Camillo Castello Branco

Antonio da Silva Pinto · Capítulo 5 de 7

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Camillo Castello Branco

Capítulo V

 

Quando o CRIME DO PADRE AMARO e o PRIMO BAZILIO de Eça de Queiroz estalaram como gritos de guerra nos dominios das lettras portuguezas, fez-se á volta do recem-chegado um clamor de admiração, que, para ser justo, só precisava de ser consciente. Quem isto escreve applaudiu e deu a razão do applauso. O romancista felicitou o critico pela comprehensão do trabalho e dos intuitos. Estes processos desusados tiram á critica a feição protectora e fixam a independencia da arte no sentido elevado e

puro da palavra independencia[3].

Mas de par com as saudações criticadas surgiram as acclamações insensatas da turba multa e a exploração perfida do successo do romancista.

A perfidia consistia em jogar os livros de Eça de Queiroz como uma catapulta contra a obra de Camillo Castello Branco. Provocado o velho leão, não moribundo por mal dos aggressores, sahiu a terreno—zombando. O Euzebio Macario e a Corja são tiros certeiros contra a matulagem; não prejudicam nem visam a prejudicar os processos novos dos mestres{31} da ultima geração; mas põem a nota de bom senso na conta do que se derimia entre a velhacaria e a ignorancia e restabelecem a situação no seu terreno sob o ponto de vista da boa critica.

Mas fora dos dois livros de ironia buscaremos specimen de soberba execução artistica, alheia aos antigos processos do grande romancista. É do livro A Brazileira de Prazins. A galeria do romance portuguez não apresenta quadro mais vigoroso, nem mais surprehendente colorido tragico, com todas as nuances de uma observação que se evade á fadiga pelos primores incomparaveis dos seus moldes.

«O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:—A casa do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...

«—Credo!—exclamou a mulher com as mãos na cabeça.—Nossa Senhora nos acuda!

«—Leva rumor!—e punha o dedo no nariz.

«—Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembrate dos trez annos que penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...

«—Já te disse que me não cantes—e relançava-lhe o seu formidavel olhar vêsgo, incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo de páo.{32} Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a buxa de musgo, e depois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.

«—Ó José, vê lá o que vaes fazer!—insistia a mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno de Maria da Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle, cantando n'uma surdina rouca:

 

Leva avante, portuguezes,

Leva avante, não temer...

«—Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.

«E o Melro n'uma distracção lyrica:

 

Pela sancta liberdade,

Triumphar ou padecer...

 

«Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'agodão em rama, enroscou-as n'uma{33} agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do cano.—Está suja—disse elle— dá cá um todo-nada de aguardente.

«—Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!

«—Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!—E pôz-se a assobiar a Luisinha. Enroscou algodão embebido em aguardente no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibilo egual. Parecia satisfeito, e cantarolava, mezza voce:

 

Agora, agora, agora,

Luisinha, agora.

 

«Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia, introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. Levantou o fusil de aço, que fez um som rijo na mola, e friccionou-o com polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta da pedreneira, que faiscava.

«—Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem! soluçava a mulher.{34}

«E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um sfogato:

 

E viva a nossa rainha,

Luisinha,

Que é uma linda capitôa...

 

«—Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuxos e uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.

«A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e regougou:—Máo!... máo!...

«Carregou a clavina com a polvora de um cartuxo; bateu com a cronha no sobrado, e deu algumas palmadas na recamara, para fazer descer a polvora ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartuxo, bateu-as com a vareta ligeiramente uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.

 

Agora, agora, agora,

Luisinha, agora.

«Depois pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.

«A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos a chorar; o mais novo esperneava,{35} dava vagidos na cama a procural-a. O Alma-negra fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da Maria da Fonte.—Ora agora—disse elle—ouvistes? porta da cosinha e a cancella da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.

«—Vae com Nossa Senhora—disse a mulher—e poz-se de joelhos a uma estampa do Bom Jesus, a rezar muitos Padre-nossos, a fio.

 

«Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar, nem ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio da coruja no campanario distante, punham arrepios de medo na espinha d'aquelle homem que ia matar outro—chamal-o á janella e varal-o á traição com uma bala.—Era o traçado.

«—Que raio de escuro!—dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.{36}

«Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao Fiat genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades, encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata, chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.

«O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, rugia o rio Péle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a{37} monte, rugia intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do faubourg Saint-Honoré, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.

«Havia tambem um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco. Tinia dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.

«O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. Era elle quem reclamava um quartinho que pozera de porta, e o banqueiro recolhêra com as paradas que estavam dentro, quando tirou a contraria de cara.

«—Que não admittia ladroeiras!

«E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que fosse para a Terra Negra.

«A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca.{38} Travou-se a lucta a sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho com um murro herculeo phenomenal. O taberneiro abriu a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços, quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.

 

«Quando, á meia noite, o Alma-negra entrava em casa pela porta do quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o bafo.

«O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do Bom Jesus; que estivera trez horas de joelhos diante da sua divina imagem. O marido{39} objectava contra o milagre—que o compadre não lhe dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimara o Zeferino; e a mulher—que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.

«Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse: