As Mentiras na Propaganda e na Publicidade
Em 30 de j aneiro, Hitler, em…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Em 30 de j aneiro, Hitler, em seu discurso no aniversário do Reichstag, proclam ou em term os calorosos a am izade entre a Alem anha e a Polônia.
Mas, nos m eses de fevereiro e m arço, a Polônia, que via aum entar o perigo, procurou obter o apoio de França e Inglaterra.
Em 15 de m arço, Hitler invadiu a Tchecoslováquia. (A Polônia ficou então cercada por forças alem ãs ao sul, oeste e norte.) Em 21 de m arço, Ribbentrop renovou, secam ente, as exigências alem ãs ao em baixador polonês.
Em 23 de m arço, a Lituânia, sob am eaças, cedeu Mem el à Alem anha; Hitler entrou na cidade em triunfo.
Em 25 de m arço, Hitler encarregou Ribbentrop de negociar com o em baixador polonês.
Novam ente, a Polônia recusou ceder Dantzig à Alem anha, m as propôs facilitar as com unicações alem ãs no corredor. Ribbentrop fez am eaças, e reclam ou de pretensas perseguições polonesas que teriam criado um a im pressão desastrosa na Alem anha.
Em 31 de m arço, a França e a Inglaterra deram seu apoio à Polônia.Em 1o de abril, Hitler fez um discurso m uito violento que ele finalizava com um a declaração pacífica, anunciando que a reunião do partido teria o nom e de: Convenção da Paz!
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Em 25 de abril, Hitler proferiu um discurso insurgindo-se contra, segundo dizia, as iniqüidades do Tratado de Versalhes. Revelou as propostas que fez à Polônia, qualificando-as de a m aior concessão im aginável no interesse da paz européia. Repreendeu a Polônia por m obilizar tropas, ao passo que, disse, a Alem anha não m obilizou um único hom em . E qualificou de invenção pura e sim ples os boatos difundidos a esse respeito pela im prensa internacional.
Depois, a tensão pareceu dim inuir. Na França, Marcel Déat publicou no luvre um artigo intitulado Morrer por Dantzig?, dizendo que os cam poneses franceses não tinham nenhum a vontade de m orrer pelos poldavos. E Goebbels m andou publicar grandes elogios a Déat na im prensa alem ã.
Em 23 de m aio, Hitler convocou seus chefes m ilitares para um a reunião na Chancelaria, anunciou-lhes que novas conquistas só poderiam ser obtidas com derram am ento de sangue, e revelou-lhes seus verdadeiros obj etivos: Não é Dantzig que está em questão. Trata-se de aum entar nosso espaço vital no leste.
No dia 31 de agosto, após negociações que ele próprio fez fra-cassar, Hitler deu ordem de ataque contra a Polônia. A guerra com eçou no dia seguinte.
É preciso deixar claro que desde 24 de novem bro de 1938 Hitler m andara estabelecer um plano de ataque-surpresa a Dantzig, onde seria provocado um levante da m inoria alem ã; e desde 3 de abril de 1939
havia um plano de ataque a toda a Polônia (cf. W.L. Shirer, 1960, I, cap.
14, 15, 16; e H. Rauschning, 1980, parte 3, cap. 3).
Incluím os esses fatos resum idam ente no presente capítulo, para ilustrar a noção de pretexto: Hitler serviu-se de um a dificuldade real, m as lim itada, que era a separação entre as duas partes da Alem anha pelo corredor de Dantzig, para acreditarem que se tratava de um a ação tão grave que poderia desencadear a guerra. Entretanto, na realidade, ele queria a própria guerra e a aniquilação da Polônia. Mas vem os, ao m esm o tem po, que Hitler utilizou, na preparação dessa agressão, não só um a, m as um a série de m entiras: afirm ação de suas intenções pacíficas com relação à Polônia e ao m undo; acusação à Polônia de belicism o; negação de seus próprios preparativos m ilitares; e finalm ente a tática de ducha quente-ducha fria Dantzig num m om ento significa guerra, e 177
logo depois não significa m ais; que os hom ens sensatos se acalm em e não se sintam obrigados a correr em socorro da Polônia!
Em publicidade
Vim os que os m otivos obj eto de m entiras, em propaganda, são em sua m aioria de natureza agressiva: prepara-se um ataque, m as fala-se que são apenas m anobras de rotina.
Em publicidade, a atribuição de falsos m otivos a um a ação tam bém é praticada, m as suas conseqüências em geral são m enos graves porque a atividade com ercial, m esm o que com petitiva e tendo seus interesses a defender, não se reduz a pura agressão. Distinguirem os nesse cam po dois tipos de m entira: as m entiras propriam ente ditas e os em belezam entos.
1) Mentiras propriam ente ditas
Um com erciante anuncia, por exem plo, que está liquidando seu estoque para fechar a loj a, e que por isso está sacrificando seus preços; m as na verdade ele não tem a intenção de encerrar o negócio, apenas vai reabri-lo, algum tem po depois, com outro nom e. Esse tipo de m entira é punido por lei de 1973, que proíbe qualquer alegação falsa a respeito dos m otivos da venda (ver cap. 4).
Mais difícil de caracterizar e punir é o caso a seguir.
Em outubro de 1972, um hiperm ercado em Paris teve de fechar quatro dias depois de inaugurado por determ inação do chefe da polícia, porque certas regras de segurança não foram respeitadas (cf. Le Monde de 17 de outubro de 1972). A direção m andou realizar as obras necessá-
rias, e publicar sucessivam ente dois anúncios de página inteira nos j ornais. O prim eiro, de 17 de outubro, dizia: Único caso na história do com ércio, o hiperm ercado X ficará fechado alguns dias; 330.000 clientes nos quatro prim eiros dias de funcionam ento. Agradecem os sua confiança. Confessam os, porém , que não esperávam os tanta gente. Assim , conscientes de nossas responsabilidades, decidim os fechar por alguns dias nossa loj a (...) e fazer algum as rem odelações para poder receber a TODOS e oferecer m elhor segurança e m aior conforto. E o segundo, 178
de 24 de outubro, dizia: Oficial. O hiperm ercado X está funcionando.
