A Relíquia
Capítulo III
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trémula, como a d'uma tocha fumegante, penetrava na tenda—e através d'ella uma voz me chamava, lamentosa e dolente:
—Theodorico, Theodorico, ergue-te, e parte para Jerusalem!
Arrojei a manta, assustado:—e vi o doutissimo Topsius, que, á luz mortal de uma vela, bruxoleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de Champagne, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era elle que me despertava, açodado, fervoroso:
—A pé, Theodorico, a pé! As egoas estão selladas! Amanhã é Paschoa! Ao alvorecer devemos chegar ás portas de Jerusalem!
Arredando os cabellos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado Doutor:
—Oh Topsius! Pois nós partimos assim, bruscamente, sem os nossos alforges, e deixando as tendas adormecidas, como quem foge espavorido?
O erudito homem alçou os seus oculos d'ouro que resplandeciam com uma desusada, irresistivel intellectualidade. Uma capa branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em prégas graves e puras de toga latina: e lento, esguio, abrindo os braços, disse, com labios que pareciam classicos e de marmore:
—D. Raposo! Esta aurora que vae nascer, e em pouco tocar os cimos do Hebron, é a de 15 do mez de Nizam; e não houve em toda a historia d'Israel, desde que as tribus voltaram de Babylonia, nem haverá, até que Tito venha pôr o ultimo cêrco ao Templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalem para vêr, viva e rumorejando, esta pagina do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Paschoa a casa de Gamaliel, que é um amigo d'Hillel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanhedrin. Foi elle que disse: «para te livrares do tormento da duvida, impõe-te uma auctoridade.» Portanto, a pé, D. Raposo!
Assim murmurou o meu amigo, erecto e lento. E eu, submissamente, como perante um mandamento celeste, comecei a enfiar em silencio as minhas grossas botas de montar. Depois, apenas me agasalhei no albornoz, elle empurrou-me com impaciencia para fóra da tenda—sem mesmo me deixar recolher o relogio e a faca sevilhana, que todas as noites, cauteloso, eu guardava debaixo do travesseiro. A luz da vela esmorecia, fumarenta e vermelha…
Devia ser meia noite. Dois cães ladravam ao longe, surdamente, como entre frondosos muros de quintas. O ar macio e ermo cheirava a rosas de vergel e á flôr da laranjeira. O ceu d'Israel faiscava com desacostumado esplendor: e em cima do monte Nebo, um bello astro mais branco, d'uma refulgencia divina, olhava para mim, palpitando anciosamente, como se procurasse, captivo na sua mudez, dizer um segredo á minha alma!
As egoas esperavam, immoveis sob as longas clinas. Montei. E então, emquanto Topsius arranjava laboriosamente os loros, avistei para os lados da fonte d'Elyseo—uma fórma maravilhosa que me arripiou de terror transcendente.
Era, ao clarão diamantino das estrellas da Syria, como a branca muralha d'uma cidade nova! Frontões de templos alvejavam pallidamente entre a espessura de bosques sagrados; para as collinas distantes fugiam esbatidos os arcos ligeiros d'um aqueducto. Uma chamma fumegava no alto d'uma torre; mais baixo, movendo-se, faiscavam pontas de lanças; um som longo de bozina morria na sombra… E abrigada junto aos bastiões uma aldêa dormia entre palmeiras.
Topsius, na sella, prompto a marchar, embrulhára a mão nas clinas da egoa.
—Aquillo, branco, além? murmurei, suffocado.
Elle disse simplesmente:
—Jericó.
Rompeu, galopando. Não sei quanto tempo segui, emmudecido, o nobre historiador dos Herodos: era por uma estrada direita, feita de lages negras de basalto. Ah! que differente do aspero caminho por onde tinhamos descido a Canaan, faiscante e côr de cal, através de collinas onde o tojo escasso semelhava, na irradiação da luz, um bolor de velhice e de abandono! E tudo em redor me parecia differente tambem, a fórma das rochas, o cheiro da terra quente, até a palpitação das estrellas… Que mudança se fizera em mim, que mudança se fizera no Universo? Por vezes uma faisca dura saltava das ferraduras das egoas. E sem descontinuar Topsius galopava, agarrado ás clinas, com as duas bandas da capa branca batendo como os dois panos de uma bandeira…
Mas subitamente parou. Era junto d'uma casa quadrada, entre arvores, toda apagada e muda, tendo no tôpo uma haste sobre que pousava estranhamente, como recortada n'uma lamina de ferro, a figura d'uma cegonha. Á entrada esmorecia uma fogueira: remexi as achas: e á curta chamma que resaltou comprehendi que era uma antiga estalagem á beira d'uma antiga estrada. Por baixo da cegonha, encimando a porta estreita e erriçada de pregos, brilhava em negro, n'uma lapide branca, a taboleta latina—Ad Gruem Majorem: e ao lado, enchendo parte da fachada, desenrolava-se uma inscripção rudemente entalhada na pedra, que eu decifrei a custo, e em que Apollo promettia a saude ao hospede, e Septimanus, o hospedeiro, lhe garantia risonha acolhida, o banho reparador, vinho forte da Campania, frescos palhetes d'Engaddi, e «todas as commodidades á maneira de Roma.»
Murmurei, desconfiado:
—Á maneira de Roma!
Que estranhos caminhos ia eu então trilhando? Que outros homens, dissemelhantes de mim, no fallar e no traje, bebiam alli, sob a protecção d'outros deuses, o vinho em amphoras do tempo de Horacio?…
Mas de novo Topsius marchou, esguio e vago na noite. Agora findára a estrada de basalto sonoro: e subiamos a passo um brusco caminho, cavado entre rochas, onde grossos pedregulhos resoavam, rolavam sob as patas das egoas, como no leito d'uma torrente que um lento Agosto seccou. O erudito Doutor, sacudido na sella, praguejava roucamente contra o Sanhedrin, contra a hirta Lei judaica, opposta indobravelmente a toda a obra culta que quer fazer o Proconsul… Sempre o Phariseu via com rancor o aqueducto romano que lhe trazia a agua, a estrada romana que o levava ás cidades, a therma romana que lhe curava as pustulas…
—Maldito seja o Phariseu!
