Com amor, a garota chamada Estrela
Parte 2
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
1º de maio
Mesma história. Dessa vez a chutou para mais longe. Eu deveria desistir?
4 de maio
Dootsie e eu tocamos nossos mindinhos, nosso sinal secreto de afeto. Como você e eu costumávamos fazer. E tristemente penso no que Archie diz, que o som de pássaros extintos pode estar preservado no canto dos tordos.
19 de maio
Festival de Dogwood!
Ele já está rolando desde segunda-feira, mas hoje, sábado, é o grande dia.
Primeiro a parada. Pessoas enfileiradas na rua Principal do centro da cidade até o parque Bemus. Bandas. Carros de bombeiros. Academias de dança. A liga infantil de basebol. Palhaços e monociclos. Políticos dando doces em conversíveis. A rainha de Dogwood e sua corte. A grande mestre de cerimônias era a moça que fala do tempo em uma TV.
Dootsie estava superinteressada no doce, um grande tubarão branco entre peixinhos. Toda vez que uma criança de 3 anos de idade se esticava querendo um pedaço, Dootsie o agarrava. Ela estava enfiando os doces em seus bolsos, sua boca. Quando enfiou um minirrolo em seu nariz, estabeleci o limite. Puxei-a para fora da valeta, tirei o minirrolo de seu nariz, apertei seus ombros.
“Dootsie, você está sendo uma porquinha e uma valentona. Está desfazendo todas as coisas legais que fez no 1o de abril.” Olhou fixamente para mim. Desembrulhou o doce de amendoim e o enfiou na boca. E passou o resto da parada dando seus doces para crianças de 3 anos de idade.
O parque Bemus estava lotado. As barracas de comida vendiam de tudo, desde algodão-doce e kebab de carne até bolos de funil e pastel polonês – e, é claro, os donuts da Margie. Você poderia lançar moedas para ganhar um peixe japonês ou encontrar seu futuro na tenda da cartomante. Havia atrações para os mais novos, além de uma casa assombrada e um karaokê com banda o dia inteiro na concha acústica.
Bandos de adolescentes vagueavam por todos os lados. Nunca tinha visto tantos piercings nos lábios e cabelos roxos espetados. Para Dootsie, era um zoológico. Ela continuava me cutucando e sussurrando: “Olha! Olha!”.
Em certo ponto, aconteceu de eu estar olhando para uma barraca de algodão-doce e maçãs-do-amor quando vi o garoto – o rosto no contêiner de lixo, o garoto na varanda de Betty Lou. Alguém tinha acabado de pagar por algo e o funcionário tinha se virado para pegar o troco quando o menino guinou para a barraca, estendeu a mão, pegou uma maçã-do-amor no balcão, e seguiu seu caminho.
Comecei a puxar Dootsie atrás dele – não sei o que eu tinha em mente – mas não fomos muito longe, porque naquele instante ouvi um grito terrível, e as pessoas começaram a se virar e correr.
Vozes de criança gritaram: “Briga!”. Eu estava perto, em frente à barraca de cachorro-quente do Clube Rotary. Dois garotos estavam no chão. O de cima agredindo o de baixo, socando-o no rosto. Fiquei paralisada. Não me lembro de ter visto uma briga de verdade antes. Até aquele momento, para mim, uma pessoa acertando outra era algo de livros e filmes. História. Mas história nunca me fez enjoar. Tudo isso aconteceu em poucos segundos, então dois homens arrancaram os garotos do chão e os separaram mesmo enquanto continuavam a se jogar na direção um do outro.
Um deles era um garoto, o que estava por baixo. Loiro. O outro era Alvina. O rosto do garoto estava ensanguentado do nariz para baixo.
Havia, inclusive, um vestígio de sangue em seu cabelo loiro. Eu não tinha certeza, mas poderia ser um dos três garotos na loja de donuts naquele dia. Ele estava cuspindo ruídos sangrentos para Alvina, que olhava para ele com um ódio que nunca vi em um rosto humano antes, nem mesmo na Escola de Ensino Médio de Mica no ano passado. Então ela cerrou o punho e o ergueu para o garoto, dizendo em um rosnado suave, quase um sorriso, dentes expostos: “Experimente isso, punk”. Mas algo um pouco antes daquilo chamou minha atenção. Devia ser novo, porque tenho certeza de que o teria notado antes.
Era a unha do seu dedo mindinho. Ela estava diferente. Nem lisa, nem curta, nem acabada que nem unhas de garotos como as outras. Estava grande. E rosa. E cintilante. E estava elegante. E então desapareceu no punho cerrado.
Os homens os estavam puxando em direções opostas quando Alvina gritou: “Espere!”. Ela se soltou do homem num puxão (quase, porque continuou segurando-a pelo pulso) e foi remexer ao redor da terra até encontrar alguma coisa. Ela o pegou, cuspiu nele, limpou com a barra da camisa, e o colocou em seu bolso. Era seu cordão de Ursinho Pooh amarelo sorridente.
No instante seguinte, um horror substituiu o outro. De repente, me dei conta da mão de Dootsie na minha. Olhei para baixo. Ela estava olhando para mim. Seus lábios tremiam. Lágrimas rolavam por seu rosto. “Oh, Dootsie”, disse eu. “Me desculpe.” Eu a levantei e saí correndo.
Só diminui o ritmo quando estava fora do parque Bemus. Ela estava chorando agora, seu pequeno corpo erguido contra o meu. Tentei colocá-la no chão, mas não me soltaria. Caminhei mais um pouco, falando com ela. “Isso foi totalmente minha culpa, Dootsie. A Estrela é má. Nunca deveria ter deixado você ver aquilo. Só estava pensando em mim mesma e esqueci completamente da minha melhor amiga Dootsie. Nunca me esquecerei de você novamente.”
Sua voz fina veio através de soluços. “Promete?”
Beijei suas lágrimas salgadas. “Promessa tripla.”
Não demorou muito e estávamos sentadas uma do lado da outra nos degraus da biblioteca.
“Alvina é má”, disse ela.
“Ela é só uma pestinha”, disse eu.
“O que é uma pestinha?”
“Bem, uma pestinha é uma pessoa irritada. Alguém que pode estar um pouco fora de controle.”
“Odeio a Alvina.”
