A questão de Sócrates: uma introdução
sivelmente provocados pela contraproposta de Sócrates
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
que estipulava uma pena de somente 30 minas de prata
(Apologia 38b).
5 [N .T .] O em pate e m 2 5 0 votos absolvia o réu.
i i 8 I A questão de Sócrates
(8) Execução - A execução de Sócrates só aconteceu um bom
tempo depois de sua condenação; primeiro era preciso
esperar pelo retorno do navio, enviado todo ano à ilha
de Delos, para agradecer a Apoio sua ajuda a Teseu na
salvação dos reféns atenienses para fora do labirinto do
Minotauro. Durante a missão festiva, não era lícito que a
cidade de Atenas fosse “maculada” por qualquer execução
(cf. Fédon 57a-58c, 59d s.; Críton 43c s.).
(9) Delito - Sócrates foi acusado de asebeía (ateísmo, sacrilégio
contra a religião, 35dl s.). Esta acusação pode ser enten
dida em sentido estreito e em sentido amplo. Por volta
de 432/429, fora sancionada na assembléia popular, sob
proposta do adivinho profissional Diópeites, a chamada
lei da asebeía, segundo a qual era crime grave espalhar
determinadas doutrinas puramente físicas sobre a natu
reza dos astros "divinos” e negar a existência dos deuses;
Anaxágoras, Diágoras e Protágoras eram conhecidas ví
timas dessa lei, bem como Aspasia. M as é de se presumir
que a lei tenha sido revogada com a anistia geral de 403,
ou seja, já antes do processo de Sócrates.4 Uma acusação
de asebeía no sentido amplo, em contrapartida, também
era possível sem esta lei. Sócrates, aliás, não contesta sua
legalidade em nenhuma passagem, mas sim sua morali
dade. A "piedade” era a base da polis e era rigidamente
observada, como é exposto, por exemplo, nas Eumênides
de Ésquilo. “Piedade” ou religião não era, entretanto, ne
nhum credo claramente delineado, institucionalmente
assegurado e vigiado por um estamento sacerdotal, mas,
4 C f. B R IC K H O U S E , T h o m a s C . & S M I T H , N ich olas: Socrates on trial, Prin ceton (N .J.), 19 8 9 , p. 3 2 s.
‘Bem-viver” e ignorância socrática I I IQ
segundo Dodds, consistia nas ações tradicionais de culto:
Ό costume exigia do cidadão de um Estado grego exe
cutar certas obrigações religiosas mínimas; mas ele não
era obrigado a confessar um determinado credo, e nem
podería ser, uma vez que não existia um credo formulado
e estabelecido por escrito".5
Se, em defesa de Sócrates, Xenofonte aponta sua ob
servância aos ritos (Memoráveis I 3), disto se pode deduzir o
caráter ritualístico da piedade tradicional, também deduzível
da consulta de Eutifron ao colégio sacerdotal motivada pelo
alegado assassínio de um servo, bem como das prescrições
de adiamento de uma execução tida como “maculação” até
o retorno do navio enviado a Delos. Todavia, as ações ritu
ais repousavam sobre convicções de fé, tal como elas haviam
sido formuladas sobretudo por Homero e Hesíodo, e tam
bém determinavam, de maneira exemplar, a ação de Êutifron.
Quem pusesse em dúvida tais convicções, portanto, agredia
indiretamente os cultos existentes na cidade. Já Xenófanes
havia criticado as representações antropomórficas dos deu
ses como uma classe de senhores incontinentes, querelantes
e vingativos. Somente nos tempos inquietos da Guerra do
Peloponeso, porém, a “esclarecida” filosofia da natureza de
alguém como Anaxágoras e a retórica dos sofistas pareceram a
muitos atenienses, particularmente na educação da juventude,
"corromper” as convicções fundamentais que dão sustentação
5 DODDS, Eric Robertson: Die Religion des gewöhnlichen Menschen im klassis chen Griechenland;in: DODDS, E. R.: Der Fortschrittsgedanke in der Antike und andere Aufsätze zur Literatur und Glauben der Griechen,Zürich/München, 1977, p. 170 [orig. T h e Ancient Concept o f Progress, and Other Essays on Greek Literature and Belief,Oxford, 1973)].
- 2 0 I A questão de Sócrates
ao Estado. Um testemunho do temor diante dos “intelectuais
corruptores” era lei da asebeía de Diópeites.
Porém, se a acusação de asebeía foi levantada pelo partido
democrático contra Sócrates apenas como represália - porque
a anistia de 403 tornara impossível uma acusação de colabora
ção com o partido oligarca pró-espartanos - isso não pode ser
decidido com certeza. Possivelmente seus acusadores ligaram
ambas as coisas entre si e consideraram a atividade “ímpia"
de Sócrates como corresponsável pela decadência de Atenas e
pela vitória da oligarquia pró-espartanos. Com certeza, nisso
também teve um papel o íãto de que Crítias, o líder dos Trinta
Tiranos e autor de escritos com ideário sofistico e pró-espar-
tano (Diels/Kranz 81, frag. 25, 32-38), havia sido aluno de
Sócrates, assim como o trânsfuga Alcibíades (cf. Xenofonte,
Memoráveis I 2). N o entanto, Platão mesmo exclui um mero
revanchismo dos vitoriosos democratas contra todos do par
tido inimigo quando lhes atesta, apesar de algumas exceções,
"muita moderação" (Caria V II 325b).
Evidentemente, processos de asebeía eram levados muito
a sério. Tanto Anaxágoras quanto Protágoras só puderam
salvar suas vidas por meio da fuga.6 M as por que justo um
homem como Sócrates, e ademais em uma época bastante
moderada após a vitória do partido democrata, foi acusado
e condenado à morte? A razão da condenação de Sócrates,
ainda que tenha alvoroçado de imediato o público ateniense,
como mostra a disputa entre seus amigos e adversários após
sua morte, hoje não pode mais ter suas causas reconstituí-
6 V er acerca dos processos de asebeía, N E S T L E , W ilh elm : Vom Mythos zum Logos [Do mito ao lógos]. Die Selbstentfaltung des griechischen Denkens, von Homer bis auf die Sophistik und Sokrates, S tu ttg art, 1975 freimpr. da edição S tu ttg art, 1 9 4 0 ), pp. 4 7 6 -4 8 5 .
‘Bem-viver” e ignorância socrática I 121
das. Decerto, a atividade filosófica de Sócrates dava motivos
para confusão, associando-se sobretudo à sofistica da época;
ademais, ele havia se aproximado do partido oligarca pró-
espartanos. Porém, estampar-lhe o selo de mártir filosófico
da busca pela verdade, isto seria com certeza exagerado. D e
todo modo, ele permaneceu fiel, de maneira inabalável, às suas
convicções fundamentais, e não se deixou desviar por um erro
judicial. Provavelmente não era claro à maioria dos atenienses
aquilo em que propriamente deveria ter consistido o delito de
Sócrates, e por que eles, ou os jurados, o haviam condenado.
Por isso, como se pode depreender do Críton de Platão, é de
se presumir que eles sequer veriam com maus olhos a fuga de
Sócrates. O s atenienses, aliás, arrependidos após sua execução,
erigiram-lhe uma estátua expiatória (cf. cap. 2).
É para que não entrasse em esquecimento aquilo que
importava a Sócrates como filósofo que Platão escreveu sua
Apologia. Sua defesa filosófica, porém, não exclui que ele tam
bém quisesse defender objetivamente Sócrates das acusações
apresentadas. Por isso, Platão busca oferecer provas de que
Sócrates não tinha nada a ver nem com a nova filosofia da
natureza nem com a prática docente sofistica. Ademais, ele
queria mostrar que Sócrates não havia sido partidário dos
oligarcas, mas tentara estabelecer sobre uma nova base toda
a política cotidiana, inclusive a dos democratas. Com sua exi
gência de buscar criticamente a verdade e orientar-se segundo
a justiça, Sócrates pode ser considerado um dos fundadores
da democracia - o que não exclui uma crítica a determinadas
práticas e critérios democráticos. Portanto, a crítica de Sócra
tes à democracia na República de Platão (Livro V III) não deve
ser inadvertidamente atribuída ao Sócrates histórico, mas é
preciso entendê-la como uma concepção de Platão, ainda que
122 I A questão de Sócrates
Sócrates também tenha estabelecido o princípio da decisão
técnica acima do princípio da decisão da maioria (Laques 184e),
um conflito até hoje não superado em qualquer democracia.
Para manter Sócrates fora da mera disputa partidária
entre democratas e oligarcas, a estratégia de defesa de Platão
avança no sentido de aguçar a questão de Sócrates como a
pergunta decisiva pelo que seria para o indivíduo e para a pólis
o bem-viver. S e o Sócrates histórico de fato se defendeu da
maneira peculiar apresentada por Platão, isto não pode mais
ser verificado. Mas certamente Platão reproduziu a concepção
socrática fundamental. Também está no centro dos Memoráveis
de Xenofonte a pergunta pelo “bem-viver", porém não como
pergunta de princípio, mas sim utilitária, no sentido dos con
selhos úteis para um bem-viver convencional. Segundo Xeno
fonte, Sócrates era simplesmente um bom cidadão; segundo
Platão, ele era além disso um bom filósofo. Somente o filósofo
torna compreensível o efeito provocativo do Sócrates histórico
sobre os atenienses. Em contraste, é impossível compreender
o que verdadeiramente os atenienses podem ter tido contra o
bom e útil cidadão descrito por Xenofonte. Por isso, a apresen
tação de Platão não é apenas filosoficamente mais interessante,
mas também se aproxima mais do Sócrates histórico. Sócrates
era e é, com efeito, uma insolência.
A pergunta pelo "bem-viver” não foi colocada só por Só
crates, mas também pelo sofistas. Indiretamente, ela também
foi abordada pelos filósofos da natureza com a negação da di
vindade dos astros, na medida em que estes, segundo a con
cepção tradicional, exerceríam influência sobre a vida dos ho
mens. N a Apologia de Platão (24b s.), Sócrates é ligado a ambos
os grupos pela acusação escrita de Meleto: "Sócrates”, diz ele,
“comete sacrilégio ao corromper a juventude e ao não crer nos
'Bem-viver” e ignorância socrática I 121
deuses em que a pólis crê, mas sim em diferentes e novos numes”
Em sua defesa, Sócrates trata primeiro dos acusadores
“anteriores” (18a-24a), e só em seguida dos “posteriores" (23e-
35d). Entre os acusadores anteriores, Sócrates inclui Aristó-
fanes, cuja comédia os próprios atenienses teriam “visto” (19c).
Possivelmente ele também alude a outros comediantes, como
Ameípsias e Êupolis, que também escarneceram de Sócrates
no palco. Nas Nuvens, Aristófanes ligara Sócrates à filosofia
da natureza de Anaxágoras e à retórica de Protagoras. Por
décadas, ambos haviam atuado em Atenas como professo
res forasteiros e sido igualmente enredados em processos de
asebeía. Com a filosofia da natureza de Anaxágoras, Sócrates
parece ter se envolvido de fato em sua juventude, mas nela
sentia falta da referência ao bem como princípio do cosmos
(Fédon 96a ss.). Uma crítica semelhante, embora utilitaria-
mente abreviada, também é manifestada por Sócrates nos
Memoráveis ( I V 7), quando ele rejeita a ocupação com a fi
losofia da natureza porque ela não seria útil. Porém, apesar
de distanciar-se da filosofia da natureza, o Sócrates platônico
decerto não vai tão longe, a ponto de considerar legítima em
princípio a recriminação de asebeía levantada contra si, assim
como a recriminação contra “todos que praticam a filosofia”
. '4# ência de Anaxágoras (19c s.), no que, segundo seu critério do *« (23d). Ele apenas contesta que ele próprio entenda algo da ci
•HÍ4 que é o saber técnico, ele seguramente tinha razão. ί·»
Com os sofistas, entretanto, Sócrates estava mais estrei
tamente ligado, pois compartilhava com eles a pergunta pela
“areté do homem e do cidadão” (20b). Mas, enquanto os so
fistas, como professores de retórica, pretendem dispor de um
saber suficiente para o bem-viver do cidadão e da pólis, Sócrates
afasta de si, decididamente, semelhante saber da areté (20c).
124 I A questão de Sócrates A pré-compreensáo tradicional da areté certamente explica
tanto esta atitude socrática quanto a pretensão sofistica, esta
sim ímpia ao olhos de Sócrates. Areté (άρετή) tem a mesma
raiz que άριστον e, segundo Schadewaldt, designa, como su
perlativo de άγαθόν (bom), a “suma qualidade de algo":7 8 no
olho, a agudeza do olhar; no cavalo, a rapidez, a força e a re
sistência (cf. Aristóteles, Ética a Nicômaco I I 5). A “excelência"
(“Bestheif)* - tradução proposta por Schadewaldt em lugar
da antiquada palavra “virtude" ou dos termos "habilidade” e
“aptidão”, limitados às funções singulares - tem muitos sig
nificados na compreensão pré-filosófica: “Por exemplo, o que
uma faca tem de bom consiste, primeiro, no fato de que ela
cumpre bem sua função, a saber, corta bem; segundo, no fato
de que ela é durável e não quebra logo (o substancial ao lado
do funcional); e, por último, ainda se acrescenta o fato de que
ela também tem um bom aspecto, o que aponta para a beleza.
