A Relíquia
Capítulo III
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Eu sabia que esta offerta era uma cortezia consagrada, em compras e vendas, desde o tempo dos Patriarchas. Cumpri tambem o ceremonial: declarei que Jehovah, o muito forte, me ordenava que com o dinheiro cunhado pelos Principes eu pagasse os fructos da Terra… Então o hortelão abaixou a cabeça, cedeu ao mandamento divino; e pousando o cesto nas lages, tomando um figo em cada uma das mãos negras e cheias de terra:
—Em verdade, exclamou, Jehovah é o mais forte! Se elle o manda, eu devo pôr um preço a estes fructos da sua bondade, mais dôces que os labios da esposa! Justo é pois, ó homem abundante, que por estes dois que me enchem as palmas, tão perfumados e frescos, tu me dês um bom traphik.
Oh Deus magnifico de Judá! O facundo hebreu reclamava por cada figo um tostão da moeda real da minha patria! Bradei-lhe: —«Irra, ladrão!» Depois, guloso e tentado, offereci-lhe um drachma por todos os figos que coubessem no forro largo d'um turbante. O homem levou as mãos ao seio da tunica, para a despedaçar na immensidade da sua humilhação. E ia invocar Jehovah, Elias, todos os Prophetas seus patronos—quando o sapiente Topsius, enojado, interveio seccamente, mostrando-lhe uma miuda rodella de ferro que tinha por cunho um lirio aberto:
—Na verdade Jehovah é grande! E tu és ruidoso e vazio como o ôdre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este meah. E se não queres, conheço o caminho dos hortos tão bem como o do Templo, e sei onde as aguas dôces de Enrogel banham os melhores pomares… Vai-te!
O homem logo, trepando anciosamente até ao parapeito de marmore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós eramos mais beneficos que o orvalho do Carmello!
Saborosa e rara me parecia aquella merenda de figos de Bephtagé, no palacio de Herodes. Mas apenas nos accommodáramos com a fruta no regaço, reparei em baixo n'um velhito magro, que cravava em nós humildemente uns olhos ennevoados, queixosos, cheios de cansaço. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus— quando elle, mergulhando a mão tremula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabelludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia. Era uma placa oval d'alabastro tendo gravada uma imagem do Templo. E emquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio outras pedras de marmore, d'onyx, de jaspe, com representações do Tabernaculo no deserto, os nomes das tribus entalhados, e figuras confusas em relevo simulando as batalhas dos Machabeus… Depois ficou com os braços cruzados; e no seu pobre rosto escavado pelos cuidados luzia uma anciedade, como se de nós sómente esperasse misericordia e descanso.
Topsius deduziu que elle era um d'esses Guebros, adoradores do fogo e habeis nas artes, que vão descalços até ao Egypto, com fachos accesos, salpicar sobre a Esphinge o sangue d'um gallo negro. Mas o velho negou, horrorisado—e tristemente murmurou a sua historia. Era um pedreiro de Naim, que trabalhára no Templo e nas construcções que Antipas Herodes erguia em Bezetha. O açoite dos intendentes rasgára-lhe a carne; depois a doença levára-lhe a força como a geada sécca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes—e gravava n'ellas nomes santos, sitios santos, para as vender no Templo aos fieis. Em vespera de Paschoa, porém, viera um Rabbi de Galilêa cheio de cólera que lhe arrancára o seu pão!…
—Aquelle! balbuciou suffocado, sacudindo a mão para o lado de Jesus.
Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injustiça e a dôr d'esse Rabbi, de coração divino, que era o melhor amigo dos pobres?
—Então vendias no Templo? perguntou o terso historiador dos Herodes.
—Sim, suspirou o velho, era lá, pelas festas, que eu ganhava o pão do longo anno! N'esses dias subia ao Templo, offertava a minha prece ao Senhor, e junto á porta de Suza, diante do Portico do Rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol… Decerto, eu não tinha direito de pôr alli tenda: mas como poderia eu pagar ao Templo o aluguer de um covado de lagedo para vender o trabalho das minhas mãos! Todos os que apregôam á sombra, debaixo do portico, sobre taboleiros de cedro, são mercadores ricos que podem satisfazer a licença: alguns pagam um siclo d'ouro. Eu não podia com crianças em casa sem pão… Por isso ficava a um canto, fóra do portico, no peor sitio. Alli estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam ou me davam com os bastões na cabeça. E ao pé de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Joppé, que offerecia um oleo para fazer crescer os cabellos, e Osêas, de Ramah, que vendia flautas de barro… Os soldados da Torre Antonia que fazem a ronda passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quasi sempre de guarda pela Paschoa, nos dizia:—«está bem, ficai, comtanto que não apregoeis alto.» Porque todos sabiam que eramos pobres, não podiamos pagar o covado de lage, e tinhamos nas nossas moradas crianças com fome… Na Paschoa e nos Tabernaculos vêm da terra distante peregrinos a Jerusalem; e todos me compravam uma imagem do Templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o demonio… Ás vezes, ao fim do dia, tinha feito tres drachmas; enchia o saião de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores do Senhor!…
Eu, d'enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo queixume:
—Mas eis que ha dias esse Rabbi de Galilêa apparece no Templo, cheio de palavras de cólera, ergue o bastão e arremessa-se sobre nós, bradando que aquella «era a casa de seu pai, e que nós a polluiamos!…» E dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu pão! Quebrou nas lages os vasos d'oleo d'Eboim, de Joppé, que nem gritava, espantado. Acudiram os guardas do Templo. Menahem acudiu tambem; até, indignado, disse ao Rabbi:—«És bem duro com os pobres. Que auctoridade tens tu?» E o Rabbi fallou «de seu pai», e reclamou contra nós a lei severa do Templo. Menahem baixou a cabeça… E nós tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de Babylonia, e com o seu lagedo bem pago, batiam palmas ao Rabbi… Ah! contra esses o Rabbi nada podia dizer: eram ricos, tinham pago!… E agora aqui ando! Minha filha, viuva e doente, não póde trabalhar, embrulhada a um canto nos seus trapos: e os filhos de minha filha, pequeninos, têm fome, olham para mim, vêem-me tão triste e nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o Sabbat, vou á synagoga de Naim que é a minha, e as raras migalhas que sobravam do meu pão juntava-as para aquelles que nem migalhas têm na terra… Que mal fazia eu vendendo? Em que offendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lages do Templo: cada pedra era purificada pelas aguas lustraes… Em verdade Jehovah é grande, e sabe… Mas eu fui expulso pelo Rabbi, sómente porque sou pobre!
