Castilho e Quental: Reflexões sobre a atual questão literária

Capítulo IV

 

Hoje em dia não ha convicções profundas; o vento gelado do scepticismo varre e dispersa como impalpavel poeira as persuasões intimas. Duvida-se de tudo; o sol que viu nascer uma opinião, presencêa-lhe varias phases e metamorphoses, e assiste-lhe á agonia. A liberdade, o espirito de nivellamento e de moralidade, o odio das superioridades, a inveja emfim, manifestada sob a fórma da democracia, invadiu os dominios da litteratura, como já invadira o resto da sociedade. As theocracias, as aristocracias litterarias cahem por terra desfeitas em pó: não se reconhecem mestres nem authoridades, nem se admittem regras. São consequencias do progresso do seculo.{20} Todos pronunciam e se arrogam o direito de julgar, segundo as suas luzes, o seu gosto, o seu systema, a sua escola, o seu odio, ou o seu amor. É uma lucta de morte travada entre a inveja, origem de todo o poder democratico, e o orgulho, pae de todas as aristocracias.

É este o motivo porque nada provam as insinuações do snr. Castilho contra Anthero do Quental nem o «Bom-gosto e Bom-senso» d'este ultimo. O despeito guia a penna de um, e a diatribe do outro foi dictada sob a inspiração d'uma paixão vingativa—despeito e vingança! máos affectos e pessimos conselheiros! Mas não será a manifestação d'uma vingança mais attendivel e desculpavel, que a manifestação d'um despeito mesquinho? Julgo que sim—presuppõe a vingança uma offensa primordial, o que d'algum modo a justifica e legitima.

Desceu do Olympo o snr. Castilho e veio á arena combater; mas, dura fatalidade! era o seu antagonista um novo Diomedes. Arcaram ousados os dois campeões, e o Deus pagão, rotas, aboladas as armas, apartou-se mal ferido da peleja—que importa que os seus golpes fossem tambem certeiros? estava consummado o sacrilegio.

Tira-se d'esta guerra litteraria uma moralidade: Deus não, mas os deuses pódem ter as armas falseadas—de nada vale a tempera do Styge—pódem ser feridos, se o braço que lhes atirar os golpes fôr robusto, forte e armado pela justiça—mas haverá perdão para o crime de lesa-divindade pagan?... se o meu bastasse...

 

Porto—20 de Dezembro de 1865.

AUGUSTO MALHEIRO DIAS.

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