Ao Entardecer
Capítulo III
De vez em quando, lá se destaca um boi e busca voltar á margem segura e protectora, ou então roda de uma vez, embrulhado pela violenta corrente do Paranahyba.
Levanta-se então brado de interesseira angustia e gananciado desespero, não de piedade pela triste victima:—Lá vai um; lá vão dous!—E os camaradas azafamados apressam, com gestos e clamores a mais e mais, a passagem, até que o guia tome pé na borda de lá.
Em cima logo do porto de Santa Rita de Cassia, uma esplanadasinha de grama verde e folhuda, largo fechado nos tres lados por linhas de pobres casinhas terreas, algumas de telha, quasi todas de sapê.
No fundo, frente para o rio, a matriz, uma igrejasinha baixa, rebocada de annos a annos, com um sino rachado á esquerda, suspenso a uma especie de telheiro acaçapado, a cahir de podre.
E, ao redor da praça, assim pomposamente chrismada, estendendo-se para aqui e acolá caprichosamente, umas moradasinhas, quasi sempre de porta e duas janellas desguarnecidas de vidraças, moradasinhas bem caiadas e alvas, encravadas em copado laranjal. Entre si, communicam por tortuosas trilhas, que no tempo da florescencia ficam embalsamadas a pôr tonto um christão.
Nessas larangeiras canta pela manhã e á tarde um mundo de maviosos sabiás, a que respondem os bandos de afinados e sibilantes caraúnas pousados nas palmeiras indaiás, que alli ficaram da primitiva floresta virgem.
III
Cheia de travessuras no jaez das esboçadas foi, até quasi fazer-se moça, a existencia toda da Angelica, além de uma ou outra façanha de mais vulto, por exemplo, ir vagabundear, dias seguidos, da banda de lá do rio.
—Nossa Senhora da Abbadia, bradava D. Cula angustiada, sahindo da habitual pasmaceira, não é que a menina se passou para as Geraes?!
Do outro lado, com effeito, de Paranahyba, fica o triangulo mineiro, habitado por povos sérios, de certo, e pacificos, mas muito retrahidos e com cara de poucos amigos.
Afinal, reapparecia a Ciganinha.
—Onde andaste, ménina dos meus peccados? indagava a desconsolada mãi.
—Ora, respondia a damnadinha, estive correndo mundo, assumptando, vendo...
—Mas, rapariga dos seiscentos, com quem, minha Santa Maria?
—Com o José Bexiguento, o filho da portugueza. Quiz, certo dia, fazer-se de engraçado commigo; mas dei-lhe logo tal safanão, que d’ahi por diante andou direitinho que nem um fuso.
Embora aos 16 annos, tinha ella, ainda que mais assentada de juizo, pessima reputação; gozava de pessima reputação, dizem até bons classicos.
E bonita como mil peccados em penca, buliçosa, suggestiva, a pôr faulhas de ardente cobiça nos olhos dos mais indifferentes e quietos.
Cabellos negros, bastos, então mais cuidados e lustrosos, mas sempre com a sua florsinha, de preferencia vermelha, cabellos ondeados, com uns crespinhos rebeldes na testa e na nuca roliça; rosto para o comprido, n’um oval regular e como que fechado por encantadora covinha no queixo; tez não muito morena, tanto assim que bem largas sardas lembravam as grandes soalheiras de outr’ora, apanhadas em criança; sobrancelhas de japoneza; olhos enormes, negros, rutilantes, avelludados, com uns cilios que punham sombra ás atrigueiradas faces em que florescia suave rubidez; labios humidos, polposos, com o brilho de romã entre aberta, n’um arco deliciosamente desenhado, orelhas pequeninas, como conchinhas nacaradas.
E que elegancia nativa e senhoril no porte; que collo soberbo, cintura fina, estatura mais que meiã—emfim, um todo, um conjuncto de fazer peccar Santo Antão, na sua gruta da Thebaida.
