Camillo Castello Branco

Antonio da Silva Pinto · Capítulo 3 de 7

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Camillo Castello Branco

Iii[1]

Teremos ensejo de fallar d'elle como polemista. Vejamos no entanto a philosophia do seu riso.{17}

 

III[1]

 

«Não conto commigo para destramente me desempenhar da empreza litteraria em que se faz mister mais mocidade de coração que lettras bem ajuizadas.

«É materia,—se se pode com tal nome invilecer o que ha ahi mais subtil e espiritual—é materia, isto d'amores, para inspirar sérias considerações a homem dos meus annos.

«E se os amores vêm d'azas quebradas e involtas nas escomilhas do lucto, se em vez de grinaldas de rozas, cingem cypreste; se lhes alvejam a tiracolo caveiras em vez de aljavas, e lá dentro estiletes hervados em vez de flechas d'ouro—emfim amores negros, amores abominaveis,—maior dever me corre de ser sizudo, elegiaco e espantador de paixões.

«Conheço-me. Dei o primeiro passo na senda da sabedoria, segundo Cicero: se ipsum nosce; cavei com utilidade no preceito: Nosce te ipsum; sabia felizmente um pouco de latim para me intender mais depressa.

«A minha raiva ao planeta em que estou é acerba{18} mas fica muito aquem da misanthropia. Em rapaz fiz de Heraclito, quando não conhecia melhor do que hoje este grego que aforou as lagrimas com honras de eschola philosophica. De tal philosopho, coisa que sirva, só temos o boato de que chorava e declamava em publico. Hoje em dia, um homem com esta sensibilidade era levado ao commissario de policia.

«Por mim e pelos meus visinhos tambem eu chorei.

«Eis que, desce a geada de muitos invernos a nevar-me, o frio a filtrar, a temperatura dos liquidos a descer, o sangue a coagular-se, e logo o cristallisar das lagrimas no coração como as concreções vitreas d'uma caverna.

«Principiei a rir ás vezes.

«Rir é contrahir-se o diaphragma e os musculos faciaes, operação materialissima, muscular, carnal, e que nenhum outro animal exercita.

«Claro é que o rir é attributo de ser racional.

«A par e passo que a razão se allumia e fecunda, as contracções musculares amiudam-se. Raciocinar é rir. O acume da sabedoria humana é ver os reversos das tragedias sociaes; lá está por força a comedia. A ignorancia que esteriliza e mirra e incalvece é a que só deixa ver uma face da mortalha.

«Eu não cheguei ainda aos pinaculos da sabedoria.{19}

«Vou subindo.

«Subir é ir um homem desatando os nós que atam a dôr estranha á sua; é ir tirando ás coizas tristes a sua essencia lacrimal, por feição que o sunt lacrimæ rerum de Virgilio não se perceba.

«O rir, porem, do animal philosopho não é a casquinada saloia do bipede implume de Platão que vaga á toa e á tuna, sem casta de philosophia nenhuma.

«Ha ahi um gargalhar que a sciencia denomina spasmo cynico, ou de cão, um exhibir das arcadas dentarias até aos condylos. É o caracter bestial da canalha. É o que os inglezes chamão rir de cavallo—horse laugh.

«Ha tambem o rir chamado sardonico, o rir d'uns que comeram o fabuloso rainunculo da Sardenha. Ora entre nós os que d'esta arte destampam gargalhadas não comeram rainunculos, é gente imbuchada de feijão branco e orelha de cevado. Essa hedionda deformidade caracterisa estupidez quasi sempre malevola; corresponde ao espojar-se, se o rir é meramente bruto e ao escoucear, quando é bruto e mau.

«Não riram assim Democrito, Aristophanes, Esopo, Petronio, Aretino, Gil Vicente, Erasmo, Sterne, Rabelais, Charron, Molière, Voltaire, Tolentino, Byron, Heine.

«D'estes, alguns, senão todos, riram dos homens e dos Deuses. {20}

«E o ultimo nome que cerra a phalange consubstancia todas as calamidades comprehensiveis, desde o jazer do paralytico cego, até á theophobia, o horror de Deus. E, assim mesmo, como elle adivinhou o sorrir de Satan, a despenhar-se das regiões da luz, onde o Summo-Bem permittiu que se gerassem Anjos soberbos! Vejam a superrima vingança d'aquelle Prometheu que recurva os dedos nos fusis da gargalheira, que o amarra oito annos a um leito, e do estridor dos ferros sacudidos, medula o sinistro arpejo das suas gargalhadas sarcasticas! Como Lucifer invejaria o gentilissimo demonio que retransido das agonias da nevrose, todo trevas dentro e fora, creava a paradoxal harmonia do gemido com a risada.