Calou-se—e as suas mãos magras, tatuadas de linhas magicas, tremiam, limpando as longas lagrimas que o alagavam.
Bati no peito, desesperado. E a minha angustia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violencia do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente creado, como a chuva benefica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flôr isolada. Então para que não houvesse nada imperfeito na sua vida, nem d'ella ficasse uma queixa na terra—paguei a divida de Jesus (assim seu Pai perdôe a minha!) atirando para o saião do velho moedas consideraveis, drachmas, crysos gregos de Philippe, aureos romanos d'Augusto, até uma grossa peça da Cyrenaica que eu estimava por ter uma cabeça de Zeus Amnon que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este thesouro um lepta de cobre—que tem em Judêa o valor d'um grão de milho…
O velho pedreiro de Naim empallidecia, suffocado. Depois, com o dinheiro n'uma dobra do saião, bem apertado contra o peito, murmurou timida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:
—Pai, que estás nos céos, lembra-te da face d'este homem, que me deu o pão de longos dias!…
E soluçando sumiu-se entre a turba—que agora de todo o atrio rumorosamente affluia, se apinhava em torno aos mastros altos do velario. O escriba apparecera, mais vermelho e limpando os beiços. Ao lado do Rabbi e dos guardas do Templo, Sarêas viera perfilar-se encostado ao seu baculo. Depois, entre um brilho d'armas, surgiram as varas brancas dos lictores: e novamente Poncius, pallido e pesado, na sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o o Assento Curul.
Um silencio cahiu, tão attento, que se ouviam as bozinas tocando ao longe na Torre Marianna. Sarêas desenrolou o seu escuro pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabularios: e eu vi as mãos gordas e morosas do escriba traçarem uma rubrica, estamparem um sêllo sob as linhas vermelhas que condemnavam á morte Jesus de Galilêa, meu Senhor… Depois Poncius Pilatus, com uma dignidade indolente, erguendo apenas de leve o braço nú, confirmou em nome de Cesar a «sentença do Sanhedrin, que julga em Jerusalem…»
Immediatamente Sarêas atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou orando, com as mãos abertas para o céo. E os Phariseus triumphavam: junto a nós, dois muito velhos beijavam-se em silencio nas barbas brancas: outros sacudiam no ar os bastões, ou lançavam sarcasticamente a acclamação forense dos romanos: «Bene et belle! Non potest melius!»
Mas de subito o Interprete appareceu em cima d'um escabello, alteando sobre o peito o seu papagaio flammante. A turba emmudecera, surprehendida. E o phenicio, depois de ter consultado com o escriba, sorriu, gritou em chaldaico, alargando os braços cercados de manilhas de coral:
—Escutai! N'esta vossa festa de Paschoa, o Pretor de Jerusalem costuma, desde que Valerius Gratus assim o determinou, e com assenso de Cesar, perdoar a um criminoso… O Pretor propõe-vos o perdão d'este… Escutai ainda! Vós tendes tambem o direito de escolher, vós mesmos, entre os condemnados… O Pretor tem em seu poder, nos ergastulos de Herodes, outro sentenciado á morte…
Hesitou,—e debruçado do escabello interrogava de novo o escriba que remexia n'uma atarantação os papyros e os tabularios. Sarêas, sacudindo a ponta do manto que escondia a sua oração, ficára assombrado para o Pretor, com as mãos abertas no ar. Mas já o Interprete bradava, erguendo mais a face risonha:
—Um dos condemnados é Rabbi Jeschoua, que ahi tendes, e que se disse filho de David… É esse que propõe o Pretor. O outro, endurecido no mal, foi preso por ter morto um legionario traiçoeiramente, n'uma rixa, ao pé do Xistus. O seu nome é Bar-Abbás… Escolhei!
Um grito brusco e roufenho partiu d'entre os Phariseus:
—Bar-Abbás!
Aqui e além, pelo atrio, confusamente resoou o nome de Bar-Abbás. E um escravo do Templo, de saião amarello, pulando até aos degraus do sólio, rompeu a berrar, em face de Poncius, com palmadas furiosas nas côxas:
—Bar-Abbás! Ouve bem! Bar-Abbás! O povo só quer Bar-Abbás!
A haste d'um legionario fel-o rolar nas lages. Mas já toda a multidão, mais leve e facil d'inflammar do que a palha na meda, clamava por Bar-Abbás: uns com furor, batendo as sandalias e os cajados ferrados como para aluir o Pretorio; outros de longe, encruzados ao sol, indolentes e erguendo um dedo. Os vendilhões do Templo, rancorosos, sacudindo as balanças de ferro e repicando sinetas, berravam, por entre maldições ao Rabbi: «Bar-Abbás é o melhor!» E até as prostitutas de Tiberiade, pintadas de vermelhão como idolos, feriam o ar de gritos silvantes:
—Bar-Abbás! Bar-Abbás!
Raros alli conheciam Bar-Abbás; muitos, de certo, não odiavam o Rabbi—mas todos engrossavam o tumulto promptamente, sentindo, n'essa reclamação do preso que atacára Legionarios, um ultraje ao Pretor romano, togado e augusto no seu tribunal. Poncius no entanto, indifferente, traçava letras n'uma vasta lauda de pergaminho pousada sobre os joelhos. E em torno os clamores disciplinados retumbavam em cadencia, como malhos n'uma eira:
—Bar-Abbás! Bar-Abbás! Bar-Abbás!
Então Jesus, vagarosamente, voltou-se para aquelle mundo duro e revoltoso que o condemnava: e nos seus refulgentes olhos humedecidos, no fugitivo tremor dos seus labios, só transpareceu n'esse instante uma mágua misericordiosa pela opaca inconsciencia dos homens, que assim empurravam para a morte o melhor amigo dos homens… Com os pulsos presos, limpou uma gotta de suor: depois ficou diante do Pretor, tão imperturbado e quêdo, como se já não pertencesse á terra.
O escriba, batendo com uma regra de ferro na pedra da mesa, tres vezes bradára o nome de Cesar. O tumulto ardente esmorecia. Poncius ergueu-se: e grave, sem trahir impaciencia ou cólera, lançou, sacudindo a mão, o mandado final:
—Ide e crucificai-o!
Desceu o estrado; a turba batia ferozmente as palmas.
Oito soldados da cohorte Syriaca appareceram, apetrechados em marcha, com os escudos revestidos de lona, as ferramentas entrouxadas, e o largo cantil da posca. Sarêas, vogal do Sanhedrin, tocando no hombro de Jesus, entregou-o ao decurião: um soldado desapertou-lhe as cordas, outro tirou-lhe o albornoz de lã: e eu vi o dôce Rabbi de Galilêa dar o seu primeiro passo para a morte.
Apressados, enrolando o cigarro, deixámos logo o palacio de Herodes por uma passagem que o douto Topsius conhecia, lobrega e humida, com fendas gradeadas d'onde vinha um canto triste de escravos encarcerados… Sahimos a um terreiro, abrigado pelo muro d'um jardim todo plantado de cyprestes. Dois dromedarios deitados no pó ruminavam, junto d'um montão d'hervas cortadas. E o alto historiador tomava já o caminho do Templo, quando, sob as ruinas d'um arco que a hera cobria, vimos povo apinhado em torno d'um Essenio, cujas mangas d'alvo linho batiam o ar como as azas d'um passaro irritado.
Era Gad, rouco d'indignação, clamando contra um homem esgrouviado, de barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro nas orelhas, que tremia e balbuciava:
—Não fui eu, não fui eu…
—Foste tu! bradava o Essenio, estampando a sandalia na terra. Conheço-te bem. Tua mãi é cardadeira em Capárnaum, e maldita seja pelo leite que te deu!…
O homem recuava, baixando a cabeça, como um animal encurralado á força:
—Não fui eu! Eu sou Rephrahim, filho de Eliesar, de Ramah! Sempre todos me conheceram são e forte como a palmeira nova!
—Torto e inutil eras tu como um sarmento velho de vide, cão e filho d'um cão! gritou Gad. Vi-te bem… Foi em Capárnaum, na viella onde está a fonte, ao pé da Synagoga, que tu appareceste a Jesus, Rabbi de Nazareth! Beijavas-lhe as sandalias, dizias «Rabbi, cura-me! Rabbi, vê esta mão que não póde trabalhar!» E mostravas-lhe a mão, essa, a direita, secca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no Sabbath: estavam os tres chefes da Synagoga, e Elzear, e Simeon. E todos olhavam Jesus para vêr se elle ousaria curar no dia do Senhor… Tu choravas, de rojo no chão. E por acaso o Rabbi repelliu-te? Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah cão, filho d'um cão! O Rabbi, indifferente ás accusações da Synagoga, e só escutando a sua misericordia, disse-te: «estende a mão!» Tocou-a, e ella reverdeceu logo como a planta regada pelo orvalho do céo! Estava sã, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.
