As Netas do Padre Eterno
Scena Iv
Julgando, por ser em Braga,
Que vae ouvir missa á Sé!
—Ora adeus! Calças, collete,
Gravata, lenço, chapeu,
O resto da toilette,
Tudo isso, empresto-te eu.
E zás, põe me na tortura,
Despe-me, veste-me, entala-me,
Puxa, repuxa, estrebucha,
Desaperta, aperta, empala-me!
Traz-me ajoujado, arrastado,
Acho-me, sem saber como,
Preso dentro de uma sacca!
Vim a pé... n’esta casaca,
E o primo veio a meu lado!
SCENA IV
(D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de
fazenda entram pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se
vendo-os entrar.)
. e . (simultaneamente)
Ó que surpreza! Um abraço!
Que noite nem estreiada! (abraçam-n’o de um e outro lado.)
. (á parte)
Fica tão longe a casaca,
Que não senti mesmo nada! (Olhando para o escrivão de
fazenda, que lhe abaixa a cabeça.)
Ó D. Gualter, ó D. Fafes,
Ser apresentado estimo
Ao distincto cavalheiro,
Que tendes por companheiro.
Será elle nosso primo?
.
Não é. Mas outra valia
Este senhor recommenda.
Isto já de fidalguia!...
.
É o escrivão de fazenda. (apresentando D. Mendo) Meu primo Mendo de Sousa
Noronha Alvim e Lambaças...
Aqui falta alguma cousa!
Emfim: senhor de Boaças.
.
Falta o Tinoco materno.
De meu pae falta o Rolim.
. (emendando)
Mendo de Sousa Noronha
Alvim Tinoco Rolim,
Senhor do Brejo e Boaças.
.
Agora falta o Lambaças!
. (rindo)
Nenhum de nossos avós
Faz falta onde estamos nós!
. (ao escrivão)
Muito emfim me lisonjea
Conhecer este senhor.
Faça de conta, de ideia
Que me tem ao seu dispôr.
Estendo-lhe a minha mão,
Senhor... senhor escrivão
De fazenda... propria ou alheia?
. (precipitado)
Não faças troça do homem.
N’estes bons tempos felizes
De liberdade e igualdade
Nós andamos nas mãos d’elle
P’ra que não nos tire a pelle
Esticando-a nas matrizes.
.
Então cá vocês não pagam?
(D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda)
.
Pagamos pouco. Bem vês
Que ninguem faz em colheitas
O que antigamente fez.
.
E então recorrem ás peitas!
N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não parecia que fosse rubrica da peça.
D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou para dentro: Calem-se, seus burros!
. (levantando a voz para poder ser ouvido)
Finge a gente que o estima,
Trata-o de Santo Antoninho,
Mão por baixo, mão por cima.
Se não ha nem pão nem vinho!
. (descendo da porta do fundo, muito arreliado porque
o barulho entre-scenas continua)
Mão por cima... é bom criterio.
Mas mão por baixo... é mais serio!
. (explicando com o gesto correspondente)
Mão por cima e mão por baixo.
Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo, altercar. Da platêa rompem alguns scius.
.
Isso então tinha outro nome
Quando não havia fome.
Chamava-se: ser capacho!
. (em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder
dominar o barulho que vinha do fundo do palco)
Muito alegre este D. Mendo!
. (berrando para poder ser ouvido)
Parece rapaz, e é velho!
. (gritando cada vez mais)
Tem uma casa soberba!
. (com voz de estentor, para o escrivão de fazenda)
Tenho. Mas n’outro concelho.
N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se cahir uma cadeira, e de repente, correndo de um lado para outro, atravessa o palco Julio de Lemos, em travesti de baroneza de Piães e atraz d’elle, aos pontapés, um dos quaes ainda lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, baixo, atarracado, ardendo em colera.
Uma grande parte do publico, composto de setubalenses, reconheceu o homem dos pontapés: era o pae do estudante de Alcacer. As familias banhistas, incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. Ouviram-se guinchos hystericos. Na platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco correspondeu o charivari dos guinchos e das gargalhadas na platêa e nos camarotes.
Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e todos os mais, corriam de um lado para outro gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo por entre os bastidores.
O administrador do concelho sahiu precipitadamente do seu camarote.
Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno desceu.
Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes iam diminuindo os guinchos.
Vozes explicavam da platêa para os camarotes:
—Não é nada! É o pae do estudante que o veio buscar!
—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas senhoras.
Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao palco.
D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:
—Que broma! que broma!
Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de verdadeira ingrezia, o panno subiu, e Aurelio Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca de D. Mendo, veio dizer á bôcca da scena:
—Minhas senhoras e meus senhores: tendo desapparecido do palco o sr. Julio de Lemos, o espectaculo não póde continuar hoje.
O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao camarote das Rodartes, para lhes explicar o que tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:
—Bem me constava a mim que o pae do Lemos estava muito quesilado com elle, e não tardaria a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma bomba!