Somnolento, rememorando velhas imprecações do Evangelho, eu rosnava, encolhido no meu albornoz:
—Phariseu, sepulchro caiado… Maldito seja!
Era a hora calada em que os lobos dos montes vão beber. Cerrei os olhos; as estrellas desmaiavam.
Breves faz o Senhor as noites macias do mez de Nizam, quando se come em Jerusalem o anho branco de Paschoa: e bem cedo o céo se vestiu d'alvo do lado do paiz de Moab.
Despertei. Já os gados balavam nos cerros. O ar fresco cheirava a rosmaninho.
E então avistei, errando por cima dos penedos sobranceiros ao caminho, um homem estranho, bravio, coberto com uma pelle de carneiro, que me recordou Elias e todas as cóleras da Escriptura; o peito, as pernas pareciam de granito vermelho; por entre a grenha e a barba, rudes, emmaranhadas, fazendo-lhe como uma juba feroz, os olhos refulgiam-lhe desvairadamente… Descobriu-nos; e logo, sacudindo os braços como quem arremessa pedras, despediu sobre nós todas as maldições do Senhor! Chamou-nos «pagãos», chamou-nos «cães»: gritava «malditas sejam as vossas mães, sêccos sejam os peitos que vos crearam!» Crueis e cheios de presagios cahiam os seus brados do alto das rochas: e, retardado pelos passos lentos da egoa, Topsius encolhia-se na capa como sob uma saraiva inclemente. Até que me enfureci; voltei-me na anca da cavalgadura, chamei-lhe bebedo, atirei-lhe obscenidades; e via no emtanto, sob a chamma selvagem dos seus olhos, a bocca clamorosa e negra torcer-se-lhe, babar-se de furor devoto…
Mas, desembocando da ravina, encontrámos, larga e lageada, a estrada romana que vai a Sichem: e trotando por ella, sentiamos o allivio de penetrar emfim n'uma região culta, piedosa, humana e legal. A agua abundava: sobre as collinas erguiam-se fortalezas novas: pedras sagradas delimitavam os campos. Nas eiras brancas, os bois enfeitados d'anemonas pisavam o trigo da colheita de Paschoa; e em vergeis onde a figueira já tinha enfolhado, o servo na sua torre caiada, cantando com uma vara na mão, afugentava os pombos bravos. Por vezes avistavamos um homem, de pé, junto da sua vinha, ou á beira dos canaes de rega, direito, com a ponta do manto atirada por cima da cabeça, e os olhos baixos, dizendo a santa oração do Schema. Um oleiro, que espicaçava o seu burro, carregado de cantaros de barro amarello, gritou-nos: «Bemditas sejam as vossas mães, boa vos seja a Paschoa!» E um leproso, que descançava á sombra, nos olivedos, perguntou-nos, gemendo e mostrando as chagas, qual era em Jerusalem o Rabbi que curava, e aonde se apanhava a raiz do baraz.
Já nos aproximavamos de Bethania. Para dar de beber ás egoas parámos n'uma linda fonte que um cedro assombreava. E o douto Topsius, arranjando um loro, admirava-se de não termos encontrado a caravana que vem de Galilêa celebrar a Paschoa a Jerusalem— quando soou, adiante, na estrada, um rumor lento d'armas em marcha… E eu vi, assombrado, apparecerem soldados romanos, d'esses que tantas vezes amaldiçoára em estampas da Paixão!
Barbudos, tostados pelo sol da Syria, marchavam solidamente, em cadencia, com um passo bovino, fazendo resoar sobre as lages as sandalias ferradas: todos traziam ás costas os escudos envoltos em saccos de lona: e cada um erguia ao hombro uma alta forquilha, d'onde pendiam trouxas encordelada, pratos de bronze, ferramentas e cachos de tamaras. Algumas filas, descobertas, seguravam o capacete como um balde: outras, nas mãos cabelludas balançavam um dardo curto. O Decurião gordo e loiro, seguido de uma gazella familiar, enfeitada com coraes, dormitava, ao passo miudo da egoa, embrulhado n'um manto escarlate. E atraz, ao lado das mulas carregadas de saccos de trigo e mólhos de lenha, os arrieiros cantavam ao som d'uma flauta de barro, tocada por um negro quasi nú que tinha no peito, em traços vermelhos, o numero da Legião.
Eu recuára para o escuro do cedro. Mas Topsius, logo, como um Germano servil, desmontára, ajoelhando quasi no pó, ante as Armas de Roma: e não se conteve, berrou, agitando os braços e a capa:
—Longa vida a Caio Tiberio, tres vezes Consul, Illyrico, Panonico, Germanico, Imperador, Pacificador e Augusto!…
Alguns legionarios riram, crassamente. E passaram, cerrados, com um rumor do ferro—emquanto um pegureiro, ao longe, arrebanhando as cabras aos brados, fugia para o cimo dos cêrros.
De novo galopámos. A estrada de basalto findou; e penetrámos entre arvoredos, n'um aroma de pomares, através de abundancia e frescura.
Oh, que differentes se mostravam estes caminhos, estas collinas, que eu vira dias antes, em torno á Cidade Santa, deseccadas por um vento d'abstracção, e brancas, da côr das ossadas… Agora tudo era verde, regado, murmuroso, e com sombras. A mesma luz perdêra o tom magoado, a côr dorida, com que eu sempre a vira, cobrindo Jerusalem: as folhas dos ramos d'abril desabrochavam n'um azul, moço, tenro, cheio de esperança como ellas. E a cada instante se me iam os olhos longamente n'esses vergeis da Escriptura, que são feitos da oliveira, da figueira e da vinha, e onde crescem silvestres, e mais esplendidos que o rei Salomão, os lirios vermelhos dos campos!
Enlevado e cantarolando, eu trotava ao comprido d'uma sebe toda entrelaçada de rosas. Mas Topsius deteve-me, mostrou-me no alto d'um outeiro, sobre um fundo sombrio de cyprestes e cedros, uma casa abrindo para o lado do oriente e da luz o seu portico branco. Pertencia, disse elle, a um romano, parente de Valerius Gratus, antigo Legado imperial da Syria: e tudo alli parecia penetrado de paz amavel e de graça latina. Um tapete viçoso de relva bem lisa estendia-se em declive até a uma alea de alfazema, tendo ao meio, sobre o verde, desenhadas com linhas de flôres escarlates, as iniciaes de Valerius Gratus: em redor, entre canteiros de rosas, de açucenas, orlados de myrto, resplandeciam nobres vasos de marmore carynthico, onde se enrolavam folhas de acantho: um servo, de capuz cinzento, talhava um teixo em fórma d'urna, ao lado d'um buxo alto já talhado sabiamente em feitio de lyra; aves domesticas picavam o chão, coberto d'arêa escarlate, n'uma rua de platanos onde os braços d'hera faziam de tronco a tronco festões como os que ornam um templo: a rama dos loureiros velava de sombras a nudez das estatuas. E sob um caramanchão de vinha, ao rumor d'agua lenta cantando n'uma bacia de bronze, um velho de toga, sereno, risonho, ditoso, lia junto a uma imagem d'Esculapio um longo rôlo de papyro—emquanto uma rapariga, com uma flecha d'ouro nas tranças, toda vestida de linho alvo, fazia uma grinalda com as flôres que lhe enchiam o regaço… Ao passo dos nossos cavallos ella ergueu os olhos claros. Topsius gritou—O, salvè, pulcherrima! Eu gritei—Viva la gracia! Os melros cantavam nas romanzeiras em flôr.
Mas adiante o facundo Topsius deteve-me ainda, apontando-me outra vivenda de campo, escura e severa entre cyprestes: e disse-me baixo que era d'Osanias, um rico sadduceu de Jerusalem, da familia pontifical de Boethos, e membro do Sanhedrin. Nenhum ornato pagão lhe profanava os muros. Quadrada, fechada, hirta, ella reproduzia a austeridade da Lei. Mas os largos celleiros, cobertos de colmo, os lagares, os vinhedos, diziam as riquezas feitas de duros tributos: no pateo dez escravos não bastavam a guardar os saccos de trigo, ôdres, carneiros marcados de vermelho, recolhidos em pagamento do dizimo n'esse dia de Paschoa. Junto á estrada, com uma piedade ostentosa, caiada de fresco, reluzia, ao sol, entre roseiras, a sepultura domestica.
Assim caminhando chegámos aos palmares onde se aninha Betphagé. E por um atalho virente que Topsius conhecia, começámos a subir o Monte das Oliveiras, até o Lagar da Moabita— que é uma paragem de caravanas n'essa infinita, vetusta Via Real que vem do Egypto, seguindo até Damasco a bem-regada.
E foi como um deslumbramento, ao encontrarmos sobre todo o Monte, por entre os olivedos da encosta até ao Cedron, por entre os pomares do valle até Siloeh, em meio dos tumulos novos dos Sacrificadores, e mesmo para os lados onde se empoeira a estrada de Hebron—o despertar rumoroso de todo um povo acampado! Tendas negras do deserto, feitas de pelles de carneiro e rodeadas de pedras: barracas de lona, da gente da Idumêa, alvejando ao sol entre as verduras; cabanas armadas com ramos, onde se abrigam os pastores d'Ascalon; toldos de tapetes que os peregrinos de Nephtali suspendem em varas de cedro;—era toda a Judêa, ás portas de Jerusalem, a celebrar a Paschoa Sagrada! E havia ainda, em volta ao casal onde velava um posto de Legionarios, os mercadores gregos da Decapola, tecelões phenicios de Tiberiade, e a gente pagã que, através da Samaria, vem dos lados de Cesarêa e do mar.
Fomos marchando, lentos e cautelosos. Á sombra das oliveiras os camêlos descarregados ruminavam placidamente; e as egoas da Perea, com as patas entravadas, pendiam a cabeça sob a espessura das longas clinas. Junto ás tendas, cujos panos meio levantados nos deixavam entrevêr brilhos d'armas penduradas ou o esmalte d'um grande prato, raparigas, com os braços reluzindo de braceletes, pisavam entre duas pedras o grão do centeio; outras, mugiam as cabras; por toda a parte se accendiam fogos claros; e com os filhos pela mão, o cantaro esguio ao hombro, uma fila de mulheres descia cantando para a fonte de Siloeh.
As patas dos nossos cavallos prendiam-se nas cordas retesadas das barracas dos Idumeus. Depois estacavamos diante de tapetes alastrados, onde um mercador de Cesarêa, com um manto á carthagineza, vistoso e bordado de flôres, expunha peças de linho do Egypto, estendia sêdas de Cós, fazia reluzir armas marchetadas; ou com um frasco na palma de cada mão, celebrava as perfeições do nardo da Assyria e dos oleos dôces da Parthia… Os homens em redor, arredando-se, demoravam em nós os seus olhos languidos e altivos; por vezes murmuravam uma injuria surda; ou por causa dos oculos do douto Topsius, um riso d'escarneo mostrava dentes agudos de fera, entre rudes barbas negras.
Sob as arvores, encostados aos muros, filas de mendidos ganiam, mostrando o caco com que rapavam as chagas. Diante d'uma cabana feita de ramos de loureiro, um velho obeso, rubro como um Sileno, apregoava o vinho fresco de Sichem, as favas novas de abril. Os homens fuscos do deserto apinhavam-se em torno dos gigos de fruta. Um pastor d'Ascalon, em andas, no meio d'um rebanho de cordeiros brancos, tocava bozina, chamando os devotos a comprar o anho puro da Paschoa. E por entre a multidão onde constantemente se erguiam paus, em rixas bruscas, soldados romanos rondavam aos pares com um ramo d'oliveira no capacete, benignos e paternaes.