[...] Mas, sobretudo, é preciso dizer que a excelência, ao lado
destas três características já mencionadas, consiste em que algo
cumpra sua essência específica em uma totalidade”.9
Porém, se é fácil entrar em acordo quanto ao que é real
mente uma boa faca, no caso do homem dificilmente é possível
haver acordo sobre a medida em que ele, como indivíduo e na
7 S C H A D E W A L D T , W olfgang: Tübinger Vorlesungen, vol. 1: Die Anfänge der Philosophie bei den Griechen. Die Vorsokratiker und ihre Vorausetzungen, Fran k fu rt a. M „ 1978, p. 75 ss.
8 [N .T .] Bestheit ( bestness em inglês) é “a qualidade de ser o m elhor”. N ã o há com o tradu zir literalm ente o term o. U m a alternativa seria em pregar neo-logismos com o “otim idade" ou "aristia”, m as isso torn aria o te x to vernáculo rebarbativo dem ais. O p tam os, p ortanto, por “excelência”, tradu ção hoje am plamente em pregada para ά ρετή ju stam en te p or causa da reinterpretação da palavra grega prom ovida pela filologia m oderna.
9 Idem, p. 7 6 s., 80.
‘Bem-viver" e ignorância socrática I Ι2 ζ
polis, realmente faça justiça à areté e siga uma boa vida. N o
entanto, que a areté do homem não concerna apenas às suas
qualidades ou funções singulares, mas também à sua excelência
em sentido abrangente, isso pode ser pressuposto, apesar de
toda polêmica, como a pré-compreensão implícita na passagem
da Apologia em que Sócrates, dirigindo-se aos sofistas, pergunta
como as pessoas jovens poderíam tornar-se "as melhores pos
síveis" (24d) conforme a excelência que lhes compete (20b).
Quando ofertam aos jovens atenienses ensinar-lhes sobretudo
retórica ou um saber enciclopédico, os sofistas, na concepção
de Sócrates, deixam em aberto a decisiva pergunta pela meta
dos meios que lhes são ofertados (cf. Loques 185b-e) e igualam
uma "habilidade” parcial, muitíssimo útil em determinados
contextos, à "excelência” em sentido abrangente.
Está ligada a esta pergunta pela “excelência” humana ou
pelo “bem-viver” a segunda pergunta central da Apologia, re
ferente à possibilidade do saber humano. Sócrates com efeito
enfatiza na Apologia (20c ss.), assim como em outras passa
gens dos diálogos da fase inicial, sua própria ignorância da
areté, Além disso, invocando o oráculo de Delfos, ele designa
o exame da própria ignorância acerca das "coisas mais impor
tantes” (τά μέγιστα, 22d 7), de modo geral, como a “sabedo
ria humana” propriamente dita, e a distingue agudamente da
“sabedoria que não compete ao homem”. Aquilo que deve ser
m
mais precisamente entendido sob esta ignorância, isto não
.«·
u se deixa dizer de pronto e já esteve sujeito às mais diferentes Γ·, ·*: · •K l * J;- 'ί·*ι interpretações, por exemplo: mera ironia; ignorância socrática
I* :··«
em contraste com o saber das idéias platônico; ignorância hu
mana de princípio. Com uma consideração mais precisa, po
rém, quatro diferentes interpretações da ignorância socrática
podem ser destacadas e inter-relacionadas.
I2Ó I A questão de Sócrates
Uma primeira interpretação salta aos olhos quando se dá
atenção ao contexto do diálogo. Uma sabedoria como saber das
“coisas mais importantes” é afirmada justamente por Górgias,
Pródico, Hípias e Eveno, os professores sofistas com pretensão
de ensinar a areté mencionados por Sócrates na Apologia. Num
primeiro momento, portanto, a ignorância socrática é uma
repulsa do saber sofistico - que nos é bem conhecido desde a
análise do Êutifron. Medido segundo o saber sofistico, o saber
socrático da areté é uma ignorância. N o entanto, Sócrates não
confere o mínimo valor à “sabedoria” dos sofistas; no melhor
dos casos, ele preza apenas algumas habilidades formais da
sinonímica e da retórica.
A segunda variante da ignorância socrática é igualmente
uma delimitação de saber e também é relativamente fácil de
ser descoberta. Pois, como continua a relatar, à medida que
tenta refutar o oráculo de Delfos buscando por alguém mais
sábio do que ele próprio segundo seu conhecido método de
inspeção, Sócrates constata que os políticos, poetas e artesãos
por ele inspecionados tampouco têm qualquer saber das “coi
sas mais importantes", embora o arroguem para si. Por fim,
com base na experiência de suas inspeções, Sócrates vê que,
conforme dissera o oráculo de Delfos, ele de fato é mais sábio
que os demais, pois sequer considera possuir um tal saber.
Como se pode depreender da Apologia, mas igualmente
de outros diálogos platônicos, os poetas (o segundo grupo de
atenienses inspecionado por Sócrates) se orientam antes de
mais nada pelas representações convencionais de areté, como
fazem também, por exemplo, os pais e os senhores de terra no
Loques, outro diálogo da fase inicial. A ignorância socrática,
portanto, é também uma recusa do saber da areté baseado em
convenções.
‘Bem-viver" e ignorância socrática I 127
Sócrates não dá valor nem a um saber convencional nem
à sua substituição por um saber sofistico, mas, com o auxílio
de sua indefectível pergunta "o que é isso?”, desmascara ambos
como insustentáveis. De imediato, a prática do desmascara-
mento dá ensejo à suposição de que o próprio Sócrates teria
tido um insight mais profundo na essência da buscada areté, ou
ao menos o teria pressentido como necessário. Sua ignorância
seria então, em terceiro lugar, um ainda-não-saber. Que Sócra
tes de fato não se deu por satisfeito com o desmascaramento de
convenções ou definições convencionais e tampouco viu nisso
o feito que lhe é particularmente atestado, entre outros, por
Aristóteles, isto não tem como não ser notado. Ao contrário, no
Êutifron, por exemplo, Sócrates já havia indicado muitas vezes
que a sua pergunta seria de "fácil” compreensão, tão fácil quanto
justamente a arte da palavra de um sofista como Pródico.
