As Cartas de Amabed

Voltaire · Capítulo 2 de 2

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As Cartas de Amabed

Quarta Carta

de Amabed a Xastasid

 

Do cabo a que chamam da Boa Esperança, a 15 do mês do rinoceronte.

Há muito que não estendo minhas folhas de algodão sobre uma prancha, nem mergulho o pincel na laca negra líquida, para te fazer um fiel relato de nossa vida. Deixamos atrás o golfo de Bab-el-Mandeb, que entra no famoso Mar Vermelho, cujas ondas outrora se apartavam, acumulando-se como montanhas, para que passasse Baco com o seu exército. Lamentava que não houvéssemos aportado às costas da Arábia Feliz, esse país quase tão belo como o nosso, e no qual Alexandre queria estabelecer a sede do seu império e o entreposto comercial do mundo. Desejaria ver esse Áden ou Éden, cujos jardins sagrados foram tão famosos na antigüidade; essa Moca famosa pelo seu café, que até hoje só ali é produzido; Meca, onde o grande profeta dos muçulmanos estabeleceu a sede do seu império, e onde tantos povos da Ásia, da África e da Europa vêm todos os anos beijar uma pedra negra caída do céu, que não manda todos os dias essas pedras aos mortais; mas não nos é permitido satisfazer a curiosidade. Navegamos sempre e sempre para ir a Lisboa, e dali a Roma.

Já passamos alinha equinocial; desembarcamos no reino de Melinde, onde os portugueses têm um porto considerável. Nossa equipagem ali embarcou marfim, âmbar cinzento, cobre, prata e ouro. Eis-nos chegados ao grande cabo: é a terra dos hotentotes. Essa gente não parece descender dos filhos de Brama. Ali a natureza deu às mulheres um avental formado pela sua pele; esse avental cobre o seu tesouro, de que os hotentotes são idólatras e para o qual fazem madrigais e canções. Andam completamente nus. Essa moda é muito natural; mas não me parece nem correta nem hábil. Um hotentote é muito infeliz; nada mais tem que desejar, depois que viu a sua hotentote por diante e por trás. Falta-lhe o encanto dos obstáculos. Não há mais nada de picante para ele. Os vestidos de nossas indianas, inventados para serem erguidos, denotam um gênio bastante superior. Estou persuadido de que o sábio hindu, a quem devemos o jogo do xadrez e o do trique-traque, inventou também a indumentária das damas, para felicidade nossa.

Ficaremos dois dias neste cabo, que é o marco do mundo e que parece separar o Oriente do Ocidente. Quanto mais reflito sobre a cor destes povos, sobre o murmurejo de que se servem para se fazerem entender, em vez de uma linguagem articulada, sobre o seu aspecto, sobre o avental de suas damas, mais me convenço de que tal raça não pode ter a mesma origem que a nossa. Seria o mesmo que dizer que as galinhas, as árvores e a relva deste país provém das galinhas, das árvores e da relva de Benares ou de Pequim.

 

QUINTA CARTA

de Amabed

 

16 à noite, no cabo chamado da Boa Esperança.

Mais outra aventura. O capitão passeava com Encanto dos Olhos e comigo por uma vasta rocha ao pé da qual vem quebrar o mar as suas vagas. O esmoler Fa Molto levou jeitosamente a nossa jovem Dera a uma pequena casa recém-construída a que chamam estalagem. A pobre moça não via nenhum mal naquilo, e julgava que nada havia a temer, visto que o referido esmoler não é dominicano. Pois acreditas que o Padre Fa Tutto ficou todo enciumado com isso? Entrou como uma fúria na estalagem. Havia lá dois marinheiros, que também se enciumaram. Terrível paixão, o ciúme. Os dois marinheiros e os dois padres haviam bebido muito desse licor que dizem Inventado pelo seu Noé e cuja autoria atribuímos a Baco: funesto presente, que poderia ser útil, se não nos fosse tão fácil abusar dele. Dizem os europeus que essa beberagem lhes dá espírito. Como pode ser isso, se lhes tira a razão?

Os dois homens do mar e os dois bonzos da Europa esmurraram-se valentemente, batendo um marinheiro em Fa Tutto, este no esmoler, este último no segundo marinheiro, que devolvia o que recebia; todos os quatro mudavam de mão a cada momento, dois contra dois, três contra um, todos contra todos, e cada qual a praguejar, cada qual a puxar para si a nossa desgraçada, que lançava gritos lancinantes. Ao ruído, acorreu o capitão; esbordoou indiferentemente os quatro adversários; e, para pôr Dera em segurança, levou-a para os seus aposentos, onde ficaram ambos encerrados durante duas horas inteiras. Os oficiais e os passageiros, que são muito polidos, reuniram-se todos em redor de nós, e nos garantiram que os dois monges (é assim que os chamam) seriam severamente castigados pelo vice-Deus, assim que chegassem a Roma. Essa esperança nos consolou um pouco. Ao cabo de duas horas, voltou o capitão, trazendo-nos Dera, com muitas atenções e cumprimentos, de que minha querida mulher se mostrou muito satisfeita. Ó Brama, que estranhas coisas sucedem em viagem, e que sensato é nunca sair de casa!

 

SEXTA CARTA

de Amabed, em viagem

 

Não te escrevi desde a aventura da nossa pequena Dera. O capitão, durante a travessia, sempre lhe demonstrou a mais atenta solicitude. Eu tinha medo de que ele também se desfizesse em atenções com minha mulher; mas esta fingiu estar grávida de quatro meses. Os portugueses consideram as mulheres grávidas como pessoas sagradas, a quem não é permitido importunar. E ao menos um bom costume, que põe em segurança a honra de Adate. O dominicano recebeu ordem de não se apresentar jamais diante de nós, e obedeceu.

