Contos Fluminenses
Capítulo VI
— Não é crime o suicídio? De que me serviria a vida sem o seu amor? Vamos, fale!
A moça olhou para ele durante alguns instantes sem dizer palavra.
O rapaz ajoelhou-se.
— Ou seja a morte, ou seja a felicidade, disse ele, quero recebê-la de joelhos.
Adelaide sorriu e soltou lentamente estas palavras:
— Trezentos contos! É muito dinheiro para comprar um miserável.
E deu-lhe as costas.
Soares ficou petrificado. Durante alguns minutos conservou-se na mesma posição, com os olhos fitos na moça que se afastava lentamente. O rapaz dobrava-se ao peso da humilhação. Não previra tão cruel desforra da parte de Adelaide. Nem uma palavra de ódio, nem um indício de raiva; apenas um calmo desdém, um desprezo tranqüilo e soberano. Soares sofrera muito quando perdeu a fortuna; mas agora que o seu orgulho foi humilhado, a sua dor foi infinitamente maior.
Pobre rapaz!
A moça foi para dentro. Parece que contava com aquela cena; porque entrando em casa, foi logo procurar o tio, e declarou-lhe que, apesar de quanto venerava a memória do pai, não podia obedecer-lhe, e desistia do casamento.
— Mas não o amas tu? perguntou-lhe o major.
— Amei-o.
— Amas a outro?
— Não.
— Então explica-te.
Adelaide expôs francamente o procedimento de Soares desde que ali entrara, a mudança que fizera, a sua ambição, a cena do jardim. O major ouviu atentamente a moça, procurou desculpar o sobrinho, mas no fundo ele acreditava que Soares era um mau caráter.
Este, depois que pôde refrear a sua cólera, entrou em casa e foi despedir-se do tio até o dia seguinte.
Pretextou que tinha um negócio urgente.
CAPÍTULO VI
Adelaide contou miudamente ao amigo de seu pai os sucessos que a obrigavam a não preencher a condição da carta póstuma confiada a Anselmo. Em conseqüência desta recusa, a fortuna devia ficar com Anselmo; a moça contentava-se com o que tinha.
Não se deu Anselmo por vencido, e antes de aceitar a recusa foi ver se sondava o espírito de Luís Soares.
Quando o sobrinho do major viu entrar por casa o fazendeiro suspeitou que alguma coisa houvesse a respeito do casamento. Anselmo era perspicaz; de modo que, apesar da aparência de vítima com que Soares lhe aparecera, compreendeu ele que Adelaide tinha razão.
Assim pois tudo estava acabado. Anselmo dispôs-se a partir para a Bahia, e assim o declarou à família do major.
Nas vésperas de partir achavam-se todos juntos na sala de visitas, quando Anselmo soltou estas palavras:
— Major, está ficando melhor e forte; eu creio que uma viagem à Europa lhe fará bem. Esta moça também gostará de ver a Europa, e creio que a Sra. D. Antônia, apesar da idade, lá quererá ir. Pela minha parte sacrifico a Bahia e vou também. Aprovam o conselho?
— Homem, disse o major, é preciso pensar…
— Qual pensar! Se pensarem não embarcarão. Que diz a menina?
— Eu obedeço ao tio, respondeu Adelaide.
— Além de que, disse Anselmo, agora que D. Adelaide está de posse de uma grande fortuna, há de querer apreciar o que há de bonito nos países estrangeiros a fim de poder melhor avaliar o que há no nosso…
— Sim, disse o major; mas você fala de grande fortuna…
— Trezentos contos.
— São seus.
— Meus! Então sou algum ratoneiro? Que me importa a mim a fantasia de um generoso amigo? O dinheiro é desta menina, sua legítima herdeira, e não meu, que aliás tenho bastante.
— Isso é bonito, Anselmo!
— Mas o que não seria se não fosse isto?
A viagem à Europa ficou assentada.
Luís Soares ouviu a conversa toda sem dizer palavra; mas a idéia de que talvez pudesse ir com o tio sorriu-lhe ao espírito. No dia seguinte teve um desengano cruel. Disse-lhe o major que, antes de partir, o deixaria recomendado ao ministro.
Soares procurou ainda ver se alcançava seguir com a família. Era simples cobiça na fortuna do tio, desejo de ver novas terras, ou impulso de vingança contra a prima? Era tudo isso, talvez.
À última hora foi-se a derradeira esperança. A família partiu sem ele.
Abandonado, pobre, tendo por única perspectiva o trabalho diário, sem esperanças no futuro, e além do mais, humilhado e ferido em seu amor-próprio, Soares tomou a triste resolução dos covardes.
Um dia de noite o criado ouviu no quarto dele um tiro; correu, achou um cadáver.
Pires soube na rua da notícia, e correu à casa de Vitória, que encontrou no toucador.
— Sabes de uma coisa? perguntou ele.
— Não. Que é?
— O Soares matou-se.
— Quando?
— Neste momento.
— Coitado! É sério?
— É sério. Vais sair?
— Vou ao Alcazar.
— Canta-se hoje Barbe-Bleue, não é?
— É.
— Pois eu também vou.
E entrou a cantarolar a canção de Barbe-Bleue.
Luís Soares não teve outra oração fúnebre dos seus amigos mais íntimos.