A Relíquia

Eça de Queirós · Capítulo 3 de 6 · parte 2/2

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A Relíquia

Capítulo II

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Pensei que o Catholicismo, previdente, estabelecera á porta do lugar divino uma Loja de bebidas e aguas-ardentes, para conforto dos seus romeiros. Disse baixo a Potte:

—Grande idéa! Parece-me que tambem vou tomar um cafésinho!

Mas logo o festivo Potte me explicou que esses homens sérios, de cachimbo, eram soldados musulmanos policiando os altares christãos, para impedir que em torno ao mausoleu de Jesus se dilacerem por superstição, por fanatismo, por inveja de alfaias, os Sacerdocios rivaes que alli celebram os seus Ritos rivaes— Catholicos como o padre Pinheiro, Gregos orthodoxos para quem a cruz tem quatro braços, Abissynios e Armenios, Coptas que descendem dos que outr'ora em Memphis adoravam o boi Apis, Nestorianos que veem da Chaldêa, Georgianos que veem do mar Caspio, Maronitas que veem do Libano,—todos christãos, todos intolerantes, todos ferozes!… Então saudei com gratidão esses soldados de Mahomet que, para manter o recolhimento piedoso em torno do Christo Morto, serenos e armados velam á porta, fumando.

Logo á entrada parámos diante d'uma lapide quadrada, incrustada nas lages escuras, tão polida e reluzindo com um tão dôce brilho de nacar que parecia a agua quieta d'um tanque onde se reflectiam as luzes das lampadas. Potte puxou-me a manga, lembrou-me que era costume beijar aquelle pedaço de rocha, santa entre todas, que outr'ora, no jardim de José d'Arimathêa…

—Bem sei, bem sei… Beijo, Topsius?

—Vá beijando sempre, disse-me o prudente historiographo dos Herodes.

Não se lhe péga nada; e agrada á senhora sua tia.

Não beijei. Em fila e calados, penetrámos n'uma vasta cupula, tão esfumada no crepusculo que o circulo de frestas redondas na cimalha brilhava apenas, pallidamente, como um aro de perolas em torno de uma tiara: as columnas que a sustentavam, finas e juntas como as lanças d'uma grade, riscavam a sombra em redor—cada uma picada pela mancha vermelha e mortal d'uma lampada de bronze. Ao centro do lagedo sonoro elevava-se, espelhado e branco, um Mausoleu de marmore—com lavores e com florões: um velho, pano de damasco cobria-o como um toldo, recamado de bordados d'ouro esvaído: e duas alas de tocheiros faziam-lhe uma avenida de lumes funerarios até á porta, estreita como uma fenda, tapada por um trapo côr de sangue. Um padre armenio que desapparecia sob o seu amplo manto negro, sob o capuz descido, incensava-o, dormente e mudamente.

Potte puxou-me outra vez pela manga:

—O tumulo!

Oh minha alma piedosa! Oh titi! Ahi estava pois, ao alcance dos meus labios, o tumulo do meu Senhor!—E immediatamente rompi como um rafeiro, por entre a turba ruidosa de frades e peregrinos, a buscar um rosto gordinho e sardento e uma gorra com pennas de gaivota! Longamente, errei estonteado… Ora esbarrava n'um franciscano cingido na sua corda d'esparto; ora me arredava diante d'um padre copta, deslisando como uma sombra tenue, precedido por serventes que tangiam as pandeiretas sagradas do tempo d'Osiris. Aqui topava n'um montão de roupagens brancas, cahido nas lages como um fardo, d'onde se escapavam gemidos de contrição; adiante tropeçava n'um negro, todo nú, estirado ao pé d'uma columna, dormindo placidamente. Por vezes o clamor sacro d'um orgão resoava, rolava pelos marmores da nave, morria com um susurro de vaga espraiada: e logo mais longe um canto armenio, tremulo e ancioso, batia os muros austeros como a palpitação das azas d'uma ave presa que quer fugir para a luz. Junto d'um altar apartei dois gordos sacristães, um grego, outro latino, que se tratavam furiosamente de birbantes, esbrazeados, cheirando a cebola: e fui d'encontro a um bando de romeiros russos de grenhas hirsutas, vindos decerto do Caspio, com os pés doloridos embrulhados em trapos, que não ousavam mover-se, enleados de terror divino, torcendo o barrete de feltro entre as mãos, d'onde lhes pendiam grossos rosarios de vidro. Crianças, em farrapos, brincavam na escuridão das arcarias; outras pediam esmola. O aroma do incenso suffocava; e padres de cultos rivaes puxavam-me pela rabona para me mostrarem reliquias rivaes, heroicas ou divinas —uns as esporas de Godofredo, outros um pedaço da Cana Verde.

Atordoado, enfileirei-me n'uma procissão penitente—onde eu julgára entrevêr, brancas, altivas, entre véos pretos d'arrependimento, as duas pennas de gaivota. Uma carmelita, á frente, resmungava a ladainha, detendo-nos a cada passo, arrebanhados n'um assombro devoto, á porta de capellas cavernosas, dedicadas á Paixão—a do Improperio onde o Senhor foi flagellado, a da Tunica onde o Senhor foi despido. Depois subimos, de tochas na mão, uma escadaria tenebrosa, escavada na rocha…—E subitamente todo o tropel devoto se atirou de rojo, ululando, carpindo, gemendo, flagellando os peitos, clamando pelo Senhor, lugubre e delirante. Estavamos sobre a Pedra do Calvario.

Em torno a capella que a abriga resplandecia com um luxo sensual e pagão. No tecto azul-ferrete brilhavam soes de prata, signos do Zodiaco, estrellas, azas d'anjos, flôres de purpura: e, d'entre este fausto sideral, pendiam de correntes de perolas os velhos symbolos da Fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros d'Astarté e de Baccho d'ouro. Sobre o altar elevava-se uma cruz vermelha com um Christo tosco pintado a ouro—que parecia vibrar, viver através do fulgor diffuso dos mólhos de lumes, da faiscação das alfaias, do fumo dos aromaticos ardendo em taças de bronze. Globos espelhados, pousando sobre peanhas d'ebano, reflectiam as joias dos retabulos, a refulgencia das paredes revestidas de jaspe, de nacar e de agatha. E no chão, em meio d'este clarão precioso de pedraria e luz, emergindo d'entre as lages de marmore branco— destacava um bocado de rocha bruta e brava com uma fenda alargada e polida por longos seculos de beijos e de afagos beatos. Um archidiacono grego, de barbas esqualidas, gritou: «N'esta rocha foi cravada a cruz! A cruz! A cruz! Miserere! Kirie Eleison! Christo! Christo!» As rezas precipitaram-se, mais ardentes, entre soluços. Um cantico dolente balançava-se, ao ranger dos incensadores. Kirie Eleison! Kirie Eleison! E os diaconos perpassavam rapidamente, sôfregamente, com vastos saccos de velludo, onde tilintavam, se afundavam, se sumiam as offrendas dos simples.