Acesso direto a 1.500 vagas no estacionam ento etc. (...). Assim , duas páginas de publicidade serviram para dissim ular, fazendo alusão à segurança e ao caráter oficial do assunto, o verdadeiro m otivo que provocou o fecham ento, a ordem do chefe da polícia. Quanto a esta determ inação, apareceu nas colunas dos j ornais em apenas algum as linhas (51
cm 2, incluindo o título, no Le Monde de 17 de outubro). Considerando que houve m entira neste caso, ela se revela não apenas no conteúdo do texto publicitário, m as na diferença de área ocupada pela inform ação propriam ente dita, redigida pelo j ornalista, e a m ensagem publicada e paga pelo anunciante: 51 cm 2 contra 1.650, ou sej a, 32 vezes m ais.
Na m edida em que a direção da loj a cum priu as prescrições de segurança im postas, poderíam os situar esse caso a m eio cam inho entre a m entira propriam ente dita e os em belezam entos, que vam os exam inar agora.
2) Em belezam entos
Na segunda categoria dos em belezam entos, a m entira consiste em j ogar com outra m otivação, e atribuir a um a ação um m otivo altruísta, para reduzir a im portância dos m otivos econôm icos. Considerando a divisão do trabalho que caracteriza nossa sociedade, a ação profissional de qualquer de seus m em bros apresenta dois lados: deve ser útil à sociedade, m as beneficia tam bém o próprio autor, que recebe rem uneração em troca de seus serviços. Em artigo escrito há algum tem po, dois autores am ericanos (L.I. Pearlin e M. Rosem berg, 1952) estudaram os anúncios publicitários radiofônicos de três grandes em presas (US-Steel Corporation, Standard Oil Com pany of California, Association of Am erican Railroads) e verificaram que, para ganhar a opinião pública, elas se apresentavam com o filantrópicas. Não som ente prestavam serviço às pessoas, m as participavam da riqueza coletiva, tanto pelos im postos que pagavam com o pela produção em si; elas se felicitavam por participar da pesquisa científica, da vida cultural, e fazer a felicidade de seus funcionários, não apenas pelos salários pagos, m as tam bém porque os tratavam com o parte de um a fam ília. As técnicas de relações públicas se desenvolveram m uito, desde essa época, tanto fora com o 179
dentro das em presas industriais, e as com erciais esforçaram -se para transm itir ao público um a im agem favorável; e para fazer os em pregados participar do estabelecim ento e m anutenção dessa im agem . Por exem plo, na França, em 1970, a em presa Rhône-Poulenc publicou na im prensa um a série de anúncios que tinham com o tem a: Rhône-Poulenc criou um a nova sigla para você. E viam -se diversas pessoas, um a senhora idosa, um a j ovem grávida, técnicos de idade m adu-ra, estudantes, sucessivam ente, dizendo com ar espantado: Para m im ? Na realidade, a sigla (um R e um P estilizados) tinha com o obj etivo dar ao público um a im agem global das num erosas atividades da em presa, e ser m ais facilm ente reconhecida. A sigla portanto era dirigida a diversos tipos de pessoas, m as poderíam os dizer que tinha sido feita para elas8 ?
Um grande banco estatal, Societé Générale, publicou em 1968
(entre outros, no Paris-Match de 12 de outubro) um anúncio cuj a cham ada era: Faça a Societé Générale trabalhar por você; e a im agem representava um hom em , satisfeito e descansado, sem fazer nada. Assim tam bém cam inhoneiros escreveram nas traseiras dos cam inhões e carretas os dizeres: Rodam os para você. E divulga-ram pelo rádio a m ensagem : Os cam inhoneiros são am igos. Tentaram , dessa form a, se contrapor a reações negativas, em razão da obstrução do tráfego, perigo e poluição que seus veículos provocam nas estradas.
Essas diversas fórm ulas não constituem , porém , m entiras no sentido restrito. Tentam som ente em belezar atividades que reúnem ao m esm o tem po o interesse particular dos profissionais envolvidos e o interesse geral, cham ando toda a atenção para o segundo aspecto. Para dizer a verdade, se não tivéssem os necessidade de transportar m ercadorias, os cam inhoneiros não teriam razões para circular.
8Devem os observar que essa política de im agem global de m arca é de natureza oposta à da diferenciação fictícia. Num dos casos, a em presa agrupa suas diversas atividades sob um m esm o nom e; no outro, ela as dispersa sob diversas m arcas. A prim eira política é geralm ente em pregada para favorecer as exportações: para apresentar um a em presa no exterior, é preferível dar-lhe, em relação aos concorrentes, certa am plitude. Mas a adoção de um a ou outra dessas estratégias depende de m últiplos fatores.
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III. DENOMINAÇÃO PELO CONTRÁRIO:
A QUANTIDADE TRANSFORMA A QUALIDADE
Esse tipo de m entira poderia ser classificado na falsa qualificação, exa-m inada anteriorm ente, pois constitui um a form a extrem a de falsa qualificação. Mas resolvem os considerá-la um a categoria específica, porque envolve ao m esm o tem po a quantidade e a qualidade: essa m entira consiste em deform ar o obj eto a tal ponto que ele apareça com o o contrá-
rio do que é na realidade. Verem os a seguir alguns exem plos.
Em propaganda
Quando o m undo soube na noite de 21 de agosto de 1939 que Hitler e Stálin estavam prestes a concluir um pacto (que foi assinado no dia 23), houve um espanto geral, j á que até então aquele professava um antico-m unism o virulento, e estavam em curso conversações entre União So-viética, França e Inglaterra, com vistas a um a aliança m ilitar contra a Alem anha hitlerista. Na véspera m esm o, a agência Tass desm entira que tivessem surgido divergências entre as delegações franco-inglesa e so-viética em Moscou.
Os dirigentes do Partido Com unista Francês tam bém ficaram desconcertados, e provavelm ente ignoravam as cláusulas secretas do pacto, pelas quais Hitler deixava a URSS tom ar a Estônia, a Letônia, um a parte da Lituânia e várias regiões da Polônia. Mas, no dia 22 de agosto, o j ornal LHum anité com entou o fato declarando que estava contente com a firm eza soviética.
No entanto, o partido desaprovara vigorosam ente até o m om ento a falta de firm eza dos governos inglês e francês, que haviam feito concessões em dem asia a Hitler em Munique, no m ês de setem bro de 1938.
