Campo Geral
Campo Geral
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
U M , seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutúm. No meio dos Campos Gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos. Quando completara sete, havia saído dali, pela primeira vez: o tio Terêz levou-o a cavalo, à frente da sela, para ser crismado no Sucurijú, por onde o bispo passava. Da viagem, que durou dias, ele guardara aturdidas lembranças, embaraçadas em sua cabecinha. De uma, nunca pôde se esquecer: alguém, que já estivera no Mutúm, tinha dito: — “É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre…”
Mas sua mãe, que era linda e com cabelos pretos e compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se, principalmente nos demorados meses chuvosos, quando carregava o tempo, tudo tão sozinho, tão escuro, o ar ali era mais escuro; ou, mesmo na estiagem, qualquer dia, de tardinha, na hora do sol entrar. — “Oê, ah, o triste recanto…” —ela exclamava. Mesmo assim, enquanto esteve fora, só com o tio Terêz, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E foi descobriu, por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela af lição um pouco aliviava. Daí, pedia ao tio Terêz que molhasse para ele o lenço; e tio Terêz, quando davam com um riacho, um minadouro ou um poço de grota, sem se apear do cavalo abaixava o copo de chifre, na ponta de uma correntinha, e subia um punhado d’água. Mas quase sempre eram secos os caminhos, nas chapadas, então tio Terêz tinha uma cabacinha que vinha cheia, essa dava para quatro sedes; uma cabacinha entrelaçada com cipós, que era tão formosa. — “É para beber, Miguilim…” — tio Terêz dizia, caçoando. Mas Miguilim ria também e preferia não beber a sua parte, deixava-a para empapar o lenço e refrescar o nariz, na hora do arrocho. Gostava do tio Terêz, irmão de seu pai.
Quando voltou para casa, seu maior pensamento era que tinha a boa notícia para dar à mãe: o que o homem tinha falado — que o Mutúm era lugar bonito… A mãe, quando ouvisse essa certeza, havia de se alegrar, ficava consolada. Era um presente; e a ideia de poder trazê-lo desse jeito de cór, como uma salvação, deixava-o febril até nas pernas. Tão grave, grande, que nem o quis dizer à mãe na presença dos outros, mas insofria por ter de esperar; e, assim que pôde estar com ela só, abraçou-se a seu pescoço e contou-lhe, estremecido, aquela revelação. A mãe não lhe deu valor nenhum, mas mirou triste e apontou o morro; dizia: — “Estou sempre pensando que lá por detrás dele acontecem outras coisas, que o morro está tapando de mim, e que eu nunca hei de poder ver…” Era a primeira vez que a mãe falava com ele um assunto todo sério. No fundo de seu coração, ele não podia, porém, concordar, por mais que gostasse dela: e achava que o moço que tinha falado aquilo era que estava com a razão. Não porque ele mesmo Miguilim visse beleza no Mutúm — nem ele sabia distinguir o que era um lugar bonito e um lugar feio. Mas só pela maneira como o moço tinha falado: de longe, de leve, sem interesse nenhum; e pelo modo contrário de sua mãe — agravada de calundú e espalhando suspiros, lastimosa. No começo de tudo, tinha um erro — Miguilim conhecia, pouco entendendo. Entretanto, a mata, ali perto, quase preta, verde-escura, punha-lhe medo.
Com a af lição em que estivera, de poder depressa ficar só com a mãe, para lhe dar a notícia, Miguilim devia de ter procedido mal e desgostado o pai, coisa que não queria, de forma nenhuma, e que mesmo agora largava-o num atordoado arrependimento de perdão. De nada, que o pai se crescia, raivava: — “Este menino é um mal-agradecido. Passeou, passeou, todos os dias esteve fora de cá, foi no Sucurijú, e, quando retorna, parece que nem tem estima por mim, não quer saber da gente…” A mãe puniu por ele: — “Deixa de cisma, Béro. O menino está nervoso…” Mas o pai ainda ralhou mais, e, como no outro dia era de domingo, levou o bando dos irmãozinhos para pescaria no córrego; e Miguilim teve de ficar em casa, de castigo. Mas tio Terêz, de bom coração, ensinou-o a armar urupuca para pegar passarinhos. Pegavam muitos sanhaços, aqueles pássaros macios, azulados, que depois soltavam outra vez, porque sanhaço não é pássaro de gaiola. — “Que é que você está pensando, Miguilim?” — Tio Terêz perguntava. — “Pensando em pai…” — respondeu. Tio Terêz não perguntou mais, e Miguilim se entristeceu, porque tinha mentido: ele não estava pensando em nada, estava pensando só no que deviam de sentir os sanhaços, quando viam que já estavam presos, separados dos companheiros, tinha dó deles; e só no instante em que tio Terêz perguntou foi que aquela resposta lhe saiu da boca. Mas os sanhaços prosseguiam de cantar, voavam e pousavam no mamoeiro, sempre caíam presos na urupuca e tornavam a ser soltos, tudo continuava. Relembrável era o Bispo — rei para ser bom, tão rico nas cores daqueles trajes, até as meias dele eram vermelhas, com fivelas nos sapatos, e o anel, milagroso, que a gente não tinha tempo de ver, mas que de joelhos se beijava.
— Tio Terêz, o senhor acha que o Mutúm é lugar bonito ou feioso?
— Muito bonito, Miguilim; uai. Eu gosto de morar aqui…
Entretanto, Miguilim não era do Mutúm. Tinha nascido ainda mais longe, também em buraco de mato, lugar chamado Pau-Rôxo, na beira do Saririnhém. De lá, separadamente, se recordava de sumidas coisas, lembranças que ainda hoje o assustavam. Estava numa beira de cerca, dum quintal, de onde um menino-grande lhe fazia caretas. Naquele quintal estava um perú, que gruziava brabo e abria roda, se passeando, pufo-pufo — o perú era a coisa mais vistosa do mundo, importante de repente, como uma estória — e o meninão grande dizia: — “É meu!…” E: — “É meu…” — Miguilim repetia, só para agradar ao menino-grande. E aí o Menino Grande levantava com as duas mãos uma pedra, fazia uma careta pior: — “Aãã!…” Depois, era só uma confusão, ele carregado, a mãe chorando: — “Acabaram com o meu filho!…” — e Miguilim não podia enxergar, uma coisa quente e peguenta escorria-lhe da testa, tapando-lhe os olhos. Mas a lembrança se misturava com outra, de uma vez em que ele estava nú, dentro da bacia, e seu pai, sua mãe, Vovó Izidra e Vó Benvinda em volta; o pai mandava: — “Traz o trém…” Traziam o tatú, que guinchava, e com a faca matavam o tatú, para o sangue escorrer por cima do corpo dele para dentro da bacia. — “Foi de verdade, Mamãe?” — ele indagara, muito tempo depois; e a mãe confirmava: dizia que ele tinha estado muito fraco, saído de doença, e que o banho no sangue vivo do tatú fora para ele poder vingar. Do Pau-Rôxo conservava outras recordações, tão fugidas, tão afastadas, que até formavam sonho. Umas moças, cheirosas, limpas, os claros risos bonitos, pegavam nele, o levavam para a beira duma mesa, ajudavam-no a provar, de uma xícara grande, goles de um de-beber quente, que cheirava à claridade. Depois, na alegria num jardim, deixavam-no engatinhar no chão, meio àquele fresco das folhas, ele apreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhas escondidas por entre as folhas — cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro de alegriazinha. As frutas que a gente comia. Mas a mãe explicava que aquilo não havia sido no Pau-Rôxo, e bem nas Pindaíbas-de-Baixo-e-de-Cima, a fazenda grande dos Barbóz, aonde tinham ido de passeio.
Da viagem, em que vieram para o Mutúm, muitos quadros cabiam certos na memória. A mãe, ele e os irmãozinhos, num carro-de-bois com toldo de couro e esteira de buriti, cheio de trouxas, sacos, tanta coisa — ali a gente brincava de esconder. Vez em quando, comiam, de sal, ou cocadas de buriti, dôce de leite, queijo descascado. Um dos irmãos, mal lembrava qual, tomava leite de cabra, por isso a cabrita branca vinha, caminhando, presa por um cambão à traseira do carro. Os cabritinhos viajavam dentro, junto com a gente, berravam pela mãe deles, toda a vida. A coitada da cabrita — então ela por fim não ficava cansada? — “A bem, está com os peitos cheios, de derramar…” — alguém falava. Mas, então, pobrezinhos de todos, queriam deixar o leite dela ir judiado derramando no caminho, nas pedras, nas poeiras? O pai estava a cavalo, ladeante. Tio Terêz devia de ter vindo também, mas disso Miguilim não se lembrava. Cruzaram com um rôr de bois, embrabecidos: a boiada! E passaram por muitos lugares.
— Que é que você trouxe para mim, do S’rucuiú? — a Chica perguntou.
— Trouxe este santinho…
Era uma figura de moça, recortada de um jornal.
— É bonito. Foi o Bispo que deu?
— Foi.
— E p’ra mim? E p’ra mim?! — reclamavam o Dito e Tomèzinho.
Mas Miguilim não tinha mais nada. Punha a mãozinha na algibeira: só encontrava um pedaço de barbante e as bolinhas de resina de almêcega, que unhara da casca da árvore, beira de um ribeirão.
— Estava tudo num embrulho, muitas coisas… Caíu dentro do corgo, a água afundou… Dentro do corgo tinha um jacaré, grande…
— Mentira. Você mente, você vai para o inferno! — dizia Drelina, a mais velha, que nada pedira e tinha ficado de parte.
— Não vou, eu já fui crismado. Vocês não estão crismados!
— Você foi crismado, então como é que você chama?
— Miguilim…
— Bôbo! Eu chamo Maria Andrelina Cessim Caz. Papai é Nhô Bernardo Caz! Maria Francisca Cessim Caz, Expedito José Cessim Caz, Tomé de Jesus Cessim Caz… Você é Miguilim Bôbo…
Mas Tomèzinho, que tinha só quatro anos, menino neno, pedia que ele contasse mais do jacaré grande de dentro do córrego. E o Dito cuspia para o lado de Drelina:
— Você é ruim, você está judiando com Miguilim!
A Chica, que correra para dentro de casa a mostrar o que tinha ganho, voltava agora, soluçada.
— Mamãe tomou meu santinho e rasgou… Disse que não era santo, só, que era pecado…
Drelina se empertigava para Miguilim:
— Não falei que você ia para o inferno?!
Drelina era bonita: tinha cabelos compridos, louros. O Dito e Tomèzinho eram ruivados. Só Miguilim e a Chica é que tinham cabelo preto, igual ao da mãe. O Dito se parecia muito com o pai, Miguilim era o retrato da mãe. Mas havia ainda um irmão, o mais velho de todos, Liovaldo, que não morava no Mutúm. Ninguém se lembrava mais de que ele fosse de que feições.
— “Mamãe está fazendo creme de buriti, a Rosa está limpando tripas de porco, pra se assar…” Tomèzinho, que tinha ido à cozinha espiar, agora vinha, olhos desconfiados, escondendo na mão alguma coisa. — “Que é isso que você furtou, Tomèzinho?!” Eram os restos do retalho de jornal. “— Tu joga fora! Não ouviu falar que é pecado?” “— E eu não vou ficar com ele… Vou guardar em algum lugar.” Tomèzinho escondia tudo, fazia igual como os cachorros.
Tantos, os cachorros. Gigão — o maior, maior, todo preto: diziam o capaz que caçava até onça; gostava de brincar com os meninos, defendia-os de tudo. Os três veadeiros brancos: Seu-Nome, Zé-Rocha e Julinho-da-Túlia — José Rocha e Julinho da Túlia sendo nomes de pessôas, ainda do Pau-Rôxo, e de quem o pai de Miguilim tivera ódio; mas, com o tempo, o ódio se exalara, ninguém falava mais o antigo, os dois cachorros eram só Zerró e Julim. Os quatro paqueiros de trela, rajados com diferenças, três machos e uma fêmea, que nunca se separavam, pequenos e reboludos: Caráter, Catita, Soprado e Floresto. E o perdigueiro Rio-Belo, que tresdoidado tinha morrido, de comer algum bicho venenoso.