Fugi, aturdido e confuso. O sabio historiador dos Herodes passeava no adro, sob o seu guardachuva, respirando o ar humido. De novo nos accommetteu o bando esfaimado dos vendilhões de reliquias. Repelli-os rudemente: e sahi do Santo Lugar como entrára —em peccado e praguejando.

No hotel, Topsius recolheu logo ao quarto a registrar as suas impressões do Sepulchro de Jesus; eu fiquei no pateo cervejando e cachimbando com o aprazivel Potte. Quando subi, tarde, o meu esclarecido amigo já resonava, com a vela accesa—e com um livro aberto sobre o leito, um livro meu, trazido de Lisboa para me recrear no paiz do Evangelho, o Homem dos tres calções. Descalçando os botins, sujos da lama veneravel da Via-Dolorosa—eu pensava na minha Cybele. Em que sacratissimas ruinas, sob que arvores divinisadas por terem dado sombra ao Senhor, passára ella essa tarde nevoenta de Jerusalem? Fôra ao valle do Cedron? Fôra ao branco tumulo de Rachel?…

Suspirei, amoroso e moído: e abria os lençoes bocejando— quando distinctamente, através do tabique fino, senti um ruido d'agua despejada n'uma banheira. Escutei, alvoroçado: e logo n'esse silencio negro e magoado que sempre envolve Jerusalem, me chegou, perceptivel, o som leve d'uma esponja arremessada na agua. Corri, collei a face contra o papel de ramagens azues. Passos brandos e nús pisavam a esteira que recobria o ladrilho de tijolo; e a agua rumorejou, como agitada por um dôce braço despido que lhe experimentava o calor. Então, abrazado, fui ouvindo todos os rumores intimos de um longo, lento, languido banho: o espremer da esponja; o fôfo esfregar da mão cheia de espuma de sabão; o suspiro lasso e consolado do corpo que se estira sob a caricia da agua tepida, tocada d'uma gotta de perfume… A testa, tumida de sangue, latejava-me: e percorria desesperadamente o tabique, procurando um buraco, uma fenda. Tentei verrumal-o com a tesoura; as pontas finas quebraram-se na espessura da caliça… Outra vez a agua cantou, escoando da esponja:—e eu, tremendo todo, julgava vêr as gottas vagarosas a escorrer entre o rego d'esses seios duros e brancos que faziam estalar o vestido de sarja…

Não resisti: descalço, em ceroulas, sahi ao corredor adormecido; e cravei á fechadura, da sua porta um olho tão esbugalhado, tão ardente—que quasi receava feril-a com a devorante chamma do seu raio sanguineo… Enxerguei n'um circulo de claridade uma toalha cahida na esteira, um roupão vermelho, uma nesga do alvo cortinado do seu leito. E assim agachado, com bagas de suor no pescoço, esperava que ella atravessasse, núa e esplendida, n'esse disco escasso de luz—quando senti de repente, por traz, uma porta ranger, um clarão banhar a parede. Era o barbaças, em mangas de camisa, com o seu castiçal na mão! E eu, miserrimo Raposo, não podia escapar. D'um lado estava elle, enorme. Do outro o topo do corredor, maciço.

Vagarosamente, calado, com methodo, o Hercules pousou a vela no chão, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas… Eu rugi: «bruto!» Elle ciciou: «silencio!» E outra vez, tendo-me alli acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou tremendamente quadris, nadegas, canellas, a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranquillamente, apanhou o seu castiçal. Então eu, livido, em ceroulas, disse-lhe com immensa dignidade:

—Sabe o que lhe vale, seu bife? É estarmos aqui ao pé do tumulo do Senhor, e eu não querer dar escandalos por causa de minha tia… Mas se estivessemos em Lisboa, fóra de portas, n'um sitio que eu cá sei, comia-lhe os figados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta, comia-lhe os figados!

E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fricções d'arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Sião.

Ao outro dia cedo o profundo Topsius foi peregrinar ao monte das Oliveiras, á fonte clara de Siloé. Eu, dorido, não podendo montar a cavallo, fiquei no sofá de riscadinho com o Homem dos tres calções. E até para evitar o affrontoso barbaças não desci ao refeitorio, pretextando tristeza e langor. Mas ao mergulhar o sol no mar de Tyro—estava restabelecido e vivaz: Potte preparára para essa noite uma festividade sensual em casa da Fatmé, matrona bem acolhedoura, que tinha no Bairro dos Armenios um dôce pombal de pombas: e nós iamos lá contemplar a gloriosa bailadeira da Palestina, a Flôr de Jerichó, a saracotear essa dansa da Abelha, que esbrazêa os mais frios e deprava os mais puros…

A recatada portinha da Fatmé, ornada d'um pé de vinha secca, abria-se ao canto d'um muro negro junto á Torre de David. Fatmé esperava-nos, magestosa e obesa, envolta em véos brancos, com fios de coraes entre as tranças, os braços nús—tendo cada um a cicatriz escura de um bubão de peste. Tomou-me submissamente a mão, levou-a á testa oleosa, levou-a aos labios empastados d'escarlate, e conduziu-me em ceremonia defronte d'uma cortina preta, franjada d'ouro como o pano d'um esquife. E eu estremeci, ao penetrar emfim nos segredos deslumbradores d'um serralho mudo e cheirando a rosa.

Era uma sala caiada de fresco, com sanefas de algodão vermelho encimando a gelosia; e ao longo das paredes corria um divan amassado, revestido de sêda amarella, com remendos de sêda mais clara. N'um bocado de tapete da Persia pousava um brazeiro de latão, apagado, sob o montão de cinzas; ahi ficára esquecido um pantufo de velludo, estrellado de lentejoulas. Do tecto de madeira alvadia, onde se alastrava uma nodoa de humidade, pendia de duas correntes enfeitadas de borlas um candieiro de petroline. Um bandolim dormia a um canto, entre almofadas. No ar morno errava um cheiro adocicado e molle a mofo e a benjoim. Pelos ladrilhos, por baixo dos poaiaes da gelosia, corriam carochas.