Com o se poderia cham ar de firm eza, da parte de Stálin, a conclusão de um pacto de não-agressão com o próprio Hitler? Tratava-se, diante desse fato surpreendente, de m anter a qualquer preço um a aparência de continuidade: com o os dirigentes com unistas franceses estavam engaj ados num a política de firm eza contra Hitler, o j ornal LHum anité com eçou portanto a apresentar a m udança de posição de Stálin com o um ato de firm eza.9
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Menos de dois anos depois, em 21 de j ulho de 1941, Hitler rom -pia o pacto, e invadia a Rússia. Foi a vez de Goebbels tentar explicar essa segunda reviravolta. A população alem ã questionava por que se atacava um país com o qual fora assinado um pacto havia tão pouco tem po. Goebbels disse então que essa evolução resultava do com portam ento da com unidade j udaica internacional. Segundo ele, esta havia afrouxado em 1939 seu dom ínio sobre o governo soviético, o que perm itiu a conclusão do pacto. Mas depois ela retom ara a prim azia na URSS. E, concluía Goebbels, o que se devia estranhar é isso não ter acontecido m ais cedo! (Segundo K. Pätzold, 1980, p. 306 e 307.) Assim , o assom bro provocado pela ruptura do pacto transform ava-se no in-verso: com o o pacto pôde algum dia ser feito?
Pode-se tam bém vincular à denom inação pelo contrário o procedim ento que consiste em retornar um a acusação contra o adversário.
Por exem plo, na França, no período das eleições legislativas de 1978 e da presidencial de 1981, os adversários do Partido Com unista m encio-naram com insistência que o secretário geral do PCF, Georges Marchais, foi trabalhar na Alem anha durante a guerra, em dezem bro de 1942, e principalm ente que não se conseguia saber onde ele vivera no final do conflito, em 1944 e 1946.10 Para esvaziar essa cam panha, o j ornal LHum anité qualificou-a (em 21 de m arço de 1980, no editorial de René Andrieu) de Processo de Moscou em Paris. Procedendo desse m odo, invertiam -se os term os do debate: criticava-se freqüentem ente o Partido Com unista da União Soviética pelos processos inj ustos contra alguns de seus m em bros. Agora, um com unista francês era o alvo de certas críticas. Aqueles que faziam as críticas eram então m ostrados pelo editorialista do LHum anité com o sem elhantes aos responsáveis pelos processos de Moscou. Assim , pessoas por hipótese antiestalinistas eram cham adas de estalinistas.11
Vinculam -se tam bém à denom inação pelo contrário certas ações para m ascarar um fato. Lem brarem os a esse respeito as negociações secretas no início de 1940 entre os alem ães contrários a Hitler e os 9Pode-se im aginar m uitas hipóteses e form ular diferentes j ulgam entos sobre as razões de política interna ou externa que teriam levado Stálin a fazer um acordo com Hitler. Muitos trabalhos foram escritos sobre a história do pacto. Pode-se ter acesso a um a lista de referências no livro Le PCF
dans la Guerre (1980, p. 38), de Stéphane Courtois.
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Aliados. Esses opositores, entre os quais o alm irante Canaris, chefe da Abwehr12, achavam que era seu dever fazer com que fracassassem os proj etos belicosos de Hitler, revelando-os aos Aliados; e esperavam , após derrubar Hitler e restabelecer um governo dem ocrático na Alem anha, obter um a paz j usta. (Lem brem os que a guerra com eçou em setem bro de 1939, com o ataque à Polônia.) O Vaticano estava disposto a apoiar essa tentativa, e os opositores enviaram a Rom a um j urista católico, am igo do papa, professor Joseph Mueller, para m anter contatos com os ingleses.
Hitler suspeitou da operação e ordenou um a investigação im ediata sobre a possibilidade de traição. Os conspiradores ficaram então em perigo. Canaris, no entanto, não perdeu seu sangue-frio. Com o chefe da Abwehr, nom eou para conduzir a investigação em Rom a... o próprio Mueller. E foi pessoalm ente inform ar a Hitler que ordenara que se fizesse um a investigação rigorosa, e que para isso havia escolhido seu agente especial, Joseph Mueller. Hitler aprovou (cf. Cave-Brown, 1981, I, cap. 6, 7 e 8). Assim , ao designar Mueller para investigar um a opera-
ção da qual ele era um dos principais atores, Canaris j ogou com a oposição que, logicam ente falando, existe entre os papéis de investigador e suspeito, e transform ou Mueller em não-suspeito.
Observação A denom inação pelo contrário, a devolução da acusação e as decisões com o as tom adas por Canaris, que acabam os de citar, podem ser consideradas com o equivalentes da negação. Realm ente, falar da firm eza soviética no m om ento da assinatura do pacto germ ano-soviético equivalia a dizer: não faltou firm eza a Stálin. Da m esm a form a, afirm ar em 1941 que era estranho o conflito entre a URSS e a Alem anha não ter com eçado m ais cedo significava dizer: o ataque alem ão (a 10Cf. A. Lecoeur, 1980.
11Lem bram os que a expressão Processo de Moscou em Paris foi repetição do título do livro de Charles Tillon (1971). Com unista, antigo chefe dos FTP (franco-atiradores e guerrilheiros, que lutaram contra a ocupação nazista), Tillon foi acusado em 1952 de trabalho fracionista pela Secretaria Política, e excluído do partido em 1970. Publicou o livro em 1971 para esclarecer os fatos e revelar as pressões que sofreu.
12A Abwehr era o serviço de inform ações do exército alem ão. Canaris m ereceu por m uito tem po a confiança de Hitler; m as achava que os proj etos belicosos deste levariam a Alem anha à ruína, e deu apoio aos com plôs contra ele. Acusado de estar envolvido no atentado contra Hitler de 20 de j ulho de 1944, foi preso, e executado em abril de 1945.