Eu a coloquei no meu colo. “Não, não odeie a Alvina.”
“Odeio sim. Odeio seu namorado também. Porque ele largou você.”
Eu ri. “Também não odeie ele. Você não deve odiar ninguém.”
“Não posso evitar. Preciso.”
“Não”, disse a ela, “você não tem que odiar. Se começar a odiar uma ou duas pessoas, não será capaz de parar. Logo estará odiando uma centena de pessoas.”
“Um zilhão?”
“Até um zilhão. Um pouco de ódio percorre um caminho longo, longo. Ele cresce e cresce.
E fica faminto.”
“Como o Panela?”
“Ainda mais faminto. Você continua a alimentá-lo com mais e mais pessoas, e quanto mais pessoas ganha, mais quer. Ele nunca fica satisfeito. E logo espreme todo o amor para fora do seu coração”, apontei para o coração dela, que olhou para o peito, “e tudo que terá restado para você será um coração cheio de ódio.”
Ela me olhou séria e sacudiu a cabeça. “Eu não vou ficar faminta. Só vou odiar a Alvina.”
Lá se vai a minha lição.
“Vou te dizer uma coisa”, disse eu. “Antes de começar a odiar a Alvina, vamos dar outra chance a ela.”
“Por quê?”
“Porque acho que ela tem um problema.”
“Que tipo de problema?”
“Acho que está com raiva.”
Ela ergueu os olhos para encontrar os meus. “Com raiva de quê? Do menino?”
“Não sei”, disse eu. “Talvez do menino. Talvez de algo mais. Talvez ela só esteja tendo um amadurecimento doloroso.”
“Amadurecimento doloroso? O que é isso?”
“É quando uma criancinha começa a virar uma criança grande. Às vezes isso dói.”
“Eu terei um amadurecimento doloroso?”
“Talvez só um pequenininho.”
“E vou bater num menino?”
Eu a desci para a calçada. Nós seguimos para casa.
“Certamente espero que não”, disse eu.
21 de maio
Hoje convidei a mim e à Dootsie para jantar na casa de Betty Lou. Nós chegamos lá no meio da tarde, para podermos ajudá-la a fazer seu famoso purê de batata com queijo e alho, ou mais especificamente, para Dootsie poder amassar as batatas.
Assim que Betty Lou e eu começamos a descascar as batatas, Betty Lou disse: “Então. Como foi o Festival de Dogwood? Quero que me contem tudo”.
Dootsie falou: “Alvina bateu em um menino!”.
Betty Lou se virou para mim. Assenti. “Infelizmente é verdade.”
“Ela o machucou?”, perguntou Betty Lou.
“Ele estava sangrando”, disse Dootsie. “Eu chorei.”
“Tudo terminou em um minuto”, falei. “As pessoas os separaram.”
“Alvina é uma pestinha”, disse Dootsie.
Betty Lou deu um sorriso triste e balançou a cabeça. “Isso ela é.”
Dootsie disse: “Eu quero ser uma pestinha”.
Betty Lou a engoliu com um abraço e riu alto.
“Você é uma pestinha, minha pequena pestinha-tampinha. Agora me contem sobre o festival. O que acharam da rainha de Dogwood? Ela estava bonita?”
“Eu peguei um monte de doce!”, disse Dootsie.
“Ela estava bonita”, disse eu.
“Eu fui uma porquinha e uma valentona!”
Betty Lou assentiu em concordância. “A rainha sempre é bonita. É sempre uma garota do último ano do ensino médio, sabe. Na sexta-feira, é só mais uma aluna nos corredores. E no sábado”, seus punhos se abriram em dedos, “poof! Ela está lá em cima no banco de trás de um conversível brilhante, sorrindo para seu povo, acenando. Uma rainha. Perfeita.”
Ela estava olhando para fora da janela da cozinha. Estava vendo festivais passados, rainhas de outros maios.
“Eu dei todos eles!”, gritou Dootsie.
Betty Lou sorriu na direção da janela. “Eu fiz parte da corte da rainha, caso não saiba.”
Fiquei chocada. “Betty Lou! Você fez mesmo?”
“Sim. Não era bonita o suficiente para ser a rainha, é claro. Mas eu tinha uma aparência atraente, do meu próprio jeito.” Ela me deu um sorriso manhoso. “Acredite ou não.”
“Ah, acredito”, disse-lhe rapidamente, antes que meus olhos, vendo a dama em meias vermelhas de dormir, roupão roxo e cabelo grisalho do outro lado da mesa, tivessem uma chance de discordar.
“Na época, nos chamavam de flores. A rainha e suas seis flores.” Ela esticou a língua e fez um som de engasgo. “Acredita nisso? Soa tão exótico agora, não soa? Bem, isso é um problema, não é? Do que eles deveriam nos chamar, a rainha e as seis perdedoras? Tão estúpido. Mas na época, vou te dizer, Estrela, eu assumia meu papel de flor com muita seriedade. Muita seriedade.” Começou a rir. “Ha! A ponto de quase ser inadequado, minha mãe diria. Ela teve que praticamente arrancar o vestido do meu corpo quando fui para cama naquela noite.”
Ela se sentou na ponta da mesa, olhou em volta e, de repente, não estava mais na cozinha, e sim na parada, acenando, sorrindo, soprando beijos. Dootsie e eu aplaudimos. Betty Lou voltou ao presente, olhou para nós. “Sabe, você não viveu até se deleitar com a adoração do povo.”
Enquanto Betty Lou se ocupava com o forno, meus pensamentos voltaram para a formatura da Escola de Ensino Médio de Mica mais ou menos nessa época, ano passado. Algum arrependimento, Leo? Gostaria de ter ido comigo? Tenho certeza de que já ouviu tudo a respeito da formatura. Aquela Estrela maluca aparecendo em uma bicicleta dirigida por um motorista. Dançando sozinha, depois com todos os garotos.
E a dança do coelho. Levando-os para as quadras de tênis iluminadas por lanternas no escuro. Eis a verdade, Leo. Até a dança do coelho, eu estava indo bem. Estava me divertindo e aos meus colegas de escola, colocando você e sua rejeição de lado. Mas lá fora no escuro, quanto mais longe da música e da luz nós íamos, mais eu pensava em você, e me ocorria que talvez eu pudesse criar um pequeno encantamento. Conforme seguíamos cada vez mais fundo na escuridão, eu queria – desejava – que algo mágico pudesse acontecer, que as mãos que sentia na minha cintura, se dançasse pela escuridão da maneira correta e por tempo suficiente, se tornariam suas mãos.