A prática socrática do desmascaramento, com efeito, era
fácil até mesmo para um garoto, no sentido literal da expressão,
tendo se tornado em Atenas uma ocupação dileta de crianças
e jovens que, quando encontravam uma "grande quantidade
de homens” pretensiosos, imitavam Sócrates para expô-los ao
ridículo de seu saber aparente (23c). À irritação dos atenienses
com o fato de serem ridicularizados até mesmo por crianças
e jovens acrescentou-se a irritação com os filhos de cidadãos
ricos, "que dispõem de mais tempo livre” (23b). Certamente
a situação tornou-se perigosa para Sócrates quando esta irri
tação, tal como já se manifestara nas Nuvens de Aristófanes (v.
886 ss.), tornou-se uma recriminação contra a pergunta "o que
é isso?”, acusada de destruir as representações de valor válidas
e de corromper a juventude. Como descreve Platão na República
( V I I 538 s.), de fato, a pergunta "o que é isso?” envolve perigos,
em especial para crianças e jovens:
128 I A questão de Sócrates (Io) "Com efeito, há entre nós doutrinas (δόγματα) do justo e
do belo por meio das quais somos educados desde a in
fância” - na alegoria da caverna (514a), diz-se “agrilhoados
desde a infância”.
(2o) H á também "práticas aprazíveis que se contrapõem a tais
doutrinas”.
(3o) Assim, quando exposto à pergunta "o que é isso?" (por
exemplo, “o que é o belo?”), um jovem respondería apenas
"aquilo que ouviu do legislador".
(4o) Mas um "discurso" (ό λόγος) refutaria sua resposta - clara
alusão à técnica “de tornar transformar o discurso mais
fraco no mais forte", também recriminada como socrática
na Apologia (18b).
(5o) Após passar por muitas refutações, o jovem chegaria ao
pensamento de que "o belo não é em nada mais belo que
o feio".
(6o) Por fim, ele abandonaria as velhas convicções, mas "não
acharia a verdade”.
(7o) Consequentemente, ele tendería ao modo de vida "lison
jeiro”, às tais práticas aprazíveis inicialmente mencionadas.
Como na Apologia, também aqui Platão reconduz a má
fama da filosofia à prática imitativa dos "rapazotes" que "se
alegram como cachorrinhos em rasgar e dilacerar, através do
discurso, todos os que deles se aproximam” (539a s.). Numa
atividade assim, Platão vê uma mera arte da disputa verbal ou
erística, mas não a almejada dialética filosófica como ocupação
com o ser verdadeiro. Portanto, o saber socrático seria um
ainda-não-saber-das-ideias. Com sua sábia ignorância, Sócrates
teria proporcionado ao menos a prontidão ao esforço por um
‘Bem-viver” e ignorância socráticaI 120
saber real, sem que ele mesmo já o possuísse. Todavia, é difícil
de aceitar que Sócrates tenha sido assinalado pelo Oráculo de
Delfos como o mais sábio dos homens precisamente porque,
em contraste com todos os demais atenienses, de algum modo
notou que ainda não possuía o insight das idéias que seu aluno
Platão posteriormente postulou.
A variante do ainda-não-saber-das-ideias sobrevêm uma
outra dificuldade. N a Apologia de Platão, Sócrates rejeita um
saber da areté humana não apenas para si mesmo, mas para os
homens em geral. Como quintessência de suas experiências
com a inspeção do saber, ele constata que a sabedoria humana,
à diferença da divina, seria “de pouco ou de nenhum valor"
(23a). Se, por conseguinte, o ainda-não-saber-das-ideias não
estivesse referido apenas a Sócrates individualmente, mas sim
a todos os homens em geral, então o próprio Platão também
teria de ser incluído nisso, ou então teria de arrogar para si
um saber que Sócrates equivocadamente denegpu aos homens;
no segundo caso, até mesmo o oráculo de Delfos teria errado.
M as será que, justamente em seu “discurso de defesa”, Platão
teria ridicularizado a ambos, Sócrates e o Deus, para elevar-se
acima deles? Caso não se queira imputar isto a Platão, é preciso
sair em busca de uma outra solução.
Encontra-se uma solução, com efeito, quando se aceita
como quarta interpretação da ignorância socrática sua delimi
tação perante um saber evidente, como antes fizera Xenófa-
nes: “O que é imediatamente claro, isto jamais algum homem
viu e jam ais haverá alguém que [como testemunha ocular]
tivesse um saber (είδώς) acerca dos deuses e daquilo que eu
digo sobre o universo [ou seja, sobre a φύσις]; pois, mesmo se
acontecesse de alguém ter dito algo sumamente perfeito, ele
mesmo, porém, não o sabería a partir de uma intuição própria;
130 I A questão de Sócrates
uma aparência (δόκος) está construída sobre tudo” (Diels/
Kranz, frag. B 34)10 11.
À diferença de Xenófanes, porém, o saber-não-evidente
de Sócrates não se refere ao “todo” ou à φύσις. Tampouco ele
se refere a qualquer saber, como se fosse uma espécie de crí
tica universal a toda reivindicação de validade, no sentido de
Popper.11 O saber-não-evidente se refere apenas ao bem-viver
ou à areté. Sabemos da verdade sobre nossa “melhor forma”,
não a partir de um insight imediato ou de uma inspiração di
vina e autêntica, como na invocação das musas em Homero
e Hesíodo (Ilíada II 484 ss.; Teogonia v. 31 s.). Muito antes,
Sócrates estava convencido de que, após as experiências de
ruptura com as tradições, não é mais possível uma orientação
conforme às representações tradicionais a respeito dos deuses
e de virtudes como coragem, justiça ou prudência. Mas, para
uma nova e necessária orientação, Sócrates tampouco con
fia no poder manipulador de definições e argumentos con-
10 N a trad u ção de P I C H T , G e o rg : D ie Epiphanie der Ewigen Gegenwart: Wahrheit, Sein, und Erscheinung bei Parmenides; in: P IC H T , G .: Wahrheit, Ver nunft, Verantwortung. Philosophische Studien, Stuttgart, 1969, p. 45. [N .T .] D entro do limite da legibilidade, buscam os m an ter o texto vernáculo fiel à tradução alem ã de Pich t, que é bastante literal e algo rebarbativa. P o r causa de am bi guidades sem ânticas e sintáticas, este fragm ento é traduzido com diferenças significativas pelos eruditos de várias línguas. P ara o leitor interessado, tran s crevemos abaixo o texto grego:
και t ò μέν ούν σαφές οΰτις άνήρ ίδεν ούδέ τις έσται είδώς άμφι θεών τ ε καί άσσα λέγω περί πάντων·
εΐ γάρ και τά μάλιστα τύχοι τετελεσμ ένον είπών,
α υτός δμως ούκ οϊδε· δόκος δ’ έπ'ι π&σι τέτυκται.
