Aquela Família
Laboratorio
Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho, rosnou por entre dentes:{49}
—Boa viagem!...
Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,— das minhas...
Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.
Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.
Coisa esquisita!
Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu! teria rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das trovoadas?
Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que mais não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro duma rajada acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.
Mas...—protestava uma voz do fundo{50} de todo o meu ser angustiado—o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sôbre o meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir!
Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da evidência e da subtil análise, o que êsse insignificante valia por dentro—como homem e como divindade!
Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento, quebrando-me as forças, jugulando-me,—nem que alguma poderosa mão invisível estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à primeira voz.
—Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!{51}
E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais cariciosa das maneiras:
—E que me diz o meu amigo do tempo?...
Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a surpreza que a pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro (ou o termómetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador. Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe na intimidade... Que bom! Que pechincha!
Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a dentro com os braços no ar, exclamando:
—Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?
Fitámo-lo surpresos.{52}
Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.
—Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem encobrir o seu mau humor.
E o outro, com muitos gestos, esbaforido:
—O ministério! caiu o ministério!
E sentou-se por já não poder.
Anselmo largou a espátula:
—Que me diz?!
—Olhe, veja!...—murmurou sufocado.
E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho: «ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais!
Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha da porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça, doido com a história.
—Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco!{53}
E esfregava as mãos de contente.
—Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que se vai ver o que é governar!
O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes, vociferando:
—Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer, tudo! E eu, e você, e os mais,—os que trabalhâmos —a pagarmos para aqueles piratas!
Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que prosseguia irado, numa linguagem perversa:
—Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!
E já frenético, em altos gritos:
—É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!
Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta, enxotava, explicando:
—Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se embora!
Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para dentro, pelos vidros{54} da outra porta,—a ver se via o ministério no chão...
A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim tão de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria balela?
O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que quem governava não era o Zé Luciano: era a mulher.
Tomou fôlego, prosseguiu:
—Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o outro... (fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha, nem sequer tínhamos um presidente do conselho em termos de se apresentar! Uma vergonha!
Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.
—Olha o Teotónio! Você aí!—disse, dando por mim.—Desculpe, não tinha reparado... Então que diz a isto?
—Eu?...{55}
—Sim, que diz você a isto?
Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle:
—Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas alturas foi a sorte grande para o país!
Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:
—É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a câmara. Creio que agora...
—Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto—o que eu quero é que me deixem. Teem aí muita gente...
Menezes não via, não achava:
—Muita gente! Aonde?...
Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir:
—Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes...
—Diga, diga! aprovou êste.
—É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr. Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade{56} e proficiência o papel de presidente do município.
—Apoiado!
—Haja em vista,—justifiquei, voltando-me para êle,—o que V. Ex.ª fez da outra vez por ocasião da gréve das leiteiras!
—Ora, ora...—desdenhou Anselmo.
—É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.—Está na memoria de todos. De todos!—repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.
—Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes acontecimentos. Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos de dias!
—Um alimento de primeira necessidade...—avolumou o jornalista.
—Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu. Lembro-me como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que V. Ex.ª sossegou a população, declarando que uma gréve dessa natureza seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite, fôsse feita pelas próprias vacas...{57}
—Sim senhor...—confirmou o Menezes.—Lembro-me perfeitamente; eu tambêm lá estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia...
—Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o melhoramento entre nós do carro do lixo?
Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:
—A êle!
—A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?
—A êle!
—A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?
—A êle! a êle só!
—Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!—bradou o boticário rialmente confundido, levando as mãos ao crâneo—Eu sou um humilde trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os amigos. Nada mais!
—Êsse pouco...
—Mas quanto a política, francamente, confesso—estou farto; estou farto dela até aos olhos!{58}
—Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes, piscando-me o ôlho.—Olha quem, o régulo!
Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás afogueado:
—Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro?
Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto, num gesto omnipotente, informou:
—Desce!
—Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!
E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.
Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a opinião autorisada e justa...
Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com efeito um extravagante acontecimento.
Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não sabia mesmo{59} se aquele facto, na aparência sensacional, representava uma vantagem ou um inconveniente para o país. Não me encontrára jámais inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um franquista, um progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa nenhuma—que é para o que eu me sinto rialmente com vocação...
Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha animado de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que—seja dito de passagem—significava uma grande segurança para a inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razão.
Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria satisfeito.
—Mas porque caíria o Hintze? indaguei.
Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:
—O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto aqui para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais nas{60} condições de que o João Franco. O João Franco é um valente! Se lhe constar, verbi gratia, estando aqui, que lá fóra a uma esquina há um homem com um cacete á espera dêle—acredite—é quando lá passa mais depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!
Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E quando Anselmo terminou:
—Efectivamente, o João Franco...
Anselmo benzeu-se:
—Ah! meu amigo: é um colôsso!
Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada preparada. Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar o hino da carta.
—Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?
—Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto.
—Parece.
—E brioso; um cavalheiro.
—Parece.{61}
—Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto...
—O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro!
—É. O sr. fala-lhe?
—Ás vezes, por cortesia...
—Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine! —do Navarro, do Emídio Navarro!
—Patife!
—... que tinha vindo nas Novidades já não sei há quantos anos, e que o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.
—Patife! patife!
—O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos—êle que é um esturrado!—agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma destas coças...
—Bem feito.
—De manhã já o Menezes aqui me tinha{62} dito a mim, furioso: «Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um côrno».—Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho.
—Anda-me.
—No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem!
Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.
E com pesar:
—Já não vai; paciência!
—É pena.
—Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...—e beliscava o lóbulo da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o polegar e o índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma pontinha de malicia nos olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma coisa fica. Não temêmos, porêm, etc., etc., etc....» Repare agora: «Os aleives resvalam na consciência dos justos como zagalotes no aço.» (Anselmo sublinhava: como zagalotes no aço...). «Todo o mundo sabe que só{63} usamos o que nos pertence...» (Piscadela de ôlho do Anselmo) «Não costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos ou as joias das amantes: Meneses dos Santos».
—Isso é medonho! comentei.
Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:
—«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do notário... Genial! genial!
Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao procedimento do Souto, que fôra indecente.
A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o com a vista, distraído.
—Então sempre vai amanhã? perguntou-me.
—Sempre vou amanhã.
—Pois o tempo está firme. A coluna desceu, mas descance que não há-de haver novidade. Isto conserva-se.
Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:{64}
—Pode ir descançado...
—O sr. Anselmo não quer para lá nada?—perguntei.
—Não; quero que tenha muita saúde.
Fitou-me carinhosamente:
—E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um abraço.
Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me; e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.
—Até à volta!
—Até à volta!...
O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo à porta, dizia-me adeus de lá,—com a mão...{65}