Mas, para o sentir de Miguilim, mais primeiro havia a Pingo-de-Ouro, uma cachorra bondosa e pertencida de ninguém, mas que gostava mais era dele mesmo. Quando ele se escondia no fundo da horta, para brincar sozinho, ela aparecia, sem atrapalhar, sem latir, ficava perto, parece que compreendia. Estava toda sempre magra, doente da saúde, diziam que ia ficando cega. Mas teve cachorrinhos. Todos morreram, menos um, que era tão lindo. Brincava com a mãe, nunca se tinha visto a Pingo-de-Ouro tão alegre. O cachorrinho era com-cor com a Pingo: os dois em amarelo e nhalvo, chovidinhos. Ele se esticava, rapava, com as patinhas para diante, arrancando terra mole preta e jogando longe, para trás, no pé da roseira, que nem quisesse tirar de dentro do chão aquele cheiro bom de chuva, de fundo. Depois, virava cambalhotas, rolava de costas, sentava-se para se sacudir, seus dentinhos brilhavam para muitas distâncias. Mordia a cara da mãe, e Pingo-de-Ouro se empinava — o filho ficava pendurado no ar. Daí, corria, boquinha aberta, revinha, pulava na mãe, vinte vezes. Pingo-de-Ouro abocava um galho, ele corria, para tomar, latia bravinho, se ela o mordia forte. Alegrinho, e sem vexames, não tinha vergonha de nada, quase nunca fechava a boca, até ria. Logo então, passaram pelo Mutúm uns tropeiros, dias que demoraram, porque os burros quase todos deles estavam mancados. Quando tornaram a seguir, o pai de Miguilim deu para eles a cachorra, que puxaram amarrada numa corda, o cachorrinho foi choramingando dentro dum balaio. Iam para onde iam. Miguilim chorou de bruços, cumpriu tristeza, soluçou muitas vezes. Alguém disse que aconteciam casos, de cachorros dados, que levados para longes léguas, e que voltavam sempre em casa. Então ele tomou esperança: a Pingo-de-Ouro ia voltar. Esperou, esperou, sensato. Até de noite, pensava fosse ela, quando um cão repuxava latidos. Quem ia abrir a porta para ela entrar? Devia de estar cansada, com sede, com fome. — “Essa não sabe retornar, ela já estava quase cega…” Então, se ela já estava quase cega, por que o pai a tinha dado para estranhos? Não iam judiar da Pingo-de-Ouro? Miguilim era tão pequeno, com poucas semanas se consolava. Mas um dia contaram a ele a estória do Menino que achou no mato uma cuca, cuca cuja depois os outros tomaram dele e mataram. O Menino Triste cantava, chorando:
“Minha Cuca, cadê minha Cuca?
Minha Cuca, cadê minha Cuca?!
Ai, minha Cuca
que o mato me deu!…”
Ele nem sabia, ninguém sabia o que era uma cuca. Mas, então, foi que se lembrou mais de Pingo-de-Ouro: e chorou tanto, que de repente pôs na Pingo-de-Ouro esse nome também, de Cuca. E desde então dela nunca mais se esqueceu.
— Pai está brigando com Mãe. Está xingando ofensa, muito, muito. Estou com medo, ele queira dar em Mamãe…
Era o Dito, tirando-o por um braço. O Dito era menor mas sabia o sério, pensava ligeiro as coisas, Deus tinha dado a ele todo juízo. E gostava, muito, de Miguilim. Quando foi a estória da Cuca, o Dito um dia perguntou: — “Quem sabe é pecado a gente ter saudade de cachorro?…” O Dito queria que ele não chorasse mais por Pingo-de-Ouro, porque sempre que ele chorava o Dito também pegava vontade de chorar junto.
— Eu acho, Pai não quer que Mãe converse mais nunca com o tio Terêz… Mãe está soluçando em pranto, demais da conta.
Miguilim entendeu tudo tão depressa, que custou para entender. Arregalava um sofrimento. O Dito se assustou: — “Vamos na beira do rego, ver os patinhos nadando…” — acrescentava. Queria arrastar Miguilim.
— Não, não… Não pode bater em Mamãe, não pode…
Miguilim brotou em chôros. Chorava alto. De repente, rompeu para a casa. Dito não o conseguia segurar.
Diante do pai, que se irava feito um fero, Miguilim não pôde falar nada, tremia e soluçava; e correu para a mãe, que estava ajoelhada encostada na mêsa, as mãos tapando o rosto. Com ela se abraçou. Mas dali já o arrancava o pai, batendo nele, bramando. Miguilim nem gritava, só procurava proteger a cara e as orêlhas; o pai tirara o cinto e com ele golpeava-lhe as pernas, que ardiam, doíam como queimaduras quantas, Miguilim sapateando. Quando pôde respirar, estava posto sentado no tamborete, de castigo. E tremia, inteirinho o corpo. O pai pegara o chapéu e saíra.
A mãe, no quarto, chorava mais forte, ela adoecia assim nessas ocasiões, pedia todo consolo. Ninguém tinha querido defender Miguilim. Nem Vovó Izidra. E tanto, até o pai parecia ter medo de Vovó Izidra. Ela era riscada magra, e seca, não parava nunca de zangar com todos, por conta de tudo. Com o calor que fizesse, não tirava o fichú preto. — “Em vez de bater, o que deviam era de olhar para a saúde deste menino! Ele está cada dia mais magrinho…” Sempre que batiam em algum, Vovó Izidra vinha ralhar em favor daquele. Vovó Izidra pegava a almofada, ia fazer crivo, rezava e resmungava, no quarto dela, que era o pior, sempre escuro, lá tinha tanta coisa, que a gente não pensava; Vovó Izidra quase vez nenhuma abria a janela, ela enxergava no escuro.
Os irmãos já estavam acostumados com aquilo, nem esbarravam mais dos brinquedos para vir ver Miguilim sentado alto no tamborete, à paz. Só o Dito, de longe distante, pela porta, espiava leal. Mas o Dito não vinha, não queria que Miguilim penasse vergonha.
