A Relíquia

Eça de Queirós · Capítulo 2 de 6 · parte 2/2

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A Relíquia

Capítulo I

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

N'uma d'essas noites, eu sahia d'uma confeitaria do Rocio, de comprar

trouxas d'ovos para levar á minha Adelia—quando encontrei o dr. Margaride que me annunciou, depois do seu abraço paternal, que ia a S.

Carlos vêr o Propheta.

—E você, vejo-o de casaca, naturalmente tambem vem…

Fiquei varado. Com effeito vestira a casaca, dissera á titi que ia gozar o Propheta, opera de tanta virtude como uma santa instrumental d'igreja… E agora tinha de soffrer o Propheta, deveras, entalado n'uma cadeira da Geral, roçando o joelho do douto magistrado—em vez de preguiçar n'um colchão amoroso, vendo a minha deusa, em camisa, comer o seu docinho d'ovos.

—Sim, com effeito, tambem eu ia d'aqui para o Propheta, murmurei aniquilado. Diz que é uma musicasinha de muita virtude… A titi gostou muito que eu viesse.

Com o meu inutil cartucho de trouxas d'ovos, lá fui subindo, melancolicamente, ao lado do dr. Margaride, a rua Nova do Carmo.

Occupamos as nossas cadeiras. E na sala resplandecente, branca e com tons d'ouro, eu pensava saudosamente na alcova sombria da Adelia, e no desalinho das suas saias—quando reparei que d'uma friza ao lado uma senhora loura e madura, uma Ceres outonal, vestida de sêda côr de palha, voltava para mim, a cada dôce arcada das rebecas, os seus olhos claros e sérios.

Perguntei logo ao dr. Margaride se conhecia aquella dama «que eu costumava encontrar ás sextas na igreja da Graça, visitando o Senhor dos Passos, com uma devoção, um fervor…»

—O sujeito que está por traz, a abrir a bocca, é o visconde de Souto Santos. E ella ou é a mulher, a viscondessa de Souto Santos, ou a cunhada, a viscondessa de Villar-o-Velho…

Á sahida, a viscondessa (de Souto Santos ou de Villar-o-Velho) ficou um momento á porta esperando a sua carruagem, embrulhada n'uma capa branca que uma pennugem orlava, delicadamente; a sua cabeça pareceu-me mais altiva, incapaz de rolar, tonta e pallida, n'um travesseiro d'amor; a cauda côr de palha alastrava-se sobre as lages; era esplendida, era viscondessa; e outra vez me procuraram, me trespassaram os seus olhos claros e sérios.

A noite estava estrellada. E, descendo o Chiado em silencio ao lado do dr. Margaride, eu pensava que, quando todo o ouro da titi fosse meu e dourasse a minha pessoa, eu poderia então conhecer uma viscondessa de Souto Santos ou de Villar-o-Velho, não na sua friza, mas na minha alcova, já cahida a grande capa branca, despidas já as sêdas côr de palha, alva só do brilho da sua nudez, e fazendo-se pequenina entre os meus braços… Ai, quando chegaria a hora, dôce entre todas, de morrer a titi?

—Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? perguntou-me o dr. Margaride ao desembocarmos no Rocio. Não sei se você conhece a torrada do Martinho… É a melhor torrada de Lisboa.

No Martinho, já silencioso, o gaz ia adormecendo entre os espelhos baços; e havia apenas n'uma mesa do fundo um moço triste, com a cabeça enterrada entre os punhos diante d'um capilé.

O Margaride encommendou o chá—e vendo-me olhar com inquietação os ponteiros do relogio, affirmou-me que eu chegaria a casa ainda a horas de fazer a minha tocante devoção com a titi.

—A titi agora, disse eu, não se importa que eu esteja até mais tarde…

A titi agora louvado seja Deus, tem mais confiança em mim.

—E você merece-o… Faz-lhe a vontade, é sisudo… Ella pouco a pouco tem-lhe ganho amizade, segundo me diz o Casimiro…

Então lembrei-me da velha affeição que ligava o dr. Margaride ao padre Casimiro, procurador da tia Patrocinio e seu zeloso confessor. E, arrebatando a opportunidade, dei um leve suspiro, abri o meu coração ao magistrado, largamente, como a um pai.

—É verdade, a titi tem-me amizade… Mas acredite v. exc.^a, dr. Margaride, que o meu futuro inquieta-me ás vezes… Olhe que tenho pensado mesmo em ir a um concurso para delegado. Até já indaguei se seria difficil entrar como despachante na alfandega. Porque emfim a titi é rica, é muito rica; eu sou seu sobrinho, unico parente, unico herdeiro; mas…

E olhei anciosamente para o dr. Margaride, que, pelo loquaz padre Casimiro, conhecia talvez o testamento da titi… O silencio grave em que elle ficou, com as mãos cruzadas sobre a mesa, pareceu-me sinistro: e n'esse instante o criado trouxe a bandeja do chá, sorrindo, e felicitando o magistrado por o vêr melhor do seu catarrho.

—Deliciosa torrada! murmurou o doutor.

—Excellente torrada! suspirei eu cortezmente.

De vez em quando o dr. Margaride esfuracava um queixal; depois limpava a face, os dedos; e recomeçava a mastigar devagar, com delicadeza e com religião.

Eu arrisquei outra palavra timida.

—A titi, é verdade, tem-me amizade…

—A titi tem-lhe amizade, atalhou com a bocca cheia o magistrado, e você é o seu unico parente… Mas a questão é outra, Theodorico. É que você tem um rival.

—Rebento-o! gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chammas, esmurrando o marmore da mesa.

O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o dr.

Margaride reprovou com severidade a minha violencia.

—Essa expressão é impropria d'um cavalheiro, e d'um moço comedido. Em geral não se rebenta ninguem… E além d'isso o seu rival não é outro, Theodorico, senão Nosso Senhor Jesus Christo!

Nosso Senhor Jesus Christo? E só comprehendi, quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no ultimo anno da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e predios, a Irmandades da sua sympathia e a padres da sua devoção.

—Estou perdido! murmurei.

Os meus olhos, casualmente, encontraram, lá ao fundo, o moço triste diante do seu capilé. E pareceu-me que elle se assemelhava a mim como um irmão, que era eu proprio, Theodorico, já desherdado, sordido, com as botas cambadas, vindo alli ruminar as dôres da minha vida, á noite, diante d'um capilé.

Mas o dr. Margaride acabára a torrada. E estendendo regaladamente as pernas, consolou-me, de palito na bocca, affavel e perspicaz.

—Nem tudo está perdido, Theodorico. Não me parece que esteja tudo perdido… É possivel que a senhora sua tia tenha mudado d'idéa… Você é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ella… Tudo isto influe. Que é necessario dizel-o, o rival é forte!

Eu gemi:

—É d'arromba!

—É forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito… Jesus Christo padeceu por nós, é religião do Estado, não ha senão curvar a cabeça… Olhe, quer você a minha opinião? Pois ahi a tem, franca e sem rebuço, para lhe servir de guia… Você vem a herdar tudo, se D. Patrocinio, sua tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como deixal-a á Santa Madre Igreja…

O magistrado pagou o chá, nobremente. Depois, na rua, já abafado no seu paletot, ainda me disse baixinho:

—Com franqueza, que tal, a torrada?

