As Netas do Padre Eterno

Alberto Pimentel · Capítulo 15 de 24

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As Netas do Padre Eterno

Scena Iv

Julgando, por ser em Braga,

Que vae ouvir missa á Sé!

—Ora adeus! Calças, collete,

Gravata, lenço, chapeu,

O resto da toilette,

Tudo isso, empresto-te eu.

E zás, põe me na tortura,

Despe-me, veste-me, entala-me,

Puxa, repuxa, estrebucha,

Desaperta, aperta, empala-me!

Traz-me ajoujado, arrastado,

Acho-me, sem saber como,

Preso dentro de uma sacca!

Vim a pé... n’esta casaca,

E o primo veio a meu lado!

 

SCENA IV

 

(D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de

fazenda entram pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se

vendo-os entrar.)

. e . (simultaneamente)

Ó que surpreza! Um abraço!

Que noite nem estreiada! (abraçam-n’o de um e outro lado.)

. (á parte)

Fica tão longe a casaca,

Que não senti mesmo nada! (Olhando para o escrivão de

fazenda, que lhe abaixa a cabeça.)

Ó D. Gualter, ó D. Fafes,

Ser apresentado estimo

Ao distincto cavalheiro,

Que tendes por companheiro.

Será elle nosso primo?

.

Não é. Mas outra valia

Este senhor recommenda.

Isto já de fidalguia!...

.

É o escrivão de fazenda. (apresentando D. Mendo) Meu primo Mendo de Sousa

Noronha Alvim e Lambaças...

Aqui falta alguma cousa!

Emfim: senhor de Boaças.

.

Falta o Tinoco materno.

De meu pae falta o Rolim.

. (emendando)

Mendo de Sousa Noronha

Alvim Tinoco Rolim,

Senhor do Brejo e Boaças.

.

Agora falta o Lambaças!

. (rindo)

Nenhum de nossos avós

Faz falta onde estamos nós!

. (ao escrivão)

Muito emfim me lisonjea

Conhecer este senhor.

Faça de conta, de ideia

Que me tem ao seu dispôr.

Estendo-lhe a minha mão,

Senhor... senhor escrivão

De fazenda... propria ou alheia?

. (precipitado)

Não faças troça do homem.

N’estes bons tempos felizes

De liberdade e igualdade

Nós andamos nas mãos d’elle

P’ra que não nos tire a pelle

Esticando-a nas matrizes.

.

Então cá vocês não pagam?

(D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda)

.

Pagamos pouco. Bem vês

Que ninguem faz em colheitas

O que antigamente fez.

.

E então recorrem ás peitas!

N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não parecia que fosse rubrica da peça.

D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou para dentro: Calem-se, seus burros!

. (levantando a voz para poder ser ouvido)

Finge a gente que o estima,

Trata-o de Santo Antoninho,

Mão por baixo, mão por cima.

Se não ha nem pão nem vinho!

. (descendo da porta do fundo, muito arreliado porque

o barulho entre-scenas continua)

Mão por cima... é bom criterio.

Mas mão por baixo... é mais serio!

. (explicando com o gesto correspondente)

Mão por cima e mão por baixo.

Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo, altercar. Da platêa rompem alguns scius.

.

Isso então tinha outro nome

Quando não havia fome.

Chamava-se: ser capacho!

. (em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder

dominar o barulho que vinha do fundo do palco)

Muito alegre este D. Mendo!

. (berrando para poder ser ouvido)

Parece rapaz, e é velho!

. (gritando cada vez mais)

Tem uma casa soberba!

. (com voz de estentor, para o escrivão de fazenda)

Tenho. Mas n’outro concelho.

N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se cahir uma cadeira, e de repente, correndo de um lado para outro, atravessa o palco Julio de Lemos, em travesti de baroneza de Piães e atraz d’elle, aos pontapés, um dos quaes ainda lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, baixo, atarracado, ardendo em colera.

Uma grande parte do publico, composto de setubalenses, reconheceu o homem dos pontapés: era o pae do estudante de Alcacer. As familias banhistas, incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. Ouviram-se guinchos hystericos. Na platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco correspondeu o charivari dos guinchos e das gargalhadas na platêa e nos camarotes.

Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e todos os mais, corriam de um lado para outro gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo por entre os bastidores.

O administrador do concelho sahiu precipitadamente do seu camarote.

Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno desceu.

Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes iam diminuindo os guinchos.

Vozes explicavam da platêa para os camarotes:

—Não é nada! É o pae do estudante que o veio buscar!

—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas senhoras.

Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao palco.

D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:

—Que broma! que broma!

Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de verdadeira ingrezia, o panno subiu, e Aurelio Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca de D. Mendo, veio dizer á bôcca da scena:

—Minhas senhoras e meus senhores: tendo desapparecido do palco o sr. Julio de Lemos, o espectaculo não póde continuar hoje.

O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao camarote das Rodartes, para lhes explicar o que tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:

—Bem me constava a mim que o pae do Lemos estava muito quesilado com elle, e não tardaria a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma bomba!