Cai o Pano: o último caso de Poirot
Capitulo XIII
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
- Boa ideia - aplaudiu Boyd Carrington. Tive de intervir rapidamente:
- Olhem que vão cansá-lo demasiadamente. Não deve receber mais do que uma pessoa de cada vez aconselhei.
Norton justificou-se.
- Vou apenas emprestar-lhe um livro sobre pássaros, que me pediu.
- Você volta? - interrogou Boyd Carrington, consultando-me com o olhar.
- Sim. Não me demoro.
Subi com Norton. Poirot estava à nossa espera. Depois de trocar com ele umas breves palavras, tornei a descer e iniciámos nova partida de cartas.
Como Boyd estivesse, nessa noite, muito distraído, desculpou-se e abandonou a mesa, dirigindo-se para a janela. Voltou a ver-nos jogar, durante alguns minutos e, em seguida, retirou-se discretamente.
Fui deitar-me às onze menos um quarto e não quis incomodar Poirot que já devia estar a dormir. Sentia cada vez maior relutância em pensar no problema de Styles e, confesso, apenas desejava dormir... esquecer tudo aquilo. Lá fora, trovejava tempestuosamente.
Já dormitava, quando ouvi uma ligeira pancada na porta.
- Entre - convidei.
Como ninguém aparecesse, acendi a luz, levantei-me e fui espreitar.
Devia ter sido Norton, involuntariamente. Viu-o já ao fundo do corredor, em direcção ao quarto. Como de costume, envergava o seu horrível roupão de cores berrantes, o tufo do cabelo ainda mais espetado do que habitualmente e notei-lhe o característico arrastar da perna esquerda; parecia até que coxeava ligeiramente, o que, só agora, no longo plano do corredor, se tornava evidente. Entrou no quarto e ouvi-o nitidamente fechar a porta à chave.
Tornei a deitar-me mas, desta vez, custou-me a conciliar o sono, em virtude do contínuo ribombar dos trovões que já durava havia várias horas.
II
Antes de descer para o pequeno-almoço, fui ver Poirot.
Achei-o ainda deitado e notei-lhe profundos vincos de cansaço, no rosto.
- Como vai isso, meu amigo? - interessei-me. Sorriu-me pacientemente, e respondeu:
- Ainda existo, meu caro Hastings, ainda existo. Entrei logo no assunto:
- Norton contou-lhe, ontem à noite, que foi que vira naquela tarde?
- Sim.
- Que foi?
- Acho que é melhor não lho dizer, meu amigo. Para sua segurança.
- Não há direito, Poirot - protestei. - Que diabo se passou?
- Dir-lhe-ei apenas que Norton viu duas pessoas...
- Allerton e Judith - gritei. - Já o adivinhara, na altura.
- Não, Hastings, não eram Judith e Allerton.
- Diga-me, nesse caso, quem eram...?
- Hoje não. Só poderei dizer-lho amanhã.
Senti-me enfurecer, mas contive-me e inquiri:
- Isso ajuda a resolver o caso?
Poirot confirmou com um aceno de cabeça, e, fechando os olhos, anunciou:
- O caso está encerrado. Acabou. Falta unicamente ligar algumas pontas da meada, para tudo ficar plenamente esclarecido. Vá tomar o seu pequeno-almoço e, de caminho, mande-me cá Curtiss.
Fiz o que me pediu e desci as escadas. Estava ansioso por ver Norton.
Subconscientemente, não me sentia satisfeito. Porquê a constante reserva de Poirot em guardar segredo quanto à resolução do problema? Porquê a sua inexplicável tristeza? Qual a verdade de tudo aquilo?
Norton não descera para o pequeno-almoço.
Mais tarde, dei um passeio pelo jardim e notei que chovera copiosamente. Encontrei Boyd Carrington, que se mostrava, nessa manhã, deveras jovial e seguro de si. Parecia renovado.
- Ouviu a trovoada, ontem à noite? - perguntou-me.
- Quase me impediu de dormir decentemente respondi.
- Também a mim mas, mesmo assim, sinto-me hoje perfeitamente, como que aliviado. Já não tenho aquele peso em cima dos ombros...
- Onde está Norton? - interrompi, distraidamente, preocupado com a sua ausência.
- Naturalmente ainda não se levantou, o mandrião.
Erguemos simultaneamente os olhos para as janelas do seu quarto. Tinha ainda as portas interiores fechadas.
- E estranho. Ter-se-ão esquecido de acordá-lo? - comentei.
- Espero que não tenha adoecido. Vamos lá acima ver - propôs Boyd Carrington.
A criada de quartos explicou-nos que lhe batera à porta duas vezes, mas que ele não respondera. Fiz o mesmo, muito sonoramente, e gritei:
- Norton... Norton. Acorde.
Nada. O quarto estava imerso em completo silêncio.
III
Como não obtivéssemos a menor resposta, fomos procurar o coronel Luttrell.
Escutou-nos, vagamente alarmado e puxando as guias do bigode. Momentos depois, Mrs. Luttrell foi inteirada da situação e não hesitou em tomar uma decisão:
- Temos de abrir essa porta, de qualquer maneira. É a única coisa a fazer.
Pela segunda vez na minha vida, assisti ao arrombamento de uma porta, naquela assombrada mansão de Styles. For detrás dessa porta, fechada à chave, deparei com o mesmo facto que me chocara, muitos anos antes, quando do primeiro caso de Poirot, em Inglaterra: Morte por Violência.
Norton estava deitado na cama, ainda envergando o seu roupão colorido. A chave da porta achava-se dentro de um dos seus bolsos. Na mão, empunhava ainda uma pequena pistola, quase um brinquedo, mas capaz de cumprir a sua missão. Mesmo no centro da testa, um orifício.
Aquele ferimento de bala, tão simetricamente produzido no centro da fronte, queria indicar-me qualquer coisa... Mas o quê?
Estava demasiado cansado para conseguir lembrar-me.
Corri ao quarto de Poirot e ele leu o sinistro, no meu rosto.
- Que aconteceu? - inquiriu rapidamente. Norton?
- Morto - respondi.
- Como? Quando?
Em breves palavras contei-lhe a nossa descoberta. Terminei, declarando:
- Todos dizem tratar-se de suicídio. Que outra teoria podem formular? A porta estava fechada à chave. Esta encontrava-se dentro de uma das suas algibeiras. Eu próprio o vi, ontem à noite entrar no quarto e ouvi-o, distintamente, fechar a porta à chave. Mas porquê, cos diabos?
- Viu-o?... Afirma que o viu, Hastings, ontem à noite, fechar-se no quarto?
Expliquei o que sucedera, após ter ouvido a pancada acidental na porta.
- Está certo de que era Norton?
- Certamente. Reconheço à légua aquele horrível roupão furta-cores.
Num instante, Poirot, tornou-se igual ao que fora sempre.
- Oh, Hastings! Mas é um homem que você tem de identificar! Não um roupão. Ma foi! Qualquer um pode envergar um roupão de outra pessoa.
- Isso é verdade - concordei, embora ligeiramente irritado. - Mas também o vi arrastar a perna...
- Ora, Deus! - protestou Poirot. - Qualquer um pode coxear. Até eu coxeio! Mon Dieu! Não há nada mais fácil do que imitar um coxo.
Fitei-o abismado.
- Quer dizer que não foi Norton quem eu vi?
- Não estou a sugerir isso, positivamente. Meramente, aponto não haver a mínima razão científica para que possa concluir que se tenha tratado, efectivamente, indubitavelmente, de Norton. Mas não digo que não tenha sido ele. De resto, note: qualquer outra pessoa, nesta casa, é mais alta do que ele. Enfin, você pode, pelo menos distinguir-lhe a altura?
Confirmei, com a cabeça.
- Tout de même - prosseguiu ele. - Há-de concordar que é muito estranho o homem ter ido para o quarto, ter fechado a porta à chave, para, no dia seguinte, terem de arrombá-la e encontrá-lo com a pistolinha na mão e um furo mesmo ao meio da fronte.
- Portanto, não acredita que se tenha suicidado? Poirot abanou lentamente a cabeça.
- Não. Norton não se matou. Foi assassinado deliberadamente.
IV
Desci as escadas completamente confuso. O facto era tão inexplicável que não conseguia conciliar as ideias racionalmente.
Ao mesmo tempo, aquilo parecia-me lógico. Mas Norton fora morto, porquê? Para impedi-lo de contar o que vira?
Mas ele confiara esse segredo a outra pessoa...
E essa pessoa estava agora não só em perigo, mas totalmente indefesa.
Eu devia ter previsto...
Devia ter adivinhado o que iria forçosamente suceder. ..
«Cher ami» foram as últimas palavras com que Poirot se despedira de mim, quando o deixei no quarto.
Foram mesmo as últimas palavras que o ouvi pronunciar. Quando Curtiss entrou para cuidar dele, encontrou-o morto...
CAPÍTULO XVIII
I
Não quero escrever acerca do assunto.
Desejo pensar o menos possível nesse facto. Com a morte de Poirot, morrera grande parte de Arthur Hastings.
Concluíram que morrera de morte natural. Diagnosticaram «ataque cardíaco». Fora também o que Franklin já dissera. Sem dúvida que o choque produzido pela morte de Norton contribuíra para aquele infeliz desenlace.
Caíra o pano sobre o «último acto» da vida do meu amigo.
Contudo, por uma razão inexplicável, não se encontraram as ampolas de nitrito de amilo, junto da sua cama.
Teria alguém, deliberadamente, retirado o medicamento?
Não. Devia haver mais qualquer coisa, além disso. X não poderia prever o momento do ataque cardíaco.
Pela minha parte, não podia acreditar que a morte de Poirot tivesse sido devida a causas naturais. Fora certamente assassinado, tal como Norton, tal como Bárbara, tal como todos os outros que eu não conhecera...
E eu não sabia porque tinham sido mortos... não sabia quem os tinha assassinado.
O inquérito sobre a morte de Norton resultara numa conclusão de suicídio, embora o médico-legista declarasse, peremptoriamente, ter estranhado a localização do ferimento, aberto mesmo no meio da testa. Nunca tal se deparara nos anais criminológicos, em casos de suicídio. Geralmente os suicidas visam a têmpora ou o céu da boca. Mas só surgiu essa sombra de dúvida.Tudo o resto era claro: a porta fechada à chave; a chave na algibeira do morto. Que outra coisa poderia ter sido?
Norton queixara-se de dores de cabeça, de preocupações, e declara que os seus últimos investimentos tinham sido desastrosos. Não estava pobre, mas há quem desmoralize por ter perdido algum dinheiro. Seria o caso? Se o fosse, havia um motivo... mas bem fraco para levar um homem são ao suicídio!
Aparentemente, a pistola era sua. A criada de quarto já a vira, por duas vezes, sobre a mesinha-de-cabeceira, durante a sua estada em Styles.
Aí estava eu perante um novo caso de assassínio, perfeitamente planeado e praticado, sem a mínima alternativa de solução.
Naquele duelo entre Poirot e X... X tinha saído vencedor.
Soava agora a minha vez.
Fui ao quarto de Poirot e trouxe comigo a caixa dos recortes.
Sabia que me tinha nomeado executor das suas vontades, portanto, tinha todo o direito de fazê-lo. Retirei-lhe do pescoço a chave, fui para o meu quarto, fechei a porta e abri a caixa.
Sofri então o meu primeiro desapontamento: a pasta que continha os casos de X desaparecera. Ora, eu tinha-a visto na véspera, quando Poirot abrira a caixa na minha presença. Isso era a prova de que X já entrara em acção.
Porém, a caixa não estava vazia. Lembrei-me de que Poirot me avisara: deixar-me-ia indicações que X não poderia entender. Que indicações eram essas?
Encontrei um exemplar, em brochura barata, da tragédia Otelo, de Shakespeare. O outro livro era a peça teatral John Fergueson, de St. John Ervine. Tinha um marcador inserido no terceiro acto.
Examinei os livros em vão. Eram as pistas que Poirot me legava e nada significavam para mim.
Que diabo poderiam significar?
Pensei num código, baseado nessas peças, mas desconhecia-lhe a chave da cifra. Li todo o terceiro acto e admirei a cena em que Clutie John fala, terminando com a perseguição que o mais jovem dos Fergueson move ao homem que enganara sua irmã. Contudo, nada descobri de especial e certamente que Poirot não me legara o livro unicamente para que eu ampliasse os meus conhecimentos de língua inglesa, nem incrementasse o gosto pela literatura. Ao fechar o livro, encontrei uma pequena tira de papel, onde se lia, escrito pelo punho de Poirot, a seguinte mensagem:
«Fale com o meu criado George.»
Já era alguma coisa. Possivelmente, a chave do código achava-se em poder de George. Tinha de descobrir-lhe a direcção e procurá-lo.
Mas, primeiro, teria de tratar do enterro do meu amigo.
Ficou sepultado na terra onde vivera, quando, pela primeira vez, estivera em Inglaterra.
Durante esses dias, Judith mostrou-se muito atenciosa, carinhosa mesmo. Elizabeth Cole e Boyd Carrington também se mostraram extremamente gentis e simpáticos.
Com surpresa minha, Elizabeth não ficara de forma alguma afectada pela morte de Norton.
E, desta maneira, tudo acabou.
II
Sim, tenho de registar isto. Quando o funeral terminou, sentei-me junto de Judith, tentando fazer planos para o futuro. Foi então que ela me anunciou:
- Mas, pai, já não estarei cá.
- Também não tenciono permanecer aqui - esclareci.
- E que não estarei na Inglaterra. Fitei-a, admirado, e Judith explicou:
- Não quis tornar as coisas ainda piores para si e, por isso, nada lhe disse; espero que não se importe muito... Mas vou para África, com o doutor Franklin.
Tentei dissuadi-la e deixou-me falar até ao fim, esgotando todos os argumentos reprovativos, com a impropriedade de um emprego de assistente num clima hostil, tive de ouvi-la:
- Mas, meu querido pai, não vou como assistente; vou como sua mulher.
O meu espanto redobrou e observei:
- Não podes casar com Franklin, tão cedo.
- Posso, sim. Não há nada real que no-lo possa impedir.
Judith e Franklin. Não se tratara, pois, de Allerton.
Judith e Franklin. Subitamente, um terrível pensamento atravessou-me o espírito; Judith com um frasco na mão; Judith na sua voz apaixonada, declarando que a vida dos inúteis deveria ser sacrificada aos que são úteis à comunidade.
A Judith que eu e Poirot amávamos! Por isso Poirot inventara a história do suicídio, para protegê-la... e Franklin, provavelmente, seria o estranho homem que a influenciara a cometer o crime... e que poderia continuar a matar e a matar!
Poirot quisera consultar Franklin, sobre a sua doença. Porquê? Que lhe teria dito, nessa manhã?
Contudo, imediatamente, a ideia pareceu-me mostruosa, impossível de aceitar. A minha querida, a minha tão séria Judith não poderia ter feito uma coisa daquelas.
Seria toda a história de X uma invenção de Poirot? Um produto da sua fertilíssima imaginação? Seria por isso que se negara a prestar-me qualquer informação?
Ou estaria, efectivamente, Judith no coração da tragédia?
Otelo! Seria essa a chave do mistério?
Tal como alguém dissera na noite em que eu tivera esse livro nas mãos, na noite em que Mrs. Franklin fora assassinada, Judith cortaria a cabeça de Holofernes... como Salome, com a morte no coração.
CAPITULO XIX
Estou a escrever isto em Eastbourne.
Vim até cá para falar com George, antigo criado de Poirot.
George esteve ao seu serviço durante muitos anos. Era um mordomo competentíssimo, totalmente desprovido de imaginação. Cumprira sempre todas as indicações, à letra, e dava a cada coisa o seu devido valor.
Dei-lhe a notícia da morte de Poirot e ele ficou deveras desgostoso. Finalmente indaguei:
- O meu amigo deixou-lhe alguma mensagem para mim?
George respondeu prontamente:
- Não! Não recebi nada.
Fiquei surpreendido, mas decidi sondar melhor a questão:
- Foi confusão minha, decerto. Porque quis separar-se do seu antigo patrão? Pessoalmente, teria gostado que você permanecesse junto dele, até ao seu último momento.
- Também eu, senhor.
- Suponho que foi a doença de seu pai que o forçou a separar-se do meu amigo, não?
- Desculpe, senhor, mas não sei de que está a falar. - Não foi para vir fazer companhia a seu pai que abandonou o serviço de Poirot?
- Eu não queria separar-me dele, senhor. Foi Mister Poirot quem me mandou embora.
- Despediu-o? - espantei-me.
- Bem, não expressaria o facto nesses termos. Digamos antes que dispensou os meus serviços, muito gentilmente. Declarou-me tratar-se de uma situação temporária e que, em breve, regressaria ao seu serviço. Mas, durante todo este tempo, em que, por sua sugestão, fiz companhia a meu pai, pagou-me sempre uma muito generosa remuneração.
- Mas porquê, George, porquê?
- Não poderei esclarecê-lo, senhor. Nunca mo disse.
- Não lhe perguntou?
- Não, senhor. Na minha posição, não me competia fazer perguntas. Era um homem muito inteligente e sempre o considerei com o maior respeito.
- Pois, pois - murmurei abstractamente.
- Um cavalheiro, peculiarmente cuidadoso com as suas roupas; por vezes, aparentemente exótico, por ser estrangeiro; também muito escrupuloso com o aspecto do cabelo, do bigode...
«Os seus famosos bigodes!», comentei interiormente, lembrando-me do grande orgulho que tinha nesse ornamento piloso.
- Era particularmente exigente com o seu bigode. Não seria muito elegante a maneira como o usava, mas condizia com ele, não sei se me faço entender, senhor?
Delicadamente, perguntei a George:
- Suponho que o tingia, tal como o cabelo, não?
- Sim... dava um ligeiro toque no bigode, mas não no cabelo... não nos últimos anos.
- Pode lá ser! - estranhei. - Era negro como asa de corvo. Até parecia um chino.
George entreolhou-me e redarguiu apologeticamente:
- Desculpe, senhor, mas era mesmo um postiço.
Considerei que um criado de quarto deve conhecer melhor o patrão, que o seu mais íntimo amigo. Voltei ao assunto que me desnorteara:
- Não faz realmente ideia, George, do motivo que levou Mister Poirot a dispensar os seus serviços? Pense, por favor... pense lá.
Após uns segundos de meditação, respondeu:
- Posso unicamente sugerir, senhor, que a razão do meu afastamento foi ter Mister Poirot desejado contratar Curtiss.
- Curtiss? Para que diabo quereria ele contratar os serviços de Curtiss?
George mostrou-se embaraçado.
- Bem, senhor, na verdade, não sei dizê-lo. Se me permite uma observação, ousaria dizer que Curtiss não me pareceu um espécimen particularmente brilhante. Era realmente forte, fisicamente, mas custa-me a considerá-lo da classe que Mister Poirot gostaria de ter ao seu serviço. Fora enfermeiro num sanatório psiquiátrico, salvo erro.
Fitei-o assombrado.
Curtiss!
Teria sido por essa razão que Poirot se negara a dar-me informações precisas? Curtiss, o homem de quem eu nunca suspeitara! Sim. Aquilo era mesmo dele! Lançara-me na pista de hóspedes de Styles quando o misterioso X não era nenhum hóspede.
Curtiss, enfermeiro de alienados! Lembrei-me de que, muitas vezes, alguns pacientes de asilos psiquiátricos tornam-se assistentes, junto de outros doentes, quando registam notórias melhoras.
Que estupidez! Conservar junto de si um homem que podia matá-lo, em qualquer ocasião! Porquê? Para quê, meu Deus?
Foi como se uma grande nuvem desassombrasse o meu espírito.
Curtiss!
Nota: O manuscrito seguinte entrou na minha posse, quatro meses depois da morte do meu amigo Hercule Poirot. Recebi uma comunicação de uma firma de advogados, solicitando-me que entrasse em contacto com o seu escritório. De acordo com as instruções do seu cliente, o falecido M. Hercule Poirot, iriam enviar-me um sobrescrito lacrado. Aqui passo a reproduzir o seu conteúdo.
