Com amor, a garota chamada Estrela

Jerry Spinelli · Capítulo 3 de 3 · parte 1/4

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Com amor, a garota chamada Estrela

Parte 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

1º de setembro

Cortei uma laranja ao meio.

Nos fundos do nosso jardim fica uma churrasqueira. Ela veio com a casa. Nós ainda não a usamos. Ela é feita de tijolos. A camada superior de tijolos é quase tão alta quanto eu. Foi lá que coloquei uma metade da laranja, a face cortada para cima.

3 de setembro

A própria Margie estava varrendo o chão hoje.

“Cadê a Alvina?”, perguntei a ela.

Ela se inclinou sobre a vassoura, suspirou, balançou a cabeça. “Eu a demiti.”

(É possível ser “demitida” de um trabalho que te paga em donuts?)

“O que aconteceu?”, disse eu.

“Brigou com aqueles garotos de novo. Já disse várias vezes a ela. Não traga esse problema para minha loja. Mais uma vez e você está fora. Ela não pode dizer que não foi avisada.”

“Ela é uma pestinha”, disse eu.

“Nem me diga.” Ela olhou fixamente para mim. “Então... quer um emprego?”

“Não esse.”

“Eu pagaria com dinheiro de verdade. Mais os donuts.”

“Amo seus donuts demais para ficar perto deles o tempo inteiro”, disse a ela. “Se trabalhar aqui, cheirá-los, comê-los todos os dias, eles deixariam de ser algo especial para mim. Quando entro pela sua porta quero me arrepiar.”

Ela olhou para mim como se eu fosse insensata. Deu de ombros, “Tudo bem, faça do seu jeito”, e seguiu varrendo. Pensei em Betty Lou. Quem levaria os donuts dela toda segunda-feira agora? Perguntei a Margie.

“O mesmo de sempre”, disse ela. “Nunca esqueceria da Betty Lou. Quando demiti a menina, ela disse que ainda viria pegar os donuts da Betty Lou às segundas-feiras.”

“Ótimo”, falei. Muito bem, Alvina, pensei.

“Parece que ela não está brava com você por demiti-la”, disse eu.

“Ela nunca fica brava comigo”, disse ela. “Ela sabe que não tolero nenhum disparate.”

“Então”, disse eu, “você conhece Betty Lou?”

“Claro. Nós nos formamos juntas. Ela era linda naquela época. Festival de Dogwood. Ela fazia parte da corte.”

“Ela me contou.”

“Deveria ter sido a rainha.”

“Sério?”

“Sério. O problema é que ela não era vistosa o suficiente. O cabelo dela era sem graça. Roupas simples. Nenhum glamour. Tímida. Nunca falava. A garota mais bonita da sala, mas você tinha que se esforçar para ver. É um espanto ela ter entrado na corte. Provavelmente recebeu os votos de todas as demais violetas tímidas.”

Margie estava no balcão agora, usando um marcador numa folha de papel. Ela o ergueu para mim. Ele dizia PRECISA-SE DE AJUDA. Ela pegou um rolo de fita adesiva e o fixou na janela da loja. Deu um soco na porta da frente. “Droga de menina. Ela era uma excelente varredora.”

5 de setembro

Falando em Alvina...

Recebi um telefonema da mãe dela hoje. Ela começou dizendo que Alvina “sempre fala bem” de mim e que eu parecia ser uma das poucas amigas dela atualmente. Disse que tinha gostado do jeito como lidei com a Calamidade da Unha Quebrada, e que estava muito feliz com meu trabalho no jardim, o que foi muito legal, mas me deixou me perguntando o que ela queria de verdade. Ela me perguntou se eu sabia que Alvina tinha sido “demitida” do emprego dela na Margie. Disse que sim, que tinha ouvido falar. Ela disse: Sabia que a Alvina foi mandada para casa pela escola hoje? Falei que não.

Ela disse: “Bem, ela foi. Foi suspensa por um dia”. A voz dela falhou na palavra “suspensa”.

“Consegue imaginar o motivo?”, disse ela.

“Por briga?”, falei, talvez rápido demais.

“Sim”, disse ela. “E o período letivo só está começando. Tenho medo de pensar no que vem pela frente. Ela parece estar ficando pior.”

Pensei no olhar de Alvina para Dootsie do outro lado da mesa na loja de Margie. Pensei na promessa dela de continuar entregando os donuts de Betty Lou mesmo depois de ser demitida. “Senhora Klecko”, disse eu, “sei que não é da minha conta dizer isso para você porque você já sabia muito antes de mim, mas a Alvina é uma boa menina. Acho que não há nada de errado que um pouco de tempo não cure. Acho que ela só está meio que presa entre bonecas e garotos.”

Houve uma pausa do outro lado do telefone. Tive a impressão de que a senhora Klecko estava se recompondo. Finalmente ela falou, “Obrigada. Também acho. Pelo menos espero que sim. Nesse meio tempo”, ela deu uma risadinha, “temos todos que passar por isso, não é?” Eu ri. “Temos sim.”

“Então... Tenho um grande favor para te pedir – e quero deixar claro desde já que insistiríamos em pagá-la por isso – o pai dela e eu estávamos imaginando se você estaria disposta a tomar conta de Alvina, por assim dizer. Por um tempinho. Talvez você consiga suavizar as pontas ásperas. Ela gosta de você.”

Eu não sabia o que dizer, então disse apenas: “Uau”.

“Desafiador?”

“Sim, acho que sim. Não é como me imagino, no comando de alguém. Não sei se quero tanta responsabilidade sobre outra pessoa.”

“Não é assim. Você não estaria ‘no comando’ dela. Não estamos pedindo que você comece algum tipo de programa. Só estamos pedindo para estar perto dela. Sair com ela. Levá-la com você aqui e ali quando for a algum lugar.”

