Aquela Família
Eureka!
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Eureka!
"—Je vous demande pardon: vous étes bien monsieur Boubouroche?"
COURTELINE.
ACTO I
No escritorio dum advogado.
O CLIENTE
C HAMO-ME Teodorico da Silva, negociante, com estabelecimento de bebidas...
O ADVOGADO
Sim senhor. Faz o obséquio de sentar-se.
O CLIENTE
O meu caso é simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro caixeiro da casa.{116}
O ADVOGADO
É então uma acção de divorcio que o senhor deseja intentar?...
O CLIENTE, presuroso:
Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (Pausa). Eu me explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou tambêm um temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso, por exemplo, ver sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha vida—e já tenho cincoenta anos— peguei numa arma! Isto tudo vem para lhe explicar o motivo porque não matei minha mulher ontem à noite quando entrei em casa e a vi com êle, em doce colóquio amoroso, mais que amoroso! sôbre um canapé de estimação...
O ADVOGADO, interessado:
Sim senhor.
O CLIENTE
Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes, preciso evidentemente{117} dar uma satisfação ao mundo, que seja, ao mesmo tempo, uma satisfação à minha consciência. Posta de parte, pois, a ideia duma solução violenta, resta-me, claro, essa a que V. Ex.ª se referiu há pouco, isto é—o divorcio.
O ADVOGADO, interessadíssimo:
Sim senhor...
O CLIENTE
Mas o senhor não sabe—porque não é casado—o que são vinte e tantos anos passados com uma mulher...
O ADVOGADO, impressionado:
Faço ideia...
O CLIENTE
Não. V. Ex.ª não póde fazer ideia. É tudo a prender-nos, sabe? É a companhia, as inclinações, o paladar... Emfim, em conclusão, o divorcio por coisa nenhuma deste mundo.
O ADVOGADO, cofia a barba e medita apreensivamente no caso.
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O CLIENTE
Pensei então noutra coisa...
O ADVOGADO, ancioso:
Diga!
O CLIENTE
Pensei então em despedir o caixeiro. (Sinal de aprovação do advogado). Mas aqui outro grave obstáculo se levanta! O caixeiro é um antigo empregado da casa, muito conhecedor do assunto; é êle, póde dizer-se, a alma do negócio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por água abaixo... sem apelação!
Ficam os dois calados. Ouve-se a respiração alta do cliente, como um estertor.
O ADVOGADO, erguendo-se:
Pois meu caro amigo, visto isso, não sei; não sei o que deva dizer-lhe... (Estende-lhe a mão pesaroso). O melhor de tudo é ter paciência: a paciência é uma virtude...{119}
O CLIENTE, desalentado:
E o mundo? E então o mundo o que dirá? o que dirá?
O ADVOGADO
O mundo dirá que o meu amigo é uma excelente pessoa, que sua mulher foi uma ingrata em lhe fazer o que lhe fez...