11 V er P O P P E R , K arl R aim un d: Die Logik der Sozialwissenschaften [A lógica das ciências sociais]; in: A D O R N O , T h . W . & A L B E R T , H . & D A H R E N D O R F , R & H A B E R M A S , J . & P IL O T , H . & P O P P E R , K . R (org.): D er Position- musstreit in der deutschen Soziologie [A polêmica do positivismo na sociologia alemã], N euw ied/B erlin, 1969, p. 1 2 2 s.
‘Bem-viver” e ignorância socrática I JTT
formes à conveniência do momento. Em vez disso, ele estava
convencido de que, com a ajuda de meditações racionais de
senvolvidas em comum, que vão além de um saber aparente,
apenas convencional e sofistico, ao menos seria possível chegar
a insights temporariamente sustentáveis. Portanto, cabe dizer
que a ignorância socrática como saber-não-evidente estaria ao
mesmo tempo ligada a uma reivindicação de saber, ainda que
limitada. Possivelmente ela também podería ser combinada
com a dialética platônica, caso esta não seja entendida como
saber absoluto das evidências.
132 I A questão de Sócrates
C a p í t u l o 7
S a b e r s o c r á tic o e a r t e d e v iv e r
Quando se lê um diálogo aporético da fase inicial como
o Êutifron e logo depois a Apologia, na qual o insight da própria
ignorância é colocado como a suma sabedoria humana, tem-se
facilmente a impressão de que Sócrates de fato não sabia de ab
solutamente nada e só era capaz de instigar seus interlocutores
a um semelhante insight de sua própria ignorância. Exatamente
esta impressão já havia sido elevada a dogma histórico-filosófico
por Aristóteles: "Por isso Sócrates perguntava e não respondia,
pois asseverava que nada sabia" (Refutações sofisticas I 34). Um
outro dogma histórico-filosófico que se estabeleceu com base
na "ignorância socrática” é a representação de um "método so
crático” uno. Segundo a classificação aristotélica, Sócrates teria
conduzido apenas diálogos "probatórios”, mas nenhum diálogo
"erístico" ou "didático". Tampouco ele teria dirigido qualquer
refutação “dialética” a partir de seus próprios pontos de vista
(I 2). Perante a impressão dos diálogos platônicos e o juízo
de Aristóteles, a concepção de Xenofonte não foi capaz de se
impor: "Com base em relatos escritos e orais sobre Sócrates,
alguns acreditam que ele, embora fosse excepcionalmente apto
a incitar os homens à virtude (προτρέψασθαι έπ’ άρετήν), não
teria sido capaz de os conduzir até ela (προαγαγεΐν). M as estas
pessoas não deveríam considerar tão só os diálogos em que
Sócrates refuta através de suas perguntas (έρωτών ήλεγχεν)
aqueles que presumem um saber, a fim de emendá-los. Muito
antes, eles também deveríam observar os diálogos cotidianos
Saber socrático e arte de viver I m com seus amigos e só então julgar se ele era capaz de tornar
melhores aqueles com quem convivia (βελτίους ποιεΐν τούς
συνόντας)” (Memoráveis 1 4 , 1 ; cf. I 2,48).
Q ue a exortação de Xenofonte não tenha conseguido se
impor, isto é de imediato plenamente compreensível. À parte
suas capacidades filosóficas e literárias diminutas em com
paração com Platão e Aristóteles, mesmo do ponto de vista
concreto, sua imagem de um Sócrates moralista, controlado
e cidadão idôneo é pouco convincente. O s exemplos com os
quais Xenofonte mostra que Sócrates não apenas perguntava,
mas também respondia e prestava ajuda prática - por exemplo,
ao instruir seus interlocutores sobre o cuidado com o deuses,
admoestar-lhes o autocontrole nos assuntos amorosos ou deter-
lhes a verbosidade - dão a Sócrates a aparência de respeitoso
representante das “virtudes" tradicionais. Este Sócrates "virtu
oso" dificilmente tem algo a ver tanto com o Sócrates crítico
e por princípio questionador do bem-viver e da areté como
“excelência” quanto com o Sócrates que Aristóteles, em sua
crítica da doutrina das idéias, apresenta como contraponto à
autoridade filosófica de Platão. Não obstante, a exortação xe-
nofôntica de examinar, além do Sócrates "refutador”, também
o Sócrates “que melhora os outros” deve ser levada a sério e
pode proporcionar uma consideração diferenciada do próprio
Sócrates platônico.
A distinção de Xenofonte é convincente por muitas ra
zões. Primeiro, não se podería explicar o impacto contínuo de
Sócrates sobre seus alunos e adeptos imediatos caso ele não
tivesse tido a capacidade de transmitir, em adição à ignorância
ou à mera arte da refutação (como nas Nuvens de Aristóteles),
também um saber da areté. D o efeito e do carisma de Sócrates
também dão notícia todas as demais fontes. Em Platão, no La-
134 I Λ questão de Sócrates ques, por exemplo, ao fim do diálogo aporético com Sócrates,
os pais atenienses querem continuar a colher seus conselhos,
apesar de sua afirmada ignorância; já no Banquete (222a), Aid-
bíades louva exaltado a “inteligência” e a "virtude” de Sócrates.
Além disso, entre os "relatos escritos e orais” de diferentes
socráticos, que manifestamente abundavam em Atenas após
a morte de Sócrates e são mendonados por Xenofonte, um
fragmento de Esquines testemunha em particular o poder
de fascinação de Sócrates: "Quando Aristipo encontrou-se
com Isômaco em Olímpia, perguntou-lhe por que Sócrates,
ao dialogar, deixava nos atenienses uma impressão tão forte.