Assim chegámos junto de dois altos, frondosos cedros,—tão cobertos de pombas brancas voando, que eram como duas grandes macieiras, na primavera, que um vento estivesse destoucando das flôres. Subitamente, Topsius parára, abria os braços; eu tambem: e com o coração suspenso alli ficámos immoveis, deslumbrados, vendo lá em baixo, na luz, resplandecer Jerusalem.
O sol banhava-a, sumptuosamente! Uma severa, altiva muralha, guarnecida de torres novas, com portas onde as cantarias se entremeavam de lavores d'ouro, erguia-se sobre a ribanceira escarpada do Cedron, já sêcco pelos calores de Nizam, e ia correndo, cingindo Sião, para o lado do Hinnon e até aos cerros de Gareb. E, dentro, em face aos cedros que nos assombreavam, o Templo, sobre os seus alicerces eternos, parecia dominar toda a Judêa, soberbo em esplendor, murado de granitos polidos, armado de bastiões de marmore, como a refulgente cidadella d'um Deus!…
Debruçado sobre as clinas, o sapiente Topsius apontava-me o adro primordial, chamado «o Pateo dos Gentilicos», vasto bastante para receber todas as multidões de Israel, todas as da terra pagã: o chão liso rebrilhava como a agua limpida d'uma piscina: e as columnas de marmore de Paros que o ladeavam, formando os Porticos de Salomão, profundos e cheios de frescura, eram mais bastas que os troncos nos cerrados palmares de Jerichó. Em meio d'esta área, cheia de ar e de luz, elevava-se, em escadarias lustrosas como se fossem d'alabastro, com portas chapeadas de prata, arcarias, torreões d'onde voavam pombas, um nobre terraço, só accessivel aos fieis da Lei, ao Povo eleito de Deus, o orgulhoso «Adro de Israel». D'ahi erguia-se ainda, com outras claras escadarias, outro branco terraço, o «Atrio dos Sacerdotes»: no brilho diffuso que o enchia negrejava um enorme altar de pedras brutas, enristando a cada angulo um sombrio corno de bronze: aos lados dois longos fumos direitos, subiam devagar, mergulhavam no azul com a serenidade d'uma prece perennal. E ao fundo, mais alto, offuscante, com os seus recamos d'ouro sobre a alvura dos marmores, niveo e fulvo, como feito de ouro puro e neve pura, refulgia maravilhosamente, lançando o seu clarão aos montes em redor, o Hieron, o Santuario dos Santuarios, a morada de Jehovah: sobre a porta pendia o Véo Mystico, tecido em Babylonia, côr do Fogo e côr dos Mares: pelas paredes trepava a folhagem d'uma vinha d'esmeralda com cachos d'outras pedrarias: da cupula irradiavam longas lanças de ouro que o aureolavam de raios como um sol: e assim, resplandecente, triumphante, augusto, precioso, elle elevava-se para aquelle céo de festa Paschal, offertando-se todo, como o dom mais bello, o dom mais raro da Terra!
Mas ao lado do Templo, mais alto que elle, dominando-o com a severidade d'um amo orgulhoso, Topsius mostrou-me a Torre Antonia, negra, macissa, impenetravel, cidadella de forças romanas… Na plataforma, entre as ameias, movia-se gente armada: sobre um bastião, uma figura forte, envolta n'um manto vermelho de Centurião, estendia o braço; e toques lentos de bozina pareciam fallar, dar ordens, para outras torres que ao longe se azulavam no ar limpido, algemando a Cidade Santa. Cesar pareceu-me mais forte que Jehovah!
E mostrou-me ainda, para além da Antonia, o velho burgo de David. Era um tropel de casas cerradas, caiadas de fresco sobre o azul, descendo como um rebanho de cabras brancas para um valle ainda em sombra, onde uma praça monumental se abria entre arcarias: depois trepava, fendido em ruas tortuosas, a espalhar-se sobre a collina fronteira d'Acra, rica, com palacios, e cisternas redondas que luziam á luz semelhantes a broqueis d'aço. Mais longe ainda, para além de velhos muros derrocados era o bairro novo de Bezetha, em construcção; o Circo de Herodes arredondava ahi as suas arcarias; e os jardins d'Antipas estiravam-se por um ultimo outeiro, até junto ao tumulo de Helena, assoalhados, frescos, regados pelas aguas dôces de Enrogel.
—Ah Topsius, que cidade! murmurei maravilhado.
—Rabbi Eliezer diz que não viu jámais cidade bella quem não viu Jerusalem!
Mas ao nosso lado passava gente alegre, correndo, para os lados da verde estrada que sobe de Bethania: e um velho que puxava á pressa a arreata do seu burro, carregado de mólhos de palmas, gritou-nos que se avistára e vinha chegando a caravana da Galilêa! Então, curiosos, trotámos até um comoro, junto a uma sebe de cactos, onde já se apinhavam mulheres com os filhos ao collo, sacudindo véos claros, soltando palavras de benção e de boa acolhida:—e logo vimos, n'uma poeirada lenta que o sol dourava, a densa fila dos peregrinos que são os derradeiros a chegar a Jerusalem, vindos de longe, da alta Galilêa, desde Gescala e dos montes. Um rumor de canticos enchia a estrada festiva: em torno a um estandarte verde agitavam-se palmas e ramos floridos de amendoeira; e os grandes fardos, carregando o dorso dos camêlos, balanceavam em cadencia por entre os turbantes brancos cerrados e movendo-se em marcha.
Seis cavalleiros da guarda Babylonica d'Antipas Herodes, tetrarca de Galilêa, escoltavam a caravana desde Tiberiade: traziam mitras de felpo, as longas barbas separadas em tranças, as pernas ligadas em tiras de couro amarello: e caracolavam á frente, fazendo estalar n'uma das mãos açoites de corda, com a outra atirando ao ar e aparando alfanges que faiscavam. Logo atraz era uma collegiada de Levitas, em côro, a passos largos, apoiados a bordões enfeitados de flôres, com os rôlos da Lei apertados sobre o peito, psalmodiando rijo os louvores de Sião. E em torno moços robustos, com as faces infladas e rubras, sopravam para o céo furiosamente em trompas recurvas de bronze.
Mas, d'entre a gente apertada á beira da estrada, rompeu uma acclamação. Era um velho, sem turbante, de cabellos soltos, recuando e dançando freneticamente: das mãos cabelludas que elle agitava no ar sahia um repique de castanholas: ora arremessava uma perna, ora outra: e toda a sua face barbuda de Rei David ardia com um fulgôr inspirado. Atraz d'elle, raparigas, pulando compassadamente sobre a ponta ligeira das sandalias, feriam com dolencia harpas leves; outras, rodando sobre si, batiam d'alto os tamborinos—e as suas manilhas de prata brilhavam no pó que os seus pés levantavam, sob a roda das tunicas enfunadas… Então, arrebatada, a turba entoou o velho canto das jornadas rituaes e os psalmos de Peregrinação.
—Meus passos vão todos para ti, ó Jerusalem! Tu és perfeita! Quem te ama conhece a abundancia!
E eu bradava tambem, transportado:
—Tu és o palacio do Senhor, ó Jerusalem, e o repouso do meu coração!
Lenta e rumorosa a caravana passava. As mulheres dos levitas, em burros, veladas e rebuçadas, semelhavam grandes saccos molles: as mais pobres, a pé, traziam nas pontas dobradas do manto frutas e o grão da aveia. Os previdentes, já com a sua offrenda ao Senhor, arrastavam preso do cinto um cordeiro branco; os mais fortes seguravam ás costas, presos pelos braços, os doentes—cujos olhos dilatados, nas faces maceradas, procuravam anciosamente as muralhas da Cidade Santa, onde todo o mal se cura.
Entre os peregrinos e a alegre multidão que os acolhia, as bençãos cruzavam-se, ruidosas e ardentes; alguns perguntavam pelos visinhos, pelas searas ou pelos avós que tinham ficado na aldêa á sombra da sua vinha: e ouvindo que lhe fôra roubada a pedra do seu moinho, um velho, ao meu lado, com as barbas d'um Abrahão, arremessou-se a terra a arrepellar-se e a esfarrapar a tunica. Mas já, fechando a marcha, passavam as mulas com guisos carregadas de lenha e de ôdres d'azeite: e atraz uma turba de fanaticos que nos arredores, em Betphagé e em Rephrain, se tinham juntado á caravana, appareceu, atirando para os lados cabaças de vinho já vazias, brandindo facas, pedindo a morte dos Samaritanos e ameaçando a gente pagã…
Então seguindo Topsius trotei de novo através do monte para junto dos cedros cobertos do vôo alvo das pombas: e n'esse instante tambem os peregrinos, emergindo da estrada, avistavam emfim Jerusalem que resplandecia lá em baixo formosa, toda branca na luz… Então foi um santo, tumultuoso, inflammado delirio! Prostrada, a turba batia as faces na terra dura: um clamor de orações subia ao céo puro por entre o estridor das tubas: as mulheres erguiam os filhos nos braços offertando-os arrebatadamente ao Senhor! Alguns permaneciam immoveis, como assombrados, ante os esplendores de Sião: e quentes lagrimas de fé, de amor piedoso, rolavam sobre barbas incultas e feras. Os velhos mostravam com o dedo os terraços do Templo, as ruas antigas, os sacros lugares da historia de Israel: «alli é a porta d'Ephrain, acolá era a torre das Fornalhas; aquellas pedras brancas, além, são do tumulo de Rachel…» E os que escutavam em redor, apinhados, batiam as mãos, gritavam: «Bemdita sejas, Sião!» Outros, estonteados, com o cinto desapertado, corriam tropeçando nas cordas das tendas, nos gigos de fruta, a trocar a moeda romana, a comprar o anho da offerta. Por vezes, d'entre as arvores, um canto subia, claro, fino, candido, e que ficava tremendo no ar: a terra um momento parecia escutar, como o céo: serenamente, Sião rebrilhava, do Templo os dois fumos lentos ascendiam, com uma continuidade de prece eterna… Depois o canto morria: de novo as bençãos rompiam, clamorosas: a alma inteira de Judá abysmava-se no resplendor do santuario: e braços magros erguiam-se phreneticamente para estreitar Jehovah.
De repente Topsius colheu-me as redeas da egoa: e quasi ao meu lado um homem com uma tunica côr d'açafrão, surgindo esgazeado de traz de uma oliveira e brandindo uma espada, saltou para cima d'uma pedra e gritou desesperadamente:
—Homens de Galilêa, acudi, e vós, homens de Nephtali!…
Peregrinos correram, erguendo os bastões: e as mulheres sahiam das tendas, pallidas, apertando os filhos ao collo. O homem fazia tremer a espada no ar, todo elle tremia tambem: e outra vez bradou, desoladamente:
—Homens de Galilêa, Rabbi Jeschoua foi preso! Rabbi Jeschoua foi levado a casa de Hannan, homens de Nephtali!
—D. Raposo, disse Topsius então, com os olhos faiscantes, o Homem foi preso, e compareceu já diante do Sanhedrin!… Depressa, depressa, amigo, a Jerusalem, a casa de Gamaliel!
* * * * *
E á hora em que no Templo se fazia a offerta do Perfume, quando o sol já ia alto sobre o Hebron, Topsius e eu penetrámos, pela porta do Pescado, a passo, n'uma rua da antiga Jerusalem. Era ingreme, tortuosa, poeirenta, com casas baixas e pobres de tijolo; sobre as portas, fechadas por uma corrêa, sobre as janellas esguias como fendas gradeadas, havia verduras e palmas entretecidas, fazendo ornatos de Paschoa. Nos terraços, rodeados de balaustradas, mulheres diligentes sacudiam os tapetes, joeiravam o trigo; outras, chalrando, penduravam lampadas de barro em festões para as illuminações rituaes.