Capitão Arthur Hastings
Manuscrito redigido por Hercule Poirot:
Mon cher ami, ”
Já deverei estar morto, há quatro meses, quando ler estas palavras. Longamente debati, com a minha consciência, se deveria ou não escrever o que aqui relato. Decidi, finalmente, que é necessário que alguém saiba a verdade acerca do segundo affaire Styles. Também porque conjecturo que, quando este meu escrito lhe chegar às mãos, estará envolvido nas mais absurdas teorias e, possivelmente, preocupado com elas.
Mas deixe-me que lhe diga: devia ter sido capaz, mon ami, de desvendar facilmente a verdade. Creio ter-lhe já fornecido todas as indicações necessárias para a solução do mistério. Se não o conseguiu, foi porque, como sempre, você é de uma natureza pura e confiante. A la fin, comme au commencement.
Pelo menos deveria ter descoberto quem matou Norton... mesmo que permanecesse na escuridão quanto ao assassínio de Bárbara Franklin. Este último poderá chocá-lo.
Como sabe, comecei por mandar chamá-lo com o argumento de que precisava de si. Era verdade. Necessitava que se tornasse os meus ouvidos e os meus olhos. Também é verdade, mas não no sentido que pensa. Precisava que visse o que eu queria que visse e ouvisse o que eu queria que ouvisse.
Queixou-se-me, frequentemente, cher ami, que eu não era desportivo na minha apresentação do caso. Recusei-me a transmitir-lhe o que sabia, isto é, neguei-me a desvendar-lhe a identidade de X. Tive de fazê-lo, não pelas razões que lhe expus, mas por outras, verá agora o motivo real dessa minha aparente deslealdade.
E analisemos, primeiramente, a questão de X.
Mostrei-lhe um resumo dos vários casos e apontei-Ihe o facto de, em cada um deles, separadamente, a pessoa acusada ou suspeita de ter cometido os crimes hão ter tido outra alternativa, quanto à solução.
Indigitei-lhe ainda o segundo facto importante: em cada caso, X tinha estado presente na cena do crime, ou proximamente envolvido nela.
Então você lançou-se numa dedução que, paradokalmente, era verdadeira e falsa, ao mesmo tempo: Concluiu que X cometera todos os crimes.
Mas, meu caro amigo, as circunstâncias eram tais Ique, em cada caso (ou em quase todos), só o acusado poderia ter cometido o homicídio. Por outro lado, se assim era, como atribuí-los a X? Com exclusão de uma pessoa relacionada com a Polícia ou com uma firma de advogados criminais, não peria razoável que alguém, homem ou mulher, pudesse estar envolvido em cinco casos de assassínio. Não, mon ami, isso não seria possível. Portanto atingimos o curioso resultado de depararmos com um caso de catálise: uma reacção entre duas substâncias que apenas se opera na presença de uma terceira substância, não participando esta terceira substância, aparentemente, nessa reacção e mantendo-se inalterável. sso significa que os crimes apenas se verificavam, quando X estava presente, porém nunca participando neles activamente. Uma situação extraordinariamente anormal! Eis que enfrentava, no fim da minha carreira, o criminoso perfeito, o criminoso que inventou uma tal técnica que jamais poderia ser acusado de crime.
Empolgante, mas não situação nova. Teve paralelas. E aqui se insere a primeira das pistas que lhe deixei: a peça Otelo. Nela vamos achar, magnificamente delineado, o modelo original de X: lago, o assassino perfeito. As mortes de Desdémona, de Cassio e do próprio Otelo, podem ser-lhe atribuídas, por tê-las planeado e a elas instigado o executor.
E ele permanece fora do círculo, intocável pela suspeita... ou, pelo menos, podê-lo-ia ter conseguido. Pois o seu grande Shakespeare, meu amigo, achou-se perante o dilema que a arte lhe impunha: ou mantinha a impunidade de lago, o que seria imoral, ou servir-se-ia - como fez - de um expediente grosseiro, materializado por um lenço; uma prova material forjada de improviso, pelo autor, inadequada à técnica do personagem que, só por esse meio, pôde ser inculpado.
Sim, foi aí atingida a perfeição na arte do assassínio, pois nem sequer surge uma sugestão directa, na instigação ao crime. Sistematicamente ele aconselha os outros a evitarem a violência, refutando e condenando as suspeitas que ninguém teria tido, se não viesse, intencionalmente, levantar com o seu conselho a repulsa.
Esta mesma técnica se nos depara no brilhante terceiro acto de John Fergueson, em que St. John Ervine coloca a sua personagem, a meio jocosa figura de Clutie John, induzindo os outros a matarem o homem que ele próprio odeia. Em cada um deles desponta, de quando em quando, o desejo de matar, não, a vontade de matar. E há uma vala abissal entre desejar e querer. Para transpô-la, o homem precisa de um maior estímulo, de uma instigação.
Quantas vezes não temos ouvido alguém dizer: «Desesperou-me de tal maneira, fiquei tão furioso, que estive prestes a matá-lo!» «Podia tê-lo morto, só por ouvi-lo dizer aquilo!» «Estava tão exasperado que devia tê-lo morto!» Ora todas estas declarações são literalmente verdadeiras, porque a mente deseja claramente matar. Só que não o faz. Falta ao desejo a decisão.
A arte de X não residia em sugerir o desejo, mas sim em quebrar a resistência moral, natural. Aperfeiçoou-se nessa arte, ao cabo de longa prática, e conhecia a palavra exacta, a frase necessária, a intonação eficiente para avolumar a pressão sobre o espírito previamente revoltado. Isto era executado, sem que a pessoa o suspeitasse. Não se tratava de hipnotismo, mas de algo mais insidioso, mais mortal; era o apelo ao que o homem tem de melhor para que actuasse em aliança com o pior.
Você, Hastings, devia sabê-lo, porque lhe aconteceu a si mesmo.
Talvez agora consiga perceber algumas das observações que lhe fiz e que tanto o confundiram e aborreceram. Quando lhe dizia que «será cometido um crime» não me referia ao mesmo crime em que você pensava. Anunciei-lhe que estava em Styles, com um propósito determinado, e que um crime seria aí comeItido. Você admirou-se da minha certeza, quanto a esse facto futuro. Ora, eu tinha-a, porque era eu, exactamente, quem ia cometer o crime. E..... Sim, meu amigo, é uma situação simultaneamente irisível e terrível. Eu que sempre defendi a vida humana e combati o Crime ia terminar a minha carreira perpetrando um, talvez em consequência de demasiada rectidão, de excesso de sentido do dever. A verdade é que dediquei toda a minha vida a tentar evitar o Crime e acabara por enfrentar um caso em que matar seria a única forma viável de obstar à continuação de uma série letal.
