Contos do Norte
Um Exgottado
A subitas, estarreceu o caboclo. Além, junto á linha da agua, muito distante do sitio onde se achava, lobrigaram seus olhos de pae um vulto extranho e logo o coração bradou-lhe que era o cadaver do curumim. Antonio poz-se a correr—a voar—para o sitio a que o presentimento o compellia.
*
* *
Não é um pezar o que leva esse homem no coração: é um mundo de angustias, um turbilhão de agonias. Ensopada, a areia facilita-lhe a carreira, pela resistencia que lhe offerece aos pés descalços. E cada pegada, um instante calcada no solo, fórma, bem depressa, uma pequena poça que reflecte na sua superficie, sobrepondo-os, o verde claro da vegetação das dunas e o rosado suavissimo das nuvens, tocadas de sol.
Uma distancia insignificante separa-o já do vulto que tão lugubremente o attrae. E o desgraçado reconhece logo o cadaver do filho.
Mais alguns passos vacillantes e Antonio cae a soluçar sobre o corpo da creança afogada. E o seu pranto, as lamentações que profere, têm menos a expressão de um desespero, do que da confissão da propria impotencia, na lucta inutil de represalias que havia travado com o oceano.
UM EXGOTTADO