O franciscano, alguns dias após a cena da estalagem, veio pedir-nos perdão. Chamei-o à parte. Perguntei-lhe como era que, tendo feito voto de castidade, se havia emancipado daquela maneira. Respondeu-me: "É verdade que fiz tal voto; mas, se tivesse prometido que meu sangue não correria nas veias e que minhas unhas e cabelos não cresceriam, seria o primeiro a confessar que me era impossível cumprir tal promessa. Em vez de nos fazerem jurar que seremos castos, seria preciso forçar-nos a sê-lo e tornar eunucos a todos os monges. Quando um pássaro tem penas, voa. O único meio de impedir que um cervo corra é cortar-lhe as pernas. Não tenhas dúvida de que os padres vigorosos como eu, e que não dispõem de mulheres, abandonam-se, mau grado seu, a excessos que fazem corar a natureza, após o que vão celebrar os santos mistérios."

Muito aprendi na conversação com esse homem. Instruiu-me de todos esses mistérios da sua religião, que me espantaram imenso. "O reverendo padre Fa Tutto, disse-me ele, é um velhaco que não acredita uma palavra de tudo o que ensina; quanto a mim, tenho fortes dúvidas, mas afasto-as, ponho uma venda nos olhos, repilo os meus pensamentos, e marcho como posso no caminho que sigo. Todos os monges se acham reduzidos a esta alternativa: ou a incredulidade lhes faz detestar a profissão, ou a estupidez a torna suportável."

Acreditas que, depois de tais confidências, ele ainda me propôs fazer-me cristão?

- Como podes - disse-lhe eu - oferecer-me uma religião de que nem tu mesmo estás persuadido, a mim que fui criado na mais antiga religião do mundo, cujo culto existia, segundo a vossa própria confissão, no mínimo uns cento e quinze mil e trezentos anos antes que houvesse franciscanos no mundo?

- Ah! meu caro indiano, se eu conseguisse fazer-vos cristãos, a ti e a bela Adate, faria rebentar de raiva aquele maroto do dominicano que não acredita na imaculada concepção da Virgem. Faríeis a minha fortuna; eu poderia tornar-me bispo(14) : uma boa ação que Deus vos saberia recompensar.

É assim, divino Xastasid, que entre esses bárbaros da Europa se encontram homens que são um misto de erro, fraqueza, avidez e tolice, e outros que são patifes declarados e empedernidos. Contei essa conversa a Encanto dos Olhos, que sorriu de piedade. Quem diria que havia de ser a bordo de um navio, em plena costa da África, que aprenderíamos a conhecer os homens?!

 

SÉTIMA CARTA

de Amabed

 

Que belo clima o destas costas meridionais, mas que tristes nativos! que brutos! Quanto mais faz por nós a natureza, menos fazemos nós por ela. Nenhuma arte é conhecida entre todos esses povos. Um grande problema seu é saber se descendem dos macacos, ou se os macacos é que descendem deles Disseram nossos sábios que o homem é a imagem de Deus: fresca imagem de Deus, essas cabeças negras e de nariz chato, e com pouquíssima ou nenhuma inteligência! Dia virá, sem dúvida, em que esses animais saberão cultivar devidamente a terra, embelezá-la com casas e jardins, e conhecer a rota dos astros. Datamos nós outros os nossos conhecimentos de cento e quinze mil seiscentos e cinqüenta e dois anos: na verdade, salvo o respeito que te devo, penso que estamos enganados; na verdade é preciso muito mais tempo para chegar ao ponto a que chegamos. Ponhamos apenas vinte mil anos para inventar uma linguagem tolerável, outro tanto para escrever por meio de um alfabeto, outro tanto para a metalurgia, outro tanto para a charrua e o tear, outro tanto para a navegação; e quantas outras artes ainda não exigem séculos! Os caldeus datam de quatrocentos mil anos, e ainda não é bastante.

Na costa chamada de Angola, o capitão comprou seis negros, pelo preço corrente de seis bois. Essa terra deve ser muito mais povoada que a nossa, visto vender os homens tão barato. Mas, por outro lado, como é que tão abundante população se coaduna com tamanha ignorância?

O capitão traz alguns músicos a bordo: mandou-os que tocassem, e eis que aqueles pobres negros começaram a dançar com uma justeza quase igual à dos nossos elefantes. Será possível que, amando assim a música, não tenham sabido inventar a rabeca, ou ao menos a gaita? Hás de dizer-me, grande Xastasid, que nem a habilidade dos próprios elefantes conseguiu chegar a esse resultado, e que cumpre esperarmos. A isto, nada tenho que replicar

 

OITAVA CARTA

de Amabed

 

Logo à entrada do Ano Novo, avistamos Lisboa, à margem do rio Tejo, o qual tem fama de que rola ouro em suas águas. Se assim é, por que é que os portugueses, vão procurá-lo tão longe? Toda essa gente da Europa retruca que ouro nunca é demais Lisboa é, como me havias dito, a capital de um pequenino reino a pátria desse Albuquerque que me fez tanto mal. Confesso que há algo de grande nesses portugueses, que subjugaram parte dos nossos belos domínios. O desejo de conseguir pimenta deve dar mesmo habilidade e coragem.

Encanto dos Olhos e eu esperávamos entrar na cidade; mas não o permitiram, porque dizem que somos prisioneiros do vice-Deus, e que o dominicano Fa Tutto, o franciscano esmoler Fa Molto, Dera, Adate e eu, devemos todos ser julgados em Roma.

Fomos transferidos para um outro navio que parte para a cidade do vice-Deus.

O capitão é um velho espanhol diferente em tudo do português, que tão cavalheirescamente nos tratava. Só fala por monossílabos, e ainda assim muito raramente. Traz à cinta uns grãos enfiados, que não cessa de contar: dizem que é isso grande sinal de virtude.

Dera lamenta muito a falta do outro capitão; acha que ele era muito mais polido. Entregaram ao espanhol um grande maço de papéis para instruir nosso processo na corte de Roma. Um escriba do navio os leu em voz alta. Julga ele que o padre Fa Tutto será condenado a remar numa das galeras do vice-Deus e que o esmoler Fa Molto será fustigado de chegada. Toda a equipagem é da mesma opinião; o capitão guardou os papéis sem nada dizer. Partimos. Que Brama tenha piedade de nós e te cumule de seus favores! Brama é justo; mas é uma coisa muito singular, que, tendo eu nascido às margens do Ganges, vá ser julgado em Roma. Assegura-se no entanto que o mesmo aconteceu a mais de um estrangeiro.