Mesmo assim estava relutante. Sabia o que devia ser feito e como, mas não conseguia atingir o ponto de decisão. Foi então que ocorreu o atentado contra Mrs. Luttrell. Foi realmente uma tentativa de assassínio, um homicídio frustrado, seguido de imediato e sentido arrependimento. E você, dessa vez, esteve muito próximo da solução: desconfiou de Norton. Você fez então uma observação deveras significativa, quando me relatou a necessidade de Norton procurar impressionar os outros, em vão, e da repulsa que lhe causara ver um coelho morto, quando andava na escola, não podendo ver sangue. Penso que aquele incidente, na sua juventude, o deve ter impressionado e marcado para sempre. Abominava o sangue e a violência e isso contribuíra para o desprestígio. Subconscientemente, necessitava de redimir-se dessa inferioridade, provocando violência e sangue.
Sabia ouvir e era simpático. Descobriu ter o poder de influenciar os outros, sem que disso se apercebessem. Descobriu como era ridiculamente fácil levar os outros a agir de acordo com as suas sugestões. Bastava-lhe compreendê-los, penetrar-lhes o pensamento, adivinhar-lhes os desejos e as reacções, os instintos secretos.
Norton, que toda a gente estimava e ao mesmo tempo desprezava, por insignificante, tinha o poder de fazer os outros praticarem o que não queriam, ou (note bem isto, Hastings) pensarem que tinham feito o que efectivamente não tinham.
Esse poder transformou-se numa paixão que se tornou necessidade e cresceu, avolumou-se no seu íntimo ao ponto de dominá-lo como uma droga, um ópio de que já não podia privar-se.
Norton, de natureza gentil, era um sádico secreto. L’appelit vient en mangeant.
Precisava de nutrir-se da luxúria do sadismo e da luxúria do poder: Tinha a chave da vida e da morte. Deliciava-se com o sabor da tragédia por ele próprio condimentada. A sua droga eram as suas vítimas. Achou uma após outra, provavelmente muito mais do que cinco. Em todos os seus crimes, desempenhou o mesmo papel sempre à parte, aparentemente secundário; na realidade, principal.
Conheceu Etherington. Permaneceu uma época estival na aldeia em que Riggs vivia e costumava beber com ele, numa taverna local. Relacionou-se com Freda Clay, durante um cruzeiro marítimo, e encorajou-a na ideia de que desembaraçar-se da sua velha tia trá-lhe-ia não só a liberdade, mas a riqueza. Era amigo dos Litchfield e induziu no espírito de Margaret a convicção Ide que seria uma heroína, se salvasse o futuro das irmãs em troca de uma condenação à prisão perpétua.
Ora eu, meu caro Hastings, não acredito que nenhuma destas pessoas agisse como agiu, se não fosse a influência de Norton.
E, desta maneira, chegamos aos acontecimentos de Styles. Havia algum tempo que eu andava na pista de Norton. Quando travou relações com os Franklin, pressenti o perigo, imediatamente. Franklin oferecia a Norton magníficas possibilidades: estava apaixonado por Judith e esta por ele; contudo, era um homem de forte carácter e grande rectidão de princípios. Quando os descobriu no canteiro das rosas e percebeu que você pensava tratar-se de AlIlerton, cortejando sua filha, porque ela lhe tolerava uma corte inconsequente, achou-se em ambiente propício à realização dos seus desígnios. Como a absorção de Franklin pelo seu trabalho o tornava praticamente alheado do resto do mundo e, portanto, quase invulnerável, virou-se para Judith. Desafiou-lhe o orgulho e a coragem.
Lembra-se de quando lhe disse, sarcasticamente: «Isso são coisas que os jovens proclamam, mas são incapazes de praticar»? E realçou a inutilidade da vida de Bárbara, prejudicando a felicidade dos outros: do marido e de Judith.
Veja se se recorda, Hastings, no caso dos Luttrell, quando, na primeira noite em Styles, você jogava brídege com eles. Norton fez-lhe algumas observações em voz baixa, que você receou que o coronel tivesse podido ouvir. Ora Norton não as fizera inabilmente, mas intencionalmente, para que ele as ouvisse e o influenciassem.
Mais tarde, declarando sentir sede, após o passeio ao sol, induz o coronel a oferecer umas bebidas. Vocês testemunham a cena, através da janela, quando Mrs. Luttrell se opõe à oferta. Toda a perturbação de Norton foi, depois, simulada, para avolumar a humilhação do velho militar.
Recorda-se daquela história que Boyd Carrington contou do impedido irlandês que matara o próprio irmão? Pois, na sua distracção proverbial, Sir William esquecera-se de que fora exactamente Norton quem lha contaral E como vê, mais uma vez, a sugestão não pareceu provir de Norton. Mom Dieul
Tudo foi por ele estabelecido: o efeito acumulativo e o ponto de fractura. O coronel Luttrell desespera-se e desabafa: «Hei-de mostrar-lhe!... Quem dera que ela morresse!... Ainda acabo por matá-la!»
Não a matou e, meu caro Hastings, estou convencido que falhou, porque quis falhar. Foi o Diabo quem ficou desfeiteado. Eis pois, um dos crimes que Norton não conseguiu ultimar.
Allerton era o género de homem que você detestava: o tipo de pessoa que você pensava dever ser abolido de uma sociedade. Norton conta-lhe uma história a seu respeito, de resto verdadeira, que o levou a si, Hastings, ao ponto de fractura. Para que você não recusasse, Norton induziu Boyd Carrington a dar-lhe uma achega: adverte-o do perigo, fraternalmente.
Judith dirige-se, certa noite, ao laboratório. Você começa a segui-la. Mostrando-se sempre virtuoso, Norton convence-o a si de que a moça que Allerton beija e depois conduz à casa de Verão é Judith, só porque ela usou, nesse dia, um vestido branco. Você não a ouviu falar. Só ouviu a voz de Allerton. Pensou que Judith iria no dia seguinte para Londres com o miserável conquistador e dispôs-se a matar. Francamente, Hastings, tudo isso aconteceu porque você estava incapaz de raciocinar a frio, de admitir outra hipótese que não fosse a que o obcecava. Não conseguiu lembrar-se de que havia nessa casa, mais alguém vestida de branco...sempre vestida de branco: a enfermeira Craven. Se, acidentalmente, por desporto, Allerton cortejava Judith, que lhe aceitava o jogo, por mera distracção, como é usual entre moças da actual geração, a verdade era que as relações entre ele e a enfermeira Craven estavam muito mais avançadas... muitíssimo mais do que você poderia imaginar.
Na realidade, Norton surpreendera uma conversa entre Allerton e a enfermeira, tomando então conhecimento de que iriam encontrar-se, nessa noite, na casa de Verão. Isso bastou-lhe para induzi-lo, a si, na presunção de que Judith seria a cúmplice... a vítima.
A sua reacção, meu amigo, foi imediata. Mentalmente, decidiu-se a matar.
Felizmente para si, Hastings, você tinha ali um amigo cujos miolos ainda funcionavam. E não apenas os miolos!
Tive já ocasião de dizer-lhe que você seria incapaz de desvendar a verdade, por possuir uma natureza demasido crédula. Acredita no que lhe dizem. Acreditou no que eu lhe disse... Pois ser-lhe-ia bem fácil ter resolvido sozinho o problema.
