Contos do Norte

João Marques de Carvalho · Capítulo 12 de 17

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Contos do Norte

Um Caso da Cabanada

Tudo passara, na dissolvencia dos sonhos, na voragem dos annos. Illusões patrioticas e enthusiasmo pelos gosos instaveis, tragara-os o tempo, impassivelmente. Alfredo não lamentava este resultado; pelo contrario, sentia-se feliz ao verificar que o coração, liberto de antigas peias, estava apto a consagrar toda a energia affectiva ao doce culto de um só amor, espontaneo e livre, no seio olente da floresta compassiva.

Suas aspirações de reformas radicaes, seus impulsos para a propaganda em prol dos idéaes regeneradores da sociedade, perderam tambem o ardor militante de outrora. Evidentemente, a noção de uma exacta justiça é o paradoxo mais extranho que a razão illogica do homem creou n'um dia de sarcasmo, para o proprio engodo. Então, de nada valia esbofar-se em santo frenesi, conclamando a necessidade da restauração dos principios equitativos. A maldade humana predominaria para todo o sempre, irresistivel, vencedora. Restava-lhe, pois, submetter-se ao embate da onda larga da convenção. E, vencido, era nos arcanos de um novo amor que elle, ao mesmo tempo incredulo e piedoso, levado velozmente pelo minusculo hiate, na clara manhã assolhada, ia buscar o doce balsamo dos beijos sinceros, o supremo conforto para as tremendas desillusões que as complicações psychologicas lhe proporcionaram.

 

UM CASO DA CABANADA