Sentei-me sisudamente ao lado do historiador dos Herodes. Uma negra de Dongola, encamisada de escarlate, com braceletes de prata a tilintar nos braços, veio offerecer-nos um café aromatico: e quasi immediatamente Topsius appareceu, descorçoado, dizendo que não podiamos saborear a famosa dansa da Abelha! A Rosa de Jerichó fôra bailar diante de um principe de Allemanha, chegado n'essa manhã a Sião, a adorar o tumulo do Senhor. E Fatmé apertava com humildade o coração, invocava Allah, dizia-se nossa escrava! Mas era uma fatalidade! A Rosa de Jerichó fôra para o principe louro que viera, com cavallos e com plumas, do paiz dos Germanos!…

Eu, despeitado, observei que não era um principe: mas minha tia tinha luzidas riquezas: os Raposos primavam pelo sangue no fidalgo Alemtejo. Se Flôr de Jerichó estava ajustada para regosijar meus olhos catholicos, era uma desconsideração tel-a cedido ao romeiro couraçado que viera da hereje Allemanha…

O erudito Topsius resmungou, alçando o bico com petulancia, que a

Allemanha era a mãi espiritual dos povos…

—O brilho que sae do capacete allemão, D. Raposo, é a luz que guia a humanidade!

—Sebo para o capacete! A mim ninguem me guia! Eu sou Raposo, dos

Raposos do Alemtejo!… Ninguem me guia senão Nosso Senhor Jesus

Christo… E em Portugal ha grandes homens! Ha Affonso Henriques, ha o

Herculano… Sebo!

Ergui-me, medonho. O sapientissimo Topsius tremia, encolhido. Potte acudiu:

—Paz, christãos e amigos, paz!

Topsius e eu reencruzámo-nos logo no divan—tendo apertado as mãos, galhardamente e com honra.

Fatmé, no emtanto, jurava que Allah era grande e que ella era a nossa escrava. E, se nós a quizessemos mimosear com sete piastras d'ouro, ella em compensação da Rosa de Jerichó offerecia-nos uma joia inapreciavel, uma Circassiana, mais branca que a lua cheia, mais airosa que os lirios que nascem em Galgalá.

—Venha a Circassiana! gritei, excitado. Caramba, eu vim aos Santos

Lugares para me refocilar… Venha a Circassiana! Larga as piastras, Potte! Irra! Quero regalar a carne!

Fatmé sahiu, recuando: o festivo Potte reclinou-se entre nós, abrindo a sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Então, uma portinha branca, sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de leve: e uma figura entrou, velada, vaga, vaporosa. Amplos calções turcos de sêda carmesim tufavam com languidez, desde a sua cinta ondeante até aos tornozêlos, onde franziam, fixos por uma liga d'ouro; os seus pésinhos mal pousavam, alvos e alados, nos chinelos de marroquim amarello; e através do véo de gaze que lhe enrodilhava a cabeça, o peito e os braços—brilhavam recamos d'ouro, scentelhas de joias, e as duas estrellas negras dos seus olhos. Espreguicei-me, tumido de desejo.

Por traz d'ella Fatmé, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o véo devagar, devagar—e d'entre a nuvem de gaze surgiu um carão côr de gesso, escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes podres que negrejavam no langor nescio do sorriso… Potte pulou do divan, injuriando Fatmé: ella gritava por Allah, batendo nos seios, que soavam mollemente como odres mal cheios.

E desappareceram, assanhados, levados n'uma rajada de ira. A Circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso putrido, veio estender-nos a mão suja, a pedir «presentinhos» n'um tom rouco d'aguardente. Repelli-a com nojo. Ella coçou um braço, depois a ilharga; apanhou tranquillamente o seu véo, e sahiu arrastando as chinelas.

—Oh Topsius! rosnei eu. Isto parece-me uma grande infamia!

O sabio fez considerações sobre a voluptuosidade. Ella é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece…

—Qual alma! não ha alma! O que ha é um eminentissimo desaforo! Na rua do Arco do Bandeira, esta Fatmé tinha já dois murros na bochecha… Irra!

Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim… Mas Potte reappareceu, cofiando os bigodões, dizendo que por mais nove piastras d'ouro Fatmé consentia em mostrar a sua secreta maravilha, uma virgem das margens do Nilo, da alta Nubia, bella como a noite mais bella do Oriente. E elle vira-a, afiançava-a, valia o tributo d'uma fertil provincia.

Fragil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras d'ouro tiniram na mão gordufa de Fatmé.

De novo a porta caiada rangeu, ficou, cerrada—e, sobre o tom alvaiado, destacou, na sua nudez côr de bronze, uma esplendida femea, feita como uma Venus. Durante um momento parou, muda, assustada pela luz o pelos homens, roçando os joelhos lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os flancos possantes e ageis: os cabellos hirsutos, lustrosos d'oleo, com sequins d'ouro entreleçados, cahiam-lhe sobre o dorso, como uma juba selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe em torno do pescoço e vinha escorregar por entre o rego dos seios rijos, perfeitos e de ebano. De repente soltou convulsamente, repicando a lingua, uma ululação desolada: Lu! lu! lu! lu! lu! Atirou-se de bruços para o divan: e estirada, na attitude d'uma Esphinge, ficou dardejando sobre nós, séria e immovel, os seus grandes olhos tenebrosos.

—Hein? dizia Potte, acotovelando-me. Veja-lhe o corpo… Olhe, os braços! Olhe a espinha como arqueia! É uma panthera!

E Fatmé, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos dedos— exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor d'aquella Nubia… Certo, pela persistencia do seu olhar, que as minhas barbas fortes a tinham captivado, desenrosquei-me do divan, fui-me acercando, devagar, como para uma preza certa. Os seus olhos alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente, chamando-lhe «minha lindinha», acariciei-lhe o hombro frio: e logo ao contacto da minha pelle branca a Nubia recuou, arripiada, com um grito abafado de gazella ferida. Não gostei. Mas quiz ser amavel. Disse-lhe paternalmente:

—Ah! se tu conhecesses a minha patria!… E olha que sou capaz de te levar! Em Lisboa é que é! Vai-se ao Dáfundo, cêa-se no Silva… Isto aqui é uma choldra! E as raparigas como tu são bem tratadas, dá-se-lhes consideração, os jornaes fallam d'ellas, casam com proprietarios…

Murmurava-lhe ainda outras coisas profundas e dôces. Ella não comprehendia o meu fallar: e nos seus olhos esgazeados fluctuava a longa saudade da sua aldêa da Nubia, dos rebanhos de bufalos que dormem á sombra das tamareiras, do grande rio que corre eterno e sereno entre as ruinas das Religiões e os tumulos das Dynastias…

Imaginando então despertar o seu coração com a chamma do meu, puxei-a para mim lascivamente. Ella fugiu; encolheu-se toda a um canto, a tremer; e deixando cahir a cabeça entre as mãos começou a chorar, longamente.