“Então vocês não estão esperando, tipo, um campo de treinamento?”

Ela riu. “Não, não, por favor. Apenas seja você mesma, é só isso. A irmã mais velha sem o lado mandão. Com alguma esperança, ela irá absorver algo.”

Bem, eu ainda não estava confortável com a ideia no todo, mas finalmente disse sim, mas somente se ela prometesse não me pagar.

Ela concordou. Então agora eu sou a – gulp! – irmã mais velha da Alvina.

6 de setembro

Todos os dias até agora vinha colocando metade de uma laranja no alto da churrasqueira. Hoje coloquei três casas abaixo na ruela dos fundos, no telhado de um galpão de ferramentas.

7 de setembro

Fomos ao shopping hoje – minha nova “irmãzinha” Alvina e eu em nossas bicicletas, Dootsie no carrinho dela atrás de mim. Elas tinham o dia de folga na escola, eu matei aula. Dootsie queria uma lancheira do Babar, o Elefante. Ela não queria levar o almoço para a escola dentro dela. Ela só queria carregar a lancheira.

Ela se esqueceu da lancheira assim que avistamos a Piercing Pagoda. “Eu quero uma argola no nariz!”, ela gritou, puxando-me para a baia no meio do corredor.

“Não”, eu disse a ela. “Você já tem as orelhas furadas. Sua mãe não iria deixar.”

Ela me abraçou. “Você é a minha chefe agora. Você pode dizer sim.”

Ela ligou o charminho. “Por favoooor.”

“Está desperdiçando sua carinha adorável”, respondi. “Além disso, eles nem furam narizes aqui.”

Ela bateu os pés no chão. “Caquinha.”

“Quero uma tatuagem”, disse Alvina. Quando eu estava me virando para responder, uma mão disparou e a acertou na nuca, e então três garotos saíram correndo. Alvina gritou: “Eu mato vocês!” e começou a correr atrás deles, mas ela sacudiu em um tranco, porque minha mão estava firme na parte de trás de sua gola. “Ai!”, ela gritou desafinada. “Você quebrou meu pescoço.”

“Desculpe”, falei. Naquele momento, fiquei feliz de ela não ser minha irmã de verdade.

Ela pegou minha mão. “Me larga.”

“Não, Alvina”, disse eu. “Você tem que deixar isso de lado. Você não é uma guerreira, é uma menina de 11 anos de idade.”

Dootsie cutucou a perna dela. “Você é um cereal humano.”

Os garotos já passavam da loja Tia Anne agora. Estavam nos encarando, rindo. Um deles era o garoto loiro, a foto atrás da porta do quarto dela. Ele é que havia batido nela. Em maio, no Festival de Dogwood, Alvina tinha batido nele. Deixado-o sangrando. Envergonhado. Espancado por uma garota! Outro garoto teria saído de fininho para casa, rastejado para baixo da cama e nunca mais teria saído. Mas ali estava ele, ainda com seus amigos, encarando sua algoz, empinando o nariz para ela. Eu gostava desse garoto.

Alvina puxava minha mão como um cachorro numa coleira. Ela apontou para o shopping. “Você tá morto! Mortinho da Silva!”

Eu passei meu braço em volta dela e a puxei para perto. Ela estava arfando.

Dootsie olhava para ela com medo e fascínio. “Você vai bater neles, Alvina?”

“Não”, disse eu, “Alvina não vai bater em ninguém. Alvina vai descobrir que garotos são pessoas também. Eles não são o inimigo. Alvina vai aprender que lutar não é a única maneira de lidar com eles.”

Peguei ambas as meninas pelas mãos e as levei na direção oposta dos garotos. Encontramos a lancheira da Dootsie e um DVD para Alvina. Foi um presente meu. Disse que ela podia escolher o que quisesse contanto que fosse na seção de comédia. Ela resmungou e tentou me levar para a seção de terror, mas finalmente cedeu e escolheu O professor aloprado. 8 de setembro

Só comemos porcaria no almoço. Cheesecake de chocolate com cereja e vacas-pretas na Cheesecake Factory. (Eles não tinham smoothies de morango com banana.) As garotas sentaram na minha frente, do outro lado da mesa. Dootsie continuou tirando com a colher o chantilly do topo da bebida de Alvina. Continuei a dizer a ela para parar. “Você tem um monte do seu.” Ela me ignorou, rindo a cada novo roubo. Para minha surpresa, Alvina não pareceu especialmente aborrecida. Cada vez que Dootsie enfiava a colher no chantilly de Alvina, Alvina simplesmente roubava uma colherada do dela. E então Dootsie pegou a cereja da bebida de Alvina e a colocou na boca, e antes de Alvina poder retaliar, Dootsie devorou sua própria cereja também. Alvina bateu na mão dela com sua longa colher de cabo longo. A risadinha parou. Dootsie arregalou os olhos enquanto olhava descrente para a mancha de chantilly deixada em sua mão. Alvina agora estava se concentrando na sua bebida como se nada tivesse acontecido.

O lábio de Dootsie começou a tremer.

“Dootsie, vem aqui comigo agora”, falei. Puxei a bebida dela para o meu lado. Dootsie veio.

Nós comemos nosso cheesecake e bebemos nossas vacas-pretas em silêncio por um tempo. Então eu disse: “Alvina, você ouviu falar em tocar no inimigo?”.

“Não”, disse ela.

“É uma tradição dos índios americanos”, disse. “Quer saber o que é?”

“Não.”

“Certo, tudo bem. Eu te conto, então. Tem a ver com honra e a ideia de que existe mais honra em tocar do que em matar. Digamos que você faça parte de uma tribo e esteja em guerra com outra tribo. Se você matar um membro da outra tribo, isso seria uma grande honra para você. Se eles tivessem algo como troféus na época, você provavelmente ganharia o maior deles.”

