Campo Geral

João Guimarães Rosa · Capítulo 2 de 2

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Campo Geral

Nota

 

Não é à toa que os livros de João Guimarães Rosa seguem cativando gerações de leitores. Expondo com imaginação e riqueza de detalhes paisagens e circunstâncias que fazem parte do cotidiano sertanejo, ele nos emociona com seu talento ao manejar a língua portuguesa. Com maestria, o escritor mineiro recupera vocábulos antigos, combina palavras de maneira inusitada ou mesmo cria novos termos, um de seus maiores dons. Sobre a forma ímpar por meio da qual opera sua linguagem, Guimarães Rosa chegou a confidenciar em uma entrevista concedida a Günter Lorenz, em Gênova, na Itália, em janeiro de 1965:

Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do

idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma

corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente.

“Campo Geral” é uma novela que compõe a extensa obra Corpo de baile, lançada em 1956. Quatro anos depois, em 1960, o título passaria a ser publicado num único tomo. Em 1964, a obra foi desmembrada em três volumes, e “Campo Geral” passou a integrar o livro Manuelzão e Miguilim. A novela, que apresenta o mundo do ponto de vista do menino Miguilim, ganharia em 2007 uma versão cinematográfica, com o lançamento de Mutum, longa-metragem dirigido pela cineasta Sandra Kogut e filmado no sertão de Minas Gerais. O número de adaptações para o teatro da história do menino Miguilim, personagem principal da trama, só cresce, sempre ocupando os palcos dos principais espaços cênicos do país.

Impossível não se emocionar com as observações e vivências de Miguilim, menino sensível e perspicaz que vive num remoto lugarejo sertanejo chamado Mutum, em companhia de sua família e rodeado pela encantadora natureza da região. Nos pensamentos e nas falas da criança, submergem sentimentos em graus intensos, como medo, euforia, angústia, coragem, desespero e fascínio. O modo como Miguilim enxerga a vida, repleto de inocência e de esperança, é dos elementos mais envolventes dessa novela. Pelos olhos do menino, os leitores são naturalmente levados a se reconectarem com suas lembranças da infância, fazendo reavivar um conjunto de sensações que elas evocam.

O texto aqui presente tomou como base a terceira edição de Manuelzão e Miguilim, publicada pela Livraria José Olympio Editora em 1964. Procurando conservar a inventividade da linguagem criada por Guimarães Rosa, o texto foi revisto de forma cuidadosa, atualizando, de forma pontual, a grafia das palavras e acentuações conforme as reformas ortográficas da língua portuguesa de 1971 e de 1990.

Guimarães Rosa permitiu-se conceber praticamente uma nova língua, tamanha sua criatividade com as palavras. Tão inovadora quanto sua habilidade imbatível para jogar com a linguagem foi, sem dúvida, sua incomparável capacidade de conceber enredos que tratam com detalhe e envolvimento as especificidades de um mundo, revelando-nos com profundidade o que ele tem de universal.

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