Aonde o pai teria ido? De ficar botado de castigo, Miguilim não se queixava. Deixavam-no, o ruim se acabara, as pernas iam terminando de doer, podia brincar de pensar, ali, no quieto, pegando nas verônicas que tinha passadas por um fio, no pescoço, e que de vez em quando devia de beijar, salgando a boca com o fim de suas lágrimas. O cachorro Gigão caminhava para a cozinha, devagaroso, cabeçudo, ele tinha sempre a cara fechada, era todo grosso. Ninguém não tocava o Gigão para fora de dentro de casa, porque o pai dizia: — “Ele salvou a vida de todos!” —; dormia no pé da porta do quarto, uma noite latiu acordando o mundo, uma cobra enorme tinha entrado, uma urutú, o pai matou. O dia estava bruto de quente, Miguilim com sede, mas não queria pedir água para beber. Sempre que a gente estava de castigo, e carecia de pedir qualquer coisa, mesmo água, os outros davam, mas, quem dava, ainda que fosse a mãe, achavam sempre de falar alguma palavra de ralho, que avexava a gente mais. Miguilim estava sujo de suor. Mais um pouco, reparou que na hora devia de ter começado a fazer pipi, na calça; mas agora nem estava com vontade forte de verter. A mãe suspirava soluçosa, era um chorinho sem verdade, aborrecido, se ele pudesse estava voltando para a horta, não ouvia aquilo sempre assim, via as formiguinhas entrando e saindo e trançando, os caramujinhos rodeando as folhas, no sol e na sombra, por onde rojavam sobrava aquele rastrío branco, que brilhava. Miguilim esfregava um pé no outro, estava comichando: outro bicho-de-pé; quando crescia e embugalhava, ficava olhoso, a mãe tirava, com alfinete. Vovó Izidra clamava: “— Já foram brincar perto do chiqueiro! Menino devia de andar de pé calçado…” Só tinha um par de sapatos, se crismara com ele; tinha também um par de alpercatinhas de couro-crú, o par de sapatos devia de ficar guardado. O Bispo era tão grande, nos rôxos, na hora de se beijar o anel dava um medo. Quem ficava mais vezes de castigo era ele, Miguilim; mas quem apanhava mais era a Chica. A Chica tinha malgênio — todos diziam. Ela aprontava birra, encapelava no chão, capeteava; mordia as pessoas, não tinha respeito nem do pai. Mas o pai não devia de dizer que um dia punha ele Miguilim de castigo pior, amarrado em árvore, na beirada do mato. Fizessem isso, ele morria da estrangulação do medo? Do mato de cima do morro, vinha onça. Como o pai podia imaginar judiação, querer amarrar um menino no escuro do mato? Só o pai de Joãozinho mais Maria, na estória, o pai e a mãe levaram eles dois, para desnortear no meio da mata, em distantes, porque não tinham de comer para dar a eles. Miguilim sofria tanta pena, por Joãozinho mais Maria, que voltava a vontade de chorar.
O Dito vinha, desfazendo de conta. Quando um estava de castigo, os outros não podiam falar com esse. Mas o Dito dizia tudo baixinho, e virado para outro lado, se alguém visse não podiam exemplar por isso, conversando com Miguilim até que ele não estava.
— Vai chover. O vaqueiro Jé está dizendo que já vai dechover chuva brava, porque o tesoureiro, no curral, está dando cada avanço, em cima das mariposas!… O vaqueiro Jé veio buscar creolina, para sarar o bezerro da Adivinha. Disse que o pai subiu da banda da grota da Guapira, ou que deu volta para ir no Nhangã — que pai estava muito jerizado. Disse que é por conta do calorão que vai vir chuva, que todos estão com o corpo azangado, no pé de poeira…
Miguilim não respondia. De castigo, não tinha ordem de dar resposta, só aos mais velhos. Sim sorria para o Dito, quando ele olhava — só o rabo-do-olho. O tesoureiro era um pássaro imponente de bonito, pedrês cor-de-cinza, bem as duas penas compridas da cauda, pássaro com mais rompante do que os outros. Gostava de estar vendo aquilo no curral.
O Dito vigiava que não tinha ninguém por ali, tretava coragem de chegar pertim, o Dito era levado de esperto. Dizia, no ouvido dele:
— Miguilim, eu acho que a gente não deve de perguntar nada ao tio Terêz, nem contar a ele que Pai ralhou com Mamãe, ouviu? Mãitina disse que tudo que há que acontece é feitiço… Miguilim, eu vou perguntar a Vovó Izidra se você já pode sair. Você está aí muito tempo…
O Dito era a pessoa melhor. Só que não devia de conversar naquelas coisas com Mãitina. Mãitina tomava cachaça, quando podia, falava bobagens. Era tão velha, nem sabia que idade. Diziam que ela era negra fugida, debaixo de cativeiro, que acharam caída na enxurrada, num tempo em que Mamãe nem não era nascida. A Chica vinha passando, com a boneca — nem era boneca, era uma mandioquinha enrolada nos trapos, dizia que era filhinha dela, punha até nome, abraçava, beijava, dava de mamar. A Chica, dessa vez, nem sei porque, não fez careta, até adivinhou que ele estivesse com sede — ele nem se lembrava mais que estava com sede — a Chica falava: — “Miguilim, você é meu irmão, você deve de estar com sede, eu vou buscar caneco d’água…” Um dia Pai tinha zangado com a Chica, puxou orêlha; depois Pai precisou de beber água, a Chica foi trazer. Ei que, no meio do corredor, a Chica de raiva cuspiu dentro, e mexeu com o dedinho, para Pai não saber que ela tinha cuspido. A Chica era tão engraçadinha, clara, mariolinha, muito menor do que Drelina, mas era a que sabia mais brinquedos, botava todos para rodar de roda, ela cantava tirando completas cantigas, dansava mocinha. O Dito não voltava.
Agora voltava, mas ouviam a voz do tio Terêz entrando, vorôço dos cachorros. Tio Terêz contava que tinham esbarrado o eito na roça, porque uma chuva toda vinha, ia ser temporal: — “Na araçariguama do mato de baixo, os tucanos estão reunidos lá, gritando conversado, cantoria de gente…” Tio Terêz trazia um coelho morto ensanguentado, de cabeça para baixo. A cachorrada pulava, embolatidos, tio Terêz bateu na boca do Caráter, que ganiu, saíam correndo embora aqueles todos quatro: Caráter, Catita, Soprado e Floresto. Seu-Nome ficava em pé quase, para lamber o sangue da cara do coelho. — “Ei, Miguilim, você hoje é que está alçado em assento, de pelourim?” — tio Terêz gracejava. Daí, para ver e mexer, iam com o coelho morto para a cozinha. Miguilim não queria. Também não aceitava a licença de sair, dada por tio Terêz; com vez disso pensava: será que, o tio Terêz, os outros ainda determinavam d’ele poder mandar palavra alguma em casa? Em desde que, então, a gente obedecer de largar o lugar de castigo não fosse pior.