Um murmurio d'enlevo correu entre a multidão, maravilhada pelo dôce milagre. E o Essenio exclamava, com os braços tremulos no ar:
—Assim foi a caridade do Rabbi! E estendeu-te elle a ponta do manto, como fazem os Rabbis de Jerusalem, para que lhe deitasses dentro um siclo de prata? Não. Disse aos seus amigos que te dessem da provisão de lentilha… E tu largaste a correr pelo caminho, refeito e agil, gritando para o lado da tua casa: «Oh mãi, oh mãi, estou curado!…» E foste tu, porco e filho de porco, que ha pouco no Pretorio pedias a cruz para o Rabbi e gritavas por Bar-Abbás! Não negues, bocca immunda; eu ouvi-te; estava por traz de ti, e via incharem-te as cordoveias do pescoço com o furor da tua ingratidão!
Alguns, escandalisados, gritavam: «maldito! maldito!» Um velho, com justiceira gravidade, apanhára duas grossas pedras. E o homem de Capárnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:
—Não fui eu, não fui eu… Eu sou de Ramah!
Gad, furioso, agarrou-o pelas barbas:
—N'esse braço, quando o arregaçaste diante do Rabbi, todos te viram duas cicatrizes curvas como de dois golpes de foice!… E tu vaes mostral-as agora, cão e filho d'um cão!
Despedaçou-lhe a manga da tunica nova; arrastou-o em redor, apertado nas suas mãos de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas cicatrizes, lividas no pêllo ruivo; e assim o arremessou desprezivelmente para entre o povo—que, levantando o pó do caminho, perseguiu o homem de Capárnaum com apupos e com pedradas…
Acercamo-nos de Gad sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Elle, acalmado, estendera as mãos a um vendedor d'agua, que lh'as purificava com um largo jorro do seu ôdre felpudo: depois limpando-as á toalha de linho que lhe pendia do cinto:
—Escutai! José de Ramatha reclamou o corpo do Rabbi, o Pretor concedeu-lh'o… Esperai-me á nona hora romana no pateo de Gamaliel… Onde ides?
Topsius confessou que iamos ao Templo, por motivos intellectuaes d'arte, d'archeologia…
—Vão é aquelle que admira pedras! rosnou o altivo idealista.
E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as bençãos do povo que crê e ama os Essenios.
* * * * *
Para poupar, até ao Templo, a rude caminhada pelo Tyropêo e pela ponte do Xistus, tomámos duas liteiras—das que um liberto de Poncius ultimamente alugava, junto ao Pretorio, «á moda de Roma».
Cançado, estirei-me, com as mãos sob a nuca, no colchão de folhas seccas que cheirava a murta: e lentamente começou a invadir-me a alma uma inquietação estranha, temerosa, que já no Pretorio me roçára de leve como a aza arripiada d'uma ave agourenta… Ia eu ficar para sempre n'esta cidade forte dos Judeus? Perdera eu irremediavelmente a minha individualidade de Raposo, de catholico, de bacharel, contemporaneo do Times e do Gaz—para me tornar um homem da Antiguidade classica, coevo de Tiberio? E, dado este mirifico retrogresso nos tempos, se voltasse á minha patria, que iria eu encontrar á beira do rio claro?…
Decerto encontraria uma colonia romana: na encosta da collina mais fresca uma edificação de pedra onde vive o proconsul; ao lado um templo pequeno de Apollo ou de Marte coberto de lousa; nos altos um campo entrincheirado onde estão os legionarios; e em redor a villa lusitana, esparsa, com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta, alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde se amarram jangadas… Assim encontraria a minha patria. E que faria lá, pobre, solitario? Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do Templo, racharia a lenha das cohortes para ganhar um salario romano?… Miseria incomparavel!
Mas se ficasse em Jerusalem? Que carreira tomaria n'esta sombria, devota cidade da Asia? Tornar-me-hia um Judeu, resando o Schema, cumprindo o Sabbath, perfumando a barba de nardo, indo preguiçar nos atrios do Templo, seguindo as lições d'um Rabbi, e passeando ás tardes, com um bastão dourado, nos jardins de Gareb entre os tumulos?… E esta existencia igualmente me parecia pavorosa!… Não! a ficar encarcerado no mundo antigo com o doutissimo Topsius, então deveriamos galopar n'essa mesma noite, ao erguer da lua, para Joppé; de lá embarcar em qualquer trirema phenicia que partisse para Italia; e ir habitar Roma, ainda que fosse n'uma das escuras viellas do Velabro, n'uma d'essas altas, fumarentas trapeiras, com duzentas escadas a subir, empestadas pelos guisados d'alho e tripa, que escassamente atravessam duas calendas sem desabar ou arder.
Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei as cortinas; vi ante mim os vastos granitos da muralha do Templo. Penetrámos sob a abobada da porta de Huldah; e fômos logo detidos emquanto os guardas do Templo arrancavam a um pegureiro, teimoso e rude, a clava armada de prégos com que elle queria atravessar o Santuario. O rolante rumor que vinha de longe, dos Atrios, já me atemorisava, semelhante ao d'uma selva ou d'um grande mar irritado…
E ao emergir emfim da abobada estreita agarrei o braço magro do Historiador dos Herodes, no deslumbramento que me tornou, intenso e repassado de terror! Um brilho de neve e ouro vibrava profusamente no ar molle, irradiado dos claros marmores, dos granitos brunidos, dos recamos preciosos banhados pelo divino sol de Nizam. Os lisos pateos que eu de manhã vira desertos, alvejando como a agua quieta d'um lago, desappareciam agora sob o povo que os atulhava, adornado e festivo. Os cheiros estonteavam, acres, emanados dos estofos tingidos, das resinas aromaticas, da gordura frigindo em brazas. Sobre o denso ruido passavam roucos mugidos de bois. E perennemente os fumos votivos se sumiam na refulgencia do céo…
—Caramba! murmurei, enfiado. Isto são magnificencias de entupir!