Ao nosso lado ia marchando fatigado um harpista egypcio, com uma pluma escarlate presa na peruca frisada, um pano branco envolvendo-lhe a cinta fina, os braços pesados de braceletes, e a harpa ás costas, recurva como uma foice e lavrada em flôres de lotus. Topsius perguntou-lhe se elle vinha d'Alexandria. E ainda se cantavam nas tabernas do Eunotos as cantigas da batalha d'Accio? O homem logo, mostrando n'um riso triste os dentes longos, pousou a harpa, ia ferir os bordões… Picámos as egoas: e assustámos duas mulheres cobertas de véos amarellos, com casaes de pombas enroladas na ponta do manto, que se apressavam decerto para o Templo, airosas, ligeiras, fazendo retinir os guisos das suas sandalias.
Aqui e além um lume caseiro ardia no meio da rua, com trempes, caçarolas, d'onde sahia um cheiro acre d'alho: crianças de ventre enorme que rolavam núas pela poeira, roendo vorazmente cascas d'abobora crua, ficavam pasmadas para nós, com grandes olhos ramellosos onde fervilhavam moscas. Diante d'uma forja um bando hirsuto de pastores de Moab esperavam emquanto dentro, martellando n'um nimbo de chispas, os ferreiros lhes batiam ferros novos para as lanças. Um negro, com um pente em fórma de sol toucando-lhe a carapinha, apregoava, n'um grito lugubre, bolos de centeio de feitios obscenos.
Calados, atravessámos uma praça, clara e lageada, que andava em obras. Ao fundo uma casa de banhos, moderna, uma Therma romana, estendia com ar de luxo e de ociosidade a longa arcada do seu portico de granito: no pateo interior, por entre os platanos que o refrescavam, cujos ramos suspendiam velarios de linho alvo, corriam escravos nús, reluzentes de suor, levando vasos d'essencias e braçadas de flôres; das aberturas gradeadas, ao rez das lages, sahia um bafo molle d'estufa que cheirava a rosa. E sob uma das columnas vestibulares, onde uma lapide d'onyx indicava a entrada das mulheres, estava de pé, immovel, offertando-se aos votos como um idolo, uma creatura maravilhosa: sobre a sua face redonda, d'uma brancura de lua cheia, com labios grossos, rubros de sangue, erguia-se a mitra amarella das prostitutas de Babylonia; dos hombros fortes, por cima da tumida rijeza dos seios direitos, cahia em pregas duras de brocado uma dalmatica negra radiantemente recamada de ramagens côr de ouro. Na mão tinha uma flôr de cactus; e as suas palpebras pesadas, as pestanas densas, abriam-se e fechavam-se em rythmo, ao mover onduloso d'um leque que uma escrava preta, agachada a seus pés, balançava cantando. Quando os seus olhos se cerravam, tudo em redor parecia escurecer; e quando se levantava a negra cortina das suas pestanas, vinha d'essa larga pupilla um clarão, uma influencia, como a do sol do meio dia no deserto que abraza e vagamente entristece. E assim se offertava, magnifica, com os seus grandes membros de marmore, a sua mitra fulva, lembrando os ritos de Astarté e d'Adonis, lasciva e pontifical…
Toquei no braço de Topsius, murmurei, pallido:
—Caramba! Vou aos banhos!
Sêcco, impertigado na sua capa branca, elle volveu asperamente:
—Espera-nos Gamaliel, filho de Simeon. E a sabedoria dos Rabbis lá disse que a mulher é o caminho da iniquidade!
E bruscamente penetrou n'uma lobrega viella, toda abobadada: as patas das egoas, ferindo as lages, acirraram contra nós uivos de cães, maldições de mendigos, amontoados juntos no escuro. Depois saltámos por uma brecha da antiga muralha de Ezekiah, passámos uma velha cisterna sêcca onde os lagartos dormiam: e trotando pela poeira solta d'uma longa rua, entre muros caiados que reluziam e portas besuntadas de alcatrão, parámos no alto diante d'uma entrada mais nobre, em arco, com uma grade baixa d'arame que a defendia dos escorpiões. Era a casa de Gamaliel.
No meio d'um vasto pateo ladrilhado, escaldando ao sol, um limoeiro toldava a agua clara d'um tanque. Em volta, sobre pilastras de marmore verde, corria uma varanda, silenciosa e fresca, d'onde pendia aqui e além um tapete da Assyria com flôres bordadas. Um puro azul brilhava no alto;—e ao canto, sob um alpendre, um negro atrellado por cordas como uma alimaria a uma barra de pau, calçado de ferraduras, vincado de cicatrizes, ia fazendo gemer e girar lentamente a grande mó de pedra do moinho domestico.
No escuro d'uma porta appareceu um homem obeso, sem barba, quasi tão amarello como a tunica lassa que o envolvia todo: tinha na mão uma vara de marfim e mal podia erguer as palpebras molles.
—Teu amo? gritou-lhe Topsius, desmontando.
—Entra, disse o homem n'uma voz fugidia e fina como um silvo de cobra.
Por uma escadaria rica de granito negro chegámos a um patamar —onde pousavam dois candelabros, espigados como os arbustos de que reproduziam, em bronze, o tronco sem folhas: e entre elles estava de pé, diante de nós, Gamaliel, filho de Simeon. Era muito alto, muito magro; e a barba solta, lustrosa, perfumada, enchia-lhe o peito, onde brilhava um sinete de coral pendurado d'uma fita escarlate. O seu turbante branco, entremeado de fios de perolas, descobria uma tira de pergaminho collada sobre a testa e cheia de textos sagrados: sob aquella alvura, os seus olhos encovados tinham um fulgor frio e duro. Uma longa tunica azul cobria-o até ás sandalias, orlada de compridas franjas que arrastavam: e cosidas ás mangas, enroladas nos pulsos, tinha ainda outras tiras de pergaminho onde negrejavam outras escripturas rituaes.