Em todo dia, também, arrastavam os bichos matados, por caça. O coelhinho tinha toca na borda-da-mata, saía só no escurecer, queria comer, queria brincar, sessépe, serelé, coelhinho da silva, remexendo com a boquinha de muitos jeitos, esticava pinotes e sentava a bundinha no chão, cismado, as orêlhas dele estremeciam constantemente. Devia de ter o companheiro, marido ou mulher, ou irmão, que agora esperava lá na beira do mato, onde eles moravam, sòzim. “— Qu’é-de sua mãe, Miguilim?…” — tio Terêz querenciava. A mãe com certo estava fechada no quarto, estendida na cama, no escuro, como era, passado quando chorava. Mais que matavam eram os tatús, tanto tatú lá, por tudo. Tatú-de-morada era o que assistia num buraco exato, a gente podia abrir com ferramenta, então-se via: o caminho comprido debaixo do chão, todo formando voltas de ziguezague. Aí tinha outros buracos, deixados, não eram mais moradia de tatú, ou eram só de acaso, ou prontos de lado, para eles temperarem de escapulir. Tão gordotes, tão espertos — e estavam assim só para morrer, o povo ia acabar com todos? O tatú correndo sopressado dos cachorros, fazia aquele barulhinho com o casculho dele, as chapas arrepiadas, pobrezinho — quase um assovio. Ecô! — os cachorros mascaravam de um demônio. Tatú corria com o rabozinho levantado — abre que abria, cavouca o buraco e empruma suas escamas de uma só vez, entrando lá, tão depressa, tão depressa — e Miguilim ansiava para ver quando o tatú conseguia fugir a salvo.
Mas Vovó Izidra vinha saindo de seu quarto escuro, carregava a almofada de crivo na mão, caçando tio Terêz. — “Menino, você ainda está aí?!” —; ela queria que Miguilim fosse para longe, não ouvir o que ela ia dizer a tio Terêz. Miguilim parava perto da porta, escutava. O que ela estava dizendo: estava mandando tio Terêz ir embora. Mais falava, com uma curta brabeza diferente, palavras raspadas. Forcejava que tio Terêz fosse embora, por nunca mais, na mesma da hora. Falava que por umas coisas assim é que há questão de brigas e mortes, desmanchando com as famílias. Tio Terêz nem não respondia nada. Como é que ela podia mandar tio Terêz embora, quando vinha aquela chuvada forte, a gente já pressentia até o derradeiro ameaço dela entrando no cheiro do ar?! Tio Terêz só perguntou: — “Posso nem dar adeus à Nhanina?…” Não, não podia, não. Vovó Izidra se endurecia de magreza, aquelas verrugas pretas na cara, com os compridos fios de pelo desenroscados, ela destoava na voz, no pescoço espichava parecendo uma porção de cordas, um pavor avermelhado. Miguilim mesmo começava medo, trás do que ouvia, que nem pragas. Ah, tio Terêz devia de ir embora, de ligeiro, ligeiro, se não o Pai já devia estar voltando por causa da chuva, podia sair homem morto daquela casa, Vovó Izidra xingava tio Terêz de “Caim” que matou Abel, Miguilim tremia receando os desatinos das pessôas grandes, tio Terêz podia correr, sair escondido, pela porta da cozinha… Que fosse como se já tivesse ido há muito tempo… Levava um punhado de comida, pegava a carossa de palha-de-buriti, para se agasalhar de tanta chuva, mas devia de ir, tudo era aquele perigo enorme…
— Sai daí, Miguilim! Quê que está atrás de porta, escutando conversa de ’s mais velhos?!
Era Drelina, segurando-o estouvada, por detrás, à traição, mas podia mais; Miguilim tinha de ir com ela para a cozinha.
A Rosa e Maria Pretinha estavam acabando de fazer o jantar, a Rosa não gostava de menino na cozinha. Mas Tomèzinho estava dormindo, no monte de sabucos. Mesmo de propósito, que o gato tinha achado igual de dormir lá, quase encostado em Tomèzinho. — “Mamãe também vai jantar?…” — Miguilim perguntava à Rosa. — “E o Dito…?!” “— Menino, deixa de ser especúla. Tu que vai ver agorinha é o pé-d’água, por aí, que evém, vem…” Miguilim se sentava no pilão emborcado. Gostava de se deitar nos sabucos também, que nem Tomèzinho, mas aí era que a Rosa então mandava ele embora. Maria Pretinha picava couve na gamela. Tinha os dentes engraçados tão brancos, de repente eles ocupavam assim muito lugar, branqueza que se perpassava. O gato Qùóquo. Por conta que, Tomèzinho, quando era mais pequenino, a gente ensinava para ele falar: g’a-to — mas a linguinha dele só dava capaz era para aquilo mesmo: qùó! O gato somente vivia na cozinha, na ruma de sabucos ou no borralho, outra hora andava no quintal e na horta. Lá os cachorros deixavam. Mas quando ele queria sair para o pátio, na frente da casa, aí a cachorrama se ajuntava, o esperto do gato repulava em qualquer parte, subia escarreirado no esteio, mas braviado também, gadanhava se arredobrando e repufando, a raiva dele punha um atraso nos cachorros. Por que não botavam nele nome vero de gato nas estórias: Papa-Rato, Sigurim, Romão, Alecrim-Rosmanim ou Melhores-Agrados? Se chamasse Rei-Belo…Não podia? Também, por Qùóquo, mesmo, ninguém não chamava mais — gato não tinha nome, gato era o que quase ninguém prezava. Mas ele mesmo se dava respeito, com os olhos em cima do duro bigode, dono-senhor de si. Dormia o oco do tempo. Achava que o que vale vida é dormir adiante. Rei-Belo… Tomèzinho acordava chorando, tinha sonhado com o esquecido.