Fômos penetrando sob os Porticos de Salomão, onde resoava o profano tumulto d'um mercado. Por traz de grossas caixas gradeadas encruzavam-se os Cambistas, com uma moeda d'ouro pendente da orelha entre as melenas sordidas, trocando o dinheiro sacerdotal do Templo pelas moedas pagãs de todas as regiões, de todas as idades, desde as macissas rodellas do velho Lacio mais pesadas que broqueis, até aos tijolos gravados que circulam, como «notas» nas feiras da Assyria. Adiante, brilhava a frescura e abundancia d'um pomar: as romãs, estaladas de maduras, trasbordavam dos gigos: hortelões com um ramo d'amendoeira preso ao carapuço apregoavam grinaldas d'anemonas ou hervas amargas de Paschoa: jarras de leite puro pousavam sobre saccos de lentilha; e os cordeiros, deitados nas lages, amarrados pelas patas ás columnas, balavam tristemente de sêde.
Mas a multidão sobretudo apinhava-se, com suspiros de cubiça, em torno aos tecidos e ás joias. Mercadores das colonias phenicias, das Ilhas gregas, de Tardis, da Mesopotamia, de Tadmor, uns com soberbas simarras de lã bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado, desdobravam os panos azues de Tyro que reproduzem o brilho ardente dos céos do Oriente, as sêdas impudicas de Sheba d'uma transparencia verde que vôa na aragem, e esses estofos solemnes de Babylonia que sempre me extasiavam, negros com largas flôres côr de sangue… Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da Galacia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os seus raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam ao peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos d'antilopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os noivos; e, resguardadas mais preciosamente, talismans e amuletos que me pareciam pueris, pedaços de raizes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos com letras.
Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas apreçando um esplendido bastão de Tylos, d'uma rara madeira mosqueada como a pelle do tigre, mas logo fugimos ao ardente cheiro que alli suffocava, vindo das resinas, das gommas dos paizes dos Negros, dos mólhos de plumas de abestruz, da mirrha d'Oronte, das ceras de Cirenaica, dos oleos rosados de Cysico, e das grandes coifas de pelle d'hyppopotamo cheias de violetas seccas e de folhas de baccaris…
Entrámos então na galeria chamada Real, toda votada á Doutrina e á Lei. Ahi, cada dia, tumultuam rancorosamente as controversias entre Sadduceus, Escribas, Sophorins, Phariseus, sectarios de Schemaia, sectarios de Hillel, Juristas, Grammaticos, fanaticos de toda a terra judaica. Junto ás columnas de marmore installavam-se os Mestres da Lei, sobre altos escabellos, tendo ao lado um prato de metal onde cahiam os óbolos dos fieis: e em torno, encruzados no chão, com as sandalias ao pescoço, as pellicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos joelhos, os discipulos, imberbes ou decrepitos, resmoneavam os dictames balançando os hombros lentos. Aqui e além, no meio de devotos embebidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da Doutrina. «Póde-se comer um ovo de gallinha posto no dia de Sabbath? Por que osso da espinha dorsal começa a Resurreição?» O philosophico Topsius ria, disfarçado n'uma préga da capa: mas eu tremia quando os doutores, escaveirados e barbudos, se ameaçavam, gritavam racca! racca! mergulhando a mão no seio da tunica á procura d'um ferro escondido.
A cada momento cruzavamos esses Phariseus, resoantes e vazios como tambores, que vêm ao Templo assoalhar a sua piedade —uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastidão do peccado humano; outros, tropeçando e apalpando o ar, d'olhos fechados, para não vêr as fórmas impuras das mulheres; alguns mascarrados de cinza, gemendo, com as mãos apertadas sobre o estomago—em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabbi, interpretador de sonhos: n'um carão livido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lampadas de sepulchro: e, sentado sobre saccos de lã, estendia por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nús, a ponta d'um vasto manto negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar—quando de repente gritos afflictos resoaram no atrio. Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que, em estado de impureza, penetrára no pateo de Israel. O sangue salpicava as lages. Em torno crianças riam.
Ia cahindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, pára sobre Jerusalem a contemplal-a com paixão: e, para nos acercarmos do «atrio d'Israel», fomos penosamente fendendo a multidão que alli remoinhava vinda de toda a terra culta e barbara… O rude saião de pelles dos pegureiros das Idumêas roçava a chlamyde curta dos gregos de face rapada e mais brancos que marmores. Havia homens solemnes da planicie de Babylonia, com as barbas mettidas dentro de saccos azues que uma corrente de prata lhes prendia ás mitras de couro pintado: e havia gaulezes ruivos, de bigodes pendentes como as hervas das suas lagôas, que riam e parolavam, devorando com a casca os limões dôces da Syria. Por vezes um romano togado passava, tão grave como se descesse d'um pedestal. Gente da Dacia e da Mysia, com as pernas enfeixadas em ligaduras de feltro, tropeçava deslumbrada pelo claro esplendor dos marmores. E não era menos estranho ir eu, Theodorico Raposo, arrastando alli as minhas botas de montar, atraz d'um Sacerdote de Moloch, enorme e sensual na sua simarra de purpura, que, em meio d'um bando de mercadores de Serepta, desdenhava d'aquelle templo sem imagens, sem bosques, e mais ruidoso que uma feira phenicia.