Mas, é claro, isso não aconteceu. Quando voltamos para a luz e olhei, era Alan Ferko atrás de mim, e não você.
Mas agora Dootsie tinha feito ela mesma desaparecer. Faz isso se pensa que não está recebendo atenção suficiente. Ficou no canto, de olhos bem fechados, sem fazer barulho, quieta como um abajur de piso, com o Canela visível como de costume em seu ombro.
“Onde está a Dootsie?”, disse Betty Lou com uma piscada.
Eu olhei em volta. Olhei direto para o canto. Dei de ombros. “Eu não sei. Ela deve ter desaparecido de novo. Parece que dessa vez ela levou o Canela junto.”
Betty Lou chamou: “Dootsie? Você está aí?”.
Ela se manteve em silêncio no canto.
“Como ela faz isso?”, disse Betty Lou, maravilhamento em sua voz.
“É um dom”, disse eu.
“Você acha que nós voltaremos a vê-la?”, disse Betty Lou, preocupada.
“Quando ela estiver pronta”, disse eu.
Betty Lou assentiu, aliviada. “Ótimo. Então me conte sobre o restante do Festival de Dogwood.”
Eu contei tudo a ela, detalhei o melhor que pude. Nesse meio tempo, o cheiro de peito de peru assado e tofuru (sim, peru de tofu, continuo vegetariana) preencheu a casa. Pensei ter visto um nariz aparecer no canto, só tempo suficiente para farejar.
Quando terminei, Betty Lou voltou a olhar pela janela. “Você acha que algum dia verei outro Festival de Dogwood?” Ela se virou para mim. Os olhos dela brilhavam. “Você acha, Garota das Estrelas?”
Eu queria chorar. Por cima da mesa da cozinha, nós apertamos as mãos uma da outra. “Verá sim”, disse a ela, sem saber se acreditava em mim mesma.
Betty Lou verificou o pote grande no forno. “E agora? As batatas já estão prontas para serem esmagadas, e a Dootsie, a Super Amassadora de Batatas, não está em nenhum lugar que eu possa ver.”
“Estou aqui! Estou aqui!!” Dootsie veio correndo para a visibilidade, o Canela se pendurando no ombro dela como se sua vida dependesse disso. “Eu irei esmagá-las!” Ela começou a tirar os sapatos.
Ela teve que ser convencida a não fazer isso com os pés. Ela tinha visto uma imagem de fabricantes de vinho pisoteando uvas. Então teve que ser convencida a não deixar o Canela pisotear.
Pelo menos as batatas foram amassadas, e o jantar, comido. Levei Dootsie para casa. A última coisa que disse quando lhe dei um abraço de boa-noite foi: “Eu quero fazer um festibal”.
26 de maio
Então, hoje tivemos o Festival da Dootsie.
Como o Festival de Dogwood, ele começou com uma parada. Dootsie nomeou o Canela o grande mestre de cerimônias e se nomeou “rainha Mandona”. Estava enrolada em panos de prato, parecia pensar que era glamoroso. Ela calçava os saltos altos da mãe e, no cabelo, um pente branco de plástico que chamou de coroa. Puxei-a para lá e para cá em um pequeno carrinho de madeira. Sorriu e acenou para a multidão (cerca de dez pais) ao longo da rua Ringgold. O Grande Mestre de Cerimônias sentado em seu ombro.
Ela era seguida por três assistentes, caminhando – nenhum carrinho para eles. Duas eram menininhas da vizinhança. A terceira era um labrador preto chamado Roscoe. Eu disse a Dootsie que era um cachorro macho, mas ela não se importou. Roscoe vestia uma saia rosa de balé.
O resto da parada consistia em um garoto com uma tartaruga, um menininho em um triciclo, uma banda marchando (dois garotos de 10 anos tocando uma gaita e um kazoo, mas principalmente jogando conversa fora), um Darth Vader de menos de um metro de altura, uma avó segurando a mão de uma criança de olhos arregalados, e um jovem empinando seu skate.
Depois de um quarteirão, a rainha Mandona gritou: “A parada acabou!” e todos nós voltamos para a casa dela para ver o festival.
Nós tínhamos um monte de atrações: venda de bolo, leitura da sorte, arremesso de moeda e montanha russa de carrinho. E, é claro, uma barraca de limonada. Até apresentei um concerto de ukulele.
O Grande Mestre de Cerimônias tentou tirar uma soneca na cesta da bicicleta, mas o cafuné de mãozinhas continuou a mantê-lo acordado. Tenho certeza de que tudo foi assistido por Betty Lou, embora não pudesse vê-la.
O festival estava movimentado quando o vi na calçada da frente. O rosto do contêiner de lixo. Na varanda da Betty Lou. A barraca de maçã-do-amor.
Ele estava falando com a vendedora de limonada, a rainha Mandona em pessoa. Eles estavam jogando conversa fora. Ela serviu um copo de limonada para ele, que jogou uma moeda na caixa registradora (sua tigela de cereais do Babar). Mantive os olhos em suas mãos, esperando que uma delas, a qualquer momento, deslizasse dentro da tigela e pegasse alguma coisa. Imaginei se ele não estava papeando com Dootsie para distraí-la. Imaginei se no momento em que ela se virasse, ele apanharia a tigela como tinha feito com os donuts e a maçã-do-amor. Mas a única coisa acontecendo era a conversa. Ele gesticulava com as mãos, contando uma história. Estava rindo e dizendo coisas de volta. Na verdade, eles estavam se divertindo tanto que, de repente, senti uma pontada de inveja por Dootsie – minha pequena Dootsie – estar tão instantaneamente entusiasmada com esse novo menino.
Meu impulso foi caminhar diretamente até lá e recuperar meu território, deixá-la mostrar a ele quem era sua melhor amiga. Mas hesitei. Eu o tinha visto tão claramente três vezes – três vezes roubando (bem, duas – ou você pode roubar de um contêiner de lixo?) – que senti que precisava ser tão memorável para ele quanto ele era para mim. Mas quando ergueu os olhos da mesa de limonada e mirou na minha direção, o garoto não pareceu me reconhecer. Tinha o cabelo preto que caía sobre seus olhos e suas orelhas. Sua pele parecia ter sido tostada pelo deserto do Arizona. Mesmo a certa distância, podia ver que seus olhos eram azuis.