— Ei, ela! Corre, gente, pôr tudo p’ra dentro… Olh’as portas, as janelas…
Estavam acabando de jantar, e todos corriam para o quintal, apanhar um resto de roupa dependurada. Tinha dado o vento, caíam uns pingos grossos, chuva quente. Os cachorros latiam, com as pessôas. O vento zunia, queria carregar a gente. Miguilim ajudava a recolher a roupa — não podiam esquecer nenhuma peçazinha ali fora… — ele tinha pena daquelas roupinhas pobres, as calças do Dito, vestidinho de Drelina… — “P’ra dentro, menino! Vento te leva…” — “Vem ver lá na frente, feio que chega vai derrubar o mato…” — era o Dito, chamando. Os coqueiros, para cima do curral, os coqueiros vergavam, se entortavam, as fieiras de coqueiros velhos, que dobravam. O vento vuvo: viív… viív… Assoviava nas folhas dos coqueiros. A Rosa passava, com um balde, que tinham deixado na beira do curral. Três homens no alpendre, enxadeiros, que tinham vindo receber alguma paga em toicinho, estavam querendo dizer que ia ser como nunca ninguém não tinha avistado; estavam sem saber como voltar para suas casinhas deles, dizendo como ia se passar tudo por lá; aqueles estavam meio-tristes, fingiam que estavam meio-alegres. De repente, deu estrondo. Que o vento quebrou galho do jenipapeiro do curral, e jogou perto de casa. Todo o mundo levou susto. Quando foi o trovão! Trovejou enorme, uma porção de vezes, a gente tapava os ouvidos, fechava os olhos. Aí o Dito se abraçou com Miguilim. O Dito não tremia, malmente estava mais sério. — “Por causa de Mamãe, Papai e tio Terêz, Papai-do-Céu está com raiva de nós de surpresa…” — ele foi falou.
— Miguilim, você tem medo de morrer?
— Demais… Dito, eu tenho um medo, mas só se fosse sozinho. Queria a gente todos morrêsse juntos…
— Eu tenho. Não queria ir para o Céu menino pequeno.
Faziam uma pausa, só do tamanho dum respirar.
— Dito, você combina comigo para o gato se chamar Reibél?
— Mas não pode. Nome dele é Sossonho.
— Também é. Uai… Quem é que falou?
— Acho que foi Mãitina, o vaqueiro Jé. Não me importo.
Daí deu trovão maior, que assustava. O trovão da Serra do Mutúm-Mutúm, o pior do mundo todo, — que fosse como podia estatelar os paus da casa.
Corda-de-vento entrava pelas gretas das janelas, empurrava água. Molhava o chão. Miguilim e Dito a curto tinham olho no teto, onde o barulho remoía. A casa era muito envelhecida, uma vêz o chuvão tinha desabado no meio do corredor, com um tapume do telhado. Trovoeira. Que os trovões a mau retumbavam. — “Tá nas tosses…” — um daqueles enxadeiros falou. Pobre dos passarinhos do campo, desassisados. O gaturamo, tão podido miúdo, azulzinho no sol, tirintintim, com brilhamentos, mel de melhor — maquinazinha de ser de bem-cantar… — “O gaturaminho das frutas, ele merece castigo, Dito?” “— Dito, que Pai disse: o ano em que chove sucedido é ano formoso… —?” — “Mas não fala essas coisas, Miguilim, nestas horas.”
— “P’ra rezar, todos!” — Drelina chamava. Chica e Tomèzinho estavam escondidos, debaixo de cama. Agora não faltava nenhum, acerto de reunidos, de joelhos, diante do oratório. Até a mãe. Vovó Izidra acendia a vela benta, queimava ramos bentos, agora ali dentro era mais forte. Santa Bárbara e São Jerônimo salvavam de qualquer perigo de desordem, o Magníficat era que se rezava! Miguilim soprava um cisco da roupa de Rosa. Era carrapicho? Os vaqueiros, quando voltavam de vaquejar boiadas por ruins matos, rente que esses tinham espinhos e carrapichos até nos ombros do gibão. O Dito sabia ajoelhar melhor? De dentro, para enfeitar os santos do oratório, tinha um colarzinho de ovos de nhambú e pássaro-preto, enfiados com linha, era entremeado, doutro e dum — um de nhambú, um de pássaro-preto, depois outro de nhambú, outro de pássaro-preto…; o de pássaro-preto era azul-claro se descorando para verde, o de nhambú era uma cor-de-chocolate clareado… Se o povo todo se ajuntasse, rezando com essa força, desse medo, então a tempestade num átimo não esbarrava? Miguilim soprava seus dedos, doce estava, num azado de consolo, grande, grande.
Ele tinha fé. Ele mesmo sabia? Só que o movido do mais-e-mais desce tudo, e desluz e desdesenha, nas memórias; é feito lá em fundo de água dum pôço de cisterna. Uma vez ele tinha puxado o paletó de Deus.
Esse dia — foi em hora de almoço —: ele Miguilim ia morrer! — de repente estava engasgado com ôssinho de galinha na goela, foi tudo tão: …malamém… morte… — nem deu tempo para ideia nenhuma, era só um errado total, morrer e tudo, ai! —; e mais de repente ele já estava em pé em cima do banco, como se levantou, não pediu ajuda a Pai e Mãe, só num relance ainda tinha rodado o prato na mêsa — por simpatia em que alguma vez tinha ouvido falar — e, em pé, no banco, sem saber de seus olhos para ver — só o acima! — se benzia, bramado: — Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo!… — (ele mesmo estava escutando a voz, aquela voz — ele se despedindo de si — aquela voz, demais: todo choro na voz, a força; e uma coragem de fim, varando tudo, feito relâmpagos…) Des-de-repente — ele parecia que tinha alto voado, tinha voado por uma altura enorme? — era o pai batendo em suas costas, a mãe dando água para beber, e ele se abraçava com eles todos, chorando livre, do ôssinho na goela estava todo salvo. — “Que fé!” — Vovó Izidra colava nele o peixe daqueles olhos bravos dela, que a gente não gostava de encarar — “Que fé, que este menino tem!…” — Vovó Izidra se ajoelhava. Depois desse dia, Miguilim não queria comer nunca mais asa de galinha, pedia que não facilitassem de nenhum dos irmãozinhos comer, não deixassem. Mas até o Dito comia, calado, escondido. Tomèzinho e Chica comiam de propósito, só para contestar Miguilim, pegavam os ôssinhos na mão, a ele mostravam: — “Miguilim bôbo!… Miguilim dôido…” — debicavam.
