As Netas do Padre Eterno
Scena Ii
Affonso Henriques cosido.
Affonso Henriques decerto
É que eu trago em mim vestido!
.
Pateta! Mais te valia
Talvez deitar-te ao sol-posto
Com as gallinhas! (ironico.)
.
Que ouvi?!
Pôr as gallinhas, entendo,
Mas pôr o sol, nunca vi!
.
Ahi vem a dona da casa!
.
Agora, que vou ter publico,
Sinto-me arder n’uma braza!
SCENA II
Entra Julio de Lemos em travesti de mulher. A sua entrada em
scena produz hilaridade no publico.
Ó morgado! que surpreza!
Que prazer! quanto eu estimo!
Beijo-lhe as mãos, D. Diogo,
Pois que nos trouxe seu primo.
.
Baroneza! Eu folgo muito...
O meu peito rejubila... (Inclina-se. Sóbe-lhe para a cabeça o
cabeção da casaca.)
(á parte) Não posso dár á cabeça, Que me não suba a mochilla!
. (apertando a mão á baroneza)
E tem que me agradecer,
Porque o primo não queria
Vir ao baile!
Póde ser!
.
Só questão de toilette.
Mas emfim...
.
(á parte) Vim de casaca,
E ainda cabiam mais sete!
O barão, quando soubér,
Ha de ficar encantado
Co’a surpreza do morgado.
Eu mesma lh’o vou dizer.
E agora, morgado, goze,
Que entre a fina flôr do Minho
Não ha quem lhe leve a palma,
Quem tenha mais gentil alma,
Melhor sangue em pergaminho,
Além do que nós sabemos...
Pois por cá todos lhe dão
Umas cem pipas de vinho
E oitenta carros de pão.
.
Ai! baroneza! Foi tempo!...
Já não sou quem d’antes era.
Sinto-me triste, sou mono.
Matou-me o phylloxera!
Deu nas vinhas... e no dono!