 

NONA CARTA

de Amabed

 

Nada de novo; toda a equipagem é silenciosa e sombria como o capitão. Bem conheces o provérbio indiano: Amarra-se o burro à vontade do dono. Atravessamos um mar que tem apenas nove mil passos de largura entre duas montanhas; entramos em outro mar semeado de ilhas, uma das quais é bastante estranha. Os que a governam são religiosos cristãos, que usam chapéu e vestes curtas e juraram matar todos aqueles que usam barrete e hábito. Devem também fazer orações. Ancoramos numa ilha maior e muito linda, a que chamam Sicília; era muito mais bela antigamente; fala-se de cidades admiráveis, de que só existem ruínas. Foi habitada por deuses, deusas, gigantes, heróis; ali se forjava o raio. Uma deusa chamada Cerca a cobriu de ricas messes. O vice-Deus mudou tudo isso; vêem-se agora ali muitas procissões e gatunos.

 

DÉCIMA CARTA

de Amabed

 

Eis-nos enfim na terra sagrada do vice-Deus. Lera eu no livro do esmoler que esse país era todo ouro e azul; que as muralhas eram de esmeraldas e rubis; que eram de azeite os arroios, as fontes de leite, e os campos cobertos de vinhas, que produziam cada uma cem toneladas.(15) Talvez encontremos tudo isso quando nos aproximarmos de Roma.

Abordamos com dificuldade, num pequeno porto muito incomodo, chamado cidade velha. Tomba em ruínas, e tem um nome bastante apropriado. Conduziram-nos em carroças puxadas a boi. Esses animais devem vir de longe, pois as terras que margeiam o caminho não são cultivadas; tudo uns pântanos infetos, charnecas, landes estéreis. Vimos pela estrada gente vestida com a metade de um manto, e sem camisa, que nos pedia esmola altivamente. Só se alimentam, dizem-nos, de pãezinhos minúsculos que lhes dão de graça pela manhã e só bebem água benta.

Se não fossem esses bandos de maltrapilhos, que dão cinco ou seis mil passos para obter, com suas lamentações, a trigésima parte de uma rúpia, este cantão seria um medonho deserto. Avisaram-nos até de que a pessoa que passasse aqui a noite estaria em perigo de morte. Com certeza Deus se acha incomodado com o seu vigário, pois lhe deu um país que é a cloaca da natureza. Acabo de saber que esta região foi outrora muito linda e fértil e que só se tornou tão miserável depois que esses vigários se apoderaram dela.

Escrevo-te, sábio Xastasid, sobre a minha carroça, para desenfastiar-me. Adate mostra-se muito espantada. Escrever-te-ei logo que chegar a Roma.

 

UNDÉCIMA CARTA

de Amabed

 

Eis-nos aqui, nesta cidade de Roma. Chegamos em pleno dia, a 3 do mês da ovelha, que corresponde aqui a 15 de março de 1513. Presenciamos, no princípio, exatamente o contrário do que esperávamos.

Mal chegáramos à porta chamada de S. Pancrácio(16), vimos dois bandos de espectros, um vestido à maneira do nosso esmoler, o outro à maneira do padre Fa Tutto. Cada bando trazia à frente um estandarte e um grande bastão, no qual estava esculpido um homem nu, na mesma atitude que o de Goa. Marchavam dois a dois e entoavam uma cantoria de fazer bocejar uma província inteira. Quando essa procissão chegou à carroça, um bando gritou: "E São Fa Tutto!" E o outro: "E São Fa Molto!" Beijaram-lhes as batinas. O povo ajoelhou-se.

- Quantos hindus converteu, meu Reverendo Padre?

- Quinze mil e setecentos - dizia um.

- Onze mil e novecentos - dizia o outro.

- Louvada seja a Virgem Maria!

Todo o mundo tinha os olhos pregados em nós, todo o mundo nos cercava.

- São seus catecúmenos, meu Reverendo Padre?

- Sim, nós os batizamos.

- Na verdade são muito bonitos. Glória nas alturas! Glória nas alturas!

O padre Fa Tutto e o padre Fa Molto foram conduzidos, cada um por sua procissão, a uma casa magnífica e, quanto a nós, rumamos para a hospedaria. O povo nos seguiu, até a porta, gritando Cazzo, Cazzo, abençoando-nos, beijando-nos as mãos, louvando a Adate, a Dera e, a mim. Infindável era a nossa surpresa.

Mal nos instaláramos, um homem vestido de roxo, acompanhado de dois outros de manto negro, veio apresentar-nos as boas-vindas. A primeira coisa que fez foi oferecer-nos dinheiro, da parte da Propaganda, caso tivéssemos necessidade. Respondi-lhe que ainda nos restava dinheiro e muitos diamantes (com efeito, sempre tivera eu o cuidado de ocultar nas ceroulas a minha bolsa e um cofre de brilhantes). Imediatamente o homem quase se prosternou diante de mim, tratando-me por Excelência "Sua Excelência a signora não está muito fatigada da viagem? Não vai repousar? Temo importuná-la mas estarei sempre às suas ordens. O signor Amabed pode dispor de mim; eu lhe enviarei um cicerone que ficará a seu serviço; é só ordenar. Depois de bem descansados, não querem ambos dar-me a honra de tomar uns refrescos em minha casa? Terei a honra de lhes enviar uma carruagem."

Cumpre confessar, meu divino Xastasid, que os chineses não são mais polidos do que este povo ocidental. O referido senhor retirou-se. Dormimos seis horas, a bela Adate e eu. Ao anoitecer, veio a carruagem buscar-nos. Dirigimo-nos à casa daquele homem tão amável. Seu apartamento era iluminado e ornado de quadros muito mais agradáveis que o do homem nu que vimos em Goa. Uma numerosa companhia nos encheu de carinhos; admiraram-nos por sermos hindus, felicitaram-nos pelo nosso batismo, e ofereceram-nos os seus préstimos por todo o tempo em que quiséssemos permanecer em Roma.