—Não ha melhor torrada em Lisboa, dr. Margaride.

Elle apertou-me a mão com affecto—e separamo-nos, quando estava dando a meia noite no velho relogio do Carmo.

Estugando o passo pela rua Nova da Palma, eu sentia agora bem claramente, bem, amargamente, o erro da minha vida… Sim, o erro! Porque até ahi, essa minha devoção complicada, com que eu procurára agradar á titi e ao seu ouro, fôra sempre regular, mas nunca fôra fervente. Que importava murmurar com correcção o terço diante de Nossa Senhora do Rosario? Diante de Nossa Senhora em todas as suas encarnações, e bem em evidencia para commover a titi, eu devia mostrar habilmente uma alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo pisado, penitente, ferido pelos picos dos cilicios… Até ahi a titi podia dizer com approvação: «É exemplar.» Era-me preciso, para herdar, que ella exclamasse um dia, babada, de mãos postas: «É santo!»

Sim! eu devia identificar-me tanto com as coisas ecclesiasticas e submergir me n'ellas de tal sorte, que a titi, pouco a pouco, não podesse distinguir-me claramente d'esse conjunto rançoso de cruzes, imagens, ripanços, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era para ella a Religião e o Céo; e tomasse a minha voz pelo santo ciciar dos latins de missa; e a minha sobrecasaca preta lhe parecesse já salpicada d'estrellas, e diaphana como a tunica de bem-aventurança. Então, evidentemente, ella testaria em meu favor—certa que testava em favor de Christo e da sua dôce Madre Igreja!

Porque agora, eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho de Maria, a aprazivel fortuna do commendador G. Godinho. Pois quê! Não bastavam ao Senhor os seus thesouros incontaveis; as sombrias cathedraes de marmore que atulham a terra e a entristecem; as inscripções, os papeis de credito que a piedade humana constantemente averba em seu nome; as pás d'ouro que os Estados, reverentes, lhe depositam aos pés trespassados de pregos; as alfaias, os calices, e os botões de punho de diamantes que elle usa na camisa, na sua igreja da Graça? E ainda voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um bule de prata, e uns insipidos predios da Baixa! Pois bem! disputaremos esses mesquinhos, fugitivos haveres—tu, ó filho do Carpinteiro, mostrando á titi a chaga que por ella recebeste, uma tarde, n'uma cidade barbara da Asia, e eu adorando essa chaga, com tanto ruido e tanto fausto, que a titi não possa saber onde está o merito, se em ti que morreste por nos amar de mais, se em mim que quero morrer por não te saber amar bastante!… Assim pensava, olhando de través o céo, no silencio da rua de S. Lazaro.

Quando cheguei a casa, senti que a titi estava no oratorio, sósinha, a rezar. Enfiei para o meu quarto, surrateiramente; descalcei-me; despi a casaca; esguedelhei o cabello; atirei-me de joelhos para o soalho—e fui assim, de rastos, pelo corredor, gemendo, carpindo, esmurrando o peito, clamando desoladamente por Jesus, meu Senhor…

Ao ouvir, no silencio da casa, estas lugubres lamentações de arrastada penitencia, a titi veio á porta do oratorio, espavorida.

—Que é isso, Theodorico, filho, que tens tu?…

Abati-me sobre o soalho, aos soluços, desfallecido de paixão divina.

—Desculpe, titi… Estava no theatro com o dr. Margaride, estivemos ambos a tomar chá, a conversar da titi… E vai de repente, ao voltar para casa, alli na rua Nova da Palma, começo a pensar que havia de morrer, e na salvação da minha alma, e em tudo o que Nosso Senhor padeceu por nós, e dá-me uma vontade de chorar… Emfim, a titi faz favor, deixa-me aqui um bocadinho só, no oratorio, para alliviar…

Muda, impressionada, ella accendeu reverentemente, uma a uma, todas as velas do altar. Chegou mais para a borda uma imagem de S. José, favorito da sua alma, para que fosse elle o primeiro a receber a ardente rajada de preces que ia escapar-se, em tumulto, do meu coração cheio e ancioso. Deixou-me entrar, de rastos. Depois, em silencio, desappareceu, cerrando o reposteiro com recato. E eu alli fiquei, sentado na almofada da titi, coçando os joelhos, suspirando alto—e pensando na viscondessa de Souto Santos ou de Villar-o-Velho, e nos beijos vorazes que lhe atiraria por aquelles hombros maduros e succulentos, se a podesse ter só um instante, alli mesmo que fosse, no oratorio, aos pés de ouro de Jesus, meu Salvador!

* * * * *

Corrigi então a minha devoção e tornei-a perfeita. Pensando que o bacalhau das sextas-feiras não fosse uma sufficiente mortificação, n'esses dias, diante da titi, bebia asceticamente um copo d'agua e trincava uma côdea de pão: o bacalhau comia-o á noite, de cebolada, com bifes á ingleza, em casa da minha Adelia. No meu guarda-roupa, n'esse duro inverno, houve apenas um paletot velho, tão renunciado me quiz mostrar aos culpados regalos da carne; mas orgulhava-me de ter lá, purificando os cheviottes profanos, a minha opa rôxa de irmão do Senhor dos Passos, e o devoto habito cinzento da Ordem Terceira de S. Francisco. Sobre a commoda ardia uma lamparina perennal diante da lithographia colorida de Nossa Senhora do Patrocinio: eu punha todos os dias rosas dentro d'um copo, para lhe perfumar o ar em redor; e a titi, quando vinha remexer nas minhas gavetas, ficava a olhar a sua padroeira, desvanecida, sem saber se era á Virgem, ou se era a ella, indirectamente, que eu dedicava aquelle preito da luz e o louvor dos aromas. Nas paredes dependurei as imagens dos santos mais excelsos, como galeria d'antepassados espirituaes de quem tirava o constante exemplo das difficeis virtudes; mas não houve de resto no céo santo, por mais obscuro, a quem eu não offertasse um cheiroso ramalhete de Padre-Nossos em flôr. Fui eu que fiz conhecer á titi S. Telesforo, Santa Secundina, o beato Antonio Estronconio, Santa Restituta, Santa Umbulina, irmã do grão S. Bernardo, e a nossa dilecta e suavissima patricia Santa Basilissa, que é solemnisada juntamente com S. Hypacio, n'esse festivo dia d'agosto em que embarcam os cirios para a Atalaya.

Prodigiosa foi então a minha actividade devota! Ia a matinas, ia a vesperas. Jámais falhei igreja ou ermida onde se fizesse a adoração ao Sagrado Coração de Jesus. Em todas as exposições do Santissimo eu lá estava, de rojos. Partilhava sofregamente de todos os desaggravos ao Sacramento. Novenas em que eu rezei contam-se pelos lumes do céo. E o Septenario das Dôres era um dos meus dôces cuidados.