Depois de reunir algumas pequenas mostras e sementes de
seus discursos, Isômaco sentiu-se tão comovido que adoeceu,
tornando-se pálido e magro. Até que, sedento e febril, navegou
para Atenas para beber na fonte.”1
A distinção de Xenofonte também torna compreensível
o protesto dos interlocutores de Sócrates contra sua condu
ção meramente irônica e "erística”, como aquele levantado
contra ele pelo sofista Trasímaco na República de Platão (I
337a-338b): "Ó Hérades, eis aí a conhecida dissimulação de
Sócrates (ειρωνεία)! M as isso eu já havia dito de antemão
aos aqui presentes: que tu certamente não haverías de querer
responder, mas novamente lançarias mão da dissimulação e
de tudo farias para não responder quando alguém te inter
rogasse [...]. Sócrates age como de costume: ele mesmo não
responde, mas tão logo um outro responda, ele toma a palavra
e o refuta! [...] Esta é, com efeito, a sabedoria de Sócrates:
1 N E S T L E , W . (1 9 2 2 ), p. 1 9 2 . S egun do N e stle (p. 4 8 ) , “os diálogos de Ésquines oferecem inclusive o m ais fiel desenho do S ó crates histórico que possuímos” (cf. p. 16 s.).
Saber socrâtieo e arte de viver
ele mesmo não quer ensinar, mas, circulando por aí, aborda
os outros para aprender".
Caso se siga a exortação de Xenofonte segundo a qual,
em acréscimo ao “elêntico” e ao "protréptico”, deve-se dar aten
ção também ao Sócrates que “melhora” aqueles que com ele
convivem ou que ao menos tenta melhorá-los - aqui é preciso
distinguir, com mais precisão que Xenofonte, entre a intenção
e o efeito - , encontra-se por fim, além de novas asseverações da
sua ignorância, várias indicações do seu saber. Já no primeiro
dos quatro diálogos socráticos, no Êutifron, as linhas gerais
da procurada “piedade” eram visíveis no plano dialógico do
leitor. Através de seu proceder prático, Sócrates mostrou que
considerava possível distinguir, com o auxílio de meditações
racionais, entre o saber presumido e o saber real. E no segundo
diálogo, na Apologia, a sabedoria de Sócrates preconizada pelo
oráculo de Delfos claramente não consistia apenas em seu
saber da ignorância, mas também em seu saber do saber (cf.
Cármiàes 167a ss.). Descendo aos detalhes, pode-se constatar
na Apologia os seguintes saberes de Sócrates:
(1) o deus Apoio não mente (21b) e sua palavra deve ser
respeitada acima de tudo (21e);
(2) Sócrates prefere sua situação de ignorância ao presumido
saber dos outros (22e);
(3) é melhor morar entre cidadãos honrados do que entre
cidadãos ruins (25c);
(4) cada um gostaria de receber de seus concidadãos ajuda
em vez de dano (25d);
(5) ninguém se sujeita voluntariamente aos danos (25e);
(6) por meio de instrução apropriada, um homem cessa de
infligir-se danos (25c-26a);
136 I A questão de Sócrates (7) mesmo com a vida e o corpo em perigo, é preciso sempre
fazer o bem ou agir com justiça (28b);
(8) “se alguém se situa em um certo lugar porque o considera
o melhor, ou se alguém é situado em um certo lugar por
seus senhores, aí ele tem de perseverar - parece-me -
diante de todo perigo” - por exemplo, como o próprio S ó
crates na batalha ou na inspeção de seu próximos (28d s.);
(9) quanto a "cometer injustiça e ser desobediente a quem é
melhor, seja um deus ou um homem, bem sei que isso é
ruim e nocivo” (29b);
(10) uma “voz numinosa” desaconselha a Sócrates determina
das ações, mas jamais lhe aconselha fazer algo determi
nado (31c s„ 40a, 40c, 41d);
(11) a prática socrática da inspeção deve ser remontada a uma
instância divina (θεία μοίρα), a palavras oraculares, a so
nhos e a outros meios de comunicação divina (33c);
(12) o mais importante é "preocupar-se consigo mesmo [com
seu próprio eu], tornar-se o melhor e o mais sensato pos
sível” (36c);
(13) a prática socrática da inspeção torna os atenienses re
almente "felizes”, mas uma vitória em Olímpia "com o
cavalo, com a biga ou a quadriga” os faz apenas aparen
temente felizes (36d);
(14) Sócrates toma como o supremo bem “travar conversas
sobre a areté cotidianamente"; em contrapartida, para ele,
"uma vida sem inspeção não é digna de ser vivida” (38a);
(15) a morte ou é um “não-ser”, como um sono sem sonhos,
ou é "uma espécie de viagem” ao Hades, onde é possível
encontrar "jurados de verdade", músicos, poetas, heróis;
em ambos os casos, porém, ela é algo bom (40c-41c);
Saber socrático e arte de viver I 137
(16) mas é preciso, sobretudo, "pensar sobre esta única ver
dade”: que a um homem bom nada de mal pode ocorrer,
quer em vida, quer na morte, pois seus assuntos não são
indiferentes aos deuses (41c s.);
(17) após a morte de Sócrates, seus filhos também devem ser
submetidos pelos atenienses à inspeção socrática, e devem
ser castigados caso se preocupem mais “com dinheiro ou
com outra coisa do que com a virtude” e caso "pretendam
ser algo que não são” (41e).
Claramente, portanto, à parte sua ignorância, Sócrates
também arroga para si um saber. Sua ignorância já se revelou
como uma contraposição ao mero saber de proposições e de
finições a respeito da areté e como uma crítica ao mero saber
convencional e à reivindicação de um saber imediato, evidente.
Mas de que espécie podería ser o saber de Sócrates? Isto per
manece em aberto. Porém, quando se presta mais atenção
ao saber por ele arrogado, por exemplo na Apologia, algumas
características podem ser distinguidas: (I) (II)
(I) Sobre a base de uma exigência incondicional do agir mo
ral [cf. (7), (9)], as afirmações (1) e (16) tratam da nova
interpretação da crença mitológica nos deuses (que já nos
é conhecida desde a análise do Êutifron).
(II) Já as afirmações (10) e (11) são algo como uma "funda
mentação última” do método de inspeção socrático orien
tado segundo a razão. Tal fundamentação é operada por
uma “instância superior”, de modo que Sócrates escapa do
círculo de uma fundamentação última da razão operada
por si mesma.