Queríamos solicitar a punição do padre Fa Tutto. Não nos deram tempo de falar nisso. Fomos reconduzidas afinal atônitos, confusos com tal acolhida, e sem compreender coisa alguma.

 

DUODÉCIMA CARTA

de Amabed

 

Recebemos hoje Inúmeras visitas, e uma princesa de Piombino mandou-nos dois escudeiros com um convite para irmos jantar com ela. Dirigimo-nos à sua casa em uma equipagem magnífica. Lá se achava o homem de roxo. Soube que era um dos senhores, isto é, um dos servos do vice-Deus, a que chamam prediletos, prelati. Ninguém mais amável do que essa princesa de Piombino. Fez-me sentar a seu lado. Muito a surpreendeu a nossa repugnância em comer pombos romanos e perdizes. Disse-nos o predileto que, como éramos batizados, tínhamos de comer perdizes e beber vinho de Montepulciano; que todos os vice-Deus assim faziam; que era esse o sinal distintivo de um verdadeiro cristão.

Retrucou a bela Adate, com a sua habitual simplicidade, que não era cristã, que fora batizada no Ganges.

- Ó minha senhora! - exclamou o predileto. - Por amor de Deus! No Ganges, no Tibre, ou numa bacia, isso que importa? A senhora é dos nossos. A senhora foi convertida pelo padre Fa Tutto; é para nós uma honra que não queremos perder. Veja que superioridade tem a nossa religião sobre a dos hindus!

E em seguida encheu os nossos pratos de asas de frango. A princesa bebeu pela nossa saúde e salvação. Instaram-nos com tanta graça, com tão amáveis expressões, mostraram-se tão polidos, tão alegres, tão sedutores, que afinal, enfeitiçados pelo prazer (peço perdão a Brama), fizemos, Adate e eu, a mais opípara refeição do mundo, com o firme propósito de nos lavarmos no Ganges até as orelhas, ao regressar, para apagar nosso pecado. Não tinham a menor dúvida de que fôssemos cristãos.

- Esse padre Fa Tutto - dizia a princesa - deve ser mesmo um grande missionário. Tenho vontade de toma-lo para confessor.

Nós corávamos e baixávamos os olhos, minha pobre mulher e eu.

De tempos em tempos, a signora Adate dizia que viéramos para ser julgados pelo vice-Deus e que tinha o maior desejo de avistar-se com ele.

Não temos nenhum por enquanto - explicou-nos a princesa. - Ele morreu. Estão ocupados em fazer um outro: logo que este fique pronto, sereis apresentados a Sua Santidade. Assistireis então à mais augusta festa que os humanos possam ver, e da qual sereis o mais belo ornamento.

Adate respondeu com espírito, e a princesa ficou muito afeiçoada a ela.

No final da. refeição tivemos música, que era (se assim ouso dizer) superior à de Benares e de Madura.

Ao sairmos da mesa, a princesa mandou aprestar quatro carruagens douradas; fez-nos subir na sua. Mostrou-nos belos edifícios, estátuas, pinturas. À noite, dançou-se. Eu comparava secretamente essa encantadora recepção com o calabouço a que fôramos lançados em Goa, e mal conseguia compreender, como o mesmo governo e a mesma religião podiam ter tamanha doçura e encanto em Roma, e exercer ao longe tantos horrores.

 

DÉCIMA-TERCEIRA CARTA

de Amabed

 

Enquanto esta cidade se acha surdamente dividida em pequenas facções para eleger um vice-Deus, enquanto estas facções, animadas do mais ferrenho ódio, se tratam todas com uma polidez que se assemelha à afeição, enquanto o povo olha os padres Fa Tutto e Fa Molto como favoritos da Divindade, enquanto nos assediam com uma curiosidade respeitosa, eu faço, meu caro Xastasid, profundas reflexões sobre o governo de Roma.

Comparo-o à ceia que nos ofereceu a princesa de Piombino. A sala era limpa, cômoda, ornamentada; o ouro e a prata fulgiam nos aparadores; a alegria, o espírito e as graças animavam os convivas; mas, na cozinha, escorria o sangue e a graxa; as peles dos quadrúpedes, as penas das aves, as suas entranhas, tudo misturado, revoltavam o estômago e espalhavam a infecção.

Tal é, ao que me parece, a corte romana. Polida e lisonjeira em sua terra, traiçoeira e despótica nos demais lugares. Quando dizemos que esperamos obter justiça contra Fa Tutto, todos riem com brandura; dizem que estamos muito acima dessas bagatelas; que o governo nos considera muito para permitir que guardemos lembrança de tal facécia; que os Fa Tutto e os Fa Molto são espécies de macacos cuidadosamente amestrados para fazer peloticagens diante do povo; e terminam com protestos de respeito e amizade para conosco. Que partido queres tu que tomemos, grande Xastasid? Creio que o mais sábio é rir com os outros e ser polidos como eles Vou estudar Roma, que bem vale a pena.

 

DÉCIMA QUARTA CARTA

de Amabed

 

Grande é o intervalo entre minha última carta. e a presente. Li, vi, conversei, meditei. Juro-te que jamais houve no mundo maior contradição do que a existente entre o governo romano e a sua religião. Falava eu nisso ontem a um teólogo do vice-Deus. Um teólogo é, nesta corte, o que são os últimos criados numa casa; encarregam-se do trabalho pesado, fazem os despejos e, se encontram algum trapo que possa servir, guardam-no para o que der e vier.

- O vosso Deus - dizia-lhe eu - nasceu em um estábulo, entre um boi e um burro; foi criado, viveu e morreu na pobreza; ordenou expressamente a pobreza a seus discípulos; declarou-lhes que não haveria entre eles nem primeiro nem último e que aquele que quisesse comandar aos outros os serviria. No entanto, vejo que fazem aqui exatamente o contrário do que quer o vosso Deus. O vosso próprio culto é inteiramente diverso do seu. Obrigais os homens a acreditar em coisas de que ele não disse uma única palavra.