Ele puxou um par de óculos escuros – roubados, sem dúvida – de seu bolso e os colocou. Vi as mãos de Dootsie voarem e a ouvi gritar: “Eu! Eu!”. Ele os colocou nela. Ela deixou ele fazer isso, pensei. Ela não havia me deixado colocar meus brincos nela. Dootsie se levantou e desfilou pela calçada. Virou-se e olhou direto para o sol. “Dootsie!”, gritei, mas ele já estava lá, virando seu rosto de lado, tirando seus óculos, repreendendo-a por olhar diretamente para o sol. Senti-me ultrajada. Ei, quis gritar, deixa que faço a repreensão por aqui.
Ele esticou a mão e se cumprimentaram. O garoto estava se despedindo. Por favor, não a abrace, pensei. Ele colocou a mão no topo da sua cabeça e bagunçou seu cabelo. Ela riu e ele subiu a rua, caminhando.
Eu o segui.
Mesmo agora, não sei bem por quê. Permaneci um quarteirão ou dois atrás, do outro lado da rua.
Foi uma longa caminhada, de volta para o centro da cidade, passando pela Donuts da Margie, pela Pizza Delícia e pelo Cinema Colonial, e depois pelo prédio do Folha de Lenape, pelo restaurante Cometa Azul e pelo Hotel Columbia, e então sobre a ponte do canal. Quando chegou ao mercado Produce Junction, ele desviou para o estacionamento. Caixas de frutas e vegetais estavam expostas do lado de fora da porta. Pegou dois limões conforme passava por elas e seguiu para a rua do Canal. Enfiou um limão em seu bolso. Abriu o outro e começou a chupar uma metade. Só de observá-lo, minha saliva secou. Caminhei mais rápido. Ele estava passeando com seus óculos escuros, mais desfilando do que andando, chupando seu limão, cuspindo sementes na rua como se fosse dono do mundo. Senti minha bile subindo. Ainda estava seis metros para trás quando virou na direção de um edifício pequeno, de blocos cinza, no canal. A fachada que dava para o canal estava aberta como uma garagem. Acima da abertura, uma placa pintada à mão dizia OFICINA DE REPARO DE BICICLETAS E CORTADORES DE GRAMA DO IKE. Ike estava debruçado na sujeira do lado de fora, puxando a corda de um aparador e xingando cada vez que não funcionava. O garoto deu a volta pela lateral e subiu dois degraus para a porta dos fundos.
Eu chamei: “Ei!”.
Ele me olhou, com sua mão na maçaneta. Não falou, só esperou. Não removeu seus óculos escuros. Quanto mais tempo ficava ali em pé, mais desconfortável me sentia por ele poder ver meus olhos e eu não poder ver os dele.
Me aproximei. “Por que você pegou aqueles limões?”, disse eu. “Por que você rouba coisas?”
Nenhuma resposta. Nenhuma expressão. Senti que se eu pudesse arrancar seus óculos escuros, encontraria duas frias pedras azuis. Ele jogou a metade do limão fora e enfiou a outra metade na boca. Mexeu-a de um lado para o outro, e seus lábios franziram, e de repente cuspiu uma semente em mim, que saltou no meu peito. E continuou lá, mastigando com sua boca aberta. Pensei ter visto um pequeno desdém em seus lábios pouco antes de ele abrir a porta e entrar.
28 de maio
Finalmente, tenho um nome para o garoto, o ladrão de limão. Perry. Ele não se parece com um Perry para mim, mas foi o que ele disse a Dootsie. Também disse a ela que dorme no telhado em noites quentes. E que pesca no canal. E que às vezes nada nele mesmo que ninguém devesse fazer isso. Dootsie me disse tudo isso enquanto almoçávamos no Cometa Azul. Ela que pagaria a conta – parte dela, de qualquer maneira, com seus lucros com o festival – $11,27 – e insistiu em me levar para almoçar.
“Então”, disse eu, “o que ele mais falou?”
Ela lambeu o catchup de uma batata frita. “Não me lembro. Coisas.”
“Eu vi você rindo.”
“Sim. Ele era engraçado.”
“E legal?”
“Uhum.”
Quando terminou de limpar a batata-fria com lambidas, ela começou a lamber outra.
“Se você só queria o catchup”, disse eu, “por que pediu as batatas fritas?”
Ela suspirou, tentando ser paciente. “Porque você não pode simplesmente beber catchup, sua pateta.”
Nós passeamos pelo centro por um tempo, depois fomos para a Margie comer a sobremesa da tarde. Dootsie pegou um com cobertura de granulados, e peguei um com capa de chocolate. Assim que nos sentamos, Alvina entrou direto pela porta. Ela acenou para mim. “E aí, maluca. Fez alguma maluquice hoje?”
Dootsie sussurrou: “Ela vai bater em você?”
Eu sussurrei de volta: “Acho que não”.
“Ela vai bater em mim?”
“Ela não vai bater em ninguém. Relaxe. Coma seu donut.”
Alvina colocou seus livros atrás do balcão e voltou com sua vassoura. “Você não vai ficar sentada aí o dia inteiro tomando conta de um donut, hum?”, disse ela.
“Talvez eu vá”, disse eu. “Algum problema?” Posso até ter rosnado.
Eu senti Dootsie se levantando atrás de mim. “É. Algum problema?”
Ela estava rosnando de fato. Granulados vermelhos e azuis caíram do donut meio comido que sacudiu na cara da Alvina.
Alvina nos encarou inexpressiva – e rápida como um ladrão de limão, ela pegou a metade do donut da mão de Dootsie e o enfiou na boca.
Dootsie reclamou. “Margie! Ela roubou meu donut!”
Margie gritou do balcão: “Inacreditável. Vocês parecem três bebês imaturos”. Ela pegou outro coberto com granulados na prateleira e o jogou em nossa direção.
“Aqui. Agora se calem, todas vocês, ou as chutarei para fora.”