«É preciso ter chorado para immortalisar o riso no livro, na estrophe, na sentença, na palavra; o riso que excava, mina e alue theogonias; o riso que desfaz religiões, cujo berço boiou embalado sobre ondas de sangue;

«O riso que abate a abobada do templo sobre as ossadas dos martyres;

«O riso que revolve as tormentas dos imperios, e abysma thronos, e espuma espadanas de lama, lama com que as gerações erigem os seus marcos millenarios, as suas chronologias gloriosas.

 

«Oh! mas que susto não faria aos proceres que{21} regem a republica e aos sacerdotes que regem almas, o rir do demagogo e do atheu, se a cada chasco d'uns taes ruissem thronos e altares?

«Nada de medo em Portugal.

«Aqui o dardo do sarcasmo alcança apenas o scopo onde a calumnia mira. As gargalhadas, como aqui as bascolejam estas maxilas alvares dos goliardos professos, vingam mariar a honra d'um homem, desluzindo-lhe o passado, innoitando-lhe o futuro, infernando-lhe o sanctuario da familia. Isto é o mais. Receal-as todavia, como attentatorias das instituições civis ou religiosas, seria dar-lhes a honra de ridiculisarem quem as teme.

«Aqui não ha esgrima de facecia que entre dois contendores decida um pleito util. Dois homens que se medem e floreteam a remoques são dois fundibularios que se apedrejam.

«Ninguem se lembrou de inscrever algum dos nossos satyricos na pleiade dos que, rindo, castigaram. O espirito portuguez nunca espantou ninguem. A bruteza carniceira, sim. Assevera-o o douto e pio bispo Amador Arrais: «Espanta-se o mundo e tem inveja á nossa ferocidade.» Isto escreveu-se, de boa fé, no seculo XVII entre a inquisição e a pirataria portugueza no Oriente.

«Quando Rabelais e Montaigne forjavam alavancas para Voltaire —o ridente que transfigurou a Europa—nós queimavamos homens, em cujas frontes lampejassem reflexos de João de Leide ou{22} de Petrus Ramus. Quando, em França, rumorejavam os sorrisos prenuncios do terramoto social, aqui ouvia-se o mugir subterreo das masmorras d'um cruelissimo verdugo, que disputava á inquisição trevas e supplicios para centralisar a ferocia do poder em si, e esteiar o throno nos caibros da forca. Para o riso, que assombrava o dogma, acendia-se a fogueira; para o que assombrava a realeza, arvoravam-se os patibulos de Belem.

«D'ahi procedeu que portuguezes ainda teem n'alma crepusculos d'aquella grande noite. Não sabemos rir com «espirito»; apenas gargalhamos com os queixos.

«Sem embargo, implantou-se entre nós uma coisa creada pontualmente para nós. Chama-se a «chalaça», que já deu uma filha estupida como sua mãe, chamada a «laracha».

«Mãe e filha vivem abarregadas com uns chanceadores lettrados da indole dos «eternos tolos» de Tertulliano.

 

«Aos quaes peço indulgencia, se a merecem as tortuosidades por onde me transviei, degenerando d'aquella derreada prosa com que abri esta coisa alabyrintada.

«Era meu proposito dizer espalmadamente que, ha vinte annos, comecei a ver as duas faces dos lances tristes: uma que intende com as glandulas lacrimaes, outra com o diaphragma. Primeiramente,{23} se não choro, condôo-me; depois, esgaravatando na raiz das dores humanas, encontro ahi ou sedimento de perversidade ou ridicularias miserabilissimas. Então é o rir. E, afim de que os padecentes me desculpem, rio primeiro de mim.

«D'ahi se causou que os meus livros, entre muitos defeitos, realçam em um que tem ferido a benevolencia da critica: e é que não conservo, sem intercadencias desvanecidamente faceciosas, uma situação plangente, e amarguro com o acerbo da ironia a dulcidão das lagrimas.

«É justo o reparo.

«E n'este livro me quer parecer que tal defeito subirá de ponto; porque vou intender em tragedias amorosas, n'esta edade de quarenta e tres annos feitos, velhice em que nenhum escriptor sincero, obediente a Horacio, deu aos seus leitores o exemplo das lagrimas. Si vis me flere, etc.

«D. Francisco Manuel de Mello, em annos sediços, escreveu uma Epanaphora amorosa. Succede, por isso, ao estremado estylista que faz rir a gente quando os seus personagens choram. É o providencial castigo de quem anda, fóra de sasão, á cata de flores, ou intenta com myrradas perpetuas dar fragrancia de tomilhos ao livro que resumbra o acre enjoativo do bolor.

«E d'isto me pesa; que este livro abrangerá um tristissimo caso que me fez invelhecer annos na hora em que o vi. Que profanação, se o riso me{24} antepozer os fantasmas irritados das almas insepultas!

 

«Creio que, ao fechar d'algumas sepulturas, se abrem livros de proveitoso doutrinamento ao de e cima d'ellas.

«Mas quem procura ahi fontes de vida?