- Tudo isso é verdade - respondeu-me. - O nosso Deus não ordenou formalmente a nossos superiores que enriquecessem à custa dos povos, nem que se apoderassem dos bens alheios; mas ordenou-o virtualmente. Nasceu entre um boi e um burro; mas três reis vieram adorá-lo no seu estábulo. Os bois e os burros figuram os povos a quem doutrinamos; e os três reis figuram os monarcas que estão a nossos pés. Seus discípulos viviam na indigência; portanto, os nossos superiores devem hoje regurgitar de riquezas. Pois, se aqueles primeiros vice-Deus apenas tiveram necessidade de um escudo, os de hoje têm premente necessidade de dez milhões de escudos. Ora, ser pobre é não ter senão o estritamente necessário. Portanto, os nossos superiores, não dispondo nem mesmo do necessário, seguem a rigor o voto de pobreza.

- Quanto aos dogmas - continuou ele, - o nosso Deus jamais escreveu coisa alguma, e nós sabemos escrever; portanto, a nós compete escrever os dogmas: de modo que os temos fabricado com o tempo, conforme a necessidade. Por exemplo, fizemos do casamento o sinal visível de uma coisa invisível; isso faz que todos os processos suscitados por causa de casamentos venham ter, de todos os recantos da Europa, ao nosso tribunal de Roma, visto que só nós é que podemos ver coisas invisíveis. É uma copiosa fonte de tesouros que vêm despejar-se em nossa sagrada câmara de finanças, para estancar a sede da nossa pobreza.

Perguntei-lhe se a sagrada câmara não dispunha de outros recursos.

- Não descuramos disso - afiançou-me o teólogo. - Tiramos partido dos vivos e dos mortos. Por exemplo, logo que alguém morre, nós enviamos a respectiva alma para uma enfermaria; fazemo-la tomar mezinhas na botica das almas; e o senhor nem imagina quanto nos rende essa botica.

- Como assim, monsenhor? Pois a mim me parece que a bolsa de uma alma se acha ordinariamente muito mal recheada.

- Lá isso é verdade, Signor; mas as almas possuem parentes que se apressam em retirar seus parentes mortos da enfermaria, acomodando-os em local mais aprazível. É triste para uma alma passar toda uma eternidade a tomar remédios. Entendemo-nos então com os vivos; compram eles a saúde das almas de seus falecidos parentes, uns mais caro, outros mais barato, conforme as posses. Entregamo-lhes cartões de indulgência para a botica. Asseguro-lhe que é uma das nossas melhores rendas.

- Mas, Monsenhor, como podem esses cartões de indulgência chegar até às almas?

Ele pôs-se a rir:

- Isso é com os parentes; e de resto, não lhe disse eu que temos um poder incontestável sobre as coisas invisíveis?

Esse monsenhor me parece bastante esperto; muito tenho aprendido com ele, e já me sinto inteiramente outro.

 

DÉCIMA-QUINTA CARTA

de Amabed

Deves saber, meu caro Xastasid, que o cicerone a quem monsenhor me recomendou e de quem te falei algo nas cartas precedentes, é um homem muito inteligente que mostra aos estrangeiros as curiosidades da antiga e da nova Roma. Uma e outra, como vês, governaram os reis; mas os primeiros romanos adquiriram o poder com a espada, e os últimos com a pena. A disciplina militar deu o Império aos Césares, cuja história conheces; a disciplina monástica dá outra espécie de Império a esses vice-Deus a que chamam Papas. Vêem-se procissões no mesmo local onde outrora se viam triunfos. Os cicerones explicam tudo isso aos estrangeiros; fornecem-lhes livros e raparigas. Quanto a mim (por mais jovem que, seja) não quero ser infiel à minha bela Adate; limito-me pois aos livros; e estudo principalmente a religião do país, que muito me diverte.

Lia com o meu cicerone a história da vida do Deus da terra. É deveras extraordinária. Era um homem que secava figueiras com uma só palavra, que mudava água em vinho e que afogava porcos. Tinha muitos inimigos. Bem sabes que ele nascera em um burgo pertencente ao imperador de Roma. Seus inimigos eram mesmo astutos; perguntaram-lhe um dia se deviam pagar tributo ao imperador, ao que ele lhes respondeu: "Dai ao príncipe o que é do príncipe, mas dai a Deus o que é de Deus." Essa resposta me parece sábia, e nisso falávamos, o meu cicerone e eu, quando chegou monsenhor. Falei-lhe muito bem do seu Deus e pedi-lhe que me explicasse como a sua câmara de finanças observava tal preceito, tomando tudo para si, sem dar coisa alguma ao imperador. Pois deves saber que os romanos, embora tenham um vice-Deus têm também um imperador, ao qual dão o título de rei dos romanos. Eis o que me respondeu aquele homem tão avisado:

- É verdade que temos um imperador; mas só o é em aparência. Acha-se banido de Roma; nem ao menos possui uma casa; deixamo-lo habitar perto de um grande rio que gela durante quatro meses por ano, em um país cuja linguagem nos arranha os ouvidos. O verdadeiro imperador é o papa, visto que reina na capital do império. Assim, dai ao imperador quer dizer dai ao papa; e dai a Deus também significa dai ao papa, pois com efeito é ele vice-Deus. E o único senhor de todos os corações e de todas as bolsas. Se o outro imperador que mora à margem de um grande rio ousasse dizer ao menos uma palavra, nós então sublevaríamos contra ele todos os habitantes das margens do grande rio, que são na maioria uns grandes corpos sem espírito, e armaríamos contra ele os outros reis, que partilhariam, com o papa, dos seus despojos.

Eis-te, divino Xastasid, inteirado do espírito de Roma. O papa é, em ponto grande, o que é, em ponto pequeno, o dalai-lama; se não é imortal como o lama, é todo-poderoso durante a vida, o que é coisa muito melhor. Se algumas vezes lhe resistem, se o depõem, se lhe dão bofetadas, se até mesmo o matam (17) entre os braços da amante, como por vezes aconteceu, esses inconvenientes jamais atingem o seu caráter divino. Podem dar-lhe mil estribaços, mas cumpre acreditar sempre em tudo quanto ele diz, O papa morre, o papado é imortal, Já houve três ou quatro vice-Deus que disputavam tal lugar ao mesmo tempo. A divindade achava-se então dividida entre eles: cada qual tinha o seu bocado, cada qual era infalível no seu partido.