—Olha que massada! gritei, embaçado.

E agarrei o capacete, abalei, esgaçando quasi no meu furor o pano preto franjado d'ouro. Parámos n'uma cella ladrilhada onde cheirava mal. E ahi bruscamente foi entre Potte e a nedia matrona uma bulha ferina sobre a paga d'aquella radiante festa do Oriente: ella reclamava mais sete piastras d'ouro: Potte, de bigode erriçado, cuspia-lhe injurias em arabe, rudes e chocando-se como calhaus que se despenham n'um valle. E sahimos d'aquelle lugar de deleite perseguidos pelos gritos de Fatmé, que se babava de furor, agitava os braços marcados da peste e nos amaldiçoava, e a nossos paes, e aos ossos de nossos avós, e a terra que nos gerára, e o pão que comiamos, e as sombras que nos cobrissem! Depois na rua negra dois cães seguiram-nos muito tempo, ladrando lugubremente.

Entrei no Hotel do Mediterraneo, afogado em saudades da minha terra risonha: os gozos de que me via privado n'esta lobrega, inimiga Sião, faziam-me anciar mais inflammadamente pelos que me daria a facil, amoravel Lisboa, quando, morta a titi, eu herdasse a bolsa sonora de sêda verde!… Lá não encontraria, nos corredores adormecidos, uma bota severa e bestial! Lá nenhum corpo barbaro fugiria, com lagrimas, á caricia dos meus dedos. Dourado pelo ouro da titi, o meu amor não seria jámais ultrajado, nem a minha concupiscencia jámais repellida. Ah! meu Deus! Assim eu lograsse pela minha santidade captivar a titi!…—E logo, abancando, escrevi á hedionda senhora esta carta ternissima:

«Querida titi do meu coração! Cada vez me sinto com mais virtude. E attribuo-a ao agrado com que o Senhor está vendo esta minha visita ao seu santo tumulo. De dia e de noite passo o tempo a meditar a sua divina Paixão e a pensar na titi. Agora mesmo venho da Via-Dolorosa. Ai, que enternecedora que estava! É uma rua tão benta, tão benta, que até tenho escrupulo de a pisar com os botins; e n'outro dia não me contive, agachei-me, beijei-lhe as ricas pedrinhas! Esta noite passei-a quasi toda a rezar á Senhora do Patrocinio que todo o mundo aqui em Jerusalem respeita muitissimo. Tem um altar muito lindo; ainda que a este respeito bem razão tinha a minha boa tia (como tem razão em tudo) quando dizia que lá para festas e procissões não ha como os nossos portuguezes. Pois esta noite, assim que ajoelhei deante da capella da Senhora, depois de seis Salve-Rainhas, voltei-me para a bella imagem e disse-lhe:—Ai, quem me dera saber como está minha tia Patrocinio!—E quer a titi acreditar? Pois olhe, a Senhora com a sua divina bocca disse-me, palavras textuaes, que até, para não me esquecerem, as escrevi no punho da camisa:—A minha querida afilhada vai bem, Raposo, e espera fazer-te feliz!—E isto não é milagre extraordinario, porque me contam aqui todas as familias respeitaveis com quem vou tomar chá que a Senhora e seu divino Filho dirigem sempre algumas palavras bonitas a quem os vem visitar. Saberá que já lhe obtive certas reliquias, uma palhinha do presepio, e uma taboinha aplainada por S. José. O meu companheiro allemão, que, como mencionei á titi na minha carta de Alexandria, é de muita religião e muito sabio, consultou os livros que traz e affirmou-me que a taboinha era das mesmas que, segundo está provado, S. José costumava aplainar nas horas vagas. Emquanto á grande reliquia, aquella que lhe quero levar para a curar de todos os seus males e dar a salvação á sua alma e pagar-lhe assim tudo o que lhe devo, essa espero em breve obtel-a. Mas por ora não posso dizer nada… Recados aos nossos amigos em quem penso muito e por quem tenho rezado constantemente; sobretudo ao nosso virtuoso Casimiro. E a titi deite a sua benção ao seu sobrinho fiel e que muito a venera e está chupadinho de saudades e deseja a sua saude—Theodorico.—P.S. Ai, titi, que asco que me fez hoje a casa de Pilatos! Até lhe escarrei! E cá disse á Santa Veronica que a titi tinha muita devoção com ella. Pareceu-me que a senhora santa ficou muito regalada… É o que eu digo aqui a todos estes ecclesiasticos e aos patriarchas:—É necessario conhecer-se a titi para se saber o que é virtude!»

Antes de me despir, fui escutar, collada a orelha ao tabique de ramagens. A ingleza dormia serena, insensivel: eu resmunguei brandindo para lá o punho fechado:

—Besta!

Depois abri o guarda-roupa, tirei o dilecto embrulho da camisinha da

Mary, depuz n'elle o meu beijo repenicado e grato.

Cedo, ao alvorar do outro dia, partimos para o devoto Jordão.

* * * * *

Fastidiosa, modorrenta, foi a nossa marcha entre as collinas de Judá! Ellas succedem-se, lividas, redondas como craneos, resequidas, escalvadas por um vento de maldição: só a espaços n'alguma encosta rasteja um tojo escasso, que na vibração inexoravel da luz parece de longe um bolor de velhice e de abandono. O chão faisca, côr de cal. O silencio radiante entristece como o que cae da aboboda de um jazigo. No fulgor duro do céo rondava em torno a nós, lento e negro, um abutre… Ao declinar do sol erguemos as nossas tendas nas ruinas de Jericó.

Saboroso foi então descançar sobre macios tapetes, bebendo devagar limonada, na doçura da tarde. A frescura de um riacho alegre, que chalrava junto ao nosso acampamento por entre arbustos silvestres, misturava-se ao aroma da flôr que elles davam, amarella como a da giesta; adiante verdejava um prado de hervas altas, avivado pela brancura de vaidosos, languidos lirios; junto d'agua passeavam aos pares pensativas cegonhas. Do lado de Judá erguia-se o monte da Quarentena, torvo, fusco na sua tristeza de eterna penitencia; e para as bandas de Moab os meus olhos perdiam-se na velha, sagrada terra de Canaan, areal cinzento e desolado que se estende, como a alva mortalha d'uma raça esquecida, até ás solidões do Mar Morto.