Vovó Izidra quizilava com Mãitina:
— Traste de negra pagã, encostada na cozinha, mascando fumo e rogando para os demônios dela, africanos! Vem ajoelhar gente, Mãitina!
Mãitina não se importava, com nenhuns, vinha, ajoelhava igual aos outros, rezava. Não se entendia bem a reza que ela produzia, tudo resmungo; mesmo para falar, direito, direito não se compreendia. A Rosa dizendo que Mãitina rezava porqueado: “Véva Maria zela de graça, pega ne Zesú põe no saco de mombassa…” Mãitina era preta de um preto estúrdio, encalcado, trasmanchada de mais grosso preto, um preto de boi. Quando estava pinguda de muita cachaça, sof lagrava umas palavras que a gente não tinha licença de ouvir, a Rosa dizia que eram nomes de menino não saber, coisas pra mais tarde. E daí Mãitina caía no chão, deixava a saia descomposta de qualquer jeito, as pernas pretas aparecendo. Ou à vez gritava: — “Cena, Corinta!…” — batendo palmas-de-mão. Isso a mãe explicava: uma vez, fazia muitos, muitos anos, noutro lugar onde moraram, ela tinha ido no teatro, no teatro tinha uma moça que aparecia por dansar, Mãitina na vida dela toda nunca tinha visto nada tão reluzente de bonito, como aquela moça dansando, que se chamava Corina, por isso aprovava como o povo no teatro, quando estava chumbada. — “Que é que é teatro, Mãe?” — Miguilim perguntara. — “Teatro é assim como no circo-de-cavalinhos, quase…” Mas Miguilim não sabia o que o circo era.
— Dito, você vai imaginar como é que é o circo?
— É uma moça galopando em pé em riba do cavalo, e homens revestidos, com farinha branca na cara… tio Terêz disse. É numa casa grande de pano.
— Dito, e Pai? E tio Terêz? Chuva está chovendo tanto…
— “Vigia esses meninos, cochichando, cruz!, aí em vez de rezar…” — Vovó Izidra ralhava. E reprovava Mãitina, discutindo que Mãitina estava grolando feias palavras despautadas, mandava Mãitina voltar para a cozinha, lugar de feiticeiro era debaixo dos olhos do fôgo, em remexendo no borralho! Mãitina ia lá, para esperar de cócoras, tudo o que os outros mandavam ela obedecia, quando não estava com raiva. Se estivesse com raiva, ninguém não tinha coragem de mandar. Vovó Izidra tirava o terço, todos tinham de acompanhar. E ela ensinava alto que o demônio estava despassando nossa casa, rodeando, os homens já sabiam o sangue um do outro, a gente carecia de rezar sem esbarrar. Mãe ponteava, com muita cordura, que Vovó Izidra devia de não exaltar coisas assim, perto dos meninos. — “Os meninos necessitam de saber, valença de rezar junto. Inocência deles é que pode livrar a gente de brabos castigos, o pecado já firmou aqui no meio, braseado, você mesma é quem sabe, minha filha!…” Mãe abaixava a cabeça, ela era tão bonita, nada não respondia. Parecia que Vovó Izidra tinha ódio de Mãe? Vovó Izidra não era mãe dela, mas só irmã da mãe dela. Mãe de Mãe tinha sido Vó Benvinda. Vó Benvinda, antes de morrer, toda a vida ela rezava, dia e noite, caprichava muito com Deus, só queria era rezar e comer, e ralhava mole com os meninos. Um vaqueiro contou ao Dito, de segredo, Vó Benvinda quando moça tinha sido mulher-atôa. Mulher-atôa é que os homens vão em casa dela e ela quando morre vai para o inferno. O que Vovó Izidra estava falando — … “Só pôr sua casa porta a fora”… — A nossa casa? E que o demônio diligenciava de entrar em mulher, virava cadela de satanaz… Vovó Izidra não tinha de gostar de Mãe? Então, por que era que judiava, judiava? Miguilim gostava pudesse abraçar e beijar a Mãezinha, muito, demais muito, aquela hora mesma. Ah, mas Vovó Izidra era velha, Mãe era moça, Vovó Izidra tinha de morrer mais primeiro. Ali no oratório, embrulhados e recosidos num saquinho de pano, eles guardavam os umbiguinhos secos de todos os meninos, os dos irmãozinhos, das irmãs, o de Miguilim também — rato nenhum não pudesse roer, caso roendo o menino então crescia para ser só ladrão. Agora, ele ia gostar sempre de Mãe, tenção de ser menino comportado, obediente, conforme o de Deus, essas orações todas. Bom era ser filho do Bispo, e o mundo solto para os passarinhos… Os joelhos de Miguilim descansavam e cansavam, doía era o corpo, um poucadinho só, quase não doía. Mas Tomèzinho brincava de estralar as juntas dos dedos; depois, de puxar o nariz para diante. A Chica rezava alto, era a voz mais bonita de todas. Drelina parecia uma santa. Todos diziam que ela parecia uma santa. E os cachorros lá fora, desertados com tanta chuva? De certo iam para a coberta do carro. — “Sem os cachorros, como é que a gente ia poder viver aqui?” — o pai sempre falava. Eles tomavam conta das criações. Se não, vinham de noite as raposas, gambá, a irarinha muito raivosa, até onça de se tremer, até lobos, lobo guará dos Gerais, que vinham, de manhã deixavam fios de pelo e catinga deles que os cachorros reconheciam nos esteios da cerca, nas porteiras, uns deles até mijavam sangue. E o teiú, brabeado, espancando com o rabo — rabo como tesoura tonsando. Lobo uivava feio, mais horroroso mais triste do que cachorro. E jiboia! Jiboia vinha mesmo de dia, pegava galinha no galinheiro. Os cachorros tinham medo dela? Jiboia, cobra, mais medonha de se pensar, uma sojigou o cachorrinho Floresto, mordeu uma orêlha dele por se firmar, queria se enrolar nele todo, mor de sufocar sem partir os ossos, já tinha conseguido de se enlaçar duas dessas voltas; Pai acudiu, tiro não podia ter cautela de dar, lapeava só com o facão, disse que ela endurecia o corpo de propósito, para resistir no gume do facão, o facão bambeava. Contavam que no Terentém, em antigos anos, uma jiboia velha entrou numa casa, já estava engulindo por metade um meninozinho pequeno, na rede, no meio daquela baba…
Miguilim e Dito dormiam no mesmo catre, perto da caminha de Tomèzinho. Drelina e Chica dormiam no quarto de Pai e Mãe.