Perguntei a monsenhor por que artes conseguira a sua corte governar todas as outras cortes. "De pouca arte necessitam as pessoas de espírito - disse-me ele - para governar aos tolos". Quis eu saber se nunca se haviam revoltado contra as decisões do vice-Deus. Confessou-me que homens houvera bastante temerários para erguerem os olhos, mas que lhos haviam vasado em seguida, ou tinham exterminado esses miseráveis, e que tais revoltas até agora só tinham servido para melhor firmar a infalibilidade no trono da verdade.

Acabam de nomear um novo vice-Deus. Repicam sinos, rufam tambores, ressoam trombetas, atroa o canhão, a que cem mil vozes fazem eco. Escreverei informando-te de tudo o que tiver visto.

 

DÉCIMA-SEXTA CARTA

de Amabed

 

Foi a 25 do mês do crocodilo, e a 13 do planeta Marte (18), como se diz aqui, que homens de vermelho e inspirados elegeram o homem infalível perante o qual devia eu ser julgado, tal como Encanto dos Olhos, na qualidade de apóstata.

Esse Deus na terra chama-se Leão, décimo do nome. É um belo homem de trinta e quatro a trinta e cinco anos, e muito amável; as mulheres estão loucas por ele. Achava-se atacado de um mal imundo, que só é bem conhecido na Europa, mas que os portugueses começam a introduzir no Indostão. Julgavam que disso morreria, e foi por isso mesmo que o elegeram, a fim de que o sublime posto ficasse logo vago; mas curou-se, e zomba daqueles que o nomearam. Nada. mais magnífico do que a sua coroação, na qual gastou ele cinco milhões de rúpias, para prover às necessidades de seu Deus, que foi tão pobre! Não pude escrever-te na agitação das festas; sucederam-se tão rapidamente, tive de assistir a tantas diversões, que não sobrou um momento de lazer.

O vice-Deus Leão ofereceu espetáculos de que não tens idéia. Há principalmente um, chamado comédia, que me agradou mais que todos os outros. É uma representação da vida humana; é um quadro vivo; os personagens falam e agem; expõem os seus interesses; desenvolvem as suas paixões: abalam a alma dos espectadores.

A comédia que vi anteontem no palácio do papa intitula-se A Mandrágora. O argumento da peça é a história de um jovem espertalhão que quer dormir com a mulher do vizinho. Contrata por dinheiro um monge, um Fa Tutto ou um Fa Molto, para seduzir a amante do marido e fazê-lo cair numa ridícula cilada. Zomba-se, durante toda a comédia, da religião que a Europa professa, de que Roma é o centro, e cujo trono é o assento papal. Tais prazeres talvez te pareçam indecentes, meu caro e pio Xastasid. Encanto dos Olhos ficou escandalizada; mas a comédia é tão linda que o prazer sobrepuja o escândalo.

Os festins, os bailes, as belas cerimônias religiosas, os dançarinos de corda, sucedem-se sem interrupção. Principalmente os bailes são muito divertidos. Cada convidado veste um hábito estranho e põe sobre o próprio rosto outro rosto de papelão. Assim disfarçados, dizem coisas de rebentar de riso. Durante as refeições toca sempre uma música muito agradável; em suma, um verdadeiro encanto.

Contaram-me que um vice-Deus, predecessor de Leão, chamado Alexandre, dera, por ocasião das núpcias de um bastardo seu, uma festa muito mais extraordinária, durante a qual fez dançar cinqüenta raparigas inteiramente nuas. Os brâmanes jamais instituíram semelhantes danças: bem vês que cada país tem os seus costumes. Abraço-te com respeito e deixo-te para ir dançar com a bela Adate. Que Birma te cumule de bênçãos!

 

DÉCIMA-SÉTIMA CARTA

de Amabed

 

Na verdade, meu grande brâmane, nem todos os vice-Deus foram tão divertidos como este. É um verdadeiro prazer viver sob o seu domínio. O falecido, por nome Júlio, era de caráter muito diverso; tratava-se de um velho soldado turbulento, que amava a guerra como um louco; sempre a cavalo, sempre de capacete, distribuindo bênçãos e espadaços, atacando a todos os seus vizinhos, danando-lhes as almas e matando-lhes os corpos o mais que podia: morreu de um acesso de raiva. Que diabo de vice-Deus era aquele! Imagina que, com um pedaço de papel, pretendia ele despojar os reis de seus reinos! Resolveu destronar dessa maneira o rei de um país muito lindo, chamado França. Esse rei era um bom homem. Passa aqui por tolo porque não foi feliz. O pobre príncipe viu-se um dia obrigado a reunir os mais esclarecidos homens de seu reino (19) para lhes perguntar se lhe era permitido defender-se de um vice-Deus que o destronava com um pedaço de papel.

É preciso ser mesmo muito bom para fazer tal pergunta! Testemunhava eu minha surpresa ao senhor de roxo que me tomou amizade.

- Será. possível - lhe dizia eu - que se seja tão tolo na Europa?

- Receio muito - respondeu-me - que tanto abusem os vice-Deus da complacência dos homens que acabarão por lhes dar inteligência.

É de presumir, pois, que haja revoltas contra a religião da Europa. O que te surpreenderá, douto e penetrante Xastasid, é que não as houve sob o vice-Deus Alexandre, que reinava antes de Júlio. Mandava assassinar, enforcar, afogar, envenenar impunemente a todos os senhores seus vizinhos. E o instrumento dessa multidão de crimes, cometidos à vista de toda a Itália, foi um dos seus cinco bastardos. Como puderam persistir os povos na religião desse monstro!! Era esse mesmo que fazia as raparigas dançarem sem nenhum ornamento supérfluo. Seus escândalos deviam inspirar desprezo, seus atos de barbárie deviam aguçar mil punhais contra ele; no entanto, viveu cheio de veneração e com toda a tranqüilidade, na sua corte. A razão disso, ao que me parece, é que os padres afinal saíam ganhando com todos os seus crimes, e os povos não perdiam nada. Mas logo que estes se sentirem por demais afrontados, hão de quebrar as cadeias. Cem golpes de aríete não puderam abalar o colosso: um seixo o deitará por terra. É o que dizem por aqui as pessoas esclarecidas que gostam de profetizar.

Enfim, acabaram-se as comemorações; de festas não se deve abusar: nada cansa tanto como as coisas extraordinárias quando se tornam comuns Só as verdadeiras necessidades, que quotidianamente renascem, podem dar prazer todos os dias Recomendo-me às tuas santas orações.

 

DÉCIMA-OITAVA CARTA

de Amabed

 

O Infalível nos quis ver em particular, a Encanto dos Olhos e a mim. O nosso monsenhor nos conduziu a seu pa lácio. Mandou-nos ajoelhar três vezes. O vice-Deus nos fez beijar seu pé direito, enquanto segurava as ilhargas de tanto rir. Perguntou-nos se o padre Fa Tutto nos convertera e se com efeito éramos cristãos. Minha mulher respondeu que o padre Fa Tutto era um atrevido, e o papa se pôs a rir com redobrado gosto. Beijou duas vezes a minha mulher, e a mim também.

Em seguida nos mandou sentar ao lado do seu banquinho de beija-pé. Perguntou-nos como se praticava o amor em Benares, em que idade casavam geralmente as moças, se o grande Brama possuía um serralho. Minha mulher corava; eu respondia com respeitoso recato. Depois nos despediu, recomendando-nos o cristianismo, beijando-nos, e dando-nos palmadinhas nas nádegas, em sinal de benevolência. Encontramos, na saída, os padres Fa Tutto e Fa Molto, que nos beijaram a fímbria das vestes. O primeiro impulso, que vem sempre da alma, fez-nos a princípio recuar de horror. Mas o de roxo nos disse:

- Bem se vê que os amigos Amabed e Adate ainda não completaram a sua educação: é dever essencial neste país beijar os nossos maiores inimigos; na primeira oportunidade mandem envenená-los, se puderem; mas, enquanto isto, não deixem de lhes demonstrar a mais profunda amizade.

Beijei-os, pois, mas Encanto dos Olhos fez-lhes uma saudação muito seca, e Fa Tutto fitava-a com o rabo do olho, inclinando-se até o chão diante dela. Um verdadeiro encantamento, tudo isto. Passamos os dias a espantar-nos. Na verdade duvido que Madura seja mais agradável do que Roma.

 

DÉCIMA-NONA CARTA

de Amabed

 

Nada de castigarem o padre Fa Tutto! Ontem de manhã a nossa jovem Dera resolveu ir por curiosidade a um pequeno templo. O povo estava de joelhos. Um brâmane da terra, magnificamente vestido, curvava-se sobre uma mesa; tinha o traseiro voltado para o público, Dizem que ele fazia Deus. Depois que fez Deus, mostrou-nos a dianteira. Dera soltou um grito e exclamou: "Olhem o patife que me pegou à força!" Felizmente, no auge da revolta e da surpresa, ela pronunciou tais palavras em hindu. Asseguram-me, que se a tivessem compreendido, o populacho se lançaria a ela como a uma feiticeira. Fa Tutto respondeu-lhe em italiano: "Que a graça da Virgem te acompanhe, minha filha! Fala mais baixo.' • Ela veio, desesperada, contar-nos a sua história. Nossos amigos nos aconselharam que nunca nos queixássemos. Disseram-nos que Fa Tutto era um santo, e que nunca se devia falar mal dos santos. Que queres tu? O que está feito está feito. Aceitamos pacientemente todas as diversões em que nos fazem tomar parte neste país. Cada dia nos ensinam coisas de que nem suspeitávamos. As viagens educam muito a gente.

Chegou à corte de Leão um grande poeta; seu nome é messer Ariosto: não gosta de padres; eis como se refere a eles:

Non sa quel che sia amor, non sa che vaglia

La caritade e quindi avvien che i frati

Sono si ingorda e si crudel canaglia.(20)

 

O que quer dizer em hindu:

Modermen sebar eso

La te ben sofa meso.

Bem vês que superioridade a língua indiana, que é tão antiga, sempre conservará sobre todos esses recentes jargões da Europa: exprimimos em quatro palavras o que eles, com tanta dificuldade exprimem em dez. Compreendo perfeitamente que esse Ariosto diga que os monges são uma verdadeira canalha, mas não sei por que pretende que eles desconhecem o amor. Nós que o digamos! Com certeza quer dizer que eles apenas gozam, e não amam.

 

VIGÉSIMA CARTA

de Amabed

 

Faz alguns dias que não te escrevo, meu estimado grande brâmane. É devido às solicitudes com que aqui nos honram. O nosso monsenhor ofereceu-nos uma excelente ceia, a que compareceram dois jovens vestidos de vermelho da cabeça aos pés. Sua dignidade é a de cardeal, que é como quem diz gonzo de porta. Um é o cardeal Sacripante e o outro o cardeal Faquinetti. São os primeiros na terra depois do vice-Deus; de maneira que os intitulam vigários do vigário. O seu direito, sem dúvida um direito divino, consiste em serem iguais aos reis e superiores aos príncipes, e em possuírem sobretudo imensas riquezas.

Esses dois gentis-homens, durante a ceia, nos convidaram para passar alguns dias em sua casa de campo, pois cada qual porfia em nos ter consigo. Após disputarem a preferência o mais divertidamente possível, Faquinetti apoderou-se da bela Adate, sob a condição de trocarem de convidados no dia seguinte e de nos reunirmos os quatro no terceiro dia. Dera também ia conosco. Não sei com que palavras contar-te o que nos aconteceu, mas vou tentá-lo como melhor puder.