Fomos, ao alvorecer, com os alforges fornidos, fazer essa votiva romaria. Era então em dezembro; esse inverno da Syria ia transparentemente dôce; e trotando pela areia fina ao meu lado, o erudito Topsius contava-me como esta planicie de Canaan fôra outr'ora toda coberta de rumorosas cidades, de brancos caminhos entre vinhedos, e d'aguas de rega refrescando os muros das eiras; as mulheres, toucadas d'anemonas, pisavam a uva cantando; o perfume dos jardins era mais grato ao céo que o incenso: e as caravanas que entravam no valle pelo lado de Segor achavam aqui a abundancia do rico Egypto—e diziam que era este em verdade o vergel do Senhor.

—Depois, acrescentava Topsius sorrindo com infinito sarcasmo, um dia o

Altissimo aborreceu-se e arrazou tudo!

—Mas porquê? porquê?

—Birra; mau humor; ferocidade…

Os cavallos relincharam sentindo a visinhança das aguas malditas:—e bem depressa ellas appareceram, estendidas até ás montanhas de Moab, immoveis, mudas, faiscando solitarias sob o céo solitario. Oh tristeza incomparavel! E comprehende-se que pesa ainda sobre ellas a colera do Senhor, quando se considera que alli jazem, ha tantos seculos—sem uma recreavel villa como Cascaes; sem claras barracas de lona alinhadas á sua beira; sem regatas, sem pescas; sem que senhoras, meigas e de galochas, lhe recolham poeticamente as conchinas na areia; sem que as alegrem, á hora das estrellas, as rebecas de uma Assembléa toda festiva e com gaz—alli mortas, enterradas entre duras serras como entre as cantarias de um tumulo.

—Além era a cidadella de Makeros, disse gravemente o erudito Topsius, alçado sobre os estribos, alongando o guardasol para a costa azulada do mar. Alli viveu um dos meus Herodes, Antipas, o tetrarcha da Galilêa, filho de Herodes o Grande: alli, D. Raposo, foi degolado o Baptista.

E seguindo a passo para o Jordão (emquanto o alegre Potte nos fazia cigarros do bom tabaco de Aleppo) Topsius contou-me essa lamentavel historia. Makeros, a mais altiva fortaleza da Asia, erguia-se sobre pavorosos rochedos de basalto. As suas muralhas tinham cento e cincoenta covados d'altura; as aguias mal podiam chegar até onde subiam as suas torres. Por fóra era toda negra e soturna: mas dentro resplandecia de marfins, de jaspes, d'alabastros; e nos profundos tectos de cedro os largos broqueis d'ouro suspensos faziam como as constellações d'um céo de verão. No centro da montanha, n'um subterraneo, viviam as duzentas egoas de Herodes, as mais bellas da terta, brancas como o leite, com clinas negras como o ebano, alimentadas a bolos de mel, e tão ligeiras que podiam, correr, sem lhes macular a pureza, por sobre um prado de acuçenas. Depois, mais fundo ainda, n'um carcere, jazia Iokanan —que a Igreja chama o Baptista.

—Mas então, esclarecido amigo, como foi essa desgraça?

—Pois foi assim, D. Raposo… O meu Herodes conhecera em Roma Herodiade, sua sobrinha, esposa de seu irmão Filippe, que vivia na Italia, indolente e esquecido da Judêa, gozando o luxo latino. Era esplendidamente, sombriamente bella. Herodiade!… Antipas Herodes arrebata-a n'uma galera para a Syria; repudia sua mulher, uma moabita nobre, filha do rei Aretas, que governava o deserto e as caravanas; e fecha-se incestuosamente com Herodiade n'essa cidadella de Makeros. Colera em toda a devota Judêa contra este ultraje á lei do Senhor! E então Antipas Herodes, arteiro, manda buscar o Baptista que prégava no vão do Jordão…

—Mas para quê, Topsius?

—Pois para isto, D. Raposo… A vêr se o rude propheta, acariciado, amimado, amollecido pelo louvor e pelo bom vinho de Sichem, approvava estes negros amores, e pela persuasão da sua voz, dominante em Judêa e Galilêa, os tornava aos olhos dos fieis brancos como a neve do Carmello. Mas, desgraçadamente, D. Raposo, o Baptista não tinha originalidade. Santo respeitavel, sim; mas nenhuma originalidade… O Baptista imitava em tudo servilmente o grande propheta Elias; vivia n'um buraco como Elias; cobria-se de pelles de feras como Elias; nutria-se do gafanhotos como Elias; repetia as imprecações classicas de Elias:—e como Elias clamára contra o incesto d'Achab, logo o Baptista trovejou contra o incesto de Herodiade. Por imitação, D. Raposo!

—E emmudeceram-no com a masmorra!

—Qual! Rugiu peor, mais terrivelmente! E Herodiade escondia a cabeça no manto para não ouvir esse clamor de maldição, sahido do fundo da montanha.

Eu balbuciei, com uma lagrima a amollentar-me a palpebra:

—E Herodes mandou então degolar o nosso bom S. João!

—Não! Antipas Herodes era um frouxo, um tibio… Muito lubrico, D. Raposo, infinitamente lubrico, D. Raposo! Mas que indecisão!… Além d'isso, como todos os galileus, tinha uma secreta fraqueza, uma irremediavel sympathia por prophetas. E depois arreceava a vingança de Elias, o patrono, o amigo d'Iokanan… Porque Elias não morreu, D. Raposo. Habita o céo, vivo, em carne, ainda coberto de farrapos, implacavel, vociferador e medonho…

—Safa! murmurei, arripiado.

—Pois ahi está… Iokanan ia vivendo, ia rugindo. Mas sinuoso e subtil é o odio da mulher, D. Raposo. Chega, no mez de Schebat, o dia dos annos de Herodes. Ha um vasto festim em Makeros, a que assistia Vitellius, então viajando na Syria. D. Raposo lembra-se do crasso Vitellius que depois foi senhor do mundo… Pois á hora em que pelo ceremonial das Provincias Tributarias se bebia á saude de Cesar e de Roma, entra subitamente na sala, ao som dos tamborinos e dançando á maneira de Babylonia, uma virgem maravilhosa. Era Salomé, a filha de Herodiade e de seu marido Filippe, que ella educára secretamente em Cesarea, n'um bosque, junto do Templo d'Hercules. Salomé dançou, núa e deslumbrante. Antipas Herodes, inflammado, estonteado de desejo, promette dar tudo o que ella pedisse pelo beijo dos seus labios… Ella toma um prato d'ouro, e tendo olhado a mãi, pede a cabeça do Baptista. Antipas, aterrado, offerece-lhe a cidade de Tiberiade, thesouros, as cem aldeias de Genesareth… Ella sorriu, olhou a mãi: e outra vez, incerta e gaguejando pediu a cabeça de Iokanan… Então todos os convivas, Saducceus, Escribas, homens ricos da Decapola, mesmo Vitellius e os romanos, gritaram alegremente: «Tu prometteste, tetrarca, tu juraste, tetrarca!» Momentos depois, D. Raposo, um negro da Idumea entrou, trazendo n'uma das mãos um alfange, na outra presa pelos cabellos a cabeça do propheta. E assim acabou S. João, por quem se canta e se queimam fogueiras n'uma dôce noite de junho…

Escutando, embevecidos e a passo, estas coisas tão antigas— avistámos ao longe, na areia fulva, uma sebe de verdura triste e da côr do bronze. Potte gritou: «o Jordão! o Jordão!» E arrebatadamente galopámos para o rio da Escriptura.

