As Netas do Padre Eterno
Capítulo XII
Subiu o panno. O palco representava uma sala, que fingia communicar com outras. Ouvia-se um sol-e-dó, com pretensões a orchestra de salão. Devia ser um baile.
SCENA I
. e . (entram ambos, conversando, pela porta
do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos
espectadores a casaca de D. Mendo, que é antiga e enorme.)
.
Mas se conhecem?
.
Sim! sim!
Agora, que estás no baile,
Emancipa-te de mim.
Passeia, namora, primo,
Faze a côrte, dize graças,
Pódes até, se quizeres,
Tu, morgado de Boaças,
Ser um rei entre as mulheres!
.
Um rei com manto emprestado!
Julgo ouvir, a cada passo,
Dizer a voz de um palhaço:
«Largue a casaca, morgado!»
Que entre a fôrma e entre o fato
Deve a união ser tamanha
Como entre a casca e a lagosta,
Entre o ouriço e a castanha.
Mas eu com esta casaca
Cheiro a D. Miguel I.
Suppõe que eu sou a castanha:
Ella é o ouriço... cacheiro.
.
Ora adeus! Em Braga serve...
.
Essa ironia é cruel!
Onde ella faria vista
Seria em Penafiel,
Que lá as casacas todas
São ainda mais pesadas
E têm as abas dobradas,
Dizem...
.
Pensei que sabias!
.
Não. Eu já lá estive uns dias,
Mas nunca mudei de fato.
Ora eu com esta casaca
A que Bocage decerto
Fez no seu tempo uma quadra,
Devo par’cer um retrato
D’estes da Feira da Ladra!
E depois que desconcerto
Entre a casaca e o chapeu!
Percebem todos á legua
Que trago o que não é meu.
Um chapeu moderno, claque, Fôrro preto, lettra de ouro,
Armado com boas molas,
Dando ao abrir-se um estouro. (E abriu a claque com estrondo.) A casaca... um monumento
De remota fundação!
Faz lembrar a sé de Braga
Com abas e cabeção;
A guerra de Troia em panno;