Havia dias em que, sem repousar, correndo pelas ruas, esbaforido, eu ia á missa das sete a Sant'Anna, e á missa das nove da igreja de S. José, e á missa do meio dia na ermida da Oliveirinha. Descansava um instante a uma esquina, de ripanço debaixo do braço, chupando á pressa o cigarro: depois voava ao Santissirno exposto na parochial de Santa Engracia, á devoção do Terço no convento de Santa Joanna, á benção do Sacramento na capella de Nossa Senhora ás Picôas, á novena das Chagas de Christo, na sua igreja, com musica. Tomava então a tipoia do Pingalho, e ainda visitava, ao acaso, de fugida, os Martyres e S. Domingos, a igreja do convento do Desagravo e a igreja da Visitação das Selesias, a capella de Monserrate ás Amoreiras e a Gloria ao Cardal da Graça, as Flamengas e as Albertas, a Pena, o Rato, a Sé!

Á noite, em casa da Adelia, estava tão derreado, mono e molle ao canto do sofá,—que ella atirava-me murros pelos hombros, e gritava, furiosa:

—Esperta, morcão!

Ai de mim! Um dia veio, porém, em que a Adelia, em vez de me chamar morcão, quando, esfalfado no serviço do Senhor, eu mal podia ajudal-a a desatacar o collete—passou, sempre que os meus labios insaciaveis se collavam de mais ao seu collo, a empurrar-me, a chamar-me carraça… Foi isto pelas alegres vesperas de Santo Antonio, ao apparecerem os primeiros manjaricões, no quinto mez da minha devoção perfeita.

A Adelia começára a andar pensativa e distrahida. Tinha ás vezes, quando eu lhe fallava, um modo de dizer «hein?», com o olhar incerto e disperso, que era um tormento para o meu coração. Depois um dia deixou de me fazer a caricia melhor, que eu mais appetecia—a penetrante e a regaladora beijoca na orelha.

Sim, decerto permanecia terna… Ainda dobrava maternalmente o meu paletot; ainda me chamava riquinho; ainda me acompanhava ao patamar em camisa, dando, ao descollar do nosso abraço, esse lento suspiro que era para mim a mais preciosa evidencia da sua paixão;—mas já me não favorecia com a beijoquinha na orelha.

Quando eu entrava abrazado—encontrava-a por vestir, por pentear, molle, estremunhada e com olheiras. Estendia-me a mãosinha desamoravel, bocejava, colhia preguiçosamente a viola: e emquanto eu, a um canto, chupando cigarros mudos, esperava que se abrisse a portinha envidraçada da alcova que dava para o céo—a deshumana Adelia, estirada no sofá, de chinelas cahidas, beliscava os bordões, murmurando, por entre longos ais, cantigas de estranha saudade…

N'um arranco de ternura, eu ia ajoelhar-me á beira do seu peito. E lá vinha logo a dura, a regelada palavra:

—Está quieto, carraça!

E recusava-me sempre o seu carinho. Dizia-me: «não posso, estou com azia.» Dizia-me: «adeus, tenho a dôr na ilharga.»

Eu sacudia os joelhos, recolhia ao Campo de Sant'Anna— espoliado, miserrimo, chorando na escuridão da minha alma pelos tempos ineffaveis em que ella me chamava morcão!

Uma noite de julho, macia como um velludo preto e pespontada d'estrellas, chegando mais cedo a casa d'ella, encontrei a portinha aberta. O candieiro de petroline, pousado no soalho do patamar, enchia a escada de luz;—e dei com a Adelia, em saia branca, fallando a um rapaz de bigodinho louro, embrulhado pelintramente n'uma capa á hespanhola. Ella empallideceu, elle encolheu— quando eu surgi, grande e barbudo, com a minha bengala na mão. Depois a Adelia, sorrindo, sem perturbação, vera e limpida, apresentou-me «seu sobrinho Adelino.» Era filho da mana Ricardina, a que vivia em Vizeu, e irmão do Theodoriquinho… Tirando o chapéo, apertei na palma larga e leal os dedos fugidios do snr. Adelino:

—Estimo muito conhecel-o, cavalheiro. Sua mamã, seu mano, bons?

N'essa noite a Adelia, resplandecente, tornou a chamar-me morcão, restituiu-me o beijinho na orelha. E toda essa semana foi deliciosa como a d'um noivado. O verão ardia; e começára na Conceição Velha a novena de S. Joaquim. Eu sahia de casa á hora repousante em que se regam as ruas, mais contente que os passaros chalrando nas arvores do campo de Sant'Anna. Na salinha clara, com todas as cadeiras cobertas de fustão branco, encontrava a minha Adelia de chambre, fresca de se ter lavado, cheirando a agua de colonia, e aos lindos cravos vermelhos que a toucavam; e depois das manhãs calorosas, nada havia mais idyllico, mais dôce que as nossas merendas de morangos na cozinha, ao ar da janella, contemplando bocadinhos verdes de quintaes e ceroulas humildes a seccar em cordas… Ora uma tarde que assim nos apraziamos, ella pediu-me oito libras.

Oito libras!… Descendo á noite a rua da Magdalena, eu ruminava quem m'as poderia emprestar sem juro e rasgadamente. O bom Casimiro estava em Torres, o prestante Rinchão estava em Paris… E pensava já no padre Pinheiro (cujas dôres de rins eu lamentava sempre com affecto) quando avistei a escapar-se, todo encolhido, todo surrateiro, d'uma d'essas viellas impuras onde Venus Mercenaria arrasta os seus chinelos—o José Justino, o nosso José Justino, o piedoso secretario da confraria de S. José, o virtuosissimo tabellião da titi!…

Gritei logo: «boas noites, Justininho!» E regressei ao Campo de Sant'Anna, tranquillo, gozando já a repenicada beijoca que me daria a Délinha, quando eu risonho lhe estendesse na mão as oito rodellas d'ouro. Ao outro dia cedo, corri ao cartorio do Justino, a S. Paulo, contei-lhe a pranteada historia d'um condiscipulo meu, tisico, miseravel, arquejando sobre uma enxerga, n'uma fetida casa d'hospedes, ao pé do largo dos Caldas.

—É uma desgraça, Justino! Nem dinheiro tem para um caldinho… Eu é que o ajudo: mas, que diabo, estou a tinir… Faço-lhe companhia, é o que posso; leio-lhe orações, e Exercicios da vida christã. Hontem á noite vinha eu de lá… E acredite você, Justino, que nem gósto d'andar por aquellas ruas, tão tarde… Jesus, que ruas que indecencia, que immoralidade!… Aquelles beccos d'escadinhas, hein?… Eu hontem bem percebi que você ia horrorisado: eu tambem… De sorte que esta manhã estava no oratorio da titi, a rezar pelo meu condiscipulo, a pedir a Nosso Senhor que o ajudasse e que lhe désse algum dinheiro, e vai pareceu-me ouvir uma voz lá de cima da cruz a dizer: «entende-te com o Justino, falla ao nosso Justininho, elle que te dê oito libras para o rapaz…» Fiquei tão agradecido a Nosso Senhor! De modo que aqui venho, Justino, por ordem d'Elle.