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despeito do pacto) não é de se estranhar. Enfim , enviar Mueller para investigar os contatos que tentava m anter com os inim igos da Alem anha equivalia a dizer: Mueller não traiu. Mas a denom inação pelo contrário tem a vantagem de evitar a negação, pois esta apresenta o inconveniente, com o j á dissem os (ver cap. 6, a respeito da om issão), de conferir um certo peso à tese adversária m encionando-a ao com batê-la. A apelação pelo contrário é não-dialética; afasta do espírito o que se quer negar. A decisão de Canaris teve ao m esm o tem po o papel de signo e o de um a ação. Era um sim ples signo enquanto servia para fazer Hitler acreditar que Mueller e a Abwehr eram inocentes. E era ao m esm o tem po um a ação, pois, ao designar Mueller, Canaris utilizava um a boa form a de im pedir que a investigação fosse feita.
Em publicidade
A publicidade raram ente utiliza de form a explícita a denom inação pelo contrário. Mas procede freqüentem ente por antítese, de m aneira im plí-
cita; é o que m ostrarem os.
Considerem os prim eiram ente um caso quase explícito. A peça publicitária distribuída em 1964 pela Renault para o m odelo 5 CV, o Dauphine, tinha o título, em letras grandes: O insubstituível Dauphine.
No entanto, esse m odelo existia havia oito anos, e sairia de linha em dezem bro de 1965 (com exceção do Gordini, m odelo esportivo produzido em pequeno núm ero por m ais dois anos; extraím os esses dados cronológicos de René Bellu, 1979).
A fórm ula o insubstituível tinha evidentem ente com o obj etivo lutar contra o tem or dos com pradores de que seu carro ficasse ultra-passado em pouco tem po. Mas, em lugar de dizer este m odelo não vai sair de linha em breve, o que poderia fazer os com pradores ficar com a pulga atrás da orelha, exprim iu-se a negação sob a form a de um epíteto, transform ando-o num a qualidade por assim dizer atem poral: não se dizia que o Dauphine não seria substituído, m as som ente que era insubstituível.
A evocação do contrário pode ser feita tam bém sob a form a de im agem . Por exem plo, um a publicidade da cadeia Novotel (que chegou 184
às nossas m ãos em 1978), com o título Bem -vindo à Novotel, representava cinco em pregados de hotel; da esquerda para a direita, viam -se um a cam areira (com um aspirador de pó), um recepcionista, o gerente (sem nada nas m ãos), a telefonista e um cozinheiro. Ao observar tal equipe, é claro que se espera poder usufruir de um conj unto de serviços prestados com rapidez. Ora, o que caracterizava a gestão dos hotéis dessa rede era exatam ente a econom ia de pessoal! Por exem plo, havia nos corredores aparelhos para engraxar os sapatos, m as era preciso que o próprio hóspede fizesse isso. Havia carrinhos para transportar as m alas, m as ninguém para aj udar. A econom ia de pessoal era em si um a fórm ula que se j ustificava, pois perm itia que não se econom izasse tanto em outros itens, com o o espaço e a decoração. Mas o anúncio, por sua im agem , sugeria exatam ente o contrário da realidade, em m atéria de pessoal.A antítese em publicidade tom a geralm ente um a form a m ais sutil que a dos dois casos anteriores. Citarem os a esse respeito a publicidade das bebidas alcoólicas. Juntam ente com D. Lassarre, fizem os um estudo (G. Durandin e D. Lassarre, 1977) sobre os diversos argum entos publicitários utilizados para bebidas num período de vinte anos (1954
a 1974) e verificam os que os m ais freqüentes eram : a tradição, o prestí-
gio e o refinam ento, este ligado tanto aos cuidados na produção com o ao próprio consum idor, considerado com o um conhecedor.
Ora, se refletirm os, perceberem os que essa im agem de refinam ento serve em parte para repelir as im agens deploráveis que o álcool pode lem brar, as da em briaguez. Assim , um dos principais riscos associados ao álcool, a em briaguez, é indiretam ente negado pela sua publicidade. Mas, paradoxalm ente, a publicidade de um a bebida que não contém álcool, Gini, cita um gosto exótico e acom panha esta fórm ula com im agens de natureza fantástica. Por exem plo, um hom em nu a cavalo, e sobre o cavalo um a m ulher sem ideitada de lado e envolvida num véu (publicada em Paris-Match de 17 de m aio de 1975). Ou um hom em a cavalo e um a m ulher surgindo da areia, aos pés do cavalo; aqui tam bém ela está oculta por um véu (Paris-Match, 14 de j unho de 1975). O que se pretende repelir? É a idéia de deixar de ser hom em ao se abster de bebida alcoólica. O consum idor de bebidas não-alcoólicas 185 deve ter direito ao fantástico, e por assim dizer à em briaguez. O m ecanism o utilizado é portanto o m esm o que no caso anterior, procura-se identificar os tem ores que os diversos produtos podem suscitar, e inventa-se um nom e, ou um a fórm ula, que evoca em cada caso o contrá-
rio do que é tem ido: contra a em briaguez, o refinam ento; contra a falta de audácia e de virilidade, a em briaguez, ou ao m enos a fantasia.
Assim , em publicidade com o em propaganda, a denom inação pelo contrário, ou a evocação do contrário, perm ite repelir um aspecto da realidade, evitando form ular um a negação que poderia expor-se fron-talm ente à m ensagem contrária. Diríam os que a denom inação pelo contrário é a m entira perfeita.
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CAPÍTULO 9
Outros procedim entos
Os três tipos de operação exam inados anteriorm ente consistiam em apresentar de um a certa m aneira um obj eto definido: escondia-se, in-ventava-se ou deform ava-se um obj eto.
Os procedim entos que verem os agora não constituem m entiras no sentido estrito, m as servem para im pedir a população de conhecer a realidade, ao m anipular m ais o psiquism o dessa população do que o obj eto apresentado.
Classificarem os esses procedim entos em três categorias.
Os prim eiros consistem em perturbar o exercício do conhecim ento. São eles:
desviar a atenção;
pretender que a questão é m al conhecida;
ou, ao contrário, fazer alusão a pretensos conhecim entos;
lançar notícias contraditórias.
Os segundos, m uito gerais, consistem em especular sobre as dificuldades inerentes ao conhecim ento e à im perfeição de seus instrum entos; colocarem os nesta categoria:
a utilização da linguagem ;
a utilização do raciocínio.
Por fim , os procedim entos da terceira categoria relativos aos processos afetivos que m otivam e acom panham o conhecim ento. Colocarem os nesta últim a categoria:
a utilização dos valores alheios;
a utilização do inconsciente.