Assim lentamente nos fomos chegando á porta chamada «A Bella», que dava accesso para o Atrio sagrado d'Israel. Bella em verdade, preciosa e triumphal, sobre os quatorze degraus de marmore verde de Numidia, mosqueado de amarello: os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os d'um reliquario: e os dois humbraes, semelhantes a grossos mólhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes no sol como um collar de gloria sobre o pescoço forte d'um heroe! Mas diante d'este adito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado por uma placa negra com letras d'ouro, onde se desenrolava esta ameaça em grego, em latim, em aramaico, em chaldaico: que nenhum Estrangeiro aqui penetre sob pena de morrer!
Fortunadamente avistámos o magro Gamaliel que se encaminhava ao Santo Pateo, descalço, apertando ao peito um mólho d'espigas votivas: com elle vinha um homem nedio e risonho, de face côr de papoula, coroado por uma enorme mitra de lã negra enfeitada de fios de coral… Curvados até ás lages, saudámos o austero Doutor da Lei. Elle psalmodiou logo, de palpebras cerradas:
—Sêde bemvindos… Esta é a hora melhor para receber a benção do Senhor. O Senhor disse: «sahi das vossas habitações, vinde a mim com as primicias dos vossos fructos, eu vos abençoarei em todas as obras das vossas mãos…» Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi á morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliezer de Silo, benefico e sabio entre todos nas coisas da natureza.
Deu-nos duas espigas de milho: e atraz d'elle pisámos com as nossas solas gentilicas o Adro interdicto de Judá.
Caminhando ao meu lado, Eliezer de Silo, cortez e suave, perguntou-me se era remota a minha patria e perigosos os seus caminhos…
Eu rosnei, vaga e recatadamente:
—Sim… Chegamos de Jerichó.
—Boa, por lá, a colheita do balsamo?
—Rica! afiancei, com calor. Louvado seja o Eterno, que n'este seu anno de graça estamos lá abarrotadinhos de balsamo!
Elle pareceu regosijado. E revelou-me então que era um dos Medicos que residem no Templo—onde os Sacerdotes e os Sacrificadores soffrem perennemente «dissabores intestinaes», por pisarem suados e descalços as lages frias dos Adros.
—Por isso, murmurou elle com uma faisca alegre no olho benigno, o povo em Sião nos chama Doutores da Tripa!
Torci-me de riso, de gozo, com aquella jocosidade assim susurrada na austera morada do Eterno… Depois, recordando os meus dissabores intestinaes em Jerichó, por muito amar os divinos e perfidos melões da Syria—perguntei ao amavel Physico se n'essas occorrencias elle preconisava o bismutho…
O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparavel:
—Tomai gomma de Alexandria, açafrão de jardim, uma cebola da Persia e vinho negro de Emmaus… Misturai, cozei… Deixai esfriar n'um vaso de prata… Collocai-vos n'uma encruzilhada, ao nascer do sol…
Mas emmudeceu subitamente, com os braços abertos e a face pendida para as lages. Penetráramos no soberbo adro, chamado «Pateo das Mulheres»: e n'esse instante terminavam as Bençãos que á sexta hora um sacerdote vem alli derramar do alto da porta de Nicanor.
Severa, toda de bronze—ella deixava entrevêr, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do Santuario refulgindo com serenidade… Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas collegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco—uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de lyras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emmaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão…
A sua tunica justa de byssus tinha a fimbria orlada de pinhas d'esmeralda, alternando com guizos que tiniam finamente; os pés sem sandalias e tingidos d'heneh pareciam de coral; e ao meio da facha que lhe cingia as costellas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fieis ajoelhados, quedos, sem um murmurio, quasi pousavam nas lages a cabeça escondida sob os mantos e sob os véos: e com as côres festivas, onde dominava o vermelho da anemona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de flôres e folhagens, n'uma manhã de triumpho, para passar Salomão!
Com a barba aguda e dura levantada aos céos—o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do Occidente e dos mares; e o recolhimento era tão enlevado que se ouviam no fundo do Santuario os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de joias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol—e com o fumo branco veio rolando tenue e cheirosa, sobre Israel, a benção do Muito-Forte. Então os levitas, unisonamente, feriram as cordas das lyras: das trombetas curvas subiu um grito de bronze: e todo o povo erguido, com os braços ao céo, entoou um psalmo celebrando a eternidade de Judá… E subitamente tudo cessou: os Levitas recolhiam pela escadaria de marmore sem um rumor dos pés nús: Eliezer de Silo e o rigido Gamaliel tinham desapparecido sob os Porticos: e o claro pateo em redor resplandecia sumptuoso e cheio de mulheres.