Namoradeira como tudo, a Gêgéca; muito ufana da sua belleza, dos seus encantos, mas acceitando a côrte e as homenagens de qualquer pé rapado.
A rapaziada de Santa Rita de Cassia e dos arredores umas 20 leguas andava tonta, n’um rodopio.
Ao lusco-fusco, um corisco a diabinha, sempre á cata de aventuras banaes, que sabia, porém, conter nos justos limites, avisada, aliás, a cada instante pela voz arrastada, plangente da mãe, como agoureiro pregão:
—Ménina, vancé se perde... Tanto vai o pote ao rio... Proteja-nos... Santo Christo dos Milagres.
—Conheço o caminho, respondia a Ciganinha e não me hei de perder assim com duas razões... Estou traquejada na estrada e no atalho...
—«Lá vai a pestesinha», dizia-se ao lobrigar sobre tarde uma sombrinha airosa, esbelta, esgueirando-se, sem grandes mysterios, aliás, por baixo dos laranjaes. Ia até ás vezes cantarolando, com andar leve, mas seguro e firme. E ouviam-se as gargalhadas de escarneo, que dava lá debaixo das suas laranjeiras.
Com impudencia sem par contava as bobagens que lhe haviam dito fulano e sicrano, o tropeiro Vargas, o arrieiro Thomé do Valle, o mascate José de Italia e mais este e mais aquelle, um povaréo grosso, emfim.
E imitava, com muita graça e valente debique, os protestos de amor eterno, as declarações ardentes e claras ou timidas e ridiculas, o gaguejado de quasi todos os pretendentes, os seus ademanes desengonçados. E concluia:
—Que pagode!
Todos lhe apontavam mil amantes; mas ninguem podia gabar-se de o haver sido. O filho do Manéca Fructuoso fôra já á cama doente de paixão. Debalde fizera valer o caso do olho quasi vasado pela laranja verde. A Ciganinha, sem compaixão, motejava do seu triste estado, no passado e no presente.
—Um palerma, dizia desfazendo-se em crystalina e adoravel gargalhada, que a tornava ainda mais irresistivel. Já me falou em casamento, como se fosse um favorão, algum bicho de sete cabeças... Tão bom, como tão bom... Que é elle, afinal? Filho de um empalamado...
E continuava a dar escandalosa corda a quantos lhe arrastavam a aza, quer moço do povoado, quer adventicio e de passagem por Santa Rita.
—Essa rapariga é uma perdição, affirmava com pausa e todo convicto o José Bispo, da venda.
Perdição ou não, estava sempre a Gêgéca prompta para as entrevistas vespertinas, a que ia sem susto, sósinha, com a galhardia de se sahir sempre bem, incolume e a contento da altiva consciencia.
E uma vez ou outra pescava uns presentesinhos, córtes de vestidos de chita franceza e até de cassinha, lençosinhos bordados ou de seda, garrafinhas e frascos de oleo fino para o cabello, ou perfumes em moda entre as senhoras donas do Rio de Janeiro, da côrte, o que tudo aceitava, não por interesse, mas para obsequiar, muito instada e rogada—uma lembrançasinha sem valor daquella tarde... E accentuava a lembrança da tal tarde com um aperto de mão mais forte, que nada significava, mas que a fazia desprender-se e fugir ás carreiras pelo laranjal afóra.
Puzera-se tambem a trabalhar, e, ligeira como era, ajudava com muito geito e bom resultado a pachorrenta da mãe. Ninguem resistia ao seu sorriso, quando offerecia, convidativa e meiga, um docesinho de seu taboleiro.
Um viajante, que por alli pousou com grande estado, da familia até dos Jardins, salvo engano, chegou a pagar uma cocadasinha puxapuxa com uns brincos de pedrinhas verdadeiras, amarellas, muito vistosas; tudo desinteressadamente e por achal-a bonita devéras, como não vira igual nem em S. Paulo, nem na Capital Federal. Tambem essa fama de formosura enchia o sertão todo.