As donatarias d'Alemquer: historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado

D. Leonor d’Aragão

 

Cinco annos antes da morte de seu pae (14 d’agosto de 1433—22 de septembro de 1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, filha de Fernando I d’Aragão. Esta princeza succedeu á rainha sua sogra na posse d’Alemquer e d’outras terras que formavam a chamada casa das rainhas, verdadeiramente constituida no tempo da sympathica Leonor de Lencastre, mulher de D. João II.

Começavam a desapparecer os soldados da independencia. A morte ceifava uns e outros; a acção do tempo curvava-lhes a fronte varonil, como presagio do descanço eterno.

O rei já não era o mesmo homem d’antes: o mocetão galhardo e forte, mas o velho experimentado e prudente, o companheiro de vinte e oito annos da virtuosa D. Filippa, que lhe reformára o espirito e o paiz.

As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos pelo vento rijo dos annos; esse campo deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, sabios como elle, vivos reflexos do espirito purissimo da mãe.

Em D. Duarte talvez esse sentimento influisse com primazia. Almas ternas como a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva de alento. Sem a candura da mulher a alma do poeta é um jardim sem flores, um sol radiante toldado por uma nuvem negra.

Tinha trinta e sete annos quando o casaram; estava na força da virilidade, retida pelo celibato. O espirito queria expandir-se, e quando os olhos viram pela primeira vez a gentil aragoneza, formosa e meiga, o amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe o coração.

Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma caricia para lhe subjugar a vontade.

Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio que lhe transforme o lar em inferno intoleravel.

Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis peripecias a fallecer no exilio!

Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da dynastia d’Aviz.

A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram com todas as suas forças o objectivo da nova edade.

Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino. Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos amestrados já no valor da arte da guerra.

Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D. Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa companheira, teve a fraqueza de ceder.

Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao accrescimo do imperio.

D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de junho de 1443.

Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; mas não foi á côrte fallar ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a expedição. Era o que lhe valia.

Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da

de Aragão. [19] Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia do reino a sua mulher.

A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a guerra civil.

Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte, que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba, alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e de esposa.

Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças, em logar de anjo de paz.

A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para fatalidade da Patria.

De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu apaixonado esposo.

Que a critica lhe seja leve.