Os revestimentos de alabastro eram tão lustrosos que Topsius mirava n'elles como n'um espelho as pregas nobres da sua capa: todos os fructos da Asia e as flôres dos vergeis se entrelaçavam, em copiosos lavores de prata, nas portas das camaras rituaes onde se perfuma o oleo, se consagra a lenha, se purifica a lepra: entre as columnas pendiam em festões fios grossos de perolas e de contas d'onyx, mais numerosos que no peito de uma noiva: e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra colossaes, pousadas nas lages, enrolavam-se, scintillando e reclamando as dadivas, inscripções em relevo de ouro, graciosas como versos de canticos—Queimai Incensos e Nardos, Offertai Pombas e Rôlas…
Mas o santo adro resplandecia de mulheres: e meus olhos bem depressa deixaram metaes e marmores, para captivadamente se prenderem áquellas filhas de Jerusalem, cheias de graça e morenas como as tendas do Cedar! Todas traziam no Templo o rosto descoberto: ou apenas um fôfo véo, d'uma musselina leve como o ar, á moda romana, enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das faces uma alvura d'espuma, onde os olhos negros tomavam um quebranto mais humido, enlanguecidos pelas densas pestanas, alongados pela tintura de cypro. A abundancia barbara dos ouros, das pedrarias, envolvia-as n'uma radiancia tremula desde os peitos fortes até aos cabellos mais crespos que a lã das cabras de Galaad. As sandalias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lages uma melodia argentina, tanta era a graça concertada dos seus movimentos ondulados e graves: e os tecidos bordados, os algodões de Galacia, os finos linhos de côres que as cingiam, ensopados nas escencias ardentes d'ambar, de malobathro e de baccaris, enchiam o ar de fragancia e de molleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam solemnemente entre escravas vestidas de panos amarellos, que lhes traziam o párasol de pennas de pavão, os rolos devotos em que está escripta a Lei, saccos de tamaras dôces, espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples camisa de algodão de riscadinho multicôr, e sem mais joias que um rude talisman de coral, corriam, chalravam, mostrando nús os braços e o collo côr de medronho mal maduro… E sobre todas o meu desejo zumbia—como uma abelha que hesita entre flôres de igual doçura!
—Ai Topsius, Topsius! rosnava eu. Que mulheres! Que mulheres! Eu estoiro, esclarecido amigo!
O sabio affirmava com desdem que ellas não tinham mais intellectualidade que os pavões dos jardins d'Antipas; e que nenhuma decerto alli lêra Aristoteles ou Sophocles!… Eu encolhia os hombros. Oh esplendor dos céos! por qual d'estas mulheres que não lêra Sophocles não daria eu, se fosse Cesar, uma cidade de Italia e toda a Iberia! Umas entonteciam-me pela sua graça dolente e macerada de virgens de devoção, vivendo na penumbra constante dos quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes, a alma esmagada de orações. Outras deslumbravam-me pela sumptuosidade solida e succulenta da sua belleza. Que largos, escuros olhos d'idolos! Que claros, macios membros de marmore! Que sombria molleza! Que nudezes magnificas, quando á beira do leito baixo se lhes desenrolassem os cabellos pesados, e fossem dôcemente escorregando os véos e os linhos de Galacia!…
Foi necessario que Topsius me arrastasse pelo albornoz para a escadaria de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando para traz os olhos esbrazeados, resfolgando como um touro em maio nas lezirias.
—Ai, filhinhas de Sião! Que sois de vos deixar aqui os miolos!
Ao voltar-me, puxado pelo douto Historiador, bati no focinho d'um cordeiro branco que um velho conduzia ás costas, amarrado pelas patas e enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa balaustrada de cédro lavrado—onde uma cancella toda de prata, aberta e lassa nos seus gonzos, se movia em silencio, faiscando.
—É aqui, disse o erudito Topsius, que se dão a beber as aguas amargas ás mulheres adulteras… E agora, D. Raposo, ahi tem Israel adorando o seu Deus.
Era emfim o Adro Sacerdotal! E eu estremeci diante d'aquelle Santuario entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do vasto e claro terrado erguia-se, feito de enormes pedras negras, o altar dos Holocaustos: aos seus cantos enristavam-se quatro cornos de bronze; d'um pendiam grinaldas de lirios; d'outros fios de coraes; o outro pingava sangue. Da immensa grelha do altar subia uma fumaça avermelhada e lenta: e em redor apinhavam-se os Sacrificadores, descalços, todos de branco—com forquilhas de bronze nas mãos pallidas, espetos de prata, facas passadas nos cintos côr de céo… No afanoso, severo rumôr do ceremonial sacrosanto confundia-se o balar de cordeiros, o som argentino de pratos, o crepitar das lenhas, as pancadas surdas de malho, o cantar lento da agua em bacias de marmore, e o estridor das bozinas. Apesar dos aromaticos que ardiam em caçoulas, das longas ventarolas de folhas de palmeira com que os serventes agitavam o ar, eu puz o lenço na face, enjoado com esse cheiro molle de carne crua, de sangue, de gordura frita e de açafrão, que o Senhor reclamou a Moysés como o dom melhor a receber da Terra…
Ao fundo, bois enfeitados de flôres, vitellas brancas com os cornos dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que os prendiam a fortes argolas de bronze: mais longe, sobre mesas de marmore, entre pedaços de gêlo, pousavam, vermelhas e sangrentas, grossas peças de carne, sobre que os levitas balançavam leques de pennas para afugentar os moscardos. De columnas rematadas por faiscantes globos de crystal, pendiam cordeiros mortos, que os Netenins, resguardados por aventaes de couro cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata: emquanto os victimarios de saião azul, retesando os braços, conduziam baldes d'onde trasbordavam e iam arrastando entranhas. Coroados por uma mitra redonda de metal, escravos idumeos constantemente limpavam as lages com esponjas: alguns vergavam sob mólhos de lenha; outros, agachados, sopravam fogareiros de pedra.