Peguei o donut e o entreguei a Dootsie, que mostrou sua língua coberta de granulados para Alvina, que foi embora varrendo.
Quando Alvina terminou de varrer, voltou e se sentou em nossa mesa.
“Não gosto de você”, disse Dootsie.
“Dootsie”, disse eu, “seja simpática”.
Mas Dootsie não parou. “Quando for grande o suficiente, vou bater em você.”
Alvina olhou para ela do outro lado da mesa. Seu rosto inexpressivo como de costume. Faz meses que a conheço agora e nunca a vi sorrir. E, ainda assim, havia algo lá, abaixo da superfície, atrás dos seus olhos, na borda de seus lábios, algo mais suave, algo escasso. Ela cerrou o punho lentamente e lentamente atravessou a mesa até parar a centímetros em frente ao nariz de Dootsie. Os olhos de Dootsie envesgaram enquanto o acompanhavam. Enfiada no punho estava a elegante unha rosa do dedo mindinho.
Dootsie se afastou, mas só para proteger seu novo donut. Ela o segurou atrás da cadeira. Ela não estava nem um pouco com medo de Alvina. Os olhos delas estavam travados uns nos outros, mas elas não demonstravam nem medo nem raiva. Os olhares eram mais de sondagem do que de confronto. Dootsie voltou com o rosto até ele estar novamente em frente ao punho. Ela arreganhou a boca o máximo que conseguiu, ainda olhando nos olhos de Alvina, fechou os dentes devagar, gentilmente, nas juntas dos dedos de Alvina. Alvina não os puxou. Dootsie não mordeu com força. Algo estava acontecendo ali que não entendi, e, de alguma forma, isso tornou tudo mais especial. Olhei para Margie. Ela estava olhando, de boca aberta, a cafeteira na sua mão equilibrando em cima de uma xícara. Quando me virei de volta, Dootsie estava soltando a mordida e Alvina repousou sua mão esticada sobre a mesa.
A voz de Margie quebrou o encanto: “Alvina. De volta ao trabalho”.
Alvina pegou a vassoura e se dirigiu para a cozinha na parte de trás.
31 de maio
Quando tentei limpar minha mente hoje, uma pitada de mim não evaporou. Eram aqueles olhos de pedras azuis atrás dos óculos escuros e a semente de limão pulando na minha camisa. Por hoje, pelo menos, acho que fui reprovada em Elementos da Nulidade.
4 de junho
EXCURSÃO:
SALTO DA DONZELA
Ela ficava lá em pé, a garota de Lenape.
Ela tinha apenas treze ou quatorze,
dizia a lenda.
Aqui nesta falésia alta com vista para as ruínas despedaçadas da velha usina,
famosa na Revolução por fazer o melhor
canhão do exército de George Washington.
É claro que ela não era uma siderúrgica na época, apenas floresta,
talvez pedras.
Ela ficou lá em pé e então pulou...
bem, talvez saltou, já que isso é um poema e um salto soa mais poético
do que um pulo.
De qualquer modo, ela desceu para sua morte,
a garota de Lenape de 13 ou 14 anos,
porque seu pai não deixou que casasse
com o garoto que amava.
Parada aqui, me pergunto coisas.
Me perguntei se ela começou lá atrás e
veio correndo, e praticamente voou
da beira.
Ou se ela veio devagar, como uma corrente de água através de uma mesa que parece fazer uma pausa na borda, adensando-se
antes de derramar?
E se ela parou lá e esperou, por quê?
Pelo que estava esperando?
Estava dando ao tempo uma última chance
de salvá-la? À felicidade uma última chance
de acontecer?
Rá! É mais fácil reorganizar as estrelas do que a mente de um pai.
Ela olhou para baixo?
Olhou além?
O que ela viu?
Viu o rosto dele? Do garoto?
Ela o viu acenar para ela, chamá-la
ao longe? Viu os dois,
ele e ela, fugindo, rindo pelas pradarias
de chicória e cenoura selvagem, flores que conheciam por outros nomes?
E o nome dele, ela o pronunciou?
Ela o gritou do topo do escarpado
para toda a terra lá embaixo?
Ou o sussurrou, para que apenas os ouvidos dele escutassem?
Uma coisa é certa, e está clara agora:
ela não estava olhando para baixo.
Disso eu sei.
5 de junho
O ensino domiciliar está encerrado!
Ao meio-dia comemorei me juntando a você para tomar smoothies no shopping. Banana com morango, é claro. Seu favorito. Nós nos sentamos na última mesa, conversamos e bebemos. Contei a você as últimas novidades sobre Dootsie. Você me atualizou sobre seu amigo Kevin, minha amiga Dori Dilson e nosso amigo Archie. Você me disse que está ansioso para as férias de verão. Me disse que se candidatou a faculdades na Pensilvânia, já que sabe agora que é onde estou. Disse que pensa em mim todo dia. Disse que às vezes vai ao lugar encantado no deserto, tira os sapatos e senta lá como fizemos da primeira vez. Só que não medita. Você não está nem um pouco interessado em apagar a si mesmo ou a mim. Oh não. Exatamente o contrário. Você fecha os olhos e se lembra. Se concentra e se lembra com mais afinco do que jamais se lembrou em sua vida, e logo tem certeza de que pode me sentir lá, sentada de pernas cruzadas na sua frente, sorrindo para você, o Canela no espaço entre nós. Você me sente. Você nos faz reviver. Você está tão feliz. E então tão triste quando abre os olhos e percebe que não estou realmente lá. É nesse momento que mais sente minha falta. Desesperadamente.
Diga-me que não imaginei isso, Leo. Diga-me que mesmo nossos corpos estando em estados diferentes, nossos eus estrela compartilharam um lugar encantado. Diga-me que em torno do meio-dia de hoje (fuso horário do leste), você teve a sensação mais estranha: um pequeno calafrio em seu ombro... uma palpitação no coração... um vestígio de morango e banana cruzando sua língua...
Diga-me que sussurrou meu nome.
12 de junho
O sonho de ontem à noite...
Entrega de leite. Garrafas tilintavam nas prateleiras. Luzes de faróis dançavam na escuridão. Lá... tem alguém em um contêiner de lixo... de cabeça baixa, remexendo... a pessoa olha para cima, os olhos brilhando como uma raposa surpresa... mas não é esse menino Perry... é você.
15 de junho
Continuo pensando em Charlie no cemitério. Sentando lá dia após dia. Falando com a Grace. Relembrando. Cochilando. Acho que ele deve odiar a certeza absoluta: saber que cada vez que acorda de um cochilo, ela estará lá. Cada vez que chega de manhã com sua cadeira de alumínio, ela estará lá. Ela nunca mais estará no porão procurando pelos pêssegos encantados. Nunca mais no quintal conversando com a senhora Isso e Aquilo, a vizinha. Nunca mais estará em lugar algum além dali.
Isso te faz pensar, Leo? Algum dia num futuro distante, quando a Via Láctea tiver virado outro clique cósmico, alguém carregará uma cadeira para seu túmulo e te fará companhia para sempre? Consegue imaginar alguém te amando tanto assim? Eu consigo?
E estou pensando que talvez eu tenha feito a coisa do donut toda errada. Como é que ele ia saber o que tinha na sacola? Ou que os donuts eram para ele? Provavelmente pensou que era apenas lixo e, em nome de Grace, o chutou para longe.
Então, dessa vez, farei diferente. Peguei uma pequena cesta de vime branco. Coloquei três donuts. Cobri os donuts com filme plástico, para que pudesse ver o que tem lá. Vou fugir amanhã de manhã cedo, à la Dootsie, enquanto ainda estiver escuro, e deixar o cesto perto da lápide.
16 de junho
Ele a pegou!
Pedalei até o cemitério essa tarde. Estava nervosa. Pedalei por perto, atrás dele. Mantive distância. A princípio, não a vi. Então mudei o ângulo, e lá estava ela, a cesta branca, repousando na grama ao lado de seu pé. Estava cochilando, com seu queixo no peito. Fiquei tão feliz que dei um gritinho “Iupi!!” enquanto pedalava embora.
18 de junho
Esse é o novo anúncio que coloquei na Folha de Lenape hoje. Não sei se ele lê o jornal. Decidi que seria mais seguro não usar nomes:
Todo dia ele a visita,
fala com ela,
dorme com ela.
21 de junho
Solstício de verão.
Quando você acordou essa manhã, querido Leo, o sol estava diretamente acima do Trópico de Câncer. Você nunca mais o encontrará tão ao norte. Esse é o dia mais longo do ano. De agora até o solstício de inverno, em 21 de dezembro, cada dia será poucos minutos mais curto do que o dia anterior. Hoje é o começo oficial do verão.
Em outras palavras, é um feriado. Não um feriado para as pessoas, mas um feriado natural. E quem quer celebrar um feriado sozinho? E já que você não está aqui, pensei: OK, Dootsie.
Quando contei a ela sobre isso na semana passada, a primeira coisa que disse foi: “Vamos nos arrumar!” É incrível como essa criança está sempre um passo à minha frente. Nós fomos para a oficina da minha mãe, e ela mergulhou numa pilha remanescente de seus últimos trabalhos de criação de fantasias, juntou alguns pedaços e voilà: Dootsie parecia ter voado por um arco-íris. Quanto a mim, peguei o vestido de margaridas que usei no Baile do Ocotillo. (Você se lembra dele, não? O baile para o qual não me convidou.)
Decidi fazer isso, obviamente, na Montanha Encantada. Dootsie ficou na minha casa noite passada. Minha mãe contou aos pais dela o que eu tinha em mente. Eles não tiveram problema com Dootsie dormir fora, mas ficaram um pouco preocupados de ela sair enquanto ainda estivesse escuro, mesmo para uma curta distância, mesmo comigo. Então minha mãe ofereceu meu pai.
“Ele dará carona a elas no caminhão de leite”, ela disse a eles.
“Ele não se atrasará para o trabalho?”, eles perguntaram.
“Acontece uma vez ou outra”, disse ela. “Os clientes entendem. Tempo ruim e acasos. Neve. Gelo. Filha maluca.”
“Tudo bem”, eles disseram.
Dootsie estava mole como uma boneca de pano, quando a vesti às 4h30. Como de costume, minha mãe veio à varanda, walkie-talkie no bolso do seu roupão. Ao acender a luz da varanda, percebi que a luz da varanda dos nossos vizinhos do lado, os Cantellos, também estava acesa.
Nós colocamos Dootsie e seu carrinho de madeira – aquele que tinha carregado a rainha Mandona na parada – no caminhão e fomos chacoalhando para a Montanha Encantada. Um minuto inteiro depois, meu pai estacionou o caminhão na ponta mais alta do campo, perto do bangalô de estuque branco, e levou o carrinho e a esteira de praia, enquanto eu carregava a pequena dorminhoca. A terra estava granulosa como sempre, mas mais macia do que durante o inverno. Não usei minha lanterna. A lua crescente e meu pai eram suficientes.
Meu pai desceu o carrinho e ficou ao meu lado olhando o horizonte. Ainda estava muito escuro para dizer onde a Terra terminava e o céu começava. Pegou minha mão e virou-se para nós. Tocou o rosto de Dootsie. Puxou-nos para seus braços e nos segurou, Dootsie respirando tão profundamente entre nós que parecia que ela mesma estava gerando a noite. Senti seus lábios no meu cabelo. Ele me deu um apertão final no braço e se afastou na direção dos dois pontos vermelhos que marcavam o caminhão à distância.
Sentei-me no escuro e embalei Dootsie como um bebê, balançando-a gentilmente, murmurando uma canção de ninar acompanhada pelo ruído suave de nossos vestidos se esfregando um no outro. Quando a noite começou a ceder no leste, eu a acordei. “Acorde. O sol brilhante está vindo. Temos que nos preparar.” Coloquei-a em pé e a forcei a caminhar pelo campo até estar totalmente acordada.
“E onde ele está?”, disse ela.
“Está vindo”, afirmei. O céu no leste estava cinza agora, o pequeno bangalô de estuque entrando no nosso campo de visão. Apontei. “Viu só? Continue olhando.” Posicionei o carrinho atrás dela. “Viu?” Sussurrei em seu ouvido. “Está ficando cada vez mais claro. As cores mudam... olha só... olha só...”
Não falei mais nada. Nós observamos o céu mudar de cinza perolado para azul-claro... E lá... muito além, a 145 quilômetros de distância, um misto de luz mais iluminada, um puff... lá... agora! E, de repente, eu estava em pé e correndo, enquanto percebia ter parado na ponta errada do carrinho, e estava perdendo algo talvez ainda maior do que o próprio sol. Corri diretamente para o sol. Não me preocupei com Dootsie, porque sabia que ela jamais notaria que eu tinha deixado o carrinho. Quando me virei, olhei de volta e vi... e isso é o mais próximo que consigo descrever em palavras. Então vou optar por dizer isso: Vi uma garotinha em um carrinho de madeira, seu vestido derramando cores sobre suas laterais, olhando para o nascer do sol como se ele fosse os primórdios da criação. Enquanto andava na direção dela, não tive pressa de me virar e ver o nascer do sol eu mesma, porque já estava olhando para tudo que precisava ser visto. Ela não se moveu em nenhum momento enquanto eu chegava cada vez mais perto, até que pude ver o brilho crescente do nascer do sol duplicado nos olhos dela.
Voltei ao meu lugar no carrinho atrás dela. Metade nascido, o sol perdeu sua borda e seu laranja e inundou o leste com um amarelo cegante. Peguei-a e a coloquei sobre meus ombros, o lugar adequado para dar as boas-vindas ao nascer do sol. Olhei para a ponta do campo, o caminhão de leite tinha partido. Caminhei em volta de Dootsie. Nenhuma das duas queria se levantar. Somente o sol avançando pelo horizonte indicava que o tempo estava passando. Enquanto caminhávamos sem direção, ela disse meu nome três vezes.
“Estrela?”
“Sim?”
“Isso foi melhor que TV.”
“Foi sim.”
“Estrela?”
“Sim?”
“O sol faz isso todo dia?”
“Sim.”
“Estrela?”
“Sim?”
“Todo dia é um dia de sol.”
Toda arrumada para o solstício de verão, parecia um desperdício simplesmente caminhar direto para casa. Então falei no walkie-talkie com minha mãe e disse a ela que pegaríamos o caminho mais longo. De início, as ruas estavam vazias, exceto pelos motoristas entregando cópias da Folha de Lenape. Os jornais dobrados pareciam saltar por conta própria das janelas dos carros. No momento em que o sol se acomodou no topo das chaminés, ônibus escolares passavam roncando e mulheres em roupões e chinelos se esgueiravam para pegar seus jornais. Nós acenamos para todos que vimos e me perguntei o que eles estariam pensando: uma menina grande puxando uma menininha em um carrinho, as duas enfeitadas como se estivessem indo para um baile de formatura ou casamento. Gosto de pensar que demos a eles um começo feliz para o dia mais longo.
28 de junho
Foi mais uma lavagem de mente do que uma limpeza de mente na Montanha Encantada essa manhã. Não conseguia parar de lembrar, e até de sentir, a mágica da semana passada nos olhos de Dootsie. Senti o maravilhamento ainda habitando a colina, faminto por mais olhos.
29 de junho
Recebi uma carta de Archie hoje. Sinto muita saudade dele. Algumas das minhas memórias mais felizes são me sentar com Archie em sua varanda nos fundos, balançar na cadeira, olhar para o Maricopas roxo através da fumaça de seu cachimbo (você não ama aquele cheiro de cereja?), falar de você até cansar. Ele gostava de você – eu não o deixava não gostar – mas mesmo então, podia dizer que tinha suas dúvidas quanto à minha escolha de namorado. Lembra-se do quanto fiquei acabada quando ninguém apareceu para me felicitar depois que venci o concurso de oratória? Bem, aquilo nem chegou aos pés do quão mal me senti quando vi a reação dele à minha troca de Estrela para a Susan convencional. O brilho nos olhos dele quando contei – talvez esse seja o ponto mais baixo da minha vida. Espero nunca machucar ninguém daquele jeito de novo. Ainda assim, ele queria culpar você. Acreditava que você havia me pressionado a me trair. Tentei dizer que não, que a escolha tinha sido minha. Eu era uma garota crescida e sabia o que estava fazendo; não era nenhum crime ser popular. Ele fingiu entender e aceitar, porque me amava muito, mas nunca me chamou de Susan, e nunca o vi tão feliz quanto no dia em que lhe disse que havia decidido me tornar Estrela novamente.
Quanto a você, acho que ele se sentia em conflito. Queria gostar de você. Ele gosta de você. Você ganha pontos automaticamente por ser o garoto no meu coração. E ele sabe que a melhor parte de você não desistiu sem uma luta. Por outro lado, acho que ele ainda o culpa secretamente por minha autotraição. Não acha que você está, citando as palavras dele, pronto para mim. Diz na carta que deliberadamente despistou você ao dizer que havíamos nos mudado para Minnesota, não Pensilvânia. Tive que rir com isso.
Ele me diz que você ainda vai às reuniões da Ordem Leal do Osso de Pedra. Me diz que mostrou a você minha “oficina” no depósito de ferramentas dele. (Esperava que ele fizesse isso.) Diz que você ficou apropriadamente impressionado e que pareceu sentir-se verdadeiramente tocado. Diz que pode haver esperanças para você, no fim das contas.
4 de julho
Os Caraways e os Pringles passaram o Dia da Independência juntos. As duas famílias são amigas agora, graças às suas filhas. Nós fomos à parada. Amo as bandas marchando mais do que tudo. Dootsie e eu tampamos nossos ouvidos e gritamos quando os caminhões de bombeiros passaram com suas sirenes. Estava bastante quente. Não havia sombra. O senhor Pringle tinha um borrifador de plástico. Ele ficava borrifando seu rosto. Dootsie nem sequer notou o calor, mas ela continuou apertando a garrafa, de qualquer modo, até ter usado toda a água antes da parada chegar na metade. O senhor Pringle não ficou feliz.
Nós fizemos frango, cachorros-quentes e hambúrgueres vegetarianos na churrasqueira no pátio dos Pringles, e comemos no recanto do ar-condicionado. Não me pergunte como fizemos, mas o senhor Pringle chegou a tostar algumas batatas esmagadas em minha homenagem.
De noite, assistimos aos fogos no campo de beisebol da Liga Americana. Dootsie e eu nos sentamos no estilo escorrega em um lençol enquanto assistíamos às cores explodirem e respingarem pelo céu. Milhares de rostos virados para cima iluminados na noite, pessoas em lençóis e cadeiras dobráveis, arfando juntas diante das explosões peroladas, todos completamente em silêncio entre os tiros de canhão dos fogos que explodiam mais ao alto. Parecia que a cidade inteira estava lá, exceto Betty Lou. Me perguntei se ela conseguiria vê-los de uma janela. Perguntei-me sobre o homem perdido com o gorro de lã verde-musgo. E sobre o Charlie da Grace. E Alvina. E Perry. Todos estariam olhando para cima, encantados como o restante de nós?
5 de julho
Quando fui à Montanha Encantada esta manhã, levei mais do que a lanterna habitual, o walkie-talkie e a esteira de praia.
Também levei:
15 metros de corda
1 estaca de croqué
1 martelo pesado
1 espátula
Fiz o seguinte: Bati a estaca no meio do campo. Prendi uma ponta da corda em torno da estaca e caminhei levando a outra ponta em direção ao horizonte, a leste, e esperei pelo sol. Assim que ele apareceu, usei a corda para fazer uma linha reta entre a estaca e o sol. Então, no final da corda, firmei a espátula no solo.
Já descobriu o que é? Estou fazendo um calendário. Uma espécie de Stonehenge. É o modo como nossos ancestrais marcavam a passagem do tempo. Toda quinta-feira colocarei outra espátula. (Comprei um monte delas em uma loja de 1,99. Elas se parecem com pequenas pás brancas de borracha.) Daqui a vinte e quatro quintas-feiras, no dia 20 de dezembro, colocarei a última. Quando chegar lá, as espátulas formarão um arco, um quarto de círculo. O arco delineará o caminho do sol nascente enquanto aparece sobre o horizonte um pouco mais tarde a cada semana. Dia 21 de dezembro é quando estou querendo: o solstício de inverno. É o dia mais curto do ano, o dia em que o sol volta de seu caminho ao norte e começa a se mover para o sul. É o começo oficial do inverno, mas de certo modo também é o verdadeiro começo do verão, porque de 21 de dezembro em diante, cada dia será um pouco mais longo do que o anterior.
Mas os povos antigos nunca tinham certeza de que isso aconteceria de um ano para outro. Eles tinham medo de que a luz continuasse a diminuir mais e mais até finalmente desaparecer. É por isso que tinham as celebrações do Solstício, para persuadir o sol a dar a volta e retornar.
Terei uma comemoração de Solstício de Inverno. Convidarei as pessoas. Talvez o suspense tenha ido embora, mas o maravilhamento nos olhos de Dootsie, é isso que quero compartilhar.
6 de julho
Três dias seguidos acima de 32ºC, é oficialmente uma onda de calor. E é pior do que o calor do Arizona. Não me espanta que você tenha mudado da Pensilvânia. O calor da Pensilvânia não é só quente, ele é úmido. É como caminhar por aí coberta de mingau de aveia quente. É como sentar em uma chaleira soltando vapor. É... ah, deixa para lá, posso ver que não estou conquistando nenhuma solidariedade da sua parte.
Então eu estava me refrescando na biblioteca hoje, sentada no final de uma mesa, lendo poemas de Mary Oliver, quando vi um pequeno movimento voador no canto do meu olho. E um som discreto: plit. De onde estava sentada dava para olhar para o corredor onde terminava a estante de livros. Aquilo parecia ter vindo de um lugar entre as duas estantes. E aconteceu de novo, cerca de quatro metros e meio de distância, voando de entre as estantes – parecia ser uma semente – plect contra a janela da biblioteca. Não precisei pensar duas vezes. Aquele garoto, pensei. Perry.
Quando veio o terceiro plect um minuto depois, decidi que bastava. Desci meu livro numa batida e marchei até o corredor. Lá estava ele, sentado de pernas cruzadas no chão entre as estantes, bloqueando o caminho, lendo um livro, chupando um limão. Fiquei lá parada, encarando ele. De início, pensei que ele estava simplesmente me ignorando. Conforme os segundos se passaram, tive menos certeza. Parecia totalmente imerso no livro. Uma casca chupada de metade de um limão repousava no chão. A outra metade estava se movendo em sua boca.
Sinceramente, fiquei surpresa de ele não estar lendo quadrinhos. Era um livro de verdade. É claro, não era nenhum livrão, mas fino. Não consegui ver o título. Isso me frustrou, porque sempre que vejo alguém lendo um livro, tenho que ler o título. Às vezes, quando isso acontece em um trem ou em uma sala de espera, posso ser muito cara de pau enquanto tento encontrar uma posição para ver a capa. Mas uma coisa de cada vez. “Sei que você sabe que estou aqui parada”, disse eu.
Ele levantou a cabeça, com seus olhos arregalados, uma imitação perfeita de uma pessoa surpresa. “Você ganhou o Oscar”, disse eu.
“Hein?”, disse ele, ainda se fazendo de surpreso. “Deixa pra lá. Você está cuspindo sementes novamente. Uma coisa é fazer isso lá fora. Isso...”
Ele cuspiu mais uma: plect.
“...é uma biblioteca.” Chutei o pé dele.
Ele me chutou de volta. Fiquei chocada. Machucou. Arranquei o livro da mão dele. O nome era Ondine. Uma peça de um autor francês.
Ele o pegou de volta. Tentei dar a ele meu olhar mais perverso, o que me fez parecer meio idiota, já que não tenho muita prática nesse tipo de coisa. E minha encarada foi desperdiçada de qualquer maneira, já que seu nariz voltou ao livro e ele continuou sua representação de Leitor Que Não Sabe Que Há Uma Pessoa Parada na Frente Dele.
Ocorreu-me que a única coisa que me restava fazer era ir embora. Então foi o que fiz. E voltei imediatamente, apontei para ele e disse: “E fique longe da Dootsie”.
Ele não chegou a olhar para cima.
7 de julho
Tenho que admitir, Ondine era a última coisa que eu esperava ver aquele garoto lendo. É uma peça sobre uma menina que não é apenas uma menina, ela é algo próximo a uma sereia. Podemos chamá-la de mágica ou fantástica, mas acho que, acima de tudo, ela é simplesmente humana.