Por que razão teria eu despedido George?
Substituí-o por um criado menos experiente e notoriamente menos inteligente do que ele... Porquê?
E por que razão não estava eu a ser assistido por um médico... eu que sempre me mostrara tão preocupado com a minha saúde?... Porquê? Por que diabo não desejava ser visto por nenhum médico experiente?... Porquê?
Compreende agora por que razão precisava de si em Styles? Tinha de utilizar alguém que aceitasse tudo quanto eu dissesse, sem qualquer dúvida. Você acreditou que eu regressara do Egipto muito pior do que quando para lá partira. Ora, acontece que vim muito melhor. Se se tivesse dado ao trabalho de perguntar a outras pessoas que me conhecem e que estiveram comigo antes de eu vir para Styles, teria obtido a confirmação desse facto.
Tive de afastar George, porque ele não acreditaria nesta minha súbita recaída que perceberia ser simulada. Ele é muito perspicaz quanto ao que observa e concluiria que a minha apregoada enfermidade não passava de um fingimento.
Está a compreender, Hastings’? Durante todo o tempo em que desempenhei o papel de artrítico, semiparalítico, coxo, cardíaco, precisei de um tipo como Curtiss, nada arguto, para carregar-me de um lado para o outro.
Ora eu estava absolutamente apto a andar e de muito mais coisas, incluindo fingir que coxeava, ou que simplesmente arrastava um pouco uma perna, percebe?
Naquela noite, ouvi-o subir a escada e hesitar à porta do meu quarto; em seguida, dirigir-se ao de Allerton. Fiquei imediatamente alerta.
Curtiss fora cear. Saí do quarto e, da maneira que você tanto deplora, espreitei pelo buraco da fechadura. O que advinhara do seu estado de espírito confirmou-se. Como deve lembrar-se, a chave não ficara na fechadura. Vi-o mexer no frasco das cápsulas soporíferas e compreendi as suas intenções.
Por isso, meu amigo, agi. Regressei ao quarto e preparei o meu golpe. Mal Curtiss chegou, pedi-lhe que fosse chamá-lo. Você começou a desculpar-se com dores de cabeça e aterrorizei-o com remédios. Acabou por aceitar uma chávena do meu chocolate e, a fim de despachar-se e poder ir para o seu quarto, bebeu-o de um trago. Nem lhe notou um gosto invulgar.
Ora, meu amigo, eu também tinha cápsulas soporíferas.
Dessa maneira, dormiu até à manhã seguinte e, quando acordou, já mais consciente, ficou horrorizado com o que estivera prestes a fazer.
Salvei-o e isso decidiu-me a executar aquilo para que viera a Styles. Você, Hastings, não é um assassino, mas seria enforcado por um assassínio cometido por influência de outrem e todos considerá-lo-iam culpado.
Você, meu bom, meu consciencioso, meu inocente amigo!
Tinha de actuar e não me restava muito tempo para fazê-lo. Receei o que Norton poderia manobrar em relação a Judith...
E foi então que Bárbara Franklin morreu.
Quaisquer que tenham sido as suas ideias acerca desta morte, não creio que tenha descoberto a verdade.
Para que saiba, Hastings, digo-lhe agora que você matou Bárbara Franklin. Mais oui, mon ami!
Havia um outro ângulo do problema que eu não tinha analisado. Só mais tarde desvendei.
O ângulo de interesse de Mrs. Franklin.
Passou-lhe alguma vez pela cabeça, Hastings, a razão que teria levado Bárbara a vir para Styles? Ela gostava de conforto, boa comida e contactos sociais. Era extremamente ambiciosa, não só socialmente, mas também financeiramente e casara com John Franklin porque esperava, como toda a gente, que ele tivesse na sua frente uma brilhante carreka. Ora o Dr. Franklin era realmente brilhante, mas não da maneira que ela o desejara. Não granjeara a fama de um médico da moda e as suas pesquisas científicas não lhe proporcionavam uma apreciável riqueza.
Porém, enquanto decorriam as obras de Knatton, Boyd Carrington, recém-chegado do Oriente, herdando uma baronia e uma considerável fortuna, instalara-se em Styles, cuja mansão o seu velho camarada coronel Luttrell adaptara em hotel. Bárbara sabia que ele se apaixonara por ela, quando era ainda menina de dezassete anos... Pois bem, sugeriu ao marido que a trouxesse também para Styles. Contudo, Bárbara sabia que Franklin não era homem para conceder um divórcio. Portanto, só lhe restava pensar que, se o marido morresse, ela poderia tornar-se Lady Boyd Carrington. Como seria maravilhoso tornar-se mulher do muito rico Sir William!
Norton deve ter esfregado as mãos, de entusiasmo, ao vê-la tão propícia para uma das suas manipulações.
Bárbara começou por demonstrar, ostensivamente, quanto admirava o marido, chegando a exagerar um pouco, quando murmurou pensar em aliviá-lo do seu peso morto e em «acabar com tudo aquilo». Depois, utilizou uma linha de dissimulação inteiramente nova e ardilosa: mostrou-se receosa com o perigo que Franklin corria se experimentasse, em si próprio, o veneno de físostigmina. Não para envenenar-se, obviamente, mas apenas para observar cientificamente os efeitos, como outros sábios já o têm feito. E nisto também exagerou, considerando-o, imbecilmente, um santo.
Simplesmente, os factos aceleraram-se demasiadamente.
Lembra-se, Hastings, de ter-me contado que Bárbara ficara irritada por ver a enfermeira Craven ler a sina de Boyd Carrington? Esta era uma jovem atraente, de olho atento nos homens. Tentara a sorte com Franklin, sem o menor sucesso. Andava com Allerton, mas sabia que não era o homem que lhe convinha. Inevitavelmente, acabou por deitar os olhos ao rico e ainda encantador Sir William... E acontece que este estava mais do que pronto para ser cativado. Nessa altura já notara que a enfermeira Craven era «muito formosa, saudável e eficiente». As melhores qualidades que um cavalheiro inglês pode encontrar num cavalo. Além disso, viu-a correr lestamente através do campo.
Bárbara Franklin pressentiu o perigo e decidiu agir rapidamente. Quanto mais cedo pudesse mostrar-se uma patética e inconsolável viúva, tanto melhor.
Dessa maneira, depois de uma manhã em que interpretara uma maravilhosa cena de nervos, preparou a cena final.
Afirmo-lhe, meu amigo, que fiquei com imenso respeito pela semente de calabar. Desta vez, a coisa bateu certo. Absolveu o inocente e condenou o culpado.
Mrs. Franklin pediu-lhes que subissem todos ao seu quarto. Ofereceu-vos café, entre lamentos e mimos, e toda a gente a rodeou atenciosamente.
Ora, tal como você me disse, o café dela estava sobre a mesa-estante, e o do marido, ao lado. Foi nessa altura que viram as estrelas-cadentes e correram à varanda. Porém, você, meu nostálgico amigo, ficou com as suas recordações e um problema de palavras cruzadas.