Dootsie reclamou: “Não ganhei um troféu pela senhora Blob”.

Eu bati na mão dela com carinho. “Um dia.” Virei-me de volta para Alvina. “Mas havia uma honra ainda maior, uma honra que viveria para sempre. Se você quisesse essa honra maior de todas, você não mataria o outro guerreiro. O que você faria é se esgueirar até ele e apenas tocá-lo, talvez apenas encostar a ponta de sua lança no ombro dele por um segundo, e então pronto. E pelo resto de sua vida você poderia contar a história de quão corajosa tinha sido de chegar tão perto do seu inimigo e nem mesmo machucá-lo. E pelas próximas gerações seus filhos e bisnetos contariam sua história em volta de uma fogueira, e você se tornaria uma lenda.”

Dootsie estava prestando toda atenção e boquiaberta. Alvina bebia o final de sua vaca-preta de forma barulhenta, mas eu sabia que ela estava escutando. Me estiquei e toquei no ombro de Dootsie com a ponta do dedo. “Isso”, disse eu, “é chamado tocar o inimigo.”

Nós passeamos mais um tempo pelo shopping. Dootsie se cansou e me puxou. “Me carrega?” Eu a carreguei por um tempo, e assim que a coloquei de volta no chão, Alvina disse: “Me carrega?” Ri com a piadinha, mas o rosto dela estava inexpressivo como de costume, quando ela repetiu: “Me carrega?”.

Eu olhei para ela. “Está falando sério?”

“Tá bom então”, disse ela. “Não carregue.” E se afastou.

Agarrei-a, levantei e a carreguei pelo shopping enquanto meus braços aguentaram. Recebemos algumas olhadas estranhas, e Dootsie ficou cheia de ciúme.

No caminho para casa, quando Dootsie estendia o dedo e ele alcançava o ombro de Alvina, ela a ficava cutucando uma centena de vezes, dizendo a cada vez: “Isso é bom pra você?”. No fim, Alvina estava quase perdendo a luta contra o riso.

Sabe que dia é hoje, Leo?

É nosso aniversário. Dois anos.

A primeira vez que nos vimos.

Dois anos atrás, no dia de hoje, há duas voltas ao redor do sol, entrei no refeitório da Escola de Ensino Médio de Mica com meu ukulele, cativada por um par de olhos me encarando, seus olhos, apavorados de que eu cantasse para você. E embora tenha passado pela sua mesa e seguido adiante para cantar para outra pessoa, deixei algo para trás com você: meu coração. É claro, você não sabia disso na época. Talvez nem eu soubesse. O que você fez com meu coração, Leo? Você cuidou bem dele? Você o substituiu?

10 de setembro

Acho que farei isso em uma espécie de telegrafia a partir de agora.

Torná-lo mais divertido para você.

L, é claro, corresponderá a Laranja.

Então vem o símbolo _, que significa Eu Coloquei Uma Hoje de Novo.

Depois (B), que significa o Beco atrás do Endereço da rua Seguinte.

Ou (Q), que significa Quintal.

Depois o Endereço da rua.

E aí (C) para Cerca.

Ou (P) para Poste.

Ou (OU) para Outra Coisa.

Então, por hoje...

L _(B)RappsDam219(C)

Entendeu? Hoje coloquei uma Laranja na Cerca do Beco atrás da rua Rapps Dam, 219.

Curioso?

Encantado?

12 de setembro

Fui ao centro da cidade comprar botões para minha mãe – ela está costurando fantasias para a produção de Os piratas de Penzance, do Teatro e Luz Popular – quando vi Perry. Ele vinha do Pizza Delícia, virou para o outro lado e caminhou até a rua da Ponte, então não me viu. Nós provavelmente éramos as únicas crianças nas ruas nessa quarta-feira de manhã: eu, a estudante de ensino domiciliar, ele, o matador de aula renegado.

Ele trazia uma fatia de pizza em uma das mãos, e um copo de papel na outra. Ele sacudiu a mão com a pizza e um pedaço de guardanapo flutuou para a calçada. Comeu a fatia de pizza em cerca de três mordidas. Pareceu comer metade da borda, então jogou o restante na rua. Tomou sua bebida e jogou o copo na sarjeta. Pude ouvi-lo arrotar. Tudo isso aconteceu no espaço de um quarteirão.

Eu estava fumegante. Gritei para ele: “Já ouviu falar em lata de lixo?”.

Ele se virou. Quando me viu, sorriu e acenou. “E aí.”

Caminhei até ele. “Eu disse, já ouviu falar em lata de lixo?” O sorriso dele desapareceu. Pegou uma barra de Snickers do bolso, puxou a embalagem pela metade e ofereceu para mim.

“Quer uma mordida?”

“Não”, disse eu.

Ele arrancou numa mordida metade da barra. Ficou lá parado mastigando na minha frente, me olhando. “Como vai a Dootsie?”, disse ele.

“Isso não é da sua conta”, disse eu.

Ele riu, cuspindo pedaços de amendoim.

“O que achou tão engraçado?”, disse eu.

“Eu ia dizer exatamente isso.”

“Pode ser uma novidade surpreendente para você”, disse eu, “mas acontece que esse é o mundo onde vivo, então talvez seja da minha conta.”

Ele colocou o resto da barra na boca, amassou a embalagem e a jogou por sobre o ombro. Seus olhos nunca desviaram dos meus.

“Você está sujando o meu mundo”, disse eu.

Ele sorriu. “Você poderia dizer que estou sujando meu próprio mundo.”

“Exatamente.”

A língua dele veio para fora passeou pela boca, esfregando o rastro de chocolate e molho de pizza.

“Exatamente”, disse ele. “E aí, não teve ensino domiciliar hoje?”

“Pare de ficar mudando de assunto.”

“Qual era o assunto?”

Ele começou a caminhar. Não tive muita escolha além de acompanhá-lo.

“O assunto é você e seus hábitos.”

“Meus hábitos imundos.”

“Seus hábitos imundos.”

“Eles incomodam você.”

“Pode-se dizer que sim.”

“Você tem algum hábito imundo?” A voz dele era firme e agradável. Você poderia pensar que estávamos discutindo sobre Ondine ou algo parecido.

“Está mudando de assunto de novo”, disse eu.

Ele estalou os dedos. “Esquece. Esse é outro hábito ruim que tenho, ficar mudando de assunto.” Ele colocou seu dedo no ar. “Certo... assunto... sujeira... sujeira...” Colocou o dedo nos lábios, fingindo ponderar. Olhou diretamente para mim.

“Muito bem. O mundo já é sujo. Que mal fará mais sujeira? Se o mundo é uma lixeira, então tudo é lixo.”

Ele deu de ombros. Sorriu. “Tá bem?”

Eu só olhei para ele. Ele inclinou o rosto para a frente e veio na minha direção. Por um instante, pensei que fosse me beijar, mas bateu na minha testa. “Olá, tem alguém aí?”

“Se o mundo é uma lixeira”, disse eu.

Ele agarrou minha mão e a sacudiu zombando. “Foi o que falei. Parabéns.”

“Mas o mundo não é uma lixeira.”

“Você quem está dizendo.”

“Mas você acredita nisso.”

“É o que acabei de dizer.”

Eu o encarei por mais um tempo. Não sabia por onde começar.

“Você está errado.”

Ele deu de ombros. “Me processe.”

“Você não pode acreditar...”

“Posso acreditar no que eu quiser.”

Ele continuou a caminhar. Eu o segui. Estava começando a perceber o quão pouco sabia sobre ele.

“Por quê?”, disse eu.

Ele riu. “Voltamos para onde começamos.” Ele forçou uma voz de menininho petulante: “Não é da sua conta”.

“E o que espera que eu faça?”, perguntei. “Que te dê parabéns? – ‘Muito bem, Perry’ – quando você rouba e suja a cidade?”

Ele sacudiu o dedo na minha cara. “Não espero que você faça nada. É você quem está tentando me mudar. Lembra-se? Até onde eu saiba, pode fazer o que quiser.”

“Menos criticar você.”

“Ei”, disse ele, “se é assim que quer passar a sua vida, continue a me criticar” – ergueu os braços – “fique à vontade.”

Ele virou seus olhos de um azul profundo para mim. “E de qualquer maneira...” Fez uma pausa estratégica. Estava sorrindo.

De repente, senti como se estivesse de patins. “O que foi?”

“Sei por que está fazendo isso.”

Eu parei. Ele se afastou.

“Fazendo o quê?”, disse eu. “O quê? Por quê?” Acho que estava balbuciando.

Lançou sua resposta tão alegremente quanto uma embalagem de chocolate sobre o ombro: “Você sabe”.

14 de setembro

Anúncio na Folha de Lenape:

Ele diz que o mundo é um lugar ruim,

mas eu já o vi na prancha de mergulho,

o orgulho em seus olhos.

15 de setembro

Dori Dilson me escreveu e me contou onde você fará faculdade. Gosto de saber onde você está. Sempre saberei onde você está.

16 de setembro

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22 de setembro

Não é uma quinta-feira, mas fui à Montanha do Calendário mesmo assim, porque hoje é o equinócio de outono. O começo do outono. Nesse dia o sol ao meio-dia está diretamente em cima do equador, o que significa que o dia e a noite são iguais. De agora até o solstício de inverno, a noite será mais longa que o dia. A luz está partindo.

Tive que pedalar firme para chegar à montanha na hora de prender o marcador de hoje. Mal consegui chegar antes do sol. Ainda estou me acostumando a viver sem relógios de parede e de pulso. O mais importante é me levantar na hora nos dias de marcar o calendário. Quando vou para cama na noite anterior, digo a mim mesma: Quando o sol estiver a uma corrida de bicicleta de distância, eu o ouvirei. Ele soará como o vento na copa das árvores. Eu acordarei. E funciona!

Meu pai não ficou muito feliz no dia em que chegou em uma casa sem relógios. “Como um leiteiro vai conseguir acordar às duas da manhã sem um despertador?”, disse ele.

Tivemos que concordar que aquela era uma boa pergunta.

“Bem, então imagino que você terá que dormir no porão”, disse minha mãe, piscando para mim. “Alarmes às duas da manhã não fazem mais parte da minha vida.”

Então meu pai comprou para si um relógio de pulso com um pequeno alarme que apita para acordá-lo de manhã, mas deixa a minha mãe dormir. Ele não aguentou nos ver quebrar seu antigo relógio com o martelo, então o deixou em um banco de parque para alguém encontrá-lo. Na verdade, ficou bastante à vontade com a coisa toda. Afinal, no último ano, mudou-se do Arizona para a Pensilvânia, e deixou de ser engenheiro eletrônico para ser leiteiro, então isso não foi grande coisa. Meu pai é muito flexível.

Todos esses pequenos obstáculos de lado, tenho que dizer que amo viver em um mundo sem relógios. Os grilhões se foram. Sou um filhote libertado em um campo de tempo. Enquanto assistia ao sol nascer essa manhã, tive uma nova sensação de afinidade com ele.

Algo primitivo se agitou dentro de mim, algo que me lembra o próprio nascer do sol. Antes havia minutos, cronogramas e calendários, antes havia mesmo palavras como “manhã”.

Dias até o solstício: 90

28 de setembro

Hoje peguei minha nova irmã, Alvina, para entregar leite. A mãe dela adorou a ideia. Ela estava esperando com Alvina no degrau da frente. Ela acenou enquanto sua filha subia no caminhão. “Divirtam-se!”, ela falou.

Tinha me esquecido que conseguir um lugar seria um problema, já que o assento auxiliar que meu pai tinha instalado para mim era a única provisão para passageiros. Alvina e eu nos apertamos no banco. “Não acredito que está fazendo isso comigo”, ela resmungou. “Ainda está escuro.”

Eu sorri e assenti para meu pai. Tinha dito a ele para não esperar a criança mais alegre do mundo. E então Alvina se levantou e, sem nenhum aviso, se jogou no meu colo. Em segundos ela estava dormindo, sua cabeça pendendo contra o meu ombro.

Ela não teve muito tempo para cochilar, já que meu pai logo estacionou o caminhão no Restaurante Vista da Serra. “Hora de tomar café”, disse. Eu meio que a carreguei, meio que a arrastei para o restaurante.

Pegamos uma mesa na janela. Alvina se afundou no lugar dela, resmungou “não acredito nisso”, e voltou imediatamente a dormir.

“Ainda acha que isso é uma boa ideia?”, disse meu pai.

Quando a garçonete veio e disse: “Café, pessoal?”. Acordei Alvina com uma sacudida. A garçonete deve ter se perguntado por que havíamos levado essa criança para sair no meio da noite.

“Alvina”, falei, “o que você quer beber? Leite? Chá?”

O queixo dela estava apoiado no peito, os olhos fechados. “Café.”

“Nada de café”, disse eu. “Você é criança.”

“Sempre tomo café”, ela murmurou. “Quero café.”

Sabia que ela estava mentindo. Sabia que crianças de 11 anos e cafeína não eram uma boa combinação. Mas esse dia inteiro seria desperdiçado se ela dormisse. Olhei para meu pai. Ele assentiu.

“Tudo bem”, falei para a garçonete. “Três cafés.”

Dez minutos depois, Alvina estava acordada e a garçonete estava colocando uma pilha de panquecas e bacon na frente dela. A garçonete tocou na unha de Alvina. “Estilosa.”

Alvina cortou as panquecas dela e fez sua cara de “quem te deu permissão”. “Estilosa?”

A garçonete agitou as próprias unhas sobre a mesa. “Olha só as minhas.” As dela eram de um vermelho profundo com rabiscos cor de rosa.

Alvina fez uma demonstração zangada de paciência e deu uma olhada.

“A minha é mais bonita”, disse ela, e voltou a cortar.

A garçonete franziu a testa, estudou suas unhas, assentiu e disse “Você tem razão”. Em seguida, me deu um sorriso breve e foi embora. “Aproveitem o café da manhã.”

Meu pai começou a comer seu pão doce grelhado e grudento. E apontou o garfo para a unha. “Muito impressionante. Aposto que faz os garotos virem correndo.”

“Odeio garotos”, disse Alvina. Ela começou a derramar calda de açúcar sobre as panquecas.

“Garotos são ratos”, disse meu pai.

“Ei”, disse eu, “eu sou a mãe de um rato, por um acaso.”

“Desculpe, esqueci. Garotos são doninhas.”

A garrafa de calda estava metade vazia e ainda assim ela continuou a derramar. Eu a arranquei dela.

Sabia que meu pai estava tentando provocar Alvina, mas a reação não viria. Mesmo assim, abriu espaço: “Aos 10 anos, todos os garotos do mundo deviam ser virados de cabeça para baixo e uma minhoca devia ser largada em cada narina”.

Eu caí no riso. Cuspi metade do meu pão doce semimastigado em cima do meu prato. Alvina simplesmente continuou comendo, não ergueu uma sobrancelha.

Eu podia sentir meu pai se infiltrando. Ele não desistiria sem lutar. Meu pai tinha um tipo peculiar de radar que sentia a resistência a sorrir. Se houvesse alguém mal-humorado entre ele e o horizonte, ele parecia saber. Não apenas isso, sentia que tinha de fazer algo a respeito. Penso nisso como uma desordem obsessivo-compulsiva inofensiva. Além disso, havia o fator timidez. A maioria das crianças – assim ouvi dizer – perdia a fala diante de adultos. Mas meu pai tinha sido mal-acostumado – teve a mim falando em seu ouvido por dezesseis anos. E agora tinha a Dootsie. Não estava acostumado com uma criança não comunicativa.

“Existe uma teoria”, disse, mirando Alvina, que estava mirando suas panquecas, “de que garotos na verdade são de uma espécie diferente das garotas. Alguns cientistas acreditam que os garotos descendem de mamíferos pequenos e malcheirosos. Possivelmente gambás.”

Ele esperou uma resposta. Não veio nenhuma. Alvina derramou calda de açúcar no seu bacon.

“Então, Alvina...”, disse ele, “o que você acha?”

“Sobre o quê?”, disse ela de boca cheia.

“Sobre o que acabei de dizer.”

“O que você disse?”

Meu pai revirou os olhos. Acho que estava percebendo que esse poderia ser seu maior desafio até então.

Silenciosamente, murmurei para ele: te avisei.

“Então, Alvina...”, disse ele, “cordão legal.”

Ela não respondeu. Como sempre, o rosto sorridente do Ursinho Pooh contrastava com o dela.

“Você também tem uma unha do pé bacana?”

“Não.”

Eu sabia o que ele estava fazendo. Estava tateando em torno da concha, sondando um ponto fraco.

“Então, Alvina... você odeia garotos. Isso significa que odeia todos eles?”

“Sim.”

“Cada garoto do mundo?”

“Sim.”

“Incluindo eu? Eu sou um garoto.”

“Você é um leiteiro.”

“Ouvi dizer que tem um irmão. E quanto a ele? Ele é um garoto.”

“Ele especialmente.”

Meu pai assoviou suavemente. “Você é durona.” Apontou o garfo para as panquecas dela. “Posso pegar um pedaço?”

“Não.”

Ele fez um beicinho. “Nem um pedaço pequenininho?”

Alvina ergueu os olhos de seu prato e mirou diretamente nos olhos dele. Ela enunciou ferozmente: “Não.”

O garfo recuou. Isso era mais divertido que o Blob.

Meu pai me enviou um olhar e um sorriso e começou de novo. “Então, Alvina... sei que você odeia todos os garotos, mas aposto que existe um garoto especial. Um que você odeia mais do que todos os outros juntos, certo?”

Alvina apenas mastigou por um tempo. Então deu de ombros.

“Talvez.”

“Ele vai para a escola com você?”

“Talvez.”

“Você pensa nele de vez em quando? Quero dizer, em quanto você o odeia? Pensa em como gostaria de torturá-lo? Como, por exemplo, despejar um carrinho de mão cheio de formigas que mordam em cima dele? Coisas assim?”

Ela deu de ombros. “Talvez.”

“Bem”, disse ele, “sei como você se sente. Odiei alguém assim uma vez.”

Ela enfiou o último pedaço de panqueca na boca.

“É?”

“Sim. Estávamos no sétimo ano. Ela estudava na minha sala. Eu a odiava mais do que a qualquer pessoa no mundo.”

“Sério?”

“Sim. Sabe o que fiz com ela?”

Ela estava prestando atenção total nele. “O quê?”

Ele sorriu. Apontou para seu dedo anular. “Casei com ela.”

Queria ficar em pé e aplaudir, mas me contive. Alvina apenas revirou os olhos e torceu o nariz, como se um cheiro ruim tivesse entrado pela porta.

Meus olhos pousaram acidentalmente no relógio em cima da estante de tortas. “Pai, já estamos atrasados.”

Mas meu pai não queria parar. Assim como eu, ele não sabia quando havia chegado ao limite.

“Então, Alvina... quantos anos você tem?”

Ela derramou calda no resto de seu café frio. Nós não a tínhamos deixado tomar um refil.

“Tenho 11 anos e três quartos.”

“Tem certeza de que não é 11 anos e quatro quintos?”

Ela deu de ombros. “Pode ser.”

“Bem”, disse com desânimo exagerado, “isso é péssimo.”

Ela tomou um gole de café frio com calda de açúcar, decidiu que havia gostado e tomou o restante. Então olhou para ele, debatendo se faria ou não a pergunta óbvia. Ela fez. “Por quê?”

Ele balançou a cabeça com tristeza. Se não conhecesse meu pai, pensaria que tinha acabado de vir de um funeral. “Por quê? Porque está chegando ao fim de uma época linda, maravilhosa. Sua infância está quase no fim. Sabe o que acontece depois, não sabe?”

Alvina não havia aprendido nada com a experiência – ela se levantou para morder a isca outra vez. “O quê?”

“Doze. É isso que acontece. E sabe o que vem depois?”

Ela não queria de fato responder uma pergunta tão idiota, mas não podia se conter para descobrir aonde levaria esse nonsense. “Treze”, disse ela.

Meu pai estalou os dedos e apontou para ela. “Exatamente! Em outras palavras, você se torna uma adolescente.” Suspirou cheio de pesar.

“Uma pena.”

Alvina olhou para mim, para ele. “Por quê?”

“Por quê? Porque você sabe o que eles dizem.”

“Eles quem?”

Pensei: Marque um ponto para você, menina.

Meu pai ignorou a pergunta. “Eles dizem que adolescentes não prestam. Eles deixam de ser criancinhas bonitas e fofas para se tornarem monstros que querem ficar fora até tarde e caminhar um quarteirão à frente de seus pais.”

Fiquei um pouco desconfortável. Sabia que meu pai só estava brincando com ela, tentando provocá-la, mas não tinha certeza de que Alvina sabia disso. Ela olhou demoradamente para mim. Acho que, dessa vez, ela me viu. Ela parecia prestes a dizer alguma coisa, e juro que pude ver as palavras se formando do outro lado de seus lábios: A Estrela até que presta. Mas elas nunca saíram. Ela brincou com a colher na xícara vazia de café. Balançou a cabeça.

“Não eu.”

Meu pai e eu fomos pegos de surpresa. A colher girou na xícara. Finalmente meu pai a incitou. “Você não?”

A brincadeira com a colher não parou. Ela olhou para a xícara. “Não. Sou o inverso. Sou uma criança que não presta, mas serei uma adolescente maravilhosa.”

Sei que não aconteceu dessa maneira, mas parecia que o restaurante inteiro estava prendendo a respiração, como se sentisse que algo memorável tinha acabado de ser pronunciado e que ele precisava ser adequadamente emoldurado em silêncio. Meu pai e eu olhamos um para o outro. Lutei contra as lágrimas. Alvina voltou a brincar. Por fim, meu pai se esticou sobre a mesa e cobriu as mãos dela com as suas. “Acho que você tem razão, Alvina. Exceto por um detalhe.”

Ela não olhou para cima. Ela não precisava dizer “O quê?”

“Você presta sim.”

Ela se virou para o outro lado. Olhou pela janela para a noite.

Seguimos caminho então. Expliquei o trabalho de Alvina para ela: ela buscaria os bilhetes com os pedidos e garrafas usadas nos degraus da frente dos clientes, ela leria os bilhetes para mim, encheria o carrinho, e meu pai o entregaria. Na primeira casa, a casa dos Turners, ela pegou o carrinho que eu tinha acabado de encher e disse: “Deixe que levo”. Meu pai não hesitou: “Vá em frente”. E então, ela saiu atrapalhada com o pedido até a caixa no degrau da frente dos Turners. Daí em diante, contanto que a entrega fosse externa, era Alvina quem a fazia.