Nota: Aqui termina o manuscrito das Cartas de Amabed Procurou-se em todas as bibliotecas de Madura e Benares a continuação destas cartas. E seguro que não existe.

Assim, no caso de que algum infeliz falsário edite um dia o resto das aventuras dos dois jovens indianos, Novas Cartas de Amabed, Novas Cartas de Encanto dos Olhos, Respostas do Grande Brâmane Xastasid, pode estar certo o leitor de que o enganam, e de que o aborrecem, como mil vezes tem acontecido em casos tais.

NOTAS

(1) Corresponde tal data ao ano 1512 da nossa era vulgar, dois anos depois da tomada de Goa, por Afonso de Albuquerque. Cumpre saber que os brâmanes contavam 111.100 anos desde a rebelião e queda dos seres celestiais 4.552 anos desde a promulgação do Xasta, seu primeiro livro sagrado; o que dava 115.652 para o ano correspondente ao nosso ano de 1512, tempo em que reinava Babar na Mongólia, Ismael Bophi na Pérsia, Selim na Turquia, Maximiliano I na Alemanha, Luís XII na França, Júlio II em Roma, Joana a Louca na Espanha, Manuel em Portugal.

(2) Druga é a palavra indiana que significa "virtude". É representada com dez braços e montada num dragão para combater os vícios, que são a intemperança, a incontinência, o furto, o assassínio, a injúria, a maledicência, a calúnia, a ociosidade, a resistência aos pais, a ingratidão. Foi essa figura que vários missionários tomaram pelo diabo.

(3) Vê-se que Xastasid lera a nossa Bíblia em árabe, atentando ali na epístola de S. Judas, onde com efeito se encontram estas palavras, no versículo 6. 0 livro apócrifo que jamais existiu é o de Enoch, citado por S. Judas no versículo 14.

(4) É a diferença entre os textos hebraico, samaritano e dos Setenta.

(5) Bem se vê que Xastasid fala aqui como brâmane que não tem o dom da fé e a quem foi negada a graça.

(6) É indubitável que as fábulas concernentes a Baco eram muito comuns na Arábia e na Grécia, muito tempo antes de que as nações fossem informadas se os judeus tinham ou não uma história. Josephus confessa até que os judeus sempre conservaram os seus livros ocultos para os povos vizinhos. Baco era venerado no Egito, na Arábia, na Grécia, muito antes que o nome de Moisés penetrasse nessas regiões. Os antigos versos órficos chamam a Baco de Misa ou Mesa. Foi criado na montanha de Nisa, que é precisamente o monte Sina. Fugiu em direção ao Mar Vermelho; ali reuniu um exército e atravessou com ele esse mar, a pé enxuto. Fez parar o sol e a lua. Seu cão o seguiu em todas as expedições, e o nome de Caleb, um dos conquistadores hebreus, significa "cão". Os sábios muito discutiram e ainda não chegaram a um acordo sobre se Moisés é anterior a Baco, ou Baco a Moisés. Ambos são grandes homens; mas Moisés, ao bater um rochedo com a sua vara, só fez sair água, ao passo que Baco, ao bater a terra com o seu tirso, fez sair vinho. Vem dai que todas as canções de mesa celebram a Baco, não havendo talvez duas canções em favor de Moisés.

(7) Esse Mosasor é um dos principais anjos rebeldes que combateram contra o Eterno, como o relata o Autoraxasta, o mais antigo livro dos brâmanes, e onde está provavelmente a origem de todas as guerras dos Titãs e de todas as fábulas imaginadas depois conforme esse modelo.

(8) Ezequiel - Cap. IV.

(9) Oseas - Cap. I.

(10) Ezequiel - Cap. XVI.

(11) Juizes - Cap. XIX

(12) Gênesis - Cap. XIX.

(13) Gênesis - Cap. XIX.

(14) Palavra portuguesa que significa episcopus Não está em nenhum dos quatro Evangelhos.

(15) Aparentemente quer ele referir-se â santa Jerusalém descrita no minucioso livro do Apocalipse, em Justino, Tertuliano, Irineu e outros grandes personagens. Mas bem se vê que esse pobre brâmane tinha disso uma idéia muito imperfeita.

(16) Era outrora a porta do Janículo, vede como a nova Roma sobrepujou a antiga.

(17) João VIII, assassinado a martelo por um marido ciumento. João X, amante de Teodora, estrangulado no leito da mesma. Estêvão VIII, aprisionado no castelo a que chamam hoje de Sto. Ângelo. Estêvão IX, acutilado no rosto pelos romanos. João XII, deposto pelo imperador Otão I e assassinado em casa de uma de suas amantes. Benedito V, exilado pelo imperador Otão I Benedito VII, estrangulado pelo bastardo de João X. Benedito IX, que comprou, com mais dois outros, o pontificado, e revendeu a sua parte. Etc,, etc, Todos eles eram infalíveis.

(18) Mars, Março, Mars, Marte.

(19) Em 1510 o papa Júlio II excomungou o rei de França Luis XII e interditou o reino de França, oferecendo-o ao primeiro que dele se quisesse apoderar, excomunhão e interdição estas que foram reiteradas em 1512. Custa acreditar hoje em tal excesso de insolência e ridículo Mas, desde Gregório VII, não houve quase nenhum bispo de Roma que não fizesse ou não quisesse fazer e desfazer soberanos, a seu bel-prazer. Os soberanos mereciam todos esse infame tratamento, pois haviam sido bastante imbecis para fortalecerem, eles próprios, em seus súditos, a convicção da infalibilidade do papa e do seu poder sobre todas as Igrejas. Eles mesmos é que forjavam as próprias cadeias, tão difíceis de quebrar. O governo era por toda parte um caos formado pela superstição. Só muito tarde penetrou a razão nos povos do Ocidente; curou algumas feridas que fizera essa superstição inimiga do gênero humano, mas ainda restam profundas cicatrizes.

(20) Não sabe o que é o amor, nem o que vale a caridade, e assim acontece que os frades sejam tão ávida e cruel canalha.

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Voltaire

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