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Neste capítulo, com o descreverem os de form a breve os diferentes procedim entos, abordarem os indistintam ente a propaganda e a publicidade, sem fazer sistem aticam ente a com paração entre as duas com o ao estudar os três grandes tipos de operação.
I. PERTURBAR AS CONDIÇÕES
DE EXERCÍCIO DO CONHECIMENTO
A) Desviar a atenção
Quando um fato chega ao conhecim ento do público por vias que não se conseguiu controlar, às vezes é difícil negá-lo, m as pode-se tentar desviar a atenção, para reduzir seu im pacto.
Esse procedim ento aproxim a-se da om issão e da negação (que fazem parte das operações do tipo I: as supressões) e da m inim ização (que faz parte do tipo III: as deform ações) e pode tom ar duas form as ligeiram ente diferentes entre si:
A prim eira consiste em cham ar a atenção sobre outro obj eto.
Por exem plo, em 1943, Goebbels tentou desviar a atenção dos crim es com etidos pelos nazistas nos países ocupados e nos cam pos de deportados com um a cam panha sobre as fossas da floresta de Katy n (a oeste de Sm olensk), onde os alem ães haviam descoberto os cadáveres de m ilhares de oficiais poloneses que os soviéticos aprisionaram em 1939, executados em 1940. Ele enviou para lá m édicos e quím icos, convidou especialistas neutros a participar das buscas, e organizou funerais sole-nes na presença de correspondentes estrangeiros (cf. C. Riess, 1956, p.
505 a 508). Mas enfrentou um a certa incredulidade, apesar da realidade dos fatos.1
Outro exem plo: em 1973, o governo da China Popular organizou, no próprio país e no exterior, a exposição de obj etos arqueológicos descobertos durante a cham ada Revolução Cultural. Um a dessas exposições realizou-se em Paris em m aio de 1973. Porém , Sim on Ley s acredita que essas exposições tinham com o obj etivo apagar a deplorá-
1Esse m assacre foi, na época e tam bém depois, sem pre contestado pelos soviéticos, que tentaram atribuí-lo aos próprios alem ães. Mas vários estudos atestam atualm ente que foi m esm o perpetra-do pelos soviéticos (cf. H. de Montfort, 1966; A. Kwiatrowska-Viatteau, 1981).
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vel im agem da China criada pela destruição dos m onum entos pelo Exército Verm elho nos anos anteriores (cf. S. Ley s, 1974, cap. 2). Assim , em vez de enfrentar o pesado encargo de dizer os revolucionários não destruíram obras de arte, a propaganda preferiu cham ar a atenção sobre trabalhos dos cham ados revolucionários em m atéria de cultura.
A segunda m aneira de desviar a atenção consiste em cercar o obj eto litigioso de diversos outros, para dim inuir sua im portância relativa. É um procedim ento sem elhante ao de esconder um peixe num lago. Achar um peixe entre centenas de outros é de fato um a operação difícil! Na França, por exem plo, quando se preparavam as eleições de 1936 (em que a esquerda sairia vitoriosa), o Partido Com unista, para dissipar a idéia de que estaria subordinado a Moscou, declarava: Não será em Rom a, nem em Berlim e nem m esm o em Moscou, com que nós com unistas tem os um a ligação profunda, que se determ inará o destino de nosso povo: é em Paris (citado por Jacques Fauvet, 1977, p.
168). Seria realm ente necessário citar aquelas três localidades para negar um a delas? Essa tripla m enção tinha com o obj etivo essencial m inim izar um a, Moscou, m esm o afirm ando o vínculo do partido com este pólo. Da m esm a form a, em 1980, Georges Marchais, secretário geral do Partido Com unista Francês, com entando um a posição tom ada pelo Partido Com unista Italiano a respeito dos acontecim entos na Polônia,2 disse: Estão nos criticando por não tom arm os a m esm a po-sição que nossos cam aradas italianos. Pois bem , serei franco com vocês: é totalm ente fora de cogitação que façam os isso porque som os ciosos da nossa independência e não nos alinham os a nenhum partido, nem ao Partido Com unista Italiano nem a outro qualquer, incluindo o Partido Com unista da União Soviética (...) (Journal Innatendu da RTL, 13 de 2Em j ulho de 1980, depois de um aum ento de preços da carne, estouraram greves em Lublin.
Depois o m ovim ento se am pliou e se politizou: em Gdánsk, no m ês de agosto, os operários reivindicaram o direito de form ar sindicatos livres, isto é, independentes do Partido Com unista e do Estado. Houve negociações entre seu líder, Lech Walesa, assessorado por especialistas, e o governo, resultando num acordo no final de agosto.
Mas a autoridade do partido, assim com o as ligações com a União Soviética, estavam ao m esm o tem po sendo questionadas. E, no dia 6 de setem bro, Edward Gierek, secretário geral do partido, foi afastado de suas funções e substituído por Stanislas Kania.
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dezem bro de 1980, citado pelo Le Monde de 16 de dezem bro). Ao afirm ar, assim , que os com unistas franceses não se alinhariam a nenhum partido, o autor dava a entender que havia um a variedade de partidos e de alinham entos possíveis, reduzindo a im portância da tom ada de posi-
ção do partido italiano.
O desvio da atenção em publicidade
Os exem plos de desvio da atenção que acabam os de ver referiam -se à propaganda. Esse procedim ento tam bém seria utilizado em publicidade?