Veja agora se se recorda do que me contou.
Para ocultar aos olhos de Judith a sua emoção, virou a mesa-estante, de onde tirou um livro em que encontrou a citação de Shakespeare que, momentos antes, Boyd Carrington mencionara. Não foi isso?
Pois ao rodar o pequeno móvel, numa meia volta de cento e oitenta graus, você fez com que Mrs. Franklin bebesse o café drogado com alcalóide de semente de calabar, que ela destinara ao marido, e este ingeriu o conteúdo inócuo da chávena que a sua bela envenenadora antes tivera em frente.
Compreendi o que realmente acontecera, porque era a única coisa que podia ter acontecido, naquelas circunstâncias, mas nunca poderia prová-lo.
Não podendo prová-lo, as suspeitas de envenenamento intencional e homicídio premeditado recairiam sobre John Franklin ou... sobre a sua Judith.
Ora, tanto um como outro estavam completamente inocentes. Que queria que eu fizesse?
Testemunhei ter visto Mrs. Franklin sair do laboratório com um frasco na mão e mostrar-se assustada ao reparar em mim.
O peso de toda a minha carreira de detective ajudou. Se um homem com a minha experiência criminal testemunhava (com plena convicção de que se tratava de suicídio), uma atitude tão suspeita de Mrs. Franklin, o investigador seria naturalmente induzido a optar por essa solução. Foi o que aconteceu.
Isso deixou-o, a si, deveras confuso, chegando a discutir o caso comigo mas, misericordiosamente, não chegou a suspeitar do perigo que então pairara sobre a cabeça inocente de sua própria filha.
Mais tarde, sim, seria possível que a dúvida lhe assaltasse o espírito: «Teria Judith...?»
É por essa razão que lhe escrevo. Precisa de saber a verdade.
Só houve uma pessoa a quem a solução de suicídio não agradou: a Norton.
Como lhe disse, ele era um sádico. Precisava de toda a gama de emoções de suspeita, medo e punição. Foi privado de tudo isso. O assassínio que tão cuidadosamente preparara diluíra-se num suicídio...
Portanto, mon ami, decidi que o que tinha de ser feito, deveria executar-se imediatamente. Arranjei as coisas de maneira que você trouxesse Norton ao meu quarto. Vou contar-lhe, agora, exactamente, o que aconteceu.
Sem dúvida alguma, Norton desejaria narrar-me a sua versão da história, de maneira a implicar Franklin e Judith no crime, mas não lhe dei tempo. Disse-lhe clara e definitivamente tudo quanto sabia a seu respeito.
Nem se deu à farsa de negá-lo. Não, mon ami, recostou-se na cadeira e sorriu tolamente. Mais oui... tolamente, é o termo. Perguntou-me que tencionava eu fazer com aquela minha divertida ideia. Respondi-lhe que estava disposto a executá-lo.
- Ah, estou a ver - motejou. - O punhal ou a taça de veneno?
Iamos, nesse mesmo momento, tomar uma chávena de chocolate. Eu sabia que ele era guloso. Tínhamos duas chávenas limpas, em nossa frente e servimo-nos cordialmente, do mesmo bule.
- O mais simples - disse-lhe eu -, seria a taça de veneno.
- Nesse caso - propôs -, importa-se que beba pela sua chávena ou vê algum inconveniente em beber pela minha?
Era uma troca escusada, já que os recipientes sé apresentavam bem lavados e enxutos e o chocolate provinha da mesma fonte.
- Certamente - anuí. - A sua hora ainda não chegou, Norton, e não tenciono suicidar-me.
Como já lhe disse, meu caro amigo, eu também tinha cápsulas soporíferas. Simplesmente, como durante um longo período começara a toma-las quotidianamente, o meu organismo adquirira uma forte tolerância àquela droga e a dose que iria, agora, pôr Mr. Norton a dormir, causar-me-ia a mim, bem pouco efeito.
O hipnótico fora diluído no chocolate contido no mesmo bule de que ambos nos servíramos. Bebemo-lo até à última gota. Ele confiante no que eu acabara de dizer-lhe e eu não só na minha habituação, mas também na dose aumentada do meu tónico de estricnina, que ingerira, instantes antes de lhe dizer para entrar, quando batera à porta do quarto.
E chegamos assim ao último capítulo, meu caro Hastings. O soporífero exerceu sobre ele a sua acção normal e quase nada me afectou. Quando o vi adormecido profundamente, transferi-o para a minha cadeira de rodas e conduzi-o para junto da janela, ocultando-o atrás dos espessos cortinados. Então chamei Curtiss.
- Ponha-me na cama - indiquei. Quando o meu criado saiu do quarto, esperei que tudo se aquietasse. Levantei-me, fui buscar Norton à janela e levei-o para o seu quarto. Só restava utilizar-me dos ouvidos e olhos do meu querido amigo Hastings.
Talvez você não se tivesse apercebido de que eu usava chino. Muito menos, de que tinha agora um bigode falso. Nem George o sabe. Quando o dispensei dos serviços e admiti Curtiss, disse a este que queimara, por acidente, as guias do bigode, pelo que mandara fazer uma réplica exacta.
Enverguei o roupão multicolor de Norton, levantei uma madeixa do meu cabelo grisalho, caminhei ao longo do corredor e rocei, sonoramente, com as costas da mão pela sua porta, meu amigo. Você abriu-a, com olhos sonolentos, e viu Norton dirigir-se ao quarto. Ouviu-o fechar a porta à chave, pelo lado de dentro, não é verdade?
Era exactamente isso que eu pretendia de si, em Styles: os seus olhos e os seus ouvidos.
No quarto de Norton, vesti-lhe o roupão, deitei-o na cama e, com a pequena pistola que eu comprara, em tempos, no estrangeiro, dei-lhe um tiro na testa. Devo explicar-lhe, porém, que por duas vezes (quando Norton tinha saído de manhã cedo) mandara Curtiss fazer-me um recado e deixei essa pistolinha sobre a mesa-de-cabeceira de Norton, para que a criada de quarto notasse a sua existência.
Depois de disparar a arma, de fraca detonação, quase inaudível nessa noite de trovoada (e aguardei um longo ribombar de trovão para fazê-lo, por pura precaução, já que eram muito frequentes e se prolongaram durante quase toda a noite), meti-lhe a chave na algibeira do roupão.
Saí do quarto e fechei a porta, à chave, pelo lado de fora.
Lembra-se de eu lhe ter dito que me tinham roubado a chave, logo nos primeiros dias após a minha chegada a Styles?
Então, rodei a cadeira até ao meu quarto.
Há ainda uma ou duas coisas que gostaria de acentuar.
Os crimes de Norton tinham sido perfeitos. O meu, não foi. Nem pretendi que fosse.