Estávamos ficando atrasados, e o céu começava a se acinzentar no leste quando estacionamos na rua White Horse, 214, a casa dos Huffelmeyers. 1 litro de leite, 1 litro de achocolatado. Falei para Alvina ser bem silenciosa, nós iríamos entrar. Enquanto meu pai acendia a luminária franjada na mesa, ela me surpreendeu pela segunda vez naquela manhã – ela tirou os sapatos. A princípio, ela ficou atrás de mim enquanto eu apontava minhas fotos favoritas na galeria de fotos de família nas salas de estar e jantar. Depois, ela seguiu sozinha, se movendo pelas salas de uma foto para a outra.

Quando meu pai voltou da cozinha e a tocou no ombro, ela o ignorou. “Pai”, sussurrei, “espere.” Ela estava completamente perdida nas gerações dos Huffelmeyers. Diversas vezes ela esticou a ponta do dedo e tocou a foto. Esperamos provavelmente uns bons dez minutos (pela hora do relógio) antes de finalmente pegarmos seus sapatos e a arrastarmos para fora.

O sol nasceu. Pensei que a luz do dia inibiria Alvina, mas não inibiu. Ela continuou a sentar no meu colo. E parecia orgulhosa de haver pessoas vendo-a trabalhando como uma entregadora-mirim de leite.

Nós almoçamos (café da manhã para pessoas no horário comum) no Creamery, onde meu pai retomou seus esforços de zombar garotos para fazê-la rir. “Quando um garoto bebê nasce, o médico bate na cara dele em vez de na bunda.”

“Qual a diferença entre tartarugas e garotos? Tartarugas têm cérebros.”

“Se você subtrai todos os garotos do mundo, você consegue um A em matemática.”

Meu pai continuou pelo resto do percurso após o almoço.

Para a frustração crescente dele e para o próprio crédito dela, Alvina nunca abriu a guarda.

Quando a levamos de volta para a casa dela no meio da tarde, ela desceu do meu colo pela última vez. Começou a andar, então se inclinou de volta e sussurrou no meu ouvido: “Seu pai é maluco ou o quê?”.

29 de setembro

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5 de outubro

Meditei nessa manhã na mesa de piquenique no parque onde Dootsie entrou na minha vida. Demorei mais para começar do que de costume, porque não conseguia parar de pensar nas palavras de Alvina. Eu não presto. É claro, amei as palavras que vieram depois, e espero que ela realmente acredite nelas; mas por agora, se definir como alguém que não presta pelo próximo ano ou coisa assim, bem, apenas desejava que não precisasse ser desse jeito. Mas, afinal, pensamento por pensamento, comecei a desaparecer. Aqui, agora, Alvina, Estrela – tudo evaporou como bolhas de espuma de refrigerante.

Estava fora de mim. Estava em lugar algum. E em todos os lugares. Nenhum Quando. Nenhum Depois. Somente o Agora. A existência em um estado tão puro que a memória não consegue um lugar onde se agarrar. Quanto mais sucesso tenho em uma meditação, menos eu me lembro dela. E não me lembro de absolutamente nada na minha meditação de hoje, somente da minha entrada nela, enquanto meus últimos pensamentos sobre Alvina se dissolviam, e minha saída dela, quando abri meus olhos para descobrir...

Perry!

Sentado perto de mim.

Estava sentado com as pernas cruzadas, suas mãos, de palmas para cima, em concha no seu colo, costas eretas, ombros retos, olhos fechados. Assim como eu. Ele estava zombando de mim? Ou vinha fazendo isso há anos?

Olhei para ele, esperando. Nenhum tremor em suas pálpebras. Pensei em você e em mim no deserto, quando te dei sua aula de meditação. Senti uma angústia repentina por você. Era tudo tão novo (tanta coisa em mim era nova para você!). Você não entendia, não era bom naquilo, mas tentou, deu seu melhor. Por mim, acho.

Quando Perry finalmente abriu os olhos, continuou olhando diretamente para a frente, como se eu não estivesse lá.

Eu disse: “Você mentiu.”

Somente os olhos dele se viraram na minha direção. “Hein?”

“Você mentiu. Disse no telhado que não medita.”

“Tem razão. Eu menti.”

“Você não vai nunca para a escola?”

“Você vai?”

“Estou na escola”, disse eu. “Isso é parte do meu ensino domiciliar.”

“Meditação Avançada?”

“Elementos da Nulidade. Acho que jamais serei tão boa quanto quero.” Estava imaginando se em algum momento ele se viraria e realmente olharia para mim. “Está zombando de mim?”

Ele se virou. “Não.”

“Você faz muito isso?”

“Não.”

“É bom nisso?”

“Sim. Muito.”

Acreditei nele. “Então é assim que você escapa da porcaria de mundo onde vive?”

Ele deu de ombros. “Acho que sim.”

“E o telhado.”

“E o telhado.”

Olhei em volta. “Bem, parabéns. Você está aqui já faz um tempo e ainda não sujou o lugar.”

Ele ergueu um dedo no ar. “Isso me lembra.” Ele pegou um pacote de chiclete no bolso. Puxou a goma e a ofereceu para mim. Eu disse não, obrigada. Tirou a embalagem e o enfiou na boca. Amassou a embalagem. Olhou em volta. Sorriu. Entregou-a para mim. Eu a peguei e coloquei no meu bolso.

“Sério”, disse eu: “Você não fica encrencado por não ir à escola?”.

“Eu vou”, respondeu. “Só fico muito doente. Sou fraco.”

“Ou só está escapulindo do seu harém, Dândi?”

“Um cara precisa tirar uma pausa.”