O Justino escutava-me, branco como os seus collarinhos, dando estalinhos tristes nos dedos;—depois, em silencio, estendeu-me uma a uma sobre a carteira as oito moedas d'ouro. Assim eu servi a minha Adelia.

Fugaz foi porém a minha gloria!

D'ahi a dias estando no Montanha, regalado, a gozar uma carapinhada—o criado veio avisar-me que uma mocinha trigueira e de chale, a snr.^a Marianna, esperava por mim á esquina… Santo Deus! A Marianna era a criada da Adelia. E corri, a tremer, certo de que a minha bem-amada ficára soffrendo da sua abominavel dôr na sua branca ilharga. Pensei mesmo em começar o Rosario das dezoito apparições de Nossa Senhora de Lourdes, que a titi considera efficacissimo em casos de pontada ou de touros tresmalhados…

—Ha novidade, Marianna?

Ella levou-me para dentro d'um pateo onde cheirava mal; e ahi, com os olhos vermelhos, destraçando furiosamente o chale, rouca ainda da bulha que tivera com a Adelia, rompeu a contar-me coisas torpes, execrandas, sordidas. A Adelia enganava-me! O snr. Adelino não era sobrinho: era o querido, o chulo. Apenas eu sahia, elle entrava: a Adelia dependurava-se-lhe do pescoço, n'um delirio; e chamavam-me então o carraça, o carola, o bode, vituperios mais negros, cuspindo sobre o meu retrato. As oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de verão; e ainda sobrára para irem á feira de Belem, em tipoia descoberta, e de guitarra… A Adelia adorava-o com pieguice e com furor: cortava-lhe os callos; e os suspiros da sua impaciencia, quando elle tardava, lembravam o bramar das cervas, nos mattos quentes, em maio!… Duvidava eu? Queria uma evidencia? Que fosse n'essa noite, tarde, depois da uma hora, bater á portinha da Adelia!

Livido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que me suffocava vinha do canto escuro do pateo—se das immundicies que borbulhavam da bocca da Marianna, como d'um cano d'esgoto rebentado. Limpei o suor, murmurei, a desfallecer:

—Está bom Marianna, obrigadinho, eu verei, vá com Deus…

Cheguei a casa tão sombrio, tão murcho, que a titi perguntou-me, com um risinho, se eu «malhára abaixo da egoa.»

—Da egoa?… Não, titi, credo! Estive na igreja da Graça…

—É que vens tão enfiado, assim com as pernas molles… E então o Senhor hoje estava bonito?

—Ai, titi, estava rico!… Mas não sei porquê, pareceu-me tão tristinho, tão tristinho… Até eu disse ao padre Eugenio: «Ó Eugeninho, o Senhor hoje tem desgosto!» E disse-me elle: «Que quer você, amigo? É que vê por esse mundo tanta patifaria!» E olhe que vê, titi! Vê muita ingratidão, muita falsidade, muita traição!

Rugia, enfurecido: e cerrára o punho como para o deixar cahir, punidor e terrivel, sobre a vasta perfidia humana. Mas contive-me, abotoei devagar a quinzena, recalquei um soluço.

—Pois é verdade, titi… Fez-me tanta impressão aquella tristeza do Senhor que fiquei assim um bocado amarfanhado… E de mais a mais tenho tido um desgosto: está um condiscipulo meu muito mal, coitadinho, a espichar…

E outra vez, como diante do Justino (aproveitando reminiscencias do Xavier e da rua da Fé), estirei a carcassa d'um condiscipulo sobre a podridão d'uma enxerga. Disse as bacias de sangue, disse a falta de caldos… Que miseria, titi, que miseria! E então um moço tão respeitador das coisas santas, que escrevia tão bem na Nação!…

—Desgraças, murmurou a tia Patrocinio, meneando as agulhas da meia.

—É verdade, desgraças, titi. Ora como elle não tem familia e a gente da casa é desleixada, nós os condiscipulos é que vamos por turnos servir-lhe d'enfermeiros. Hoje toca-me a mim. E queria então que a titi me désse licença para eu ficar fóra, até cerca das duas horas… Depois vem outro rapaz, muito instruido, que é deputado.

A tia Patrocinio permittiu:—e até se offereceu para pedir ao patriarcha S. José que fosse preparando ao meu condiscipulo uma morte somnolenta e ditosa…

—Isso é que era um grande favor, titi! Elle chama-se Macieira… O Macieira vesgo. É para S. José saber.

Toda a noite vagueei pela cidade, adormecida na molleza do luar de julho. E por cada rua me acompanharam sempre, fluctuantes e transparentes, duas figuras, uma em camisa, outra de capa á hespanhola, enroscadas, beijando-se furiosamente—e só desligando os beiços pisados para rirem alto de mim e para me chamarem carola.

Cheguei ao Rocio quando batia uma hora no relogio do Carmo. Ainda fumei um cigarro, indeciso, por debaixo das arvores. Depois voltei os passos para a casa da Adelia, vagaroso, e com medo. Na sua janella vi uma luz enlanguecida e dormente. Agarrei a grossa aldraba da porta,—mas hesitei com terror da certeza que vinha buscar, terminante e irreparavel… Meu Deus! Talvez a Marianna, por vingança, calumniasse a minha Adelia! Ainda na vespera ella me chamára riquinho, com tanto ardor! Não seria mais sensato e mais proveitoso acreditar n'ella, tolerar-lhe um fugitivo transporte pelo snr. Adelino, e continuar a receber egoistamente o meu beijinho na orelha?

Mas então á idéa lacerante de que ella tambem beijava na orelha o snr. Adelino, e que o snr. Adelino também dizia ai! ai! como eu— assaltou-me o desejo ferino de a matar, com desprezo e a murros, alli, n'esses degraus onde tantas vezes arrulhára a suavidade dos nossos adeuses. E bati na porta com um punho bestial como se fosse já sobre o seu fragil, ingrato peito.

Senti correr desabridamente o fecho da vidraça. Ella surgiu em camisa, com os seus bellos cabellos revoltos:

—Quem é o bruto?

—Sou eu, abre.

Reconheceu-me—a luz dentro desappareceu; e foi como se aquella torcida de candieiro, apagando-se, deixasse tambem a minha alma em escuridão, fria para sempre e vazia. Senti-me regeladamente só, viuvo, sem occupação e sem lar. Do meio da rua olhava as janellas negras, e murmurava: «ai, que eu rebento!»

Outra vez a camisa da Adelia alvejou na varanda.

—Não posso abrir, que ceei tarde e estou com somno!

—Abre! gritei erguendo os braços desesperados. Abre ou nunca mais cá volto!…

—Pois á fava, e recados á tia.

—Fica-te, bebeda!

Tendo-lhe atirado, como uma pedrada, este urro severo, desci a rua muito teso, muito digno. Mas á esquina aluí de dôr, para cima d'um portal, a soluçar, escoado em pranto, delido.