A maneira mais fácil... a melhor, de matá-lo, era fazê-lo abertamente, descaradamente. Bastava-me ter-Ihe metido a arma na mão, depois desfechado o tiro, e toda a gente teria concluído:
- Oh, o pobre Norton! Não reparou que estava carregada. Que lamentável acidente!
Mas não escolhi essa saída..
Vou dizer-lhe porquê.
Unicamente, Hastings, porque quis ser desportivo.
Mais oui, desportivo! Tantas vezes você me censurou de o não ser que, desta vez, resolvi fazer jogo franco consigo. Dei-lhe uma possibilidade de desvendar a solução, seguindo as regras do jogo; uma oportunidade de descobrir a verdade.
No caso de não acreditar, deixe-me enumerar-lhe as pistas.
As chaves.
Você sabe, porque lho disse, que Norton chegara a Styles depois de mim. Você sabe, porque lho disse, que mudei de quarto pouco tempo depois de cá ter chegado. E sabe também, porque não deixei de dizer-lho, desportivamente, que a chave do meu quarto desaparecera, pelo que tivera de mandar fazer uma outra. Lembra-se?
Ora, eu mudei de quarto, quando Norton chegou, para que ele ocupasse aquele onde eu estivera e do qual possuía uma chave. Sim, a que desaparecera.
Portanto, quando você se inquiriu, intrigado, quem poderia ter morto Norton, tendo ele a chave do seu quarto na algibeira do próprio roupão... a resposta correcta seria: Hercule Poirot, a única pessoa que mandara fazer um duplicado de uma chave, quando estivera noutro quarto.
Bastar-lhe-ia ter perguntado em que quarto eu estivera antes da mudança e logo compreenderia que a chave original não fora perdida.
Agora, vejamos: o homem que você viu na passagem do corredor.
Insisti consigo na pergunta, quanto a estar, ou não, certo de que fora Norton a pessoa que vira naquela noite. Você chegou a inquirir-me se eu estava a sugerir-lhe que não era Norton quem você vira.
Lembra-se de ter-lhe chamado a atenção para a altura dele? Até sublinhei o facto de mais nenhum dos outros hóspedes serem da altura de Norton e você concordou que todos os restantes eram mais altos. Mas havia um homem, em Styles, tão baixo como Norton: Hercule Poirot. Na realidade, até mais baixo, mas é sempre fácil aumentarmos a altura dos tacões dos sapatos e foi o que fiz.
Você raciocinou sempre sob a impressão de que eu estava inválido. E porquê? Apenas porque eu lho disse.
Eu despedira George. Porquê? Foi essa a última indicação que lhe dei: «Vá e fale com George.»
Otelo e Clutie John demonstraram-lhe que X era Norton. Agora, quem poderia ter morto Norton?
Somente Hercule Poirot.
Desde que tivesse suspeitado disso, tudo o mais se encaixaria no seu devido lugar. Deveria ter-se informado junto dos médicos que me haviam tratado, no Egipto; interrogado o meu médico assistente de Londres. Qualquer deles lhe afirmaria ser falso estar eu impossibilitado de andar.
George testemunhar-lhe-ia usar eu um chino.
E devia ter notado que arrasto uma perna, ao andar, ainda mais do que Norton.
Para terminar, voltemos ao assunto do tiro de pistola.
Foi essa a minha única fraqueza. Devê-lo-ia ter atingido na têmpora do lado direito, já que Norton não era canhoto, mas não pude dominar-me. Era dificultar-lhe muito a pista. Além disso, era contra a minha tendência natural. Não, não o faria. Disparei a bala, num ponto central, absolutamente simétrico, a meio da fronte. Ora, você sabia que sou doente por simetria.
Oh, Hastings, Hastings! Só esse pormenor bastaria para indicar-lhe a verdade.
Durante tantos casos criminais em que actuámos juntos, a simetria foi sempre uma inclinação minha, lembra-se?
Talvez você tenha suspeitado da verdade. Talvez, ao ler-me neste momento, você sinta que já o soubera.
Por outro lado, creio que não. Você é demasiado confiante. Tem uma natureza demasiado pura. Que mais posso dizer-lhe? Penso que tanto Franklin como Judith descobriram a verdade, mas não lha disseram. Esses dois conseguirão ser felizes. Serão sugados por inúmeros insectos tropicais, padecerão de febres incómodas (todos nós temos o direito de opinião sobre o que é uma vida perfeita, não será assim?), mas serão felizes.
E você, meu pobre e solitário Hastings! Ah, o meu coração sangra por si, meu querido amigo.
Quererá, por uma última vez, seguir um conselho do seu velho Poirot?
Logo que tenha lido esta longa carta, apanhe um comboio, ou um carro, ou uma série de autocarros e vá à procura de Elizabeth Cole que é também Elizabeth Litchfield. Diga-lhe que você também podia ter feito o que fez a irmã dela, Margaret... só que esta não teve a protegê-la um Poirot vigilante.
Livre-a do pesadelo que a persegue e prove-lhe que o pai não foi morto por Margaret, mas por esse simpático amigo da família, o «honesto lago», Stephen Norton.
Porque, meu amigo, não está certo que uma mulher com as suas qualidades, ainda nova e muito atraente, se recuse a viver, só por acreditar que ficou «marcada».
Diga-lhe isso, meu amigo, e não se esqueça de que, na verdade, você é um homem que ainda pode despertar interesse a uma mulher.
Eh bien, não tenho mais a dizer-lhe. Não sei, Hastings, se o que fiz está justificado, ou não. Realmente, não sei.
Não acredito que um ser humano deva executar a Lei por suas próprias mãos... mas, por outro lado, eu sou a Lei! Quando era novo e pertencia à Polícia belga, tive de matar um desesperado que se sentara em cima de um telhado e disparava sobre quem passava na rua. Num estado de emergência, proclama-se a lei marcial.
Tirando a vida a Norton, salvei outras vidas... vidas inocentes. Talvez o que fiz esteja certo, porém, eu, que sempre me mostrei tão seguro dos meus actos e raciocínios, desta vez, desta vez, não sei...
Adeus, cher ami. Afastei para longe do meu leito as ampolas de nitrito de amilo. Prefiro agora entregar-me às mãos do bon Dieu.
Que o seu castigo ou perdão sejam rápidos!
Não tornaremos a caçar juntos, meu amigo. Foi aqui a nossa primeira caçada... e a nossa última.
Foram bons tempos.
Sim, houve realmente bons tempos...
(Fim do manuscrito de Hercule Poirot)
Nota final: Acabei de ler... Ainda não posso acreditar. .. Mas ele tem razão. Eu devia ter sabido. Devia ter compreendido a verdade, quando vi o orifício da bala tão perfeitamente simétrico, a meio da testa.
Singular (acabo de aperceber-me) o pensamento que se me incrustou na mente, nessa manhã.
O sinal firmado na fronte de Norton... era como a marca de Caim...
Capitão Arthur Hastings