As donatarias d'Alemquer: historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado

D. Isabel de Lencastre (MULHER DE D. AFFONSO V)

D. Isabel de Lencastre

 

(MULHER DE D. AFFONSO V)

 

A intriga campeava outra vez na côrte portugueza; tinha-se volvido aos tempos passados, á epocha fatal, marcada na Historia com a nodoa negra do desbragamento de Leonor Telles.

D. João I fôra então o eleito do povo para a defeza dos legitimos interesses do paiz; agora n’esta scena, pallida sombra dos acontecimentos posteriores, a vontade popular elegeu tambem um dos seus mais illustres filhos, o qual, estadista como era, conhecedor do mundo pelas suas grandes viagens e pela sua vasta erudição, soube guiar proveitosamente o leme do Estado, não obstante os obstaculos suggeridos pelos contrarios.

Sabio como D. Duarte, apesar de lhe não carecer o animo, tambem teve um defeito que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.

Chegado á maioridade de Affonso V, D. Pedro entregou-lhe o reino; o monarcha não o acceitou; pois, apesar de moço, teve em conta os serviços prestados por seu tio, que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente da terna companheira que as côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham destinado.

Este procedimento generoso, que bem agourava a prosperidade do novo reinado, accendeu a labareda amortecida na alma damnada dos parciaes do infante. Perdel-o, acabar-lhe com a raça

generosa, [20] era o fito do movimento, que teve por chefes o duque de Bragança, D. Affonso; seu filho o conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha; e o protonotario apostolico Vasco Pereira de Berredo.

Combinado o trama, trataram de conquistar o fraco espirito do rei, então de dezeseis annos. Baldados foram os esforços de D. Pedro para desfazer a calumnia; retirou-se da côrte a ver se o fogo se extinguia, mas com a sua ausencia as chammas fortaleceram-se.

De Ceuta viera o conde d’Avranches D. Alvaro Vaz de Almada, no proposito de á ponta da lança tomar a sua defeza. O infante e o

conde, confrades da santa ordem da Garrotêa,[21] tinham a Cavallaria como uma religião, santificada por D. Filippa, no leito da morte, quando recommendava ao filho a honra das donas e donzellas.

Era a Cavallaria o unico tribunal admittido por Alvaro Vaz, para julgar os actos da regencia. Viessem a campo os detractores, montados em seus corceis e batessem-se com elle...

Os outros preferiam as devassas tiradas por ordem régia; tinham a mentira na mão, achavam quem jurasse ter o regente envenenado seu irmão D. Duarte e sua cunhada D. Leonor, mas não encontravam quem se medisse com o Avranches...

Como homem prudente, D. Pedro quiz valer-se da filha que soluçava aos pés do esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso redarguia-lhe que seu tio lhe pedisse perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se não ao soberano, mas aos inimigos; seria declarar-se reu de crimes que não commettêra.

A Cavallaria aconselhava-lhe a morte honrada e não a vida humilhante; a sciencia ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o espirito purissimo da mãe, nos conselhos finaes, apontava ao cavalleiro e ao philosopho a honra de tres damas que a elle deviam

o sêr. [22]

Desgraçado do homem que vem ao mundo como pensador; para esse a scentelha divina do talento é chamma que illumina sim, mas como o tocheiro que allumia um cadaver.

Alvaro Vaz, durante estas hesitações, fôra para Coimbra acompanhar o amigo. Decidiram partir e, á força d’armas, pedir aos detractores o rol das culpas. D. Pedro esse o que queria era desabafar com o sobrinho, com a meiga creança que outrora lhe sorria nos joelhos, como se fosse um filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque não defender sua justiça?

Foram em bellico apparato. Logo na côrte roncaram os primeiros rumores da expedição. O rei partiu tambem ao som de guerra e junto ao ribeiro de Alfarrobeira acharam-se frente a frente.

Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista diplomatica; mas aos parciaes do Infante o que convinha era um combate; cousa mais simples e talvez mais segura.

Começaram varias refregas, méras expansões da soldadesca; uma setta arremessada ao acaso foi bater na tenda real. Já não havia duvidas sobre as tenções do Infante... Podia, sem escrupulos, dar-se a carnificina.

Os pelouros das bombardas cruzavam-se nos ares com as flechas e com os golpes de montante; craneos esmigalhados pelos projectis juncavam o chão, havia heroes que abriam caminho com a espada ensanguentada, e entre esses D. Pedro.

Que queria elle? A Historia não o diz. Talvez fallar ao rei.

De repente um pelouro prostra-o por terra; Alvaro Vaz avisado d’isto redobrou de energia. Ao chegar junto do corpo do infante ajoelhou, e quando depunha o osculo na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.

D. Alvaro olhou-os de frente; de braço estendido para a morte, disse estas palavras: Fartar rapazes! vingar agora villanagem.

Uma turba de settas choveu sobre elle; a alma sentiu o corpo fraco e despediu-se do mundo. Era o ultimo cavalleiro.

Destruidos os dois baluartes da honra, findou a batalha, começando logo depois o saque, não dos despojos dos vencidos, mas dos bens do Grande Morto, que esteve tres dias insepulto.

Principia aqui a agonia da existencia de D. Izabel, joven de dezesete annos, com um coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.

Seu pae, julgando amparal-a dignamente, casou-a com o sobrinho; enlace que as côrtes de Torres Vedras approvaram com enthusiasmo.

O consorcio realisou-se em 1447, ou em 6 de maio de 1448,[23] tendo a rainha sido dotada com todas as villas que pertenceram a sua sogra D. Leonor e a sua avó D. Filippa.

Entre as nossas soberanas, D. Izabel de Lencastre é uma das mais sympathicas; basta para lhe dar jus a este titulo a sua qualidade de fiel esposa do homem que assassinára seu pae e que era o pae de seus filhos.

N’estes, porém, a excelsa princeza depôz todas as suas esperanças que não foram infundadas.

Tendo tido um filho varão (3 de maio de 1455), a rainha conseguiu que se rehabilitasse a memoria de D. Pedro e que o seu corpo, então depositado na egreja de Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no Mosteiro da Batalha, junto dos de D. João I e de D.

Filippa.[24]

Essa creancinha que ella, mãe extremosa, acalentava, era D. João II, o futuro Grande Rei que, com barbara, mas bem merecida justiça, vingaria a morte de seu avô.

No emtanto, os odios ainda não estavam extinctos e os promotores da catastrophe da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação do antigo regente, decidiram pôr termo á vida da filha, causadora de tal desgosto.

Apezar de não ser ponto averiguado, é tradição seguida, que a causa da morte d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi a peçonha ministrada pelos inimigos de seu pae, terriveis feras que depararam mais tarde com um terrivel vingador.

Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande epopeia de pedra da nossa nacionalidade. A Historia presta-lhe o culto da santificação pelo martyrio que enaltece as almas na perpetuidade dos seculos.