Topsius saudou-o á moda do Egypto, deixando cahir lentamente a mão até á joelheira da sua calça de lustrina. Gamaliel alargou os braços e murmurou, como psalmodiando:
—Entrai, sêde bem vindos, comei e regosijai-vos…
E atraz de Gamaliel, pisando um chão sonoro de mosaico, penetrámos n'uma sala onde se achavam tres homens. Um, que se afastou da janella para nos acolher, era magnificamente bello, com longos cabellos castanhos, pendendo em anneis dôces em torno d'um pescoço forte, macio e branco como um marmore corinthio: na faxa negra que lhe apertava a tunica brilhava, com pedrarias, o punho d'ouro d'uma espada curta. O outro, calvo, gordo, com uma face balofa sem sobrancelhas, e tão livida que parecia coberta de farinha, ficára encruzado, embrulhado no seu manto côr de vinho, sobre um divan feito de correias—tendo uma almofada de purpura debaixo de cada braço; e o seu gesto d'acolhida foi mais distrahido e desdenhoso, do que a esmola que se atira ao estrangeiro. Mas Topsius quasi se prostrára, a beijar os seus sapatos redondos de couro amarello, atados por fios de ouro—porque aquelle era o venerando Osanias, da familia pontifical de Beothos, ainda do sangue real de Aristobolus! O outro homem não o saudámos, nem elle tambem nos viu; estava agachado a um canto, com a face sumida no capuz d'uma tunica de linho mais alvo que a neve fresca, como mergulhado n'uma oração: e só de vez em quando se movia, para limpar as mãos lentamente a uma toalha da fina brancura da tunica, que lhe pendia d'uma corda, apertada á cintura, grossa e cheia de nós, como as que cingem os monges.
No emtanto, descalçando as luvas, eu examinava o tecto da sala, todo de cedro, com lavores retocados d'escarlate. O azul liso e lustroso das paredes era como a continuação d'aquelle céo d'Oriente, quente e puro, que resplandecia através da janella, onde se destacava, pendido do muro, na plena luz, um ramo solitario de madresilva. Sobre uma tripeça, incrustada de nacar, n'um incensador de bronze, fumegava uma resina aromatica.
Mas Gamaliel aproximára-se—e depois de ter olhado duramente as minhas botas de montar disse com lentidão:
—A jornada do Jordão é longa, deveis vir esfomeados…
Murmurei polidamente uma recusa… E elle, grave como se recitasse um texto:
—A hora do meio dia é a mais grata ao Senhor. Joseph disse a Benjamim: «tu comerás commigo ao meio dia.» Mas a alegria do hospede é tambem doce ao Muito-Alto, ao Muito-Forte… Estaes fracos, ides comer, para que a vossa alma me abençôe.
Bateu as palmas—um servo, com os cabellos apertados n'um diadema de metal, entrou trazendo um jarro cheio d'agua tepida que cheirava a rosa, onde eu purifiquei as mãos; outro offereceu bolos de mel sobre viçosas folhas de parra; outro verteu em taças de louça brilhante um vinho forte e negro d'Emaús. E para que o hospede não comesse só, Gamaliel partiu um gomo de romã, e com as palpebras cerradas levou á beira dos labios uma malga, onde boiavam pedaços de gêlo entre flôres de laranjeira.
—Pois agora, disse eu lambendo os dedos, tenho lastro até ao meio dia…
—Que a tua alma se regosije!
Accendi um cigarro, debrucei-me na janella. A casa de Gamaliel ficava n'um alto, decerto por traz do Templo, sobre a collina d'Ophel: alli o ar era tão dôce e macio, que só o sentir a sua caricia enchia de paz o coração. Por baixo corria a muralha nova erguida por Herodes o Grande; e para além floriam jardins e pomares dando sombra ao Valle da Fonte, e subindo até á collina, em que branquejava, calada e fresca, a aldeia de Siloé. Por uma fenda, entre o monte do Escandalo e a collina dos Tumulos, eu via resplandecer o mar Morto como uma chapa de prata: as montanhas de Moab ondulavam depois, suaves, d'um azul apenas mais denso que o do céo: e uma fórma branca, que parecia tremer na vibração da luz, devia ser a cidadella de Makeros sobre o seu rochedo, nos confins da Idumêa. No terraço relvoso d'uma casa, ao pé das muralhas, uma figura immovel, abrigada sob um alto guarda-sol franjado de guisos, olhava como eu para esses longes da Arabia: e ao lado uma rapariga, ligeira e delgada, com os braços nús erguidos, chamava um bando de pombas que esvoaçavam em redor. A tunica aberta descobria-lhe o seiosinho cheio de seiva: e era tão linda, morena e dourada pelo sol, que eu ia, no silencio do ar, atirar-lhe um beijo… Mas recolhi, ouvindo Gamaliel que dizia, como o homem do manto côr d'açafrão no Monte das Oliveiras: «Sim, esta noite, em Bethania, Rabbi Jeschoua foi preso…»
Depois ajuntou, lento, com os olhos semi-cerrados, erguendo por entre os dedos os longos fios da barba:
—Mas Poncius teve um escrupulo… Não quiz julgar um homem de Galilêa que é subdito de Antipas Herodes… E como o Tetrarcha veio á Paschoa a Jerusalem, Poncius mandou o Rabbi á sua morada, a Bezetha…
Os doutos oculos de Topsius rebrilharam d'espanto.
—Coisa estranha! exclamou, abrindo os braços magros. Poncius escrupuloso, Poncius formalista! E desde quando respeita Poncius a judicatura do Tetrarcha? Quantos pobres galileus não fez elle matar sem licença do Tetrarcha, quando foi da revolta do aqueducto, quando espadas romanas, por ordem de Poncius, misturaram nos pateos do Templo o sangue dos homens de Nephtali ao sangue dos bois do Sacrificio!
