Ao Entardecer
Capítulo VI
—Não nasci para os teus beiços, gallego, porco, ladrão, tinhoso!
E as palavras sibilavam, ardentes, cuspidas com nausea, o corpo derreado para traz em disposição de resistencia a todo o transe, e até ao ultimo alento, lucta de morte.
Procurava José Bispo, vermelho, apoplectico de furor e volupia, enlaçal-a pela cintura com o braço livre. Ia a dar-lhe o fatal cambapé.
Foi quando a ciganinha, com inopinado movimento de mergulho, agachou-se rapida. Ao erguer-se, trazia na mão direita uma grande pedra providencialmente achada aos seus pés e, sem perder um segundo, com ella bateu por modo tão brusco e contundente nos peitos de José Bispo, que este a largou, soltando um grito de surpreza e dor.
Era quanto bastava.
Fuzilou a Gêgéca pelo cerrado afóra; mas á distancia parou e, pondo os dedos nos cantos da bocca, atirou aos ares calmos e amornados uns assovios tão finos, agudos e penetrantes, que a mataria já adormecida pareceu sobresaltar-se. Respondeu-lhes, á margem do Paranahyba, a assustada grita dos bulhentos e mettidiços queroqueros, de subito alvoroçados.
Ao chegar á casa, toda fóra de si, arquejando de susto e de cansaço, abraçou a ciganinha a mãi com angustiada vehemencia e, deixando-se cahir de joelhos, prorompeu em longo e nervoso pranto.
Debalde tentou D. Cula saber o motivo. Afinal, suspeitando o que não era real, triste e resignada, chorou ao lado da filha até alta noite.
Meu Deus, meu Deus, que será de nós? exclamava a cada instante.
VI
Da terrivel aventura não disse a ciganinha palavra a ninguem.
Tornou-se, porém, apprehensiva, muito mais prudente e não era assim com duas razões que ia espairecer e dar um bocadinho de tréla aos rapazes, lá debaixo das laranjeiras.
Preferia longos passeios sósinha, por caminhos e atalhos só della conhecidos, mas, apenas começavam, lá pelas 5 da tarde, a desfilar nos ares os bandos de pombos torquazes, buscando sempre inquietos e como que irresolutos até no vôo, o pouso para a noite, tambem se encafuava acautelada em casa, na capuába da boa mamãe.
Ficára retrahida, inquieta, menos confiante nos seus meios physicos de repulsa a tentativas de desacato.
Se se mostrava mais attenta aos requebros e protestos de dous ou tres, era para tel-os á mão, como especie de guardas vigilantes, o que desapontava não pouco os namorados de mais fresca data, obrigados a gaguejar as suas declarações de paixão, quasi á vista de uns estafermos, sorumbaticos, estatelados de tanto amor e estorvadores de profissão.
Do filho do Manéca Fructuoso, o tal do olho meio varado por uma laranja verde, fizera Gêgéca gato sapato. A tudo se prestava o pobre do trangola, macilento apalermado, comtanto que lhe fosse permittido respirar perto de quem lhe comera a alma, na energica expressão sertaneja.
—O Malaquias da boiada chegada hontem, e o Fortunato da tropa do Chico ricasso, dizia-lhe a ciganinha, querem por força falar commigo, cousa de segredo. Quando o sol se metter na matta, venha me buscar, ouviu, Nhonhô?
—Pois não, Gêgéca, vancé manda...
E o Malaquias da boiada e o Fortunato da tropa ficavam, cada qual por seu turno, todo embabocados e desageitosos, ao verem surgir ao lado da gentil apparição, anciosamente esperada, o typo escaniçado, muito comprido e ridiculo d’aquelle patito do sertão, o nosso Nhonhô Fructuoso.
—É excusado; com a Gêgéca ninguem póde, era voz corrente em todo o povoado de Santa Rita.
E tal ou qual prestigio mystico a rodeava, pois accrescentavam a meia voz:
—Tem partes com o anhanega e o sacisé réré; anda de pandega com currupiras e boitatás. Não poucos podem jural-o aos Santos Evangelhos.
Talvez por isso, mas muito mais pelos seus olhos a luzirem como brilhantes negros, entre orlas de cabelludas pestanas, pelo seu narizinho espirituoso, um nadinha arrebitado na ponta, pelas faces pennujadinhas como pecego do cerrado, tão bonito no avelludado aspecto como feio no nome (chamam-n’o cagaiteira), pelo seu corpo esbelto, cheio, promettedor de mil thesouros, andava positivamente tonta, de miolo virado, toda a rapaziada d’aquelles centros.
Não havia quem não parasse diante da chóça de D. Cula e, puxando logo conversa, deixasse de comprar sem vontade mesmo, nem olhar a preço, todas as brevidades e ingenuas golosinas do interior, alli expostas á venda. Florescia então por tal modo o negocio, que as duas mulheres já podiam vestir com certa casquilhice umas saias de babados grandes de bom crivo, e traziam sobre os hombros lenços finos de seda, barreados de azul, e aos pés uns chinellinhos de couro de veado, enfeitados de debrum vermelho.
Não havia cocada, mãe benta, manaoé ou pé de moleque que parasse. Além do que comiam, levavam os tropeiros lenços cheios —um nunca acabar—e voltavam logo a pedir mais, só por causa do dedosinho de gostosa prosa e contemplação.
E a ciganinha a vender tudo á porta da choupana materna, com muito bons modos, risonha, escorreita, prompta á replica e rebatendo, habil esgrimista, os cumprimentos demasiado ardentes á sua formosura—legitima e bem instinctiva loureira, na sua Santa Rita do Paranahyba, como a mais sabida a calculista americana do Norte n’esse incessante duello de faceirice e esquivanças dos brilhantes salões de Washington e Nova-York.
Nem tardou a suprema e estrondosa consagração, dada pelas trovas do João Valentim, o sabiá gogano, n’uma festa, quasi cururú, que chamara á localidade muito povo de umas 30 leguas em torno.