138 I A questão de Sócrates (III) Por sua vez, outras afirmações repousam sobre experi
ências de tipo diverso:
- (2), (8) e (9, parte 2) são afirmações que Sócrates faz
através de uma analogia com o saber técnico do arte
são ou dos especialistas em geral; este saber é por ele
elogiado em contraposição àquele apenas aparente dos
políticos e poetas (22d); em outros momentos, S ó
crates lembra que, na prática, todos preferem o saber
técnico ao aparente (cf. Laques 184d-185a); todavia, esta
ordem racional no domínio da práxis é complementada
por uma “fundamentação última” absoluta, formulada
mitologicamente;
- (3) e (4) são afirmações que superam o ponto de vista
de um interesse meramente subjetivo através da expe
riência do bem recíproco; mas, para Sócrates, a isso
deveria acrescentar-se, como fundamentação do agir
moral, a exigência "deontológica” de uma moralidade
incondicional no sentido de (I) como experiência meta
física - tal qual na ordem racional há a necessidade de
complementação da abordagem (em termos modernos)
“consequencialista";
- (5) e (6) são afirmações que lembram a experiência de
que cada um realmente quer o bem e, por isso, havendo
(ou só havendo) necessidade, tem de inspecionar seu
saber do que presume ser o bem para se resguardar
de danos [cf. (2)]; não se trata aqui, com efeito, de um
“intelectualismo socrático”.
(IV) Por fim, pode-se reconhecer em seus traços fundamen
tais a ética “eudemonista” de Sócrates:
- (12) é uma afirmação que faz a atenção se transferir
Saber socrático e arte de viverI 139
dos bens externos para a alma como ponto de partida
para o bem-estar de todo homem;
- (13) é uma afirmação que confirma que a Sócrates im
porta, como relata Xenofonte, "melhorar” seus amigos
ou, como se diz aqui, os "tornar felizes’’; quanto ao conte
údo, uma vida “feliz" consiste na superação de uma (ex
clusiva) orientação nos bens externos, como é o caso das
vitórias em Olímpia celebradas por Píndaro (13), bem
como da mera aquisição de dinheiro e da fama haurida
somente das aparências (17); com base no que precede,
ainda seria possível adicionar duas determinações po
sitivas: tanto dependemos da prática comum do bem
na vida coletiva quanto deveriamos nos orientar pela
exigência de racionalidade e moralidade incondicional;
- (14) é a afirmação de que a inspeção crítica do modo de
vida é apenas uma pré-condição, mas não o conteúdo
da vida “feliz”; o decisivo não é conhecer as proposições,
mas sim viver a areté.
(V ) P or fim, quanto às afirmações sobre a m orte (15), o pró
prio Sócrates as designa com o um a “esperança”, mas de
m odo algum com o um saber demonstrável; diferente
m ente do Féâon, aqui Sócrates ainda não liga a exigência
do agir moral incondicionado à vida post mortem e a um a
“recompensa” no além [mas cf. (16)].
N o Críton, o terceiro diálogo socrático, a distinção de X e
nofonte entre um Sócrates “refutador” e outro "melhorador”
encontra um a confirm ação ainda m ais clara que nos dois diá
logos já investigados. N o Críton, não apenas Sócrates é outro,
m as tam bém seus interlocutores são outros. S e no Êutifron e
0 I A questão de Sócrates
na Apologia Sócrates está às voltas com tipos como o sofista
e o cidadão convencional, no Críton ele se entretém com um
velho amigo e adepto. Já Xenofonte havia relacionado o S ó
crates "refutador" àqueles que presumem para si um saber,
afirmando que Sócrates apenas seria capaz de "melhorar" os
outros nas “conversas cotidianas com seus amigos”. Críton, cujo
nome inspira o título do diálogo, claramente pertencia aos
amigos mais próximos de Sócrates, sendo seu “companheiro
de idade e de demo" (35d). É com ele que Sócrates troca suas
últimas palavras no Fédon. Além disso, em conversa com ele no
Eutidemo, Sócrates esclarece a oposição entre a disputa verbal
sofistica e a séria busca da verdade, demonstrando com isso,
conforme a apresentação de Platão, o estreito nexo entre a
espécie de diálogo e a espécie de interlocutor.
Depois de Críton ser completamente confundido por
artifícios retóricos, com os quais tivera contato apenas a
distância e por notícia de Sócrates, e de não saber mais se
afinal deveria ou não recomendar a seus filhos a “filosofia”,
Sócrates lhe aconselha ao fim do diálogo: "Deixa de lado os
representantes da filosofia, se eles são hábeis ou não, mas
inspecione bem e com exatidão a própria coisa em questão
(αύτό tò πράγμα). Caso ela se mostre a ti como ruim, dela
afasta qualquer um e não apenas teus filhos. Mas se ela se
mostrar [boa] a ti como a mim, toma coragem, corre atrás
dela e nela te exercita (άσκει) - como se costuma dizer. Faz
isso tu mesmo, e também teus filhos" (307b s.). A "questão"
da filosofia, como sublinha a exortação de Sócrates, não está
ligada apenas a determinadas pessoas particularmente qua
lificadas, mas é também uma questão de exercício. Enquanto
"saber de si” em algum afazer, ela não é apenas um saber
teórico, mas também uma capacidade prática.
Saber socrático e arte de viver I I d l
A "questão” da filosofia como capacidade prática é de
monstrada no Críton não apenas no comportamento dialógico
dos participantes como orientação consequente conforme ao
logos, mas sobretudo no agir prático de Sócrates. N o diálogo,
trata-se da questão de se Sócrates deve aceitar a oferta de Crí
ton e de seus amigos de fugir da cadeia. Apresentando várias
razões, Críton aconselha Sócrates à fuga (46b-46a). Primeiro,
Críton aduz o interesse subjetivo: ele e os demais amigos de
Sócrates não gostariam de perdê-lo, nem de conquistar má
fama entre as pessoas (“os muitos", “a multidão") por causa
da negligência em ajudar. Em seguida, Críton passa à conve
niência prática: o dinheiro necessário para o suborno já teria
sido juntado por ele e outros amigos, e anfitriões na Tessália
estariam dispostos a acolher Sócrates. Por fim, ele ressalta o
cumprimento de dever: não seria lícito que Sócrates se deixasse
entregar, pois ele teria a obrigação de cuidar dos próprios fi
lhos, e seria uma vergonha se os seus amigos não o ajudassem
na necessidade.
Em sua resposta (46a adfinem), embora elogie o "zelo” de
Críton, Sócrates vincula este zelo à condição da "retidão”, uma
vez que um zelo injustificado seria tanto mais duvidoso quanto
maior ele fosse. N ão basta, portanto, que uma ação como a
proposta por Críton seja de boa intenção, ela também tem de
ser efetivamente boa. Assim, como de costume, Sócrates sub
mete também esta ação a uma inspeção ao investigar as razões
levantadas por Críton. Lançando-se mão da distinção aristoté-
lica, observa-se que Sócrates não parte, em sua inspeção, dos
pressupostos que extrai de seu interlocutor (procedimento
peirástico), nem aplica artimanhas retóricas (procedimento
erístico), tampouco propõe simplesmente o seu próprio saber
como uma premissa fixa (procedimento didático), mas põe
142 I A questão de Sócrates
em jogo suas próprias convicções já inspecionadas e ainda ins-
pecionáveis (procedimento dialético). Como nos outros dois
diálogos socráticos, algumas amostras do saber de Sócrates
também podem ser aqui constatadas.