Gamaliel murmurou sombriamente:
—O Romano é cruel, mas escravo da legalidade.
Então Osanias, filho de Beothos, disse com um sorriso molle e sem dentes, agitando de leve, sobre a purpura das almofadas, as mãos resplandecentes de anneis:
—Ou talvez seja que a mulher de Poncius proteja o Rabbi.
Gamaliel, surdamente, amaldiçoou o impudor da Romana. E como os oculos de Topsius interrogavam o venerando Osanias elle admirou-se que o Doutor ignorasse coisas tão conversadas no Templo, até pelos pastores que vem da Idumêa vender os cordeiros da Offrenda. Sempre que o Rabbi prégava no Portico de Salomão, do lado da porta de Suza, Claudia vinha vêl-o do alto do terraço da Torre Antonia, só, envolta n'um véo negro… Menahem, que guardava no mez de Tebeth a escadaria dos Gentis, vira a mulher de Poncius acenar com o véo ao Rabbi. E talvez Claudia, saciada de Capreia, de todos os cocheiros do Circo, de todos os histriões de Suburra, e dos brinquedos d'Atalanta que fizeram perder a voz ao cantor Accius, quizesse provar, vindo á Syria, a que sabiam os beijos d'um propheta de Galilêa…
O homem vestido de linho alvo ergueu bruscamente a face, sacudindo o capuz de sobre os cabellos revoltos: o seu largo olhar azul fulgurou por toda a sala, n'um relampago, e apagou-se logo, sob a humildade grave das pestanas que se baixaram… Depois murmurou, lento e severo:
—Osanias, o Rabbi é casto!
O velho riu, pesadamente. Casto, o Rabbi! E então essa galilêa de Magdala, que vivera no bairro de Bezetha, e nas festas do Prurim se misturava com as prostitutas gregas ás portas do theatro d'Herodes?… E Joanna, a mulher de Khosna, um dos cozinheiros d'Antipas? E outra d'Ephrain, Suzanna, que uma noite, a um gesto do Rabbi, a um aceno do seu desejo, deixára o tear, deixára os filhos, e com o peculio domestico, escondido na ponta do manto, o seguira até Cesarêa…?
—Oh Osanias! gritou, batendo palmas folgazãs, o homem formoso que tinha uma espada com pedrarias. Oh filho de Beothos, como tu conheces, uma a uma, as incontinencias d'um Rabbi galileu, filho das hervas do chão e mais miseravel que ellas! Nem que se tratasse d'Elius Lamma, nosso Legado Imperial, que o Senhor cubra de males!
Os olhos d'Osanias, miudinhos como duas contas de vidro negro, reluziram d'agudeza e malicia.
—Oh Manassés! É para que vós outros, os patriotas, os puros herdeiros de Judas de Galaunitida, não nos accuseis sempre, a nós sadduceus, de saber só o que se passa no Atrio dos Sacerdotes e nos eirados da casa d'Hannan…
Uma tosse rouca reteve-o um espaço, suffocando, sob a ponta do manto em que vivamente se embuçára. Depois, mais quebrado, com laivos rôxos na face farinhenta:
—Que em verdade foi justamente na casa d'Hannan que ouvimos isto a Menahem, passeando todos debaixo da vinha… E mesmo nos contou elle que esse Rabbi de Galilêa chegava, no seu impudor, a tocar fêmeas pagãs, e outras mais impuras que o porco… Um levita viu-o, na estrada de Sichem, erguer-se afogueado, de traz da borda d'um poço, com uma mulher da Samaria!
O homem coberto d'alvo linho ergueu-se d'um salto, todo direito e tremulo; e no grito que lhe escapou havia o horror de quem surprehende a profanação d'um altar!
Mas Gamaliel, com uma sêcca authoridade, cravou n'elle os olhos duros:
—Oh Gad, aos trinta annos o Rabbi não é casado! Qual é o seu trabalho? Onde está o campo que lavra? Alguem jámais conheceu a sua vinha? Vagabundeia pelos caminhos, e vive do que lhe offertam essas mulheres dissolutas! E que outra coisa fazem esses moços sem barba de Sybaris e de Lesbos, que passeiam todo o dia na via Judiciaria, e que vós outros, Essenios, abominaes de tal sorte, que correis a lavar as vestes n'uma cisterna se um d'elles roça por vós?… Tu ouviste Osanias, filho de Beothos… Só Jehovah é grande! e em verdade te digo que quando Rabbi Jeschoua, desprezando a Lei, dá á mulher adultera um perdão que tanto captiva os simples, cede á frouxidão da sua moral e não á abundancia da sua misericordia!
Com a face abrazada, e atirando os braços ao ar, Gad bradou:
—Mas o Rabbi faz milagres!
E foi o formoso Manassés, com um sereno desdem, que respondeu ao
Essenio:
—Socega, Gad, outros têm feito milagres! Simão de Samaria fez milagres. Fêl-os Apollonius, e fêl-os Gabienus… E que são os prodigios do teu galileu comparados aos das filhas do Grão Sacerdote Anius, e aos do sabio Rabbi Chekiná?
E Osanias escarnecia a simplez de Gad:
—Em verdade, que aprendeis vós outros, Essenios, no vosso oasis d'Engaddi? Milagres! Milagres até os pagãos os fazem! Vai a Alexandria, ao porto do Eunotos, para a direita, onde estão as fabricas de papyros, e vês lá Magos fazendo milagres por um drachma, que é o preço d'um dia de trabalho. Se o milagre prova a divindade, então é divino o peixe Oannes, que tem barbatanas de nacar e préga nas margens do Euphrates, em noites de lua cheia!
Gad sorria com altivez e doçura. A sua indignação expirára sob a immensidão do seu desdem. Deu um passo vagaroso, depois outro, —e considerando, apiedadamente, aquelles homens enfatuados, endurecidos e cheios d'irrisão: