Com amor, a garota chamada Estrela
Parte 1
1º de janeiro
Prezado Leo,
Eu adoro inícios. Se eu fosse responsável por calendários, todo dia seria 1º de janeiro.
E que jeito melhor de comemorar esse dia de Ano Novo do que começar a escrever uma carta para meu ex (e futuro?) namorado?
Eu encontrei algo hoje. Algo especial. Na verdade, é algo que estava bem na minha frente desde que nos mudamos para cá, no ano passado, mas hoje foi a primeira vez em que realmente o enxerguei. É um campo. Um simples campo antigo e vazio. Nenhuma casa à vista exceto por um pequeno bangalô de reboco branco à direita. Fica a um quilômetro e meio da cidade, a um minuto de bicicleta da minha casa. É em uma colina – no topo achatado de uma colina com o formato de uma frigideira de cabeça para baixo. Costumava ser um campo onde você podia colher morangos, mas agora só tem ervas daninhas e pedras.
O campo fica do outro lado da Rota 113, que é onde a minha rua (rua Rapps Dam) termina. Havia passeado de bicicleta por esse campo uma centena de vezes, mas, por alguma razão, hoje parei. Olhei para ele. Estacionei a bicicleta e caminhei por ele. As ervas de inverno estavam desgrenhadas e emaranhadas para baixo, como meu cabelo de manhã. O solo congelado estava massudo e duro como pedra. O céu estava cinza. Caminhei para o centro e parei lá em pé, simplesmente.
E assim fiquei.
Como posso explicar? Sozinha no topo daquela montanha, no meio daquele campo “vazio” (Rá! Anote isso, Leo: Nada é vazio), senti como se o universo irradiasse de mim, como se estivesse em pé no X marcado no centro do cosmos. Até então, tinha feito minha meditação diária em muitos lugares diferentes na cidade e em torno dela, mas nunca lá. Dessa vez fiz. Me sentei. Mal notei o chão congelado. Apoiei as mãos nas coxas, com as palmas erguidas para o mundo. Fechei os olhos e me dissolvi para além de mim mesma. Agora chamo isso de limpar a mente.
A próxima coisa que notei foi um tom dourado além das minhas pálpebras. Abri os olhos. O sol escorria pelas nuvens. Estava se pondo sobre o topo das árvores a oeste. Fechei os olhos de novo e deixei o dourado me inundar.
A noite se aproximava quando me levantei. Enquanto seguia para minha bicicleta, sabia que tinha encontrado um lugar encantado.
3 de janeiro
Ah, Leo, estou triste. Estou chorando. Costumava chorar muito quando pequena. Se pisasse em um inseto, cairia em lágrimas. Coisa engraçada, estava tão ocupada chorando por tudo mais que nunca chorava por mim mesma. Agora choro por mim.
Por você.
Por nós.
E agora estou sorrindo entre as lágrimas. Lembra-se da primeira vez em que vi você? No refeitório? Estava andando em direção à sua mesa. Seus olhos, foram eles que quase me pararam no caminho. Eles se arregalaram. Acho que não foi só pela visão que teve de mim – o vestido longo cobrindo os pés, o ukulele apontando para fora da minha bolsa de girassol pendurada no ombro... Foi algo mais também. Foi pavor. Você sabia o que vinha pela frente. Sabia que eu cantaria para alguém e tinha medo de que esse alguém pudesse ser você. Rapidamente, você olhou para o outro lado e segui andando e não parei até encontrar o Alan Ferko e cantar “Parabéns a Você” para ele. Mas senti seus olhos em mim o tempo inteiro, Leo. Ah, sim! Cada segundo.
E a cada nota que cantava para Alan Ferko, pensava: um dia cantarei para aquele menino de olhos apavorados. Nunca cantei para você, Leo, não de verdade. Você, entre todas as pessoas. Esse é o meu maior arrependimento... Agora, veja só, estou triste de novo.
10 de janeiro
Como disse na semana passada, esvaziei minha mente por todo o lugar. Como a ideia – e o ideal – é apagar a mim mesma de todos os meus lugares e de todas as minhas épocas, pensei que não deveria me permitir ficar muito ligada a qualquer lugar específico, nem mesmo à Montanha Encantada, que é como a chamo agora, ou a qualquer horário específico do dia ou da noite.
Foi por isso que, nesta manhã, estava pedalando minha bicicleta em busca de um novo lugar para meditar. O Canela estava pegando uma carona no meu bolso. Conforme eu pedalava por um cemitério, captei uma onda de luminosidade. Era um homem sentado em uma cadeira em frente a uma lápide. Pelo menos acho que era um homem, porque ele estava muito agasalhado pelo frio. O brilho tinha sido o cachecol xadrez vermelho e amarelo que usava no pescoço. Parecia estar falando.
Em pouco tempo eu estava de volta a um parque perto da minha casa chamado Bemus. Subi em uma mesa de piquenique e fiquei em posição de meditação. (Espere, volte um pouco... Estou tendo aulas em casa de novo. Cara, me pergunto o motivo – minha experiência na Escola de Ensino Médio de Mica deu tão certo! Ha ha. Então tenho que atender a todas as exigências do Estado, certo? Matemática, inglês, etc. Que eu atendo. Mas não paro aí. Faço outros cursos também. Cursos extracurriculares. Como os Princípios do Desmaio. A Vida sob as Pedras. Assoviador Iniciante. Elfos. Nós chamamos isso de nosso currículo fantasma. ((Não diga ao Estado de – ops! – quase disse a você onde estou morando.)) Minha matéria fantasma favorita se chama Elementos da Nulidade. É dela que vem a limpeza da mente. Arrancando-me totalmente de mim mesma. Apagando-me. (((Se lembra da lição que ensinei a você no deserto?))) Que, quando penso a respeito, não é realmente nada. Quer dizer, quando estou de fato fazendo isso direito, me apagando totalmente, sou o oposto de nada, sou tudo. Sou tudo menos eu mesma. Evaporo como o vapor de água no universo. Não sou mais Estrela. Sou árvore. Vento. Terra.)
Certo, me desculpe pelo desvio (e pelo exagero de parênteses)... Então, lá estava eu, sentada de pernas cruzadas na mesa de piquenique, de olhos fechados, limpando minha mente (e ganhando créditos na escola por isso!), e de repente senti algo na minha pálpebra. Provavelmente um inseto, pensei, e limpei o pensamento na mesma hora, e aquilo na minha pálpebra simplesmente se tornou parte de todo o resto. Mas então aquilo se moveu. Andou pela minha pálpebra e desceu pelo meu nariz, depois contornou meus lábios.
Em seguida, uma voz de mulher soou áspera: “Dootsie!”.
Depois: “Oi. Meu nome é Dootsie. Eu sou um cereal humano. O que está fazendo?”.
Abri meus olhos. Uma menininha estava sentada de pernas cruzadas na minha frente. Uma senhora corria em nossa direção, parecendo aflita, dizendo: “Me desculpe. Minha filha foge de mim às vezes. Sinto muito mesmo”.
“Tudo bem”, disse eu. Eu me sentia grogue, como se estivesse acordando. Olhei para a menininha. Dootsie. “Eu estava meditando. Sendo nada.”
Dootsie franziu a testa. O sol trouxe brilhos enferrujados ao cabelo cacheado dela. Ela se esticou e me tocou novamente. Ela riu. “Você não é nada.” Ela cutucou meu joelho. “Você está bem aqui.”
“Para mim, eu sou nada”, falei. “É difícil explicar.”
Ela franziu a testa novamente. De repente, abriu a boca e arregalou os olhos. “Você finge!”
Assenti. “Mais ou menos.”
Ela me estudou. “Você é uma mágica?”
“Não.”
Ela irradiava felicidade. “Eu sou uma mágica!”
“Sério?”
“Não sou, mãe?”
“Uma pequena Houdini.”
Dootsie desceu da mesa. “Também posso desaparecer. Olha só.”
Ela apertou seus olhos. Sussurrou algo que não consegui identificar. Ela ficou em posição de alerta e se virou três vezes. Sussurrou de novo. Um sorriso bem lento se formou em seu rostinho redondo.
Eu olhei ao redor. “Onde você está?”
Ela deu uma risadinha. “Estou bem aqui. Você pode me ouvir, mas não consegue me ver.”
Sacudi as mãos na minha frente. “Alô? Alô? Dootsie... você tá aí?”
Os olhos de Dootsie se arregalaram. Ela sussurrou: “Mamãe... nem me ouvir ela consegue!”
A mãe dela piscou para mim. “Dootsie... diga algo à menina adorável para ela saber onde você está.”
De repente, os olhos de Dootsie se arregalaram ainda mais e ela gritou “Um camundongo!” e veio pulando para mim, bastante visível. Canela deve ter se perguntado qual o assunto de toda aquela conversa. Tinha colocado sua cabeça para fora do bolso do meu casaco e, antes que eu percebesse, foi embalado pelas mãos da menininha.
“Na verdade, não é um camundongo”, disse a ela. “É um rato.”
Ela esfregou a bochecha no pelo cor de canela.
“Coloque seu nariz perto do dele”, disse eu.
Ela me obedeceu. A linguinha do Canela veio para fora e a beijou na ponta do nariz. Ela deu um gritinho.
Enquanto Dootsie encostava o nariz em Canela, sua mãe me estendeu a mão. “Meu nome é Laura Pringle.”
Nós nos cumprimentamos. “Estrela Caraway.”
Dootsie ficou pasma. “Estrela? É assim que você se chama?”
“Com certeza.”
“Você é nova na cidade?”, disse a senhora Pringle.
“Me mudei no verão passado”, disse eu. “Moramos logo ali”, apontei, “na rua Rapps Dam.”
“Por um acaso não seria na casa com as cortinas marrons?”
“Exatamente.”
Ela sorriu, assentindo. “Meu irmão. Os tios de Dootsie, Fred e Claire, moravam ali. Dootsie conhece sua casa tão bem quanto a dela.”
Dootsie estendeu a mão com o Canela. Ela choramingou: “Mamãeee... ela tem um rato e tem o melhor nome e se senta na mesa. Eu quero ser ela!”.
Canela estava ficando inquieto. Peguei-o de volta. “Ei, estava aqui pensando que eu é que queria ser você. Fala sério... Dootsie? Nomes não ficam mais legais do que isso. Além do mais, você consegue desaparecer. Você é muito legal. Você toma um comprimido de legalzice todo dia de manhã?”
Ela olhou para mim muito séria e balançou a cabeça. “Não.”
“Então acho que você é naturalmente legal, hein?”
Ela assentiu. “Acho que sim.”
“Vou te dizer uma coisa”, disse eu. “Nunca fui legal e sempre quis ser. Então que tal fazermos uma troca? Você será a Estrela e eu serei a Dootsie.”
Seus olhos escaparam para as árvores. Seu dedo pressionou o lábio inferior. “Ainda não”, disse ela. “Quero ser a Dootsie mais um tempo.” Ela pensou de novo. “Até completar 10 anos.”
“Tudo bem”, disse eu, “quando você chegar aos 10 nós fazemos a troca.”
“Tá bem.”
Nós apertamos as mãos. Então a senhora Pringle disse que era hora de me deixar em paz e elas foram embora, com Dootsie gritando: “Eu quero um rato!”.
15 de janeiro
Faço excursões. Ah, quem não faz? Quem diria que não sou uma estudante normal? Na verdade, faço muitas excursões. Minha mãe me manda para uma pequena área na cidade onde minha missão é passar o dia fora e então escrever um poema sobre minha experiência lá. Eu posso ficar dez minutos ou dez horas – quanto tempo eu precisar para voltar com um poema. Pego meu caderninho e escrevo o poema lá mesmo.
Hoje foi um verdadeiro desafio. O destino eram “os montes de pedras”. (Minha mãe desliza um folheto por debaixo da porta do meu quarto com o local da excursão.) Ela se refere à velha usina de cimento abandonada. Existe um entediante esqueleto verde e raquítico da construção e algum equipamento enferrujando, além de três montes de pedras quase tão altos quanto eu. Eles costumavam ser muito mais altos, ouvi dizer. As pessoas continuam levando as pedras de lá para seus jardins e coisas do tipo, e as crianças as arremessam. Bem, foi assim que aconteceu:
EXCURSÃO:
ETERNAMENTE NOS MONTES DE PEDRAS Quanto tempo fiquei por lá?
Nenhum relógio à vista. Caramba, chame de eternidade. Os montes de pedras e eu.
Uma coisa é caminhar
por um monte de pedras.
Outra é sentar com um deles
eternamente.
Faça isso e começará
a aprender sobre coisas que pensou saber,
como pedacinhos
de quietude
de silêncio.
E agora
(pode haver um agora na eternidade?)
Ouço algo... passos.
Não, não são passos.
São barulhos de cascalho deslizando,
barulhos em pés se arrastando,
e lá vem ele:
jaqueta de marinheiro, gorro de malha verde-musgo com cordão de pompom verde-musgo,
lento, estropiado.
Se fosse um anão da Branca de Neve,
seria o Soneca:
rosto redondo, gorducho, bigodudo,
uma massa de donuts com fios de bigode cinza e pretos, cambaleando, se inclinando na minha direção.
Será que me vê, quer dizer, será que ele vê?
Há um silêncio e uma quietude
na pedra empilhada em seus olhos.
Ele diz, grasna: “Está me procurando?”.
Segue em frente se arrastando,
não espera por uma resposta.
Quero gritar: “Ei! Espere!”,
mas ele está seguindo em frente.
As costas dele agora
se arrastam, se arrastam,
o pompom verde balança,
balança, balança.
16 de janeiro
Batidas na porta da frente me acordaram. Meu relógio marcava 6h15. Vesti meu roupão, cambaleei pelas escadas. Meu pai já tinha saído para trabalhar havia muito tempo. Minha mãe chiou da porta dela: “Quem pode ser tão cedo?”.
Abri a porta. Por meio momento tudo que vi foi a casa do outro lado da rua. Então, olhei para baixo. Era Dootsie. “Onde está o Panela?”
Respondi a minha mãe: “É aquela garotinha de quem falei. A Dootsie”.
Eu a trouxe para dentro. Ela vestia pijamas sob seu casaco. Suas pantufas eram da Miss Pig, dos Muppets.
“Onde está o Panela?”
“O Canela está dormindo”, falei. “Como você deveria estar.”
Minha mãe desceu, olhou para as pantufas. “Dootsie? Cadê seus pais?”
“Você é a mãe da Estrela?”, disse Dootsie.
“Sou sim.”
“Você é a Mãestrela?”
Nós rimos.
A campainha tocou. Era a senhora Pringle, olhos arregalados. “Sinto incomodar. A Dootsie saiu. Ela...” Então, olhando além de mim: “Dootsie! Graças a Deus!”. Pegou sua filha e nos disse, sem fôlego, que tinha ouvido falar sobre o Canela por dias, e quando encontrou a cama dela vazia essa manhã, o primeiro lugar que pensou foi a casa antiga de seu irmão Fred.
Dootsie se esticou e puxou a manga da minha mãe. “Quero panquecas.”
Cinco minutos depois, a senhora Pringle, Dootsie, Canela e eu estávamos na mesa da sala de jantar enquanto minha mãe misturava massa de panqueca na cozinha.
“Ela está cada dia pior”, a senhora Pringle estava nos contando.
“Estou cada dia pior”, disse Dootsie. Ela estava brincando com o Canela, erguendo-o por suas patas e fazendo-o dançar.
“Começou com ela escalando o cercado”, disse a senhora Pringle. “Então se perdendo no shopping. Na praia.” Ela estremeceu só de lembrar. “Agora”... olhou para a filha, balançou a cabeça, sorriu quatro partes de amor, uma parte de desespero... “ela aprendeu como destrancar a porta da frente.”
“Ela chora quando se perde?”, perguntei.
“Nunca.”
“Então ela não acha que está perdida.”
“Até onde saiba, nunca se perdeu em toda a sua vida. E não tem nada que não possa fazer. Ela pensa que tem 35.”
Dootsie estava em seu próprio mundo. Ergueu os pés de Canela da mesa e o suspendeu. “Iupi!” Esfregou seu nariz no dele. Riu enquanto ele escalava para o ombro dela e metia o nariz em sua orelha, depois sentando em sua cabeça. De repente, ela gritou: “Espere! Deixe-me fazer isso!”. Disparou para o forno enquanto Canela voava para meu colo. Minha mãe a reteve à frigideira enquanto derramava massa na chapa crepitante.
A senhora Pringle olhou para o teto. “Socorro!”
19 de janeiro
Minha carroça da felicidade está quase vazia, Leo. Restam apenas cinco seixos. Em termos de felicidade, estou operando apenas com 25 por cento da capacidade. Lembra-se da primeira vez em que mostrei minha carroça a você? Quantos seixos havia nela? Dezessete? E então coloquei mais um, se lembra? Eu nunca te disse isso, mas antes de ir para cama naquela noite, após nos beijarmos pela primeira vez na calçada fora da minha casa, eu coloquei os dois últimos seixos.
Vinte. Felicidade total. Pela primeira vez. Ela ficou daquele jeito até eu pintar aquele grande sinal em uma folha e pendurá-lo do lado de fora da escola para o mundo inteiro ver...
ESTRELA
AMA
LEO
Foi esse o meu erro, Leo? Exagerei? Assustei você? Parece que desde então eu venho tirando seixos da carroça. E agora só restam cinco e me sinto frágil e não sei como melhorar.
Então eu brinquei de passear hoje. Minha mãe confia em mim para brincar de passear de vez em quando. (Na verdade, nós temos um curso chamado Passear, mas ele não conta créditos). Basta eu subir na minha bicicleta e pedalar. Pedalar e pedalar. Ao pensar nisso agora, eu estava indo para o oeste. Para o Arizona? Em algum lugar no meio do caminho eu ouvi um som. Olhei para cima. Um ganso canadense estava voando pelo céu cinzento. Grasnando. Nunca tinha visto um ganso sozinho antes. Eles sempre voam em bandos com forma de V, ou pelo menos em pares. Ele tinha sido deixado para trás? Será que estava tentando alcançá-los, gritando: “Ei, esperem por mim!”? Será que tinha perdido sua namorada e estava chamando o nome dela? Será que ela estava morta? Ou havia voado para o Arizona com outro ganso? Uma voz grasnando pelo céu. O som mais solitário que já havia escutado.
Então pensei no homem encasacado no cemitério. Virei-me. Não tinha me dado conta do quanto tinha me afastado da cidade. Pedalei até o cemitério. Lá estava ele, no mesmo lugar, sentado em uma cadeira de dobrar de alumínio, com listras verdes e brancas. Desta vez eu entrei. Seu queixo estava apoiado no peito. Ele cochilava. A maior parte de seu rosto estava perdida atrás do brilhante lenço xadrez vermelho e amarelo. Uma lancheira preta arredondada num estilo antigo repousava na grama sob a cadeira.
Estava com medo de chegar perto demais. Segui a pé, empurrando a bicicleta por trás dele. Havia dois nomes na lápide: Grace e Charles. Sob o nome dela havia as datas de sua vida. Sob o nome dele, havia o dia e o ano de seu nascimento, então um traço, e depois nada. O dia da morte por vir. Abaixo daquilo estava JUNTOS PARA SEMPRE.
Grace. Foi a segunda data dela que me surpreendeu, ela havia morrido quatro anos antes. E ele ainda estava lá. Grace. Acho que foi ela quem lhe deu o lenço. Acho que ela o chamava de Charlie. Grace. Sussurrei o nome dela.
Recuei o mais silenciosamente possível.
27 de janeiro
Fui babá da Dootsie hoje. A mãe e o pai dela disseram que precisavam “dar uma fugida”.
Dootsie vive na rua Ringgold, a uma corrida curta de bicicleta de distância, mas uma longa caminhada para uma menininha em um dia frio às 6 da manhã. Ainda não consigo acreditar que ela fez aquilo. Quando cheguei, estava invisível. Você sabe que ela desapareceu ao vê-la rígida em posição de sentido, com o rosto amassado e os olhos bem fechados. Estava em um canto da sala de jantar. Eu disse à mãe dela: “Bem, parece que a Dootsie foi embora. Não tem ninguém aqui para eu ser babá. Acho que o Canela e eu teremos de voltar para casa. Tchau”.
Assim que me virei, Dootsie gritou. “Não! Estou aqui! Estou aqui! Só estou imisível!” Ela veio correndo. “Panela!”
Então permaneci, os Pringles foram embora, e Dootsie brincou com o Canela e depois nós pintamos o quarto dela. Ela pinta o quarto dela quase todo dia. Tem permissão de pintar tudo o que quiser no quarto dela, exceto as janelas. Paredes. Portas. Móveis. Imagine só: um balão cheio com 50 cores de tinta explode e respinga o quarto. Imagine só: aliens esmagados. Imagine só: o paraíso de uma criança. Não imagine: um quarto de princesinha com cama de dossel, babados e cor-de-rosa. Assim, lá estava eu, pincel na mão, liberando a maníaca pintora de quartos que se esconde em todos nós.
Então, nós falamos sobre você.
Dootsie: “Você tem um namorado?”.
Eu: “Não tenho certeza. Costumava ter”.
Dootsie: “Qual o nome dele?”.
Eu: “Leo”.
Dootsie: “O Leo é um cereal humano?”.
Eu: “Somos todos cereais humanos”.
Dootsie: “Você ama ele?”.
Eu: “Acho que sim”.
Dootsie: “Ele ama você?”.
Eu: “Amava. E depois não amava. Acho que me amará de novo”.
Dootsie: “Quando?”.
Eu: “Um dia”.
Dootsie: “Onde ele está?”.
Eu: “No Estado do Arizona. Bem longe”.
Dootsie: “Por quê?”.
Eu: “Por que o quê?”.
Dootsie: “Por que ele está bem longe?”.
Eu: “Ele estuda lá. Eu me mudei para a Pensilvânia”.
(Ops! Agora você sabe. Nós nos mudamos para seu Estado natal. Bem, não irei especificar mais do que isso.)
Dootsie: “Ele beijou você?”.
Eu: “Sim”.
Dootsie: “Ele beijou o Panela?”.
Eu: “Sim”.
Dootsie: “Não quero mais falar sobre ele”.
Então conversamos sobre outras coisas e pintamos mais algumas, e depois ela disse: “Vamos visitar a Betty Lou”.
“Quem é Betty Lou?”, perguntei.
“Nossa vizinha. Ela tem medo de sair de casa. É divorciada.”
Isso soou interessante. Deixei um bilhete na mesa da sala de jantar caso os Pringles chegassem mais cedo em casa, fui para a porta ao lado e toquei a campainha. A porta pareceu abrir por si mesma. Ninguém estava lá, mas uma voz falou: “Entre”.
“Ela está atrás da porta”, disse Dootsie e entrou.
Ela acenou. “Venha.”
Eu entrei, fechei a porta, e parada na minha frente estava uma pessoa vestindo um roupão roxo e meias-chinelo vermelhas e brilhantes.
Dootsie apontou para mim. “Essa é minha amiga Estrela. Ela beijou um garoto chamado Leo.”
A pessoa apertou minha mão, e sorriu. “Betty Lou Fern.”
Dootsie esticou a mão dela, que Betty Lou também apertou.
“Ela contou que tenho medo de sair?”
“Logo após me dizer que você era a vizinha dela.”
Ela riu. Uma risada encorpada e demorada. “Ela conta para todo mundo. A cidade inteira sabe que sou agorafóbica. Isso não é bobo?” E acenou para nós. “Venham à cozinha. Farei um delicioso... ECAAAA!”
De repente, Betty Lou estava sobre a cadeira da sala de jantar gritando: “Um rato!”.
Canela estava colocando a cabeça para fora do bolso do casaco de Dootsie.
“É só o Panela”, disse Dootsie. Puxou o Canela para fora e o ofereceu a Betty Lou. Betty Lou gritou ainda mais alto.
Eu o peguei. “O Canela é meu rato de estimação.” Eu o guardei no fundo do meu bolso. “Ele é realmente domesticado e amigável.”
“Mas é um rrrrato.” E rosnou a palavra. “Tem um rrrato na minha casa.” Subiu na mesa. O topo penteado de seu cabelo branco e cinza ficou achatado contra o teto.
Ela estava tremendo.
“Sinto muito”, falei. “É melhor irmos.”
“Não!” Dootsie guinchou e apontou o dedo fazendo uma careta. “Betty Lou, desça daí. Desça agora mesmo.”
“Não consigo.”
E, depois disso, um novo olhar de terror apareceu em Betty Lou.
Ela cobriu os olhos com as mãos. “Pare!”
Olhei para Dootsie. Ela tinha revirado os olhos até eles desaparecerem. Muito assustador. “Você vai descer ou não?”, disse ela.
Betty Lou gritou: “Vocês vão manter o monstro fora do meu campo de visão?”.
“Sim.”
“Vão deixar a cauda dele tocar em mim?”
“Não.”
“Coloque os olhos de volta.”
“Tá bem.” Os olhos de Dootsie rolaram de volta para o lugar. “Pronto.”
Betty Lou desceu e fez chocolate quente. Tirou donuts do congelador e os aqueceu no micro-ondas. “Sempre tenho algo gostoso de comer para a Dootsie. É como eu a atraio para cá. Como tenho medo de sair, tenho meus métodos para fazer as pessoas me visitarem.”
Dootsie falou: “Sou a melhor visita dela”.
Betty Lou riu. “É verdade. Me visita quase todos os dias.”
“E todo dia eu ganho um donut.”
Betty Lou assentiu. “Uma vez por semana, recebo uma dúzia de donuts da Margie.”
Ela mordeu um pedaço do seu donut recheado com creme. “Hum. Margie diz que são os melhores do mundo. Ela tem razão.”
Perguntei a ela: “Muitas pessoas têm agorafobia?”.
“Mais do que imagina.” Olhou nervosamente para a sala de estar. Eu tinha tirado meu casaco de inverno e o pendurado na varanda da frente. Canela estava aquecido no bolso. “Roedores não se achatam?”, disse ela. “Você acha que ele poderia se espremer por baixo da porta?”
“Ele não pode se achatar tanto”, contei a ela. “Você está segura.”
“A palavra ‘agorafobia’ vem do grego”, disse ela.
“Significa medo de espaços púbicos!”, falou Dootsie.
Betty Lou riu. Ela passou os dedos nos cabelos de Dootsie. “Perto o suficiente. Depois de me ouvir falar isso mais algumas vezes ela acertará. É medo de espaços públicos. E o diagnóstico pessoal da Dra. Dootsie para mim é...” Ela assentiu para Dootsie.
“Ela é uma bagunça!”
Betty Lou gritou. Para alguém tão medrosa, parecia surpreendentemente alegre. “Simplesmente escapou de sua boca um dia: ‘Você é uma bagunça!’. Ainda não consegui parar de rir.”
“Mas não é só de espaços públicos que você tem medo”, disse eu.
“De todos os lugares.” Ela apontou. “Todos os lugares do outro lado daquela porta. Isso não é bobo? Vivo dizendo a mim mesma: Não há nada para temer. Olhe para todas aquelas pessoas caminhando lá fora, todos aqueles cereais humanos, como Dootsie costuma dizer. Nada ruim está acontecendo com eles. Mas não consigo me convencer.”
Tentei imaginar ter medo de sair. Não consegui.
“Faz quanto tempo?”, disse eu.
“Nove anos agora”, respondeu ela. “Comecei em um belo dia ensolarado em maio. 19 de maio. Os pássaros estavam cantando, as flores florescendo, o clima ameno. Foi um daqueles dias perfeitos que temos algumas vezes por ano. Eu havia vestido minhas luvas de jardinagem porque ia ao quintal plantar meus tomates. Eu tinha três pés de tomate naquelas pequenas caixas verdes de plástico. Tomates para salada. E fui abrir a porta de trás e a maçaneta estava emperrada. Eu não conseguia girá-la. Tentei e tentei, mesmo com as duas mãos. Finalmente girou, mas naquele momento, não sei, foi como se algo tivesse acontecido, como se aquela maçaneta emperrada estivesse me dizendo que talvez eu não quisesse sair no fim das contas. E aí o telefone tocou, então tirei minhas luvas e fui atendê-lo. Era meu velho amigo Hildegard. Sempre conversamos um monte. Quando finalmente desliguei o telefone, havia duas mensagens me esperando. Eu as ouvi e depois chegou a hora de preparar o almoço, e eu tinha que assistir minhas novelas, e foi só na manhã seguinte que notei que os três pés de tomate continuavam no canto da cozinha. E em algum lugar lá no fundo de mim mesma eu sabia que eu realmente não queria...”
Ela parou. Olhava para o canto, mas estava vendo algo muito mais distante. Acho que eu e Dootsie não estávamos respirando.
“...Não queria... mais plantá-los”, prosseguiu. “Então simplesmente fiquei lá em pé, na porta de trás”, apontou para o local, “e continuei parada, continuei em pé, e olhei para a maçaneta, e a segurei rapidamente enfim, e a virei, e, de repente, a porta estava aberta, e eu... continuei lá. Não conseguia me mover. O ar fresco passando por mim parecia ameaçador. O mundo do lado de fora daquela... daquela moldura retangular da porta, era tudo demais, tudo muito grande. Perigoso... Gostaria de dizer que lutei com valentia comigo mesma, que tentei realmente com afinco passar da soleira e ir ao quintal. Mas eu não lutei. Sabia que não faria isso. Fechei a porta e não a abri desde então. Eu só abro a porta da frente para deixar as visitas entrarem.”
“Ela não encosta nem na caixa do correio!”, disse Dootsie.
“Nem mesmo isso”, disse Betty Lou. “Dootsie traz minha correspondência para dentro. Ela sobe em uma cadeira da varanda para alcançá-la e a pega. Minhas compras de mercado são entregues.”
Dootsie deixou escapar: “E os donuts!”
“E os donuts”, disse Betty Lou. “Uma menina chamada Alvina os traz da loja de Margie toda segunda-feira.”
Dootsie franziu a testa. “Odeio a Alvina.”
Betty Lou franziu a testa. “Seja gentil.”
“Alvina é rabugenta.”
Betty Lou riu. “Verdade. Mas Alvina traz donuts para você, não traz? Ela os deixa na varanda e a Dootsie os traz para dentro com a correspondência.”
“Uau”, disse eu. “Um sistema e tanto.”
Betty Lou assentiu e sorriu tristemente. “Uau é uma boa definição. Isso se chama lidar com a situação. E ainda nem disse isso a Dootsie, mas, outro dia, por cerca de dez segundos, quase tive medo de sair do meu quarto.” Olhou ao redor da sala. “Inacreditável. Com medo da minha própria casa! Estou piorando.”
“Ei!”, Dootsie falou. “Estou piorando também. Foi minha mãe que disse.”
“E a Dootsie contou a você que sou divorciada?”, disse Betty Lou.
“Sim.”
“Ela chama o ex-marido de Nariz de Batata!”
“Senhor Nariz de Batata”, corrigiu Betty Lou.
Aquilo fez todo mundo rir. Nós rimos um bocado até o senhor Pringle aparecer na porta para buscar Dootsie. Eu pedalei minha bicicleta até em casa, e continuei pensando em duas pessoas: a mulher que não saía da casa e o homem que não voltava do cemitério.
6 de fevereiro
Neve.
Um monte. Na altura dos meus joelhos. Das orelhas da Dootsie. Nós fizemos um homem de neve. Eu tirei o Canela do bolso para ele poder ver. Coloquei-o no ombro. Espirrei. O espirro o derrubou. Nós olhamos para baixo. Nada além de um buraco na neve. Canela! Quatro mãos cavando freneticamente. Nós o pegamos. Ele estava congelando. Tremendo. Sua cauda, azul. Nós sopramos nossa respiração aquecida sobre ele e o esfregamos, e depois beijamos. Quando nos beijou de volta, sabíamos que ficaria bem, muito embora sua língua diminuta estivesse fria.
14 de fevereiro
18 de fevereiro
Sabe que dia é hoje, Leo? O Dia do Primeiro Beijo. Quatro dias depois do Valentine’s Day. Uma noite, um ano atrás, do lado de fora da minha casa. Minha carroça da felicidade estava cheia. Eu estava tão entupida de felicidade que não havia espaço para mais nenhuma.
Hoje tirei mais um seixo, reduzindo a quatro.
22 de fevereiro
Tarefa da excursão: Margie.
A pequena loja de donuts de Margie fica na rua da Ponte entre a Pizza Delícia e a agência de viagens Quatro Ventos. O aviso diz OS MELHORES DONUTS DO MUNDO!
Fui para almoçar. Comi um polvilhado com chocolate e um tradicional. Há quatro lugares no balcão e uma pequena mesa. Sentei-me à mesa e assisti aos clientes irem e virem. Margie disse que não se importava, que ficava feliz com a companhia. É gorducha, como seus donuts recheados de creme, uma explosão de cabelos loiros clareados. É comunicativa. Fala com todo mundo que entra. Não parou de falar comigo em momento algum. Às 14 horas eu já sabia que ela deixava o cabelo das axilas crescer no inverno, que feijões não lhe davam gases, mas grão-de-bico sim, e que a coisa mais gloriosa da sua vida é receber massagem nos pés.
Fiquei surpresa com quantas pessoas almoçam donuts. Os quatro lugares no balcão permaneciam sempre ocupados. Margie está levando donuts aonde nenhum donut jamais esteve. Você quer sopa de galinha de almoço? Ótimo, abra uma lata. Mas você quer sopa de donuts? É só na Margie. Ela também tem pudim de donuts e sandonutíche, e afirma que a torta de donuts está “em desenvolvimento”.
Já tinha começado a escrever meu poema chamado “Sopa de donuts”, quando ouvi uma batida forte e a porta se abrir com tudo, e, de repente, havia uma garota no meio da loja, de cócoras, ofegante, de frente para a porta, gritando com o rosto vermelho para três meninos na calçada:
“Ya ya ya ya ya!”
Os garotos gritaram de volta:
“Sua feia!”
“Você tá morta!”
“Todo mundo te odeia!”
Margie veio agitando os braços. “Deem o fora!” Os garotos se mandaram.
Acontece que a garota trabalhava lá. Não oficialmente. Era muito nova. Tinha 11 anos. Era paga em donuts. Ia depois da escola. Varria, tirava o pó, lavava, cuidava do lixo, incomodava Sam, o cozinheiro de donuts que ficava nos fundos.
Ela veio varrendo na minha direção. Parou, olhou.
“Está comendo?”
“Não no momento”, disse eu.
“Então você precisa ir”, ela falou. “Não pode simplesmente ficar sentada aqui. Vagabundos fazem isso. Você precisa comprar algo. É assim que funciona. Isso aqui não é o Exército da Salvação.”
“Não sou vagabunda”, disse eu.
“Então compre algo.”
Então comprei outro polvilhado de chocolate, só para manter a paz.
Ela foi embora varrendo, mas voltou em um minuto. “O que está escrevendo?”
“Um poema”, disse a ela.
“Sobre o quê?”
“Donuts”, respondi. “Ou talvez sobre você.”
Ela zombou. “Sim, sim, claro.” Seu cabelo curto e ralo parecia alguma coisa onde o Canela ficaria feliz de armar um ninho. Ela vestia uma camisa listrada azul e vermelha, e um Ursinho Pooh amarelo de plástico em um colar apertado. “Qual o seu nome?”
“Estrela.”
Ela engasgou. “Estrela? Que tipo de nome é esse?”
“Eu o dei a mim mesma”, respondi.
Ela debochou. “Você não pode dar um nome a si mesma.”
“Já dei.” Me encarou, piscando. A vassoura parada. “E o seu nome, qual é?”, disse eu.
“Odeio meu nome.”
“Mas eu não odiarei.”
“Alvina.”
“Ele é bacana”, disse eu. “É diferente. Clássico.”
“Sim, que nem um donut.”
“Alvina...”, repeti, me lembrando. “Você é a garota que entrega os donuts da Betty Lou Fern toda semana?”
Ela me olhou fixamente. “E se for eu? Algum problema?”
Ergui as mãos. “Ei, só tô perguntando.”
Ela apontou para meu caderno de anotações. “Aquele poema realmente é sobre mim?”
“Poderia ser”, falei. “Ainda não tenho certeza. Estou esperando para descobrir se é ou não interessante.” Lancei um olhar de soslaio. “Você é?”
“Sou um tédio.”
Eu ri. “Ninguém é um tédio.”
“Sou fedorenta.”
Ri de novo. Peguei o braço dela e cheirei. “Seu cheiro está normal para mim.”
“Sou feia.”
“Não é não. Não dê atenção àqueles garotos.”
“Eu odeio garotos.” Ela pegou a vassoura e a ergueu como se fosse uma arma. Deu um passo para trás. Fez uma cara de escárnio e fuzilou a loja com sua metralhadora de vassoura. “Eu mataria todos eles. Colocaria-os em fila e os fuzilaria. Cada um deles. Milhares. Milhões!”
“Você vai precisar de um monte de munição”, disse eu.
“Odeio eles”, disse ela, e voltou a varrer o chão.
Rabisquei os versos do poema por um instante. Olhei para cima para descobrir que era a única na loja. Todo mundo estava nos fundos. Depois...
EXCURSÃO:
PISOTEANDO NA LOJA DA MARGIE
A porta se abre devagar.
Os garotos entram, em silêncio,
furtivamente, sorridentes.
Olham para mim, os olhos perguntando,
Você vai contar?
Meus olhos respondem, Sou a poetisa.
Estou escrevendo isto. Vocês o estão vivenciando.
Um deles põe os dedos nos lábios: Shhh. Eu mudo de ideia: “Não!”.
Tarde demais.
Tão rápidos quanto garotos, estão atrás
do balcão, roubando donuts, carregando o quanto conseguem,
dando gritos de meninos,
Margie correndo para dentro “Ei! Ei!” –
os garotos correndo para fora, donuts caindo –
um garoto na porta para, se vira, deixa cair
um donut com recheio de framboesa no chão, ergue o joelho
até o peito, grita “Uhul!”, pisa nele,
o donut espirrando framboesa por todo o trajeto
até o balcão.
“Não tente salvá-los”, diz Margie.
“Jogue-os fora.”
Alvina varre os donuts caídos com grande cuidado
para um montinho.
Ela molda o monte
com sua vassoura.
Olha para os garotos zombando
na rua, rindo,
se empanturrando, vomitando donuts.
A vassoura cai no chão com barulho.
Ela pula,
ambos os pés descem sobre
a pilha de donuts,
para cima e para baixo
para cima a para baixo
ela pisoteia os donuts como
costumava pisotear poças de água quando
pequena,
pisoteia
pisoteia
pisoteia
enquanto os garotos, agora congelados no lugar,
ficam pasmos, bocas abertas
de donuts por mastigar.
28 de fevereiro
Nevou ontem. Hoje o mundo está branco. Coloquei minhas botas e caminhei até a Montanha Encantada. Ela estava tão pura e perfeita quanto uma folha nova de papel. Eu dei um passo para dentro do campo e parei.
O que estava fazendo?
A brancura pura, brilhando com o sol, era uma das coisas mais bonitas que já tinha visto. Quem era eu para estragá-la?
A neve caía. A Terra dizia: Toma aqui, um presente para você. Mas o que fazemos? Nós a removemos com pás. Nós a golpeamos. Nós a raspamos. Nós a limpamos. Saia do nosso caminho. Nós a colocamos de canto. Existe algo mais feio ou triste do que uma pilha de neve depois de dez dias? Nem neve é mais. É lama.
Ela está começando a ser como nós, Leo? Prefiro nunca mais ver você a deixar isso acontecer. Nós fomos tão revigorados um dia, um campo de neve brilhante. Vamos prometer um ao outro que se um dia chegarmos a nos reencontrar, nunca limparemos nossa neve recém-caída. Nós não nos transformaremos em lama. Continuaremos como nesse campo e derreteremos juntos somente no bom tempo do sol.
Recuei com cuidado, saindo da única pegada, e indo embora.
3 de março
Vi hoje a primeira flor do ano. Um crócus, espreitando para fora de um arbusto como se dissesse: Oi! Estou aqui! Um pequeno amontoado roxo de alegria e esperança. Eu chorei. Ano passado, nessa época, eu era o crócus, desabrochando, florescendo com amor e alegria por você, por nós.
Para piorar a situação, eu estava com Dootsie.
“Por que está chorando?”, disse ela.
Eu tentei sorrir. “São lágrimas de alegria. Primeira flor.”
Ela me estudou, toda séria. Balançou a cabeça. “Caquinha.”
Eu quase explodi numa gargalhada, mesmo sabendo que seria errado. “De onde tirou isso?”
“Meu pai. Ele fala isso quando minto para ele. Eu minto muito.”
“Não estou mentindo.”
“Caquinha.”
“Tudo bem, estou mentindo.”
Ela me estudou um pouco mais. Os olhos dela lacrimejavam. “É seu namorado, não é? Ele fez você chorar.”
“Não.”
“Caquinha.” Ela bateu com os pés no chão. Estava com raiva.
“Ele largou você.”
Eu balancei a cabeça. Não conseguia falar.
“Sim, fez isso! Ele largou você!” E o rostinho dela se desmanchou, e se entocou em mim e me agarrou.
Quando cheguei em casa, tirei outra pedrinha. Só três agora.
6 de março
PESSOAS DO ARIZONA DE QUEM MAIS SINTO FALTA
1. Você.
2. Archie
Para você, Archie é o velho “caçador de ossos” que se aposentou como professor e foi para Mica. Ele fala com seu amado cacto, o Señor Saguaro, e convida a você e a outros garotos para sua varanda nos fundos, onde fuma cachimbo e comanda reuniões da Leal Ordem do Osso de Pedra. Ele é isso tudo para mim também – eu ainda uso seu cordão de fóssil – e é muito mais. Você sabe, minha mãe não o contratou para me ajudar com meu ensino domiciliar. Ele se ofereceu. Foi ele que veio com a ideia original do currículo fantasma. Nada do que aprendi com ele me ajudou quando o Estado do Arizona veio aplicar minhas provas. Ele me deu mais perguntas do que respostas. Fez com que me sentisse em casa, não na casa dele, nem na minha, mas no mundo como um todo. É como um terceiro pai para mim.
3. Dori Dilson
Alguns dos alunos da Escola de Ensino Médio de Mica se viraram contra mim. Alguns se afastaram de mim. Dori foi a única que não fez nem uma coisa nem outra.
10 de março
Cada dia traz uma nova memória de algo que fizemos um ano atrás. Uma sucessão de aniversários infelizes.
11 de março
Noite passada sonhei que estava meditando no quintal do Archie, debaixo do braço estendido do Señor Saguaro. De repente, uma coruja marrom voou da boca do Señor Saguaro e falou comigo: “Caquinha”.
“Espere só até eu contar ao Archie o que você disse”, falei.
“Caquinha pra ele também”, disse o Señor Saguaro.
E depois me deu um tapa de leve. Alguma coisa me acertou na bochecha. Aquilo doeu cruelmente. Eu gritei. Tirei-a dali. Era um espinho de cacto.
“Isso não foi legal”, falei.
“Avante!” Ele me bateu com outro espinho. Senti dor no pescoço. Tirei-o dali. E então repetiu e repetiu: “Avante! Avante! Avante! Avante!” Uma dor espinhosa se espalhou por mim, e cada vez que eu tirava um espinho, ele me atingia com mais dois, e eles não eram mais espinhos de cactos, eram dardos minúsculos, dardos minúsculos com penas vermelhas me espetando inteira, e quanto mais rápido eu os tirava de mim, mais rápido eles vinham, e eu não conseguia alcançar os que estavam no meio das minhas costas...
Acordei suando, formigando. Vesti meu moletom e meu casaco. Não pus sapato. Desci a escada na ponta dos pés, saí de casa. Pedalei minha bicicleta até a Montanha Encantada. Caminhei até o centro. O chão batia gelado e duro contra a sola nua dos meus pés. Eu gostei de senti-lo. A existência real e firme dele.
Senti-me sozinha no planeta, à deriva pelo cosmos. Alcancei a noite com ambas as mãos. Não havia resposta. Ou talvez eu só não quisesse escutá-la.
12 de março
Querida Estrela,
Ei, você é uma garota crescida agora. Pare de agir como um bebê. Você acha que é a única que já perdeu um namorado? Namorados são fáceis de encontrar. Quer falar de perda, olhe para toda a perda ao seu redor. O que dizer do homem com o cachecol xadrez vermelho e amarelo? Ele perdeu a Grace. SUA AMADA ESPOSA. Aposto que foram casados por mais de cinquenta anos. Você mal passou cinquenta dias com o Leo. E você tem o descaramento de estar triste no mesmo mundo que aquele homem.
Betty Lou perdeu a confiança de sair de casa. Olhe só para você. Já parou para apreciar a simples capacidade de abrir sua porta da frente e sair?
E Alvina, a limpadora de chão, ela se odeia, e parece que tem um monte de gente na mesma situação. Ela só está perdendo sua infância, seu futuro, um mundo cheio de pessoas que nunca serão amigas dela. Você não gostaria de trocar de lugar com ela, gostaria?
Ah, sim. Não vamos nos esquecer do sujeito cambaleante nas pilhas de pedras. O do pompom verde-musgo. O que ele te disse? “Está me procurando?” Parece que ele não perdeu muito, não é? Só... A ELE MESMO!
Agora olhe para você, choramingando como um bebê por causa de algum garoto imaturo do Arizona que não sabia o prêmio que tinha nas mãos, que tentou transformá-la em outra pessoa, que te ignorou e te largou com os lobos, que sequestrou seu coração e nem te convidou para o Baile do Ocotillo. O que você não entendeu da mensagem? Alô-ÔÔôô? Tem alguém aí? Você tem a vida inteira pela frente, e só faz olhar para trás. Cresça, garota. Existem coisas que eles não te contam no ensino domiciliar.
Seu eu da certidão de nascimento,
Susan Caraway
13 de março
Ela está certa, é claro. Cada palavra é verdade.
Só não é a verdade inteira. Ela não mencionou como você me olhou no refeitório naquele primeiro dia. Ou como corou quando seu melhor amigo, Kevin, disse, “Por que ele?”, e eu puxei o lóbulo da orelha dele e respondi: “Por que ele é bonitinho”. Ou o quão legal você foi com meu rato, apesar de estar apavorado. Ou como ficou orgulhoso de mim quando venci o concurso de oratória em Phoenix. Ou como – eu não sei, como explicar isso? – como a gente se completa.
Certo, você não é perfeito. Mas quem é?
Claro, Susan tem razão. Mas meu coração não se importa com a razão. Meu coração nunca diz: Por quê? Somente: Por quem?
14 de março
Hoje, pela segunda vez, pedalei até o cemitério. Estava escurecendo. Charlie não estava lá. Segui ao longo dos caminhos sinuosos. Luar e lápides. Tive uma visão. Estava no cemitério do meu próprio passado. Sob cada túmulo repousava uma memória, um dia morto. Aqui Jaz o Dia do Deserto Encantado. Aqui Jaz o Dia que Seguimos a Mulher no Shopping e Inventamos a Vida Dela. Aqui Jaz o Dia em que Tocamos os Dedinhos pela Primeira Vez, o Sinal Secreto de Amor de Estrela e Leo.
Toda noite eu durmo em um cemitério de memórias. O luar tece seu manto sobre mim.
15 de março
Minha carroça feliz diminuiu para dois seixos.
16 de março
Eu te odeio!
17 de março
Sinto sua falta!
18 de março
Eu te odeio!
19 de março
Eu te amo!
20 de março
Eu te odeio!
21 de março
LEO!
22 de março
Agora, veja só o que fez. Você me fez perder o início da primavera. Aconteceu ontem, mas eu estava tão ocupada me lastimando por você que nem sequer notei. Provavelmente ainda estaria no escuro se não tivesse recebido uma carta do Archie hoje. Ele me perguntou se vi o nascer do sol dia 21 de março. Archie e eu costumávamos ir para o deserto e assistir ao nascer do sol em quatro datas especiais: o equinócio de primavera (21 de março), o solstício de verão (21 de junho), o equinócio de outono (22 de setembro), e o solstício de inverno (21 de dezembro). Nós servíamos chá-verde em copos plásticos e brindávamos cada nova estação.
Ontem o sol estava incidindo diretamente sobre a linha do equador. O dia ultrapassou a noite. Inverno virou primavera. A cada giro da Terra agora, o dia está deixando a noite alguns minutos a mais para trás.
O universo está seguindo seu rumo. Por que estou surpresa?
23 de março
Tudo que meu pai disse na noite passada foi: “Vá dormir cedo”. Não perguntei o motivo, mas sabia. É claro que ele me acordou às 2 horas da manhã, e 30 minutos depois estávamos comendo pães doces grelhados e tomando café no restaurante Vista da Serra. Eu sabia o que ele estava fazendo.
Ele havia notado meu humor. Estava tentando me animar. Ele acredita que a resposta para o problema de qualquer pessoa é ir a uma entrega de leite.
Confuso?
Sim, meu pai é um leiteiro agora. Após quinze anos como um supervisor de engenharia na MicaTronics, sentiu-se sobrecarregado. Ainda assim, não iria sair. Mas minha mãe o convenceu depois que perguntou o que gostaria de fazer em vez daquilo e ele sorriu e disse: “Sempre quis ser leiteiro”. Então, carregamos o caminhão no armazém e seguimos pela rota da sexta-feira. Quando o caminhão virou uma curva na loja Wawa, os faróis de repente iluminaram um rosto. Era um rosto em um contêiner de lixo, olhos arregalados de surpresa. E então fomos embora.
“Viu aquilo?”, disse meu pai.
“Sim”, disse eu. Ainda via o rosto, como o brilho remanescente em meus olhos quando parava de olhar o sol.
A rota da sexta-feira fica na parte sul do país. Terrenos em uso. Fazendas. Casas solitárias ao longo de ruas curvas de terra. Nenhum poste de luz. Nenhum tráfego. Somente o escuro, o brilho dos nossos próprios faróis e o chacoalhar de garrafas de vidro nas prateleiras atrás de nós.
Os clientes deixam bilhetes, colados com fita na porta ou enrolados e presos com elástico na caixa metálica de leite no degrau da frente. Alguns pedem a mesma coisa toda semana, alguns fazem pedidos diferentes. Alguns pais deixam seus filhos escreverem os bilhetes. Como:
Caro senhor leiteiro,
Por favor, deixe:
1 litro de leite
1 litro de achocolatado
2 queijos
1 dúzia de ovos
Meu gato Prrrufecto adora seu leite!!
Abraço,
Cory
Eu já havia participado de outras entregas de leite de sexta-feira com meu pai, e havia um endereço pelo qual estava especialmente esperando. Ele chegou cedo à entrega: rua White Horse, 214. Os Huffelmeyers. Eles são um casal de idade e pegam 1 litro de leite e 1 litro de achocolatado toda semana. Mas meu pai não deixa as coisas deles no degrau da frente, ele entra. Veja só, os Huffelmeyers se lembram dos velhos dias, quando as coisas eram mais seguras e eles deixavam a porta da frente destrancada o tempo inteiro, e o leiteiro simplesmente entrava e colocava suas entregas na geladeira. E eles mantiveram dessa forma. Na rua White Horse, 214, ainda é 1940. Nós simplesmente entramos. Papai acende a luminária franjada em uma pequena mesa para que possamos ver. Ficamos tão silenciosos quanto possível. Enquanto o papai vai para a cozinha, gosto de parar e olhar as fotos. Deve haver uma centena de fotos de família nas salas de estar e jantar. Eu as vejo ir de instantâneos preto e branco – o casal jovem casado, ele com seu uniforme da Segunda Guerra Mundial, ela com um vestido florido e chapéu de abas largas, de braços dados em frente a uma roda gigante – as fotos coloridas do velho casal cercado de filhos e netos e, pelo que parece, bisnetos.
Leo, algumas pessoas podem dizer que isso é esquisito, andar nas pontas dos pés pela casa de alguém às 4 da manhã, mas não é. É maravilhoso. É uma forma de compartilhar. São os Huffelmeyers nos dizendo: Entrem em nossa casa. Olhem o que quiserem. Podem nos conhecer. Estamos no andar de cima, dormindo. Sintam-se à vontade para passear por nossos sonhos e memórias. Confiamos em vocês. E não se esqueçam de levar as garrafas vazias.
Uma hora depois, deixamos o queijo cottage semanal e o suco de laranja na cozinha dos Dents, que eram ainda mais velhos que os Huffelmeyers. Meu pai então seguiu para leste, em direção a um céu cinza prateado. Um novo dia nascia. Até então, mal tínhamos falado um com o outro. Agora nós conversávamos, embora a conversa fosse entrecortada, telegráfica, interrompida constantemente pelo barulho do transportador de leite enquanto meu pai corria para outro cliente.
Pai: Então.
Eu: Então.
Pai: Dias negros?
Eu: Mais para cinza.
Pai: Vi que você só deixou dois seixos.
Eu: Você notou.
Pai: Leo Borlock?
Eu: Leo Borlock.
Pai: Ainda?
Eu: Ainda.
Pai: Ele vale isso?
Eu: Não tenho certeza. Acho que sim.
Pai (a mão dele na minha): Você pode ter certeza de uma coisa.
Eu: Do quê?
Pai: De mim.
Eu (sorrindo): Eu sei.
Pai: E da mamãe.
Eu: Eu sei.
Quando fomos para casa, as crianças estavam fervilhando nos playgrounds das escolas primárias para o recreio da manhã.
24 de março
Eu fiquei razoavelmente bem pelo resto do dia. Arrumei o que fazer perto de casa. Visitei Betty Lou com Dootsie. Depois, logo que fiquei sozinha – hora de dormir – tudo voltou.
Sonhei mais uma vez com o Señor Saguaro. Dessa vez, ele não me espetou com espinhos. Não falou. Eu não conseguia nem mesmo ver sua boca. Então percebi que estava no outro lado dele. Contornei suas costas, e a boca se moveu para a frente. E assim foi: sempre que eu olhava, a boca se movia para o outro lado.
Não demorou muito e eu estava correndo desesperadamente em círculos em volta do velho cacto, tentando alcançar a boca, porque sabia que somente quando a alcançasse ela falaria comigo.
Estou desaparecendo, Leo. Como o truque de Dootsie, só que esse é real. Quem você é, se perde sua pessoa favorita? É possível perder sua pessoa favorita sem se perder? Procurei a Estrela e ela tinha partido. Não sou mais eu.
Fui até as pilhas de pedra hoje. Tive a sensação de que o homem cambaleante apareceria novamente, e apareceu. Ainda vestindo o gorro verde-musgo, o cordão e o casaco de marinheiro, ainda andando pelos cascalhos. Parou na minha frente e disse: “Está me procurando?” e continuou, sem esperar uma resposta. Gritei atrás dele: “Estou procurando por mim! Você me viu por aí?!”, mas ele apenas continuou a andar, com o pompom verde balançando...
27 de março
Brinquei de passear durante o ensino domiciliar. Fiquei no meu quarto o dia inteiro – escrevendo, lendo, sonhando acordada, recordando. Minha mãe não se opôs, não perguntou o motivo. Escrevi três haicais e duas listas. Talvez envie os haicais a você algum dia. Aqui está a primeira lista:
COISAS QUE EU GOSTO NO LEO
1. Você me amou.
2. Você gostou das sardas no meu nariz.
3. Você foi legal com o meu rato.
4. Você gostou do Archie.
5. Você tem um sorriso tímido.
6. Você me seguiu no deserto.
7. Você segurou minha mão na frente de todo mundo. 8. Você me escolheu em vez de escolhê-los.
9. Você encheu minha carroça da felicidade.
A segunda lista:
COISAS QUE EU NÃO GOSTO NO LEO
1. Você me largou.
2. Você gostou mais da Susan do que da Estrela.
3. Você não foi corajoso o suficiente pra ser você mesmo. 4. Você os escolheu em vez de mim.
5. Você está esvaziando minha carroça de felicidade.
29 de março
Só um seixo.
30 de março
Leo! Salve-me de uma carroça vazia!
1º de abril
Tinha prometido a Dootsie que a levaria hoje ao parque Bemus. Quando passamos pela primeira esquina, Dootsie falou: “Quero usar eles”. Ela estava apontando para meus brincos, as caminhonetes-lanchonetes prateadas que meu pai tinha pedido a um prateiro para fazer para mim em Tucson. Eu os tirei. Fui colocá-los nas orelhas dela, mas ela disse: “Eu quero fazer isso”.
“Tudo bem”, respondi, e os passei para ela.
Quando dei por mim, ela os arremessou em uma sarjeta que havia por perto, jogou as mãos para o alto e gritou: “1o de abril!”.
Ela estava tão contente e orgulhosa de si mesma, odiei estragar a diversão. Mas você me conhece, Leo, não sou exatamente a melhor atriz do mundo. Não pude esconder minha surpresa e desapontamento.
Ela viu isso no meu rosto. Os olhos dela se arregalaram, o sorriso desapareceu. Ela puxou meu dedo e piou: “1o de abril?”. Eu só conseguia olhar para a grade do esgoto. Ela uivou: “Fiz besteira!”, e começou a berrar.
Eu a abracei e a acalmei. Como você explica a brincadeira de 1o de abril para uma criança de 5 anos de idade? Tentei dizer a ela como funciona. Disse que, no fim, o importante é que a vítima se sinta aliviada e feliz porque as coisas não eram realmente tão ruins no fim das contas. Pelo olhar no rosto dela vi que ela não estava entendendo. Mas logo eu descobriria que ela estava entendendo muito bem, só que do jeito dela.
Nós continuamos nossa caminhada pelo parque Bemus. Ao longo do caminho, comprei para cada uma de nós um pacote de balas. Era o primeiro domingo de calor da primavera. O playground era uma colônia de formigas de crianças pequenas – dançando, escalando, correndo de um lado para outro, poeira voando. Dootsie parou no final do escorrega. Conforme cada criança escorregava, Dootsie entregava uma bala e dizia: “1o de abril!”. Não demorou muito e cada criança no playground estava em fila no escorrega. Quando as balas da Dootsie acabaram, ela pegou as minhas.
Quando todas as balas acabaram, nós fomos para casa. Passamos pelas pessoas no parque. Dootsie começou a descarregar o restante de si. Para a primeira pessoa, ela deu um doce de amendoim que estava em seu bolso. “1o de abril!” Para outro, deu uma pedra de quartzo rosa que tinha encontrado. Para outro, um broche que dizia PENSE.
Para outro, um clipe de papel. Cada um veio com um “1o de abril!” e uma risadinha. E geralmente um sorriso intrigado de quem o recebia.
Quando seus bolsos se esvaziaram, tirou do dedo o anel vermelho que veio de brinde na caixa de cereal e o deu. Então o elástico rosa em seu pulso. Entrou em pânico quando viu a próxima pessoa vindo e percebeu que não tinha nada. Tentou pegar meu cordão de fóssil do Osso de Pedra. “Não!”, disse eu.
Dei a ela o troco no meu bolso. Dootsie deu minhas moedas uma de cada vez. Eu tinha esperanças de que não houvesse mais pessoas até chegarmos à casa dela, mas houve. Dootsie deu o último centavo e, mais uma vez, tentou pegar o cordão de fóssil.
Estiquei-me pra cima, mantendo o cordão fora de alcance. Ela continuou pulando, tentando, gritando: “Me dá! Me dá!”.
Eu dei. Ele foi embora em um minuto, e ela voltou a mim. “Estrela! Mais!”
“Dootsie”, disse eu, “Acabou. Não tenho mais nada.”
Eu estava mentindo. Havia uma coisa sobrando. Uma pequena pena de uma coruja marrom. Eu a tinha visto se agarrando na direção de um buraco de ninho de passarinho em um saguaro perto do meu lugar encantado, no deserto. Usei um graveto de iúca para expulsá-la. Desde o dia em que mudamos do Arizona, venho carregando a pena da coruja marrom para todo lugar onde vou.
Dootsie tentou mexer nos meus bolsos. Eu a bloqueei. A pena tinha passado a significar você. Nós. Estrela e Leo. Bloquear meus bolsos só a deixou mais curiosa. Ela sabia que eu estava ocultando algo. “Você tem alguma coisa aí!”, lamuriou-se. Ela estava chorando. Chorando por não ter algo para dar.
Ultimamente, eu também vinha chorando um monte. Me lembrei das palavras de Archie, as palavras que você me disse que ele havia dito a você uma vez: “Pessoas estrelas não derramam lágrimas, e sim luz”.
Dootsie estavam me puxando. “Me dá!”
Dê.
E o que aquelas moedas estavam fazendo perdidas no meu bolso pra começo de conversa? Lembra-se de como costumava ser, Leo? Eu nunca tinha moedas, porque assim que conseguia alguma, jogava na calçada para ser encontrada. O que aconteceu com a Estrela?
Derramar.
Luz.
Lágrimas não irrompem. Luz sim.
Dei a pena a ela. Ela entregou ao homem passeando com seu cachorro. “1o de abril!”
2 de abril
E assim eu sou eu de novo, Leo. Graças ao exemplo de uma menina de 5 anos de idade. Espero que você não desejasse isso de um jeito diferente. Não que você não fosse se sentir lisonjeado, né? Quero dizer, ter uma menina a mais de 3 mil quilômetros de distância se despedaçando por você, chorando só de lembrar de você, perdendo o apetite, se perdendo, perdendo a autoestima, bem, isso é troféu o suficiente para o ego de qualquer garoto, hum?
Você ocupou meu espaço. Mas porque você não estava no meu presente, quando olhava para o futuro não via... nada. Isso não é triste? E estúpido?
Bem, espero que tenha gostado de estar cheio de si enquanto durou, porque agora acabou. Ah, claro, sentirei sua falta tanto quanto antes. Ainda sorrio só de pensar em você. Continuarei a – bem, lá vou eu dizer isso de novo – amar você, mas não me abandonarei por você. Não posso ser fiel a você sem ser fiel a mim mesma. Recuperei meu futuro. Se estivermos destinados a estar juntos, fique feliz de saber que levarei meu eu verdadeiro, não alguma metade chorosa de mim.
Então, dei uma dose extra à minha carroça outro dia – cinco seixos. São seis agora.
A primavera finalmente chamou minha atenção. Eu disse “Bom dia!” para os narcisos.
Estou deixando trocados por aí de novo.
E tenho um novo uso para o dinheiro em papel da minha mesada. O jornal local se chama Folha de Lenape. (A tribo Lenape – se pronuncia len-A-pãi – costumava viver pelas redondezas.) O jornal tem uma seção para anúncios de classificados. Três linhas, três dias, 14 dólares. A maioria das pessoas usa a seção para anunciar vendas de terrenos e coisas assim.
Aqui está meu primeiro anúncio. Sairá na segunda, terça e quarta da semana que vem:
Dootsie Pringle
é a MELHOR pregadora de peças
de 1o de abril do mundo!
11 de abril
Algo aconteceu hoje que foi ao mesmo tempo perturbador e misterioso.
Dootsie tem estado gripada, então fui levar o Canela para animá-la. Tinha acabado de deixar os Pringles e montado na minha bicicleta para voltar pra casa quando ouvi uma voz rude atrás de mim: “E aí?”
Era Alvina. A encantadora Alvina. Parei.
“Oi”, disse eu. “Rosnou para alguém hoje?”
Ela ignorou a pergunta. “Estou voltando do trabalho para casa.”
“Entendo”, disse eu.
O pequeno Ursinho Pooh de plástico em volta do seu pescoço estava com os braços esticados para os lados e vestindo um sorriso enorme – diferente do rosto azedo acima dele.
Ela apontou um dedo na direção da casa de Betty Lou. “Aquela moça está ficando louca.”
“A senhora Fern?”
“A senhora Maluca.”
Perguntei a ela o que havia acontecido.
“Deixei os donuts na varanda...”
“Hoje é quarta-feira”, falei. “Pensei que fizesse isso nas segundas-feiras.”
Ela me lançou um olhar de desagrado. “Se parar de me interromper, conto.”
“Desculpe”, falei.
“Então, bem, deixava-os na segunda. E no dia seguinte eles sempre tinham sumido. Só que ontem, na terça”, ela parou e me encarou, vendo se me atreveria a interrompê-la, “quando passei por perto, eles ainda estavam lá. E agora, hoje, eles continuam lá.”
É claro, pensei. Dootsie não podia pegar os donuts porque estava doente. Devia ter feito isso eu mesma. Estúpida.
Alvina prosseguiu: “Então acabei de tocar a campainha. A moça veio na porta, mas não a abriu. Gritei para ela: ‘Abra a porta! Trouxe seus donuts!’. Sua resposta veio com a voz toda desafinada: ‘Não posso. Estou tendo um dia ruim’. Eu disse: ‘Vou te dar uma semana ruim’, mas não sei se ela me ouviu”. (Quase ri.) “‘Não pode apertá-los por baixo da porta?’, gritou. ‘Claro’, disse eu, ‘se esmagá-los com um rolo compressor.’” (Agora ri de verdade.) “Ela...”
Alvina parou de falar de repente. Os olhos dela miraram meu ombro. Sua expressão mostrou curiosidade, então surpresa, depois fúria. “Ei!”, gritou perto do meu ouvido, e praticamente me derrubou quando partiu em velocidade. Eu me virei e vi, no início do quarteirão, um garoto na varanda de Betty Lou. Tinha a sacola branca de donuts na mão. Parou no degrau mais alto para nos olhar e começou a correr.
Alvina o caçou pela Ringgold, depois em um beco onde ambos desapareceram, embora ainda pudesse ouvir os gritos dela. E depois não mais. Continuei no meu caminho para casa quando ela veio resfolegando de volta pela rua. Ela apontou um dedo na direção da casa de Betty Lou. Ela gritou: “Mais do que merecido, sua maluca!”.
Ela estava perto de mim agora, mas de repente deu cinco passos para trás. Ela deu um gritinho. “O que é isso?”
Eu tinha tirado o Canela do meu bolso e o empoleirado no meu ombro.
“Meu rato de estimação”, disse eu. “O Canela.”
“Você tem um rato de estimação?” Seus lábios estavam curvados como se tivesse cheirado algo ruim. Ursinho Pooh continuava radiante.
“Melhor bicho de estimação do mundo”, disse eu. “Venha cumprimentá-lo.”
Ela salientou, claramente para mim, não para o Canela. “Sabe de uma coisa? Você também é maluca.” Atravessou a rua e continuou para casa, resmungando, “Esse lugar é cheio de malucos.”
Desviei até a loja de Margie, comprei alguns donuts e os trouxe de volta para Betty Lou. Eu a convenci a abrir a porta o suficiente para me deixar empurrá-los para dentro. Nós tivemos uma conversa agradável, e concordamos que sempre que ela estivesse em um dia ruim, penduraria uma meia-chinelo vermelha de dormir na janela da frente, então a Dootsie e eu estaríamos alertas para dar-lhe uma atenção especial naquele dia.
E todo o tempo que estive na casa de Betty Lou, continuei me lembrando do rosto do garoto em sua varanda. Era a mesma cara que eu tinha visto durante a entrega de leite. No contêiner de lixo.
19 de abril
Nascer do sol.
Tenho pensado nisso desde a última entrega de leite com meu pai. Desde a carta de Archie. Desde que virei a primeira página dessa carta para você, que está se tornando a Maior Carta da História Mundial, e li a primeira frase.
E então decidi limpar minha mente na Montanha Encantada uma vez por semana, no nascer do sol.
Meus pais não ficaram muito felizes. Eles não gostavam de me ver na rua quando ainda estava escuro. Por outro lado, gostavam de ver o quanto eu ficava conectada a coisas como essa. Assim, definimos um plano. Compramos walkie-talkies, um para mim, um para minha mãe. E uma lanterna para mim. Farei isso nas quintas-feiras. Comecei hoje.
Minha mãe se arrastou para fora da cama e sentou na varanda para me ver enquanto eu descia caminhando a rua Rapps Dam. Ela ficou com a missão porque, é claro, meu pai, o leiteiro, já partiu há muito a essa hora. Com minha lanterna ligada, minha mãe podia me ver durante quase todo o percurso até a Rota 113. Atravessei a rua e um minuto depois estava no meio da Montanha Encantada. A primeira coisa que fiz foi falar com minha mãe pelo walkie-talkie e dizer-lhe que estava bem. Ainda estava bastante escuro, mas o céu clareava a cada minuto. Sentei-me em uma esteira velha de praia que carregava junto comigo. Fiquei de frente para o leste e fechei meus olhos, então me dissolvi nos elementos. Algum tempo mais tarde, um brilho nos meus olhos me contou que o sol havia nascido e que era hora de ir.
Quando voltei para casa, imaginei que encontraria minha mãe cochilando na varanda, mas ela não estava. Estava totalmente acordada. Sorriu, me abraçou e disse: “Por que tenho que estar ligada a duas pessoas que saem de casa no meio da madrugada?”. Nós rimos e voltamos para cama. Um dia, espero poder ser uma mãe tão boa quanto ela.
23 de abril
Quero deixar um donut para o homem no cemitério, o Charlie da Grace. Mas estou um pouco insegura. Será que estarei me intrometendo? Imagine isso – Estrela com medo de ser intrometida!
24 de abril
Certo, decidi. Vou fazer isso. Comprei um donut na Margie. Açúcar com canela. Eu o deixarei no local do túmulo da Grace hoje à noite, então Charlie o encontrará amanhã quando chegar.
Terei o cuidado de colocar a sacola ao lado do túmulo, não em cima dele.
25 de abril
Eu me acovardei.
26 de abril
Eu fiz. (Com um donut novo.)
27 de abril
Fui ao cemitério essa tarde. Estava um dia quente e bonito. Perfumado. Ele vestia um suéter cinza. O cachecol xadrez vermelho e amarelo encontrava-se estendido no encosto da cadeira.
Eu circulei de um lado para o outro atrás dele. Mantive distância. Não vi a bolsa branca. Ele a pegou!, pensei, animada. Então, vi a bolsa, a alguns túmulos de distância. Não parecia ter sido aberta, balançando-se contra uma lápide, como se ele a tivesse arremessado com raiva para lá. Talvez até mesmo a chutado.
Eu sou uma abelhuda, intrometida, atrevida, enxerida, impulsiva.
30 de abril
Tentei de novo.