Azul: Um Livro sobre a Felicidade

Geraldo Tinôco · Capítulo 3 de 3

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Azul: Um Livro sobre a Felicidade

Azul

Mergulho neste azul

De sentimentos

Afogo-me

Neste oceano

Bravo

Com o pouco ar que me resta

Mergulho mais fundo

Bem no fundo

De um lugar que ainda desconheço

Não sei o por quê

Para onde ir?

Mergulho

Mergulho

Mergulho

Não tem chão

Tampouco fundo

Por todos os lados

Uma linha infinita

Que não alcança a visão

Por ser bom jogador

Contrariar as possíveis regras da física é um bom movimento Não tem nenhum lugar, qual rumo?

O combustível é só de ida (não tem volta)

Melhor é adiante

Rangem os dentes

Os músculos viram pedras

O rosto toma uma só expressão

Mais fundo e mais fundo

Demasiada é a pressão

É preciso continuar

Mais fundo

Mais fundo

Mais fundo

Já não preciso do ar

Fico bem

Os pensamentos são desnecessários

O Azul toma conta de todo meu corpo

Aquele mar bravo que me falava grosseiramente Agora é manso

Chegamos!?§

João e o Oceano

 

Nasci com o sorriso do meu pai

E nos braços da minha mãe.

Ela teve que ir embora cedo,

Disseram que foi cuidar de uns anjos lá no céu.

Quando criança, aprendi a trabáia,

Aprendi a ser forte até quando o corpo não aguenta o peso do esforço. Parei de contar as gotas do meu suor

Quando toda aquela água represô e virô um rio.

Meu pai não se demorô pra ir embora

Fiquei triste, mas aliviado em saber que minha mãe tinha uma companhia. Não aprendi a ler porque não tive tempo,

E o pouco que me restava mal dava pra descansar à noite.

Ai, quando tudo pareceu ficar sem sentido

Apareceu uma companheira, trabalhadeira igual eu. Não tinha medo de pegar pesado

E o rio dela se encontro com o meu.

A gente era jovem quando arrumamos um emprego Na fazenda de um sinhô.

Tínha casa e trabaio não faltava.

A pele da cara tava tão grossa que nem o sol a gente sentia mais. Eu fui feliz e sabia.

A dignidade me deu filhos

E ao contrário dos pais, eles foram para escola, Depois para a universidade.

Nuunca tiveram que trabaiá até então.

Eu acostumei a dormir pouco e fazer o dinheiro render.

Nas férias dos estudos, eles nem vinham nos visitar Colocavam a culpa no tédio

Dizem que roça num tem festa

Ficô eu e minha muié, de novo, sozinhos.

Tenho medo do tempo passar

E às vezes penso que meu pai e minha mãe

Estão em algum lugar a me esperar.

Mas sabe de uma coisa?

Nessa altura, juntando todo o meu suor com o da minha muié Já dá pra fazer um oceano

Que deixo pros meus filhos

E o azul é tão bonito

Que dá até vontade chorar.§

A memória

É a coisa mais linda

Quando guardada e relida

Pelo coração

Sobre o passado

É depositado um sentimento

Quando olho para os olhos da memória

Vejo um amor que já foi vivo,

Fisicamente,

E hoje é vivo eternamente.

Quando olho novamente para seus olhos

Sinto saudade e gratidão,

Qual é o preço para recompor um segundo?

O que a memória faz de graça,

O universo não faz gastando mil estrelas.§

Meu casamento veio com as águas de Março

Escondido dos ventos de Abril

Protegeu-me do frio de Maio

Velou-me pelo solstício de Junho

Meu casamento se desfez na secura de Julho

Sofri pelo azar de Agosto

Ensaiei meu primeiro sorriso com os brotos de Setembro Dancei com as primeiras gotas de chuva de Outubro Renovei minhas esperanças em Novembro

Rezei todo Dezembro

Em Janeiro renasci

Em Fevereiro encontrei um novo amor

Meu casamento veio com as águas de Março.§

O infinito

É mais que finito

Para quem sabe sonhar

As estrelas são contáveis

Para quem tem tempo

Para imaginar

É de cegar os olhos

Tanta massa e concreto

E velocidade

Da uma felicidade

Ir para o meio do mato

E saber que elas estão sempre ali

E sempre estiveram

Ganha-se tempo

Para perdê-lo

Que prazer enorme

Parar para recontar

Quantas estrelas tem no céu.§

Nasci

Nu da razão

Tenho muito para agradecer

A tantas pessoas.