“Então como isso funciona, Dândi? Você sai com uma de cada vez? Ou com todas ao mesmo tempo?”

Ele balançou o dedo. “Isso é sigiloso. Segredos do harém.”

“A quantidade é classificada também? Quantas abelhas existem? Só as três que eu conheci no Pizza Delícia?”

“Só elas”, disse ele. “Mas não existe um limite. Tem uma vaga aberta para a número quatro. Quer se candidatar?”

“Desculpe”, falei. “Não faço o tipo garota de harém.”

“Você começaria a usar uma tatuagem de abelha.”

Eu desfaleci. “Onde eu assino?”

Ele riu. “Então você é do tipo garota de um cara só, hum?”

Não sou boa em bancar a recatada, mas estava tentando. “Talvez.”

“Leo do Arizona?”

Ele se lembrava. Isso significava alguma coisa?

“Você tem uma boa memória.”

“O garoto que te largou.”

“Eu nunca falei isso.”

“A Dootsie falou.”

“A Dootsie mente. Ela admite isso.”

Ele olhou para o outro lado do parque. “Bem, de qualquer modo, largada ou não, ele está lá... E você está aqui.” Ele esticou os braços. “Bem pertinho.”

Tive uma premonição daqueles braços me envolvendo. E uma lembrança de você. “Quantas maravilhas devo estar perdendo.” Disse com um desânimo fingido. “Eu e meus princípios tolos anti-harém.”

Ele virou aqueles olhos de um azul profundo para mim. “Sim. Que pena.”

As palavras se encaixavam em nosso roteiro flertivo e sarcástico, mas seus olhos disseram algo além. Ainda estávamos sentados de pernas cruzadas na mesa de piquenique. Nossos joelhos se tocando. Senti a necessidade de continuar conversando.

“Então essa é uma viagem de recrutamento, é? Está tentando fazer eu me inscrever?”

Ele simulou um rosto de inocência. “De onde tirou essa ideia? Por que eu iria querer fazer isso?”

“Isso foi respondido lá no Pizza Delícia: você me acha fascinante.”

“Stephanie disse isso. Eu disse ‘interessante’.”

“Então”, cutuquei seu joelho, “o que você acha tão fascinante em mim?”

“Interessante.”

“Prefiro fascinante.”

Ele fingiu pensar. “Bem, para começo de conversa, você não é uma garota típica.”

“Nenhuma novidade. Já tinha te falado isso naquela noite no telhado.”

“Você estava certa.”

“E você estava errado.”

Ele suspirou. “Minha culpa.”

“Então”, disse eu, “como não sou típica?”

“Quer que eu seja específico?”

“Quero minúcias. Quero detalhes. Quero adulação.”

Ele se virou noventa graus, de modo que agora estava me vendo de lado. Seu olhar era um laser azul que parecia descascar a minha pele.

“Você tem sardas sobre o nariz. Elas se derramam um pouco sobre suas bochechas.”

“Nhé. Sardas são comuns.”

“Onze.”

Eu fiquei de queixo caído. “Você as contou?” Eu mesma nunca as tinha contado.

“Na biblioteca naquele dia. Enquanto estava gritando comigo.”

“Você estava cuspindo sementes de limão pela biblioteca inteira. E não gritei. Eu te dei uma bronca. O que mais?”

Ele me encarou mais um pouco. Eu estava desconfortável de ser um alvo de perfil, então girei noventa graus. Agora estávamos frente a frente, joelho a joelho.

“Você não usa etiquetas de marca.”

“Odeio etiquetas.” Dei uma olhada nele. “Acho que você as odeia também.”

Ele pareceu estremecer com aquilo, depois simplesmente disse: “É”.

Eu me arrependi das minhas palavras assim que as pronunciei. A camisa que estava vestindo era a mesma de sempre que eu o via. Ele morava em um espaço pequeno atrás de uma loja de reparo de bicicletas e cortadores de grama. Ele roubava comida. Revirava contêineres de lixo. Ódio não tinha nada a ver com Perry Delloplane e etiquetas. Era simplesmente pobre.

Tive vontade de me desculpar, mas ele diria “Por quê?” e eu teria de responder, e estava com medo de falar do assunto abertamente. Então tentei nos conduzir de novo ao terreno seguro.

“É isso então? Etiquetas e sardas?”

“Você não é narcisista. Não mexe no cabelo a cada dez segundos. Não se olha no espelho a cada cinco minutos. Não usa maquiagem.”

“Eu fiz minhas sobrancelhas uma vez.”

“Não recentemente.”

Nós rimos.

“Não age como se fosse deslumbrante.”

“Apesar de eu ser, certo?”

“Não, você não é.” Ele disse isso de modo casual, eu sabia o que ele queria dizer. “Nem a maioria das garotas. Mas isso não as impede de agir como se fossem.”

“Espere um momento. Vamos voltar à parte em que eu não sou deslumbrante.”

Suas sobrancelhas se arquearam de forma inocente. “Algum problema?”

Ele tinha feito eu me sentir hesitante novamente. Falar com esse garoto nunca saía do jeito que eu queria. Dei de ombros. “Bem, acho que não. Não se a beleza estiver nos olhos de quem vê – e você é o único observador que vejo por aí.”

Ele assentiu. “Ótimo.”

“Então”, disse eu, “deixa eu entender isso direito. Sou típica porque não sou deslumbrante, e não sou típica porque não ajo como se fosse deslumbrante.”

“Algo assim.”

“Então... se não sou deslumbrante, o que eu sou?”

Ele sorriu. “Está me pedindo uma etiqueta?”

Eu sorri. “Touché.”

Ele fez uma bola com seu chiclete e a estourou.

“Qual é o sobrenome dele?”

Eu recuei. “O quê? De quem? De onde veio isso?”

Continuar: parte 2 de 4