(a) Para a fundamentação de sua inspeção, ele estabelece a
máxima fundamental de seu modo de vida: “Pois não só agora,
mas desde sempre sou de tal modo que não sigo nenhum outro
sentimento senão a convicção (λόγψ) que, através da meditação,
se revele a mim como a melhor” (46b 4-6).2 Sócrates afirma
que também agora não estaria disposto a abandonar suas
convicções por medo ou por algum outro constrangimento
externo, pois apenas com base em meditações aprimoradas
podería revê-las e, consequentemente, mudar seu modo de
agir. Por causa de sua forma comprimida e de dificuldades
de tradução, a máxima fundamental de Sócrates carece de
algumas elucidações:
(1) Ela não expressa uma simples atitude, mas a essência ou a
feição (τοιοϋτος) da personalidade de Sócrates. Ademais,
é evidente que ela não deve ter apenas validade subjetiva
para Sócrates, mas validade objetiva para qualquer um,
no sentido de uma determinação essencial e universal do
homem.
(2) Sob "sentimento” (literalmente, como "aquilo que é pro
priamente meu”, τών έμών) também deve ser subsumido
o ambivalente "zelo” de Críton. Esta divisão socrática dos
sentimentos da alma ("convicções" e "zelo”) tem continui- 1
1 [N .T .] “ώς έγώ ού νυν πρώ τον ά λλά και άεΐ τοιοϋτος οίος τών έμών μηδενΐ δλλω πείθεσθαι ή τώ λόγω δς άν μοι λογιζομένω βέλτιστος φαίνηται.” N o te-se que a m esm a passagem já foi citada no capítulo 2 .
Saber socrático e arte de viverI 143
dade na República de Platão, mais precisamente na dou
trina das três partes da alma (Livro IV ), que classifica o
“zelo” na parte "corajosa” e "instintiva".
(3) A tradução “convicção” reproduz apenas de modo imper
feito o abrangente significado de λόγος. Muito antes, a pa
lavra grega significa três coisas: a "estrutura da realidade”
como razão objetiva (tal qual em Heráclito); "convicção”
como razão subjetiva; e "proposição” como discurso ra
cional (tal qual traduz Schleiermacher). Mas todos os
três significados formam uma unidade e remetem-se uns
aos outros; as proposições fundamentais de Sócrates são,
de certo modo, suas convicções fundamentais acerca dos
fundamentos da "própria coisa em questão”.
(4) As convicções de modo algum são postulados, convenções
ou uma compreensão imediata (evidência), mas sim o
resultado da ação de “meditar” (λογίζεσθαι).
(5) N a prática argumentativa de Sócrates podem ser encon
trados muitos procedimentos e critérios para determi
nar aquilo que se revela pela meditação como a “melhor”
(βέλτιστος) convicção: consistência lógica, univocidade
(com a ajuda da sinonímica), relação com a experiência
(comprovação dos fetos), inferências indutivas e dedutivas,
silogismos práticos e analogias. Entretanto, na pergunta
específica pelo "melhor” modo de agir, o principal crité
rio de Sócrates é, ao lado dos critérios formais e fetico-
conteudísticos, a exigência muitas vezes acentuada de
moralidade ou justiça incondicional.
(6) A meta da meditação não é a elaboração de princípios
teóricos ou convicções, mas sim o agir prático. Sobre o
sentimento de "zelo" deve predominar "a melhor convic-
144 I A. questão de Sócrates
ção”; é ela que Sócrates quer “seguir” (πείθεσθαι). O que
significa seguir "a melhor convicção" ou a “razão” esse é
o tema da doutrina platônica das três partes da alma na
República, bem como da Ética a Nicômaco de Aristóteles,
com sua distinção entre a vida "segundo a paixão" (κατά
πάθος ζην) e a vida “segundo a razão” (κατά λόγον) (I, 1
1095a 4-11). Seja como for, em Sócrates, "o sábio sileno”,
o modo de vida distanciado e meditativo não significa
nenhuma opressão das paixões, mas sim sua formação e
ordenação na condução da vida do indivíduo como um
todo e no convívio da pólis.
Além da máxima fundamental, ao longo da inspeção a
que Críton é submetido ainda podem ser encontradas algu
mas outras convicções:
(b) Em princípio, assim como entre os artesãos, é lícito aten
tar apenas às opiniões dos especialistas, mas não à da
multidão irracional (46c-48a);
(c) o que mais importa não é o (sobre)viver (το ζην), mas sim
o bem-viver (τό εύ ζην); no entanto, bem-viver significa
viver de maneira honrada e justa (48b).
(d) mesmo depois de sofrer uma injustiça, não é lícito cometer
uma injustiça voluntária ou premeditadamente, pois isto
acarretaria em danos para própria pessoa (49a s.);
(e) é preciso manter os compromissos, por exemplo, a obedi
ência às leis da pólis ateniense voluntariamente prometida
(49e ss.);
(f) as leis existentes têm de ser confirmadas diante das “leis
do Hades” (54c).
Saber socmtico e arte de viver I 145
Para Sócrates, desta lista de convicções segue-se que náo
seria correto ele dar ouvidos ao conselho de Críton e fugir.
O s argumentos de Críton não resistiram a uma inspeção e,
portanto, não são bons argumentos para o caso presente. Im
plicitamente, Sócrates usa aqui a forma do silogismo prático:
(I) premissa prescritiva: as convicções de (a) a (f) devem ser;
(II) termo médio descritivo: a ação proposta (A) [sendo A = fugir]
contradiría as exigências de (a) a (f);
(III) conclusão: logo, (A) não deve ser.
Todavia, nota-se na argumentação de Sócrates que ele
não dá continuidade à fundamentação de seus pressupostos
de (a) a (f) e, por isso, parece não fazer justiça à sua máxima
fundamental, expressada logo de início. Com efeito, mesmo
esta última não é por ele fundamentada, mas apenas recor
dada, como se fosse conhecida e familiar ao seu interlocutor
Críton. Também no caso das demais premissas, Sócrates ape
nas reforça, com a anuência de Críton, convicções comuns,