O festivo Potte conhecia, á beira da corrente baptismal, um sitio deleitosissimo para uma sesta christã: e ahi passamos as horas quentes, recostados n'um tapete, languidos, e bebendo cerveja, depois de bem esfriada nas aguas do rio santo. Elle faz alli um claro, suave remanso, a repousar da lenta, abrazada jornada que traz, através do deserto, desde o lago de Galilêa: e antes de mergulhar para sempre no amargor do Mar Morto—alli preguiça, espraiado sobre a areia fina; canta baixo e cheio de transparencia, rolando os seixos lustrosos do seu leito; e dorme nos sitios mais frescos, immovel e verde, á sombra dos tamarindos… Por sobre nós rumorejavam as folhas dos altos choupos da Persia: entre as hervas balançavam-se flôres desconhecidas, das que toucavam outr'ora as tranças das virgens de Canaan em manhãs de vindima; e na escuridão fofa das ramagens, onde já as não vinha assustar a voz terrivel de Jehovah, gorgeavam pacificamente as toutinegras. Defronte elevavam-se azues e sem mancha, como feitas d'um só bloco de pedra preciosa, as montanhas de Moab. O céo branco, mudo, recolhido, parecia descançar deliciosamente do duro tumulto que o agitou quando alli vivia, entre preces e mortandades, o sombrio Povo de Deus: e onde constantemente batiam as azas dos Seraphins, e fluctuavam as roupagens dos prophetas arrebatados pelo Altissimo, era calmante vêr agora passar apenas uma revoada de pombos bravos, voando para os pomares d'Engaddi.

Obedecendo á recommendação da titi, despi-me, e banhei-me nas aguas do Baptista. Ao principio, enleado de emoção beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete d'um altar-mór: e de braços cruzados, nú, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em S. Joãosinho, susurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei aquella bucolica banheira entre arvores; Potte atirou-me a minha esponja; e ensaboei-me nas aguas sagradas, trauteando o fado da Adelia.

Ao refrescar, quando montavamos a cavallo, uma tribu de beduinos, descendo das collinas de Galgalá, trouxe os seus rebanhos de camêlos a beber ao Jordão; as crias brancas e felpudas corriam, balando; os pastores, de lança alta, soltando gritos de batalha, galopavam, n'um amplo esvoaçar d'albornozes; e era como se resurgisse em todo o valle, no esplendor da tarde, uma pastoral da idade biblica, quando Agar era moça! Teso na sella, com as redeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroismo; ambicionava uma espada, uma Lei, um Deus por quem combater… Lentamente alargara-se pela planicie sacra um silencio enlevado. E o mais alto cerro de Moab cobriu-se de um fulgor raro, côr de rosa e côr d'ouro, como se n'elle de novo, fugitivamente, ao passar, se reflectisse a face do Senhor! Topsius alçou a mão sapiente:

—Aquelle cimo illuminado, D. Raposo, é o Moriah, onde morreu Moysés!

Estremeci. E penetrado pelas emanações divinas d'essas aguas, d'esses montes, sentia-me forte—e igual aos homens fortes do Exodo. Pareceu-me ser um d'elles, familiar de Jehovah, e tendo chegado do negro Egypto com as minhas sandalias na mão… Esse alliviado suspiro que trazia a briza vinha das tribus d'Israel, emergindo emfim do deserto! Pelas encostas além, seguida d'uma escolta d'anjos, a Arca dourada descia balançada sobre os hombros dos levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez nas seccas areias reverdecia a terra da Promissão. Jericó branquejava entre as seáras: e através dos palmares cerrados já resoavam em marcha os clarins de Josué!

Não me contive, arranquei o capacete, soltei por sobre Canaan este urro piedoso:

—Viva Nosso Senhor Jesus Christo! Viva toda a Côrte do Céo!

* * * * *

Cedo, ao outro dia, domingo, o incansavel Topsius partiu, bem enlapisado e bem enguardasolado, a estudar as ruinas de Jericó, essa velha Cidade das Palmeiras que Herodes cobrira de thermas, de templos, de jardins, d'estatuas, e onde passaram os seus tortuosos amores com Cleopatra… E eu, á porta da tenda, escarranchado n'um caixote, fiquei a tomar o meu café, olhando os pacificos aspectos do nosso acampamento. O cozinheiro depennava frangos; o beduino triste areava á beira d'agua o seu pacato alfange; o nosso lindo arrieiro esquecia a ração ás egoas para seguir no céo, d'um brilho de saphira, a branca passagem das cegonhas voando aos pares para a Samaria.

Depois puz o capacete, fui vadiar na doçura da manhã, de mãos nos bolsos, cantarolando um fado meigo. E ia pensando na Adelia e no snr. Adelino… Enroscados na alcova, beijando-se furiosamente, estavam-me talvez chamando carola, emquanto eu passeava alli, nos retiros da Escriptura! Áquella hora a titi, de mantelete preto, com o seu ripanço, sahia para a missa de Sant'Anna: os creados do Montanha, esguedelhados, assobiando, escovavam o pano dos bilhares: e o dr. Margaride, á janella, na praça da Figueira, pondo os oculos, abria o Diario de Noticias. Ó minha dôce Lisboa!… Mas ainda mais perto, para além do deserto de Gaza, no verde Egypto, a minha Maricoquinhas n'esse instante estava enchendo o vaso do balcão com magnolias e rosas; o seu gato dormia no velludo da cadeira; ella suspirava pelo «seu portuguezinho valente…» Suspirei tambem: mais triste nos labios se me fez o fado triste.

