sofistas (Protagoras 334c-338e; República 1336b-338b),
simular um conhecimento inalterável, perfeito. Inversamente,
contudo, a forma escrita do diálogo socrático e até mesmo a con
ferência docente, quando apropriada, podem da mesma maneira
Oralidade e escrita I 63
promover o movimento necessário do pensamento ao “friccio-
nar, um no outro”, discursos contrários entre si, ao demons
trar como são contraditórias as explicações dadas e as palavras
empregadas, e ao não atribuir a nenhum dos participantes do
diálogo a autoridade do conhecimento verdadeiro, inalterável.
Todavia, além do pensar por si só como “diálogo interior da
alma consigo mesma, sem voz” (Sofista 263e; Teeíeto 189c ss.), no
conhecimento das “coisas mais importantes”, da realidade efetiva
do bem-viver, é requerida a prontidão a aventurar-se à experi
ência em comum, à sua inspeção crítica e a uma reorientação
pautada nos insights conquistados desse modo. Somente em um
“viver em comum”, a partir de um esforço comum, o conheci
mento pode resplandecer “repentinamente". Com a expressão
"viver em comum”, Platão visa não apenas à comunidade de
pesquisadores de sua academia, organizada segundo o modelo
pitagórico, mas também à experiência comum da realidade efe
tiva do bem-viver, conforme o modelo de Sócrates.
O nexo entre saber teórico e prático e entre "ascenso” e
“descenso” é metaforicamente apresentado por Platão na alego
ria da caverna, no início do Livro V II da República, e sistematica
mente fundamentado por ele em sua "crítica aos poetas” do fim
da mesma obra (X , 595a-608b). N a assim chamada “crítica aos
poetas", não lhe importa desenvolver nem uma teoria da poesia,
ao modo da Poética de Aristóteles, nem uma poética no sentido
atual, que trate dos processos criativos e artísticos alheios ao
domínio cognitivo e moral da realidade efetiva. M uito antes,
ele quer tão só criticar a funcionalização didática promovida
pelos intérpretes de Homero marcadamente sofísticos.5 Ainda
que Platão não faça expressa distinção entre a pretensão do
5 C f. F L A S H A R , H elm u t: (org.), Platon: Ion, g r./al., S tu ttg art, 1988, p. 57.
64 I A questão de Sócrates próprio H om ero e a de seus intérpretes, com sua crítica ele
mira em primeiro lugar a pretensão dos rapsodos influenciados
pela sofistica de poder extrair dos épicos homéricos todas as
informações necessárias e todas as instruções práticas. Portanto,
mais uma vez, em cada referência à própria coisa em questão,
contrapõem-se ao mesmo tempo escrita e oralidade ou saber
literário e saber empírico.
Tampouco a crítica de Platão aos poetas tem propósito
apenas teórico; ela também segue uma intenção prática. Por