A cada momento algum velho Sacrificador, descalço, marchava para o altar, trazendo ao collo um anho tenro que não balava, contente e quente entre os dois braços nús: um tocador de lyra precedia-o: levitas atraz transportavam os jarros d'oleos aromaticos. Em frente á ara, rodeado de Acolytos, o Sacrificador lançava sobre o cordeiro um punhado de sal; depois, psalmodiando, cortava-lhe uma pouca de lã entre os cornos. As bozinas resoavam; um grito d'animal ferido perdia-se no tumulto sacro; por cima das tiáras brancas duas mãos vermelhas erguiam-se ao ar sacudindo sangue; da grelha do altar resaltava, avivada pelos oleos e pela gordura, uma chamma d'alegria e de offerta; e o fumo avermelhado e lento ascendia serenamente ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que deleita o Eterno.
—É um talho! murmurei eu, aturdido. É um talho! Topsius, doutor, vamos outra vez lá baixo ás mulherinhas…
O sabio olhou para o sol. Depois, gravemente, pousando-me no hombro a mão amiga:
—É quasi a nona hora, D. Raposo!… E temos de ir fóra da Porta Judiciaria, para além do Gareb, a um sitio agreste que se chama o Calvario.
Empallideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha alma, nenhuma inesperada acquisição enriqueceria o saber de Topsius—por irmos contemplar no alto d'um morro, entre urzes, Jesus atado a um madeiro e soffrendo: era apenas um tormento para a nossa sensibilidade! Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das Aguas, que leva ao largo lageado de basalto onde começam as primeiras casas d'Acra. Visinhas do Santuario, habitadas por Sacerdotes, ellas ostentavam uma profusa devoção Paschal, em palmas, lampadas, alcatifas penduradas dos eirados: e algumas tinham os hombraes salpicados com o sangue fresco d'um anho.
Antes de penetrar n'uma sordida, andrajosa rua que se ia torcendo sob velhos toldes de esparto, voltei-me para o Templo: agora só via a immensa muralha de granito, com bastiões no alto, sombria e inderrubavel: e a arrogancia da sua força e da sua eternidade encheu de cólera o meu coração. Emquanto sobre uma collina de morte, destinada aos escravos, o homem de Galilêa, incomparavel amigo dos homens, arrefecia na sua cruz, e para sempre se apagava aquella pura voz de amor e d'espiritualidade— alli ficava o Templo que o matava, rutilante e triumphal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sophismas, a usura sob os Porticos, o sangue sobre as Aras, a iniquidade do seu duro orgulho, a importunidade do seu perenne incenso… Então, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jehovah e á sua cidadella, e bradei:
—Arrasados sejaes!
* * * * *
Não descerrei mais os labios sêccos até chegarmos á estreita porta nas muralhas de Ezekiah, que os Romanos denominavam a Judiciaria. E logo ahi estremeci, vendo collado n'um pilar de pedra um pergaminho com três sentenças transcriptas—«a d'um ladrão de Bettebara, a d'um assassino de Emath, e a de Jesus de Galilêa!» O escriba do Sanhedrin, que conforme á Lei alli vigiára para recolher, até que os condemnados passassem, algum inesperado testemunho d'inculpabilidade, ia partir, com os seus tabularios debaixo do braço, depois de traçar sobre cada sentença um grosso risco vermelho. E aquelle córte final, côr de sangue, passado á pressa por um escripturario que recolhia contente á sua morada, a comer o seu anho, commoveu-me mais que a melancolia dos Livros Santos.
Sebes de cactos em flôr bordavam a estrada; e para além eram verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo alli resplandecia, festivo e pacifico. Á sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos d'alfazema e manjerona que se offerecem na Paschoa: e crianças em redor, com o pescoço carregado d'amuletos de coral, balouçavam-se em cordas, atiravam á setta… Pela estrada descia uma fila de lentos dromedarios levando mercadorias para Joppé: dois homens robustos recolhiam da caça, com altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhe a côxa, uma rede atirada para as costas, e os braços carregados de perdizes e d'abutres amarrados pelas patas: e diante de nós caminhava devagar, apoiado ao hombro d'uma criança que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lyra grega de cinco cordas, e sobre a fronte uma corôa de louro…
Ao fundo d'um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante d'uma cancella pintada de vermelho, dois servos esperavam, sentados n'um tronco cahido, com os olhos baixos e as mãos sobre os joelhos. Topsius parou, puxou-me o albornoz:
—É este o horto de José de Ramatha, um amigo de Jesus, membro do
Sanhedrin, homem d'espirito inquieto, que se inclina para os Essenios…
E justamente, ahi vem Gad!
Do fundo do horto, com effeito, por uma rua de murta e rosas, Gad descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vime enfiados n'um pau. Parámos.
—O Rabbi? gritou-lhe o alto Historiador, transpondo a cancella.
O Essenio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de myrrha e d'hervas aromaticas; e ficou diante de nós um momento, tremulo, suffocado, com a mão fortemente pousada sobre o coração para lhe serenar a anciedade.