As Netas do Padre Eterno

Alberto Pimentel · Capítulo 12 de 24

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As Netas do Padre Eterno

Capítulo XII

 

 

Subiu o panno. O palco representava uma sala, que fingia communicar com outras. Ouvia-se um sol-e-dó, com pretensões a orchestra de salão. Devia ser um baile.

 

SCENA I

 

. e . (entram ambos, conversando, pela porta

do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos

espectadores a casaca de D. Mendo, que é antiga e enorme.)

.

Mas se conhecem?

.

Sim! sim!

Agora, que estás no baile,

Emancipa-te de mim.

Passeia, namora, primo,

Faze a côrte, dize graças,

Pódes até, se quizeres,

Tu, morgado de Boaças,

Ser um rei entre as mulheres!

.

Um rei com manto emprestado!

Julgo ouvir, a cada passo,

Dizer a voz de um palhaço:

«Largue a casaca, morgado!»

Que entre a fôrma e entre o fato

Deve a união ser tamanha

Como entre a casca e a lagosta,

Entre o ouriço e a castanha.

Mas eu com esta casaca

Cheiro a D. Miguel I.

Suppõe que eu sou a castanha:

Ella é o ouriço... cacheiro.

.

Ora adeus! Em Braga serve...

.

Essa ironia é cruel!

Onde ella faria vista

Seria em Penafiel,

Que lá as casacas todas

São ainda mais pesadas

E têm as abas dobradas,

Dizem...

.

Pensei que sabias!

.

Não. Eu já lá estive uns dias,

Mas nunca mudei de fato.

Ora eu com esta casaca

A que Bocage decerto

Fez no seu tempo uma quadra,

Devo par’cer um retrato

D’estes da Feira da Ladra!

E depois que desconcerto

Entre a casaca e o chapeu!

Percebem todos á legua

Que trago o que não é meu.

Um chapeu moderno, claque, Fôrro preto, lettra de ouro,

Armado com boas molas,

Dando ao abrir-se um estouro. (E abriu a claque com estrondo.) A casaca... um monumento

De remota fundação!

Faz lembrar a sé de Braga

Com abas e cabeção;

A guerra de Troia em panno;