— “Dito, eu fiz promessa, para Pai e Tio Terêz voltarem quando passar a chuva, e não brigarem, nunca mais…” “— Pai volta. Tio Terêz volta não.” “— Como é que você sabe, Dito?” “— Sei não. Eu sei. Miguilim, você gosta de tio Terêz, mas eu não gosto. É pecado?” “— É, mas eu não sei. Eu também não gosto de Vovó Izidra. Dela, faz tempo que eu não gosto. Você acha que a gente devia de fazer promessa aos santos, para ficar gostando dos parentes?” “— Quando a gente crescer, a gente gosta de todos.” “— Mas, Dito, quando eu crescer, vai ter algum menino pequeno, assim como eu, que não vai gostar de mim, e eu não vou poder saber?” “— Eu gosto de Mãitina! Ela vai para o inferno?” “— Vai, Dito. Ela é feiticeira pagã… Dito, se de repente um dia todos ficassem com raiva de nós — Pai, Mãe, Vovó Izidra — eles podiam mandar a gente embora, no escuro, debaixo da chuva, a gente pequenos, sem saber onde ir?” “— Dorme, Miguilim. Se você ficar imaginando assim, você sonha de pesadêlo…” “— Dito, vamos ficar nós dois, sempre um junto com o outro, mesmo quando a gente crescer, toda a vida?” “— Pois vamos.” “— Dito, amanhã eu te ensino a armar urupuca, eu já sei…”
Dito começava a dormir de repente, era a mesma coisa que Tomèzinho. Miguilim não gostava de pôr os olhos no escuro. Não queria deitar de costas, porque vem uma mulher assombrada, senta na barriga da gente. Se os pés restassem para fora da coberta, vinha mão de alma, friosa, pegava o pé. O travesseirinho cheirava bom, cheio de macela-do-campo. Amanhã, ia aparar água de chuva, tinha outro gosto. Repartia com o Dito. O barulho da chuva agora era até bonito, livre do moame do vento. Tio Terêz não tinha se despedido dele. Onde estava agora o Tio Terêz? Um dia, tempos, Tio Terêz o levara à beira da mata, ia tirar taquaras. A gente fazia um feixe e carregava. “— Miguilim, este feixinho está muito pesado para você?” “— Tio Terêz, está não. Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca que é pesado…”
“— Miguilim, você é meu amigo.” “— Amigo grande, feito gente grande, Tio Terêz?” “— É sim, Miguilim. Nós somos amigos. Você tem mais juízo do que eu…” Agora parecia que naquela ocasião era que o Tio Terêz estava se despedindo dele. Tio Terêz não parecia com Caim, jeito nenhum. Tio Terêz parecia com Abel… A chuva de certo vinha de toda parte, de em desde por lá, de todos os lugares que tinha. Os lugares eram o Pau-Rôxo, a fazenda grande dos Barboz, Paracatú, o lugar que não sabia para onde tinham levado a Cuca Pinguinho-de-Ouro, o Quartel-Geral-do-Abaeté, terra da mãe dele, o Buritis-do-Urucúia, terra do pai, e outros lugares mais que tinha: o Sucurijú, as fazendas e veredas por onde tinham passado… E aí Miguilim se encolhia, sufocado debaixo de seu coração; uma pessôa, uma alma, estava ali à beira da cama, sem mexer rumor, aparecida de repente, para ele se debruçava. Miguilim se estarrecia de olhos fechados, guardado de respirar, um tempo que nem não tinha fim. Era Vovó Izidra. Quando via que pensava que ele estava bem dormindo, ela beijava a testa dele, dizia bem baixinho: — “Meu filhinho, meu filho, Deus hoje te abençoou…”
Chovera pela noite a fora, o vento arrancou telhas da casa. Ainda chovia, nem se podia pôr para secar o colchão de Tomèzinho, que tinha urinado na cama. Na hora do angú dos cachorros, Pai tinha voltado. Ele almoçou com a gente, não estava zangado, não dizia. Só que, quando Pai, Mãe e Vovó Izidra estavam desaliviados assim como hoje, não conversavam assuntos de gente grande, uns com os outros, mas cada um por sua vez falava era com os meninos, alegando algum malfeito deles. Pai dizia que Miguilim já estava no ponto de aprender a ler, de ajudar em qualquer serviço fosse. Mas que ali no Mutúm não tinha quem ensinasse pautas, bôa sorte tinha competido era para o Liovaldo, se criando em casa do tio Osmundo Cessim, um irmão de Mãe, na Vila-Risonha-de-São-Romão. Miguilim dobrecia, assumido com aquelas conversas, logo que podia ia se esconder na tulha, onde as goteiras sempre pingavam. Ao quando dava qualquer estiada, saía um solzinho arrependido, então vinham aparecendo abêlhas e marimbondos, de muitas qualidades e cores, pousavam quietinhos, chupando no caixão de açúcar, muito tempo, o açúcar melméla, pareciam que estavam morridos.
Dito não fazia companhia, falava que carecia de ir ouvir as conversas todas das pessôas grandes. Miguilim não tinha vontade de crescer, de ser pessôa grande, a conversa das pessôas grandes era sempre as mesmas coisas secas, com aquela necessidade de ser brutas, coisas assustadas. O gato Sossõe, certa hora, entrava. Ele vinha sutil para o paiol, para a tulha, censeando os ratos, entrava com o jeito de que já estivesse se despedindo, sem bulir com o ar. Mas, daí, rodeando como quem não quer, o gato Sossõe principiava a se esfregar em Miguilim, depois deitava perto, se prazia de ser, com aquela ronqueirinha que era a alegria dele, e olhava, olhava, engrossava o ronco, os olhos de um verde tão menos vazio — era uma luz dentro de outra, dentro doutra, dentro outra, até não ter fim.
A gente podia ficar tempo, era bom, junto com o gato Sossõe. Ele só fugiu quando escutou barulho de vir chegando na tulha aquele menino dentuço, o Majéla, filho de seo Deográcias, mas que todos chamavam de o Patorí.