Vestiram-me com amor

Com a arte da paciência

Ensinaram-me

Sobre a luz e as trevas

Ensinaram-me a caminhar

Gastaram seu tempo

Tempo é vida

E a cada gasto

Um pouquinho a mais que se morre.

Tenho tanto para agradecer

A tantas pessoas

Que sou o que sou

Graças a boa intenção

De muitos.§

Queria continuar um poema de Gullar

A Adélia falou que não,

Deixou claro que no trem não cabia,

Era sentimento demais.

Drummond concordou,

Falou que José era um chato e não gostava de passeio.

Pessoa chegou com Eros

E mostrou para Camões, que estava cansado do amor. Neruda tentou ajudar,

Mas Wilde, com toda rebeldia,

Fez o poema correr.

Blake, com sabedoria,

Capturou tudo num pincel

E me deu de graça e sem explicação.

E eu flertei com a tinta,

Por causa de um sorriso. §

O meio fio

Que divide em dúvida a lembrança

Faz do homem um romeiro

O azedume

Fê-lo sério em brincadeira

Crente no in-crível

Ele acredita na vida velha

Deseja que sua tigela

Apague da barriga a ideia da fome

Na última estação

O passageiro espera

Que passe trem

Chamado esperança.§

Você que faz do ponto de ônibus

A sua sala de estar

Dos pedestres

Estranhos dentro de sua casa

Você que deseja

E não pode ter

Você que não tem idade para contrapor aos instintos corporais

Você, sem tempo para semear sabedoria

Você que teme por sua saúde

Não tem em quem confiar e para onde ir

Você de sorriso banguela

De esperança cansada

Você de olhos sem brilho

Você medroso do assalto

Você que é parte do futuro

Você a quem o tempo não pertence

Você que vive só do presente

Você que não sonha

Você que deseja morar numa próxima estação

Que machuca sem saber

Você que é só pedra

Pra quem não quer te ver.§

Achei tudo muito infantil

Porém em um mundo onde os dados são jogados as escuras O ato pôde ser tolerável§

A vida novamente bateu a minha porta

Para mostrar quem era.

Levou toda a minha tranquilidade

Que pensei ter conquistado para sempre.

Ela bateu a minha porta

Tomou conta da minha energia

Para mostrar de perto o meu drama.

Eu, homem formado,

Deitei na cama como um menino.

Porém, naquele momento,

O tempo tinha me levado muitas pessoas

Nem colo eu tinha

Olhei para a única coisa que me restava:

Uma janela.

Através dela eu vi o lixeiro,

Vi o vendedor e uma pessoa que atravessava a rua. Num primeiro momento, tive pena da minha fragilidade.

Mas, a força da fé e da honra me fez levantar.

Com a humildade apreendida,

Pude fazer como homem:

Que mesmo sem saber o que fazer

Escuta seu coração

Sem perguntar por que bate.§

Não vou forçar,

O que flui como água.§

Se eu estivesse perdido

Gostaria que me achasse

Mesmo que eu estivesse escondido

Dentro do meu ser

Eu gostaria que me achasse.

A ilusão de que se está perdido

Vive no discurso de quem nunca se procurou.

Quem procura e não se encontra

Quer ser achado.

Mesmo que se pague com a esperança

O peso da ilusão.§

Olho para o lado

E vejo um monte de gente bacana

Tentando organizar a vida

Sem trabalho,

Flertando no amor

Se arriscando em coisas não duradouras.

Muitos assim.

