Contos Fantásticos

Teófilo Braga · Capítulo 30 de 38

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Contos Fantásticos

Capítulo III

 

Apezar da impertinencia de rachytico e da estupidez vinculada na sua descendencia, o conde tratava perfeitamente sua mulher. A causa d'este respeito provinha da desegualdade, da força de intelligencia, da graça com que ella se tornava interessante{179} para todos. Admiravam-n'a, e esta veneração reflectia-se um pouco sobre o marido. O conde sentia que sua mulher lhe dava a importancia que não tinha por si, e respeitava-a tambem.

A alegria com que ella andava! Sentia-se mãe, tinha vontade de amar. Dera-lhe Deus um filho, uma alma para o seu amor. Parecia-lhe que ao beijal-o, ao tel-o sobre os joelhos, se esquecia de tudo, de um passado feliz, de uma união forçada, do vasio da existencia, mesmo d'aquella noite ligeira, em que contemplou as ruinas que fizera, e que lhe deixou recordações pungentes, infinitas. Depois, a lembrança do passado amor, o primeiro, o puro, o intimo, vinha unir-se a esta idéa risonha de ser mãe, que a fazia esquecer-se de tudo! Pobre mãe! O conde preoccupava-se apenas com a existencia de um herdeiro. Era o que bastava. Almas vis que destroem o que ha de mais santo na vida pelo interesse mercenario! Doente, no seu amor a mãe sentia-se cada vez mais compassiva; lembrava-lhe a rosa que lhe tinha caido do cabello, o cavalleiro que lhe fizera a despedida para o sepulchro, e esta saudade começou vagarosamente a influir, a exercer uma acção mysteriosa sobre o feto. Não é estranho este phenomeno maravilhoso em physiologia. O segredo da callipedia das mães gregas consistia em contemplar estatuas admiraveis cuja belleza se reflectia depois nos filhos.