À prim eira vista, seríam os tentados a responder negativam ente, pois um dos principais obj etivos da publicidade é cham ar a atenção sobre os produtos que está prom ovendo. Mas cada produto tem vantagens e inconvenientes, e pode-se tentar desviar a atenção destes, cham ando a atenção sobre vantagens que não têm por si grande im portância. É o caso de certos anúncios de com panhias de aviação. O estudo psicológico dos viaj antes que utilizam avião perm itiu constatar que eles experim entam , de m aneira consciente ou não, sentim entos angustian-tes de separação e de perigo. É por isso que a publicidade evoca freqüentem ente um am biente por assim dizer m aternal no avião, e insiste nos num erosos serviços que a com panhia oferece durante o vôo (cf. M. Mansfi, 1977). Por exem plo, um a publicidade da Swissair (publicada no Le Monde de 11 de m arço de 1977) diz: Se você pressionar este botão, durante sua próxim a viagem à Am érica do Sul pela Swissair, terá: cartas de brid-ge, um a escova de roupa, lenços refrescantes, ketchup, m áscara para dorm ir, (...) ou sim plesm ente inform ações. O anúncio, que apresentam os de form a abreviada, enum erava 23 tipos de obj etos ou serviços. Ora, essa abundância não é apenas um sím bolo de conforto e luxo, m as pretende fazer o avião se assem elhar a um a casa, onde habitualm ente, em terra, são encontradas todas essas facilidades; com isso, a atenção é desviada do caráter aéreo do avião, e da idéia de associar queda com elevação excluída, norm alm ente, quanto aos pássaros. Cham a-se portanto a atenção para um a variedade de elem entos agradáveis m as secundários, para desviá-la de um elem ento im portante m as desagradá-
vel, o perigo. Isso perm ite com pletar, se assim podem os dizer, a om issão deste últim o.
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B) Pretender que a questão é m al conhecida
Trata-se de um a deform ação (isto é, um a operação do tipo III) que se refere não aos próprios fatos, m as ao grau de conhecim ento sobre eles. Assim , quando o público fica sabendo de atos repreensíveis com etidos por um político ou governo, os porta-vozes destes dizem que os fatos não estão claros, e portanto é im possível fazer um j ulgam ento. Lem brarem os a esse respeito as internações psiquiátricas na União Soviética. Políticos de oposi-
ção eram internados em hospitais psiquiátricos, alegando-se serem esquizofrênicos ou paranóicos, para m inar sua influência sobre a popula-
ção. Essa prática, denunciada e condenada em vários congressos m undiais de psiquiatria e psicologia,3 foi desm entida por psiquiatras soviéticos, e na França constituiu assunto do seguinte texto publicado na revista com unista La Nouvelle Critique, no 56, de setem bro de 1972:
O volum e de inform ações sobre a utilização da psiquiatria para fins repressivos no m undo é infelizm ente pequeno. O dever do psiquiatra em todo país é proceder um im placável rastream ento de todas as situa-
ções de desvio da psiquiatria para fins repressivos, das m ais grosseiras às m ais sutis... O com bate para a erradicação das condutas repressivas em psiquiatria exige um grau de inform ação e análise que tem encon-trado com o principal obstáculo, na França, o peso de estruturas arcai-cas e a extrem a carência de m eios, principais em pecilhos ao desenvolvim ento de um a prática anti-repressiva. A execução de um a tarefa que inclui desde um m elhor conhecim ento dos casos de repressão até um a ação eficaz para elim iná-los obedece às leis gerais do trabalho científi-co, inclusive quanto às exigências de intercâm bio internacional.
Este texto estava assinado por um psiquiatra francês. Vem os que o autor condena a utilização da psiquiatria para fins repressivos, e que não nega explicitam ente a existência dessa prática na URSS; m as ele não a m enciona e declara que os fatos são m al conhecidos, evitando assim que seus leitores possam j ulgá-los.
Em resum o, é exatam ente no m om ento em que os fatos se tornam conhecidos, e são levados ao conhecim ento da opinião pública, 35o Congresso Mundial de Psiquiatria no México em 1971; 6o Congresso Mundial em Honolulu em 1977; 21o Congresso Internacional de Psicologia em Paris em 1976.
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que ele os caracteriza com o insuficientem ente conhecidos. Além disso, transform a e desvia a acusação: não é m ais a União Soviética a acusada de praticar internam entos psiquiátricos, m as as estruturas francesas apontadas com o responsáveis pela carência de inform ação a respeito.
Em relação à publicidade, não encontram os até agora exem plos desse procedim ento. Um anunciante poderia utilizá-lo, entretanto, para se defender de acusações feitas por associações de consum idores ou organism os de controle, ou por concorrentes, no caso de publicidade com parativa; ele poderia questionar, por exem plo, a validade das norm as que houvessem avaliado seu produto e o desvalorizado. O artigo de propaganda sobre o uso repressivo da psiquiatria, que vim os, tam bém representava um a postura defensiva. Num prim eiro m om ento, os propagandistas, com o os publicitários, procuram fazer afirm ações de-cisivas, em vez de m ostrar o conhecim ento sobre determ inada questão.
C) Fazer alusão a pretensos fatos
Este procedim ento, ao contrário do precedente, consiste em fingir ter m ais inform ações do que realm ente se possui (poderia ser incluído nas invenções verbais no quadro das operações do tipo II). O em issor não usa a m entira no sentido estrito, pois não afirm a a existência dos fatos que inventa, contenta-se em m encioná-los com o se fossem conhecidos, e então tira conclusões. Em 16 de m arço de 1943, por exem plo, a agência de propaganda alem ã na França dava instruções à im prensa com o falar de um eventual desem barque anglo-am ericano, e nos seguintes term os aconselhava os j ornalistas franceses a dissipar as ilusões de seus com patriotas que ansiavam por essa operação: ...se os alem ães recuarem , serão im ediatam ente substituídos pelos anglo-am ericanos que ocupariam a França. Essa ocupação seria m ais pacífica? Para responder a isso, é suficiente saber o que se passa hoj e no norte da África (cf. R.
Nobécourt, 1962, p. 322). Considerava-se portanto que todos sabiam que no norte da África, depois do desem barque aliado (ocorrido em 1942), estariam acontecendo coisas terríveis, até inenarráveis. Esse procedim ento consiste, com o se vê, em explorar um fenôm eno de ordem geral, isto é, que as com unicações com portam um a parte im plícita: supom os sem pre que o receptor tem um certo conhecim ento da situação 192
a respeito da qual falam os e fazem os com entários. Se fosse preciso descrever e explicar tudo, o processo da inform ação se tornaria extre-m am ente longo. Aproveitando-se disso, um propagandista pode fazer acreditarem que certos fatos por ele inventados, ou aum entados, são conhecidos e públicos. O receptor, se não conhece esses fatos, provavelm ente recrim inará sua própria ignorância. Talvez até passe adiante a inform ação, para parecer im portante.