Andar é importante

O que não pode é ficar parado.§

Se um dia perguntarem o que é um sorriso,

Diga que além de tanto osso,

É algo que sorri atrás do dente,

É algo que vai além da boca e da garganta

É algo além dos músculos

E diga que metade é seu

E a outra metade,

Da pessoa para quem você sorriu.§

É muito fácil achar motivos para ficar triste,

Encontrar motivos para ser feliz é para poucos.

O que as pessoas tristes tem que aprender sobre a vida, É que as pessoas guerreiras e alegres são uma lição de vida.§

Não quero amar pelo resto da vida,

jogar a responsabilidade do presente para o futuro.§

Meu filho,

Perdoe a minha ausência

Seu pai queima o tempo

Para te trazer a comida

Perdoe o meu cansaço

Perdoe a minha impaciência,

Fruto do fel de cada dia

Perdoe a minha ignorância,

Não tive tempo.

Perdoe meus amigos,

Que perderam a esperança

De me ensinar sobre o amor.

Perdoe a minha dúvida em relação a sua mãe

Perdoe o flerte das minhas palavras

Que só dão voltas quando querem atingir o alvo

Perdoe meu olhar pesado

Perdoe o meu abraço duro

Perdoe o meu sorriso guardado

Perdoe aquele a quem a vida só deu trabalho§

No dia que você estiver fora do jogo,

Vai se arrepender da violência que praticou.§

Se nada mais me restasse

E eu estivesse no fundo do poço

Eu iria atrás de um sonhador

Qualquer um que fosse

E ficava ao seu lado

Perguntando a todo momento de seus sonhos

Eu fingiria que também sonhava

Pegava emprestado o sonho que eu não tinha

Faria isso repetidas vezes

Até que sem perceber, algum eu já teria:

Talvez lembrado dos antigos,

Talvez criado novos.

Não desistiria

Porque os sonhos são os alicerces do mundo

O motivo da sobrevivência

A causa da felicidade.§

Se eu estivesse errado

Por reverenciar

Aquele que passou e não deixou um sorriso.

Aceitaria o erro.

Não posso negar

Que fico grato

Por cada um que passou

Apesar do que deixou.§

Mãe

 

Algumas por acaso

Outras por escolha

Algumas sorrindo

Outras chorando

Algumas acompanhadas

Outras sozinhas

A mesma barriga

A mesma raça

O mesmo período

A mesma trajetória

Onde através da dor

Faz-se o parto

Onde das assas

Faz proteção

Cresce nu o filho

Num mundo já em movimento

Sem escola faz-se professora

De uma matéria hostil

Passa o tempo

Vão os filhos

E a maternidade fica

Como tatuagem

Estampa no rosto

Ser mãe:

Que coragem.§

Quando falaram que o mundo estava feito,

Eu pensei: O que vou construir?

Chorei.

Quando falaram que o mundo estava descoberto. Eu pensei: O que vou descobrir?

Desesperei.

Enquanto caminhei,

Minhas convicções confirmaram

O mundo está cru, nu e cego

E estou no lugar certo.

Pensei:

Invente uma nova dança

Como se não soubesse do passado

Invente uma nova dança

Como se o tempo não fosse passar

Invente uma nova dança

E enquanto estiver em movimento

Ensine uma nova dança

Para os laços da memória

Para os fios dos sonhos

Invente uma nova dança

Que o outro possa dançar

Dance, dance muito

Dance esta nova dança

Enquanto puder

Para que possam aprender a dançar

Para que possam te ensinar

Quando você esquecer,

Como um sonhador

Que ensina a seu filho que nuvem pisar.

Assim, por mais que o cenário exija linearidade, Prefira o movimento

Pois, onde há dança

Há vida.§

Patrimônio

 

Quando seu amor

Chegou a minha porta

Só a moldura havia

O meu dicionário perdeu a tradução de: individual, grade e solidão.

Dei-me ao luxo de acreditar no destino

Depois de tanta transformação

Pousei em certa estabilidade

Que só pode ser criada a dois.