Pesada foi então ao meu coração a lenta melancolia dos dias d'estio… Tendo contado á titi que andava a escrever dois artigos, piamente destinados ao Almanach da Immaculada Conceição para 1878, encerrava-me no quarto, toda a manhã, emquanto faiscavam ao sol as pedras da minha varanda. Ahi, arrastando as chinelas sobre o soalho regado, remoía, entre suspiros, recordações da Adelia; ou diante do espelho contemplava o lugar macio da orelha em que ella costumava dar-me o beijo… Depois sentia um ruido de vidraça—e o seu perfido, o seu affrontoso brado «á fava!» Então, perdido, esguedelhado, machucava o travesseiro com os murros que não podia vibrar ao peito magro do snr. Adelino.

Á tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a Baixa. Mas cada janella aberta ás aragens da tarde, cada cortina de cassa engommada me lembrava a intimidade da alcovinha da Adelia; n'um simples par de meias, esticado na vitrina de uma loja, eu revia com saudade a perfeição da sua perna; tudo o que era luminoso me suggeria o seu olhar; e até o sorvete de morango, no Martinho, me fazia repassar nos labios o adocicado e gostoso sabor dos seus beijos.

Á noite, depois do chá, refugiava-me no oratorio, como n'uma fortaleza de santidade, embebia os meus olhos no corpo de ouro de Jesus, pregado na sua linda cruz de pau preto. Mas então o brilho fulvo do metal precioso ia, pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva côr de carne, quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os ossos, arredondava-se em fórmas divinamente cheias e bellas; por entre a corôa d'espinhos, desenrolavam-se lascivos anneis de cabellos crespos e negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos, direitos, dois esplendidos seios de mulher, com um botãosinho de rosa na ponta;—e era ella, a minha Adelia, que assim estava no alto da cruz, núa, soberba, risonha, victoriosa, profanando o altar, com os braços abertos para mim!

Eu não via n'isto uma tentação do Demonio—antes me parecia uma graça do Senhor. Comecei mesmo a misturar aos textos das minhas rezas as queixas do meu amor. O céo é talvez grato: e esses innumeraveis santos, a quem eu prodigalisára Novenas e Coroinhas, desejariam talvez recompensar a minha amabilidade restituindo-me as caricias que me roubára o homem cruel da capa á hespanhola. Puz mais flôres sobre a commoda diante de Nossa Senhora do Patrocinio; contei-lhe as angustias do meu coração. Por traz do limpido vidro do seu caixilho, com os olhos baixos e magoados, ella foi a confidente do tormento da minha carne; e todas as noites, em ceroulas, antes de me deitar, eu lhe segredava, com ardor:

—Ó minha querida Senhora do Patrocinio, faze que a Adelinha goste outra vez de mim!

Depois utilisei o valimento da titi com os santos seus amigos—o amorosissimo e perdoador S. José, S. Luiz Gonzaga, tão benevolo para a juventude. Pedia-lhe que fizesse uma Petição por certa necessidade minha, secreta e toda pura. Ella accedia, com alacridade; e eu, espreitando pelo reposteiro do oratorio, regalava-me de vêr a rigida senhora, de joelhos, de contas na mão, em supplicas aos Patriarchas castissimos para que a Adelia me désse outra vez a beijoquinha na orelha.

Uma noite, cedo, foi experimentar se o céo escutára tão valiosas preces. Cheguei á porta da Adelia; e bati, tremendo todo, uma argoladinha humilde. O snr. Adelino assomou á janella, em mangas de camisa.

—Sou eu, snr. Adelino, murmurei abjectamente e tirando o chapéo. Queria fallar á Adeliasinha.

Elle rosnou para dentro, para a alcova, o meu nome. Creio mesmo que disse o carola. E lá do fundo, d'entre os cortinados, onde eu a presentia toda desalinhada e formosa, a minha Adelia gritou com furor:

—Atira-lhe para cima dos lombos o balde da agua suja!

Fugi.

* * * * *

No fim de setembro, o Rinchão chegou de Paris: e um domingo, á noitinha, á volta da Novena de S. Caetano, entrando no Martinho, encontrei-o, rodeado de rapazes, contando ruidosamente os seus feitos d'amor e de gentil audacia em Paris. Tristonho, puxei um banco e fiquei a ouvir o Rinchão. Com uma ferradura de rubis na gravata, o monoculo pendente d'uma fita larga, uma rosa amarella no peito, o Rinchão impressionava, quando por entre o fumo do charuto esboçava traços do seu prestigio: «Uma noite no Caffé de la Paix, estando eu a cear com a Cora, com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um principe…» O que o Rinchão tinha visto! o que o Rinchão tinha gozado! Uma condessa italiana, delirante, parenta do Papa, e chamada Popotte, amára-o, levára-o aos Campos-Elyseos na sua victoria—cujo velho brazão eram dois chavelhos encruzados. Jantára em restaurantes onde a luz vinha de serpentinas d'ouro, e os criados, macilentos e graves, lhe chamavam respeitosamente Mr. le Comte. E o Acazar, com festões de gaz entre as arvores, e a Paulina cantando, de braços nús, o Chouriço de Marselha—revelára-lhe a verdade, a grandeza da civilisação.

—Viste Victor Hugo? perguntou um rapaz de lunetas pretas, que roía as unhas.

—Não, nunca andava cá na roda chic!

Toda essa semana, então, a idéa de vêr Paris brilhou incessantemente no meu espirito, tentadora e cheia de suaves promessas… E era menos o appetite d'esses gozos do Orgulho e da Carne com que se abarrotára o Rinchão, que a anciedade de deixar Lisboa, onde igrejas e lojas, claro rio e claro céo, só me lembravam a Adelia, o homem amargo de capa á hespanhola, o beijo na orelha perdido para sempre… Ah! se a titi abrisse a sua bolsa de sêda verde, me deixasse mergulhar dentro as mãos, colher ouro, e partir para Paris!…

Mas, para a snr.^a D. Patrocinio, Paris era uma região ascorosa, cheia de mentira, cheia de gula—onde um povo sem santos, com as mãos maculadas do sangue dos seus arcebispos, está perpetuamente, ou brilhe o sol, ou luza o gaz, commettendo uma relaxação. Como ousaria eu mostrar á titi o desejo immodesto de visitar esse lugar de sujidade e de treva moral?…

Logo no domingo porém, jantando no Campo de Sant'Anna os amigos dilectos, aconteceu fallar-se, ao cozido, d'um sabio condiscipulo do padre Casimiro que recentemente deixára a quietação da sua cella no Varatojo, para ir esposar, entre foguetes, a trabalhosa Sé de Lamego. O nosso modesto Casimiro não comprehendia esta cubiça d'uma mitra, cravejada de pedras vãs: para elle a plenitude d'uma vida ecclesiastica era estar assim aos sessenta annos, são e sereno, sem saudades e sem temores, comendo o arrozinho do forno da snr.^a D. Patrocinio das Neves…

—Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitavel senhora, que este seu arroz está um primor!… E a ambição de ter sempre um arroz d'estes, e amigos que o apreciem, parece-me a mais legitima e a melhor para uma alma justa…

E assim se veio a discursar das acertadas ambições que, sem aggravo do Senhor, cada um podia nutrir no seu coração. A do tabellião Justino era uma quintasinha no Minho, com roseiras e com parreiras, onde elle pudesse acabar a velhice, em mangas de camisa, e quietinho.