E de repente, olhando, achei-me, como perdido, n'um sitio de grande solidão e de grande melancolia. Era longe do regato e dos aromaticos arbustos de flôr amarella; já não via as nossas tendas brancas; e diante de mim arredondava-se um ermo árido, livido, de areia, fechado todo por penedos lisos, direitos como os muros d'um poço—tão lugubres que a luz loura da quente manhã do Oriente desmaiava alli, mortalmente, desbotada e magoada. Eu lembrava-me de gravuras, assim desoladas, onde um eremita de longas barbas medita um in-folio junto de uma caveira. Mas nenhum solitario aniquilava alli a carne em heroica penitencia. Sómente, ao meio do fero recinto, isolada, orgulhosa, com um ar de raridade e de reliquia, como se as penedias se tivessem amontoado para lhe arranjarem um resguardo de Sacrario—erguia-se uma arvore tão repellente, que logo me fez morrer nos labios o resto do fado triste…

Era um tronco grosso, curto, atochado e sem nós de raizes, semelhante a uma enorme moca bruscamente cravada na areia: a casca corredia tinha o lustre oleoso de uma pelle negra: e da sua cabeça entumecida, de um tom de tição apagado—rompiam, como longas pernas d'aranha, oito galhos que contei, pretos, molles, lanugentos, viscosos, e armados de espinhos… Depois de olhar em silencio para aquelle monstro, tirei devagar o meu capacete e murmurei:

—Para que viva!

É que me encontrava certamente diante d'uma arvore illustre! Fôra um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outr'ora em fórma de corôa por um centurião romano da guarnição de Jerusalem, ornára sarcastimente, no dia do suplicio, a cabeça de um carpinteiro de Galilêa, condemnado… Sim, condemnado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pateos do Templo, dizendo-se filho de David e dizendo-se filho de Deus, a prégar contra a velha Religião, contra as velhas Instituições, contra a velha Ordem, contra as velhas Fórmas! E eis que esse galho por ter tocado os cabellos incultos do rebelde torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lagedo, á sua passagem, as multidões enternecidas…

No collegio dos Isidoros, ás terças e sabbados, o sebento padre Soares dizia esfuracando os dentes—«que havia, meninos, lá n'um sitio da Judêa…» Era alli! «…uma arvore que segundo dizem os authores é mesmo d'arripiar…» Era aquella! Eu tinha ante meus frivolos olhos de Bacharel a sacratissima Arvore d'Espinhos!

E logo uma idéa sulcou-me o espirito com um brilho de visitação celeste… Levar á titi um d'esses galhos, o mais pennugento, o mais espinhoso, como sendo a reliquia fecunda em milagres a que ella poderia consagrar seus ardores de devota e confiadamente pedir as mercês celestiaes! «Se entendes que mereço alguma coisa pelo que tenho feito por ti, traze-me então d'esses santos lugares uma santa reliquia…» Assim dissera a snr.^a D. Patrocinio das Neves na vespera da minha jornada piedosa, enthronada nos seus damascos vermelhos, diante da Magistratura e da Igreja, deixando escapar uma baga de pranto sob seus oculos austeros. Que lhe podia eu offerecer mais sagrado, mais enternecedor, mais efficaz, que um ramo da Arvore d'Espinhos, colhido no valle do Jordão, n'uma clara, rosada manhã de missa?

Mas de repente assaltou-me uma aspera inquietação… E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras d'aquelle tronco? E se a titi começasse a melhorar do figado, a reverdecer, mal eu installasse no seu oratorio, entre lumes e flôres, um d'esses galhos erriçados de espinhos? Ó miserrimo logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o principio milagroso da Saude, e a tornava rija, indestructivel, ininterravel, com os contos de G. Godinho firmes na mão avara! Eu! Eu que só começaria a viver—quando ella começasse a morrer!

Rondando então em torno á Arvore d'Espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: «Anda, monstro, dize! És tu uma reliquia divina com poderes sobrenaturaes? ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classificações de Linneu? Falla! Tens tu, como aquelle cuja cabeça coroaste por escarneo, o dom de sarar? Vê lá… Se te levo commigo para um lindo Oratorio portuguez, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chamma louvadora das velas, o respeito das mãos postas, todas as caricias da oração—não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existencia estorvadora, me prives da rapida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéas pueris de Caridade e Misericordia, e vaes com tenção de curar a titi—então fica-te ahi, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silencio eterno!… Mas se promettes permanecer surdo ás preces da titi, comportar-te como um pobre galho secco e sem influencia, e não interromperes a appetecida decomposição dos seus tecidos—então vaes ter em Lisboa o macio agasalho d'uma capella afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um idolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não has de invejar o Deus que os teus espinhos feriram… Falla, monstro!»

O monstro não fallou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de brisa d'estio, o presentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A Arvore d'Espinhos mandava, pela communicação esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquelle palpite suave da morte da snr.^a D. Patrocinio—como uma promessa sufficiente de que, transportado para o oratorio, nenhum dos seus galhos impediria que o figado d'essa hedionda senhora inchasse e se desfizesse… E isto foi, entre nós, n'esse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Mas era esta realmente a Arvore d'Espinhos? A rapidez da sua condescendencia fazia-me suspeitar a excellencia da sua divindade. Resolvi consultar o solido, sapientissimo Topsius.

Corri á fonte de Elyseo, onde elle rebuscava pedras, lascas, lixos, restos da orgulhosa Cidade das Palmeiras. Avistei logo o luminoso historiographo acocorado junto a uma poça d'agua, com os oculos sôfregos, esgarafunhando um pedaço de pilastra negra, meia enterrada no lodo. Ao lado um burro, esquecido da herva tenra, contemplava philosophicamente e com melancolia o afan, a paixão d'aquelle sabio, de rastos no chão, á procura das Thermas de Herodes.

Contei a Topsius o meu achado, a minha incerteza… Elle ergueu-se logo, serviçal, zeloso, presto ás lides do Saber.

—Um arbusto d'espinhos? murmurava, estancando o suor. Ha de ser o Nabka… Banalissimo em toda a Syria! Hasselquist, o botanico, pretende que d'ahi se fez a Corôa d'Espinhos… Tem umas folhinhas verdes, muito tocantes, em fórma de coração, como as da hera… Ah, não tem? Perfeitamente, então é o Lycium Spinosum. Foi o que serviu, segundo a tradição latina, para a Corôa d'Injuria… Que quanto a mim a tradição é futil; e Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro… Mas eu vou já aclarar isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para sempre!