Não pensei duas vezes

Em abrir mão de coisas do mundo

Que só alimentam uma juventude faminta

E aprendiz.

A palavra requinte

Eu carrego em minha agenda

Procuro pelos cantos

As coisas belas que podem ser compartilhadas Na intimidade de dois.

Verei o tempo passar sobre nossas retinas fatigadas, Imagino as nossas rugas

Mas peço a Deus para que eu possa sempre ver no fundo de seus olhos A vitalidade que protege a metade do meu coração. Que cada dia possa ser celebrado como o último.

Agradeço a você

Pela confiança em mim depositada neste matrimônio Que me fala sobre essa coisa linda

Que é sonhar sobre o nosso futuro,

E porque não seria,

O futuro do mundo.§

Isso não é só uma palavra,

não é só um poema,

é um universo.§

Há um tempo

Fiquei triste

Porque me faltava

Um pouco de conhecimento

Isso fez com que eu fosse atrás do que não sabia

E firme com o que encontrei

A tormenta se amenizou

Ativo jogador

Tornei-me novamente eu

Autor do meu destino,

Dividindo solidariamente

As cartas

Com o universo§

Minas

 

Se eu pudesse

Congelar o sol por detrás da semente de capim Num momento de cor laranja

Subindo a montanha

Cheia de orvalho

Se eu pudesse

Guardar o cheiro de terra molhada

Se eu pudesse

Guardar a umidade nos meus dedos que tocam as plantas

Se eu pudesse

Guardar tudo isso num poema

Talvez não caberia

Pois se guardo isso tudo

Tenho que adicionar a saudade

Que é grande demais.§

Na minha juventude

Eu tinha vaidade

Usava chapéu de lebre

Minha esposa

Vestidos bordados

Quando vieram meus filhos

Deixei de importar comigo

E com as coisas de luxo

Fiquei simples

Pobre

Todo investimento

Se escoou para os primogênitos

Com o desapego

Aprendi a ser rico.§

Já que nos encontramos

Vamos fazer da nossa felicidade discreta

Para que não venha nos bater na porta os curiosos Para que não venham medir o nosso amor

O nosso amor é sem medida

Vamos ser discretos

Para que nossos amigos não venham nos aconselhar Para que as filosofias não nos alcancem

Vamos ser discretos como o silêncio

Que está em todos os lugares

Para que possamos ir no nosso ritmo

Sem que alguma máquina nos acelere

Vamos esconder tudo em nossos sorrisos

Vamos andar pelas ruas de mãos dadas

Presentear todo mundo

Para que saibam da felicidade

Vamos guardar no olhar a nossa gratidão

Para que ao olhar-nos

Saibam de nossa serenidade

Vamos sós

Porém em comunhão

Vamos discretos

Para que possamos ter o máximo

Do nosso amor

Que é só de nós dois.§

Não importa o que faça

Procure por um amor

Se está triste

Deprimido

Procure um amor

Posso garantir que ele existe

O amor a dois

Com alma e coração

Sei porque vivi

Procure o amor

Se for preciso

Refaça a fé

Acredite em outros santos

Noutros deuses

Em outras orações

Procure

Para viver

Para que ao acordar fique mais leve

Para poder compartilhar o café da tarde

Para ter com quem conversar fiado antes de dormir Para poder acreditar em mais alguém

Eu que estava dormindo

Quando veio a poesia

Acordei, liguei a luz

Fui buscar a caneta que estava longe

Num quarto estava frio

Fiz tudo isso,

Porque acredito.§

Aquele que vai

Não sabe o por quê

Sai do jogo sem poder olhar para trás.

O que fica

Já não sabe

Mas finge que não vai

Pois, se fingisse saber

Jamais viveria.§

Que a gente faça da vida

Uma homenagem

Para aqueles que não puderam continuar.§

copyright © 2013 Geraldo Tinôco

Todos os direitos reservados do autor

Revisão

Alexandre Magalhães

ISBN:

Edição digital: Setembro 2013

Arquivo ePub: Simplíssimo Livros

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