D) Dissem inar notícias contraditórias
Este artifício assem elha-se ao m esm o tem po a três tipos de procedim ento: supressão, adição e deform ação. O obj etivo de dissem inar notícias contraditórias é sem ear a confusão e fazer a população ficar passiva; as pessoas se tornam incapazes de agir, por não saber sobre o que agir. Assim , na cam panha contra a Polônia, em 1939, os alem ães fizeram transm issões nos m esm os com prim entos de onda das rádios daquele país, divulgando notícias contraditórias, inclusive de pretensas vitórias polonesas. Pretendiam , com a alternância de esperança e decepção, abater o ânim o das tropas (segundo E.
Tay lor, 1940).
Durante a cam panha da França, quando Mussolini decidiu entrar em guerra contra a França, em 10 de j unho de 1940, correu um boato. Entre as tropas francesas, falava-se que a Itália entraria em guerra, ao lado da França, contra a Alem anha. A decepção, após essa boa notícia, não tardaria. Não sabem os se o boato surgiu espontaneam ente ou foi dissem inado por um serviço de propaganda.
Para dar um a idéia concreta da angústia e passividade que inform ações contraditórias podem provocar, m encionarem os um a recorda-
ção pessoal: em 1942, em Rawa-Ruska, um cam po de prisioneiros de guerra franceses, as autoridades nos pediram certo dia que lhes déssem os a lista dos doentes de tuberculose, para enviá-los a um local especial, onde seriam tratados. Ora, sabíam os, por um sentinela que não era nazista, que os doentes recrutados em outro cam po foram enviados na verdade para um local m uito pior, onde m orriam . Portanto não forne-cem os a lista. Mas quais seriam as reais intenções das autoridades de Rawa-Ruska naquele m om ento? Provavelm ente nunca saberem os.
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Em publicidade, o lançam ento de notícias contraditórias por um m esm o em issor é, em geral, coisa rara. O procedim ento foi em pregado em 1972 por um a loj a de roupas, para cham ar a atenção e m ascarar ao m esm o tem po a verdadeira natureza de um fato.
Em 2 de dezem bro, foi publicada nos j ornais um a m atéria que tinha com o título: Deixarem os que se construa um arranha-céu no Boulevard Haussm an, em plena Paris? E o texto dizia que a loj a de roupas CCC seria dem olida, e substituída por um edifício de 250 m etros de altura, sobre pilotis, sem nenhum a j anela, destinado a servir com o garagem ; seria o estacionam ento m ais caro de Paris. Seria um escânda-lo. Mas, no dia 5 de dezem bro, um desm entido tinha com o título: A loj a CCC não será dem olida. E o texto detalhava que a loj a seria reform ada, m as que os boatos sobre o arranha-céu eram destituídos de fundam ento. Por fim , no dia 8: Desm entido form al: a loj a CCC não será dem olida. Não haverá arranha-céu no Boulevard Haussm an. (...) A loj a CCC vai sim plesm ente sofrer um a am pla reform a. (...) Essa histó-
ria de arranha-céu é apenas um a lem brança ruim que será esquecida em breve.Essa publicidade em form a de notícia falsa foi obj eto de vigoro-sos protestos, particularm ente do Conselho da cidade de Paris. Quanto à sua finalidade, era disfarçar a verdadeira natureza da situação: a área da loj a seria reduzida, com um a parte transform ada, por razões de renta-bilidade, em escritórios para alugar. (Anotam os esses anúncios no j ornal Le Monde de 2, 5 e 8 de dezem bro de 1972, e os protestos nos dias 3, 4 e 6 de dezem bro.)
Esse procedim ento, por m ais que sej a discutível, não visava abater o ânim o da população, ao contrário do que vim os em propaganda.
II. ESPECULAR SOBRE AS DIFICULDADES
DO CONHECIMENTO E A
IMPERFEIÇÃO DE SEUS INSTRUMENTOS
Esclarecem os os procedim entos até agora exam inados com um a análi-se relativam ente sim ples. Conhecendo o referencial, isto é, a realidade, pode-se caracterizar em poucas palavras a transform ação provocada 194
pela m entira. Mas tem os às vezes a sensação de, em nossos exem plos, deixar escapar o essencial, pois há tantas m aneiras de falar de um a coisa, e de situá-la em relação às outras, que o m entiroso tem grande espa-
ço de m anobra: ele pode falsificar a representação da realidade sem cair em contradição, usando alguns artifícios. Isso nos leva a algum as considerações sobre a utilização da linguagem e do raciocínio para fins enganosos.
A) A utilização da linguagem
Para exam inar o papel da linguagem em propaganda e publicidade seria necessário um livro inteiro, ou até m ais.4 Vam os nos contentar, no que se refere à m entira, em destacar dois pontos: 1) No curso da história, acum ulou-se um grande núm ero de conhecim entos, transm itidos de geração em geração. Disso resulta que, atualm ente, a m aior parte de nossos conhecim entos repousa na linguagem , e não na experiência direta. A quantidade de conhecim entos que um indivíduo adquiriria por si m esm o, dedicando a isso toda a vida, seria ínfim a em com paração com tudo o que pode aprender com os pais, professores e os diversos m eios de inform ação à sua disposição.
Há tam bém um a relação estreita entre o conhecim ento e a linguagem , sendo esta o instrum ento principal para transm iti-lo. Mas essa dependência facilita perigosam ente a tarefa dos propagandistas, porque do-m inando a linguagem eles podem controlar o pensam ento: fazer acreditar que um a coisa existe ou não, que é preta ou branca. Foi o que George Orwell ilustrou em seu livro intitulado 1984 (op. cit.): os dirigentes do Partido, no país Oceania, im puseram um a nova língua, a Novilíngua. Eles reduziram , a cada ano, o núm ero das palavras, para enquadrar o pensam ento em lim ites estreitos; e criaram algum as expressões que significavam exatam ente o contrário da realidade que de-signavam . Assim , o Ministério da Paz cuida da guerra, o Ministério da Verdade trata das diversões, das notícias, da instrução e das belas-artes.
O Ministério do Am or m antém a lei e a ordem . O Ministério da Abundância é responsável pelos assuntos econôm icos para não dizer pela 4Ver a esse respeito O. Reboul, 1980.
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penúria. Pode-se perceber sem grande dificuldade as alusões ao regim e soviético, do qual Orwell firm ou opinião quando lutou nas fileiras do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista, que era de tendência trotskista), durante a guerra civil espanhola, em 1937.
