Contos Fantásticos
Capítulo II
Desde o romper d'alva, que os sinos da Cathedral eccoavam clangorosos n'um dobre funerario; o povo agitava-se inquieto pelas ruas, como na impaciencia de uma grande festa. Era o dia de um Auto de Fé em Hespanha, uma solemnidade extraordinaria, com que se celebrava e honrava a coroação dos reis, o nascimento do herdeiro presumptivo, e a sua maioridade; era o grande drama judiciario da velha jurisprudencia theocratica revestido dos horrores do symbolo, mesclado de sangue derramado pelo fanatismo e prepotencia monachal. A procissão vinha coleando ao longe, com uma gravidade funebre, misturada de risos do rapazio que tudo parodía. Por todas as janellas negrejavam cabeças, donzellas engraçadas, contentes, distraidas com a festividade apparatosa. Á frente das confrarias e irmandades, os carvoeiros traziam a lenha para a fogueira, imitando o passo da Escriptura, em que Isaac caminhava{112} para a montanha do sacrificio. Seguiam-se em filas extensas os frades dominicanos, arvorada na frente a cruz branca, e o bolsão inquisitorial de damasco vermelho do duque de Medina Celli. Os penitenciados vinham vestidos de um modo irrisorio e grotesco, descalços, cobertos de um sambenito, com um chapeu afunilado, com figuras cabalisticas, diabos, labaredas e caveiras pintadas.
A multidão pavida e credula, sentia aquella grande contradição do coração humano, apupava os miseraveis que interiormente a commoviam e lhe arrancavam lagrimas de compaixão. Chegados proximo do estrado real, o Inquisidor geral veiu receber o juramento da extirpação das heresias. Os brandões crepitavam nas mãos dos condemnados; tornavam mais lugubre o momento. Depois viu-se levantar uma figura macilenta, a cabeça encoberta no capuz, cruzadas as mãos sobre o peito em que tinha repousado um crucifixo, o mesmo que um dia apresentára diante dos reis catholicos Fernando e Izabel, dizendo-lhes que—o vendessem por trinta dinheiros, já que se queriam tornar menos rigorosos contra os judeus. Era o prégador frei Pedro. A voz taurina fazia estremecer as turbas, representando-lhes ao vivo, nos esgares e visagens que fazia, os terrores das penas do inferno. A multidão estava suspensa ante as vociferações sangrentas do dominicano.
—Sabes... (disse um desconhecido para um cavalleiro ainda novo, que estava attento) não o conheces?{113}
O outro respondeu-lhe em voz baixa, de um modo quasi imperceptivel:
—Ah, és tu, Diego Ortis? Bem o conheço pela fama de seu nome. É Pedro de Arbués.
E não te sentes possuido de raiva ao pronunciar esse nome de um hypocrita e assassino?
—Assassino?
—Sim! Bem o devêras saber, porque é a ti a quem compete a vingança. Elle pretendeu por todos os meios desposar Hernanda, tua irmã. Lembras-te? Era rico, e teu pae desejava com todas as veras d'alma este enlace. A infeliz menina resistiu sempre, até que se viu obrigada a professar em um mosteiro, abandonada da familia. Não é verdade isto? Ferido no orgulho, elle metteu-se a padre, disfarçou-se debaixo da cugula monastica e fez-se seu Director espiritual. Matou-a lentamente com jejuns e macerações, com a lembrança continua da tentação e da condemnação eterna. Pobre Hernanda! o mundo disse que morrera como uma santa; Deus sabe que desesperos profundos lhe abalaram a vida, e quantas vezes, no intimo da alma oppressa, não amaldiçoou a hora do seu nascimento!
—E como sabes isso?
—Como o sei? Eu digo-te só que a vingança não dorme. Tambem tenho um legado de sangue a cumprir. Era meu irmão o apaixonado, o eleito de Hernanda. Se ha nada mais santo do que um amor que nos acompanha desde a infancia. Alonso Ortis, doestado pelo rival audacioso, bateu-se{114} generosamente e caiu ferido, morto á traição. Já comprehendes tudo.
—Inferno! Para que me disseste essas cousas aqui, entre esta gente? Sinto a convulsão da raiva que prostra, a sêde de sangue que me atira para elle. Hernanda! a desgraçada, a silenciosa, a timida, que tudo soffreu e nunca soube queixar-se! Eu quero trocar todas as tuas dores por um prazer egoista de vingança. Fala-me, Diego Ortis; o que queres de mim?
—Quero prudencia! Eu tenho esperado dia e noite, por toda a parte, e nunca o tenho encontrado! nunca esta mão deixou de repousar sobre o punhal, e ainda me parece que não é chegado o momento.
A este tempo o frade estava na peroração do discurso; a turba batia nas faces, consternada, por terra. Os dois vultos permaneciam de pé, insensiveis. O prégador desceu do pulpito e vinha acercando-se d'elles com um olhar ameaçador, para reprehendel-os da insólita irreverencia. O joven fidalgo precipitou os planos de vingança, e arremetteu com um punhal no ár: apesar do impeto com que foi brandido resvalou sobre o habito que encobria debaixo uma armadura cerrada.
Ergueu-se um susurro repentino. Era impossivel a salvação; com a ancia do desespero Diego Ortis descarregou-lhe promptamente sobre o craneo tonsurado a sua espada de cavalleiro. O povo alarmou-se e ia a precipitar-se sobre os facinoras;{115} recuou de horror diante da impassibilidade dos dois. A estatura corpulenta do padre tomou as proporções de um Goliath, derrubado, banhado de sangue negro, a massa encephalica derramando-se pelas soturas fracturadas do craneo. Fazia horror.