—Olhe, Justino, disse a titi, uma coisa que lhe havia de fazer falta era a sua missa na Conceição Velha… Quando a gente se acostuma a uma missinha, não ha outra que console… A mim, se me tirassem a de Sant'Anna, parece-me que começava a definhar…

Era o padre Pinheiro que a celebrava; a titi, enternecida, collocou-lhe no prato outra aza de gallinha;—e padre Pinheiro revelou tambem a ambição que o pungia. Era elevada e santa. Queria vêr o Papa restaurado n'esse throno forte e fecundo em que resplandecera Leão X…

—Se ao menos houvesse mais caridade com elle! exclamou a titi. Mas o Santissimo Padre, o vigariosinho de Nosso Senhor, assim n'uma masmorra, em farrapos, sobre palha… É de Caipházes, é de judeus!

Bebeu um gole da sua agua morna, e recolheu-se ao retiro da sua alma—a rezar a Ave-Maria que sempre offertava pela saude do Pontifice e pelo termo do seu captiveiro.

O dr. Margaride consolou-a. Não acreditava que o Pontifice dormisse sobre palhas. Viajantes esclarecidos afiançavam-lhe até que o Santo Padre, querendo, podia ter carruagem.

—Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiára; mas uma carruagem, minha senhora, é uma grandissima commodidade…

Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam as suas ambições) qual era a do douto, do eminente dr. Margaride.

—Diga lá a sua, dr. Margaride, diga lá a sua! clamaram todos, com affecto.

Elle sorria, grave.

—Deixe-me v. exc.^a primeiro, D. Patrocinio, minha senhora, servir-me d'essa lingua guizada, que marcha para nós e que me parece preciosa.

Depois de fornecido, o veneravel magistrado confessou que appetecia ser Par do Reino. Não por alarde de honras, nem pelo luxo da farda; mas para defender o principio sacro da authoridade…

—Só por isto, acrescentou com energia. Porque desejava tambem, antes de morrer, poder dar, se v. exc.^a, D. Patrocinio, me permitte a expressão, uma cacheirada mortal no atheismo e na anarchia. E dava-lh'a!

Todos declararam fervorosamente o dr. Margaride digno d'esses fastigios sociaes. Elle agradeceu, seriissimo. Depois volveu para mim a face magestosa e livida:

—E o nosso Theodorico? O nosso Theodorico ainda não nos disse qual era a sua ambição.

Córei: e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as suas serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas, as espumas do seu champagne—fascinante, embriagante, e adormentando toda a dôr… Mas baixei os olhos; e affirmei que só aspirava a rezar as minhas corôas, ao lado da titi, com proveito e com descanso…

O dr. Margaride porém pousára o talher, insistia. Não lhe parecia um desapego de Deus, nem uma ingratidão com a titi, que eu, intelligente, saudavel, bom cavalleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cubiça…

—Nutro! exclamei então decidido como aquelle que arremessa um dardo.

Nutro, dr. Margaride. Gostava muito de vêr Paris.

—Cruzes! gritou a snr.^a D. Patrocinio, horrorisada. Ir a Paris!…

—Para vêr as igrejas, titi!

—Não é necessario ir tão longe para vêr bonitas igrejas, replicou ella, rispidamente. E lá em festas com orgão, e um Santissimo armado com luxo, e uma rica procissão na rua, e boas vozes, e respeito, e imagens de dar gosto, ninguem bate cá os nossos portuguezes!…

Calei-me, esmagado. E o esclarecido dr. Margaride applaudiu o patriotismo ecclesiastico da titi. Decerto, não era n'uma republica sem Deus, que se deviam procurar as magnificencias do culto…

—Não, minha senhora, lá para saborear coisas grandiosas da nossa santa religião, se eu tivesse vagares, não era a Paris que ia… Sabe v. exc.^a onde eu ia, snr.^a D. Maria do Patrocinio?

—O nosso doutor, lembrou o padre Pinheiro, corria direito a Roma…

—Upa, padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!

Upa? Nem o bom Pinheiro, nem a titi comprehendiam o que houvesse de superior a Roma pontifical! O dr. Margaride então ergueu solemnemente as sobrancelhas, densas e negras como ebano.

—Ia á Terra Santa, D. Patrocinio! Ia á Palestina, minha senhora! Ia vêr Jerusalem e o Jordão! Queria eu tambem estar um momento, de pé, sobre o Golgotha, como Chateaubriand, com o meu chapéo na mão, a meditar, a embeber-me, a dizer «salvè!» E havia de trazer apontamentos, minha senhora, havia de publicar impressões historicas. Ora ahi tem v. exc.^a onde eu ia… Ia a Sião!

Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um recolhimento reverente a esta evocação da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu parecia-me vêr lá muito longe, na Arabia, ao fim de arquejantes dias de jornada sobre o dorso d'um camêlo, um montão de ruinas em torno d'uma cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céo arqueia-se mudo e triste como a abobada d'um tumulo. Assim devia ser Jerusalem.

—Linda viagem! murmurou o nosso Casimiro, pensativo.

—Sem contar, rosnou padre Pinheiro, baixo e como ciciando uma oração, que Nosso Senhor Jesus Christo vê com grande apreço, e muito agradece, essas visitas ao seu Santo Sepulchro.

—Até quem lá vai, disse o Justino, tem perdão de peccados. Não é verdade, Pinheiro? Eu assim li no Panorama… Vem-se de lá limpinho de tudo!

Padre Pinheiro (tendo recusado, com mágoa, a couve-flôr, que considerava indigesta) deu esclarecimentos. Quem ia á Terra Santa, n'uma devota peregrinação, recebia sobre o marmore do Santo Sepulchro, das mãos do Patriarcha de Jerusalem, e pagando os rituaes emolumentos, as suas Indulgencias Plenarias…

—Não só para si, segundo tenho ouvido dizer, acrescentou o instruido ecclesiastico, mas para uma pessoa querida de familia, piedosa, e comprovadamente impedida de fazer a jornada… Pagando, já se vê, emolumentos dobrados.

—Por exemplo! exclamou o dr. Margaride inspirado, batendo-me com força nas costas. Assim para uma boa titi, uma titi adorada, uma titi que tem sido um anjo, toda virtude, toda generosidade!…

—Pagando, já se vê, insistiu padre Pinheiro, os emolumentos dobrados!

A titi não dizia nada; os seus oculos, girando do Sacerdote para o Magistrado, pareciam estranhamente dilatados, e brilhando mais com o clarão interior d'uma idéa: um pouco de sangue subira á sua face esverdinhada. A Vicencia offereceu o arroz dôce. Nós rezamos as graças.

Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me triste, infinitamente. Nunca a titi me deixaria visitar a terra immunda de França: e aqui ficaria enclausurado n'esta Lisboa onde tudo me era tortura, e as mais rumorosas ruas me aggravavam o ermo do meu coração, e até a pureza do fino céo de estio me recordava a torva perfidia d'essa que fôra para mim estrella e Rainha da Graça… Depois, n'esse dia, ao jantar, a titi parecera-me mais rija, solida ainda, duradoura, e por longos annos dona da bolsa de sêda verde, dos predios e dos contos do commendador G. Godinho… Ai de mim! Quanto tempo mais teria de rezar com a odiosa velha o fastiento terço, de beijar o pé do Senhor dos Passos, sujo de tanta bocca fidalga, de palmilhar novenas, e de magoar os joelhos diante do corpo d'um Deus, magro e cheio de feridas? Oh vida entre todas amargurosa! E já não tinha, para me consolar do enfadonho serviço de Jesus, os macios braços da Adelia…

* * * * *

De manhã, apparelhada a egoa, e já d'esporas, fui saber se minha titi tinha algum pio recado para S. Roque, por ser esse seu milagroso dia. Na saleta votada ás glorias de S. José, a titi, ao canto do sofá, com o chale de Tonkin cahido dos hombros, examinava o seu grande caderno de contas, aberto sobre os joelhos; e, defronte, calado, com as mãos cruzadas atraz das costas, o bom Casimiro sorria pensativamente ás flôres do tapete.

—Ora venha cá, venha cá! disse elle, mal eu assomei curvando o espinhaço. Ouça lá a novidade! Que você é uma joia, respeitador de velhos, e tudo merece de Deus e da senhora sua tia. Chegue-se cá, venha de lá esse abraço!

Sorri, inquieto. A titi enrolava o seu caderno.

—Theodorico! começou ella, cruzando os braços, impertigada. Theodorico! tenho estado aqui a consultar com o snr. padre Casimiro. E estou decidida a que alguem que me pertença, e que seja do meu sangue, vá fazer por minha intenção uma peregrinação á Terra Santa…

—Hein, felizão! murmurou Casimiro, resplandecendo.

—Assim, proseguiu a titi, está entendido e ficas sabendo que vaes a Jerusalem e a todos os divinos lugares. Escusas de me agradecer, é para meu gosto, e para honrar o tumulo de Jesus Christo, já que eu lá não posso ir… Como, louvado seja Nosso Senhor, não me faltam os meios, has de fazer a viagem com todas as commodidades; e para não estar com mais duvidas, e pela pressa d'agradar a Nosso Senhor, ainda has de partir n'este mez… Bem, agora vai, que eu preciso conversar com o snr. padre Casimiro. Obrigado, não quero nada para o snr. S. Roque: já me entendi com elle.

Balbuciei: «Muito agradecido, titi; adeusinho, padre Casimiro.» E segui pelo corredor, atordoado.

No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado, este rosto e estas barbas, onde em breve pousaria o pó do Jerusalem… Depois, cahi sobre o leito.

—Olha que tremenda espiga!

Ir a Jerusalem! E onde era Jerusalem? Recorri ao bahú que continha os meus compendios e a minha roupa velha; tirei o Atlas, e com elle aberto sobre a commoda, diante da Senhora do Patrocinio, comecei a procurar Jerusalem lá para o lado onde vivem os Infieis, ondulam as escuras caravanas, e uma pouca d'agua n'um poço é como um dom precioso do Senhor.

O meu dedo errante sentia já o cansaço d'uma longa jornada: e parei á beira tortuosa d'um rio que devia ser o devoto Jordão. Era o Danubio. E de repente o nome de Jerusalem surgiu, negro, n'uma vasta solidão branca, sem nomes, sem linhas, toda de arêas, nua, junto ao mar. Alli estava Jerusalem. Meu Deus! Que remoto, que ermo, que triste!

Mas então comecei a considerar que, para chegar a esse sólo de penitencia, tinha d'atravessar regiões amaveis, femininas e cheias de festa. Era primeiro essa bella Andaluzia, terra de Maria Santissima, perfumada de flôr de laranjeira, onde as mulheres só com metter dois cravos no cabello, e traçando um chale escarlate, amansam o coração mais rebelde, bendita sêa su gracia! Era adiante Napoles—e as suas ruas escuras, quentes, com retabulos da Virgem, e cheirando a mulher, como os corredores d'um lupanar. Era depois mais longe ainda a Grecia: desde a aula de Rhetorica ella apparecera-me sempre como um bosque sacro de loureiros onde alvejam frontões de templos, e, nos lugares de sombra em que arrulham as pombas, Venus de repente surge, côr de luz e côr de rosa, offerecendo a todo o labio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus seios immortaes. Venus já não vivia na Grecia; mas as mulheres tinham conservado lá o esplendor da sua fórma e o encanto do seu impudor… Jesus! o que eu podia gozar! Um clarão sulcou-me a alma. E gritei, com um murro sobre o Atlas, que fez estremecer a castissima Senhora do Patrocinio e todas as estrellas da sua corôa:

—Caramba, vou fartar o bandulho!

Sim, fartal-o! E mesmo, receando que a titi, por avareza do seu ouro ou desconfiança da minha piedade, renunciasse á idéa d'esta peregrinação tão promettedora de gozos—resolvi ligal-a supernaturalmente por uma ordem divina. Fui ao oratorio; desmanchei o cabello, como se por entre elle tivesse passado um sopro celeste; e corri ao quarto da titi, esgazeado, com os braços a tremer no ar.

—Ó titi! pois não quer saber? Estava agora no oratorio, a rezar de satisfação, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso Senhor, de cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer: «Fazes bem, Theodorico, fazes bem em ir visitar o meu Santo Sepulchro… E estou muito contente com tua tia… Tua tia é das minhas!…»

Ella juntou as mãos, n'um fogoso transporte d'amor:

—Louvado seja o seu santissimo nome!… Pois disse isso? Ai, era bem

capaz, que Nosso Senhor sabe que é para o honrar que eu lá te mando…

Louvado seja outra vez o seu santissimo nome! Louvado seja em Terra e

Céo! Anda, filho, vai, reza-lhe… Não te fartes, não te fartes!

Eu ia, murmurando uma Ave-Maria. Ella correu ainda á porta, n'uma effusão de sympathia:

—E olha, Theodorico, vê lá a respeito de roupa branca… Talvez te sejam necessarias mais ceroulas… Encommenda, filho, encommenda, que graças a Nossa Senhora do Rosario tenho posses, e quero que vás com decencia e te apresentes bem lá na sepulturasinha de Deus!…

Encommendei: e, tendo comprado um Guia do Oriente e um capacete de cortiça, informei-me, sobre o modo mais deleitoso de chegar a Jerusalem, com Benjamim Sarrosa & C.^a, judeu sagaz, que ia todos os annos, de turbante, comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente, n'um papel, o meu grandioso itinerario. Embarcaria no Malaga, vapor da casa Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, n'um mar sempre azul, á velha terra do Egypto. Ahi um repouso sensual na festiva Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa da Syria, aportaria a Jaffa, a de verdejantes pomares; e de lá, seguindo uma estrada macadamisada, ao chouto d'uma egoa dôce, veria, ao fim d'um dia e ao fim d'uma noite, surgirem, negras entre collinas tristes, as muralhas de Jerusalem!

—Diabo, Benjamim… Parece-me muito mar, muito paquete. Então nem um bocadinho de Hespanha? Ó menino, olhe que eu quero refastelar-me.