2) Nenhum a linguagem , por outro lado, é isenta de am bigüidades, pois o significado das palavras evolui com o tem po, e a sintaxe não dom ina todas as com binações possíveis entre os term os. Isso tam bém facilita a tarefa dos propagandistas e publicitários, quando querem dissim ular algum a coisa. Considerem os, por exem plo, esta fórm ula publicitária utilizada pela Citroën para apresentar, em 1977, um novo m odelo de autom óvel da série CX: Novo 2 litros. O 2 litros feito pela Citroën.
CX Reflex (publicado no Le Monde de 13 de setem bro de 1977). O que significa a fórm ula O 2 litros feito pela Citroën? Poderíam os acreditar que esse m otor de 2 litros de cilindrada foi desenvolvido pelos engenheiros da Citroën, levando sua assinatura. Mas tratava-se na realidade de um m otor Peugeot. Esse m otor talvez fosse excelente, e a Peugeot, que com prara a Citroën em 1976, provavelm ente tinha boas razões técnicas para substituir o m otor da série CX, de concepção antiga, por um dos m odelos m ais recentes de sua fabricação. Mas era necessário, nessas condições, em pregar um a fórm ula que, m esm o sem ser rigorosam ente m entirosa, sugeria um a pura origem Citroën?
B) A utilização do raciocínio
Para persuadir o público ao qual se dirige, o propagandista geralm ente desenvolve um a argum entação; ele não se contenta com sim ples exortações. Um a das argum entações consiste em cham ar a atenção sobre certos elem entos, e estabelecer entre estes relações, por m eio do raciocínio. Ora, a população procura seguir as leis da lógica, m as nesse aspecto ela apresenta em geral lim itações de form ação e capacidade. Um propagandista pode utilizar propositalm ente essa deficiência de pensam ento lógico para im por sua tese com o auxílio de raciocínios incorretos. Os principais procedim entos em pregados a esse respeito são5: 5Pode-se encontrar um a exposição m ais detalhada desses procedim entos em G. Durandin, 1956.
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o desrespeito ao princípio da não-contradição;
a sim plificação excessiva, que leva a um a dicotom ia, pela qual todos os obj etos são classificados em duas categorias radicalm ente diferentes: bons ou m aus, am igos ou inim igos;
a assim ilação (ou am álgam a), que consiste em fazer acreditar que um obj eto a ser avaliado é sem elhante a outro j á conhecido, sob o pretexto de que apresentam um ou vários traços em com um ; esse procedim ento serve m ais freqüentem ente para desvalorizar o obj eto que se está avaliando, fazendo-o parecer sem elhante a outro considerado de qualidade inferior;
a petição de princípio, que consiste em tom ar com o prova um elem ento não dem onstrado, e que constitui apenas um postulado; está tam bém ligada à dicotom ia, pois de tanto dizer e repetir, m esm o sem provas, que tudo o que pertence a um cam po é bom , ou ao contrário m au, acaba-se por dar a essa afirm ação um valor de princípio;
por fim , a extrapolação aleatória, de que falam os um pouco ao tratar das m entiras relativas ao futuro (ver cap. 4).
O que facilita a m entira, em m atéria lógica, é que a argum enta-
ção, contrariam ente a um a sim ples exortação, é um processo que se desenvolve durante certo tem po. O propagandista pode utilizar nesse tem po a contradição fragm entada. Ele não enuncia duas proposições contraditórias im ediatam ente um a depois da outra, m as separa a segunda da prim eira com certo intervalo, durante o qual evocará diversos elem entos. Os ouvintes ou leitores, não podendo reter m entalm ente todos os elem entos de um longo discurso, provavelm ente não perceberão a contradição.
Não estudarem os aqui em detalhe os procedim entos dos falsos raciocínios, porque isso exigiria longa análise de cada caso e das regras de lógica violadas. Por outro lado, devido à baixa capacidade lógica da população em geral, não é fácil saber, quando um propagandista utiliza um falso raciocínio, se ele o faz deliberadam ente para enganar a população, ou se peca som ente por sua própria ignorância lógica. Quando alguém quer provar algo está anim ado por um desej o, e arrisca portanto a deixar-se levar pelos próprios erros de raciocínio.
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III. UTILIZAÇÃO DOS PROCESSOS AFETIVOS
A) Os valores alheios
Até agora, destacam os os aspectos cognitivos da propaganda e da publicidade. Apresentam os no início desta obra o esquem a: Desej o
Conduta
Inform ação
Estabelecem os em princípio, assim , que propagandistas e publicitários fornecem , a pessoas e grupos cuj a conduta querem influenciar, inform ações sobre os m eios de realizar seus desej os. Mas esse m esm o esquem a requer evidentem ente a existência de desej os e, de m aneira m ais geral, relações afetivas; se as pessoas não tivessem desej os nem tem ores, e não atribuíssem valor a nada, não se interessariam pelas inform ações que lhes fossem fornecidas ou negadas.
O procedim ento que exam inarem os agora refere-se a valores.
Poderia ser associado ao procedim ento da qualificação falsa nas opera-
ções do tipo III (as deform ações). Mas o colocam os no presente capí-
tulo porque consiste em qualificar de m aneira falaciosa não os próprios fatos, m as a atitude do em issor. Ele tenta ganhar a confiança do receptor referindo-se aos m esm os valores m orais, políticos ou religiosos deste.
Por exem plo, quando John F. Kennedy era candidato a presidente dos Estados Unidos em 1960 (derrotou Nixon), o fato de ser católico constituía para ele um a dificuldade, pois a religião m aj oritária nos Estados Unidos é o protestantism o. Em program a de televisão na Virgínia, com o era questionado sobre a questão religiosa, ele dedicou ao tem a um terço do program a (que durava no total cerca de m eia hora) e insistiu sobre o que afirm ava ser um a das m ais im portantes determ inações constitucio-nais: a separação entre o Estado e a Igrej a. Depois, olhando para a câm ara isto é, para o telespectador , disse: Assim , quando um hom em chega ao Capitólio e faz o j uram ento presidencial, j ura m anter a separação entre o Estado e a Igrej a; põe um a das m ãos sobre a Bíblia e ergue a outra para Deus enquanto faz o j uram ento. E, se viola seu 198