Abalámos. No ermo, ante a arvore medonha, Topsius, alçando cathedraticamente o bico, recolheu um momento aos depositos interiores do seu saber—e depois declarou que eu não podia levar a minha tia devotissima nada mais precioso. E a sua demonstração foi faiscante. Todos os instrumentos da Crucificação (disse elle, floreando o guardasol), os Pregos, a Esponja, a Cana Verde, um momento divinisados como materiaes da Divina Tragedia, reentraram pouco a pouco, pelas urgencias da civilisação, nos usos grosseiros da vida… Assim, o Prego não ficou per eternum na ociosidade dos altares, memorando as Chagas Sacratissimas: a humanidade, catholica e commerciante, foi gradualmente levada a utilisar o prego como uma valiosa ferragem: e tendo trespassado as mãos do Messias, elle hoje segura, laborioso e modesto, as tampas de caixões impurissimos… Os mais reverentes irmãos do Senhor dos Passos empregam a Cana para pescar; ella entra na folgante composição do foguete; e o Estado mesmo (tão escrupuloso em materia religiosa) assim a usa em noites alegres de nova Constituição ou em festivos delirios pelas bodas de Principes… A Esponja, outr'ora embebida no vinagre de sarcasmo e offerecida n'uma lança, é hoje aproveitada n'esses irreligiosos ceremoniaes da limpeza—que a Igreja sempre reprovou com odio… Até a Cruz, a Fórma suprema, tem perdido entre os homens a sua divina significação. A christandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como enfeite. A cruz é broche, a cruz é breloque; pende nos collares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de lacre, é incrustada em botões de punho;—e a Cruz realmente n'este soberbo seculo pertence mais á Ourivesaria do que pertence á Religião…

—Mas a Corôa d'Espinhos, D. Raposo, essa não tornou a servir para mais nada!

Sim, para mais nada! A Igreja recebeu-a das mãos de um proconsul romano—e ella ficou isoladamente e para toda a eternidade na Igreja, commemorando o Grande Ultraje. Em todo este vario Universo ella só encontra um lugar congenere na penumbra das capellas; o seu unico prestimo é persuadir á contrição. Nenhum joalheiro jámais a imitou em ouro, cravejada de rubis, para ornar um penteado loiro; ella é só Instrumento de Martyrio; e com salpicos de sangue, sobre os caracoes frisados das imagens, inspira infinitamente as lagrimas… O mais astuto Industrial, depois de a retorcer pensativamente nas mãos, restituil-a-hia aos altares como coisa inutil na Vida, no Commercio, na Civilisação; ella é só attributo da Paixão, recurso de tristes, enternecedora de fracos. Só ella, entre os accessorios da Escriptura, provoca sinceramente a oração. Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a borbulhar de Padre-Nossos, diante d'uma esponja cahida n'uma tina, ou d'uma cana á beira d'um regato?… Mas para a Corôa d'Espinhos erguem-se sempre as mãos crentes; e a sensação da sua deshumanidade passa ainda na melancolia dos Misereres!

Que maior maravilha podia eu levar á titi?…

—Sim, Topsius, meu catita… Os teus dizeres são d'oiro puro… Mas a outra, a verdadeira, a que serviu, teria sido tirada d'aqui, d'este tronco? Hein, amiguinho?

O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu lenço de quadrados: e declarou (contra a futil tradição latina e contra o ignarissimo Hasselquist) que a Corôa d'Espinhos fôra arranjada d'uma silva, fina e flexivel, que abunda nos valles de Jerusalem, com que se accende o lume, com que se erriçam as sebes, e que dá uma flôrzinha rôxa, triste e sem cheiro…

Eu murmurei, succumbido:

—Que pena! A titi fazia tanto gosto que fosse d'aqui, Topsius! A titi é tão rica!…

Então este sagaz philosopho comprehendeu que ha Razões de Familia como ha Razões d'Estado—e foi sublime. Estendeu a mão por cima da arvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da sua sciencia—e disse estas palavras memoraveis:

—D. Raposo, nós temos sido bons amigos… Póde pois afiançar á senhora sua tia da parte d'um homem que a Allemanha escuta em questões de critica archeologica, que o galho que lhe levar d'aqui, arranjado em corôa, foi…

—Foi?—berrei ancioso.

—Foi o mesmo que ensanguentou a fronte do rabbi Jeschoua Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus do Nazareth, e outros tambem chamam o Christo!…

Fallára o alto saber germanico! Puxei o meu navalhão sevilhano, decepei um dos galhos. E emquanto Topsius voltava a procurar pelas hervas humidas a cidadella de Cypron e outras pedras de Herodes—eu recolhi ás tendas, em triumpho, com a minha preciosidade. O prazenteiro Potte, sentado n'um sellim, estava moendo café.

—Soberbo galho! gritou elle. Quer-se arranjadinho em corôa… Fica d'uma devoção!

E logo, com a sua rara destreza de mãos, o jocundo homem entrelaçou o galho rude em forma de corôa santa. E tão parecida! tão tocante!…

—Só lhe faltam as pinguinhas de sangue! murmurava eu, enternecido.

Jesus! o que a titi se vai babar!

Mas como levariamos para Jerusalem, através dos cerros de Judá, aquelles incommodos espinhos—que, apenas armados na sua fórma Passional, pareciam já avidos de rasgar carne innocente? Para o alegre Potte não havia difficuldades; tirou do fundo do seu provido alforge uma fofa nuvem de algodão em rama; envolveu n'ella delicadamente a Corôa d'Aggravo, como uma joia fragil; depois com uma folha de papel pardo e um nastro escarlate—fez um embrulho redondo, sólido, ligeiro e nitido… E eu, sorrindo, enrolando o cigarro, pensava n'esse outro embrulho de rendas e laços de sêda, cheirando a violeta e a amor, que ficára em Jerusalem, esperando por mim e pelo favor dos meus beijos.

—Potte, Potte! gritei, radiante. Nem tu sabes que grossa moeda me vai render esse galhinho, dentro d'esse pacotinho!

Apenas Topsius voltou da sacra fonte d'Elyseo—eu offereci, para celebrar o encontro providencial da Grande Reliquia, uma das garrafas de Champagne, que Potte trazia nos alforges, encarapuçadas d'ouro. Topsius bebeu «á Sciencia!» Eu bebi «á Religião!» E largamente a espuma de Moet et Chandon regou a terra de Canaan.

Á noite, para maior festividade, accendemos uma fogueira: e as mulheres arabes de Jericó vieram dançar diante das nossas tendas. Recolhemos tarde, quando por sobre Moab, para os lados de Makéros, a lua apparecia, fina e recurva, como esse alfange d'ouro que decepou a cabeça ardente d'Iokanan.

O embrulho da Corôa d'Espinhos estava á beira do meu catre. O lume apagára-se, o nosso acampamento dormia no infinito silencio do Valle da Escriptura… Tranquillo, regalado, adormeci tambem.