—Refastela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o bilhar, tem a tipoia, tem a batota, tem a mulherinha… Tudo do bom. É lá que você se refastela!

No emtanto, já no Montanha e na tabacaria do Brito se fallava da minha santa empresa. Uma manhã, li, escarlate d'orgulho, no Jornal das Novidades estas linhas honorificas: «Parte brevemente a visitar Jerusalem, e todos os sacros lugares em que padeceu por nós o Redemptor, o nosso amigo Theodorico Raposo, sobrinho da exc.^{ma} D. Patrocinio das Neves, opulenla proprietaria, e modelo de virtudes christãs. Boa viagem!» A titi, desvanecida, guardou o jornal no oratorio, debaixo da peanha de S. José: e eu jubilei, por imaginar o despeito da Adelia (leitora fiel do Jornal) ao vêr-me assim abalar desprendido d'ella, atestado d'ouro, para essas terras musulmanas—onde a cada passo se topa um serralho, mudo e cheirando a rosa entre sycomoros…

A vespera da partida, na sala dos damascos, teve elevação e solemnidade.

O Justino contemplava-me—como se contempla uma figura historica.

—O nosso Theodorico… Que viagem!… O que se vai fallar n'isto!

E padre Pinheiro murmurava com unção:

—Foi uma inspiração do Senhor! E que bem que lhe ha de fazer á saude!

Depois mostrei o meu capacete de cortiça. Todos o admiraram. O nosso Casimiro, todavia, depois de coçar pensativamente o queixo, observou que me daria talvez mais seriedade um chapéo alto…

A titi acudiu, afflicta:

—É o que eu lhe disse! Acho de pouca ceremonia, para a cidade em que morreu Nosso Senhor…

—Ó titi, mas já lhe expliquei! Isto é só para o deserto!… Em Jerusalem, está claro, e em todos aquelles santos lugares, ando de chapéo alto…

—Sempre é mais de cavalheiro, affirmou o dr. Margaride.

Padre Pinheiro quiz saber, solicitamente, se eu ia prevenido com remedios para o caso d'um contratempo intestinal n'esses descampados biblicos…

—Levo tudo. O Benjamim deu-me a lista… Até linhaça, até arnica!…

O pachorrento relogio do corredor começou a gemer as dez; eu devia madrugar; e o dr. Margaride, commovido, agasalhava já o pescoço no seu lenço de sêda. Então, antes dos abraços, perguntei aos meus leaes amigos que «lembrançasinha» desejavam d'essas terras remotas onde vivera o Senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho d'agua do Jordão. Justino (que já me pedira no vão da janella um pacote de tabaco turco) diante da titi só appetecia um raminho de oliveira, do monte Olivete. O dr. Margaride contentava-se com uma boa photographia do sepulchro de Jesus Christo, para encaxilhar…

Com a carteira aberta, depois de alistar estas piedosas imcumbencias—voltei-me para a titi, risonho, carinhoso, humilde…

—Cá por mim, disse ella do meio do sofá como d'um altar, tesa nos seus setins de domingo, o que desejo é que faças essa viagem com toda a devoção, sem deixar pedra por beijar, nem perder novena, nem ficar lugarzinho em que não rezes ou o terço ou a corôa… Além d'isso, tambem estimo que tenhas saude.

Eu ia depôr na sua mão, brilhante de anneis, um beijo gratissimo. Ella deteve-me—mais aprumada e secca:

—Até aqui tens sido apropositado, não tens faltado aos preceitos, nem te tens dado a relaxações… Por isso te vaes regalar de vêr as oliveiras onde Nosso Senhor suou sangue, e de beber no Jordãosinho… Mas se eu soubesse que n'esta passeata tinhas tido maus pensamentos, e praticado uma relaxação, ou andado atraz de saias, fica certo que, apesar de ser a unica pessoa do meu sangue, e teres visitado Jerusalem, e gozar indulgencias, havias de ir para a rua, sem uma côdea, como um cão!

Curvei a cabeça, apavorado. E a titi, depois de roçar o lenço de rendas pelos beiços sumidos, proseguiu com mais authoridade, e uma emoção crescente que lhe punha, sob o corpete raso, como o fugitivo arfar d'um peito humano:

—E agora quero dizer-te para teu governo uma só coisa!…

Todos de pé, e reverentes, logo percebemos que a titi se preparava a proferir uma palavra suprema. N'essa hora de separação, rodeada dos seus sacerdotes, rodeada dos seus magistrados, D. Patrocinio das Neves ia decerto revelar qual fôra o seu intimo motivo, em me mandar, como sobrinho e como romeiro, á cidade de Jerusalem. Eu ia saber emfim, e tão indubitavelmente como se ella m'o escrevesse n'um pergaminho, qual deveria ser o mais precioso dos meus cuidados, velando ou dormindo, nas terras do Evangelho!

—Aqui está! declarou a titi. Se entendes que mereço alguma coisa pelo que tenho feito por ti desde que morreu tua mãi, já educando-te, já vestindo-te, já dando-te egoa para passeares, já cuidando da tua alma, então traze-me d'esses santos lugares uma santa reliquia, uma reliquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas afflicções e que cure as minhas doenças.

E pela vez primeira, depois de cincoenta annos de aridez, uma lagrima breve escorregou no carão da titi, por sob os seus oculos sombrios.

O dr. Margaride rompeu para mim, arrebatadamente:

—Theodorico, que amor que lhe tem a titi! Rebusque essas ruinas, esquadrinhe esses sepulcros! Traga uma reliquia á titi!

Eu bradei, exaltado:

—Titi, palavra de Raposão que lhe hei de trazer uma tremenda reliquia!

Pela severa sala de damascos transbordou, ruidosa e tocante, a commoção dos nossos corações. Eu achei me com os beiços do Justino, ainda molles da torrada, collados á minha barba…

Cedo, na manhã de domingo, 6 de setembro e dia de Santa Libania, fui bater, devagar, ao quarto da titi, ainda adormecida no seu leito castissimo. Senti, por sobre o tapete, aproximar-se o som molle dos seus chinelos. Entreabriu pudicamente a porta; e, decerto em camisa, estendeu-me, através da fenda, a sua mão escarnada, livida, cheirando a rapé. Appeteceu-me mordel-a; depuz n'ella um beijo baboso; a titi murmurou:

—Adeus, menino… Dá muitas saudades ao Senhor!

Desci a escadaria, já de capacete, sobraçando o meu Guia do Oriente.

Atraz a Vicencia soluçava.

A minha mala nova de couro, o meu repleto sacco de lona enchiam o coupé do Pingalho. Ainda as andorinhas retardadas cantavam no beiral dos telhados; na capella de Sant'Anna tocava para a missa. E um raio de sol, vindo do Oriente, vindo lá da Palestina ao meu encontro, banhou-me a face, acolhedor e risonho, como uma caricia do Senhor.

Fechei a tipoia, estirei-me, gritei: «Larga, Pingalho!»

E, romeiro abastado, soprando á brisa o fumo do meu cigarro— assim deixei o portão de minha tia, em caminho para Jerusalem!